PoV 2004

3 Capítulo III


— Marcela? Marcela?


Escuto alguém me chamar desesperadamente. É Caio, meu namorado que me olha de um jeito como se eu fosse uma doida qualquer.


— Amor, o que foi que aconteceu? Eu tô te chamando há um tempão e você tá viajando aí parada olhando pro nada.


— Me desculpa, eu ‘tava mesmo. Só pensando em algumas coisas. O que você ‘tava falando mesmo?


— Não foi nada de tão importante. Mas agora fiquei preocupado. Você está bem? Desde ontem à noite você tá meio esquisita, meio pan das ideias. Sumiu por um tempão, não respondeu às minhas mensagens. Tem certeza que não devo me preocupar mesmo? Tipo, não tem alguém no meio da gente, não é?


— O quê? Alguém entre a gente? Eu não tô acreditando no que tô ouvindo. Você seria mesmo capaz de pensar uma coisa dessas de mim?


— Foi mal. Foi impulso. Mas, e aí? Eu só quero saber o que tá acontecendo. Se tá acontecendo alguma coisa. Ontem à noite nós tínhamos combinado que a gente ia comemorar que finalmente você conseguiu começar a escrita do seu livro depois de anos de tentativa e ‘Plim’, você simplesmente some. Como você queria que eu ficasse? Você é sempre tão pontual. Sabe que eu me preocupo com você.



O silêncio quase profundo se instala, senão fosse por um palhaço que passa buzinando por perto. Me aproximo da proteção do viaduto pra observar a Avenida vinte e três de maio e logo me lembro e faço comparação à calmaria da rua Sampa, onde estive na noite passada. Eu não sei como ela está hoje. Nunca tive coragem de voltar lá. Minha família se mudou daquele bairro logo depois que eu nasci. Essa experiência de voltar no tempo me deixou confusa e perplexa. Foram apenas o quê? Umas duas ou três horas que eu estive lá, talvez? Na verdade eu nem sei, mas o tempo foi suficiente pra que eu reconfigurar minha visão de mundo. Essa oportunidade me fez questionar e me fez tornar muito reflexiva sobre muitas coisas.



— Ei, ei, ei. O que você tá fazendo? Por que tá chegando tão perto da grade? — Caio pergunta com uma expressão assustada logo se aproximando.



Eu sorrio com a atitude exagerada dele e em seguida lhe dou um abraço. Mas a pergunta não sai da minha cabeça.



— O que você estava fazendo em 2004? — perguntou ela, virando o rosto para encará-lo.


Ele soltou uma curta risada de surpresa, sem tirar os olhos da avenida.


— Caramba, 2004? De onde veio isso? Deixa eu pensar... Eu tinha o quê? Uns seis, sete anos?


— Seis — corrijo sem pensar, lembrando-se da idade dele na época — O que você lembra daquela época? De como as coisas eram?


— Ah, sei lá... Lembro que eu era viciado em jogar Counter-Strike nas lan houses depois da aula. Gastava meu dinheiro da merenda todo em hora de computador. Meu pai ficava louco da vida porque a linha telefônica ficava ocupada de madrugada se eu tentasse conectar a internet discada em casa — Caio balança a cabeça com uma nostalgia leve — Lembro do barulho daquele modem... Dial-up era um pesadelo, mas na época a gente achava a coisa mais incrível do mundo. Por que a pergunta?


— É que... eu fiquei reparando nas coisas essa noite. Sabe, a gente costuma achar que tudo mudou pra melhor, né? As telas 4K, os carros silenciosos, as informações caindo no colo em meio segundo. Mas você não acha que a gente perdeu alguma coisa no caminho?



Caio se posiciona na minha frente passando a mão pelos meus cabelos me olhando fixamente.



— Como assim, "perdeu"?


— A calma, talvez? O senso. Em 2004, quando dava domingo à noite, as pessoas sentavam no sofá para assistir ao Fantástico. A família inteira via a mesma reportagem, no mesmo ritmo. Se você quisesse saber de um crime ou de uma notícia, tinha que esperar o jornal. Ninguém ficava checando dez aplicativos ao mesmo tempo, nem medindo a vida pelo GPS. Tinha um calor diferente nas coisas... as casas tinham cheiro de café passado, rádio ligado, sofás de corino...

Caio franziu a testa de leve, soltando um riso curioso.


— Nossa, você fala como se tivesse vivido a idade adulta nos anos 2000! Você era uma garotinha! Em 2004 você não tinha nem nascido ainda. De onde você tirou esse papo de 'sofá de corino' e 'jornal da noite'?


Meu coração deu um salto no peito. As lembranças da noite passada ainda estão bem vivas na minha mente. Todas as lembranças por ter voltado no tempo. É como se eu ainda estivesse lá.


— Eu... eu não sei. Só… por um momento eu tive esse pico de nostalgia querendo me fazer voltar naquele tempo. As coisas pareciam tão bem mais fáceis. Você não acha? — digo sem esperar uma resposta de Caio. Fico pensando em como a vida naquela época parecia mais simples do que a nossa. Só que mais divertida.


Encontrar aquele portal não parece ter sido uma coisa aleatória, como se surgisse do nada. Foi a minha escapatória pra poder fugir de certas coisas dessa época que tanto me incomoda. É como se tivesse aberto também uma certa esperança pra viver daqui pra frente.


— Ah, entendi. É, essa geração mais antiga sofreu bastante com essa transição toda. Pra eles, o mundo de hoje deve parecer uma tempestade que nunca para. Mas sei lá, amor... 2004 não era nenhum paraíso. A gente não tinha a facilidade de achar alguém perdido na chuva com dois toques no celular, por exemplo. Eu teria enlouquecido hoje se não tivesse como te ligar.


— É... você tem razão — murmuro.


— Anda, vamos pra casa. Pensar em coisas como essa não faz bem. Não adianta nada você ficar pensando no passado. O que ficou naquela época ficou lá. Devemos seguir sempre em frente porque o tempo não para, não é?


“Gostaria de que tivesse parado em um tempo”. Penso comigo, apenas esboçando um sorriso pra Caio. Ele não gosta de reviver situações e ficar pensando em coisas que já aconteceram. Sejam elas boas e ruins. Ele diz que devemos aproveitar o aqui e agora e que pensar em certas coisas não fazem bem pra gente.


Mas ele não entenderia se eu contasse o que realmente aconteceu. Ele iria achar que estou louca e ia me dar algum daqueles remédios fortes pra acalmar.


— Vamos. Deixa de conversa maluca e vamos pra casa. A gente precisa ir pra casa. Será que dá certo a gente adiar a nossa comemoração de ontem pra hoje? — ele pergunta.


E mais uma vez eu nada respondo. Só balanço a cabeça em sinal afirmativo e ele já cata a minha resposta me devolvendo um sorriso. Ele segura forte no meu braço me acolhendo como minha mãe fazia quando eu era pequena. Eu olho uma última vez pra avenida lá embaixo e vou caminhando enquanto imagino qual seria o final daquela rodovia.