Plurais
3 III - Palavra ferida e agradecimentos.
Notas iniciais
É difícil não ser levado a sério. Ser mal-entendido dói. Cogitar resultados que não aconteceram, se desgasta quando se acumula tempo demais neles. Eu ficava cansado dessas acusações sem fundamentos.
Você me deixava feliz, mas não nos conhecíamos bem. Talvez tivesse sido cedo demais, ou não consegui me explicar o suficiente naquele curto período de tempo até você fazer suas primeiras conclusões mentais a respeito disso.
Ou apenas não era para ser. Se não nos entendíamos nesse ponto, imagina quando soubesse o quanto eu choro com facilidade, resmungo quando estou de mau humor, não consigo sorrir o tempo todo.
Que eu só gosto de ir no cinema nos últimos dias de exibição de um filme para que não tenha quase ninguém. Que eu tenho pressa, que não gosto de multidões.
Que, apesar de tudo, não quero uma vida monótona, quero sair viajando, conhecendo lugares, histórias. Talvez você até dissesse:
“Até que isso combina com você, porque do jeito que vocês são...”
“Não consegue se contentar com o que podem ter.” disse um colega, completando em minha mente, que eu rejeitei há muito tempo.
Aparentemente era esse o motivo, para tudo e tudo. Meus hobbies, gostos. Às vezes até eu mesmo começava a duvidar.
Como se uma coisa tivesse a ver com a outra a ponto de não poderem ser separadas.
Quero viajar para muitos lugares, com pouca gente, muita natureza.
Provavelmente por lá e cá, mal-entendido. Por isso era melhor não confiar. Não iria dizer mais. Não iria. E se eles tivessem de saber... melhor não pensar.
Em vez de mal acompanhado, melhor ficar sozinho.
Sinto uma lágrima escorrer, ou duas, daqui a pouco é como se estivesse chovendo em mim, tento limpar os meus olhos. Quero distrair a cabeça.
Estou sentando em um banco de praça e é vergonhoso admitir para mim mesmo. Não seria daquela vez que alguém olharia para mim além daquela palavra que eu adotei para mim mesmo, uma palavra que eu preciso para que me vejam, compreendam, mas que não é a resposta completa, é apenas uma parte dela.
Essa palavra é a que me define, mas está ferida. Queria que alguém pudesse me abraçar, como eu abraçava essa palavra naquele momento. Sangrando. Apesar de tudo, eu prosseguia, já que ela faz parte de mim, mesmo que não fosse tudo.
Mas não será hoje que me olharão nos olhos. Desconfiança.
Hoje eu só tenho que lidar com uma tristeza particular. Por quanto tempo eu fiquei olhando para cima sem ver, perdido em imagens que passavam variadas e sem conexão na cabeça, foi um mistério para mim. Quando vi estava chovendo mesmo. Meus olhos tinham sido lavados pela chuva, assim como meu corpo. Não sabia se ficava aliviado ou não.
Mais uma vez eu me escondia no cenário. A chuva ocultando aquele desconforto que eu sentia. Tenho que respirar.
Queria que o dia seguinte viesse logo.
*
Não quero levantar. Não duvido que a esse ponto você já tenha contado a todos os seus conhecidos sobre isso. Porque era da conta de todo mundo, porque era de interesse de todos, saber da existência do “traidor em potencial”.
Suspiro. Recebo uma ligação de minha mãe antes que eu saísse, perguntando como eu estou. Eu acabo por desviar do assunto mais uma vez.
Até que vejo um e-mail curioso. “Eu sinto muito”, mas não é de ninguém próximo. Poderia ser um engano. Saio.
Poderia ser um engano, mas depois de todo o trabalho do dia, em que eu considerei seriamente se não deveria procurar um novo emprego, ela me procurou um tanto agitada.
E segurou minha mão.
“Ah, não” pensei, provavelmente estava sonhando naquele momento.
Mas não era sonho, bem como também não era um engano.
Eu até me sentiria na vontade de agradecer a você, no fim das contas, tempos depois, porque naquele momento você acabou por ser a razão de eu conhecer uma das minhas melhores amigas.
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