Notas iniciais
Algumas de vocês já leram esse capítulo por falha minha, mas agora ele fará mais sentido.

Isso não pode estar acontecendo.

Sinto que o chão some de baixo meus pés.

— Não é isso! – ela levantou-se também, tentando se aproximar de mim. Dou um passo para trás. — Escuta.

Quero chorar, quero explodir, quero gritar, quero quebrar alguma coisa. Quero correr, quero fugir, quero desaparecer.

— Deixa eu explicar, Felipe. Por favor. – Bianca está chorando muito naquele momento, o que torna tudo ainda mais difícil pra mim. — Você não está entendendo...

Suspirei fundo.

Não, pensei comigo mesmo. Eu não posso mais adiar isso. Eu preciso, eu mereço saber a verdade. E a hora é agora. Por mais dolorosa e difícil que seja. Eu preciso ser forte.

— Então explica... – sento-me na cadeira mais próxima e ela se senta também tentando segurar a minha mão, mas eu não deixo, porque não estou me sentindo muito bem agora.

— Sim, eu dormi lá. Eu apaguei. Não me lembro de absolutamente nada. Estou sendo sincera. – ela me encara com aqueles olhos verdes cheios de lágrimas incontroláveis. — Sim, eu cogitei a possibilidade do filho ser dele. Eu pensei que... Pensei que... E foi por isso que eu pedi um tempo. Foi por isso que fugi. Não podia suportar a possibilidade desse filho ser dele e não ser seu!

— Então como você sabe que... – não fui incapaz de continuar. Meus nervos ardiam só de pensar que essa criança fosse de outro e não minha.

Eu seria capaz de perdoa-la? De continuar amando-a? De aceitar esse bebê mesmo não sendo meu? Seria capaz de continuar lutando por nós?

Tive medo só de pensar nessas respostas.

— Danilo me ligou milhares de vezes depois daquela noite. Mas eu ignorei todas elas. Tinha medo das respostas. Até que um dia eu percebi que não era justo, nem comigo, nem com você, nem mesmo com ele. Então eu atendi uma de suas ligações e perguntei. Perguntei o que tinha acontecido entre nós, se tínhamos feito alguma coisa e ele me garantiu que não... Por mais insistente que tivesse sido...

— O quê? – levantei-me de novo, inquieto. — Ele tentou se aproveitar de você mesmo você estando bêbeda? Ah, cretino. – cerrei os punhos com força. — Eu vou acabar com esse sujeitinho... – comecei a andar de um lado para o outro, sendo capaz de arrancar meus próprios cabelos. — Nossa... Que ódio...

Precisei de pelo menos dois minutos para me acalmar. Ou pelo menos tentar. Enquanto a Bianca repetia coisas incompreensíveis. Pois a minha cabeça estava muito distante para assimilar qualquer coisa.

Eu só conseguia me imaginar dando socos, murros e chutes do Danilo e vê-lo sangrar até a morte.

— Então não aconteceu nada? – pergunto, virando-me de frente para ela novamente. — Mas se você apagou, como pode ter tanta certeza disso?

Bianca me olha incrédula, com o rosto tomado por lágrimas.

— Você tem que confiar em mim. – ela se levantou, ficando diante de mim. — Você não vê o quanto estou tentando ser corajosa em lhe contar toda a verdade? Você não acha que não está sendo difícil pra mim? Não acha que eu não me arrependo disso? Que me envergonha só de pensar que por um momento eu não soube quem era o pai do meu filho?

Bianca dá um passo a minha frente, agora com os olhos mais próximos os meus e a respiração pesada.

— Você confia em mim?

Desvio o olhar.

Não sei...

Quero muito confiar, quero muito acreditar, quero muito superar isso, quero muito prosseguir, quero muito lutar.... Mas está tudo tão confuso dentro de mim. Não sei em quê pensar.

— Você precisa confiar em mim.

Sinto uma pequena lágrima escorrer dos meus olhos. Continuo sem conseguir olhar de volta dentro dos olhos dela. Até que sinto sua mão tocar a minha e entrelaçar nossos dedos. E meu corpo que até então estava tremulo e fraco, de repente sinto como se com apenas um toque dela fosse capaz de encher meu corpo de forças e esperanças.

— Eu vou te dar espaço agora. Acho que você precisa pensar melhor sobre tudo isso. – ela deu um beijinho rápido na minha bochecha. — Eu vou te esperar lá dentro.

Bianca solta a minha mão e passa por mim, mas não sei bem o que acontece durante o percurso e eu ouço ela soltar um pequeno gemido.

— Ai.

Corro até ela.

— O que foi? Você está bem? – seguro ela, pois ela está gelada e tremula. — O que aconteceu?

— Nada... Eu apenas senti um mal estar. – ela tenta sorrir, segurando meu braço. — Não se preocupe...

Não importa o que ela diga ou o quanto tente me convencer, eu praticamente a carrego para dentro de casa e a ajudo a sentar no sofá, até que eu tenha certeza e segurança que ela está bem mesmo.

— Vamos esquecer isso. – concluo, pela primeira vez me dando conta de que há mais uma vida em jogo. — Não quero por em risco a vida do bebê. – ajoelho-me diante dela. — Vocês dois são as coisas mais importante da minha vida.

Bianca me abraça, voltando a chorar.

— Nossa, meu Deus, eu sou tão chorona! – ela se afasta e eu aproveito para secar suas lágrimas. — E não, de jeito nenhum vamos esquecer isso. Eu sei que você está preocupado, mas eu estou bem. Tudo que eu quero agora é que isso tudo esteja finalmente resolvido e conversado entre nós.

— Está tudo bem. Sério. – agora que suas poucas lágrimas já estão secas, volto a conforta-la com um carinho no rosto. — Sim, eu estou muito bravo com aquele a qual não posso nem citar no nome, mas... Está tudo bem. Eu juro. Eu confio em você.

— Tem certeza? – ela está sorrindo de leve.

— Tenho, claro. Não aconteceu nada, não é mesmo? – seguro seu rosto entre minhas mãos. — Bianca, eu amo você e não amo só as suas qualidades, como também os seus defeitos. Você comete erros, assim como eu. E eu compreendo que isso só aconteceu porque você estava enganada, perdida, confusa e furiosa comigo. Isso não vai se repetir, não é mesmo?

— Claro, claro. – ela fica séria por um momento, mas logo volta a sorrir. — Eu prometo a você que nunca mais vou me deixar levar por um engano, não vou mais duvidar de você e antes de surtar, vou procurar saber o que realmente aconteceu.

Solto um risinho.

— Antes de qualquer coisa, pergunte a mim e eu vou te responder a qualquer coisa. E serei sempre verdadeiro com você. Não vou te magoar, não vou te ferir, nem mesmo te enganar.

Novamente ela me pega de surpresa e me beija.

— Eu também tenho uma coisa a dizer. – digo, sentando-me ao seu lado. — Mas não precisa fazer essa cara. Não é uma má noticia, na verdade.... É uma ótima notícia.

Isso faz ela se animar um pouquinho.

— Lembra-se daquela minha aluna? Aquela que você desconfiou que eu tivesse um caso? – Bianca assente, curiosamente olhando para mim. — Mesmo que eu não tenha te dito, por medo de te magoar e criar mais confusão entre nós, ela nunca saiu do pé e vivia atrás de mim, insistente, dizendo me amar e ser capaz de qualquer coisa para ficar comigo. Acho que foi por isso que ela criou toda essa confusão. Até que algumas semanas atrás ela foi pega em flagrante e acabou que a Mariza, a supervisora, entendeu finalmente tudo que estava acontecendo. Elas tiveram uma conversa séria e por fim foi decidido que o melhor para a instituição e para todos nós, foi que ela fosse expulsa.

Bianca suspira, aliviada.

— Nossa, isso é maravilhoso. Parece que enfim as coisas estão se acertando entre nós. Você não acha?

— É, parece. – sorrindo, continuo a olhar para ela. — Eu me livrei da Valéria. Você se livrou do Danilo. Pelo menos assim espero. E agora vamos ter um bebê. Nada mais parece tão perfeito, não é mesmo?

Bianca assente, sorrindo, maravilhada.

Mal sabe ela que ainda existe muito por vir.

Inclino-me para baixo e beijo sua barriguinha volumosa.

— Olha, não posso dizer que daqui pra frente as coisas serão sempre perfeitas entre nós. Mas posso garantir que serei uma mulher mais esforçado. Darei o meu melhor. Vou parar de agir de forma imatura e inconsequente. Conversaremos mais e deixaremos tudo às claras. E não vou deixar que nada mais fique entre nós. Eu prometo.

Dou um novo abraço nela, me sentindo extremamente emocionado e fazendo um grande esforço para não chorar.

Já está tarde. Bianca e eu trancamos a casa, apagamos as luzes no andar térreo e subimos para o nosso quarto.

Tomamos um banho quente juntos e depois vestimos nossos pijamas e vamos nos deitar.

Pegamos no sono abraçados e naquela noite eu sonho com o nosso bebê. É uma linda menininha e ela está nos meus braços, sorrindo com toda sua ingenuidade. Ela é linda, parece muito com a Bianca. É uma preciosa joia. E eu não quero nunca mais solta-la.

Acordo cedo no outro dia para trabalhar. Tento não fazer barulho para a Bianca não acordar, mas alguns minutos depois seu despertador começa a tocar.

— Você deveria ficar aqui em casa descansando. – sento-me com ela em nossa cama. Ela sorri com leveza e me ajuda a abotoar os botões da minha camisa.

— Nada disso. Eu preciso ir para a empresa cuidar de negócios. Você não tem que se preocupar, Fê. Eu estou bem. Estou grávida, mas isso não me impossibilita de nada...

Ela toca meu rosto carinhosamente.

— Eu sei, eu sei. Mas eu me preocupo. Quero estar por perto todo o tempo, para cuidar de vocês, proteger vocês.... Fico pensando que alguma coisa ruim possa acontecer...

Suspiro, me achando muito tolo.

— Eu tenho medo que...

Bianca me cala com um beijo.

— Nós amamos você. – ela diz isso com um sorriso, além de estar com a mão sobre o ventre.

Enquanto ela se prepara para o trabalho, eu desço para preparar o nosso café da manhã.

Abro a porta do quintal e deixo o Toddy sair por alguns minutos para se aliviar, já que ficará sozinho pelo resto do dia.

Depois coloco um pouco de ração para ele.

Vinte minutos depois nós nos despedimos. Eu vou para a universidade no meu carro e ela para a empresa no carro dela.

Durante todo o trabalho fico pensando nela e querendo saber o que ela está fazendo. Se está exigindo muito de si mesma, fazendo algum esforço desnecessário ou sofrendo com algum estresse. Por fim, concluir que devo deixar essas paranoias de lado, me concentrar no meu trabalho e confiar na Bianca.

Sei que ela jamais faria nada para se prejudicar.

Na hora do almoço nós conversamos por telefone, então aproveito para convida-la para jantar fora aquela noite.

Passo o resto do tempo ansioso para encontrá-la. Nós passamos tanto tempo separados, brigando, nos desentendendo, que agora que eu a tenho de volta, eu só quero ficar com ela o tempo todo.

Quando a noite cai, vou até o meu carro no estacionamento da universidade e antes eu que ligue o veículo meu celular começar a tocar.

São os pais da Bianca querendo saber como estão as coisas.

Depois de passar alguns minutos conversando, vou me encontrar com a Bianca em nosso restaurante preferido no centro da cidade.

Me surpreende que ela esteja com tanto apetite. Bianca nunca foi de comer tanto assim. Pelo visto a gravidez está lhe fazendo muito bem, além de ela estar ainda mais bonita, com um brilho todo especial. Isso me conforta muito.

Quando terminamos de comer, Bianca sugere para irmos dar uma caminhada em uma praça não muito longe dali que está cheia de jovens rebeldes, assim como um dia nós fomos, casais apaixonados e crianças correndo de um lado para o outro.

Compro um sorvete de morango com calda de chocolate para a Bianca, pois ela insistiu muito, e procuramos um banco vazio para nos sentarmos por um momento.

Enquanto se lambuza com seu sorvete de morango como uma garotinha, ela não tira os olhos de um grupinho de crianças que brincam dentro de uma caixa d’areia não muito longe de nós.

— Você já pensou em como ela vai saber? – perguntou ela, virando-se para mim com seus olhos brilhoso e a boca toda lambuzada de sorvete.

Sorrio e tento limpa-la.

— Ela? E como você sabe que é uma menina? – pergunto, curioso.

— Na verdade, eu não sei ainda. Acho que está um pouco cedo demais para saber. – ela torce os lábios. — E você, o que prefere?

— Eu não sei.. – penso por um instante. — Eu sonhei que era uma garotinha noite passada e ela era muito parecida com você. Mas seria bom também que fosse um garotinho. Talvez ele fosse parecido comigo.

— Então ele seria o garotinho mais lindo desse mundo.

Com a mão em seu pescoço, me inclino para beija-la nos lábios.

— Eu não tenho uma preferência. E você?

— Para ser sincera? Nem eu. Às vezes eu acho que seria maravilhoso se fosse uma menininha, cheia de roupinhas cor-de-rosa, um cabelinho claro com uma tiara. Mas por outro lado, seria bom também ter um menininho, educado, sorridente, brincalhão e que gostasse de ler quadrinhos, como o pai.

Sorrio sem jeito.

— Bom, por enquanto vamos ficar apenas na expectativa para saber o que será. Eu tenho uma consulta marcada para semana que vem com meu novo médico. Você quer ir? Vai ser no meio da semana, no período da tarde.

— É claro que eu quero ir. Vou conversar com a Mariza e pedir uma folga, só para poder te acompanhar. Quem sabe será nosso dia de sorte e enfim descobriremos o sexo do bebê.

Conversamos sobre diversas possibilidades por um longo tempo, até que a Bianca começa a se queixar de dores nas costas e pernas e nós vamos para casa, para fazer companhia ao Toddy.

Já é tarde, mas eu estou sem sono. Bianca está deitada no meu peito. Faço carinho nos cabelos dela, então rapidamente ela pega no sono, enquanto eu fico lendo minhas revistinhas.

No outro dia, já no trabalho, sinto meu celular vibrar diversas vezes dentro do bolso da calça jeans. A insistência, seja lá de quem for, me faz ficar preocupado. E se aconteceu alguma coisa com a Bianca no trabalho? Peço licença a minha turma e saio para o corredor, para ver o que é.

Mas não é nada de mais. É apenas a Gabi, insistente, querendo saber quando terei um tempo livre para ver os últimos detalhes daquele nosso plano ultrassecreto.

Aproveito o tempo para responde-la de uma vez por todas.

“Talvez terei um tempo no sábado. ”

Imediatamente ela me responde de volta:

“Acho bom você arrumar um tempo pra mim, porque ainda temos muitos detalhes para ver e resolver.”

O jeito impaciente da Gabi me faz rir.

Logo volto para a aula e aproveito que os alunos estão ocupados fazendo atividades em grupo para corrigir trabalhos de outra turma.

Bianca e eu não combinamos nada para aquela noite, então resolvo fazer uma surpresinha para ela. Passo em uma joalheria e compro-lhe um colar delicado, com dois corações entrelaçados para marcar o momento especial pelo qual estamos passando.

Vou para a empresa na intensão de surpreende-la, mas antes liguei para a Luiza para me certificar que ela ainda estaria por lá. Cumprimento os funcionários na recepção, são todos tão simpáticos comigo. Eu conheço a maioria há anos. E subo de elevador, pedindo que por favor, para eles não avisarem a ela que estou chegando.

Entro de fininho em sua sala, que para minha sorte está com a porta aberta. Ela está tão concentrada no trabalho, com os olhos grudados em uma pilha de papeladas, que ela nem percebe que eu estou ali.

Bianca está tão bonita, com um blazer verde, uma blusinha branca, uma saia preta e sapatilhas. Seus cabelos claros estão presos em um coque mal feito, com alguns fios soltos na parte da frente.

Fico ali, parado, apenas olhando para ela.

Encantado.

— Felipe? – ela se assusta ao me ver, mas logo começa a sorrir, toda sem graça. — O que está fazendo aqui?

— Pensei em te fazer uma surpresa. – digo, me aproximando. — E depois leva-la para casa.

Ela se levanta e fica de frente para sua mesa, apenas esperando por mim. Quando já estou diante dela, mostro-lhe a caixa que esteve escondida atrás das minhas costas. Ela se surpreende com o que vê, mas rapidamente abre a caixa aveludada.

— Isso é pra mim? – pergunta ela, toda abolhada. — Felipe, é a coisinha mais linda...

Ela deixa a caixinha em cima de sua mesa, sobre a papelada, e me enlaça com seus braços.

Completamente vidrado com o brilho em seu olhar, eu a pego pela cintura e sento-a em cima de sua mesa. Ela me prende com suas pernas em volta da minha cintura. Com as duas mãos em seu pescoço eu me inclino para beija-la.

— Eu nunca mais vou te deixar. – ela sussurra com a boca muito próxima da minha e com os dedos enterrados no cabelo da minha nuca.

— E eu nunca mais vou deixar você ir para longe de mim. – digo, acariciando levemente sua bochecha rosada.

Notas finais
Está tudo bem outra vez. Ufa, hein. Finalmente! Como esse capítulo é repetido para algumas de vocês, resolvi que postarei o próximo amanhã mesmo. Se preparem para cenas fofas!