Notas iniciais
Enfim o Fê descobrirá o que está acontecendo com a Bianca.

Meus dias têm sido bastante agitados.

Cansei de ficar me remoendo pelos cantos. Infeliz e triste por estar com saudades da Bianca. Sim, ela continua lá, bem longe de mim. Mas ela vai voltar. Eu sei que vai voltar. E estará pronta para mim e voltaremos a ser felizes.

Pensar positivo é o que me reanima todos os dias e me faz querer continuar, por mais que as coisas não estejam saindo exatamente como eu gostaria.

Tenho aproveitando bastante o meu tempo livre para passar um tempo com os meus pais, com os meus amigos, focado no trabalho, dar atenção ao Toddy, cuidar da casa e até mesmo um tempo comigo, sozinho, colocando a cabeça em ordem.

Ontem à noite, por exemplo, aproveitei a sexta-feira livre depois do trabalho para me encontrar com a Gabi e o Rafa em um barzinho no centro da cidade. Nós bebemos, nos divertimos, conversamos e até cantamos no em um karaokê. Rimos à beça. Mas o mais importante: conversamos sobre os meus planos para quando a Bianca voltasse da França.

Hoje eu acordei cedo, dei uma organizada na casa e depois saí para correr com o Toddy na praça no condomínio. Mais tarde liguei para minha mãe e a convidei para almoçar no shopping, depois fomos ao cinema e assistimos a uma comédia romântica.

Depois do filme nós demos uma volta no shopping, conversamos e entramos em inúmeras lojas. Aproveitei a oportunidade para presenteá-la. Fazia um bom tempo que eu não dava algo especial para minha mãe sem que fosse alguma data especial.

Ao cair da noite eu a deixei em casa. Voltei a ligar para Luiza, mas só dava caixa-postal. Lembrei que precisava fazer umas comprinhas lá para casa. Então fui no mercado e enchi o carrinho de besteira e um pacote gigante de ração para o Toddy.

Já em casa, mais tarde, tomei um banho, vesti um pijama velho e preparei um sanduíche para eu comer. Toddy e eu ficamos sentados no sofá, assistindo um programa bobo de comédia, daqueles que passam todo sábado a noite.

Olhei para o lado e vi que meu celular se encontrava em cima da mesinha ao lado do sofá. Pensei em ligar para Bianca. Mas tinha receio que ela estivesse enjoada ou cansada de ouvir a minha voz, já que eu ligava para ela todos os dias para saber como as coisas estavam. Eu já tinha ligado ontem depois que cheguei da casa da Gabi e ficamos um bom tempo conversando, então resolvi dar uma folga a ela hoje.

Notei que a Bianca andava com uma voz muito estranha nas últimas semanas, mas talvez fosse só coisa da minha cabeça e eu estivesse inventando coisas. Ou ela só estava muito cansada ou ocupada, aproveitando seu tempo com seus pais.

Por muitas vezes eu quis perguntar quando ela prendia voltar para casa, mas no final eu sempre acabava desistindo. Não queria assusta-la, nem afastá-la, nem irrita-la. Só queria que ela estivesse feliz, onde quer que estivesse e que voltasse apenas quando se sentisse pronta. Porque sinceramente, eu já estava cansado das coisas darem errado nas nossas vidas.

A campainha tocou naquele exato momento e eu quase dei um pulo do sofá, assustado. Não estava esperando visitas. Mesmo assim me levantei e fui até a porta.

E era só a Luiza, parecendo muito afobada.

Assim que abri a porta ela entrou com tudo.

— O que aconteceu? – perguntou ela, virando-se para mim e parecendo bastante preocupada. — Você está bem? Vi que me ligou muitas vezes, desculpa não ter podido atender...

— Não precisa se preocupar. – solto um risinho. Fecho a porta e volto para o sofá. Toddy olha para a gente, curioso. — Não aconteceu nada e eu estou bem. Só queria mesmo conversar.

— Ufa. – ela relaxou, parecendo bem mais aliviada agora. Luiza se sentou perto de mim. — Você me deu um susto danado!

Nós rimos.

— Você que é sempre neurótica.

Ela me deu um tapa no braço, rindo.

— Estou com fome! Tem alguma coisa pra eu comer aqui?

— Pra sua sorte, tem sim. Fui ao mercado hoje. – então me levantei e segui até a cozinha com ela atrás. — O que você quer?

— Não sei... Qualquer coisa. Que tal um sanduíche igual a esse aqui na sua mão?

— Opa. Pode ser! Só um minutinho.

Rapidamente preparo um sanduíche como o meu para ela, só que muito mais caprichado. Voltamos para o sofá, agora com dois copos grande com refrigerante bem gelado.

— Falou com a Bia hoje? – ela perguntou, depois deu uma mordida grande no seu sanduíche e pela expressão parece ter aprovado minha pequena especialidade.

— Hoje não. Vou deixar para ligar pra ela amanhã. Mas porque? Você falou com ela hoje?

— Falei. Mas foi coisa rápida. Só queria mesmo saber como estavam as coisas com ela e com o... – subitamente ela se cala, como se estivesse prestes a falar mais do que deveria. — Enfim... O que você queria conversar comigo mesmo?

Ignoro a parte de mim que ficou curioso para saber o que a Luiza esteve tão perto de dizer e tento me concentrar no verdadeiro motivo de ela estar aqui essa noite.

— Então...

Mesmo enquanto comemos conto a ela exatamente tudo que eu tenho em mente a respeito de mim e da Bianca. Tudo que eu pretendo fazer, tudo que eu tenho planejado e conversado com a Gabi nos últimos meses.

Todos os passos para reconquistar a Bianca.

Luiza me ouve calada e vez em outra arregala os grandes olhos verdes, parecendo verdadeiramente impressionada com cada palavra minha.

— Não acredito! – ela praticamente grita, assustando a mim e ao Toddy. — É sério isso?

— E por acaso eu sou o tipo de homem que fala alguma mentira? – brinco e novamente ela me dá um tapa, rindo.

— Nossa, Felipe. Dessa vez você me surpreendeu! Nossa, isso é demais. Claro que eu estou totalmente de apoio e vou ajudar no que for preciso. Nossa... – os olhos dela brilhavam. Ela estava tão empolgada! — Você é um fofo! O melhor homem que a Bianca poderia ter encontrado.

As palavras dela me fazem corar de constrangimento.

— Obrigado, eu acho. – sorrio, sem jeito. Mas então me lembro de algo importante. — Mas por favor, você não pode contar nada disso a ela. Nem a ninguém! É surpresa.

— Claro, claro. Entendi. Com certeza eu vou manter o bico fechado. – ela bate palmas e dá pulinhos no sofá. — Só quero ver a cara da Bianca quando ela descobrir... Ainda mais agora que ela está esperando um filho se... – rapidamente Luiza leva a mão a boca. — Ops! Acho que falei demais...

Fiquei pelo menos uns cinco segundos parado, sem entender absolutamente nada. Até que as palavras foram absorvidas dentro do meu cérebro.

— Nossa, já está tão tarde. Eu preciso ir! – Luiza se levanta, deixando seu copo vazio sobre a mesinha. — A Nati está me esperando em casa. Eu realmente preciso muito ir agora...

— Nada disso. – puxo a pelo braço antes que ela escape e seja tarde demais. — Agora você vai ter que me explicar essa história direito, Luiza.

— Não tenho nada para explicar. – diz ela, desviando o olhar. Ela parece muito nervosa. — Eu só falei mais do que deveria. Foi um erro. Eu sinto muito! Mas eu não posso, Felipe. Eu prometi a ela que jamais diria nada.

Luiza se solta de mim e praticamente corre até a porta, mas eu sou mais rápido e me coloco diante dela, impedindo-a de sair.

— Por favor, Luiza. Só me ajuda a entender que história é essa. Eu não entendi nada. O que você quis dizer com...?

Ela suspirou fundo e revirou os olhos.

— Vocês homens são sempre tão lerdos e ingênuos. – ela bufa, impaciente. — Minha nossa, a Bianca vai me matar. Mas agora já é tarde demais, eu dei com a língua nos dentes... – Luiza passa a mão no rosto, nervosa. — É isso. É exatamente o que você ouviu. A Bianca está gravida. Pronto. Satisfeito? Agora me dê licença. – ela me deu um empurrão. — Eu preciso ir.

Ainda estou chocado demais para entender tais palavras enquanto observo a Luiza correr até o carro e dar uma arrancada e sumir de vista na primeira esquina.

Tranco a porta e desabo no sofá. Pensativo. Estou tentando assimilar tudo que acabei de ouvir nos últimos dez minutos. Mas não consigo entender. Acho que estou apenas sonhando e quando eu acordar amanhã isso só vai ser uma coisa da minha cabeça.

A Bianca... grávida?

Essas palavras mal conseguem sair da minha boca e meu cérebro está um emaranhado de informações de todos os tipos.

Eu quero acreditar, mas não consigo. Acho que tudo isso não passou de um simples engano. E se for brincadeira? Ou uma piada? Não pode ser real. Não com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo.

Pego meu celular sobre a mesinha e ligo imediatamente para a Bianca. Quero que ela me explique o que está acontecendo em detalhes. Ligo para ela sem parar. Mas ela não me atende. Na certa deve estar dormindo. Pois a diferença dos fusos horários são de quase cinco horas.

Por fim, acabo deixando pra amanhã. Mesmo contra a minha vontade. Também não consigo voltar ao que estava fazendo. Nada parece fazer sentido. Nada me tira da cabeça o que a Luiza sem querer deixou escapar.

Subo para o meu quarto e vou dormir. Pelo menos tento dormir. Mas isso também não é mais uma tarefa fácil. Mil pensamentos passam pela minha cabeça naquele instante.

E se for verdade? E se ela estiver mesmo grávida?

Uma parte de mim fica contente com isso. Afinal, ter uma família, ter um filho agora, ainda mais com a Bianca — a mulher da minha vida — seria maravilhoso. Um presente do céu. Mudaria tudo em nossas vidas e com certeza para a melhor.

Mas uma parte de mim está furiosa. Perguntando-me porque então ela está escondendo isso de mim. Porque é que ela acha que eu não tenho o direito de saber. E porque ela se afastou nesse momento tão especial.

Eu tenho milhões de perguntas, que certamente vou ter que esperar para serem respondidas. Porque sim, eu vou confronta-la na primeira oportunidade que eu tiver.

Acabo pegando no sono de um jeito ou de outro. E naquela noite eu sonho com um rostinho de um bebê, que mais parece um anjo que caiu do céu diretamente nos meus braços. Mas ele não tem nada ver comigo ou com a Bianca. Ele é de outro homem. Mas quem? O que é estranho, porque ele é o nosso bebê.

Acordei assustado no domingo de manhã.

Meu telefone tocava sem parar.

Mesmo embriagado de sono estiquei-me para alcançar o aparelho telefônico em cima do criado-mudo.

Nem tive tempo de olhar quem era.

— Felipe, você tá bem? Você me ligou um milhão de vezes ontem. Desculpa não ter atendido.... Eu tive um longo dia com os meus pais e fui dormir mais cedo...

— Ah, oi Bia. – tento-me sentar e abrir os olhos.

Um segundo depois ela me pergunta:

— Aconteceu alguma coisa?

— Na verdade, sim... Eu queria te fazer uma pergunta...

— Então pergunte, ué.

Tentei raciocinar por um segundo. Tinha tantas coisas passando pela minha cabeça naquele instante. Tantas dúvidas torturantes. Medos, receios. E se eu tivesse apenas sonhado?

Bom, eu só saberia mesmo se perguntasse de uma vez.

— Bianca, você está... Grávida?

Ela ficou muda por alguns segundos.

— O quê?

— Sim, isso mesmo que você ouviu. – passei a mão pelos cabelos. — Eu estou perguntando se você está grávida?

— Ma-ma-mas Felipe... Como você soube disso?

— Ah, então é mesmo verdade? Você está grávida e escondeu isso de mim! Pior: fugiu de mim só para não ter que encarar a verdade. Porque, Bianca? Porque?

Novamente ela ficou muda, provavelmente apavorada do outro lado da linha.

Eu tinha a encurralado, não havia mais para onde ela fugir e nem se esconder. Era a hora da verdade.

— Me desculpe. – ela estava chorando. — Foi uma surpresa para mim também. Eu descobri naquele dia, no hospital, depois do desmaio. Eu não fazia ideia que... Eu não sabia como lidar com tudo aquilo. Eu precisava de um tempo, precisava pensar melhor sobre isso e principalmente: precisa aceitar que isso estava realmente acontecendo comigo mesmo estando na maior fase da minha vida. Você acha mesmo que foi fácil para mim esconder isso de você? Você acha que não é difícil me manter distante mesmo quando tudo eu mais quero é estar aí com você?

— Mas então... Então porque você fugiu? Porque foi embora? Porque não conversamos? Porque não me contou a verdade? As coisas poderiam ter sido mais fáceis. Eu poderia ter te ajudado! Eu iria de apoiar em qualquer circunstância. Você sabia disso! Eu sempre estaria ao seu lado. Sempre. No pior e nos melhores momentos...

— Eu sei. Eu sei! Mas isso não é tudo. Eu também estava sofrendo com um grande dilema na minha vida. – ela soluçava e meu coração se apertava cada vez mais. — E convenhamos que essa notícia não veio em uma das melhoras horas. Nós vivíamos brigando, nos desentendendo, cheios de idas e voltas.... Eu não poderia simplesmente jogar isso assim para você.

Eu queria poder estar lá com ela. Na França, em Paris. Queria poder abraça-la e dizer que por mais decepcionado e furioso que eu estivesse, eu a perdoava e tudo ficaria bem. Nós daríamos um jeito nisso. Nós abraçaríamos, nos beijaríamos e por fim conversaríamos e resolveríamos isso de uma vez por todas.

Eu cogitei pular da cama, vestir uma roupa qualquer e ir correndo para o primeiro aeroporto. Eu precisava vê-la, eu precisava encontra-la, toca-la, senti-la. Mas havia muito mais coisas em jogo. Eu não podia deixar o Toddy para trás, o trabalho, a casa. Eu não podia fazer sempre tudo que eu queria.

Nem tudo se baseia em nós dois nesse vida.

— Temos muito o que conversar, Felipe.

— Então volte logo para casa. – meus olhos estavam cheios de lágrimas. Eu estava apavorado com essa situação toda. — Volte para mim. Eu estarei aqui, esperando por você.

Ela suspirou.

— Eu preciso desligar agora. O papai está me chamando. Ele prometeu me levar a um lugar muito especial essa manhã.

Antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela desligou e eu não tive muitas opções. Tive que me levantar, lavar o rosto, escovar os dentes, tomar um banho para tirar aquela tensão do corpo e descer para comer alguma coisa.

Enquanto preparava meu café da manhã ouvi a campainha tocar. Então pensei: quem poderia ser. Eu não estava esperando por ninguém.

— Olá, amigo. – Gabi me deu um abraço apertado. — Como vai?

Ela se afastou e me analisou, com o cenho franzido.

— Nem precisa me responder. Eu já sei. Olha só pra você... Está péssimo. – ela entrou, passando por mim e sentando-se no sofá. — O que foi? Que cara é essa?

Contei tudo a ela, em detalhes.

— Grávida? – ela berrou, surpresa. — E quem é o pai?

Por incrível que pareça essa pergunta me fez rir.

— Não seja idiota. – joguei uma almofada nela. — É claro que eu sou o pai. Ou acho que sou... Já nem sei mais...

Gabi riu.

— Nossa, como você é idiota. É claro que você é o pai. Só perguntei mesmo para quebrar o clima pesado. Afinal, quem mais seria? – assenti, concordando que ela tinha razão. — De qualquer forma, – ela se levantou e veio até mim. — meus parabéns, papai. Vocês vão ter um bebê! Isso não é maravilhoso?

Novamente ela me sufocou com um abraço de urso.

— Sai fora, Gabi. – digo, aos risos e ao mesmo tempo tentando me livrar de suas garras.

Vamos até a cozinha.

— Mas e aí? Os planos continuam os mesmos? Ou agora tudo mudou com a chegada do bebê?

Pensei em sua pergunta por um momento, enquanto bebericava o meu café.

— Não, não. É claro que os planos continuam. Mas sei lá.... As coisas mudaram agora com essa informação.

De repente uma enxurrada de dúvidas tomou conta dos meus pensamentos.

A ficha enfim pareceu cair.

Em alguns meses eu me tornaria pai.

Nós teríamos um bebê, uma família.

E eu nem sabia por onde começar.

Eu mal podia tomar conta de mim mesmo, imagine só de um bebê. Meu Deus! O que eu vou fazer da vida? Eu não sei um bom pai!

Será que existe algum tipo de manual por aí?

— Gabi, levanta já daí. – levanto-me, nervoso. — Vamos a uma livraria agora mesmo. Eu preciso de livros. Muitos livros.

— Livros? Livros para que Felipe? Não estou entendendo...

— Livros que me ajudem com esse novo dilema. – desesperado, olho para ela em busca de ajuda. — Eu não sei como é ser pai. Eu não sei como é cuidar de um bebê. Como eu posso ser bom nisso se eu não faço ideia nem de por onde começar? Meu Deus do céu.... Eu estou muito ferrado.

Gabi quase cai da cadeira de tanto rir.

— Felipe, você ficou maluco? – ela tenta se controlar, mas cada vez que olha pra mim tem uma nova crise de risos histéricos. — Qual é o seu problema? É óbvio -que você não vai encontrar todas as respostas de como-ser-um-bom-pai em livros. – ela se levanta e vem até mim, pousando a mão no meu ombro para me reconfortar. — Fica calmo, Fê. Vai dá tudo certo. Estamos todos aqui com você para te ajudar nessa. E além do mais, você não acha que a Bianca está tão perdida quanto você agora? Sabe, tudo que vocês precisam agora é um do outro. Do jeito que se amam, eu tenho certeza que serão os melhores pais desse mundo. Esse bebê tem muita sorte de ter vocês.

Notas finais
Tadinho do Felipe! Não foi fofo ele todo cheio de medos e duvidas? Vamos aguardar e esperar pra ver o que acontece no próximo capítulo que será narrado pela Bia e postado semana que vem. Ah, e eu quero que vocês me ajudem com esse grande dilema. O que vocês preferem: que o bebê seja uma menininha ou um menininho? Sei que algumas meninas leram um capítulo que eu postei por engano alguns dias atrás que dizia que era uma menina, mas a verdade é que eu não consigo me decidir sozinha. Deem suas opiniões, por favor. Me ajudem!