Notas iniciais
Esse capítulo é um daqueles que dá esperança ao que achávamos que estava perdido.

O tempo passou. O clima mudou.

É uma noite fria de sexta-feira e estamos sentados em frente à porta da casa da Gabriela.

Horas atrás, eu mal tinha saído do trabalho quando recebi uma ligação inesperada da Gabi me chamando para tomar uma cerveja com ela e o Rafael.

Eu, que há algum tempo não tinha nada para fazem além de trabalhar e dormir, achei que seria uma boa ir me encontrar com eles, colocar o papo em dia, dar risada e tomar uma cervejinha gelada. E o mais importante: sair de casa, deixar meus pais mais a vontade, longe do meu drama sentimental.

— Então quer dizer ela te deu um pé na bunda definitivo? – perguntou a Gabi, tirando sarro de mim pela milésima vez só aquela noite.

A aquela altura tanto quanto o Rafa já sabiam da historia toda.

— Mas você não desistiu, não é mesmo? Nosso plano ainda está de pé?

— Claro que não desisti. Vamos continuar com isso sim.

— Então porque você está demorando tanto? O tempo está passando, querido. Tá pensando o que? Que ela vai aparecer a qualquer momento dizendo estar arrependida e cheia de saudade e louca pra voltar com você?

— Ei, calma. Claro que não é assim. Já se passou um mês. É claro que ela não vai aparecer pedindo pra voltar. A Bianca já desistiu de mim há muito tempo. Acontece que eu quero fazer as coisas certas dessa vez. Sem pressa e com calma. Quero que tudo saia perfeito.

— Do que vocês estão falando? – perguntou o Rafa, voltando de dentro da casa da Gabi com mais três garrafinha de cerveja.

Após entregar uma para mim e outra para a Gabi, ele sentou-se ao lado dela, passando seu braço por cima de seus ombros.

Ainda não sei bem como foi que o pedido de casamento aconteceu. Eu também nem perguntei. Não é como se eu fosse xereta ou coisa do tipo. Eu só sei que o pedido aconteceu e a resposta da Gabi foi um emocionante “sim, eu aceito me casar com você amor da minha vida.”.

Mas como eles não têm pressa nenhuma de se casarem agora, a Gabi ainda mora com o pai na casa onde ela nasceu e cresceu com a família. E o Rafa continua morando sozinho em um apartamento mais perto do centro.

E pra ser sincero eles mal parecem noivos, apesar de ser evidente que estão mais conectados do que nunca. Isso pela forma que se tratam com aquela troca de olhares apaixonados e a constate troca de carinhos.

Nunca os vi tão próximos.

E fico feliz por eles finalmente terem se reencontrado pra valer. A Gabi e o Rafa sempre foram muito especiais para mim. E com o tempo se tornaram ainda mais significativos em minha vida. Ficamos mais próximos, mais amigos e compartilhamos tudo, alegrias e tristezas.

Para mim eles vão ser sempre aquele casal bobo de adolescentes apaixonados que vivem intensamente cada momento, apesar de já serem dois adultos maduros e responsáveis.

— Estamos falando do quanto o Fê fica péssimo sem a Bianca. Olha só pra ele! Ele está péssimo, você não acha?

— Pensei que fosse só eu que tivesse reparado nessa carinha dele de cãozinho abandonado.

Os dois riram, me fazendo rir também.

A coisa toda é séria. Eu ainda me sinto péssimo, deprimido e triste. Sinto falta da Bianca cada vez mais e o tempo não ameniza nada. Eu ainda a amo e tenho esperanças que ela ainda me ame também. Estou na mesma, aguardando que as coisas voltem a ser como antes, enquanto o tempo passa e a leva cada vez mais para longe de mim.

Acontece que quando estou sozinho é tudo mais intenso: a dor, a tristeza. Mas nas poucas oportunidades em que posso estar com meus amigos, sinto-me um pouquinho melhor, mais esperançoso e consigo até me distrair mais, sorrir, dar risada e não penso tanto como tudo parece errado e difícil.

— Parem de debochar de mim! – peço, dando um grande gole em minha cerveja.

Eles sorriem, trocando olhares cúmplices.

De repente, escuto meu celular tocando no bolso da calça jeans. A mesma que vesti para trabalhar naquela manhã. Antes de pegar o aparelho, sinto que meu coração começou a bater mais depressa, na esperança de que talvez pudesse ser a Bianca, querendo falar comigo, me ver, me encontrar...

Mas não. É só um numero qualquer desconhecido.

— Alô?

— Professorsinho?

Não preciso nem perguntar quem é: Valéria. E até hoje me pergunto como foi que ela conseguiu meu número. E porque ainda insiste em me perseguir se já deixei bastante claro que eu e ela é algo que jamais vai acontecer. Nem nessa e nem em outra vida.

— Garota, me deixa em paz, por favor.

Rafael e Gabriela olham para mim curiosos e chocados.

— Mas professor, eu só queria saber como você está nessa noite fria. Se o senhor tem alguma companhia para te manter aquecido...

— Isso não é da sua conta! – meio que gritei, bastante irritado. — Nunca foi e nunca será. Você não entende?

— Quem é, Felipe? – perguntou a Gabi, já quase tomando o meu celular das minhas próprias mãos.

— Não é ninguém. – digo, fazendo uma careta e afastando o celular da orelha. — É só um aluna minha que vive no meu pé...

— Daqui aqui esse celular, vai. – ela enfim conseguiu arranca-lo de mim, antes que eu pudesse dar qualquer resposta. — Alô? Quem está falando?

Houve um momento de pausa, depois uma risada sarcástica.

— Queridinha, você não se toca não, é? Cai fora! Sai do pé do meu homem, vagabunda.

E então ela desliga, entregando o aparelho de volta pra mim.

— Prontinho.

Olho para ela um tanto chocado. Já o Rafael não se aguenta de tanto rir.

A meia noite decido que é hora de ir embora. Já conversamos demais, já bebemos demais e já rimos demais. Além do mais, já é tarde. Tenho certeza que o pai da Gabi, mesmo lá em cimo em seu quarto, não vê a hora de que eu vá embora, para pararmos com toda aquela barulheira.

Em dez minutos eu chego em casa e apesar de já estar tudo escuro, a minha mãe está no sofá, cochilando e muito provavelmente esperando por mim.

Eu tinha avisado que sairia com meus amigos, mesmo assim ela fez questão de esperar. Quando eu era mais novo ela nunca fez muita questão de me esperar acordada. Agora que eu já sou um homem ela se preocupa demais comigo.

Talvez ela tema que de alguma forma eu faça alguma loucura, agora que a Bianca enfim me deixou.

— Mãe? – aproximo-me dela, cutucando-a de leve para despertá-la. — Ei, mãe. Eu já cheguei. Você já pode ir para o quarto.

Ela resmunga antes de dizer:

— Por onde você andou, meu filho? E porque demorou tanto?

— Mãe, não precisa se preocupar. Eu estava com a Gabi e o Rafa. Não foi nada de mais. Agora, vamos. Levante. Vou te acompanhar até o quarto.

Por ela estar meio zonza de sono eu a ajudei a caminhar até o quarto, onde antes de ela entrar e se juntar ao meu pai, ela beijou meu rosto e me deu um abraço apertado.

— Boa noite, querido. A mamãe ama você.

Minha mãe consegue ser ainda mais carinhosa quando está com sono. O que é engraçado de certa forma. Já que eu não tive nada disso durante toda a minha adolescência. Hoje em dia ela até passa além da conta nesse requisito.

Facilmente capoto em minha cama e durmo.

Acordo no outro dia somente com a voz da minha mãe me chamando. Mas dessa vez não é para o café da manhã não.

— Ei, filho. Tem alguém esperando por você lá em baixo.

Levanto contra minha própria vontade, imaginando que só pode ser a Gabriela e o Rafael, querendo me arrastar para alguma festinha logo cedo em pleno sábado.

— Mãe, você pode pedir pra esperar só um minutinho? Vou escovar os dentes e trocar de roupa.

Faço tudo isso em menos de dez minutos e desço até a portaria do prédio, onde dou de cara com ninguém menos que a Bianca, aguardando por mim sentada no hall de entrada do prédio que ela também costumava morar anos atrás.

— Bianca...?

Eu nunca imaginei que isso aconteceria nem tão cedo. Eu sempre achei que eu seria o primeiro a dar o primeiro passo na tentativa de salvar o nosso futuro juntos.

— Ah, oi. Você demorou.

E sabem do melhor? Ela estava com o Toddy nos braços.

— Desculpa, eu...

Não pude terminar de me explicar, pois o Toddy saltou com tudo dos braços da Bianca, pegando-a desprevenida e correu até mim, pulando e abanando o rabinho. Do jeitinho que ele fazia sempre que eu chegava do trabalho.

Alguns moradores do prédio nunca gostaram de bichinhos de estimação, por isso há uma regra de que não se podem ter animaizinhos no apartamento. Por isso, levamos o Toddy lá para fora, para a área de lazer do Toddy antes que o zelador falesse alguma merda.

— E então – volto-me para ela, com o Toddy nos braços enquanto ele lambe meus dedos e meu rosto, todo animado por me ver. — o que te trás aqui, assim, sem avisar?

— Desculpa, eu não queria atrapalhar. Mas na verdade eu precisava muito vir. Não só por você, por mim, mas sim pelo Toddy. Ele está muito estranho ultimamente. Não come direito. Não brinca, não quer nem sair de casa, vive deitado, me olhando com uma carinha infeliz. Pensei que fosse por sentir sua falta, por isso o trouxe aqui hoje para essa visita.

Então quer dizer que não era por mim?

Não pude deixar de me sentir decepcionada por ouvir isso.

Mas por outro lado contente, pois eu também sentia falta do Toddy, tanto quanto ele parecia sentir a minha.

Apertei-o contra o peito.

Bianca estava distante, apenas nos observando. E quando eu olhava para ela, ela desviava o olhar, constrangida.

— Ah, e eu trouxe também o resto de algumas coisas suas que pensei que você pudesse querer. Estão lá no carro.

Acompanhei-a até seu carro, estacionado em frente ao prédio. Ela abriu o porta-malas para mim. Passei o Toddy de volta para ela, ela o colocou no chão. Peguei algumas caixas nos braços que por sinal estavam bem pesadinhas.

— Olha, não precisava se incomodar...

— Não, sem problemas. Quer ajuda?

Ela pegou a outra caixa que sobrou e deu um jeito de fechar o porta-malas com a mão livre. Voltamos para o prédio, onde deixamos o Toddy com o porteiro, escondidinho em sua sala para ninguém sair reclamando depois.

Bianca se ofereceu para subir e me ajudar com aquelas caixas.

O silencio no elevador foi constrangedor.

— Você não quer entrar?

— Não, obrigada. Acho que você consegue carregar tudo sozinho a partir daqui. – disse ela quando paramos em frente a minha porta.

Tinha quase certeza de que ela não queria dar de cara com a minha mãe lá dentro. E pior: ficar sozinha no meu quarto comigo.

Ela me passou a caixa que segurava e abriu a porta para mim.

— Obrigado. Espere aí. Eu já volto.

Deixei as caixas no quarto e voltei correndo.

Minha mãe observa a minha pressa com curiosidade, até eu desaparecer lá fora, fechando a porta de novo.

— Obrigado por ter trazido as minhas coisas... E também o Toddy. Eu sinto muita falta dele...

...E de você também.

Quis dizer, mas não disse.

— Não foi nada. Agora eu já vou indo. Fiquei de me encontrar com a Luiza para irmos ao salão de beleza...

— Tudo bem. Então eu te levo até lá em baixo e aproveito para me despedir do Toddy uma ultima vez.

Seguimos juntos até o elevador.

Enquanto descíamos, novamente ficamos em um silencio absoluto. Coisa que começou a me deixar nervoso. Porque eu não queria que tivesse que ser assim. Afinal, eu tinha tanto há dizer e tanto o que perguntar. Então porque não aproveitar esse momento único?

— Como você está? – perguntei, chamando a atenção dela de volta para mim.

Bianca pareceu desconfortável com a minha pergunta. Como se ela fosse mais difícil de responder que todas as outras perguntas que eu poderia ter feito naquele momento.

— Bem. Eu estou bem.

— Bem? Só bem?

Ela me olhou de um jeito estranho, como se eu fosse um maluco.

— Eu não sei o que você quer que eu diga.

— O que eu quero saber é se você vive melhor sem mim...

— E porque você quer saber isso? – ela me interrompeu com um olhar fulminante. — Faria alguma diferença se eu dissesse que sim? Por acaso você correria atrás de mim para termos uma ultima chance? Porque mais parece que você...

— Então é isso que você quer que eu faça? – foi a uma vez de interrompê-la, surpreso. — Que eu vá atrás de você? Que eu não desista de nós? Porque eu pensei que você quisesse o contrário...

As minhas perguntas tiveram um efeito diferente sobre ela. Bianca parecia ter se dado conta que tinha acabado de falar uma grande bobagem e agora estava arrependida.

— Não, não foi isso que eu quis dizer... Eu só...

Virei-me rapidamente para trás e apertei o botão que fazia com que o elevador parasse. Nunca entendi muito a utilidade daquele botão. Mas naquele momento ele me seria muito útil.

Bianca olhava para mim assustada, como se a qualquer momento eu fosse partir pra cima dela e lhe agarrar

Coisa que de fato eu queria muito fazer.

— Eu não desisti de você, Bianca. E nem nunca vou desistir. Eu já disse um milhão de vezes: eu quero você. Independentemente se as coisas são difíceis ou não entre nós. Eu quero você. Eu sei que somos melhores juntos...

Digo tudo isso me aproximando lentamente dela.

— Então porque não me ligou nenhuma vez? Porque não apareceu lá em casa? Porque não me enviou uma carta ou mandou uma mensagem de texto? – perguntou ela, já com lágrimas nos olhos.

Mulheres são mesmo muito estranhas, pensei.

Peguei suas mãos e apertei de encontro ao meu peito.

— Porque eu quero fazer diferente dessa vez. Quero que dê certo, mesmo que pra isso eu precise ir com calma. E apesar de te conhecer há anos, ainda é muito difícil pra eu decifrar o que você sente, o que você quer... Eu não imaginava que você ainda me quisesse...

— Na verdade – ela desviou o olhar, fazendo algumas poucas lágrimas escorrerem de seus olhos verdes límpidos. Eu as enxuguei com os dedos. — eu não sei o que eu quero. É tudo tão complicado pra mim! Eu tenho tantos medos e receios...

Antes que ela pudesse continuar, eu a puxei para junto de mim e a beijei para que ela pudesse sentir um décimo do que eu sentia. Aquele calor, aquela paixão, aquela chama, o amor... A saudade. E ao contrário do que eu esperava, ela não me afastou e retribuiu ao meu gesto, passando os braços em volta do meu pescoço.

Eu entendia que ela estivesse com medo de não dar certo, de falharmos de novo, que as coisas não saíssem como o esperado. Eu entendia que ela tivesse receio de me aceitar de volta em sua vida, em nossa casa, mas no fundo, eu sabia que ela ainda me amava, agora tanto quanto antes.

Não só pela forma como ela me beijava, mas porque eu sei que um amor assim não se esquece da noite para o dia.

Com cuidado eu a encostei na parede fria do elevador, como nos velhos tempos, quando costumávamos nos agarrar no elevador antes de chegarmos ao meu andar, já que ela morava lá em cima, na cobertura.

E o nosso beijo passou a ficar bem mais intenso, bem mais quente e selvagem.

— Eu tenho que ir embora. – sussurrou ela, ainda com a boca colada na minha, enquanto suas mãos navegavam por meu peito, por de baixo da camisa.

— Não! Por favor. – com as mãos na base de suas costas, eu a puxei para mais perto, prendendo-a entre mim e a parede. — Fica mais um pouquinho... Só mais um pouquinho.

Ela sorriu em meio ao nosso beijo.

— Eu não posso. Eu juro. – disse ela de maneira provocante, invertendo nossas posições e me empurrando para a parede oposta onde estávamos.

Justamente onde ficava a porta do elevador.

— Então diga que poderemos nos ver novamente. – peço, quase implorando, sugando seus lábios macios. — Diga que poderemos nos reencontra. Por favor, diga. Eu preciso disso de novo, eu preciso de você. Eu sinto tanto a sua falta.

Sem que eu percebesse ela apertou o botão para que o elevador continuasse a descer.

— Eu não posso, Felipe. Não posso prometer nada. – disse ela, se afastando para ajeitar o cabelo e as roupas que eu baguncei. — Eu sinto muito. Mas eu ainda preciso de um tempo para descobrir o que eu quero pra mim.

Antes que eu pudesse protestar, o elevador parou e abriu as portas, já no andar térreo do prédio, onde o Toddy estava esperando por nós junto ao porteiro.

— Tchau, Toddy. Até mais amigão. – digo, abaixado ao lado dele enquanto acaricio seus pelos.

Pego-o no colo e dou ele para a Bianca que sorri, satisfeita.

— Tchau, Felipe. – então ela beija minha bochecha, pegando-me totalmente desprevenido.

Enquanto a observo partir, fico tentando decifrar o que aquele beijo no elevador e agora mais esse aqui na portaria do prédio significou para ela.

Será que teremos a chance de algum dia voltarmos a viver juntos e felizes?

Ela não pôde me prometer nada, nem mesmo se votaríamos a nos ver nos próximos dias. Mas de uma coisa eu tinha certeza: meu plano continuava de pé e logo menos eu coloria as primeiras ideias em ação.

Notas finais
Vocês imaginam o que será que o Felipe está aprontando dessa vez?