Eu sempre achei que Plutão foi injustiçado.

Pequeno demais para ser planeta. Distante demais para importar. Frio demais para ser habitável.

E ainda assim… ele continuava orbitando.

De manhã, Nova York parecia mais silenciosa do que deveria. A luz atravessava as cortinas do meu apartamento e caía sobre o peito de Charlie, ainda adormecido ao meu lado. O mundo lá fora seguia igual — buzinas, passos apressados, o cheiro de café vindo da rua — mas algo em mim tinha mudado.

Ou talvez tivesse voltado para o lugar.

Eu me sentei devagar na cama, puxando o lençol até o queixo. Observei o contorno do rosto dele, mais maduro do que nas lembranças do ensino médio. Havia menos impulsividade ali. Mais certeza. Mais tempo vivido.

Ele abriu os olhos como se soubesse que eu o encarava.

— Você vai fugir antes que eu acorde oficialmente? — a voz dele saiu rouca, mas com aquele meio sorriso que sempre desmontava minhas defesas.

— Eu estava contemplando minha crise existencial matinal — respondi.

Ele riu, apoiando o cotovelo no travesseiro.

— Isso é bom ou ruim para mim?

Eu não sabia responder.

Porque amar alguém nunca foi o problema. O problema sempre foi o timing.

Mais tarde, estávamos andando pela rua, dividindo um café como se fôssemos dois adolescentes de novo. Só que não éramos.

— Eu não vim só para a formatura — Charlie disse, finalmente. — Eu vim porque cansei de fingir que você era só uma memória bonita.

Eu parei de andar.

Nova York continuava se movendo ao nosso redor, indiferente ao meu coração batendo como se estivesse tentando escapar do peito.

— E o que eu sou agora? — perguntei.

Ele respirou fundo.

— Eu quero que você seja meu futuro. Mas… eu sei que você tem o seu próprio.

Ali estava. A encruzilhada que eu fingia não ver.

— Eu recebi uma proposta — falei, antes que perdesse a coragem. — Uma editora pequena, mas promissora. Eles querem que eu fique. Tempo integral.

Ele não hesitou.

— Então você fica.

— E você?

Charlie desviou o olhar por um segundo.

— Eu posso tentar transferência. Posso me mudar. Posso… dar um jeito.

Eu conhecia aquele tom. Ele estava disposto a fazer qualquer coisa por mim.

E isso me assustava.

À noite, encontrei Lucas e Maya em um bar pequeno perto do campus. Luzes amareladas, música baixa, o tipo de lugar onde decisões parecem mais fáceis do que realmente são.

Lucas me abraçou forte.

— Então, você e o príncipe de buquê gigante — ele provocou.

Maya sorriu.

— Você parece diferente. Mais leve.

— Ou mais confusa — eu admiti.

Contei sobre a proposta. Sobre Charlie querer se adaptar à minha vida. Sobre o medo de que, de alguma forma, eu estivesse puxando alguém para a órbita errada.

Lucas ficou sério.

— Riley, amar alguém não significa encolher seu universo para caber no dele.

Maya completou:

— E também não significa apagar o próprio brilho para manter alguém por perto.

Eu fiquei em silêncio.

Porque talvez o que mais me assustasse não fosse perder Charlie.

Talvez fosse me perder.

Quando voltei para o apartamento, Charlie estava sentado no sofá, olhando a cidade pela janela.

— Eu estava pensando — ele começou.

Meu coração apertou.

— Isso geralmente é perigoso.

Ele sorriu de leve.

— Se você ficar aqui… eu não quero que seja porque eu pedi. Quero que seja porque você escolheu. E se eu for com você… não pode ser por medo de te perder.

Eu me aproximei.

— E se a gente tentar sem promessas gigantes? Sem sacrificar quem somos?

Ele segurou minha mão.

— Então a gente tenta. Como adultos dessa vez.

Nova York brilhava lá fora, enorme e imprevisível.

Eu não sabia se Charlie e eu éramos destino ou só uma constelação temporária.

Mas pela primeira vez, eu não sentia que precisava escolher entre amor e futuro.

Talvez alguns corpos celestes não precisem ser planetas oficiais para importar.

Talvez alguns amores não precisem ser perfeitos para serem reais.

E talvez — só talvez — eu estivesse pronta para orbitar sem deixar de ser meu próprio universo.