Please, Don't Eat Me

5 5. A Primeira Vitima


GABE

A multidão de alunos e convidados corriam para todos os lados, os gritos de horror, alunos chorando enquanto ligavam para os pais, o barulho das sirenes de policia e ambulância. Gabe correu por entre a multidão, o medo de saber quem havia sido baleado apertava-lhe o peito, ele sabia que a vitima estava na frente, pois eram de onde todos corriam, algumas garotas estavam curvadas sobre lixeiras vomitando, enquanto outras choravam sentadas em alguma cadeira ou até mesmo no chão nos cantos do salão.

— Saiam da minha frente. – Gabe empurrava. – Eu preciso passar, saiam da minha frente. – Gabe abriu espaço entre o tumulto e conseguiu chegar à frente do palco.

Ele ficou parado olhando a cena, suas mãos tremeram, seu rosto esquentou e lágrimas tentaram escapar de seus olhos, mas com dificuldades, Gabe conseguiu segura-las. – Isso não...

Gabe observou a cena, Alex ainda estava de pé, sangue cobria-lhe o rosto, sua camisa branca também estava suja, sua expressão paralisada olhando para Gabi que estava caída, seu corpo jogado de lado como se fosse uma boneca de trapos, seus olhos vidrados encarando o vazio, sangue escorria de seu nariz e pelo canto de sua boca, uma pequena abertura detalhava-se em sua testa, abertura essa onde a bala estava alojada.

Gabe ficou ali parado, ele não sabia o que poderia fazer para ajudar, ou até mesmo se poderia ajudar. Alex não se movia, ele encarava a amiga, seus olhos assustados, suas mãos tremendo enquanto lágrimas caiam lentamente de seus olhos.

— Ale...

Os policiais e paramédicos empurraram Gabe de lado e fizeram um cordão humano para que todos se afastassem para que os paramédicos começassem a trabalhar, um deles foi até onde o Alex e segurou o seu braço, ele continuava encarando o corpo da Gabi.

A noite havia se tornado um caos por completo, Gabe se afastou da confusão assim que os paramédicos chegaram para cuidar do corpo e do Alex que estava em estado de choque, pelo menos foi o que ele ouvira antes de sair da cena do crime.

Gabe se sentou em uma cadeira de plástico de ficou de longe encarando de longe todo o trabalho da policia, a pior parte para ele, foi ver que colocaram Alex parado próximo ao corpo e começaram a tirar fotos para a investigação ou algo do tipo enquanto o que tirava a foto dizia “só mais uma e terminamos”.

— Você está bem? – Bea tocou no ombro de Gabe que se assustou.

Gabe olhou para a amiga e apertou sua mão. – Acho que sim, estou mais preocupado com ele. – Gabe olhou novamente para o Alex.

— Vai ser complicado pra ele, mas Alex vai passar por isso. – Bea apertou o ombro dele.

— Não sei, ele perdeu a namorada semanas atrás e agora isso. – Gabe cobriu o rosto com as mãos. – Ele vai precisar de ajuda.

Bea sorriu. – E ele vai ter você pra ajudar. – Bea deu um beijo na bochecha dele e abraçou-o pelo pescoço. – Os policiais disseram que vamos precisar ficar aqui por algumas horas até que eles interroguem todos, vai ser uma longa noite. – Bea respirou fundo e saiu.

Gabe ficou ali observando Alex sendo retirado do local e os paramédicos colocando o corpo da Gabi dentro daqueles sacos pretos. Gabe enterrou o rosto nas mãos e ficou ali sentado como se esperasse que algo acontecesse, em seu bolso seu celular vibrou, ele pegou o aparelho rapidamente e viu uma mensagem de um numero desconhecido.

“Own... eu errei o disparo, talvez eu tenha que errar mais vezes até acertar meu verdadeiro alvo”.

Gabe olhou ao redor ao ler a mensagem, como se tentasse encontrar a origem da mesma, mas seria impossível, pois a maioria das pessoas que ainda estavam ali seguravam o celular ou conversavam com outras pessoas pelo mesmo, Gabe levantou-se da cadeira, a escola ainda estava interditada, os policiais ainda precisariam pegar o depoimento de mais alguns alunos, então sem saber para onde ir, ele saiu o ginásio.

ALEX

— Há quanto tempo vocês se conheciam? – O policial me olhava como se eu tivesse acabado de receber a noticia de que iria morrer dentro de alguns minutos, seus olhos castanhos me encarando com aquele ar de pena.

— Desde criança. – Não queria falar muito sobre a Gabs, sempre que pensava nela ou até mesmo em pronunciar seu nome, meu peito doía como se uma faca penetrasse lentamente nele.

— Você sabe quem poderia querer fazer isso com ela? – O policial anotou alguma coisa e em seguida arrumou a gravata.

— Todos gostavam dela, Gabs sempre tirou foto das pessoas e colocava no mural como uma espécie de arte, ninguém nunca reclamou disso, não acho que alguém iria querer fazer qualquer coisa com ela. – Olho para as minhas mãos, parecia que elas estavam ensanguentadas, aperto os olhos e ao olhar para elas, percebo que era apenas a minha imaginação.

O policial me observava como se eu fosse culpado, olhei para ele e encarei seus olhos, a luz que iluminava o escritório do diretor fazia os olhos do policial ficarem quase dourados.

— Se souber de algo que possa nos ajudar, é só entrar em contato. – O policial tocou em meu ombro e sorriu, ele era estranhamente bonito. – Sinto muito por sua perda.

Dou um sorriso e fico de pé, minhas roupas ainda estavam sujas com o sangue da Gabs, mas tentava ignorar isso, saio do escritório, havia uma fila de alunos, a maioria deles eram os que estavam na primeira fila quando tudo aconteceu, eles me olharam, seus olhos tristes, eu sabia o que eles pensavam provavelmente me achando um coitado por ter perdido a namorada semanas atrás e hoje perdi a minha melhor amiga, provavelmente eu era a pessoa mais azarada do mundo.

Passei por vários pais e alunos, eles me olhavam, alguns falavam comigo mesmo que não me conhecessem de verdade, era estranho ser o cara que perdeu alguém mais uma vez, depois daqueles dias em que as pessoas me encaravam nos corredores da escola, passar por isso mais uma vez era aterrorizante.

Eu não sabia para onde ir, minha mãe havia saído da cidade e meu pai abandonou minha mãe quando ela estava gravida, então nunca o conheci. Minha mãe provavelmente já soube o que aconteceu e esteja voltando para a cidade. Um nó se forma na minha garganta, as lembranças da Gabi preenchem minha cabeça como ar preenchendo um balão vazio, comecei a lembrar de tudo o que passamos juntos, de todos os momentos felizes e tristes, quando ela ficou ao meu lado quando a Danny se foi, ou quando eu descobri de sua doença, a Gabs sempre esteve comigo, e agora ela não passava de uma memoria, de uma das melhores memorias que eu poderia ter.

Saio da escola pela parte de trás e sigo para o campo de futebol, o local estava vazio e era o que eu precisava ficar sozinho enquanto todos sentiam pena de mim. Caminho lentamente pela grama recém-aparada lembro que a Gabs gostava de tirar fotos do time de futebol, principalmente porque ela tinha uma queda por um dos jogadores. Vou até o centro do campo e fico encarando a marca onde a bola era colocada.

— Eu poderia ter morrido no lugar dela. – As lagrimas começam a escorrer, sinto meu rosto esquentar e o nó na garganta ficar cada ver maior. – Eu preferia ter morrido no lugar dela. – Fico de joelhos, não conseguia ficar de pé, as lagrimas continuam a cair descontroladamente, meu peito começa a doer. – Porque você foi embora? – Finalmente eu me deixei levar, as lagrimas que eu segurava desde o velório da Danny se juntaram com aquelas que eu segurei a noite toda.

Eu não conseguia mais suportar toda aquela dor, gritei o mais alto que pude, gritei até meus pulmões pedirem para eu parar, gritei até a minha garganta doer, eu precisava daquilo, precisava colocar toda a tristeza pra fora.

GABE

O campo de futebol estava completamente vazio, Gabe estava sentado na arquibancada observando o céu estrelado quando Alex apareceu no centro do campo, Gabe se ajeitou no banco e observou Alex se ajoelhar.

— O que ele está fazendo? – Gabe arrumou os cabelos e foi então que ouviu os gritos do Alex, ele percebera naquele momento que Alex precisava de alguém.

Gabe desceu a arquibancada e seguiu a passos largos até o centro do gramado, onde Alex agora estava deitado, seus olhos avermelhados de tanto chorar.

— Você não precisa ficar sozinho sabia? – Gabe sentou-se ao lado dele.

— O que você faz aqui? – Alex colocou os braços contra os olhos.

— Eu estava sentado na arquibancada quando vi você entrar no campo. – Gabe tentou ao máximo não olhar para o Alex.

Alex não falou mais nada, apenas ficou ali deitado, soluçando enquanto tentava controlar as lagrimas. – Você poderia me deixar sozinho? – Alex se sentou. – Não quero que ninguém me veja desse jeito

— Dias atrás eu disse que se precisasse de mim eu estaria aqui, não foi sair de perto de você até que tenha certeza que vai ficar bem. – Gabe olhou para o Alex e sorriu.

Alex encarou o céu estrelado e mais uma vez começou a chorar. – Eu estou sozinho mais uma vez.

Gabe olhou para ele, e ficou na sua frente. – Você nunca estará sozinho. – Gabe segurou na mão do Alex. – Você tem a mim agora.

Alex olhou nos olhos dele, ele não se sentiu mais sozinho, não sentiu medo, as mãos do Gabe seguraram o rosto dele e como se nada mais fosse importar, seus lábios se tocaram, em um beijo lento, suas respirações se cruzando, o coração do Alex acelerou, sua pele se arrepiou com o toque do Gabe em sua pele, lentamente eles se afastaram.

— Eu... – Gabe tentou falar alguma coisa, mas as palavras se perderam.

Alex o encarava, seus olhos ainda vermelhos e marejados. Gabe sorriu, mas seu sorriso ficou petrificado no momento em que Alex se levantou e deu um soco em seu rosto.

— O que você pensa que tá fazendo? – Alex estava furioso. – Eu acabei de perder uma das pessoas mais importantes da minha vida e você se aproveita da situação para me beijar? – Alex limpa os lábios. – Qual o seu problema?

Gabe olha para assustado para o Alex na hora em que ele vai embora. – Idiota! – Gabe se joga no chão e começa a socar seu rosto. – Idiota! Idiota! Idiota! – Ele olha pro céu e toca em seus lábios que se abriam em um meio sorriso. – Não foi tão ruim assim.

CEMITÉRIO CENTRAL

Era meia noite, uma noite em que muitos se lembrariam do assassinato em um baile escolar. O cemitério estava silencioso, a luz das velas iluminavam os caminhos entre as lapides, o som dos carros ao longe, o som do vento farfalhando as arvores, uma pessoa usando uma calça jeans e uma blusa de moletom preto com capuz estava parada em frente a um dos túmulos, a pessoa se abaixou e tocou na lapide.

— “Que você descanse em paz, querida amiga...” — O sorriso de quem observava a lápide se espalhou pela noite. – Qual a graça nisso? – A pessoa pegou uma rosa de um tumulo ao lado e colocou em cima da lapide. – A brincadeira está apenas começando.