Notas iniciais
Esse capítulo era para ser narrado pelo Felipe, acontece que, eu tive uma pequena confusão em meus cálculos e quando terminei o capítulo foi que vi o meu erro. Mas tudo bem, isso não muda em nada. Espero que gostem e sejam paciente por esse começo estar sendo meio parado.

Fazia um bom tempo em que eu não visitava minha prima, em sua fazenda, no interior. Então aproveitei o domingo ensolarado para ir até lá. E também, não é como se eu tivesse muitos planos. Só não queria ficar em casa o dia todo vendo tevê. Domingo já era um dia péssimo, ainda mais se eu ficasse sem fazer nada. Aí sim, entraria em depressão de uma vez.

— Aonde você está indo? – perguntou Felipe, casualmente. Enquanto eu me arrumava.

Para aquele dia escolhi um shortinho jeans, uma regata azul royal e botinhas marrons de cano médio.

Prendi os cabelos em um alto rabo de cavalo, passei um pouco de base e mascara para os cílios, um brilho labial, passei repelente, protetor solar e peguei minha bolsa.

— Estou indo ao interior, visitar a Duda e o Pedro. Você também quer ir? – não sei nem porque perguntei, ele não ia querer mesmo ir...

— Claro. Vamos sim. – disse ele, pegando-me um pouco desprevenida. — Você espera um pouco? Eu vou tomar um banho rapidinho.

Apenas assenti, surpresa com a resposta positiva dele.

Fiquei lá em baixo, mexendo no celular e esperando por ele.

Maria Eduarda é minha única prima. Seu pai, meu tio e irmão da minha mãe, faleceu há alguns anos e deixou a mansão na fazendo para ela.

Duda e eu nem sempre fomos tão amigas quanto agora. Quando éramos crianças passávamos as férias sempre juntas, mais por falta de opções do que vontade própria. Papai e mamãe adoravam me levar ao interior nas férias, para ficarmos mais perto da única família que tínhamos.

Eu nunca conheci a minha tia, ela morreu quando a minha prima ainda era bem pequena. Mas isso nunca teve tanta importância. Afinal, é mais fácil não sentir falta daquilo que não conhecemos.

Depois de crescidinhas, eu com dez anos e ela com onze, minha prima e eu seguimos por rumos diferentes. Eu continuei a viver a minha própria vida na cidade grande e ela sempre ficou isolada no interior, apenas com a companhia do pai e dos empregados.

Mas quando ela fez dezoito anos, pediu para que seu pai a deixasse viver na cidade grande, que era o seu sonho. Então ela foi morar lá em casa, até conseguir um lugar para ficar. Ela fez da minha vida um inferno. Depois de um tempo, ela admitiu que tudo que fazia era por sentir inveja de mim, que tinha uma vida social agitada e muitos amigos.

Quando tudo que ela sempre teve foi o pai, os empregados, o dinheiro, mas que isso nunca era bastante, porque no final do dia ela sempre se sentia muito sozinha, sem ter amigos e sem poder ir à escola. Desde que sua esposa faleceu, meu tio foi superprotetor e privou minha prima de muitas coisas, achando que mantê-la por perto seria o melhor para ela. Por isso, por anos ela só estudou em casa e poucas vezes foi a cidade.

Mas ela não só fez da minha vida um caos total não. De todos que estavam a minha volta também. Ela bagunçou tudo. Ficou com meus amigos, fez intrigas, espalhou fofocas, tentou nos separar e ainda deu em cima do meu namorado, que era o Felipe na época.

E como diz o velho ditado: o bem sempre vence o mal. No caso da minha prima, o que a fez mudar foi o amor. O amor que ela passou a sentir pelo Pedro, um amigo meu, que a detestava. Na época ela namorava a Natália, que atualmente é esposa da minha melhor amiga, a Luiza.

Parece confuso, não é?

E na época, realmente foi. Nossa adolescência foi um caos total. Sempre houve intrigas, brigas, discussões, problemas internos, mas nós nunca deixamos de estar presentes na vida um do outro. Hoje em dia as coisas mudaram um pouco, mas sei que cada um de nós faz o mais possível para mantermos contato e nunca perder essa amizade tão turbulenta que suportou tanta coisa.

Bom, enfim. O Pedro sempre foi o mais sensato entre nós. Ele sempre foi muito bonzinho com tudo e todos, mesmo com quem não merecia. No caso, na época, a minha prima. E foi justamente isso, a maneira que ela a tratava apesar de ela ser uma megera, fez com que ela se apaixonasse perdidamente por ele. Foi uma batalha enorme, mas por fim, os dois acabaram juntos e hoje estão casados há anos e têm dois filhos.

Depois que esse lado bonzinho da minha prima prevaleceu devido ao seu amor pelo Pedro, foi quando nós começamos a nos entender e desde então somos muito amigas.

— Prontinho. Já podemos ir. – anunciou o Felipe, me trazendo de volta ao mundo real.

Levantei-me, peguei a chave do meu carro e lá fomos nós. Uma viagem longa demais, com duração de duas horas e meia, para muito silencio. Nem mesmo o som do carro eu ousei a ligar e nós não chegamos a conversar.

Chegamos lá ao meio dia, bem na hora do almoço. A Duda que já estava esperando por mim, colocou dois lugares a mais na mesa. O Pedro já estava na churrasqueira, do lado de fora, assando a carne. E os gêmeos, hoje com quase onze anos, estavam jogando videogame e só pararam mesmo para cumprimentar a mim e o tio Felipe, por quem eles tinham um carinho muito especial.

Nós almoçamos todos juntos na mesa do lado de fora da mansão. Estava um dia lindo lá fora e não poderíamos ter perdido isso por nada.

Felipe ficou de lado conversando com o Pedro sobre coisas de homens, Duda pediu para Tiago – o gêmeo mais velho – que comesse direito e parecesse de brincadeiras e a Laura – a gêmea mais nova – ficou dizendo o quanto meu cabelo estava bonito e que ela, quando crescesse, queria ter igual.

Depois do devorarmos um delicioso mousse de limão como sobremesa, ficamos lá fora, de bobeira. Eu e Duda deitadas nas espreguiçadeiras, Felipe e Pedro na churrasqueira ainda conversando sobre assuntos de trabalho e as crianças na piscina, se divertindo horrores.

— E como vão as coisas entre vocês? – Duda perguntou, desviando o olhar do marido e voltando-se para mim.

Engraçado como eles estavam juntos há tanto tempo, um pouco menos até do que eu e o Felipe – tirando as interrupções – e continuam felizes e apaixonados.

Eu os invejava.

Vejam só como os papeis se reverteram ao longo do tempo.

— Estão bem. – digo, vagamente. Estava um dia tão bom, tão descontraído, eu não queria ter que tocar naquele assunto. E também estava cansada de todos ficarem perguntando como nós estávamos, era uma pressão muito grande pra mim.

— Não parece. – rebateu Maria Eduarda, parecendo preocupada e curiosa ao mesmo tempo. Então, de repente ela se levantou. — Vem, vamos lá pra dentro. Aqui está muito quente!

Eu a acompanhei, meio sem opções.

Percebi que quando me levantei, Felipe levantou o olhar em minha direção, provavelmente se perguntando onde eu estava indo.

Maria Eduarda nos levou até o seu quarto, lá em cima. No momento em que entrei ali comecei a ficar tensa. E passei a me preparar mentalmente para a tortura que viria a seguir.

Ela tem a mesma altura que eu, apesar de ser um ano mais velha, tem cabelos ondulados, sedosos e louros. Seus olhos são de um azul acinzentado hipnotizantes e ao contrário de mim, ela é cheia de curvas.

— Preciso te contar uma coisa. – ela disse, com um sorrisinho intrigante. Suspirei, mais relaxada. Então termos ido até ali, longe dos meninos, não foi para conversarmos sobre mim e sim sobre ela. Ufa, menos mal.

— Conta logo! Pelo menos de Deus. – digo, mais animada. Comecei a sorrir também, na expectativa. Pela carinha dela, só poderia ser coisa boa. — Duda, para de enrolar, poxa.

Ela riu.

— Eu estou grávida! – disparou ela, jogando os braços para cima tamanha sua animação. — Fui buscar o teste ontem. E ninguém sabe de nada ainda, muito menos o Pedro. Você é a primeira a saber. E já quero que seja a madrinha.

Eu estava chocada demais para dizer alguma coisa.

Primeiro que, estava feliz por ela. Não era seu primeiro filho, na verdade seria o terceiro ou até mesmo poderiam ser mais dois. Mas ela estava muito feliz e animada com a ideia de ser mãe de novo, então não pude como evitar.

Mas logo depois me bateu uma tristeza muito forte. Porque de repente me dei conta de que todos a minha volta estavam indo bem, eram felizes, realizados, tinham se casado e tido filhos e eu continuava parada no mesmo lugar.

Eu queria muito me casar e queria mais ainda ser mãe. Agora mais do que nunca. Mas justamente agora, eu e o Felipe estávamos passando pela pior fase de nossas vidas. Eu já nem sei se vamos conseguir chegar tão longe, muito menos nos casarmos e ter filhos. Isso parece muito pouco provável.

Ao pensar nessas coisas, não resisti e comecei a chorar ali mesmo, feito uma garotinha. A princípio, Duda pareceu surpresa com a minha reação. Ela deve ter pensado que eu chorava de emoção por ela, mas na verdade não era nada disso. Eu estava mesmo é com inveja da vida que ela tinha ao lado do Pedro.

Ao perceber isso, ela se aproximou, calma e paciente. Me abraçou, como se eu fosse uma filha para ela.

— Fique calma. – sussurrou ela, passando a mão carinhosamente em meu braço nu. — Nem tudo está perdido. Conte-me o que está acontecendo. Talvez eu possa ajudar.

Eu tinha certeza de que ela não poderia ajudar. Ninguém poderia. Mesmo assim, eu suspirei fundo, tentei me acalmar, sequei algumas lágrimas e contei tudo a ela, por partes, desde o inicio.

— Vocês precisam dar um jeito de superar essa fase. – disse ela com carinho, quando me afastei para respirar melhor. — Vocês se amam, poxa. Deem um jeito nisso!

Fácil era para ela falar, mas eu, particularmente, não saberia nem por onde começar. Mas não quis começar uma discussão na tentativa de defender o meu lado, então o que eu realmente fiz foi me levantar, suspirar forte e tentar secar algumas lágrimas que insistiam em cair.

— Preciso ir ao banheiro. – digo, indo em direção à porta do quarto. Duda não disse nada, apenas me deixou ir, sabendo que eu precisava de um pouco de espaço.

Estava indo a caminho do lavabo, no final do corredor, quando dou de cara com o Felipe, que acabara de subir as escadas. O que ele estava fazendo ali em cima eu não fazia a menor ideia, mas ele realmente não apareceu em um momento bom.

Tentei contornar aquela situação. Abaixei os olhos e deixei uma parte do meu rosto virada na tentativa de esconder as lágrimas. A última coisa que eu queria era que ele me visse nesse estado. Fui para o lado, para me desviar dele, mas ele foi junto, na mesma direção e novamente nos trombamos.

Pacientemente fui para o outro lado. Afinal, eu só queria sair dali o mais rápido possível. Antes que ele pudesse olhar pra mim. Mas parece que ele teve a mesma ideia e pela terceira vez nos esbarramos, indo na mesma direção.

Olhei para ele, frustrada e um tanto irritada. Será que ele não poderia simplesmente ficar parado no lugar e me deixar passar? Não, pelo visto não. E quando me dei conta de que ele estava olhando para mim com aquele olhar curioso, já era tarde demais. Ele já tinha visto meu rosto choroso.

Felipe ficou me encarando por um bom tempo. Tempo até demais. Em um misto de preocupação e curiosidade. Tudo aquilo estava estampados em seus olhos castanho-claros. E eu, já sem forças para fugir dele, encarei-o de volta.

— Preciso ir ao banheiro. – digo, passando por ele com certa urgência. Aproveitando que ele estava ocupado demais olhando pra mim para ir à mesma direção que eu.

No banheiro me tranquei, com as costas apoiadas na porta e tentando manter a respiração controlada. Depois de um tempo, tentei colocar de volta alguns fios soltos do meu rabo de cavalo de volta no lugar. Inclinei-me diante da pia, liguei a torneira e joguei um pouco de água fria no rosto.

Por fim, vi que não havia muito que eu pudesse fazer por mim mesma. Os olhos estavam vermelhos e o nariz inchado. Não tinha trazido minha maquiagem e as coisas da minha prima com certeza estavam em sua suíte e também... Pra que? Se o Felipe já me tinha visto chorando minutos atrás.

Sequei meu rosto com papel e saí. Tinha esperança que o caminho estivesse livre e que ele tivesse fingindo que nada daquilo tinha acontecido, mas não, ele continuava ali parado, do lado de fora, com aquele olhar de causar arrepios.

— Você está bem? – ele quis saber.

— Sim, estou melhor agora. – é tudo que digo.

Se o convenci, eu não sei. Mas continuei seguindo meu caminho, voltando para o quarto da minha prima e o deixando para trás, com todas suas preocupações.

Tentei continuar ali, conversando com ela normalmente sobre as maravilhas de sua vida perfeita, mas depois do chororo eu já não estava me sentindo muito bem.

Nem mesmo quando as crianças me convidaram para se juntar a elas e o tio Felipe, que estava brincando lá fora, no quintal, já no finalzinho da tarde.

— Vamos embora? – digo, ao me aproximar dele. Eu já estava cansada e louca para voltar para minha cama e dormir.

— Claro. – diz ele, sorrindo fraco. — Se é o que você quer.

Despedimos-nos do Pedro, das crianças e por ultima da Duda, que sussurra “Boa sorte” no meu ouvido. Agradecemos por tudo e vamos em direção ao carro.

Dessa vez, ele é quem dirige de volta pra casa. No banco ao seu lado, eu me encosto-me à porta e fico olhando além das janelas, observando o céu ganhar suas primeiras estrelas.

Ele liga o rádio em uma estação qualquer para preencher o silencio entre nós.

Chegamos a nossa casa quase três horas depois devido ao transito. Vou direto para o banho, na esperança que a água morna que escorre por meu corpo leve todo aquele cansaço e desanimo embora pelo ralo.

Já de pijama, me aproximo da cama, e é quando o Felipe entra no quarto.

— Tem certeza que você está bem? – ele pergunta, de maneira insistente.

Eu assinto.

— Só estou cansada. Tivemos um longo dia. E também, já quero estar descansada para mais uma nova semana.

Ele assente, compreensível.

— Bom, então... Durma bem. Se você não se importa – ele pegou seus óculos de grau na gaveta do criado mudo que fica ao lado da parte em que ele dorme na cama. — eu vou ler um pouco agora no meu escritório. Qualquer coisa é só chamar.

Ele beija levemente a minha testa e se vai.

Quando não está cansado ou com sono, ler é exatamente o que ele faz. Mas ele não vai ler uma coisa qualquer, normalmente são suas histórias em quadrinhos, de super-heróis. Ele é viciado nessas coisas, tipo, desde sempre.

Tanto que ele tem uma coleção de revistinha em seu escritório, além de bonecos por toda a parede. Parece infantil e bobo, mas é algo que o caracteriza. E eu, sinceramente, adoro isso nele, desde o principio.

Consigo dormir imediatamente e até sonho que superamos aquela fase e começamos a viver tempos melhores. Mas o sonho é interrompido, quando acordo no meio da madruga preocupada com alguma coisa.

Felipe está ao meu lado, dormindo e o que parece... Está tendo um pesadelo. Ele está suando e inquieto, mexendo-se muito. Isso nunca aconteceu antes. Começo a me preocupar.

— Por favor, não. – disse ele, parecendo desesperado. Ainda está dormindo. — Não me deixe, por favor. – continua ele, com uma voz chorosa. Não sei o que faço. Não sei se o acordo ou se... — Eu não suportaria! Não, por favor. Fique comigo...

Não consigo vê-lo naquela situação por muito tempo, então toco nele de leve, para não assusta-lo. Ele acorda, subitamente assustado com a situação. Tanto quanto eu. Nossos olhares se encontram.

— O que aconteceu? – pergunta ele, surpreso. Com a voz rouca e cara de sono.

— Você, acho que estava tendo um pesadelo. – digo, sentando-me. — Você se lembra de alguma coisa?

— Não... – diz ele, desviando o olhar confuso por um momento. — Desculpa, eu te acordei, não acordei?

Ele também se sentou, passando as mãos pelos cabelos.

— Acho que vou dormir no outro quarto, então...

Quando ele ia se levantar da cama eu o puxei de volta.

— Não, não vai. Tudo bem. Você pode ficar. – tiro imediatamente minha mão de seu braço, estou tão surpresa com a minha atitude quanto ele. — Fique aqui. Se você for para longe, pode acontecer algo com você e...

Eu não vou estar por perto para protegê-lo, é o que gostaria de poder dizer. Mas por alguma razão não digo.

— O.K. Eu fico. – ele volta a se deitar. — Vou tentar me comportar dessa vez. – diz ele, sorrindo de leve.

Um sorriso que faz todas as minhas preocupações e medos irem embora imediatamente.

Eu ainda sou apaixonado por aquele sorriso. Sim, eu sou. Com todas as minhas forças eu sou.

Notas finais
Quando tudo parecia perdido, há uma pequena esperança no final. Mas e aí, o que vocês acharam? Comentem e tentarei postar o próximo capítulo ainda essa semana.