Planos e Promessas
5 Bianca.
Notas iniciais

Surgiu uma viagem de trabalho de ultima hora a Milão, para que eu pudesse tratar pessoalmente com alguns fornecedores. Muito empolgada com a viagem, apesar de já ter ido à Itália pelo menos uns três vezes, não pensei duas vezes em aceitar. Afinal, eu já não tinha muito que perder se ficasse. Na verdade, eu só teria a ganhar caso fosse a essa viagem.
Mas isso teria que acontecer rápido, então nem tive muito tempo de conversar com o Felipe a respeito e nem mesmo com os meus pais, apesar de terem passado a empresa para mim, para perguntar o que eles achavam a respeito.
Há muito tempo eu tomava as minhas próprias decisões sozinha.
E também, não era como se o Felipe desse tanta importância assim a isso. Já que justamente naquela noite ele havia resolvido sair pra beber sem nem avisar ou deixar um misero recadinho.
Cheguei mais cedo àquela noite e me dei conta que diferentemente das outras noites, ele não estava por nenhuma parte, nem mesmo dormindo, vendo tevê, corrigindo trabalhos de seus alunos ou lendo suas revistinhas.
Eu o procurei por toda parte e nada. A princípio eu fiquei preocupada, esperava que ele pelo menos tivesse tido a decência de me mandar uma mensagem de texto avisando que chegaria mais tarde em casa. Mas não. Nem mesmo isso.
Sem muitas opções, eu comecei a arrumar as minhas coisas. Peguei algumas peças de roupa de frio no meu closet e organizei cuidadosamente em minha mala. Depois peguei minha maquiagem e alguns produtos que eu já não vivia sem.
Não me esqueci do carregador do celular, meu notebook, algumas revistas, câmera fotográfica e minha agenda.
Uma hora depois já estava tudo pronto. Eu também já tinha tomado banho, vestido um jeans mais velho, optando por um suéter verde e um All Star branco antigo. Prendi meus cabelos em um coque mal feito, deixei de lado a maquiagem e por fim peguei meu cachecol preto, apesar de não estar tão frio assim lá fora.
Luiza chegaria a dez minutos para me levar ao aeroporto, mesmo no meio da noite. Apesar de a proposta ser tentadora, ela não iria comigo a essa tal viagem, pois tinha uns probleminhas pessoais para resolver. E também, eu só ficaria fora por dois dias ou menos e logo estaria de volta ao mundo real.
Peguei minha bagagem e desci com ela até o hall de entrada da casa, até o momento que a minha melhor amiga chegasse para me buscar.
Foi quando o Felipe chegou, pegando-me desprevenida. Ele parecia estar com certa urgência. Ele vestia um jeans preto e uma camisa social azul-marinho de botões. Além do All Star preto. E seu cabelo claro estava um tanto bagunçado.
De longe eu pude sentir o cheiro de álcool e tabaco impregnado em seu corpo.
— Você está de saída? – perguntou ele, analisando minhas coisas no chão. Ele parecia surpreso e levemente decepcionado.
— Sim. Eu vou viajar. – digo, normalmente. — Mas volto daqui a dois dias. Coisas de trabalho, você sabe.
Ele assentiu devagar.
— Eu pensei que... – ele não terminou de falar e deixou a que a frase morresse no ar. — Quer que eu te leve ao aeroporto?
Eu não sabia dizer bem o que era, mas ele parecia diferente naquela noite. Ou tinha bebido além da conta.
— Não precisa. A Luiza vem me buscar daqui a pouco. – explico, tentando sorrir de leve.
Novamente ele assente e não dizemos mais nada um para o outro.
Ouvimos então a buzina de um carro.
Com certeza era a Luiza.
— Então eu já vou indo. – pego minhas coisas, mas ele é mais rápido do que eu e pegando-me de surpresa, ele me abraça, envolvendo-me totalmente com seus braços.
Ficamos assim, abraçadas, por pelo menos vinte segundos.
— Se cuida, ta? – pede ele, ao se afastar. Ele se inclina em minha direção e beija a ponta do meu nariz, como costumava sempre fazer em um tempo não muito distante. Isso, desde o inicio do nosso namoro, quando tínhamos dezessete anos.
Felipe apesar de ter bebido – o hálito dele entrega isso – parece bem e me ajuda a levar as coisas até o carro de Luiza.
Nós não nos beijamos nem nada, então eu apenas entro no carro, ele fecha a porta, cumprimenta a Luiza e ela dar a partida. Pelo espelho retrovisor, vejo a figura dele ficar cada vez mais distante. Sinto um aperto bem pequeno no peito, por deixa-lo para trás. Isso sempre acontece quando vou viajar sozinha.
Afinal, eu me preocupo com ele. Não sei dizer se ele vai ficar tão bem assim sem mim por perto para colocar o mínimo de juízo em sua cabeça. Não que ele sempre precise, mas eu sei o quanto é importante termos um ao outro sempre que precisamos.
Meu voo está marcado para as 11hrs45min. Luiza e eu ficamos conversando até o meu voo ser chamado. Por fim, nos despedimos com um abraço, ela vai embora e eu vou até o embarque, onde mostro meu passaporte.
Meu voo tem a duração de pelo menos 12 horas de viajem até Milão. Mas como eu peguei um bom horário, fico lendo minhas revistas de moda por um tempo até pegar no sono e acordar somente no outro dia, já na hora de descer do avião, as 16hrs devido a diferença de fuso horário.
Como o esperado, em Milão está frio, diferentemente do Brasil. Pego meu casaco marrom-escuro dentro da mala e o coloco por cima do suéter. Aperto meu cachecol em volta do pescoço e não dispenso o uso das luvas. Ah, e solto meus cabelos, para que eles protejam minhas orelhas e meu pescoço do ventinho frio.
Luiza ficou de cuidar de todos os detalhes pra mim, mesmo lá do Brasil, então tudo que eu preciso fazer agora é pegar um táxi até o hotel onde ficarei hospedada.
Meia hora depois já estou dentro da minha suíte, no trigésimo novo andar do prédio. Tiro meu casaco, luvas, cachecol e os coloco em um canto, perto da porta, junto das minhas malas, que não faço questão alguma de desfazer.
Com meu celular em mãos jogo-me sobre a cama king size que parece duas vezes maior que a minha. O que não me impede de pensar o quanto seria bom ter a companhia do Felipe agora, nesse momento, ao meu lado, para aproveitarmos essa grande maravilha. Mas agora ele está tão longe...
Penso em ligar para ele, só pra avisar que estou bem e deixa-lo despreocupado. Mas há essa hora, lá no Brasil, ele deve estar no meio de uma aula e eu não quero atrapalhar. Então deixo apenas uma mensagem de texto, para que ele possa ver depois.
Nesse primeiro momento, fico apenas descansado, procurando algo interessante para assistir naquela imensa televisão bem a minha frente. Mas nada parece me agradar. Estou faminta, então resolvo pedi algo mais leve para comer como lanche da tarde.
Minha reunião com os fornecedores está marcada para as sete da noite e até lá eu tenho um tempão para aproveitar.
Após saborear um delicioso Risoto com cebola frita e arroz na manteiga, tomo um banho quentinho de banheira e começo a me preparar para mais tarde. Visto uma calça preta de cintura alta, botas e uma blusinha de seda. Pego meu sobretudo azul-marinho e jogo por cima. Mais uma vez, não me esqueço das luvas e do cachecol preto.
Os cabelos eu deixo soltos e lisos naturalmente mesmo e dou uma caprichada básica na maquiagem.
Pego minha bolsa e jogo dentro dela tudo que eu acho que vou precisar para mais tarde. Desço de elevador e já na calçada, lá em baixo, o ar gelado me dá as boas-vindas.
O dia não está lá muito favorável, já que eu não sou muito fã do frio e dias nublados como esse, mesmo assim, a cidade é encantadoramente irresistível e me pede para ser explorada. Andando, visito os pontos turísticos mais conhecidos, aproveitando para tirar fotos de cada detalhe.
Quando por fim, dá a minha hora, pego um táxi e vou me encontrar com os fornecedores, para nossa reunião.
É uma reunião longa, sem nada de bom. Muita discussão, muita conversa, muitos problemas, poucas soluções, muito dinheiro envolvido e acordos. Saio lá quase às dez da noite, morrendo de dor de cabeça.
Penso em sair pra jantar fora, mas fazer isso sozinha me parece algo tão deprimente. Além do frio, com o cair da noite, só ter piorado. Antes que eu vá pegar um táxi para voltar para o hotel, é quando meu celular toca em minhas mãos.
É o Felipe.
Não evito em deixar de sorrir.
— Oi. – digo, ao atender.
— Oi. Como você está?
— Bem, mas estou morrendo de frio.
Ele solta um risinho que preenche meu coração de alegria.
— E você?
— Bem também. Sem muita novidade.
Ficamos calados por um momento.
— E como foram as coisas? – ele resolve perguntar.
— Como sempre: não muito fáceis.
— Imagino...
Voltamos a ficar calados.
— Já estou com saudade. – me pego dizendo, sem ao menos ter pensando antes.
Pelo silencio que se estende do outro lado da linha, ele está tão surpreso com aquilo quanto eu.
— É, eu também estou. – diz ele, deixando-me mais aliviada. — Estive pensando em você o dia todo e desejando de todas as formas possíveis poder estar aí com você. Protegendo-te, te apoiando, não sei, qualquer coisa que você precisasse.
Não consigo deixar de sorrir ainda mais com aquela revelação.
— É realmente uma pena que você não esteja aqui. Mas sei que teremos outras oportunidades. Mas confesso que sem você aqui, as coisas não são tão animadas e nem divertidas.
Como nenhum dos dois tem algo a mais para dizer e acrescentar, resolvemos desligar e seguir com as novas vidas.
Não sei, mas parece que quanto mais distantes ficamos, mais a paixão aumenta. O que é meio maluco, já que quando estamos lado a lado às coisas parecem tão frias.
Volto sorrindo para o hotel, onde coloco meu pijama, peço o jantar e fico assistindo televisão, encolhida de baixo das cobertas.
Ficamos de ajustar os últimos detalhes amanhã cedo, então preciso estar descansada até lá. Após ter falado com o Felipe, nem sinto mais aquela dor terrível de cabeça.
Ele é e sempre será como um remédio pra mim.
Depois de ter comido, fico mexendo no meu notebook, ainda na cama, lendo algumas noticias e novidades e conversando com a Luiza por Skype ao mesmo tempo.
A meio-noite eu pego no sono.
Acordo cedo no outro dia, sentindo-me levemente enjoada. Tomo um remedinho, antes que isso se agrave. Mais uma vez tomo banho e me visto de maneira mais agradável possível. Quando saio do hotel, sinto que o tempo lá fora não está tão frio como no dia anterior.
Mais uma vez, a reunião é longa. Eles me convidam para tomarmos café da manhã juntos com ele e depois me mostram novidades de tecidos e as últimas tendências da moda. Além de me apresentarem a empresa. Às duas da tarde eu saio de lá, já com tudo resolvido. Ligo para a Luiza e passo algumas informações importantes para que ela anote, já que é minha assistente pessoal e não pôde estar aqui fazendo seu trabalho.
Não volto para o hotel aquela tarde, então resolvo andar por aí e ver um lugar agradável para almoçar. Depois disso, visito alguns museus, teatros e bibliotecas, encantada com a arquitetura do lugar. Tiro mais fotos de tudo.
No final da tarde, volto ao hotel. Vejo que o Felipe me mandou uma mensagem.
“As coisas nunca serão as mesmas sem você por perto.”
É o que ele me diz, sempre conseguindo arrancar um sorriso meu.
De uma hora pra outra, resolvo arrumar as poucas coisas que deixei espalhada de volta na mala. Quero ir embora. Quero voltar pra casa. Quero estar ao lado do homem que eu amo e poder abraça-lo e dizer o quanto senti sua falta e o quanto desejei tê-lo por perto, durante todo o tempo.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa? – dispara Luiza, assim que eu resolvo ligar para ela.
— Não. Eu só quero voltar pra casa. – digo, meio desesperada. Arrumando tudo em volta. — Você pode reservar um voo para mim? Tipo, pra agora.
— Hum... Tudo bem. Espera aí, me deixa só entrar aqui no site – pelo barulho que vem do outro lado, ao que parece, ela está digitando alto em seu computador. — Olha, infelizmente o próximo voo para o Brasil só saio daí as dez horas.
Vejo que ainda são oito e meia.
— Não tem problema! Quero esse mesmo. – então desligo, desço até a recepção do hotel, pago tudo que tenho que pagar com meu cartão e volto a pegar um táxi até o aeroporto.
Fico por lá por um tempo, só esperando o momento certo para a saída do voo. Enquanto isso, resolvo comprar revista novas de moda e me atualizar ainda mais sobre as ultimas tendências e as novidades que virão por aqui.
E quando estou voltando para a ala de espera, é quando eu esbarro com um alguém muito alto. Quando ergo meus olhos, vejo que eles são muito familiares. Mas que faz um bom tempo em que eu não os vejo.
É o Danilo, um antigo namorado meu, na verdade, o primeiro. Ele não mudou em nada. Sempre foi alto, forte, sarado e nesse momento está vestido um jeans apertado, um casaco preto e usando um cachecol marrom, que combina com suas botas.
Sua pele está ainda mais bronzeada, seu cabelo liso e loiro, combinando com seus olhos de um castanho-claro. E seus lábios cheios esboçam um sorriso.
— Bianca? Quanto tempo! – então ele me abraça, puxando-me para mais perto e me apertando muito.
Depois ele beija meu rosto carinhosamente.
Danilo e eu temos uma longa historia.
Há muito tempo atrás nossos pais foram sócios e muito amigos e com isso nós ficamos muito próximos. No começo nos tornamos muito amigos e depois, mesmo eu sendo uns três anos mais nova que ele, nós começamos a namorar.
Foi um namoro muito tranquilo. Ele me respeitava, eu o respeitava. Ele era carinhoso, cuidadoso, me presenteava bastante, me fazia surpresas, mas nunca foi algo muito intenso, como em filmes ou novelas.
Gostávamos muito um do outro, mas isso era tudo. Não sei se na época, por eu ser nova demais, eu o amava pra valer, tanto quanto amei e amo o Felipe até hoje.
E nós só nos separamos mesmo porque quando ele completou maior idade foi chamado para servir o exército. E terminar o namoro foi uma decisão que partiu de nós dois. Então, nós afastamos e acho que seguimos bem assim, sabendo que era o melhor para os dois. Afinal, vivíamos etapas diferentes de nossas vidas. Ele se tornando adulto e eu continuava a viver minha vida de garotinha adolescente.
Tempos depois eu voltei a reencontra-lo, aí eu já era mais crescida e estava perdidamente apaixonada pelo Felipe, que nem me dava boa. Danilo e eu voltamos a ficar juntos, mesmo que no fundo eu amasse outro e não a ele. Mas acho que também ele nunca me amou, só gostava muito de mim e estava passando seu tempo livre, relembrando os velhos tempos.
Já que eu queria provar para o Felipe, na época, que eu poderia muito bem viver sem a rejeição dele. Mas na verdade, eu não podia. Estava apenas enganando a mim mesma. O Danilo, devido a nossa aproximação e por não ser bobo nem nada, logo percebeu isso, nós conversamos, eu esclareci tudo a ele que sempre fora um bom amigo e ele aceitou numa boa, até abriu mão de estar comigo, sabendo que o melhor para mim era ficar com que eu gostava de verdade.
— O que você faz aqui? – pergunto, sem conseguir tirar os olhos dele. Ele é daqueles caros tão bonitos, que a gente mal consegue respirar direito ou raciocinar direito.
— Estou trabalhando como modelo agora. E isso se resume em basicamente ficar viajando por aí a trabalho. Mas e você? – ele pegou minha mão e me girou. — Nossa, você está ótima!
E eu sorri, sem graça, sentindo-me corar.
— Também estou aqui a trabalho. – digo, sem entrar em muitos detalhes. — Mas já estou voltando para o Brasil.
— Sério? Poxa, que sorte a sua. Faz uns dois anos que não volto pra casa. – diz ele, parece tristonho. — Estou morrendo de saudades de tudo por lá! Inclusive, fiquei de fazer uma visita aos meus pais. Talvez eu apareça por lá assim que tiver tempo e nós poderíamos até nos reencontrar. O que você acha?
— Seria ótimo! – digo rápido demais, empolgada demais, entusiasmada demais. Por um momento até me esqueci o que estava fazendo naquele aeroporto. — Vamos marcar, sim.
— Então me passa o seu novo numero. – ele me estende seu celular, onde eu salvo o meu numero para ele. — Eu te ligo assim que chegar lá, tudo bem? – ele volta a me abraçar, um rápido abraço rápido dessa vez. — Foi bom te encontrar, Bia.
Despedimos-nos e cada um segue seu rumo.
Algum tempo depois já estou confortavelmente sentada em minha poltrona, dentro do avião em movimento. E acabo me sentindo muito culpada por ter me sentindo fortemente atraída – mais uma vez – pelo meu ex-namorado quando na verdade, pouco tempo antes, tudo que eu mais queria era voltar para os braços do cara que eu amo, o Felipe.
E o pior: eu estava de fato ansiosa para o nosso encontro, digo, entre mim e o Danilo. Foi bom reencontra-lo e seria melhor ainda poder conversar com ele, quando tivéssemos mais tempo para aproveitar a companhia um do outro.
Outra vez.
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