Plantão Médico - Swanqueen
7 Capitulo 7
—Casa, até que em fim._ eu disse ao entrar na casa que dividia com Mary. A atmosfera familiar me envolveu. Eu fechei os olhos e sorri._ Obrigada._ sussurrei baixinho para qualquer entidade superior que me ouvisse.
—Então Swan, qual é a sua programação de volta a rotina?_ David disse entrando e fechando a porta logo em seguida.
—Eu estou doida para sentir os cheiros das minhas tintas novamente. _ Me sentei cuidadosamente no sofá temerosa de sentir alguma coisa.
David que tinha me levado para casa porque Mary tinha que aplicar provas e não podia me acompanhar. Já tínhamos passado na drogaria e feito a feira de remédios. Mary já havia feito uma compra completa com todas as recomendações de Regina e tinha enchido a geladeira.
—Vou colocar a sua bolsa no seu quarto, beleza?_ ele avisou e se direcionou para os quartos subindo a escada me deixando temporariamente sozinaha.
A casa é grande o suficiente para nós duas com três quartos. Na verdade é enorme. Era dos pais de Mary, que após se aposentarem e iniciar uma jornada de viagens ao redor do mundo mudaram-se para um apartamento menor e mais fácil de manter. Então eu fiquei com um quarto médio, que era de Mary quando éramos menores e um menor que serve de ateliê, ponto de fuga e escritório que era meu quando fui adotada pelos pais dela. Mary com a suíte e tinha um pequeno escritório.
A cozinha enorme junto com um a sala de jantar e televisão dividida apenas por uma bancada. Ainda tinha um jardim que às vezes eu levava os meus materiais e gostava de passar um tempo lá para pensar, ler algo ou pintar. Encarei a enorme estante de livros que eu e minha amiga juntamos ao longo dos anos. Fotos de nós duas e seus pais em férias, ou só de nós com o pessoal da escola, com David em festas ou em viagens.
—Pensando em quê, Emma?_ David chegou por detrás do sofá e cochichou do meu lado.
—Na vida, meu amigo._ ele estalou a língua._ Agora você vai sentar aqui agora._ batia a mão no estofado ao meu lado e escorei no braço do sofá jogando as pernas para cima do mesmo._ E vai me contar como você está com os preparativos para o momento mais importante das nossas vidas._ o intimei.
—Nossa! Tudo bem. Nossas vidas..._ ele deu ênfase no “nossas” e apontou para mim e depois para ele prórpio
—Sim, porque tudo que acontece com Mary influencia em mim, você sabe que somos irmãs praticamente.
—Claro, claro..._ ele respirou fundo e olhou para mim._ Quando ela esta de TPM você incrivelmente espelha o humor dela._ Ele fez uma pausa olhando para o nada. Depois virou-se para mim._ Não sei como os seus alunos suportam vocês duas na TPM, estou percebendo agora que é praticamente todo o mês...
—Qual é David!_ quase gritei._ Desembucha logo!_ ele começou a rir.
—Eu estou super animado e ansioso e ao mesmo tempo apavorado!_ ele beteu as mãos na perna.
—Já arranjou um padrinho? Eu já sou a madrinha... então já estou ocupada._ levei a mão ao peito
—Se acha... Ainda não._ ele se virou para mim._ Como será a reação dos seus pais?
—Tia Eva e Tio Leopold?_ eu ri de sua cara preocupada._ Não tem com o que se preocupar. Eles te amam e todos nós já sabíamos que isso estava por vir, vocês demoraram mais do que esperávamos._ Encaixei o meu queixo entre o meu dedão e indicador direitos._ É mesmo... Quem será que ganhou a aposta?_ meu amigo começou a rir, entretanto era uma risada um tanto nervosa.
—Eles voltam hoje._ ele disse o mais rápido possível e eu engasguei com minha saliva._ Emma, tudo bem?
—Uou... Eu pensei que eles voltariam semana que vem?_ levei a mão em direção ao corte quando senti uma visgada.
—Eles ficaram sabendo do que aconteceu com você ontem e já estão vindo._ me atualizou. Era horrível ficar desatualizada das coisas que me envolviam apenas porque estava no hospital sem telefone.
—Como eles ficaram sabendo?
—O seguro entrou em contato com eles e Mary bem que tentou evitar isso.
—Sim eles deviam aproveitar mais a viagem._ encarei as íris claras do meu amigo. Nós bem que poderíamos nos passar por irmãos, algumas pessoas já pensaram quando nos viam juntos._ Que horas chegam?
—Vou ao aeroporto pega-los com Mary às oito.
—Eles vão surtar por não termos os avisado antes.
—Vão surtar, mas depois vão te encher de perguntar, eles estão muito preocupados._ eu encarava a prateleira com os livros, principalmente uma foto que estávamos todos, até David, na casa de praia dos pais de Mary em uma férias há uns dois anos, estávamos todos felizes comemorando o aniversário da Tia Eva. David tocou em minha perna me tirando das minhas lembranças._ Bem, tenho que ir, voltar para o trabalho, eu vou me casar!_ eu ri e ele também._ Não se preocupe Swan. A Mary vai chegar após as três e até lá sua comida já estava feita é só colocar no micro-ondas, você deve ter ouvido ela falando as coisas no caminho, nada de esforço e seguir as ordens da médica, acho que você tem remédio daqui duas horas._ eles listava as coisas nos dedos enquanto eu concordava apenas balançando a cabeça._ E qualquer coisa você pode nos ligar e nada de atender a porta para estranhos, mocinha.
—Tudo bem, papai. Eu ligo se qualquer coisa acontecer._ me levantei e o acompanhei até a porta._ Olha vou até trancar._ Balancei as chaves._ Até mais tarde, David.
Meu amigo saiu e me deixou a sós naquela casa vazia e silenciosa. Talvez eu tenha me acostumado aos barulhos da vida dentro de um hospital porque de súbito me senti sendo envolvida por uma atmosfera de medo e solidão. Tranquei a porta e as travas de segurança. Fui andando devagar até a porta dos fundos e a tranquei também. Escorei na porta e respirei fundo.
—Emma, você está na sua casa, no ambiente mais seguro que existe, nada vai acontecer com você._ disse em voz alta para isso se tornar o mais real possível. Talvez meu cérebro escutando isso em alto e bom som tomasse aquilo como uma verdade inabalável e me deixasse tranquila.
A verdade? Eu estava aterrorizada e já estava com medo de ficar sozinha até o horário de Mary chegar da escola. Subi as escadas e segui para o meu quarto. Abri a bolsa e peguei o meu caderno de desenho, o deixei na cama. Abri o meu armário e tirei minhas roupas confortáveis de ficar dentro de casa. Uma blusa larga azul de botões já velha e shorts, fiz um coque desleixado e segui para o meu ateliê com o meu caderno em mãos.
Abri a porta do meu ateliê e o ar carregado do cheiro forte do óleo encheu os meus pulmões e me acolheu em um abraço carinhoso.
Muitas vezes Mary brigava comigo para deixar o quarto mais arejado, ela não gostava muito do cheiro da tinta a óleo ou do solvente que eu uso para limpar os meus pinceis. Mas aquele cheiro, aquele local, é o meu mundo e ela entendia o que eu sentia estando ali. Algumas telas já estavam embaladas na lateral do quarto esperando a equipe de Ruby vir pegá-las, algumas estatuetas também, nos caveletes haviam duas telas, ambas pela metade.
Fui até a mesa e deixei o meu caderno ali juntamente com o meu celular. Fui até o primeiro cavalete onde uma figura ainda desconhecida tentava tomar forma entre um fundo avermelhado. Peguei a minha bandeja de tintas e o meu pincel para fazer as fusões entre as cores que eu já tinha escolhido anteriormente.
Sentir o cabo de madeira em meus dedos, a ação de molhar o pincel com o óleo para depois suja-lo da tinta para dar vida a uma tela branca me completava. É como um escritor que utiliza de um pedaço de papel para dar vida a uma estória, para torná-la real. É uma terapia, é um modo de libertação, de expressão. Meu modo de ver o mundo.
Muitos não intendem o que uma obra quer dizer, ás vezes a única coisa que tem que fazer é sentir. Parar de pensar com a razão e tentar entender as coisas com a emoção. Talvez não seja o modo mais fácil de viver, mas talvez é o mais bonito e até mesmo simples. O que faço com as minhas telas não é tentar fazer com que as pessoas pensem e tente descobrir o que eu estava sentindo ou pesando ou qual a mensagem que quero passar, eu só quero faze-las sentirem algo quando avistarem algo meu, faze-las lembrarem de algum sentimento ou sensação, sendo boa ou ruim, até mesmo resgatando na memória alguma situação, emoção. Meu objetivo é fazer algo que toque as pessoas de modo único, fazer elas se tocarem.
Já havia passado horas que eu estava imersa no meu mundo particular das cores quando o meu celular começou a tocar. Atravessei o quarto o mais rápido que consegui.
—Ruby!_ fiquei surpresa de receber a ligação da minha amiga logo hoje.
—Tem como você ir atender a porta? Já estou chegando, vou pegar as telas já prontas.
—Já estou descendo._ encerrei a ligação, limpei minhas mãos no pano e desci as escadas, assim que abri a porta da frente eu me deparei com a morena de machas vermelhas.
—Amiga, que bom te ver em casa!_ ela me abraçou._ Esse é o Billy, ele vai levar suas preciosidades para a Galeria._ ela apresentou um rapaz moreno e alto e logo depois outro homem apareceu. _ E aquele o Ruiz.Bem, me sigam._ Ruby disse entrando e eu a acompanhei depois de fechar a porta. Subimos as escadas enquanto Ruby comentava de um encontro quente que ela teve na noite passada.
—Aquele mexicano, amiga..._ ela se abanava com as mão enquanto falava. Parou apenas quando chegamos ao quarto.
—Aqui está._ apontei para as pilhas de telas e as esculturas. Minha amiga deu sinal para os homens começarem a carregar as telas.
—Só faltam essas duas, certo?_ ela disse chegando perto da que eu estava trabalhando.
—Sim, eu estava nela agora mesmo._ apontei para a tela que mostrava o brilho da tinta recém aplicada.
—E você pode? Não está fazendo extravagância?
—Claro que não. E, além do mais, eu amo fazer isso.
—Percebe-se. Está ficando lindo, amiga.
—Obrigada Ruby._ abracei a minha amiga.
—Ah, já consegui entrar em contato com alguns críticos e revistas e já remarcaram presença, outros artistas também. _ disse quando nos afastamos.
—Você é a melhor, sabia?
—Sim, sabia._ ela olhou novamente para as telas. Notei certa preocupação em sua postura.
—Pode ficar tranquila, até no final dessa semana eu as termino.
—Swan!_ uma voz masculina bem conhecida por mim ecoou pelo ateliê fazendo eu e Ruby nos virarmos automaticamente em direção à porta para dar de cara com uma pessoa desprezível de olhos claros, vestido roupas de couro.
—O que você faz aqui?_ Ruby ficou na minha frente em modo de defesa e o encarou. Ele deu dois passos para dentro do quarto._ Não se atreva a dar mais um passo._ ela o ameaçou com um dedo esticado em sua direção e raiva em sua voz.
_ Como você entrou aqui?_ eu o perguntei parando ao lado de minha amiga.
—Eu vim ver como você está Swan, a porta estava aberta._ fez um gesto mostrando a porta.
—Isso não significava que você poderia entrar sem ser convidado, Killian._ minha amiga tinha ódio nas íris.
—Eu estou preocupado com Emma, queria saber como ela está._ olhou para mim. Se ele estava preocupado, não consegui encontrar nenhuma entonação que indicasse aquilo tamanha a raiva que nutria por ele.
—Podia ter enviado uma mensagem._ Reby devolveu ainda mais ríspida. _Você não tem mais o direito depois do que você fez com ela, saia Killian._ minha amiga disse firme. Sua postura mostrava uma ameaça de que, a qualquer momento, ela pularia em seu pescoço como um lobo sedento por sangue.
—Emma...
—Killian, por favor, saia, eu não quero mais saber de você, já lhe disse isso antes, acabou, você me traiu, traiu os meus amigos._ respirei fundo e olhei para os olhos azuis do homem._ Por favor, esqueça-se de mim.
—Mas Swan..._ ele deu um passo e Ruby deu mais um fazendo com que ficassem apenas com dois passos de distância um do outro.
—Killian, não tem “mas”!_ eu elevei a voz me surpreendendo._ Você acha que, depois de tudo o que você me fez passar, eu aceitaria você de braços abertos como se nada tivesse acontecido? Eu te amava, mas você conseguiu acabar com esse sentimento com sua falta de respeito. Hoje eu tenho nojo de você, talvez até de mim mesma por ter me relacionado com alguém como você. Aquela foi a única vez que me traiu? Tenho certeza de que não._ Meus olhos ardiam para manter as lágrimas._ Eu só vou te pedi uma coisa: esqueça-se de mim, eu não quero mais nada com você.
—Billy, você poderia mostrar a esse canalha a porta?_ Ruby disse quando os dois rapazes chegaram ao corredor. Billy fez menção de pegar no braço de Killian, mas esse puxou o braço para evitar o contato.
—Eu conheço a saída._ disse ríspido.
—Que bom! Por que ainda está aqui então?_ a ironia de Ruby vez o homem tomar uma tonalidade vermelha de raiva.
—Você vai se arrepender Swan, você é minha.
—Sai logo daqui seu idiota._ Billy o puxou pelo braço fazendo com que ele sumisse de vista.
—Eu ainda não sei como pude namorar uma pessoa como ele._ me sentei com a cabeça entre minhas mãos.
—Ai miga, não se culpe. Ele enganou a todos nós._ Ela puxou seu celular de dentro da bolsa e digitou alguns números.
—Para quem você está ligando?_ levantei minha cabeça.
—Você lembra daquela amiga minha a Martha? A advogada?_ ela foi interrompida pela pessoa da outra linha._ Fala vaca!_ Ruby e seus jeitos meigos de cumprimentar os amigos._ Amiga, eu preciso de um favor seu, você tem um horário para hoje? É um louco que está perseguindo a minha amiga e ela acabou de passar por uma cirurgia arriscada e não pode se chatear.
—Você está mais protetora que antes._ eu cochichei para ela.
—Você vai ser a nova mina de dinheiro para mim, meu amor._ eu balancei a cabeça rindo._ Tudo bem, encontro com você. Obrigada, beijo._ ela desligou o telefone e o jogou dentro da bolsa. _Billy tome cuidado com essa é a minha preferida._ ela avisou para o rapaz que pegava um quadro com todo o cuidado do mundo. _E a doutora gata? Se você não pegar eu posso considerar pegar para mim.
—Ruby, isso novamente?
—Adoro te ver com raiva, amiga._ ela apertou as minhas bochechas como se eu fosse uma criança de cinco anos e mandou um beijo.
Os homens rapidamente pegaram todas as peças que tinham que levar para a galeria, deixando apenas as duas incompletas.
Ruby despediu de mim dizendo que iria encontrar com a amiga para ver o que poderia ser feito em relação à Killian. Fui até a geladeira e encontrei um prato já feito embalado com plástico filme e um post it pregado logo abaixo dele.
Peguei o prato e o esquentei. Direcionei-me até o sofá e liguei a televisão, deixei no Animal Planet e fiz minha refeição ouvindo sobre a vida na Savana Africana.
* * *
Depois de dar alta a Emma, a minha semana passou voando. Eu já havia conversado com o Doutor Lincon sobre os pacientes que passaria para ele, já tinha resolvido as coisas a respeito do consultório com Gold e Anastasia. A reunião na qual fui chamada fora apenas para avisar o que eu já sabia e no mês que vem eu já estaria na chefia do pronto socorro. Talvez eu sinta falta de atender as pessoas em um consultório, da calmaria que vem com ele, entretanto essa é uma chance e tanta que precisa de mais responsabilidade ainda.
A chefia de um setor, eu nunca me imaginaria no lugar da Mal, parecia que aquele lugar fazia parte dela quando ela estava no comando, mesmo quando tudo estava um caos ela colocava ordem com um olhar.
Poderia arriscar em dizer que algumas pessoas simplesmente a temiam. Talvez em meu comando aquilo viraria um inferno, não sei. Ou talvez não. Era a Mal, ela não iria me indicar se eu não tivesse mostrado algo à ela. Esse pensamento era o que me deixava tranquila durante a semana.
Encarava apenas de roupas íntimas as minhas opções de roupa. Era aquilo mesmo que eu queria? Para falar a verdade estava cogitando a opção de ficar em casa mais um sábado a noite, quem sabe pedir uma comida italiana, tailandesa, japonesa, algo do tipo? Permanecer no conforto do meu apartamento era tentador. Mas sair também era uma proposta igualmente tentadora, conhecer pessoas, sair da minha zona de conforto, Tinker estava certa.
Escolhi um vestido simples, mas não tão simples, já que eu não sabia para onde que Daniel me levaria, ele apenas me perguntara se eu gostava de comida francesa. Um tubinho vermelho que marcava bem as minhas curvas, saltos pretos e alguns adereços para completar.
Fiz uma maquiagem leve e fui esperar por Daniel na sala, faltava apenas dez minutos para o horário combinado. Peguei o meu celular para checar se havia alguma mensagem.
Por um lado eu estava pedindo aos céus que me ligassem do hospital para uma emergência. Seria bom pegar um caso agora.
Tirei uma foto de mim e mandei para Tinker que logo depois respondeu.
— Uau amiga. Só espero que tenha escolhido uma lingerie maravilhosa, divirta-se já que não pegou plantou novamente.
Assim que terminei de ler a mensagem da minha amiga recebi a ligação de Daniel avisando-me que ele já estava no saguão do prédio. Peguei as minha bolsa e chaves e deixei a segurança e conforto do meu apartamento.
No meio do caminho mandei uma mensagem para minha amiga mandando-a calar.
Ao sair do elevador avistei o meu encontro. Ele vestia uma calça jeans, sapatos sociais, blazer cinza e camisa social azul, que destacava a cor de seus olhos, seu cabelo partido de lado tinha aparência de uma onda.
—Regina!_ ele exclamou quando me viu, me olhando de cima a baixo._ Você está linda!_ me cumprimentou com um beijo na bochecha.
—Posso dizer o mesmo que você Daniel.
—Vamos?_ ele colocou a mão e minhas costas e começamos a andar.
Ao chegar próximo ao seu carro levei a mão à maçaneta para abrir a porta, entretanto Daniel mais que depressa ficou entre mim e o carro impedindo-me de abrir a porta. Estranhei aquela atitude, qual seria o problema de eu abrir a porta do carro.
—Deixe-me abrir para você._ olhei para os seu rosto incrédula com aquela atitude. Entrei em seu carro forçando um sorriso. Ele fechou a porta e contornou a frente do mesmo.
—Está uma noite agradável, não?_ ele iniciou a conversa quando arrancou com o carro.
—Sim, está mais fresco.
—Então como vai o trabalho doutora?_ perguntou-me sem tirar os olhos do transito.
—Corrido como sempre, agora mais ainda.
—Tem aquelas festinhas a dois em quatro paredes como na televisão?_ ele perguntou do modo mais natural do mundo, mas aquilo me incomodou.
—Não..._ senti os olhos dele pousados em mim, continuei apenas encarando o trânsito._ Não temos tempo nem energia para fazer esse tipo de coisa.
—Hoje eu fiz um parto de uma égua. Depois de seguir toda a gestação, já que eu fiz a inseminação artificial, estamos esperando que seja um cavalo campeão, levando em conta o seu pai, que eu treinei também que já ganhou mais de cinco campeonatos...
A única coisa que eu pensava enquanto Daniel listava os prêmios que o cavalo, que era pai de outro, ganhara era que se ele continuasse com a listagem dos cavalos eu torceria para alguém engasgar com um baquete no restaurante e precisar de uma traqueostomia de emergência e assim eu poder fugir para o hospital.
Eu não percebi que havíamos chegado a um restaurante francês de renome devido aos meus pedidos que alguém precisasse de uma cirurgia de emergência, não era um pensamento muito bom, mas desde aquele momento ele havia falado apenas dos cavalos que ele havia treinado. Quando ele estacionou o carro ignorei por completo o seu pedido para esperar ele abrir a porta e saltei automaticamente do carro encontrando um Daniel totalmente confuso e, poderia dizer, contrariado, pude notar no seu sorriso forçado.
Uma coisa sobre mim: só preciso que abram as portas para mim se eu realmente estiver precisando. E, naquele momento, eu estava muito bem e poderia abrir a porta do carro sozinha.
Daniel se dirigiu pomposo como um macho alfa ao maître que respondeu que a nossa mesa era a cinco. Lançou-me um sorriso e um pedido para lhe acompanhar.
—Então, Regina, você mora ha muito tempo aqui em Boston?
—Sim, uns cinco anos já. Antes eu morava em Nova York com a minha família.
—Tem irmãos?_ ele me questionou bebericando sua água.
—Uma irmã mais velha. Vai vir morar comigo por um tempo, vai trabalhar no mesmo hospital que eu na chefia do departamento de ortopedia.
—Deve ser difícil saber que sua irmã já esta vindo trabalhar em um cargo de chefia em um lugar que você trabalha há mais tempo._ ele disse se escorando na cadeira.
Semicerrei os olhos e encarei sua íris azuis.
—Na verdade não. Eu sou a encarregada do pronto socorro._ levantei uma sobrancelha em forma de desafio e beberiquei minha água como ele havia feito anteriormente.
— Com licença, já querem escolher?_ o garçom chegou fazendo com que Daniel consertasse sua postura e limpasse a garganta.
—Vamos querer um Foie gras de entrada e como prato principal o canard à l’orange e um vinho branco Hardys._ ele informou ainda de olho no cardápio.
—Talvez para o cavalheiro, já eu prefiro como prato principal um Rolê de vitela com cogumelo e acelga._ terminei num sorriso simples e olhei para Daniel que levantara uma sobrancelha para mim.
—Boa pedida._ apenas fiz um singelo gesto balançando a minha cabeça._ Já visitou a França?
—Ainda não tive tempo suficiente, mas espero poder ir algum dia.
Automaticamente lembrei do dia anterior à alta de Emma, que suas amigas estavam comentando sobre viagens e roteiros românticos. Sim, eu gostaria de fazer um tour pela Europa, mas com a pessoa certa ao meu lado. Conhecer a Torre Eiffel, observa-la de um Café, algo do tipo.
—Eu estive lá ano passado, em um torneio de Hipismo._ me fiz de interessada e ele continuou a contar._ Nesse torneio conseguimos duas medalhas com um aluno nosso, o... Qual era o nome dele?
Ele não se lembrava o nome do aluno, mas cm certeza se lembrava do nome de todos os cavalos que já havia trabalhado.
Enquanto ele tentava lembrar o nome do menino o garçom chegou com a entrada e o vinho.
—E você Regina?_ Parecia que subitamente ele se lembrou de que estávamos em um encontro._ Como é o seu trabalho?
—Eu amo o meu trabalho principalmente porque eu tenho a chance de salvar pessoas, por mais que se as vezes não conseguimos salva-las é um trabalho lindo...
—Eu sei, já tive que fazer uma cirurgia de emergência em uma égua prenha...
—Eu soube que eu queria ser cardiologista quando eu estava auxiliando em um transplante de coração e o atendente deixou que eu fizesse quase todo o procedimento sozinha. Segurar o coração daquela mulher que era a sua salvação._ eu sabia que os meus olhos estavam brilhando porque era assim que as pessoas descreviam o meu estado de contemplação quando eu falava do meu trabalho. Eu olhava para a minha mão acima da mesa como se eu estivesse vendo o coração ali, como se eu o estivesse segurando naquele momento._ O coração é muito mais que um simples músculo...
—Você não fez por dinheiro? Você poderia ter virado modelo. Eu poderia jurar que você tinha feito medicina por dinheiro._ eu respirei fundo e o encarei. A minha vontade de que alguém se engasgasse era enorme.
Como ele poderia pensar que eu seria uma pessoa tão rasa. Superficial.
—Como?_ o questionei ignorando a minha vontade de sair dali.
—Quando eu te vi correndo aquele dia eu pensei que você era modelo. Como a minha ex.
Respirei fundo e beberiquei o vinho, logo depois estalei a unha.
—Mulheres bonitas não podem fazer uma faculdade que necessite de cérebro?
Quando ele se preparou para respondeu o garçom pediu licença e chegou com os pratos.
Quando estávamos no meio da refeição o meu celular tocou.
—Me desculpe não me ligariam se não fosse uma emergência._ Na verdade não era ninguém do hospital era apenas Zelena. Me levantei mais que depressa e ele me imitou._Só um minuto._ virei para ele enquanto minha irmã fazia mil perguntas._ Daniel foi um prazer sair com você, eu te ligo, certo?_ puxei algumas notas que eu tinha certeza que cobriria a minha metade e coloquei na mesa._ Tenho que ir._ disse num tom mais culpado que consegui e deixei o restaurante com um homem confuso e talvez irritado.
Ao deixar o restaurante me voltei para a minha irmã.
—Zel...
—Expliqui-se, Regina, parece que você me usou de desculpa para deixar um encontro! Você não está com esse direito, maninha.
—Zelena, cale-se._ parei um táxi e dei o meu endereço._ Zelena, muito obrigada por ter me ligado.
—Poxa, o encontro esta tão ruim assim?
—Você gostaria de saber qual é a melhor espécie de cavalo para um campeonato de equitação? Ou como fazer um parto de uma égua? Não obrigada.
—Eita, calma lá! Respira Regina!
—Eu devia ter ficado em casa, para inicio de conversa não queria ter marcado isso. Me deixei levar por você e pela Tinker.
—Mana, você precisava sair mais, encontrar alguém.
—O problema é que eu não sei mais como agir em encontros! Eu pensava que ela era um cara gentil. Só senti atração sexual por ele, nada mais._ percebi que o taxista olhava para mim pelo espelho retrovisor.
—Você não deixou o encontro só porque ele falava de cavalos, deixou?
—Não, parece que ele esbarrou em mim de propósito pensando que eu era uma modelo como a ex dele. E perguntou porque eu não segui a carreira de modelo e escolhi medicina.
—Nossa._ ouvi a língua de minha irmã estalar.
—Só me diga que o problema não está só em mim.
—Você pode ter uma pequena parcela...
—Zel, você não está me ajudando!_ quase gritei e o taxista olhou para mim novamente eu o encarei questionando-o mentalmente o que ele estava procurando na minha direção._ Então, a quê devo a sua ligação salvadora?
—Só queria saber como foi o seu dia e dizer que estou ansiosa para começar trabalhar logo em Boston, fazer bagunça em seu apartamento super organizado._ soltei uma gargalhada mais tranquila.
—Eu te amo Zel.
—Eu sei. Mas, me fala, o cara pelo menos era gato?
—Infelizmente sim. Eu admito que estou precisando namorar, mas... Tá difícil, sis.
—Depois daquele traste do Robin você ficou traumatizada. Não precisava ficar assim.
—Ah Zel, eu o amava, mas estava sendo enganada... Talvez o amor não é para mim.
—Cala essa boca que deve estar com um belo batom vermelho! Você só não encontrou a pessoa certa ainda, talvez já até a conheceu, mas não percebeu.
O taxista parou em frente ao meu prédio e eu tirei algumas notas de dentro da bolsa e o entreguei.
—Espero que você esteja certa, Zel.
—Eu estou, sis. Pode confiar. _ suspirei com a fala de minha irmã. Entrei no elevador.
—Por que você não está aqui comigo? Por que não veio antes?_ minha voz já estava ficando embargada de emoções.
Às vezes eu me sentia totalmente sozinha, muitos pensam que eu sou uma pessoa totalmente feliz, eu já fui feliz, quando estava com Robin.
Às vezes o conforto e a calmaria do meu apartamento me sufocavam, por isso que gostava de fazer mais plantões, assim eu passava mais tempo ao redor de pessoas que eu tenho certeza que gostam de mim.
—Eu vou chegar aí amanhã, sis.
Fui caminhando até a porta de meu apartamento ouvindo a respiração de minha irmã.
—Zel?_ perguntei apenas para certificar que a ligação não havia caído.
—Oi? Eu adoraria falar mais com você, mas eu já estou quase dormindo, amanhã tenho que acordar cedo.
—Boa noite, sis. Até amanhã. _ despedi de minha irmã e adentrei em minha fortaleza.
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