Planos e Promessas
31 Bianca.
Notas iniciais

Felipe saiu no sábado com uma desculpa muito esfarrapada e passou um tempão fora de casa, sem ao menos dizer para onde iria ou o que faria. Mas isso não me preocupou. Aproveitei meu tempo para descansar, comer um montão de bobagens, assistir minhas séries preferidas, ler revistas no jardim e dar uma caminhada pela vizinhança com o Toddy.
Ele chegou por volta das sete da noite. Esperei que ele me dissesse alguma coisa, mas ele não disse nada. Estava muito misterioso e eu também nem insisti. Pelo menos ele trouxe lanches do Mc Donalds para gente comer no jantar.
As nove horas liguei para a minha prima, a Duda, e não sei o que deu em mim, talvez fosse apenas saudade, então eu prometi que eu e o Felipe apareceríamos cedinho por lá no dia seguinte e passaríamos o dia todo com eles.
Felipe ficou empolgado com a novidade.
Fomos dormir logo para acordar cedo no outro dia, mas eu acabei acordando durante a madrugada, quase duas horas da manhã, pois estava me sentindo com muito calor.
Joguei o lençol fino para cima do Felipe para me descobrir um pouco, mas isso não foi o bastante. Estava uma coisa absurda! Depois comecei a me abanar com uma revista que se encontrava ao lado sobre o criado-mudo. Mas só isso também não adiantou. Tentei ignorar essa estranha sensação dentro de mim e procurei uma posição confortável para voltar a dormir.
Só que isso também não foi possível.
— O que foi? – perguntou Felipe, sonolento. Ele ficou o abajur para clarear o quarto escuro. — Perdeu o sono?
— Não sei. Estou inquieta, com um calor terrível. – passo a mão pelo pescoço e vejo que estou quente e suando.
Será que estou com febre?
Olho para o Felipe e vê-lo sem camiseta, com o cabelo todo bagunçado e com aquela carinha fofa de sono faz algo se acender dentro de mim.
Me aproximando ainda mais dele, jogando minha perna sobre seu corpo e me sentindo estranhamente assanhada.
— O que você...? – Felipe pergunta, mas ao ver a minha expressão acho que ele desvenda tudo e dá um sorriso malicioso. — Já sei... Você quer..?
Ele coloca a mão na minha perna, me puxando ainda mais.
— Sim, eu quero. – adianto-me e tiro a blusinha azul do meu pijama de ovelhinhas. — Não sei o que há de errado comigo... Eu só sei que eu te quero muito agora mesmo...
— Não tem problema. – ele se apoia no cotovelo, se inclinando em minha direção para me tocar melhor. — Eu gosto quando do nada você resolve me atacar de madrugada.
Solto uma risada alta.
— Mas eu nunca fiz isso antes...
— Mas bem que poderia começar a fazer.
Antes que eu possa dar outra resposta, ele me puxa para cima dele e começa a tocar e beijar meu corpo. E se antes eu já estava com calor, agora me sinto em chamas. Mas isso não importa, o que importa é que ele é o único no mundo capaz de me compreender e me satisfazer nesse instante.
Tudo não demora nem meia hora, quando ambos, suados, voltamos a nos deitar um do lado do outro com o quarto novamente escuro e totalmente satisfeitos.
Sinto de alguma forma que ele está sorrindo.
— Isso não é errado? Digo, agora você tem o bebê e...
— Não, Felipe. – dou risada. — Nada acontece com o bebê.
— Nossa, isso é tão estranho...
Ficamos em silencio e então voltamos a pegar no sono.
Acordamos a sete da manhã, preparamos uma pequena mochila caso aconteça alguma emergência. Pegamos fruta, água e cereais para a longa a viagem e acomodamos o Toddy no banco de trás com o cinto que o Fê comprou para ele.
— Você acha que devemos contar a eles sobre o bebê ou devemos fazer surpresa? – pergunto, durante a viagem.
— Não sei. Acho que talvez devêssemos aguardar um pouco e surpreende-los no momento certo. – conclui Felipe.
Ao chegarmos no interior, os gêmeos logo nos recebem com abraços e beijos. Eles parecem maiores e isso me fez perceber o quanto estive distante nos últimos meses.
Ao verem o Toddy eles ficam muito animados e logo dão um jeito de o levar para bem longe para brincarem.
Maria Eduarda com sua barriga grande como uma melancia nos conduz para dentro da mansão, onde o Pedro está nos esperando na mesa, com um grande café da manhã.
— E para quando é o bebê? – Felipe pergunta, com um sorriso satisfatório.
Só de tocar no assunto me sinto impulsionada a contar para eles que o nosso bebê também está por vir, mas que vai demorar um pouquinho para chegar.
— Está previsto para o final do mês que vem. – responde a Duda com um sorriso largo. — Não vemos a hora.
Questionamos porque eles optaram por não saber o sexo do bebê e conversamos mais sobre isso por um longo tempo.
Enquanto o almoço está sendo preparado, minha prima e eu ficamos lá fora perto da piscina, tagarelando sobre nossas vidas e aproveitando o lindo dia do sol.
As crianças continuam a correr de um lado para o outro com o Toddy na frente.
Pedro e Felipe ficaram lá dentro, na sala de jogos, fazendo o que eles mais gostam de fazer: jogar videogame.
A uma da tarde nos reunimos para o almoço e nem mesmo nessas horas os gêmeos ficam quietos, o que deixa a Maria Eduarda furiosa, mas o Pedro tenta dar uma forcinha.
Mais tarde, os gêmeos sugerem para nos jogarmos na piscina. Maria Eduarda adora a ideia e até me oferece um dos seus biquínis e maiôs, já que não pensei em trazer os meus. Mas eu nego, porque sei que assim que ela vê minha barriga mais cheinha, mesmo que ainda não tão grande, ela irá desvendar esse grande mistério.
— Não posso. – minto. — Estou naqueles dias.
Ela compreende e então eu fico de lado, sentada com o Toddy na sombra, enquanto todos, inclusive ela com seu gigante barrigão, aproveitam a piscina.
Felipe não tira os olhos de mim, mesmo quando os gêmeos insistem em ter total atenção dele.
O dia foi extremamente prazeroso, tivemos tempo para conversar muito, matar a saudade e nos divertir. Mas com o cair da noite, Felipe e eu tivemos que nos despedir. Infelizmente.
O Toddy chegou muito sujinho em casa e eu garanti que aproveitaria a tarde de folga na segunda-feira para leva-lo ao pet shop.
Muito cansados, fomos dormir cedo aquela noite, assim que chegamos em casa. E dessa vez nada de acordar de madrugada para fazer vocês-sabem-o-quê.
Quarta-feira, o dia mais esperado da semana, enfim chegou.
Nem fui para empresa pela manhã de tão ansiosa que eu estava. Felipe me ligou assim que pôde enfim sair do trabalho mais cedo para me acompanhar até obstetra.
Já na clínica, tivemos que esperar por pelo menos dez minutos, em que ambos ficaram calados e mudos. Pois imaginei que ele, assim como eu, estava ansioso e a o mesmo tempo nervoso demais para explicar o que estávamos sentido.
— Bianca Vasconcelos? – chamou o médico do corredor.
Felipe e eu nos levantamos imediatamente e o seguimos até sua sala, que era muito branca e ampla e tinha um cheirinho muito bom de lavanda, o que deixava as coisas um pouco mais tranquilas.
Primeiramente o médico se apresentou. Chamava-se Hélio e tinha 14 anos de experiência na área. Ele me parecia bem confiante, além de muito bom de papo. Também muito amigável e simpático. Tratou não só a mim muito bem, como também foi muito cordial com o Felipe.
Conversamos um pouco sobre o estágio que se encontrava a minha gravidez. Tudo que eu sentia, desejava, pensava e ele também tirou algumas dúvidas minhas e do Felipe. O doutor Hélio fez diversas anotações durante toda a conversa.
Por fim ele me levou a uma outra pequena salinha com alguns aparelhos esquisitos do qual eu desconheço totalmente o nome e a função. Eu vesti aquela espécie de pijama hospitalar e depois me deitei em uma cadeira toda elaborada com a ajuda do Felipe.
O doutor educadamente abriu a parte da frente do meu pijaminha e depois depositou um gel bem geladinho sobre a minha barriguinha estufada de apenas poucos meses. Em seguida ele pegou um aparelho que parecia um massageador estético e pressionou sobre o gel em movimentos circulares.
— Pode ser um pouco cedo demais para descobrirmos o sexo, mas pelo menos poderemos saber como vai a saúde do bebê. – disse o médico com um sorriso gentil, com os olhos vidrados em uma telinha pequena ao lado da cadeira na altura de seus grandes olhos azuis-acinzentados.
Não sei como ele conseguir distinguir alguma coisa naquele monitor, porque eu não via nada além de borrões escuros que pareciam se movimentar. Pela expressão do Felipe ele se encontrava na mesma situação que eu. Mas pelo menos o médico tentava ao máximo nos explicar em palavras tudo que ele via e encontrava pelo caminho com seu aparelho e o gelzinho.
— Bom, vejo que é um dia de sorte para vocês. – ele virou-se para nós dois. Felipe estava do meu lado oposto, segurando firme a minha mão. — Querem saber o sexo?
— Já é mesmo possível saber? – perguntou o Felipe, curioso e animado. — Claro, claro. Pode dizer...
— É uma menininha muito saudável.
A reação do Felipe foi muito melhor que a minha, pode apostar. Primeiro ele arregalou os olhos com a boca aberta. Depois levou a mão até o rosto, então vi seus olhos levemente marejados de emoção.
Meu coração batia forte no peito.
Saímos da clínica, alguns minutos depois, de mãos dadas e sorrindo muito. Felipe olhava para mim e eu olhava de volta para ele. Ambos sem palavras, apenas sorrindo feito bobos.
Fomos tomar açaí em uma lanchonete simples do outro lado da rua. Ficamos ali, sentados na área externa do estabelecimento, conversando, idealizando o futuro e fazendo pequenos planos.
Na sexta-feira à tarde a Gabriela foi me buscar na empresa para irmos escolher o vestido de casamento dela. Eu fiquei tão empolgada que não me importei em deixar tanto trabalho de lado para ajudá-la naquela tarefa. Afinal, minha função como madrinha era justamente essa.
— Será que eu posso chamar a Luiza pra ir com a gente? – perguntei, já na recepção na empresa. — A coitadinha anda tão sobrecarregada de trabalho ultimamente. Eu queria dar um dia de folga a ela.
Gabriela concordou e isso me deixou ainda mais empolgada para o nosso programinha de hoje. Pedi para a secretária da recepção ligar para a sala da Luiza para eu poder falar com ela.
Ela topou na hora e desceu cinco minutos depois para ir com a gente.
Quinze minutos chegamos na loja dos sonhos de qualquer noiva. Planejar um casamento tinha lá suas dificuldades, mas poder ver tudo assim tão de pertinho era tão gratificante.
Gabi foi direcionada a uma parte da loja nos fundos cheia de vitrines com vestidos expostos e araras para que ela pudesse sentir o tecido e verificar a costura da peça.
Luiza e eu fomos direcionadas a outra parte da loja, um lugar com paredes de espelhos que iam do chão ao teto, onde havia também sofás, revistas e champanhe.
— Eu não posso beber... – disse á vendedora que estava sendo tão boazinha com a gente.
— Você aceita alguma outra coisa? Água? Suco? – ela perguntou com um sorriso agradável.
Aceitei o suco. E ela também ofereceu alguns cookies.
— Me ajudem a escolher um desses vestidos aqui. – Gabriela surgiu de repente, segurando dois vestidos em cada mão.
— Mas... – franzi o cenho. — Você não vai se casar de branco?
— Ah, não. – Gabi riu, se aproximando para mostrar de perto os vestidos. — Casar de branco é tão tradicional e cafona.... Acho que um desses aqui tem mais a minha cara. O que vocês acham?
Um dos vestidos eram longos, lisos e de um violeta bem clarinho e não se parecia nada com um vestido de noiva, desses de princesa, que a maioria das mulheres sonham em ter.
O outro era mais curto, de um azul muito escuro, que mais parecia preto. A saia era bem soltinha e esvoaçante. A parte de cima tomara-que-caia com algumas pedras bem discretas.
Eu não sabia se ria, sem saber se ela estava ou não falando sério em não se casar de branco como qualquer outra mulher. Ou se chorava de decepção, por ter imaginado algo completamente diferente.
Mas afinal, estávamos falando da Gabi, uma mulher que sempre teve um estilo bem peculiar, único e original. Jeans rasgados, regatas largas, sutiãs pretos a mostra, maquiagem forte e sapatos velhos.
— Eu gostei mais do primeiro. – Luiza foi a primeira a dizer alguma coisa. O que me fez despertar do meu choque.
— É... Eu também. Eu acho.
Acho que a minha expressão de espanto diz tudo, o que faz as duas rirem de mim.
— Você não achou que eu ia...? – perguntou a Gabi, deixando o segundo vestido de lado para analisar mais o primeiro.
— Na verdade... Eu achei que...
Ela caiu na gargalhada, novamente. O que me fez rir também da situação. Meu Deus, eu era tão inocente e boba!
— Gostei mais desse também. Mas e vocês, não vão procurar algo? Olhem só em volta, vejam quantas opções para todos os gostos e tamanhos!
Preparei para me levantar e ir procurar algo que me agradasse em meio a tantas opções pelas quais eu me apaixonei mesmo de longe, quando a Gabi me impede com um gesto.
— Eu já escolhi o seu. Agora só falta provar.
Abri a boca para argumentar...
— Você vai gostar. Ele é a sua cara! E não se esqueça, eu sou a noiva aqui, então eu escolho que jeito eu quero que as minhas madrinhas apareceram no dia do meu casamento.
Fomos até o provador. Retirei a roupa que eu estava vestida com certa apreensão. E se eu não gostasse do vestido que ela já tinha escolhido para mim? Será que eu teria coragem de usa-la só para agrada-la? Ou será que eu seria capaz de dar a minha opinião e dizer que não tinha gostado e gostaria de poder escolher algo melhor?
— Aqui está o vestido, senhorita. – a vendedora entrou no grande provador carregando um vestido maravilhoso, que me deixou até um pouquinho emocionada, sem conseguir acreditar que era mesmo real.
Era tudo tão perfeito: o corte, a renda, a costura, a cor....
As meninas me ajudaram a experimentar o vestido. A vendedora junto a uma costureira da loja foram fazendo várias anotações em um caderninho. Afinal, ele já estava um pouquinho apertado para mim, imagine só daqui algum um tempo, no dia do casamento...
O bebê está crescendo tão rápido!
— Luiza, pega o meu celular dentro da minha bolsa?
— Para que? – a Gabi perguntou.
— Ué, pra eu tirar uma foto pra mostrar para o Fê...
— Não! – as duas gritaram ao mesmo tempo.
— Porque, gente? Não estou entendendo...
— Porque não fazermos uma surpresa? – sugeriu a Luiza.
— Mas...
— É, isso mesmo. Uma surpresa! Imagine só a carinha dele quando te ver usando essa maravilha aqui.
Eu fiquei me olhando no espelho durante vários minutos, me analisando por vários ângulos. E apesar de a gravidez ser um pesadelo para muitas mulheres que temem as modificações de seu corpo, a coisa que mais estava gostando em mim era o volume da minha barriguinha.
Ainda não conseguia acreditar que ali dentro eu carregava um bebezinho e que o pai era o Felipe.
Depois de ajudarmos a Luiza a escolher um vestido, nós saímos da loja, já era noite, e resolvemos sair para jantar fora.
Aproveitei a oportunidade para contar a ela, somente a elas, as únicas que sabiam da gravidez, o sexo do bebê.
As duas ficaram tão empolgadas que fizeram um brinde e todos em volta ficavam olhando para gente, curiosos para saber o porquê de estarmos fazendo tanto barulho.
Gabi nos deixou em casa e depois seguiu seu próprio caminho. Enquanto observava seu carro desaparecer no final da rua, fiquei imaginando o quanto ansiosa ela estaria para o dia do casamento.
Quando entrei em casa me deparei com a cena mais fofa do mundo.
Estava tudo escuro, mas a televisão estava ligada em um canal aleatório. Felipe estava dormindo no sofá, todo largado. No chão estavam espalhados vários trabalhos da faculdade de seus alunos, que provavelmente ele estava corrigindo antes de pegar no sono. E o Toddy também estava dormindo, todo encolhidinho, sobre o peito do Felipe, que descia e subia calmamente.
Pensei em tirar uma foto para guardar aquele momento para sempre, mas acabei apenas me aproximando devagar e sem fazer barulho para não os acordar. Ajoelhei-me no chão, ao lado do sofá e fiquei olhando para eles mais de perto.
Não resisti e inclinei para beijar o Fê, que foi quando ele despertou e ao me ver abriu um sorrisinho.
— Que bom que você chegou. – ele me puxou, espantando o Toddy que também acordou com o barulho e nós nos beijamos pra valer.
Depois eu tirei minhas sapatilhas e deitei-me ali com ele, mesmo o espaço sendo tão apertado para nós dois. Felipe me abraçou e ficamos assim, de conchinha.
E a única coisa que importava é que estávamos juntos e não importava o quanto meu dia havia sido agitado, porque eu sempre estaria pensando nele e aguardando ansiosamente a hora de voltar para casa para estar com ele.
Fale com o autor