Pluto Will Always Be A Planet In My Room
16 Chapter 17 — Collision
Algumas colisões não fazem barulho.
Elas acontecem em silêncio — no espaço entre uma mensagem não respondida e uma verdade que demora a ser dita.
Londres estava cinza quando eu o vi novamente.
Charlie.
Do outro lado da rua, parado em frente a uma livraria antiga, segurando dois cafés como se o tempo tivesse congelado exatamente ali. Por um segundo, eu pensei que fosse imaginação. Uma projeção da minha saudade.
Mas ele sorriu.
E eu soube.
— Você disse que viria mês que vem — foi a primeira coisa que consegui falar quando ele atravessou a rua.
— Eu disse que tentaria — respondeu, entregando um dos cafés. — Eu consegui.
Meu coração reagiu antes da minha razão.
Porque parte de mim ainda orbitava ele.
Mas minha vida em Londres já não era a mesma que deixei em Nova York.
Theo apareceu na minha vida três semanas depois que cheguei.
Ele não foi planejado. Não foi dramático. Não foi uma explosão.
Foi leve.
Trabalhava na editora parceira da minha. Britânico, paciente, o tipo de pessoa que ouve mais do que fala. Ele me acompanhava nas pausas para almoço, discutia manuscritos comigo como se fossem mapas do mundo, e nunca tentou competir com meu passado.
Eu nunca prometi nada.
Mas também nunca expliquei tudo.
E agora Charlie estava ali.
Real.
Presente.
Perigoso.
— Você contou pra ele? — Charlie perguntou enquanto caminhávamos às margens do Tâmisa.
Eu parei.
— Não é tão simples.
Ele riu sem humor.
— Nunca é.
— Ele não é “ele”, Charlie. Ele tem nome.
— Então diz.
Eu hesitei.
— Theo.
Charlie assentiu, como se memorizasse o inimigo invisível.
— Você gosta dele?
Eu poderia mentir.
Mas mentiras sempre foram o começo do fim para nós.
— Eu gosto do que eu sou quando estou com ele.
Aquilo pareceu doer mais do que qualquer outra resposta.
Theo me esperava no meu apartamento quando voltei.
— Você sumiu a tarde inteira — ele disse, calmo demais.
— Eu estava… resolvendo uma coisa.
Ele me observou por alguns segundos.
— Ele veio.
Não era pergunta.
Eu fechei a porta devagar.
— Veio.
Theo passou a mão pelo rosto, respirando fundo.
— E você foi encontrá-lo.
— Eu precisava.
— Precisava ou quis?
A diferença era cruel.
— Não é sobre escolher entre vocês — eu disse, sentindo a tensão crescer. — É sobre entender o que eu sinto.
Ele deu um passo para trás.
— Riley, eu nunca pedi que você esquecesse seu passado. Mas eu não posso competir com um fantasma que ainda respira.
— Ele não é um fantasma.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Então ele ainda é uma possibilidade? — Theo perguntou.
Eu não respondi imediatamente.
E esse foi o erro.
Charlie apareceu naquela noite novamente.
Eu deveria ter dito para ele não vir.
Mas eu não disse.
Theo abriu a porta antes que eu pudesse chegar.
Os dois se olharam com a calma artificial de homens tentando parecer maduros.
— Você deve ser Theo — Charlie disse, estendendo a mão.
Theo apertou, firme.
— E você deve ser o passado.
Eu fechei os olhos por um segundo.
Colisão.
— Eu não vim causar problema — Charlie falou, olhando para mim. — Eu só precisava ouvir dela.
— Ouvir o quê? — Theo perguntou.
Charlie não desviou os olhos dos meus.
— Se ainda existe algo entre nós.
O ar ficou rarefeito.
Theo riu, incrédulo.
— Você atravessou um oceano para perguntar isso?
— Eu atravessaria dois.
E ali estava o perigo de Charlie.
Ele sempre foi intensidade.
Sempre foi promessa de universo.
Theo virou-se para mim.
— Eu preciso saber se estou construindo algo com alguém que está inteira aqui.
Eu queria dizer que sim.
Queria dizer que o passado não tinha mais força.
Mas meu coração batia descompassado, dividido entre segurança e tempestade.
— Eu não sei — eu disse, finalmente.
Theo assentiu devagar.
— Então você precisa descobrir. Mas não comigo esperando enquanto você decide.
Ele pegou o casaco.
— Theo, espera—
— Não. — Ele parou na porta. — Eu gosto de você, Riley. Mas eu não vou ser a escolha segura enquanto você ainda quer a escolha impossível.
A porta fechou com um som baixo.
Mas dentro de mim foi explosão.
Charlie permaneceu ali, parado.
— Eu não queria que isso acontecesse assim.
— Mas aconteceu — respondi, sentindo a culpa pesar.
Ele se aproximou, cauteloso.
— Eu só precisava saber se ainda significo algo.
Eu ri, amarga.
— Você sempre significa algo. Esse é o problema.
Ele tocou meu rosto.
— Eu não quero ser o problema.
— Então o que você quer ser?
Charlie demorou.
— A escolha.
A palavra ecoou.
Eu olhei pela janela. Londres continuava indiferente às minhas decisões, como Nova York sempre foi.
Talvez o amor não fosse uma órbita estável.
Talvez fosse colisão.
E talvez eu estivesse cansada de fingir que poderia manter dois mundos girando ao mesmo tempo.
Eu respirei fundo.
— Eu preciso de tempo.
Charlie assentiu.
— Eu espero.
Mas eu sabia.
Nem todos esperam para sempre.
E nem toda colisão deixa algo intacto depois.
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