Notas iniciais
Antes que vocês fiquem com raiva da Bianca, vejam aqui o lado dela também.

Estava assistindo tevê com o Toddy quando por um momento me dispersei e pensei no que o Felipe havia me dito aquela manhã, assim que eu acordei. Ele havia dito que eu estava linda e olha que eu tinha acabado de acordar. Mal poderia olhar para meu próprio rosto. Mas ele conseguiu enxergar beleza em mim naquele momento.

Então deixei o Toddy sozinho na sala e subi, tomei um banho de banheira, e me cobri com o roupão. Encarei-me no espelho, sem maquiagem, e tive uma ideia: iria fazer minha máscara de embelezamento, com pepino e chá-verde. Eu costumava aplica-la no rosto sempre que estava bem humorada. E hoje, eu tinha uma razão especial para estar bem comigo mesma, a verdade é que eu ficaria ainda mais bonita para o meu homem.

Apliquei a máscara e enquanto esperava secar, ouvi meu celular tocar em cima da cama. Corri para atender, preocupada, pensando que fosse a Luiza para falar sobre o trabalho. Mais um longo dia sem mim na empresa. Mas me enganei. Não era ela. Era a ultima pessoa que eu esperava que me ligasse.

Era o Danilo.

No primeiro momento pensei em desligar e não atender mais. Não queria trazer mais problemas para o meu relacionamento com o Felipe, lembrando-me da nossa ultima briga. Mas aí percebi que não seria justo com o Danilo. Então tive outra ideia: iria pedir para ele me esquecer e nunca mais me ligar, porque eu já estava comprometida há muito tempo com a única pessoa que eu amava de fato.

Eu bem que tentei tocar no assunto, mas o Danilo não me deu espaço. Ficou falando sem parar por um primeiro momento e depois começou a me encher de perguntas aleatórias sobre o nosso passado, no tempo em que éramos duas crianças e namorávamos. Fiquei tão entrosada quando ele tocou no assunto, tão distraída e divertida, que acabei me esquecendo da ideia inicial de dispensa-lo.

Por fim, ele acabou desligando sem que eu nem tivesse tempo para tocar no assunto. Disse que tinha um jantar importante para ir, um novo contrato de trabalho e então se foi.

Deixei o celular pra lá e prometi a mim mesma que na próxima vez em que ele me ligasse não deixaria ele nem falar. Iria logo pedir pra ele parar com isso, porque eu era comprometida e já estava apaixonada por outro.

Às onze e meia da noite, eu já estava vestida com o meu pijama e de cara lavada, sem máscaras. Esperei pelo Felipe lá em baixo na sala, para saber como havia sido seu dia e para jantarmos juntos. Mas ele não apareceu e muito menos deu noticias. Comecei a ficar muito preocupada.

No máximo ele sempre chegava à meia noite e meia. Mas deu uma hora da manhã e nada. Frustrada manquei até a cozinha, apoiando-me nas paredes e tratei de jogar o macarrão com sardinha que eu havia feito – um dos preferidos dele – na lata de lixo, porque a essa altura já estava estragado, ou sei lá, eu não entendia muito de comida.

Surpreendi-me ao ver um buquê de tulipas jogado fora. Junto com um cartão que eu tratei de pegar antes que o macarrão o sujasse todo.

Era do Felipe, com certeza aquela letra era dele. Mas porque será que ele havia jogado tudo aquilo fora sem antes me da-lo? E mais: aquilo não estava ali horas antes, o que só poderia significar que ele já tinha passado em casa.

Mas onde estavam suas coisas? Onde ele estava?

Será que era algum tipo de brincadeira de esconde-esconde? Ou será que encontra-lo fazia parte da surpresa? Só ainda não entendia porque as flores e o cartão havia ido parar na lata de lixo como se não significassem nada.

Tentei ligar no celular dele pela milésima vez, mas ele continuava sem me atender. Procurei-o por toda a parte, até mesmo dentro da dispensa e dos armários. Nem no closet ele estava escondido. Desisti. E voltei frustrada para o sofá, com medo de ter forçado demais o tornozelo.

Coloquei a cabeça pra funcionar.

Se o Felipe já tinha aparecido em casa, porque não havia ido falar comigo? Porque havia desaparecido? E como eu não tinha visto? Então me lembrei subitamente de algo que me preocupou: a ligação Do Danilo. Claro! Ele tinha chegado bem quando estava falando ao celular com o Danilo e deve ter escutado tudo e interpretado tudo errado. Irritado ele saiu de casa, mas para onde havia ido e porque ainda não tinha voltado?

Voltei a ligar para ele em busca de respostas.

Na trigésima chamada ele resolveu me atender.

— Felipe, pelo amor de Deus. Onde você está? Eu estou preocupada!

— Aqui não é o Felipe. – disse uma voz feminina bastante familiar. — Aqui é a mãe dele, Silvia.

— Oi Silva, sou eu, Bianca. Mas disso você já deve saber. – dei um risinho, constrangida. — O Felipe está aí? Será que posso falar com ele?

— Na verdade, não pode não. Ele dormiu a algumas horas. Sugiro que você ligue amanhã, outra hora. – ela deu uma pausa que pareceu eterna. — Bom, eu não sei o que aconteceu entre vocês, mas quando ele chegou aqui essa noite, ele parecia muito infeliz. Então eu te peço, por favor, afinal, ele ainda é meu filho... Não machuque o coração dele ainda mais. Por favor.

Não soube nem o que dizer, simplesmente desliguei. Já com lágrimas nos olhos, imaginando o quanto o Felipe estava arrasado. Novamente, por minha causa. Porque ele havia entendido tudo errado. Porque eu sou uma tonta e não faço nada direito, nunca.

Chorei até pegar no sono, preocupada com o rumo em que as coisas estavam. Novamente. E o Toddy era o único ali que consolava a minha dor. Parecendo entender que meu coração até então recentemente recuperando, mais uma vez estava despedaço em mil pedacinhos.

Acordei no outro dia com os olhos praticamente colados, por eu ter chorado durante toda a madrugada.

Felipe nem sempre se deu muito bem com os pais, mas era lá, em seu antigo lá, exatamente onde ele estava agora.

O Felipe não tem uma historia de infância muito bonita, como a maioria de nós.

Quando ele era pequeno ele perdeu o irmão mais velho, o Guilherme, em um acidente fatal de carro enquanto eles brincavam na rua de bola, durante as férias. E a partir dali o Felipe sentia que além de ter perdido a pessoa que mais importava em sua vida: seu espelho, seu porto-seguro, seu braço direito, seu melhor amigo, seu irmão, seu parceiro, seu exemplo. Ele também sentia todo o peso da culpa que os pais, principalmente que a mãe, depositava sobre ele pela morte do irmão.

Por anos, além de conviver com a dor da perda, ele foi rejeitado, descartado, menosprezado, humilhado pela própria mãe ainda quando era só uma criança. E isso aconteceu até o final de sua adolescência, um pouco antes de ir viajar para o exterior, que foi quando ele descobriu os verdadeiros motivos de sua mãe trata-lo de tal maneira.

Ela não queria, ela não entendia, ela não sabia que ele sofria tanto quanto ela. Por um bom tempo de sua adolescente o Felipe praticamente não falava, porque tinha perdido toda a voz, ao gritar para o irmão, como um alerta de que um carro estava se aproximando e...Bom, foi tarde demais. O carro o acertou.

De maneira errada sua mãe havia punido a si mesma pela morte do filho mais velho. Porque ela se considerava também muito culpada por tudo. Mas quando o filho mais novo estava prestes a partir para estudar fora e ganhar a vida, ela praticamente implorou para que ele ficasse com ela, porque ela não suportaria perder outro filho.

Ela não suportava a ideia de que tinha sobrado apenas um filho e que jamais voltaria a ver o outro, que diante dos olhos da grande maioria, era um garoto perfeito, cheios de sonhos e amigos e inteligência.

Por isso ela rejeitou filho mais novo, por isso ela o evitou por tanto tempo. Porque achou que se algum dia chegasse a perder o único filho que sobrara, a dor seria menor, a dor seria suportável, mas quando esse momento de perda chegou, ela percebeu que não era bem assim e tudo que tinha feito para afasta-lo só tinha feito com que sobrasse ainda menos tempo entre eles.

Eu nunca pude entendê-la ao acerto e aceitar essa sua maneira de pensar. Afinal, ela tinha feito o homem que eu amava, o garotinho que eu amava, sofrer por anos, sentir-se mal e culpado por algo que ele não tinha feito. Com essas ideias bobas na cabeça, ela deixou de estar ao lado dele como mãe nos momentos em que ele mais precisou e isso para mim era uma das coisas mais cruéis que uma mãe poderia fazer com um filho.

Mas não era bem porque eu não a entendia que ela não gosta de mim até hoje. Ela não gosta de mim porque um dia eu a enfrentei, joguei na cara dela verdades que ela insistia em não enxergar, porque na época, eu estava cansada de ver meu namorado sofrer e ouvir coisas que ele, sendo quem é, nunca mereceu ouvir. Eu estava tão cansada de tudo que eu realmente a enfrentei, com o peito estufado, mesmo ainda sendo uma adolescente boba e cheia de problemas e ela uma mulher, madura e vivida.

Não me arrependo disso. Alguém precisava enfrentar aquela mulher.

Sei que o Felipe só começou a se dar melhor com os pais depois de ela ter pedido, ou melhor, implorado para ele ficar e não ir viajar para o exterior. Mas não era como se tivesse volta. Afinal, já estava tudo certo. Era o sonho dele. Uma chance única. Nem eu, na época, tive coragem de pedi-lo pra ficar. Não achava que isso seria justo com ele, um garoto tão inteligente e único, que teve a sorte de ganhar uma bolsa para ter uma das melhores educações do mundo.

Naquele tempo, quando conversávamos por telefone ou pela internet, algumas vezes ele me falava que tinha ligado para a mãe e conversando com ela. No começou foi difícil, eles não tinham intimidade e muito menos diálogo. Devido ao tempo perdido em que estiveram separados. Mas o tempo passou e as coisas foram se ajeitando aos poucos a relação deles foi melhorando, mas nunca se tornou perfeita. Nunca.

E agora, quando ele precisava recorrer a um lugar, era pra casa dela que ele ia. A mãe que por tanto tempo lhe fez tão mal. Mas no final, eles sempre seriam mãe e filho. E sempre poderiam recorrer um ao outro. Porque é assim que as famílias são, por mais imperfeitas que sejam, quando as coisas apertam, elas ainda podem contar um com os outros. Sempre.

Mais tarde, tomei meu café da manhã. Mas quase não consegui comer nada. Apenas tomei leite e comi bolachas de maisena. Para espairecer, aproveitei o solzinho da manhã para ir até o quintal, onde me sentei com o tornozelo apoiado para o alto e observei o Toddy correr pelo jardim.

Eu já tinha passado muitos dias sozinha em casa e até tinha me acostumado a isso e aproveitado a tranquilidade e a calmaria. Acontece que as circunstancias eram diferentes agora. Eu não sabia dizer por quanto tempo ficaria sozinha. Por quanto tempo ficaria sem o Felipe. E isso já estava começando a me atormentar.

Eu o amava demais para ficar tão tempo sem ele. Da primeira vez, anos atrás, achava que tinha conseguido. Mas quando ele voltou, anos depois, eu percebi que não bem assim.

Eu nunca conseguiria, porque o sentia por ele era forte demais e isso jamais seria fácil de superar algo assim.

Peguei meu celular e lá pela hora do almoço resolvi voltar a ligar para o Felipe, na esperança que ele me atendesse no seu tempo livre no trabalho e que nos conversássemos e esclarecêssemos tudo. E que por fim, ele voltasse pra casa e as coisas voltassem a ficar bem entre nós

Mas como você devem imaginar, isso não aconteceu de fato.

Ele não me atendeu. Ele estava me ignorando.

Bem feito pra mim, claro.

À tarde, quando já estava muito perto de cochilar no sofá, após uma longa tarde de tentativas inúteis de comunicação, alguém bateu a porta. E o Toddy que estava dormindo entre as minhas pernas, ergueu a cabeça rapidamente e começou a latir.

Minhas esperanças de que fosse o Felipe sumiram naquele momento. O Toddy nunca reagiria mal à presença dele. Certamente era um estranho. O carteiro, talvez.

Mancando fui até a porta e a abri um pouco.

Parado do lado de fora estava um homem. O pai do Felipe. O sr. Paulo.

Felipe e seu pai também nunca tiveram uma relação maravilhosa. Seu pai sempre foi um homem muito reservado, calado e sério. Nunca foi como sua mãe: uma explosão de pessoa. Acho que nunca vi esse homem sorrir em toda minha vida. Não que ele fosse chato e ranzinza. Ele só é na dele.

— Entra, sr. Paulo. Fica a vontade.

Dei uma bronca no Toddy, pedindo para que ele parasse com tanto escândalo ou assustaria a visita.

Talvez o sr. Paulo tivesse noticias do filho.

— Não, não quero me demorar. Eu vim apenas buscar algumas coisas do Felipe, que ele mesmo me pediu para vir pegar.

Então era sério?

Ele estava mesmo indo embora de vez?

Relutei muito naquele momento para não mostrar o quanto abalada eu estava, prestes a chorar.

— Então, porque ele mesmo não veio me pegar? – acabei disparando, assim, sem pensar muito. De triste, comecei a ficar muito furiosa com o Felipe. Tudo bem que eu não estivesse em condições de relutar, mas o Felipe estava pegando pesado comigo.

— Olha, srta. Bianca, na verdade, eu não sei. Ele me pediu e eu concordei em ajudar. Não quero confusão. Nem me meter na briga de vocês. Por favor, apenas colabore.

E foi o que eu fiz. Subi lá em cima no quarto mesmo mancando e me apoiando nas paredes, peguei uma bolsa nem tão grande nem tão pequena do Felipe e me meti no closet, onde peguei algumas peças de roupas dele – não muitas, afinal eu não queria facilitar para o lado dele e quem sabe na próxima ele mesmo viesse buscar e me desse à chance de me desculpar – e coloquei tudo cuidadosamente dentro da bolsa.

Desci e entreguei tudo ao pai dele.

— Aqui está.

— Muito obrigado. Tenha uma boa noite, srta.

Então, ele se foi.

E antes mesmo que eu pudesse chegar até o sofá, desabei em lágrimas. Com o coração ainda mais partido.

Os dias passaram.

Felipe não voltou. Muito menos atendeu as minhas ligações. Nem se quer deu a chance de eu explicar o meu lado da história. Nem mesmo se importou em saber com o Toddy estava. E eu tive que cuidar de tudo, sozinha.

Por sorte, meu tornozelo se recuperou bastante e eu já não estava mais mancando, me rastejando, ou pulando. Então pude voltar para minha empresa, onde eu até tentei me ocupar com as minhas coisas. Mas nada me tirava da cabeça a ausência do Felipe.

Eu só queria que ele voltasse.

Ou desse noticias.

— O que está acontecendo com você? – perguntou Luiza, entrando na minha sala aquela noite. — Você assinou toda a papelada de forma errada. E eu tive que xerocar tudo novamente. – ele jogou tudo sobre a minha mesa de novo. — Aqui. Assine tudo de novo. E no lugar certo dessa vez.

Não consegui. Comecei a chorar de novo, pela quarta vez só naquele dia. Tentei esconder o rosto, mas foi em vão. Ela já tinha visto as minhas lágrimas, a minha tristeza. E se aproximou rapidamente, e me abraçou antes mesmo de perguntar o que eu tinha.

— Ele me deixou. – digo, antes mesmo que ela pergunte pela milésima vez. — Ele foi embora de casa.

Aproveitei a oportunidade para desabafar com ela. Luiza me ouviu com atenção e calada. Mas quando terminei, faltou voar no meu pescoço, dizendo que eu tinha feito tudo errado, que não tinha nada que te dado abertura para o Danilo voltar pra minha vida, mesmo que eu não estivesse em um bom momento da minha vida.

Ela tinha razão e isso fez com que eu me sentisse ainda pior.

— Agora vá para casa e descanse, por favor. – disse ela, tirando meu cabelo do rosto molhado. — Você está péssima.

Mas eu não queria ir pra casa e encontrar tudo escuro e vazio. Por sorte eu ainda tinha o Toddy e ele era a única coisa que me fazia voltar pra casa todas as noites. Afinal, eu tinha que alimenta-lo e passar um tempo com ele. Ele era como um filho pra mim.

Uma semana e meia depois, quando eu já estava seca de tanto chorar e fraca de tanto tentar ligar para o Felipe e nada de ele me atender, eu passei os olhos pelo calendário e me dei conta de uma coisa muito importante.

O dia em que o irmão dele tinha morrido.

Hoje.

Ia fazer tanto anos que eu já até tinha perdido a conta, mas certamente o Felipe não.

Ele havia criado um hábito nos últimos anos, desde que voltou de viajem. Nesse dia em especial ele deixava tudo para trás: trabalho, compromissos e obrigações. Para ir ao cemitério onde o irmão dele tinha sido enterrado.

E desde que tínhamos retomado nosso namoro, eu sempre estava lá e não seria diferente agora, apesar de tudo. Não deixaria de estar ao lado dele em um momento tão difícil. Era meu dever. Minha obrigação. Não só como namorada. Mas como amiga, que era como havia começado.

Nem cheguei a ir ao trabalho naquele dia, apenas liguei para Luiza e expliquei tudo. Ela super me apoiou e até sugeriu que eu passasse antes em um lugar e comprasse flores para mostrar minhas condolências.

Para a ocasião – não que fosse tão importante assim – eu escolhi um vestido preto, meia-calça fina e sapatos também pretos de salto não muito altos.

Deixei os cabelos presos em um coque mais clássico e dispensei a maquiagem e cobri os olhos – também para não mostrar o quanto eu tinha chorando nos últimos dias – com óculos de sol de lentes escuras.

Peguei meu carro e fui até o local que eu conhecia bem, apesar de ir até lá uma vez no ano.

Felipe se encontrava exatamente onde eu imaginava. Em pé, de frente ao tumulo do irmão. Em silencio. E parado, feito uma estatua. Eu nunca soube decifrá-lo em momentos assim, mas também nunca me intrometia. Sabia que ele precisava de espaço, talvez uma companhia. Mas nunca alguém que interrompesse suas orações e seus pensamentos.

Aproximei-me devagar.

O sol estava se pondo, o vento noturno predominava, causando calafrios ao meu corpo fraco.

Nunca fui muito fã de cemitérios, mas aquele dia em especial o lugar estava pouco movimento. Havia uma ou dias pessoas por ali, visitando seus entes queridos.

Felipe não me notou de imediato, estava de olhos fechados, com a cabeça elevada ao céu. Quase como se ele tivesse meditando. Ele vestia jeans, All Star e um paletó preto, com uma camisa branca e gravata também preta.

Coloquei as flores que comprei pelo caminho – são rosas azuis – sobre o túmulo.

Não disse nada, apenas fiquei ali. Calada. Observando tudo e também mandando minhas vibrações positivas. Não tinha chegado a conhecer o Guilherme, mas por tudo que o Felipe me contava sempre que podia, eu sabia que ele fora um garoto muito, mais muito especial e querido. Eu teria adorado conhecê-lo melhor. Sentia que poderíamos ter nos tornado grandes amigos.

Felipe abre os olhos calmamente. O céu já está mais escuro agora e nasce suas primeiras estrelas. Ele enfim me nota ao seu lado. Olha pra mim como se não acreditasse que eu estou ali. Temo por um momento que ele odeie por eu estar sendo tão invasiva em um momento tão particular.

Ao contrário disso, ele me abraça por um tempão. E eu o abraço de volta, feliz e surpresa ao mesmo tempo. Dentro do peito meu coração dá cambalhotas, apesar de saber que aquilo pode não significar nada. Não quer dizer que estejamos bem. Mas ainda há esperanças para nós dois e espaço pra mim em sua vida.

Sinto que sim.

Quando ele se afasta, beijo seu rosto de leve. Vejo que, apesar do escuro, ele contém lágrimas nos olhos. Esse momento sempre o deixou tão mais sensível, tão mais vulnerável.

Pra mim, ele parece só um garotinho que sempre muita falta do irmão.

Enquanto nos olhamos, sei que não tenho nada muito inteligente para dizer. Nunca tenho em momentos assim. Sei também que não é o momento apropriado para tocar no assunto. Eu poderia esperar, mas simplesmente não consigo. Porque talvez essa chance seja única. Já que ele vem me ignorando a dias.

— Eu sinto muito. – digo, baixinho. — Eu nunca quis te magoar.

— Eu sei. Mas você não pode evitar, não é? – ele sorriu, fraco. Tentando não chorar. — E eu sinto muito pelas flores e pelo cartão que foram parar na lata de lixo.

Não consigo evitar sorrir também.

— Isso é o de menos. Precisamos conversar. – busco pela sua mão e ele permite que eu me aproxime.

Algo dentro de mim diz que ele deve ter sentindo tanta falta de mim quanto eu sentia a dele nos últimos dias.

Queria dizer que nunca mais vamos nos separar assim, mas não posso prometer isso. Nem ele poderia.

— Eu e o Toddy sentimos a sua falta. – confesso, sentindo os dedos quentes dele entrelaçados aos meus.

— E eu também senti a de vocês. – ele admite, olhando-me no fundo dos olhos.

Quando percebo, ele deixa uma única lágrima escapar de seus olhos. Ele não a limpa. Deixa-a rolar por sua bochecha, até ela cair do queixo e desaparecer.

Eu o abraço forte.

Notas finais
Eles irão conversar no próximo capítulo. Será que eles vão se resolver dessa vez? Será que essa é a ultima briga deles? Tenho umas ideias bem legais para o próximo capítulo.