Notas iniciais
Oi, oi gente. Bom, aqui vai mais um capítulo. Também não é muito empolgante como o anterior, na verdade, eles são até bem parecidos, só que tem pontos de vista diferentes. Meio tristes. Mas fiquem calmos, porque é só o começo. Pode ficar pior em alguns momentos, mas em outros as coisas vão dar uma animada, eu prometo. Já adianto pra vocês que a história é mais drama do que qualquer outro gênero, então preparem os coraçõezinhos.

Felipe e eu nos conhecemos no segundo ano do ensino médio. Fazíamos parte do mesmo grupo de amigos, mas não éramos necessariamente amigos. Ele falava pouco e era muito tímido. Aliás, foi isso que mais me encantou nele. Eu sempre fui mais desinibida e meu interesse por ele era algo que nem sempre eu conseguia disfarçar, apesar de controla-lo muito bem para não assusta-lo e afasta-lo de vez.

Enquanto eu dava um passo em sua direção, na tentativa de pelos menos sermos amigos – já que qualquer coisa vinda dele já era o bastante pra mim – ele dava dois passos para trás. Era visível que ele não ia nenhum pouco com a minha cara, pela maneira como ele me olhava, com certo desprezo. Mas isso não me incomodava, afinal, naquela época eu era muitas coisas, menos eu mesma.

Vivia tentando sempre ser o melhor para os outros. Magra, bonita, bem vestida, amiga, companheira. Eu fazia de tudo para chamar a atenção, eu queria ser a melhor, a quem as pessoas tivessem como referencia de beleza. Mas para isso, eu me esforçava muito: ia a festas, me socializava com as pessoas, dançava para os meninos, vestiam roupas caras e bonitas, mantinha meu cabelo impecável e meu rosto muito bem maquiado. E mais: tinha um caso amoroso com um dos meus amigos, o Rafael, o garoto mais popular do colégio e o mais cobiçado também apesar de saber que não sentíamos nada um pelo outro além de um carinho enorme.

Naquela época eu não me importava em ser superficial. Mas com o tempo nada daquilo parecia o bastante. Eu andava sempre com o coração vazio, apesar de tentar preenche-los de varias maneiras erradas que para mim pareciam muito certas.

Eu tinha um relacionamento péssimo com meus pais, que nunca estavam em casa para me apoiar em nada. E tinha uma péssima alimentação, tanto que me levaram a ter transtornos alimentares. Eu comi muito e fazia aquilo parecer normal, até que logo depois o arrependimento batia e eu saia correndo para colocar tudo pra fora, com medo de engordar e não ser mais a mesma para as pessoas.

Mas ninguém parecia enxergar meus problemas, principalmente meus amigos, os únicos que eu tinha ao meu lado. Ninguém parecia se importar verdadeiramente comigo. Ninguém me enxergava além do que eu fingia ser. Todos acreditavam que eu era apenas aquela Bianca perfeita, que tinha tudo e que era sempre perfeita e certinha.

Só que essa não era a verdade.

E a única pessoa que de alguma parecia saber disso sem eu nunca necessariamente precisar de dito foi o Felipe. Ele foi o primeiro, a saber, que eu tinha sérios problemas, apesar de não saber lidar muito bem com eles. E o primeiro a realmente se importar com eles.

Foi quando eu tive certeza que eu o amava muito mais do que acreditava amar. E que por ele, eu não precisava fingir nada. Ele gostaria de mim mesma eu sendo imperfeita do jeitinho que eu era, sem precisar mascarar nada.

No inicio isso foi difícil de processar, eu não entendia muito bem as coisas. E continuavam sempre tentando parecer bem, mesmo que por dentro eu tivesse desabando por não saber lidar com meus problemas emocionais.

Felipe e eu nos tornamos bons amigos. Demorou, mas aconteceu. E fomos devagar, fomos nos conhecemos pouco a pouco. Logo ele se mostrou muito mais maravilhoso do que eu já achava que ele era. Ele se mostrou preocupado e leal comigo. Mesmo assim, não gostava de mim da mesma forma que eu gostava dele.

Muito pelo contrário, ele era apaixonadíssimo por outra. A Gabriela, uma amiga nossa um ano mais nova. Imagine só como foi pra eu lidar com tudo isso quando ele declarou ama-la na minha cara mesmo depois de eu ter me declaro para ele? Foi terrível! Tanto que eu tomei uma atitude super mal pensada.

Eu tentei ser como ela. Eu a copiei, na maior cara dura. Copiei seu estilo e fingi gostar das mesmas coisas. Em um dia eu era toda patricinha cor-de-rosa. No outro dia eu era a maior roqueira do pedaço, com roupas rasgadas e maquiagem preta.

Vocês já podem imaginar que isso tudo não funcionou. Porque mais uma vez eu estava sendo quem eu não era. Eu não estava sendo justa comigo mesma. E isso não o faria me amar. Ele mesmo me disse isso. E sabe porque ele não me amaria eu fingindo ser outra pessoa? Porque ele já tinha aprendido a gostar de mim – mesmo em tão pouco tempo – como eu realmente era por dentro e não deixava transparecer.

Foi quando a minha ficha caiu e a máscara foi junto. Foi quando eu parei de ser tão estúpida e imatura. Foi quando eu resolvi parar de mascarar meus defeitos e as minhas dores. Foi quando eu finalmente resolvi ser eu mesma e encarar os meus problemas de frente. E foi quando o Felipe se descobriu apaixonado por mim.

Ele foi fundamental naquele meu progresso de identificação. Ele me apoiou, ele esteve ali e ele aprendeu a ligar com meus problemas ainda mais que eu. Ele me ensinou, ele me motivou, ele me ajudou. E pouco a pouco eu fui melhorando, tanto minha personalidade, quanto meus problemas sentimentais e meu problema de saúde e com meus pais.

Eu me tornei uma pessoa melhor, eu aprendi a me amar, eu parei de fingir e forçar e tudo isso graças ao Felipe.

Se não fosse por ele, hoje, com certeza eu ainda seria uma pessoa fútil e sem personalidade. Estaria vivendo a base de mentiras.

Felipe e eu tivemos um bom relacionamento por quase um ano. Claro, tivemos nossos altos e baixos. Mas sempre superávamos os baixos da melhor forma possível. No final das contas, o amor que sentíamos um pelo outro sempre prevalecia.

Até que ele foi estudar fora, em meados de Setembro. Felipe era tão bom aluno, tão inteligente e dedicado, que havia ganhado uma bolsa de estudo para cursar a faculdade fora do país. Ele tinha medias altas suficientes para concluir o terceiro ano sem nem precisar chegar até dezembro e se formar.

No início, a ideia de ter que viver sem ele pelos próximos anos foi terrivelmente difícil. Eu chorei muito até o dia da sua viajem e chorei ainda mais quando ele se foi. Eu ainda tinha todas as obrigações de organizadora do comitê de formatura, a responsabilidade de conseguir passar em algum vestibular e dar um rumo ao meu futuro. Consegui passar por tudo isso de cabeça erguida, mas no fundo só Deus sabia o quanto eu estava despedaçada e o quanto eu queria o Felipe por perto.

Apesar de tudo isso, nós superamos bem os primeiros meses. Ele me ligava ou eu ligava. Trocávamos e-mails. Víamos-nos pelo Skype. Trocávamos mensagens de texto. E prometíamos esperar um ao outro. Fazíamos planos para o futuro, para quando ele voltasse para o Brasil.

E tudo isso pareceu dar muito certo por um tempo, até um novo ano começar. Ele atolado nos estudos, que por sinal eram muito puxados. E eu recebi uma proposta irrecusável de estagiar na empresa de moda dos meus pais.

A diferença de fuso horário também pesou muito. E pouco a pouco nossos contatos foram diminuindo, até se tornarem nada.

Ele estudando, ele vivendo sua própria vida em outro continente, fazendo novas amizades, conhecendo outras garotas, procurando um emprego, se adaptando a sua nova realidade.

E eu estagiando na empresa dos meus pais, ocupada com aquela pilha interminável de papeis, me inscrevendo para todos os tipos possível de faculdades particulares já que não tinha conseguido nenhuma vaga na pública, tentando conciliar minha nova realidade as minhas amizades antigas e os momentos com os meus pais e perseverando no meu tratamento contra os distúrbios alimentares.

Alguns dias eram mais fáceis que os outros. Eu me mantinha tão ocupada que mal tinha tempo de pensar no meu amor perdido. Aposto que ele a mesma coisa. Mas quando nada parecia dar certo, era quando eu mais sentia falta dele. Eu tentava seguir em frente a todo custo, conhecia novos garotos, me relacionava com eles, mas por fim, nada nunca dava certo, me puxando cada vez mais de volta ao passado.

E o tempo passou. Cinco anos depois ele voltou. Eu ainda não sabia o que esperar desse reencontro. Mas acabou que mais uma vez o destino nos uniu. Não estávamos comprometidos com mais ninguém e acabamos retomando nosso namoro de onde tínhamos parados, como se nunca tivéssemos nos separado.

Só que em uma nova realidade. Éramos ambos adultos e cheios de responsabilidades novas. Mas isso não tornou as coisas mais difíceis, muito pelo contrário, tornou-as mais fáceis. Já que não tínhamos mais hora pra chegar em casa, já que tínhamos nossas própria casa e poderíamos fazer o que bem entendêssemos, desde que não esquecêssemos das nossas responsabilidades, tais como trabalhos, amigos e família.

Soubemos relacionar todas essas coisas muito bem.

E vivemos pelo menos uns dois anos assim, onde tudo era mágico e perfeito. Onde tudo parecia se encaixar e dar certo.

Mas, claro, que as coisas não poderiam ser assim para sempre.

— O que está acontecendo entre vocês? – perguntou Luiza, preocupada. Luiza é minha melhor amiga e também minha assistente pessoal.

Luiza sentou-se próxima a mim, no sofá da minha sala, na minha grande e espaçosa casa. Quero dizer, da nossa casa. Já que eu e o Felipe a compramos juntos e mesmo após todas as dificuldades vivemos de baixo do mesmo teto.

É um sábado de sol e estamos de folga, graças a Deus. Trabalhei feito uma condenada a semana toda, agora eu só quero descansar e ter um momento só meu.

E sempre que estamos de folga e sem muitos planos, Luiza vem me visitar. Ela e sua esposa, Natália. As duas casaram-se há três anos e são praticamente nossas vizinhas.

Luiza e Natália também se conheceram no ensino médio. Éramos todos amigos, ao todo éramos oito. Quero dizer, ainda somos. Mas alguns andam meio sumidos, ocupados. E nós, somos praticamente um trio inseparável.

Luiza e eu vamos completar quinze anos de amizade. Conhecemos-nos no finalzinho do ensino fundamental. E instantaneamente nos tornamos amigas, tínhamos um jeito de pensar muito parecido. E também morávamos no mesmo prédio, o que só nos tornou ainda mais próximas, quase como irmãs.

— Eu não sei. – digo, sendo totalmente sincera. Se eu soubesse o que exatamente estava acontecendo entre mim e o Felipe já teria dado um jeito nisso há muito tempo. Mas eu simplesmente não sabia mais, estava perdida e desesperada.

— Então trate de saber. – disse ela, naquele seu típico tom autoritário. — Olha só pra você. Você está péssima! Andou chorando a noite toda, não foi?

Sério que ela também percebeu isso?

Eu amava a Luiza por isso, mas às vezes eu também a odiava por ela me conhecer tão bem. Eu nem precisava dizer nada e rapidamente ela adivinhava qual era o meu problema.

Isso é meio assustador.

Eu juro que tentei disfarçar o nariz inchado e os olhos vermelhos de tanto chorar noite passada. Essa manhã, logo após acordar, eu passei um quilo de maquiagem no rosto.

Como ela poderia ter percebido? O Felipe nunca notou, para o meu total alivio.

— Vocês querem? – aproximou-se Natália sorridente, com um prato de panquecas em mãos. Ela me salvara de dar uma resposta a Luiza. E, bom, as panquecas com calda de chocolate estavam maravilhosas. Ela realmente tinha um dom para aquilo.

— E onde ele estar? – perguntou Luiza, ainda insistindo no assunto. Eu não queria mais falar sobre aquilo, mas eu sei que ela insistia até arrancar algo útil de mim.

— Eu não sei. – volto a dizer, dando de ombros como se eu realmente não me importasse em saber onde estava o meu namorado. — Ele acordou cedo e saiu.

Luiza fez uma cara de desconfiada, mas que durou muito pouco. Já que ela logo se voltou para as panquecas na esposa que estavam divinas.

Luiza ainda tinha os meus cabelos longos de um castanho natural. Olhos também castanhos, quase esverdeados e as feições angelicais. Um pouco mais alta que eu e maravilhosamente magra, mas sem muitos exageros.

Natália também continua com os mesmo cabelos vermelhos, só que diferentemente de antes, eles estão longos e ondulados. Ela tem olhos simples e pretos. É mediana e tem curvas certas nos lugares certos. Além de ter um rostinho juvenil, como se ela nunca tivesse deixado de ter dezoito anos.

Nem sei do que estou reclamando, sendo que eu também nem mudei muito desde então. Só cresci alguns poucos centímetros, contínuo magra, quase anoréxica – apesar de ter superado há um tempo meus problemas alimentares – e não tenho peitos e nem bunda.

Meus cabelos naturalmente loiros iguais ao da minha mãe são lisos e finos, como os de um bebê e estão menores agora, na altura dos ombros. E meus olhos de um verde límpido continuam iguais, como sempre. Meu nariz afilado é o que mais gosto no meu rosto.

— Olá, meninas. – me desperto ao ouvir aquela voz. É o Felipe, e ele acaba de chegar. Agora está cumprimentando nossas amigas com beijos na bochecha e em mim, ele dá um beijo na testa, só para não fazer feio diante delas.

Isso é tudo que eu mereço nos últimos tempos.

Ficamos as três observando ele se afastar. Pelos trajes, Felipe só foi correr por aí e agora ele está subindo, para tomar um banho e tirar o suor do corpo.

Felipe mudou bastante, não só no comportamento em relação a nós dois. Ele está mais alto, mais forte, até mesmo tem os braços mais másculos. Seus cabelos castanho-claros continuam lisos e bem cortados. E seus olhos amendoados são fascinantes. Ultimamente ele tem cultivado uma barba que no iniciou não me animou muito, mas que sem sombra de duvidas o deixa muito, mais muito sexy.

Assim que ele desaparece por completo, Luiza e Natália se voltam para mim ao mesmo tempo.

— Ele está mudado. – comenta Luiza.

— Ele parece diferente. – comenta Natália, que um dia já foi mais próxima dele.

Sim, elas têm razão. Ele só não mudou aparentemente, como eu já havia dito anteriormente. Ele já não é mais o mesmo em muitos sentidos. Mas eu não o culpo. Porque sei que isso é por nossa culpa.

Nós mudamos muito.

De uns tempos pra cá, eu estive muito ocupada no trabalho. Viajei para fora muitas vezes, deixando-o sozinho e para trás. Passei há ficar mais tempo na empresa, na tentativa de cumprir todos meus afazeres e não é como se ele pudesse parar tudo para me acompanhar.

Felipe passou por muitos maus empregos até chegar no que ele está atualmente. O emprego de seus sonhos. Ele passou por muitas dificuldades e sofreu o bastante. Até que ele enfim se encontrou e está aproveitando isso ao máximo que pode.

Dar aula é o que ele mais ama fazer.

E tudo que estiver relacionado à moda é o que eu amo fazer.

Apesar de ter herdado a empresa dos meus pais, posso dizer que nem sempre as coisas foram fáceis. Eu batalhei muito para chegar onde estou. Estagiei por um ano, começando lá de baixo. Quando eu servia apenas cafezinho aos superiores. Depois fui estudar fora, em todas as capitais da moda e trouxe todo meu conhecido para cá. Voltei como assistente do papai e oito meses depois meus pais acharam que eu já era madura o suficiente para ganhar o cargo de diretora.

Depois disso as coisas não foram mais fáceis, foram mais difíceis. Porque ser diretora de uma multinacional não é nada fácil. Fiz muito para conseguir alcançar o sucesso de ter a segunda maior empresa de moda do país. Isso sim é um mérito só meu, eu suei muito para conseguir isso.

Deixei de estar com meus amigos, com a minha família e com o cara que eu amo para correr atrás desse sonho. Hoje, o que eu mais quero, é conseguir o primeiro lugar. E sei que ainda vou conseguir, por isso não deixei de trabalhar menos.

E são nessas horas, quando estou sozinha, depois que minhas amigas passaram a tarde comigo assistindo a filmes e comendo besteira e o Felipe está lá em cima sozinho, fazendo sabe-se lá o que é que eu me pergunto se a culpa de tudo isso não é minha.

Sim, eu consegui crescer profissionalmente. Mas e o meu relacionamento? Onde é que ele está agora? Cadê todo aquele amor? O carinho e atenção? A troca de mensagens? As cartas e os presentes? Onde é que foi parar tudo isso?

Eu não sei, só sei que tudo isso se perdeu no meio do caminho em que eu corria até obter o sucesso da minha empresa.

— Você quer uma pizza? – perguntou Felipe, ao aparecer do nada. Ele estava descalço e vestido de uma maneira muito simples, quase como se estivesse pronto para dormir. Ainda assim estava incrivelmente bonito e tentador.

— Hum, acho que não. – digo, fazendo uma meia careta. Continuou largada no sofá, em frente a tevê ligada, sem de fato prestar atenção nela. — Estou sem fome.

— O.K. – disse ele, se afastando. Indo até a cozinha. — Acho que vou pedir uma pra mim, então.

Nossos diálogos são sempre assim, fracos. Não duram mais que trinta segundos. Durante a semana eles são quase inexistentes. E nos finais de semana não duram quase nada.

Sei que eu poderia muito bem tomar vergonha na cara e mudar isso. Sei lá. Fazer alguma coisa. Puxar conversa, ir atrás, mas o interesse dele particularmente me desanima muito. É como no começo, quando nos conhecemos, ele me olha como se me desprezasse e não admirasse quem eu me tornei, ou quem eu sou.

Então, tudo que eu faço é continuar no mesmo lugar. Sem coragem de fazer nada para mudar essa realidade.

Felipe volta cinco minutos depois e me surpreende ao sentar-se perto de mim, no mesmo sofá e não no outro, que está vazio.

— Pode mudar o canal, se quiser. – digo, oferecendo o controle da tevê.

Ele me olha por cinco segundos, apenas.

— Não. Não precisa. – então ele se volta para a tevê novamente. — Pode deixar aí mesmo.

Desisto e continuo quieta.

O tempo passa e meia hora depois ouvimos a buzina de uma moto do lado de fora. É o entregador de pizza. Felipe pega o dinheiro dentro da carteira, na mesinha ali no canto, onde ele sempre deixa suas coisas assim que chega do trabalho. Ele sai e volta dois minutos depois, com a pizza em mãos.

— Tem certeza que não quer? – ele insiste, indo em direção à copa. — É de quatro queijos. Sua preferida.

Me surpreende que ele ainda saiba quais sãos minhas preferências.

Quando ele desaparece por completo para saborear sua pizza, aproveito para desligar a tevê, apagar as luzes e subir para o quarto. Sei que ainda é cedo, são quase nove da noite, mas eu estou cansada e não há muito que fazer, então me preparo para dormir.

Mas não consigo dormir. E tudo que faço é ficar me mexendo de um lado para o outro, achando que a cama parecendo muito grande e está muito vazia. Olho além da janela aberta e vejo o céu escuro, repleto de estrelas.

É uma bela noite para um passeio noturno. Caminhar sem um rumo especifico, de mãos dadas com a pessoa amada.

Suspiro.

— Ah, você ainda está acordada. – ele comenta, ao entrar no quarto de maneira inesperada. — Pensei que já estivesse dormindo. – diz ele, casualmente.

Felipe fecha a porta, acende o abajur a apaga as luzes que ele acabou de acender.

— Não consigo dormir. – confesso, nem sei porque. Já que ele não faz nenhum comentário a respeito. — A pizza estava boa?

— Ótima, como sempre. – diz ele, dando a volta na cama. Viro-me para cima e fito o teto por um instante. — Você perdeu.

Solto um risinho.

Ele se deita, puxando a coberta para junto dele.

— Boa noite, acho que vou dormir. – disse ele, se acomodando ao meu lado. Só que bem mais distante do que eu gostaria.

Há um vão enorme entre nós dois.

— Boa noite e durma bem. – respondo de volta.

Passe-se cinco minutos. Nenhum de nós diz nada. A luz do abajur continua ligada. Ela sempre fica ligada. Suspeito que ele tenha medo de escuro, um medo que provavelmente ele adquiriu há pouco tempo.

Sei que ele ainda está acordado. Como eu sei? Na verdade, eu imagino. Porque não sei de fato. Pela maneira como ele respira, posso dizer que está acordado ou está fingindo dormir.

Ele se mexe na cama, virando-se para o meu lado. O que é um milagre, já que geralmente dormimos de costas um para o outro. E acidentalmente – ou não – ele bate a perna na minha.

— Opa, desculpa. – pede, confirmando a certeza que eu tinha de que ele ainda estava acordado.

Só não sei por quanto tempo.

Depois disso acho que ele pega no sono rapidamente. Não se mexe e a respiração se torna quase inaudível.

Viro-me devagar, para poder olhar para ele por um momento. E sim, ele está dormindo. Ou fingindo muito bem. O que é uma pena. De repente me deu uma vontade tão grande de conversar, ou pelo menos tentar. De toca-lo...

Toca-lo eu posso, mesmo sem ter a certeza que ele finge dormir. Eu até me arrisco, com a mão solta no ar, cada vez mais próxima de seu rosto e quando está perto demais eu desisto, com medo que ele possa me sentir.

Suspiro novamente, dessa vez mais profundamente. Uma lágrima escorre do meu olho sem que eu possa impedi-la.

Mas não choro dessa vez. Nem soluço. Não quero acorda-lo. Não quero me sentir ainda mais fraca. Não quero pensar nessas coisas.

Não quero sentir nada, apenas desaparecer por completo em um sono profundo.

E então, mais um dia se foi. Sem que nada interessante tenha acontecido entre nós.

Notas finais
Não sei vocês, mas toda vez que eu escrevo esses capítulos tão tristes eu sinto uma dorzinha no coração. Fala sério, nada disso parece justo. Eles deveriam estar bem e felizes. Mas nem tudo é como em um conto de fadas, não é mesmo? Comentem e me digam o que acharam.