Please, Don't Eat Me

1 1 - Um Dia Após o Outro


ALEX

A chuva caia preguiçosamente como se chorassem em luto, o céu preenchido com nuvens negras, guarda-chuvas escuros erguidos protegendo as pessoas da chuva que caia, eu era o único que estava sem, ainda não conseguia acreditar que mesmo depois de tanto tempo lutando contra o câncer, ela não conseguiu suportar, as lagrimas escorriam dos meus olhos, fazia tanto tempo que eu não derramava uma única lagrima, era como se naquele momento tudo o que eu não chorei em anos estava saindo de mim naquele momento, todos os dias de dor e sofrimento, mas ali a única coisa que eu podia sentir era raiva, raiva por não conseguir salva-la, raiva de mim por ter esperanças em algo que estava fadado a acontecer.

— Alex. – Gabi segurou em meus ombros e colocou um guarda-chuva em cima de mim. – Precisamos ir, está ficando tarde, você está aqui faz quase 1 hora. – Ela encostou a cabeça em meu ombro e puxou uma mecha de cabelo molhado que caia em meu rosto.

— Eu não posso deixa-la aqui, não posso deixar ela aqui sozinha. – Eu gaguejava a cada palavra dita, e sempre que tentava conter as lagrimas, elas caiam com mais força, fazendo meu peito doer ainda mais.

— Eu sei. – Ela beija minha bochecha, a Gabi era minha melhor amiga desde a infância, ela tinha 7 anos e eu tinha 8 quando nos conhecemos no parquinho da escola, desde então, nos tornamos amigos. – Mas você está ao lado dela desde que... – Eu sei que ela não queria falar aquela palavra, na verdade eu não queria que ela falasse ouvir a realidade só faria a dor aumentar. – Você precisa descansar, além do mais, você precisa retomar sua rotina semana que vem.

— Não sei se consigo continuar Gabs, eu sinceramente não sei se consigo. – Fico de joelhos e as lagrimas continuam a cair, minha melhor amiga me abraça, naquele momento era a única coisa que poderia me confortar. – Eu não posso continuar sem ela, porque ela teve que ir dessa forma? – Naquele momento meu choro podia ser ouvido por todos que ainda restavam no cemitério. – Por que ela me deixou? Fizemos tantas promessas juntos, iriamos nos casar, ter filhos e morar em uma casa na beira da praia. – Limpo as lagrimas. – Ela adorava o mar você sabia? – Comecei a rir. – Ela gostava de sentir a areia em seus pés, de sentir a brisa que vinha do oceano, ela era uma garota tão cheia de vida, porque algo assim teve que acontecer com ela?

— Às vezes o destino é cruel com as pessoas, nem sempre as pessoas boas tem um final feliz, às vezes... – Ela para de falar. – Às vezes a nossa felicidade está em outro lugar e não nos damos conta até que algo seja tirado de nós.

— Eu preferia ser infeliz ao ter que perdê-la para sempre. – Limpo as ultimas lagrimas que se forçavam a cair e fico de pé. – Eu preferia que o destino tivesse me levado e deixado ela, do que me fazer passar por esse sofrimento.

— Não diga uma coisa dessas, você acha mesmo que ela iria querer ver você sofrendo desse jeito? – Gabi segura em meu rosto me forçando a olhar para ela. – Ela sempre odiou ver você triste, ela com toda a certeza ficaria furiosa com você se o visse desse jeito.

Ela tira novamente uma mecha de cabelo molhado do meu rosto, um sorriso se forma em meu rosto. – Você tem razão, ela sempre foi cabeça dura, odiava ser contrariada.

— Então vamos, você pode voltar amanhã para visita-la. – Ela segura em minha mão e me leva para fora do cemitério.

Naquele dia uma parte de mim ficou enterrada naquele cemitério, a minha felicidade estava dentro daquele tumulo junto com a garota que eu mais amei na vida, talvez a única pessoa que eu amava de verdade, passei um tempo achando que nunca seria feliz de novo, eu estava completamente enganado.

GABE

O dia estava chuvoso, as pessoas correndo na rua tentando se proteger da chuva, crianças brincando nas poças que se formavam nos jardins e na rua. Gabe era o único que estava em casa naquela manhã, seus pais haviam saído sem dizer para onde, então ele ficou sozinho em seu quarto, a musica alta ecoando pelos cômodos da casa, Gabe era o tipo de cara se não pudesse sair com os amigos à única coisa que poderia deixar ele feliz era seu quarto, com boa musica ou algum seriado interessante na Netflix.

Gabe rolou na cama ao som de “Take on me” do A-Ha, era uma musica que ele gostava de ouvir quando estava sozinho, o fazia relaxar sempre que estava nervoso quanto a algo, no caso esse “algo” era o inicio das aulas dentro de dois dias. Gabe nunca fora o tipo de cara que se socializava muito rápido, principalmente quando as pessoas vinham falar com ele aos montes, geralmente o primeiro dia de aula o faziam conversar com pessoas estranhas no qual ele não tinha interesse algum em ter qualquer tipo de relação.

— Que saco. – Ele se sentou na cama e olhou para a TV. – Tinha que chover logo hoje. – Ele fica de pé e chuta uma bola de futebol que estava no meio do quarto. – Eu tinha tanta coisa planejada para essa noite, agora vou ter que ficar em casa. – Ele jogou a camisa em cima de uma cadeira e se jogou na cama novamente, a musica continuava a tocar, ele fechou os olhos e pegou no sono.

— Estranho, estranho, estranho... Lá, lá, lá. – As crianças cantarolavam ao redor de um Gabe com 7 anos de idade, ele chorava enquanto elas o chamavam de estranho. – Você sabe que não gostamos de pessoas como você, seu esquisito.

— É... Você é esquisito, aberração. – Um garotinho disse dando um chute na lateral do corpo dele Gabe caiu com a mão em cima do local onde foi acertado, ele chorou ainda mais.

— Eu não fiz nada, porque me tratam assim? – As lagrimas escorriam enquanto as crianças desferiam socos e chutes contra ele.

— Você é diferente de nós, você não serve pra brincar com a gente. – Elas continuavam a bater nele. Naquele tempo, as crianças poderiam ser cruéis, mais cruéis do que qualquer outra pessoa.

— Gabe? – A porta se abre e uma garotinha de cabelos encaracolados e com um sorriso convidativo entra no quarto. – Acorda irmão, eu sei que você não tá dormindo. – Ela sobe em cima da cama e pula nas costas dele. – A – COR – DA. – Ela da um pulo, mas ele gira de lado a fazendo cair em cima da cama.

— O que pensa que tá fazendo pirralha? – Gabe desce da cama deixando sua irmã deitada em seu lugar.

— Mamãe disse que é pra você descer, o jantar está na mesa. – Ela fica enrolando o cabelo e olhando para ele. – Você está estranho, tava sonhando com o que? – Ela se senta na cama animada.

— Nada que vá interessar uma garota fofoqueira como você. – Ele da um toque na testa dela e a empurra de leve a fazendo cair deitada.

— Você é um chato sabia? – Ela faz uma cara emburrada.

— É, é... Você diz isso sempre. – Gabe põe uma camisa e vai para a sala, as imagens do sonho ainda girando em sua cabeça, ele sabia que aquele passado iria assombrar ele pro resto da vida.

ALEX

Haviam se passado exatos três dias.

Naquela manhã eu estava completamente uma bagunça, as lembranças dela ainda estavam frescas na minha cabeça, todos os dias em que passei com ela no hospital, nossos dias ensolarados no parque, até mesmo os momentos de sofrimento, quando ela precisava passar pela quimioterapia, eu passei cada minuto ao seu lado, cada momento feliz e triste, mas mesmo eu tendo forças por nós dois, ela não suportou, seu coração foi consumido pelo câncer, e naquele dia eu perdi a única pessoa que me fazia feliz, a garota que eu prometi amar por toda a vida foi tirada de mim antes da hora.

— Estou indo mãe. – Falo para a minha mãe que estava trancada no quarto, provavelmente se arrumando para o novo trabalho.

Saio de casa ainda sem animação, a Gabs não iria pro primeiro dia de aula, ela tinha consulta, ela precisava fazer alguns exames de rotina, então ela me deixaria sozinho naquele dia que estava pra se tornar o pior deles.

A escola onde eu estudava era próximo da minha casa, apenas algumas quadras, como não podia dirigir ainda, eu ia de bicicleta, não era um dos meios de transporte mais eficazes, mas era o que me restava, a escola era um lugar gigante, havia alunos de toda parte do estado, aparentemente aquele lugar estava em primeiro lugar em ensino, então os pais mandava seus filhos para cá, para poder ter uma educação descente.

— Hey Alex. – Uma garota me chamou assim que coloquei a bicicleta em seu suporte.

— Hey – Eu não lembrava o nome dela, então simplesmente fingi que sabia.

— Então, como você está? – Ela ficou ao meu lado e colocou a mão em meu ombro. – Eu soube do que aconteceu, sinto muito.

Essa era a única coisa que eu queria evitar, a pena no olhar de todos, provavelmente a maioria dos alunos da escola já sabiam o que tinha acontecido, e isso faria aqueles olhares voltados para mim. – Eu estou bem, obrigado por se preocupar. – Dou um sorriso tentando parecer simpático, eu conhecia aquela garota, mas não conseguia lembrar o nome.

Ela continuou falando, e eu continuei tentando lembrar seu nome era engraçado que eu conhecia ela fazia dois anos e por algum motivo eu esquecia seu nome. Enquanto caminhávamos pelos corredores, as pessoas me olhavam, algumas sussurravam umas para as outras, enquanto outras mais indiscretas simplesmente apontavam para mim e faziam àquela cara de pena, aquilo me irritava, nunca gostei que as pessoas sentissem pena de mim por nada e aquilo era pessoal.

— Alex preciso encontrar umas amigas, nos vemos mais tarde tudo bem? – Ela me abraça e da um sorriso, correndo na direção de duas garotas que estavam no final do corredor.

— Tudo bem, até mais tarde. – Levanto a mão me despedindo, vejo ela dar um abraço nas garotas e sair sorrindo com elas. – Droga, qual o nome dela mesmo? – Arrumo os cabelos. – Am... Ama... Ama...

— Amanda. – Um cara que estava de costas na minha frente se vira pra mim e fala. – O nome dela é Amanda, ou Mands, acho que ela não se importa se você chama-la assim. – Ele sorriu para mim.

— Você pode não acreditar em mim, mas... – Penso olhando para onde ele apontava e em seguida de volta para ele. – Antes mesmo de ele dizer o seu nome, eu sentia como se já o conhecesse, sentia como se eu soubesse quem ele era. – Fico parado encarando ele, algo dentro de mim apertou, não entendia aquele sentimento, mas algo em mim reagiu.

— Gabe...