Planos e Promessas
6 Felipe.

Valéria me procurou durante o intervalo. Ela parecia não se lembrar de nada do que tinha acontecido noites atrás entre nós dois, mas ainda continuava muito insistente. E eu agradeci aos céus por não tê-la visto alguns dias atrás, pois estava me preparando mentalmente para essa conversa.
Puxei-a pelo braço para um canto mais reservado, quando notei que havia poucas pessoas a nossa volta pelo corredor. Não queria chamar a atenção dos demais, nem dar motivos para fofocas se espalharem por aí. Mas ela parecia não entender isso até hoje. E isso era o que mais me irritava nela.
Ela ainda é uma menininha inconsequente e inocente demais para entender a dimensão das coisas.
— Eu pedi pra você parar com isso. – digo, muito bravo. Não acordei muito bem hoje. E isso se deve ao fato da Bianca ter chegado muito estranha em casa ontem.
— Mas professor – ela continuou, com aqueles olhos grandes e impetuosos. — você não entende! Eu gosto de você. E quando digo que gosto...
— Isso não me interessa! Quem não entende é você. – interrompo-a, grosseiro até demais. — Isso nunca vai acontecer, Valéria. Isso que você imagina entre nós é inversão da sua cabeça. Eu sou seu professor! Apenas seu professor.
— E é por isso que eu gosto ainda mais de você. – continua ela, sem perder a pose. — Você é o homem mais incrível que eu já conheci. E sim, você pode continuar sendo meu professor. Mas acima de tudo é um homem. Um homem admirável!
Ela suspirou, como se estivesse cansada de me convencer do obvio.
— Poderíamos manter isso em segredo. Algo entre nós dois e assim nenhum de nós dois sairá perdendo. Eu não me importaria, desde que eu estivesse com você ao meu lado...
Por um momento eu quis bater nela, para ver se ela caia na real e parava de alucinar. Eu quis gritar e fazê-la enxergar que nada daquilo era real. Mas tudo que eu fiz foi me aproximar ainda mais dela, ainda com meus olhos no dela e disse calmamente:
— Esqueça isso. Eu não quero você. Eu já pertenço à outra pessoa.
E então saí, antes que as coisas pudessem se agravar. Fui até a sala dos professores, onde peguei minha carteira e saí com meus colegas de trabalho, para almoçar fora, enquanto eles me contavam à maravilha que eram suas vidas.
Diferentemente da minha.
Onde acontecia um problema atrás do outro.
Para minha próxima turma, no período da tarde, eu aplicaria um teste. Um teste básico de conhecimentos gerais da matéria aplicada nas ultimas aulas. Valendo cinco pontos.
Reconheci que eles estavam nervosos, assim como eu ficava quando era eu quem recebia alguma prova. E entendi o lado deles. Porque diferentemente do que as pessoas acham, vida de estudante não é nada fácil.
Enquanto eles faziam a prova calados e quietos, fiquei na minha mesa, lendo um livro qualquer sobre a próxima matéria que eu teria que preparar para eles.
Eu fingia que não via e sabia exatamente quem estava colado diante dos meus olhos achando que eu era cego. O problema é que eu não sou muito de me importar com essas coisas. Sempre acho que aqueles que só estão aqui para terem um diploma, não são dignos do meu sacrifício. Por isso eu relevo e dou prioridade aqueles que querem verdadeiramente aprender.
Quarenta minutos depois recolhi as provas e as guardei dentro da minha pasta. Eu as corrigiria mais tarde, em casa, com mais tranquilidade.
No resto da aula ficamos discutindo o que eles acharam da prova e quais eram suas principais duvidas. Por fim, fiz a chamada e os liberei para irem mais cedo para suas casas.
Mariza, mais uma vez, me dispensou. Não queria que eu ficasse até às onze da noite dando aula. Então, sem muitas opções, fui para casa mais cedo, novamente.
Me surpreendi ao ver o carro da Bianca parado na garagem. Pelo visto ela ainda não tinha ido trabalhar e estava em casa naquele momento. Não sabia se achava isso ruim ou bom. De qualquer forma entrei, não era como se eu tivesse outro lugar para ir.
A casa estava silenciosa e muito escura. Acendi apenas as luzes da sala, onde deixei minhas coisas. Olhei nos outros cômodos, a procura dela, antes de subir para o andar superior.
Talvez eu estivesse enganado e ela não tinha ido trabalhar, mas teria saído com as amigas. Não sei. Mas com certeza ela não estava por ali também. Estava tudo tão calmo e silencioso. Nem no quarto ela estava dormindo ou descansando.
Vou para o banheiro, porque antes de qualquer coisa eu preciso de um banho quente. E quando abro a porta é quando me vem à surpresa. Bianca está ali. Totalmente nua. Bem na minha frente, tão surpresa quanto eu com aquele encontro repentino.
Não é como se eu nunca tivesse a visto assim antes, mas é que fazia um bom tempo em que tínhamos tanta intimidade. Nem me lembro a ultima vez em que fizemos amor. E quando digo que esse relacionamento está pior do que nunca, totalmente frio e distante, não estou brincando. Falo sério.
Vê-la nua naquele momento não pareceu certo, é como se fôssemos dois estranhos. Mas também não consegui desviar meus olhos. E fico ali, apenas olhando, com a mão ainda na maçaneta da porta. E ela me olha de volta, com um olhar indecifrável e com o creme que ela ia passar nas pernas em mãos.
Analiso-a por completo, admirando seu corpo esbelto. Ele não mudou muito desde quando fizemos amor pela primeira vez, um tempo atrás, quando tínhamos dezessete anos.
Ela continua magra, a pele branca quase transparente, os seios pequenos, o bumbum moderado, com poucas curvas, mas continua linda, do jeitinho que eu amo. E incrivelmente sexy, com o cabelo preso e com alguns fios soltos. O rosto sem nada de maquiagem, parecendo tão natural e tão a vontade.
Confesso que essa imagem me deixa um tanto excitado. Com vontade de ir até ela, pegá-la nos braços e joga-la na cama. Ou toma-la ali mesmo no banheiro, encostada na parede, enquanto sinto seu corpo, seu beijo, aquelas típicas sensações, o desejo, o calor que nos envolve, a paixão...
— Opa! Desculpe-me. – acabo dizendo, quando caio em mim e percebo que estou divagando demais. — Eu não sabia que... Desculpa. – e volto a fechar a porta, constrangido.
Espero sentado na cama até que ela saia do banheiro, enrolada em uma toalha branca. Sorrimos um para o outro, um sorriso fraco, sem nada muito explicito. Levanto-me, passo por ela, inalando seu perfume suave de flores e entro no banheiro, onde é a minha vez de me trancar ali.
Tomo um banho demorado, deixando toda a tensão do meu corpo ir embora pelo ralo. Depois, visto meu pijama e saio do quarto, encontrando a Bianca lá em baixo, na cozinha.
Pelo cheiro, ela está fazendo algo para comer. Não sei se espero ou se avanço, para também fazer algo pra mim.
— Estou fazendo macarrão. – que é uma das poucas coisas que ela sabe fazer. – Você quer?
Por essa eu não esperava, mas aceito mesmo assim.
Após nos servimos, vamos comer os dois na sala, em frente à televisão.
Bianca come calmamente, já eu devoro meu prato de macarrão ao molho imediatamente, pois estou faminto. Quando terminamos, deixamos os pratos de lado e continuamos assistindo a tevê, um em cada ponta do sofá.
Divirto-me por um momento com as risadas que antigos episódios de South Park arrancam de Bianca. Há muito tempo eu não a vejo soltar gargalhadas dessa forma. E isso, de repente, enche-me de esperanças e alegria.
Eu adoro o jeito que ela ri, sem se preocupar com as pessoas que estão em volta vão pensar.
É descontraído e natural.
Não quero deixa-la, mas tenho muito o que fazer ainda. Então, levantando-me com nossos pratos vazios em mãos e os lavo na pia da cozinha. Depois subo até o meu escritório com a minha pasta em mãos, começo a corrigir as provas de hoje.
Ouço quando lá em baixo Bianca liga o som. Hoje ela está muito diferente, parece mais feliz e descontraída. Mas isso não me importa, muito pelo contrário. Estou animado por ela. E de repente corrigir provas não me parece uma tarefa tão chata.
Meia hora depois, quando já corrigi metade das provas, ouço uma batida na porta.
— Oi. Posso entrar? – ela pergunta, com um copo grande de vidro em mãos.
Assinto.
— Claro. Entra. – digo, sorrindo um pouco. Estou surpreso por ela aparecer ali por livre e espontânea vontade.
— Fiz suco de maracujá. Você quer? – ela me estende o copo, antes que eu possa lhe dar uma resposta.
— Obrigado.
Ela espia por cima dos meus ombros o que estou fazendo.
— Corrigindo atividades? – pergunta ela, naturalmente.
— Provas. – corrijo-a.
— Quer ajuda?
— Hum... Não. Eu dou conta disso.
Sorrio para não parecer que não estou aceitando sua ajuda porque não me importo, quando na verdade me importo até demais.
— Então, tá. – ela pousa sua mão em meu ombro e me dá um pequeno aperto ali.
Eu queria saber por que hoje ela está tão... À vontade comigo.
Quando ela sai, fechando a porta, tomo meu suco enquanto volto a corrigir as provas. Mais meia horinha é tudo que preciso para terminar. Mas aí já é tarde demais e quando desço para levar o copo vazio até a pia, Bianca está deitada no sofá, quase cochilando, ainda com o som ligado.
Vou até a cozinha e deixo meu copo por lá, antes de apagar as luzes vejo que o celular dela vibra sobre a mesa. Não tenho o hábito de ficar curiando as coisas dela, mas dessa vez ajo por impulso e pego o celular para ver do que se trata.
É uma mensagem de texto.
Automaticamente deslizo meu dedo pelo visor e abro-a.
A mensagem diz:
“Estou voltando hoje para o Brasil. Mal posso esperar para vê-la de novo.”
Eu não me importaria com o que leio se isso não tivesse sido enviado pelo Danilo, o ex-namorado da Bianca.
Um cara que eu odeio com todas minhas forças, por ter afastado a Bianca de mim na época em que eu ainda tentava descobrir meus sentimentos por ela. Eu sentia que ele a sufocava, ele a prendia e não saia de seu pé e isso me incomodava de uma forma que sempre que eu via tinha vontade de socar sua cara, mesmo sabendo que era fraco demais para isso e que ele era duas vezes maior que eu.
Deslizei meu dedo para baixo, puxando as mensagens anteriores e percebi que eles vinham conversando há um tempinho já. Eram mensagens bobas, sem nada muito explicito, mas que me deixaram muito nervoso e enciumado naquele momento.
Eu quis jogar aquele celular no chão e pisar em cima, como se isso fosse apagar alguma coisa.
Com que direito àquele cara achava que ele poderia ficar falando bobagens para minha namorada?
E o pior: pelas respostas dela, ela parecia gostar de todas as baboseiras que ele dizia. E pelo visto, eles ficaram de se encontrar, quando ele voltasse para o Brasil. Mas eu preferia que ele ficasse onde estava ou eu não me responsabilizaria pelos meus atos.
Toda aquela minha alegria de minutos atrás havia desaparecido completamente agora.
Coloquei o celular de volta no lugar onde eu havia achado e desliguei as luzes da cozinha. Por um momento cogitei a possibilidade de fingir que nada tinha visto, mas até aquilo era demais para mim. Cada mensagem ficava rodando a minha mente como se fizessem questão de esfregar na minha cara que eu poderia perder a Bianca a qualquer momento para um babaca qualquer.
Não fiz nem questão de ir até ela, acorda-la para ir para cama. Eu estava muito puto para fazer um gesto bom. Então, acabei deixando-a dormir ali no sofá mesmo, com o som ligado. E fui para o quarto, com a cabeça explodindo de raiva.
Tentei dormir, mas fiquei pensando em mil e uma besteiras. Pensando em mil possibilidades. E uma delas se resumia ao fato da Bianca estar me traindo com outro, ou ate mesmo com o Danilo, que parecia tão próximo agora, depois de anos sem sabermos qualquer noticia dele.
Pensei que ela iria me trocar a qualquer momento por aquele riquinho, que muito provavelmente trabalhava com modelo e continuava fazendo qualquer garota cair aos seus pés com seu charme e sua beleza de galã internacional.
Diferentemente de mim, que era havia me tornado um péssimo namorado e era só um professorzinho qualquer de universidade.
Eu sempre soube que nunca seria o bastante para Bianca, ainda sim eu insisti e acreditei na força do meu amor por ela. Sempre soube que ela era demais pra mim. Em todos os sentidos. Muito bonita, muito rica, muito vivida, muito experiente e tudo que se possa imaginar.
— Porque você não me acordou? – perguntou ela, pegando-me de surpresa ao entrar no quarto naquele instante.
— Desculpe. Eu pensei que você quisesse ficar sozinha. – digo, inventando qualquer desculpa para não ter que falar qual era o verdadeiro problema.
Ela não percebeu que eu estava mentindo e desconfortável com tudo aquilo.
Ela apenas tirou robe preto de dormir, ficando apenas de camisola. E que camisola! Era branca e de seda e lhe caia muito bem. E deitou-se ao meu lado, olhando-me de lado.
— O que foi? Você está bem? – ela quis saber.
— Sim, estou bem. – digo, olhando para ela rapidamente. Tentando soar o mais convencível possível. — Por quê?
— Não sei... Você ficou estranho de repente – ela sorriu maravilhosa. Odiava o fato de ela me conhecer como ninguém. As vezes não dava nem pra disfarçar. — Deve ser coisa da minha cabeça. Esquece.
Bianca inclinou-se e beijou meu rosto.
— Boa noite. – disse ela, antes de se virar para o outro lado e apagar seu abajur.
Não apaguei o meu e continuei fitando o teto do quarto, pensando em muitas bobagens. Inclusive na cara de pau dela por não ter comentado comigo nem por um momento que reencontrou o ex-namorado por aí, mesmo que por acaso.
Vi que ela pegou no sono rapidinho, ao contrario de mim que mal consegui dormir naquela noite.
Depois daquele dia, passei a perceber que a Bianca se distraia rápido com o celular, mesmo nas poucas vezes em que conversamos e se não conversávamos, ela não mais se importa, já que estava ocupada com outras coisas. Como ficar no celular, na certa conversando com o tal Danilo por mensagens de texto.
Aquilo só me fez ficar ainda mais com ódio de tudo. Tanto que já acordava mal humorado e descontava tudo no primeiro que me desse à chance, por mais errado que isso pudesse ser. Mas não era como se eu pudesse controlar meu estresse e meu ciúme descontrolado da Bianca.
O tipo de ciúmes que nunca senti tanto por ela.
Sim, eu tenho ciúmes. Mas nunca chegou a ser tanto. Porque diferentemente de agora, eu nunca me senti ameaçado. Sim, no passado chegamos a brigar uma vez por causa do Danilo também. E a situação se parece até com essa. Tudo por causa de uma mensagem do infeliz.
Mas essas foram às poucas vezes em que brigamos por ciúmes. Sempre fui um cara muito controlado e sensato. Sempre tentei ver o lado dela também e não só o meu, por isso raramente brigávamos. E também, sempre confiei muito nela acima de tudo, então não tínhamos muitos motivos para discussões.
E com isso acabei ficando mais distante e frio em casa, o que ela estranhou no começo, já que estava tentando uma reaproximação. Mas depois de uns três dias ela se acostumou e que achou que esse era o meu normal ou que talvez eu estivesse assim por conta do excesso de trabalho, já que fiz questão de trabalhar o dia todo na ultima semana, cobrindo o horário de outros professores que faltaram.
Sei que isso é totalmente errado da minha parte, porque já que me sinto tão mal, eu pelo menos deveria me abrir e expor meus sentimentos, para que ela também entenda ao meu lado. Mas ao contrário disso eu me afastei e me reservei. Guardei tudo para mim mesmo, correndo ainda mais o risco de perdê-la de vez.
Não sei o que está havendo comigo, só sei que há muito tempo deixei de me sentir eu mesmo. Não sou o mesmo garoto de antes. Eu me tornei um homem muito ruim e que não pensa direito em seus atos, que age por impulso ou que não pensa nas consequências. Eu me tornei fraco, além de muito inseguro.
O que eu não quero é perdê-la, porque eu sei que mesmo que tudo isso pareça perdido e incerto, eu ainda a amo, a amo como antes.
Eu queria saber se ela me ama como antes e se ainda vale a pena lutarmos por isso. Porque se não, eu preciso que ela seja sincera comigo. Mas de qualquer forma, não importa. Ela já não está sendo sincera. E isso dói muito.
Como dói.
Mas afinal: estamos sendo sinceros um com o outro ou ela será a única culpada nessa história?
Acho que sei as respostas para essas perguntas.
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