Notas iniciais
Olá, sejam todos bem-vindos. Primeiramente, gostaria de dizer que essa história é uma continuação de uma história minha já terminada. Meus antigos leitores sabem bem disso e isso só está acontecendo graças a eles. Mas você que é novo e está lendo isso nesse exato momento, peço que tenha calma. Você também pode ler mesmo que não tenha lido a história anterior. Apesar de ser uma continuação, ela acontecerá alguns anos depois e conforme eu for escrevendo vou tentar manter todos atualizados. Para quem já está a par de tudo, peço que tenha paciência, caso algumas coisas forem repetitivas. Bom, então é isso. Boa leitura a todos. E qualquer dúvida, podem me perguntar pelos comentários. Eu não me importo.

É sexta-feira, mas isso não faz de mim uma pessoa mais animada.

Há semanas eu não durmo bem. Ainda assim, acordo todos os dias às cinco da manhã para cumprir minhas obrigações. Mas não por mim e sim ao respeito que eu tenho pelos meus alunos.

Faz dois anos que estou dando aula de História da Arte nessa universidade no período da manhã e faz também duas semanas que tenho trabalhado em tempo integral para não ter que voltar mais cedo pra casa e encarar os meus próprios problemas ou para não ficar pensando o quão desprezível em venho me tornando como homem.

Aos meus dezessete anos, ainda no segundo ano do ensino médio, eu costumava ser uma pessoa melhor. Não daqueles que faz de tudo para chamar atenção, ter amigos ou levar a melhor em tudo. Eu costumava ser um garoto mais animado, cheio de vida, mesmo que falasse muito pouco e o mais importante: eu era mais esforçado.

Eu fazia de tudo para ser uma pessoa melhor: Não só para mim, é claro. Mas também com meus amigos, minha família, minha namorada, até mesmo como aluno. Era dedicado, reservado, atencioso, carinhoso e simpático.

Não que muita coisa tenha mudado, eu continuo sendo muitas coisas, as quais nunca poderia deixar de ser. Afinal, essa sempre foi a minha essência. Mas o tempo passou. Ah, e como passou. Hoje, aos meus vinte e sete anos, sinto que existe um lado meu que se tornou tudo aquilo que eu mais desprezava nas pessoas: arrogância, petulância, comodismo, cinismo, desaforo, desmotivação e descomprometido com determinadas coisas.

— Professor? – ouço uma voz a me chamar e me desperto.

Estava tão ocupado pensando no caos que a minha vida tinha se tornando no ultimo ano que acabei me esquecendo completamente que tinha passado uma atividade para os meus alunos da releitura de alguns capítulos do livro em que estávamos trabalhando que precisava ser entregue no final da aula.

— Terminei. – disse uma das minhas alunas, entendendo-me algumas folhas do seu fichário.

— Hum... Obrigado. – como era mesmo o nome dela? Fugiu-me completamente da memória. Mas tudo bem, não tem tanta importância. Essas coisas aconteciam comigo o tempo todo. — Vou corrigir e na próxima aula eu entrego.

Ela assentiu sorridente e voltou para seu lugar.

Dei uma boa olhada no resto da turma. Estavam todos quietos, sentados e copenetrados na atividade.

Um pessoalzinho no fundo conversavam baixinhos, com certeza não era sobre a atividade. Mas isso também não me importava. Éramos todos adultos, alguns tinha a minha idade ou eram até mais velhos e também eles já tinham plena consciência de que estavam em uma universidade, onde nada era necessariamente obrigatório.

Entregava a atividade quem quisesse ganhar pontos extras na média. Quem não quisesse? Nada eu poderia fazer.

Seis meses depois que voltei dos Estados Unidos – onde me formei em uma das universidades mais prestigiada do país – consegui um emprego para dar aula em uma escola estadual.

Não fiquei lá por muito tempo. Apesar de ter sido minha primeira experiência como professor e também uma das mais difíceis. Já não tinha começado muito bem e tirei um peso enorme das costas quando pedi minha demissão na esperança de conseguir algo melhor.

Eu dava aula de noite e por mais esforçado que eu fosse os alunos simplesmente preferiam fingir que eu não existia. Eu falava, eles não ouviam. Eu pedia atividades, eles não me entregavam. Eu reclamava, eles viraram as costas. Eu os aconselhava, eles não davam à mínima.

O colégio já não era um lugar muito bem estruturado. O prédio era antigo e precisava de uma manutenção urgente. Mas ninguém se incomodava, principalmente os funcionários. A diretora vivia saindo do colégio, como se não tivesse nenhuma obrigação. Boatos diziam que ela ia se resolver problemas pessoais que não estavam nenhum pouco relacionado ao colégio.

Quando eu ia a buscar de ajudar, para me queixar, para exigir melhorias, para conversamos sobre algo que pudéssemos fazer para o bem dos alunos, meus próprios colegas de trabalhavam balançavam os ombros e diziam com descaso:

— Deixa isso pra lá, amigo. Não vai adiantar. Eles não querem aprender. E, bom, quem se importa? Estamos ganhando nosso salário do mesmo jeito.

Eu não concordava com aquilo de jeito nenhum. E ficava muito irado quando ouvia algo assim. Afinal, eu não estava ali pelo dinheiro coisa nenhuma. Eu estava ali por amor à profissão que eu escolhi exercer.

Sentia que o meu dever ia muito além de ensinar. Meu dever era orientar aqueles alunos, adolescentes tão rebeldes e revoltados, para um caminho melhor. Para que um dia eles pudessem ir tão longe o quanto eu fui, apesar de não acreditarem muito nisso por viverem em um bairro pobre, repleto de dificuldades urbanísticas.

Sentia que eles precisavam de apoio, de uma orientação, de um base, de palavras sábias e motivação assim como as que eu tive na adolescência, para não se perderem pelo caminho errado e não se deixarem abalar por qualquer coisa.

Eu tentei, juro que tentei. Pensei em diversas maneiras de chamar a atenção daqueles alunos, inovando a cada aula. Mas o desinteresse deles acabou vencendo por fim.

Quando eu saí de lá, me senti um fracassado, um incapaz, totalmente falho em minha primeira missão.

Queria muito por ter feito coisa boas a quem mais precisava.

Chegando a casa, após meu pedido de demissão, pensei seriamente em desistir da minha carreira. Não tinha sido assim que eu tinha sonhado que as coisas aconteceriam. Mas naquele momento eu tive pessoas que estiveram ao meu lado quando eu mais precisava e que me motivaram a continuar.

— Não fique triste, por favor. – pediu a Bianca, passando as mãos reconfortavelmente em minhas costas, por de baixo da camisa. — Você tem que continuar! Imagine só quantas pessoas ainda precisavam de você. Você não pode desistir agora, não na primeira dificuldade.

Naquele momento, enquanto ela estava ao meu lado, eu a amei mais do que eu já amava. Estava grato por ela estar ali, mesmo tendo uma empresa gigantesca para administrar. Estava grato por ela dizer aquelas palavras de motivação, não sei o que teria sido de mim se ela não as tivesse dito. E estava grato por ela ainda acreditar em mim, mesmo que tivéssemos acabado de retomar um relacionamento após cinco anos separados.

— Eu amo você. – disse, com a mão em seu rosto. — Eu amo tanto você. – continuei dizendo, ao aproximar meus lábios dos dela. — Eu nunca deixarei de te amar. – disse por fim, antes de deita-la calmamente em minha cama.

Naquele momento nós fizemos amor. Pela primeira vez depois de anos. E eu senti, enquanto a tocava com carinho, enquanto a beijava desesperadamente com amor e paixão, senti que nada tinha mudado, nem mesmo com o tempo e as coisas continuavam as mesmas entre nós, como se nunca tivéssemos nos separado.

Foi como na nossa primeira vez. E ao olhar para ela, o brilho em seus olhos verdes, o desejo ardente em suas mãos percorrendo meu corpo e suavidade de seus lábios nos meus, eu tive certeza que ela sentia o mesmo por mim.

— Professor, o senhor vai fazer a chamada agora? – outra voz interrompeu meus pensamentos. Dessa vez era um homem, um pouco mais velho do que eu. Parado de pé, em frente a minha mesa, com uma folha estendida na minha direção.

Novamente estava tão absorto em meus pensamentos, que me desliguei por um momento do mundo real. Senti que por muito pouco eu não chorei diante de todos ali presentes.

Só de pensar que há alguns meses atrás eu me sentia vivo como nunca, sortudo e amado pela mulher mais incrível do mundo fez meu coração se apertar. Só Deus sabe como eu queria que as coisas estivessem assim agora, como antes, tão apaixonantes e mágicas. Mas muita coisa mudou desde então. Eu não era mais o mesmo, Bianca não era mais a mesma e o nosso relacionamento nunca esteve tão mal.

Balancei a cabeça, espantando novamente tais pensamentos. Olhei para o relógio em meu pulso que ela havia me dado no dia dos namorados no ano passado e vi que era quase meio-dia.

— Sim, vou fazer a chamada agora. – digo ao aluno que ainda esperava por uma resposta minha. — Pessoal? – levanto-me, chamando a atenção de todos os outros quarenta alunos. — Mesmo quem não tiver terminando a atividade, peço que me entregue agora nesse momento. Não tem importância.

Após ter a certeza que todos me ouviram, volto a me sentar. Então, todos de uma vez, vêm até a minha mesa, onde colocavam sobre ela suas folhas de maneira desajeitada.

Pego minha bolsa carteiro que está pendurada na cadeira em que estou sentado, deposito-a sobre a mesa, abro o zíper cuidadosamente e lá de dentro pego meu tablet. É ali que faço a chamada em todos os finais de aula.

— Atenção! Façam silencio, por favor. Vou fazer a chamada agora.

Dez minutos depois estão todos saindo da sala, as pressas, desesperados para irem embora após mais uma longa manhã.

Dou “tchau” para algumas alunas em especial, que estão espalhadas pelo corredor, que parecem me idolatrar, pela maneira que me olham, cheias de admiração. Prossigo meu caminho tentando sorrir ao máximo que posso para todos que cruzam comigo.

Deixo minhas coisas na sala dos professores, levando apenas meu celular e minha carteira no bolso do meu jeans.

É hora de almoçar.

Geralmente eu vou com alguns colegas de trabalho de carro almoçar em um restaurante famoso lá no shopping. Mas hoje, eu só quero ficar sozinho. Não estou me sentindo muito bem e não estou a fim de fingir que estou bem e que está tudo certo.

Vou caminhando até uma lanchonete ali não muito longe e sento-me no balcão, pois não há lugares vazios nas mesas. O lugar é super bem decorado, em tons claros, frequentado tanto por alunos quanto por funcionários da universidade.

Uma senhora gorducha e com um sorriso simpático se aproxima para perguntar o que desejo.

Peço um X-Burguer com bastante molho e uma cerveja.

Enquanto aguardo o meu pedido, pego meu celular no bolso da calça e dou uma conferida, para ver se não tem alguma mensagem. Da minha mãe, de algum amigo ou da Bianca. Mas nada encontro.

Lembro-me que no começo as mensagens eram constantes. Mais que da metade delas eram da Bianca. Sempre que ela arrumava um tempinho em meio aos seus afazeres, me mandavam diversas mensagens. Algumas dizendo como estavam às coisas por lá, outras perguntando como eu estava ou se tinha novidades e algumas com frases bonitas, que facilmente me arrancavam sorrisos.

Muito rapidamente a senhorinha que anotou meu pedido volta. Ela deposita em minha frente tudo que eu pedi com carinho. E eu agradeço por ser sempre tão bem atendido.

Então ela se vai, deixando-me em paz para comer.

— Olá, professor. – uma morena alta senta-se ao meu lado. Reconheço-a imediatamente. Ela se chama Valéria Sampaio. E é uma das minhas alunas mais dedicadas.

— Oi. – digo, tentando sorrir. Será que é pedir muito poder ficar sozinho pelas próximas horas de descanso? — Como vai?

— Melhor agora. – diz ela, sorrindo muito. Valéria é sempre muito provocante e chama a atenção onde quer que vá.

Ela é alta, morena, tem cabelos cacheados e volumosos, com algumas luzes loiras. Tem olhos negros marcantes. Veste-se com roupas apertadas que acentuam suas curvas.

— Mas e você, como está se sentindo hoje? – ela pergunta, inclinando-se para mais perto de mim. Fico nervoso e tento ir mais pra trás disfarçadamente. Mas é quase impossível não olhar para seu decote, que ela faz questão de mostrar.

— Bem. – respondo, voltando-me para meu lanche. Só quero que ela perceba que estou mais ocupado do que nunca. — Só estou cansado.

Antes que ela continue puxando conversa — que eu sei que é exatamente o que ela sempre faz — uma de suas amigas se aproxima e a puxa pelo braço.

— Olá, professor. – diz ela, de maneira apressada. Essa é mais baixinha, tem cabelos curtos de um castanho natural e olhos azuis. Eu realmente esqueci como ela se chama. São tantos alunos, tantos nomes! — Vem, Val. Estamos com pressa!

E lá se vão elas, graças a Deus.

Tomo um gole da minha cerveja.

Quando termino de comer, vejo que o tempo passou depressa e eu estou atrasado. Então preciso correr de volta a universidade a tempo de começar a aula da tarde.

Mais uma vez eu tento me esforçar, tenho me empenhar em meu trabalho, tento ser o melhor professor que essas pessoas já tiveram na vida. Mas quando a primeira oportunidade aparece e estão todos em silencio e ocupados com suas atividades, novos pensamentos surgem em minha mente.

Tento evita-los ao máximo que posso, ocupando-me na correção das atividades do pessoal da manhã. Mas nem isso é o bastante. E novamente eu penso que as coisas poderiam se melhores, se eu me esforçasse mais, só que nem tudo depende só de mim. Por um momento eu queria saber o se passa na cabeça da Bianca e saber quais são suas vontades em relação a isso tudo.

— Você já pode ir pra casa, Felipe. – pede a coordenadora do curso, Mariza, sempre tão preocupada e atencioso comigo. Ela já é velha. Deve ter lá seus cinquenta e poucos anos. Os cabelos já estão começando a ficar grisalhos e ela é extremamente magra. Mas tem um sorriso contagiante. — Não precisa ficar aqui até mais tarde.

Quase pergunto por que eu não posso ficar. Eu queria muito ficar. Assim eu só chegaria a casa por volta da meia-noite, quando a Bianca já estivesse dormindo ou chegaria um pouco antes dela chegar, tendo o máximo de tempo para poder evita-la e quem sabe até conseguiria dormir melhor essa noite – antes dela — após um longo dia, quando meu corpo já estivesse implorando para que eu parasse.

— Tudo bem, então. – pego minhas coisas no armário. — Então eu já vou indo. Até segunda-feira.

— Até segunda-feira. – diz ela, sorrindo um pouco. — Descanse. E tenha um bom final de semana.

Ah, isso eu duvido muito que aconteça.

Penso, mas não digo em voz alta.

Detesto ter que ficar me explicando para as pessoas, principalmente por motivos particulares.

Vou até meu carro, que deixei no estacionamento, sempre no mesmo lugar, no inicio da fileira.

Ligo o rádio antes de dar a partida. Está tocando uma música qualquer do tal de John Mayer, mas que rapidamente começa a mexer com meus sentimentos.

Sim, parece bobo. Mas ultimamente eu estou assim, sensível por tudo. E não demora muito para as lágrimas de frustração comecem a escorrer pelo meu rosto.

Em casa está tudo escuro e silencioso, como normalmente está. Após deixar as minhas coisas no lugar de sempre, na mesinha que fica no canto da sala, subo até o quarto.

Desde que entrei nesse trabalho novo há três anos, onde eu ganho bem, sou respeitado, tenho bons alunos e obtenho excelentes resultados como professor – enfim, um trabalho bem sucedido e dos sonhos de qualquer professor – eu e a Bianca decidimos morar juntos.

Não nos casamos nem nada. Ainda somos só namorados. Namorados que resolveram ir morar juntos, apenas.

Compramos a casa juntos, em um condomínio perto do centro da cidade. Não é só por luxo, é um lugarzinho distante, reservado, bem cuidado e protegido.

A casa é grande, contém o andar térreo e o andar superior. Temos uma sala enorme e muito bem decorada com cores alegres. Temos um televisor, rádio, DVD, sofás espaçosos, mesinha de centro, um tapete caro e enfeites em geral. Alguns bem pessoais, como porta-retratos e objetos que compramos em nossas primeiras viagens juntos ao exterior.

Temos uma cozinha toda em Inox, onde fazemos nossas refeições em família e que não é muito grande, devido ao pouco uso. A cozinha tem uma porta que dá pra os fundos, onde há um quintal com uma grande árvore, grama, piscina e um espaço para festas, com churrasqueira.

Temos uma dispensa, uma copa onde fazemos nossas refeições diárias, uma pequena biblioteca e um lavabo para as visitas. Tudo muito bem decorados e elogiados por quem nos visita.

Bianca quem cuidou de tudo isso.

Lá em cima temos nossa suíte, o maior cômodo, com um closet para cada um. Temos quartos de hospedes, uma sala de tevê mais íntima, dois escritórios, uma sacada e mais um banheiro.

Tomo meu banho tranquilamente, visto uma roupa mais leve para dormir e volto a descer para comer alguma coisa. Dessa vez, de frequência, algo mais resistente do que um lanchinho qualquer cheio de gordura.

Pego meu prato, meu copo cheio de suco de laranja e sento-me a mesa, sozinho.

São nove e meia, já lavei tudo que sujei, e jogo-me no sofá, onde resolvo ver um pouco de tevê. Mas nada me atrai. Então subo até o meu escritório, junto das minhas coisas, onde corrijo o resto das atividades dos meus alunos.

Às dez e meia, quando já estou terminando a minha correção, já estou morto de sono. Mas sei que ele irá embora assim que eu me deitar na cama.

Não tenho muitas escolhas. O corpo e a mente já não aguentam mais. Então vou me deitar. Apago todas as luzes da casa e me escolho de baixo do cobertor.

Realmente, estou tão cansado, que durmo no mesmo instante. Mas acabo acordado a meia noite, quando a Bianca chega a casa. Ela sempre chega muito tarde. Afinal, ela é ocupadíssima. Tem uma empresa imensa para tomar conta. Então, eu nunca a culpei. Sei que ela vive um sonho e não sou eu quem vai acabar com isso.

Não ouso a me mexer, nem a me levantar. Mas escuto muito bem quando ela se tirar as roupas do corpo e vai enrolada na toalha até o banheiro. Ela passa pelo menos vinte minutos lá, em sua banheira, relaxando o corpo imerso na água quente.

Continuo acordado, esperando ela sair do banheiro, coisa que acontece logo. Ela procura o pijama e o veste, tentando não fazer muito barulho para não me acordar. Não preciso olhar para saber que nesse exato momento ela prende os cabelos em coque, pronta para se deitar.

Então ela apaga as luzes – muito provavelmente já deve ter comido algo na empresa, por isso não desceu para jantar – e deitar-se ao meu lado.

Sei que ela hesita antes de fechar os olhos. E isso faz meu coração se partir mais e mais. Sei exatamente o que ela está pensando naquele momento. Mas somos os dois egoístas demais para fazer qualquer coisa.

Eu queria me virar para ela, toca-la, enquanto ela falaria como foi o seu dia por mais banal que tivesse sido. Do mesmo jeito que costumávamos fazer no começo. Então nos beijaríamos, mas não faríamos amor. Porque eu a respeitaria, por saber que ela estava cansada demais para fazer qualquer coisa. Eu mexeria no seu cabelo até ela pegar no sono e olharia para ela adormecida até que eu próprio caísse no sono.

Mas nada disso eu fiz, apesar de dividirmos a mesma cama e estarmos tão próximos, como sempre sonhamos. Nada disso eu faria e nem se quer me lembrava de qual tinha sido a ultima fez que tínhamos ficado assim, de maneira tão apaixonada.

Não demorou muito para eu ouvir os soluços, por mais baixos que fossem. Ela estava chorando, infeliz com o próprio rumo de nossas vidas.

E nada eu pude fazer enquanto ela soluçava. Porque eu me tornei um homem fraco, um covarde, uma pessoa fria. Sim, eu ainda tinha um coração que batia dentro do meu peito. Mas ele já não batia mais na mesma velocidade. Ele estava fraco, partido, despedaçado.

E tanto eu quanto ela sabia que éramos culpados por isso. Havíamos tomados decisões erradas, havíamos nos tornados dois acomodados, havíamos deixado outras áreas da nossa vida falarem mais alto. Havíamos errado de várias maneiras e agora não sabíamos concertar isso. Se é que havia alguma solução.

Bianca chorou baixinho, na esperança que eu não escutasse, até cair no sono. Ela sempre acabava dormindo, cansada de tanto sofrer. Mas eu não. Eu não conseguia mais dormir depois que ela chegava. Não depois de ouvir os seus soluços, não depois de sentir a sua tristeza, como se compartilhássemos um laço psíquico.

E é assim que o nosso relacionamento se tornou ao longo do tempo, totalmente frio e distante.

Todos os dias seguem da mesma forma.

E não há nada que eu consigo pensar nesse momento que possa melhorar isso.

Notas finais
Acho que já deu pra vocês perceberem que está história já não começou muito bem. Bianca e Felipe estão juntos há bastante tempo e estão passando por uma fase complicado em seu relacionamento. Vou falar mais sobre como eles se conheceram e como anda essa rotina no próximo capítulo, que será narrado por ela. Os capítulos normalmente serão todos assim, com narrações alternadas entre ele e ela. Espero que tenham gostando e não esqueçam de comentar.