Plurais
2 II - Tic, tac, tac, tac.
Notas iniciais
Os dedos no teclado faziam tic, tac, tac, tac. Como os ponteiros de um relógio. Joice estava com a cabeça encostada na parte livre da mesa do computador. Ao lado de Marina.
Uma causa perdida. As unhas bem decoradas de Mari lhe informavam a sua falta de tempo livre. Ela sempre tinha de se mostrar bem aparada, disposta, simpática, linda. Como umas das melhores funcionárias e mulheres nessa área, a boa imagem lhe era solicitada, e para Mari era comum, pois era o que geralmente lhe era cobrado desde pequena.
E, felizmente, ela raramente se deixava afetar pelas pressões que chegavam a aparecer.
Mas, também, apesar de tudo, Marina era humana. E era por isso que Joice estava ali refém de um possível tédio. Contudo, a moça não tinha muito do que reclamar nesse quesito, porque a proatividade e encanto que Marina realizava seu trabalho lhe enchia de uma motivação também, de forma a querer fazer o seu melhor.
A amiga lhe dava uma razão a mais para enfrentar a luz do dia.
O tédio era como uma sombra imperceptível. Mas, como sabia, demais era demais e Joice viu que já era tempo. Disse, cobrindo os olhos da outra com as mãos, as horas que brilhavam na tela do celular.
— Oh... já está tão tarde assim? — Marina disse surpresa ao ela mesma ver o horário no computador.
— Sim, e você disse que ia assistir a série comigo agora, não é mesmo?
— Uhum. Umzinho... — Marina disse esfregando um dos olhos, e abraçando Joice de onde estava, esfregando a cabeça de um lado para o outro como se abraçasse Jujuba, seu ursinho de pelúcia.
Não demorou muito para que Joice estivesse vendo a série sozinha. Com o canto do olho viu Marina com os olhos fechados, o peso dela apoiado em seu ombro.
Pensou se deveria acordá-la ou não. Para dormir era sempre melhor, em sua cabeça, uma cama quentinha. Mas provavelmente quando acordasse Marina, ou mesmo a mexesse, seria o suficiente para dificultar o sono dela, que era facilmente despertável. Então se retraiu.
Como alguém conseguia dormir daquela maneira? Foi o que Joice se pegou pensando enquanto assistia mais um episódio.
Quando piscou os olhos, viu que estava acordando, e que estava com o rosto apoiado no colo de Marina. Mari, em especial, parecia ocupada mexendo em seu celular.
Joice se mexeu de forma que seu rosto ficasse na direção no da outra, para ver se era percebida. Como imaginava, não foi, então ficou vendo os dedos da outra se mexendo, respondendo mensagens do trabalho, desconfiava.
Não ficou sabendo exatamente quanto tempo estiveram daquele jeito, mas teve um momento que não conseguiu segurar sua vontade e cutucou uma das bochechas de Marina com uma das mãos.
Ela parece se sobressaltar. Olhando imediatamente para a causadora de sua surpresa, disse:
— Há quanto tempo está acordada?
— Há pouco tempo — Joice mentiu — e você?
—... também!
Provavelmente três horas atrás ou mais.
— E você está aqui comigo?
—... eu consegui a manhã livre, finalmente conseguiram uma nova funcionária para dividir o trabalho comigo! — Marina falou contente, depois disse com um sorriso divertido — e... Queria que eu te deixasse sozinha?
Não era uma pergunta que precisava de resposta.
— Ahh, mas você vai estar ocupada de tarde. O que a gente faz nesse tempo que a gente tem? — Joice disse se sentando no sofá, e tentando arrumar os cabelos com as mãos.
— Hum... a gente poderia adiantar aquela história colaborativa que estávamos fazendo. — Marina disse com um dedo indicador nos lábios.
— Até no lazer você quer trabalhar, não é? — Joice disse rindo um pouco resignada.
— Isso é diferente! Não é sempre que você pode ser minha parceira.
Marina disse aquilo sem perceber alguns equívocos de sua observação. Mas Joice não diria nada para ela ainda, deixaria ela perceber sozinha. Marina que, não fosse algo relacionado ao trabalho, sempre demorava a perceber.
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