Notas iniciais
Resolvi adiantar esse capítulo para vocês, pois percebi que o capítulo anterior deixou vocês muito apreensivas e ansiosas. Então, aqui vai um capítulo novo para vocês com muito amor!

Peguei meu carro e fui direto para casa após a nossa “discussão”. Ou melhor, após ela ter me dado um tapa na cara no meio da rua. A Bianca só poderia estar ficando louca. Dizia coisas sem sentido, estava chorando com o rosto repleto de raiva e me olhava de um jeito muito estranho.

Eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Eu só queria acalma-la, leva-la para um canto e perguntar o que estava acontecendo, porque até então eu só estava muito surpreso por ela ter aparecido assim, sem avisar, no meu trabalho. Coisa que raramente acontecia.

Após ela ter entrado em um táxi sem me dar qualquer justificativa de sua atitude inesperada, fui para casa o mais rápido que pude, em busca de respostas. Mas chegando lá, ela não estava. O Toddy era o único a esperar por mim. Fiquei com ele ali no sofá, esperando por horas e horas, até ela aparecer.

Só que a Bianca não apareceu em casa aquela noite. E eu confesso que fiquei muito preocupado, tanto que mandei mensagens de texto sem parar para o celular dela. Telefonei e nada. Ela estava me ignorando, onde quer que eu estivesse. E a minha maior preocupação é que ela não estive muito bem por aí, fazendo sabe-se lá Deus o quê.

Passei a noite em claro esperando por ela e pensando onde é que eu tinha errado para ela voltar a agir assim comigo. Mas que eu me lembre, não tinha feito nada de diferente nas ultimas horas grave o bastante para levar um tapa e não ter qualquer resposta dela.

Mesmo não tendo dormido nada, fui trabalhar normalmente no outro dia. Bom, pelo menos tentei. Não parava de pensar onde a Bianca estava noite passada. Ou com quem. E porque não atendeu a nenhuma das minhas ligações. E a cada vez que eu tinha um momento de pausa, eu voltava a ligar pra ela.

Mas ela continuava sem me atender.

O dia se arrastou, até que com o cair da noite eu voltei pra casa e diferentemente do que eu esperava não encontrei a Bianca em casa. Nem sabia se ela tinha aparecido ou ido trabalhar. Já estava prestes a ligar para polícia, quando vi uma figura familiar encostada em um carro em frente de casa.

Gabriela.

— Ei, o que você está fazendo aqui? – perguntei ao me aproximar. Não pude evitar sorrir, fazia tanto tempo em que a gente não se via, assim, cara a cara.

— Esperando por você, babaca. – ela respondeu com um sorriso travesso, daquele jeito durão dela de sempre. Coisa com a qual eu já tinha aprendido a lidar.

Convidei-a para entrar.

Acendi as luzes e nenhum sinal da Bianca. Nem mesmo um bilhetinho. Apenas o Toddy eufórico por me ver.

— Que coisinha mais fofa é essa? – perguntou a Gabi, abaixando-se para fazer carinho no Toddy, que balançava o rabinho sem parar de um lado para o outro.

— Gabi, esse é o Toddy. Toddy, essa é a Gabi.

Segundos depois a Gabi sentou-se no sofá, como se fosse de casa, e o Toddy subiu junto, indo direto para o colo dela.

Ofereci água, café, chá, suco, refrigerante. Mas ela disse que estava bem, não queria nada por enquanto.

— E então, o que você faz aqui? Não lembro de você ter respondido a minha pergunta. – brinquei, sentando também.

A Gabi estava ocupada dando atenção para o Toddy e antes mesmo que ela pudesse responder a minha pergunta com uma resposta mal criada, a porta da frente se abriu.

Bianca.

Primeiro ela olhou pra mim, mas não sorriu, nem disse nada. E depois, virou-se para a Gabi e abriu um sorriso. Bianca se aproximou, falou com o Toddy antes de cumprimentar a Gabi.

Elas nem sempre foram muito amigas. Na verdade, anos atrás, bem no início da nossa amizade, as duas viviam discutindo por coisas bobas.

A Bia chamava a Gabi de “estranha”.

E a Gabi chamava a Bia de “patricinha metida”.

Elas viviam se alfinetando.

Depois as brigas passaram a ser mais intensas, quando a Gabi resolveu se vingar da Bia por estar ficando com o Rafael, por quem a Gabi sempre teve uma queda. Mas o Rafa sempre foi de todas as garotas. E depois ficou um pouco pior, quando a Bia descobriu que eu era apaixonado pela Gabi.

Mas quando tudo se acertou, quando eu descobri que na verdade amava era a Bianca e quando a Gabi e o Rafa tentaram se acertar, foi que as duas começaram a se entender melhor. E ficaram até bem amigas depois do problema da Gabi com as drogas e o álcool.

Coisa que ninguém esperava vindo dessas duas.

Hoje, elas continuam amigas. Todos nós continuamos amigos. Mas já não é como antes, claro. Cada um tem sua vida, seu trabalho, suas obrigações. Diferentemente de antes, agora passamos mais de meses sem nos falar. E quando voltamos a nos reencontrar, nem parece que se passou tanto tempo assim.

— Oi, Gabi. Quanto tempo! – elas se abraçaram. — Que bom que você está aqui. Mas que pena que eu não estou muito bem. – a Bianca faz uma careta, enquanto massageia as têmporas. — Você se importa se eu não pude participar dessa conversa? Não estou me sentindo muito bem, preciso descansar.

— Ah, não. Tudo bem. Vai lá descansar, vai. Eu é que apareci sem avisar. Mas não tem importância, vamos deixar essa conversa pra próxima. Eu juro que vou aparecer mais vezes agora.

As duas trocaram risinhos.

Depois a Bianca passou por mim sem nem me dirigir a palavra e desapareceu no andar de cima.

— O que aconteceu com vocês? – a Gabi sussurrou, inclinando-se na minha direção. — Vocês brigaram?

— Na verdade, eu não sei. Mas parece que sim. – digo. — Coisas estranhas têm acontecido entre nós ultimamente.

— Quer conversar sobre isso em outro lugar? – perguntou ela, ainda falando baixinho. — Podemos levar o... Toddy pra passear. Que tal? Lá fora está tão fresquinho.

Acabei concordando com a ideia dela. Afinal, coitadinho do Toddy. Tinha passado o dia todo trancado dentro de casa, provavelmente sozinho. Ele também merecia respirar ar puro.

Peguei sua coleira na dispensa e lá fomos nós.

— Então, me conta. Conta-me tudo, desde o começo. – pediu a Gabi, segurando o Toddy pra mim.

Começamos caminhando devagar pelas ruas vazias do condomínio.

Contei a ela tudo, desde o começo. Sobre a distância, sobre a frieza, as pequenas e grandes discussões, os desentendimentos, a fragilidade do nosso relacionamento, os segredos, os desencontros, as tentativas de reaproximação, os poucos momentos em que conseguimos ficar bem e sobre as constantes mudanças de humor e temporamente de ambos.

Foi uma longa conversa.

Eu fui o único que falei na maior parte do tempo. A Gabi ficou calada, me olhando, e escutando. E eu fui me abrindo cada vez, deixando a tristeza me invadir. Porque é fácil conversar com ela. Mas por pouco não chorei ali mesmo, no meio da rua, durante nosso passeio, onde o Toddy estava alheio a tudo isso, farejando tudo em volta.

— Olha, ela não é a única culpada em tudo isso. Você sabe, não sabe?

— Claro que sei. Eu erro muito também, todo o tempo. Que já nem sei mais quando é que eu acerto.

— Ai, não. Pelo amor de Deus, Felipe! Para com esse chororô. – paramos. A Gabi se virou se frente pra mim. — Levanta essa cabeça. Você não pensa em desistir, ou pensa?

— Olha, sinceramente, eu já nem sei mais o que eu quero...

— Não fala isso! – ela praticamente gritou comigo, o que foi assustador e um pouco engraçado. — Você não a ama? – assenti, olhando de volta para ela. — Há quanto tempo? Há quase nove anos, não é isso?

— Sim, quase isso.

— Então, se vocês chegaram até aqui mesmo depois de tudo isso, porque desistir agora? Porque nada parece dar certo? Porque vocês não estão felizes e confortáveis? Porque só tem brigas, problemas e desentendimentos? Porque não é mais como antes? Claro que não é. E nem deveria ser. Passou-se tanto tempo! Vocês não são mais dois adolescentes apaixonados, agora vocês são adultos, adultos compromissados... Mas que ainda assim têm uma ao outro. Ou eu estou errada?

— É, bom, não... Você está certa. Mas...

— “Mas” coisa nenhuma! – ela me interrompeu. — Sabe quem é o grande culpado de tudo isso?Você! Você é que está enrolando a garota há anos! Ou será que você não percebe? – ela revirou os olhos e bufou. — Ah, pelo amor de Deus, Felipe. Vocês homens são todos iguais!

— Não estou entendendo, Gabi...

— Claro que não está. Olha só onde as coisas foram parar. – ela suspirou, tentando se acalmar. Depois colocou a mão no meu ombro e se aproximou para olhar no fundo dos meus olhos. — Essa mulher quer ser sua pelo resto da vida e de mais ninguém. Entendeu? – fiz que não com a cabeça, o que tirou um pouco da paciência dela.

Estava começando a achar que a qualquer momento a Gabi iria me agredir ali mesmo.

— Ela está cansada de esperar uma atitude sua, Felipe. A Bianca olha em volta e ver que tudo está ganhando um rumo, menos o relacionamento de vocês. Estão todos casando, tendo filhos, enquanto vocês só namoram e moram juntos. O que você se esquece é que ela é mulher e que a maioria das mulheres sonham com casamentos, família e um relacionamento perfeito e estável. Mas quando ela viu que estava longe de ter isso, ela se afastou e resolveu focar na única coisa que obtinha resultados: o trabalho.

Parei para refletir sobre aquilo por um momento.

— Você está querendo dizer que...

— Sim, imbecil. Sim! É isso mesmo que eu estou querendo dizer. – ela me chocalhou como se eu fosse um boneco, coisa que até assustou o Toddy.

O Toddy olhava pra gente sem entender porque tínhamos parado no meio da rua durante o nosso passeio.

— Olha só pra mim. Porque você acha que eu vim até aqui hoje? Só porque eu tinha um leve pressentimento que as coisas entre vocês não estavam nada bem? Não! Não foi só por isso. Eu vim até aqui pra contar uma novidade. Mas a minha intenção era compartilha-la com você e com a Bianca. Só que depois que eu vi aquela cena alguns minutos atrás, eu me dei conta de que a Bianca não estava preparada para ouvir o que eu tinha a dizer.

— E o que é que você tinha/tem a dizer?

Foi então que ela abriu um largo sorriso.

— Você sabe que eu sempre fui louca pelo Rafael, não sabe? – assenti, porque sim, eu melhor do que ninguém sabia. Afinal, ela tinha me rejeitado porque gostava dele. — Eu só não sabia lidar muito bem com isso...

É verdade. Ela não admitia isso de jeito nenhum. E quando qualquer pessoa tocava no assunto, ela se ofendia facilmente. Afinal, não deveria ser nada fácil gostar logo de um cara que não quer nada sério com ninguém.

O Rafa sempre foi assim.

— Então, depois de anos tentando fazer isso da certo, após ele ter me rejeitado diversas vezes apesar de admitir de amar, nós ficamos noivos.

Ela estendeu o braço na minha direção, mostrando-me a aliança de noivado com um belo brilhante no dedo.

— O quê? – meu queixo quase caiu no chão de tão surpreso que eu estava com a novidade.

— Isso mesmo que você ouviu. Mas não crie muitas expectativas. – ela sorria, feliz da vida. — Um passo de cada vez. Ficamos noivos agora, mas provavelmente vamos nos casar daqui uns dez anos. – ela riu. — Bom, eu já esperei tantos anos para ficarmos juntos, porque não esperar um pouco mais para dividirmos o mesmo teto?

Nunca na minha vida inteira eu poderia ter imaginado que esse momento aconteceria.

Tá, tudo bem. Faz um tempo que eu sei que a Gabi e o Rafa estão tentando se resolver. Faz um tempo que eu sei que ele resolveu finalmente sossegar, após ter conhecido todas as mulheres do planeta e ter viajado para todos os países existentes. E faz um tempo que eu soube que a Gabi resolveu dar uma pausa no trabalho, no qual ela estava inteiramente focada.

E faz muito tempo que eu sei que eles são completamente apaixonados, só nunca souberam lidar muito bem com isso. Porque aconteceram tantas coisas ao longo do tempo, tantos desencontros e problemas. Que eles até chegaram se afastar, indo cada um para um lado, para viver suas vidas separados.

Mas eu nunca imaginaria que depois desse tempo todo, algum dia – apesar de torcer muito pelos dois – eles fossem se acertar de vez. E mais: se casarem e irem morar juntos.

— Nossa, Gabi. Parabéns! – abracei-a forte. Verdadeiramente contente. Fazia tempo que eu precisava ouvir uma notícia boa. — Que bom! Parabéns! Nossa, não sei nem o que dizer.

— Não precisa dizer nada. – disse ela, toda boba ao se afastar. — Eu só queria mesmo compartilhar isso com vocês.

Uma pena que a Bianca não estivesse aqui para ouvir também, sei que ela ficaria ainda mais chocada, mas também ainda mais animada e feliz por eles.

Pelos nossos amigos.

Os quais estavam todos tendo seus finais felizes.

Exceto eu. Exceto nós.

— Tive uma ideia! – disse a Gabi, me puxando de volta a realidade. Vire-me para ela, curioso. — Se você ama a Bianca, se você tem certeza absoluta disso, de quer viver para sempre ao lado dela e de que ela é a única mulher da sua vida, você precisa confiar em mim agora.

Pelos próximos minutos ela me contou qual era o plano. Ouvi tudo atentamente, prestando atenção em cada detalhe.

Às nove e meia voltei para casa com o Toddy. A Gabi tinha acabado de ir embora. Soltei-o e fui direto para a cozinha, onde peguei uma maça para comer.

Fiquei ali em baixo por um tempo, assistindo televisão junto com o Toddy. Mas não consegui prestar atenção em mais nada. Meus pensamentos estavam a mil e altos demais para me deixar prestar atenção em qualquer outra coisa.

Eu pensava em tudo que a Gabi tinha me dito. Pois, apesar de ela ter sido um pouco dura comigo, eu bem que merecia ouvir umas verdades. Estava mesmo precisando de uma sacudida. E ninguém melhor que ela para me fazer enxergar as coisas com outro ponto de vista.

Ela tinha razão em tudo que me dissera.

Só agora eu compreendia.

Fiquei tão acomodado com o rumo que esse relacionamento meu com a Bianca tomou, que eu não consegui por muito tempo – até agora – enxergar as coisas escondidas por trás de tudo isso.

Nós só namorados. Desde o quê... Os dezessete anos? Mas agora temos vinte e seis. Todos os nossos amigos em volta se casaram na igreja e no papel, diferentemente de nós, que tivemos a péssima ideia de virmos morar juntos, o que com certeza só atrapalhou e causou todo esse transtorno.

A maioria dos nossos amigos tiveram filhos. Coisa que eu sempre suspeitei que a Bianca fosse louca para ter, apesar de nunca ter me dito isso diretamente, com todas as letras. Mas quem não quer ter uma família?

Eu, particularmente, também pensei muitas poucas vezes a respeito. Mas se for pra analisar melhor as coisas agora, eu tenho total certeza de que sim, eu quero ter filhos. Muitos filhos, pelo menos três. Mas quero tê-los com a Bianca. A mulher da minha vida.

Então, porque não conversamos sobre essas coisas antes? Porque não nos planejamos melhor? Porque não compartilhamos nossos outros sonhos e desejos, além de ter uma carreira?

Agora, parando para pensar em tudo isso, vejo que não foi só o trabalho que nos afastou e esfriou essa relação. Foi também a falta de dialogo entre nós. E só agora eu percebo que há muitos mais buracos nesse namoro do que eu imaginava.

Mas eu quero concerta-los.

Quero tapar cada buraco desse relacionamento.

Nem que isso demore mais nove anos.

Sei que sou capaz disso.

E sei que não estou sozinho nessa. Eu ainda tenho os meus pais e os meus amigos, que com certeza me ajudariam se eu pedisse. Eles sempre estiveram ali, mesmo quando eu não precisei. Porque não estariam justamente agora?

A Gabi já tinha me dado uma grande ideia essa noite. Ela acendeu a minha mente. E não dei uma resposta exata pra ela, disse que iria pensar. Mas agora, após pensar em tudo isso, eu tenho certeza de uma coisa: não vou desistir. Eu vou tentar, tentar até conseguir. Vou aceitar a ideia dela.

Pego meu celular no bolso da calça e rapidamente digito uma mensagem de texto para ela onde eu escrevo:

“Eu topo sim. Vamos fazer isso, juntos.”

Dois minutos depois obtive a resposta:

“Saiba que para o que precisar nós estaremos aqui.”

Satisfeito com a expectativa nos meus próximos passos, desliguei a televisão e apaguei as luzes do andar de baixo. Subi para o quarto, onde tomei um banho, tentando ao máximo não fazer barulho para não acordar a Bianca que já estava dormindo.

Foi um banho demorado. Um banho quente. Um banho daqueles que leva tudo de ruim embora pelo ralo.

Quando saí do banheiro enrolado no meu roupão preto, vi que a Bianca não estava dormindo coisa nenhuma. Ela estava sentada na cama, esperando por mim.

— Precisamos conversar. – disse ela, quase como um intimado. O que me deixou completamente paralisado de medo e tensão.

Notas finais
Comentem. Não se esqueçam. Nos comentários vocês me dão muitas ideias, acreditem. Obs.: Apaixonada por esse gif do Toby/ Keegan do inicio do capítulo. Alguém aqui assisti Pretty Little Liars?