Plane Crash
45 O atentado
Notas iniciais

Eu sempre apreciei o silêncio. O zumbido vibrando nos meus ouvidos em um claro sinal de paz, um sentimento de descanso e de fim. Quanto toda a confusão e toda a gritaria já acabaram e agora só resta o final da guerra, quando nos deitamos em nossas camas, exaustos, mas ao mesmo tempo alegres por saber que quando acordarmos na manhã seguinte, tudo será mais simples. Mas ao mesmo tempo, eu adoro a gritaria. O barulho de alegria enchendo o meu coração com um sentimento de pertencimento. Sabendo que lutamos por algo que acreditamos e independe do que aconteça ao nosso redor, as pessoas chorando e gastando as suas vozes estão ao meu lado. Desço do avião com esse sentimento estranho no peito, de paz não pertencida. O jato particular para na pista isolada, onde a única coisa visível é o mato ao redor e o carro preto nos esperando.
Passei a viagem me preparando para como receberia meu súditos, como botaria uma máscara em meu rosto e como explicaria para a imprensa o desaparecimento de Kriss. Mas não precisei. Não tinha ninguém ali. Meu pai e minha mãe simplesmente não pareciam estar de humor para conversas, e em parte eu agradecia, nada do que ele ou ela pudessem falar nesse momento poderiam de alguma forme ajudar o que sinto. Papai escolheu uma pista de pouso longe do centro de Angeles, com o devido cuidado e segurança contra os rebeldes, portanto a viagem até o palácio ainda é grande e devo me contentar com a vasta vista de casas destruídas e miséria no longo caminho pela parte rural da província.
Minha testa estava encostada no vidro gelado, totalmente alheio a toda a tensa presente no veículo, mas eu não me importava, meu coração estava mais leve do que jamais me lembro de estar e mesmo não conseguindo dormir no banco desconfortável, não me deixo abalar. Observo a pequena cabana na beira da estrada. O teto estava parcialmente quebrado e os sinais da recente chuva era visível por toda a pequena casa, se é que se podia ser chamada assim. Ela não aparentava ser maior do que o meu banheiro e pedaços de madeira e entulhos em gerais se encontram jogados ao redor da parede mofada. Não há janelas, só o pequeno cubículo da prisão onde a família é obrigada a viver, sem a oportunidade de ver o mundo através dos vidros na parede, com a única imagem do tijolo alaranjado e do céu estrelado, os relembrando do fim de suas esperanças e da impossibilidade de mudança, como uma estrela, que mesmo se morrer nesse exato instante, sua falta só será sentida centenas de anos depois, e até esse destino parece melhor do que o que é os incumbido. As plantações de milho e trigo se estendem até onde não se pode ver, uma mistura de beje, amarelo e verde até onde o horizonte some, com uma única exceção: o marrom da lama ao redor do quadrado maltrapilho, onde dois porcos se deliciam e, na frente do lugar onde deveria ser a porta, uma garota, com não mais do que quinze anos, vestida com uma combinação de panos de cores fechadas em uma tentativa malsucedida de roupa.
Seu rosto pálido está sujo de poeira e ferrugem, o cabelo maltratado preso em uma trança desgrenhada e em seus braços finos, um bebê chora. Não consigo ver se é homem ou mulher antes que o carro passe em baixa velocidade pela mãe na beira da estrada. Foi como se tivessem freado com o único intuito de vê-la sofrer.
—Parem o carro. -ordeno sem tirar os olhos da garota, que encara o automóvel como se fosse algo de outro mundo, uma mistura de excitação e esperança. Consigo, pela primeira vez, ver o pequeno bebê em seus braços, a divina menina que ainda não tem noção da vida e da dor.
_Não parem! Não ouse parar. — meu pai grita ao meu lado e suspiro. Continuo olhando para a menina e a vejo retirar algo do bolso, não consigo identificar devido a distância, mas ela lentamente se abaixa, deixa o bebê no chão, se levanta e ergue o braço direito lentamente, olhando em meus olhos, como se pudesse me ver através do vidro preto.
Primeiro para cima, na horizontal e em seguida nas duas diagonais. Ergo a sobrancelha, tentando entender o que aquele símbolo pode parecer, mas sou interrompido quando ela abaixa o braço, e vejo, em sua mão esquerda, a chama se ascender para no segundo seguinte, ser jogada em direção da casa e vê-la virar cinzas. Grito, pedindo desesperadamente que parem, mas ninguém parece ter visto o mesmo que eu.
_Ela vai morrer! Temos que voltar!-tento argumentar.
_Então deixe-a morrer, Maxon! Não podemos arriscar tanto, não quando a população começa a se revoltar. — meu pai responde frio e vira-se para frente, como se uma criança e um bebê não tivessem acabado de morrer, consumidos pelas chamas.
Espero pela gritaria, pelo pedido de socorro, mas só ouço o silêncio. Volto para dentro de mim mesmo, tentando juntas as peças e montar o quebra-cabeça, entender aquele maldito símbolo e todos os porquês. Porque jogar fogo em sua própria casa? Porque sacrificar um inocente bebê? Porque não pedir ajuda e porque esperar que passássemos? Precisei de poucos minutos para compreender a verdade, mas esses minutos perdidos não nos salvaram, pelo contrário, nos condenou. Esse é o motivo pelo qual a paz e o silêncio ás vezes não parecem reais. Pode ser o dia mais azul, possuir os sorrisos mais brilhantes, mas no fundo, bem no fundo, você sabe que uma hora, a gritaria sempre nos encontra, independente de nada além dela mesma.
A bandeira branca nunca pode ser levantada sem antes ser manchada de vermelho. A paz nunca pode ser realmente paz, se não tiver guerra. O silêncio nunca poderá ser silêncio se alguém não tiver dito algo antes. E foi nessa hora, que ouvi o primeiro grito e entendi o maldito gesto. America me contou sobre seus símbolos, o meio de se encontrarem entre os muitos, um meio de comunicação, uma estrela de oito pontos que consegue causar mais estragos do que tanques de guerra. Rebeldes.
_Se abaixem!-alguém grita dentro do carro e não ouso desafiar.
Me jogo no chão do carro e sinto a explosão. Estou com o rosto no joelho, abaixado, com as mãos nos ouvidos, fortes e, mesmo com os olhos fechados, vejo a luz do fogo. Sinto não ter compreendido antes e sinto o carro voar no ar, rodando com uma simples bola de borracha. Meu corpo se mexe, de acordo com as leis de gravidade. Vejo o mundo girar ao meu redor, vejo o motorista desacordado na frente, as chamas na frente do carro, os vidros quebrados e os homens do lado de fora, segurando armas e vestidos em uniformes verdes, com o do antigo exército americano. Ouço o zumbido em meus ouvidos, a gritaria triunfante do lado de fora, mas ela parece distante demais, ouço o berro de terror de minha mãe ao meu lado e em seguida a dor na minha testa, então, só a escuridão.
Sonhei que estava na minha cama, em Angeles. Envolto pelas cobertas e a brisa úmida batia em meu rosto, me fazendo não querer levantar. O cômodo estava claro, mais do que o normal e, ao olhar para o lado, noto a diferença nas fotos presas na parede. Uma combinação de imagens e memórias que eu não me lembro de ter vivido. Mas reconhecia a cabeleira ruiva na grande parte das fotos. Me deito novamente, tentando recuperar e entender o sentido de tudo aqui.
—Já acordado, majestoso marido?- uma voz doce pergunta sonolenta ao meu lado. Me levanto em pranto e olho para o lado. America sorri, alegre, mas seu rosto já não é mais o mesmo. Ainda linda, mas os traços da juventude há muito tempo já se foram. As rugas da idade começam a aparecer nos cantos de sua boca. Instintivamente levanto minha mão e toco levemente meu rosto, sem acreditar. Jogo as cobertas para o lado e corro para o banheiro. Me admiro no espelho, os cabelos grisalhos, os ombros pesados do estresse e a testa enrugada. Eu pareço mais velho do que sou, e sem entender o porquê, sei que tenho quarenta. Continuo olhando para mim mesmo, em uma mistura de admiração e surpresa, até que sinto a pequena mão em meu ombro.
—Isso é real?- pergunto e ela sorri, como se esperasse pela pergunta.
_Não, isso não é real. Acorde, Príncipe Maxon, acorde. — pede e vejo seu rosto no espelho se contorcer, mudando a face. — Acorde.
—Acorda Príncipe Maxon! Acorda! Temos que ir, eles vão voltar!- abro os olhos lentamente e sinto a dor me invadir.
Minha cabeça lateja e rapidamente levo minha mão a ela, tentando fazer a dor passar, mas ela continua. Olho ao redor. Não estou no carro, estou caído no chão, entre o capim, sangue ao meu redor. Meu terno está rasgado e completamente surrado. Paro e percebo a menina que acabara de gritar comigo, a mesma garota da estrada, a rebelde. Engatinho para trás, com medo, mas ela me segue.
_Não vou te machucar. Eu te tirei de lá. — ela sussurra e eu me acalmo.
_O que... O que aconteceu?
—Shhh. Fala baixo. Eles ainda estão ali. — ela aponta e olho para trás.
O carro, completamente destruído, pega fogo no canto da estrada onde fomos deixados para morrer, muito perto do lugar onde me escondi agora. Um esconderijo perfeito. Os guardas que nos acompanhavam no carro de trás agora estão em terra lutando contra os rebeldes, e a carnificina não poderia ser maior. Vejo o uniforme vermelho dos guardas se juntar ao seu sangue no chão, vejo corpos amontoados e ouço os tiros ao longe.
_Você deve ir.
_Não posso... Meus pais. — olho novamente para a confusão a procura dos dois, mas não os encontro. — Você os...- mas a garota já havia sumido, e eu nem ao menos sabia seu nome.
_Olhem quem continua vivo. — uma voz grave e sarcástica diz. Me escondo mais entre as plantas e semicerro os olhos para ver melhor.
O homem é forte, e quando digo forte, digo forme mesmo. Seus músculos são provavelmente maiores do que minha perna e a pele morena cheia de tatuagens só o deixa mais aterrorizante. Ele caminha lentamente até o carro, na minha frente, com seus capangas o seguindo, todos devidamente armados, e congelo, não tem como eles não me verem. Mas antes que pudessem me ver, metade de uma figura aparece se rastejando do outro lado do fogo, saindo da barreira do carro. O corpo do homem está parcialmente queimado, a carne vermelha viva, fumegante. Um de seus braços parece machucado, já que ele se arrasta com uma única mão, tentando desesperadamente sobreviver, mas inutilmente. Os homens riem de sua atitude desesperada e parecem parar de segui-lo, para dar a esperança de que ele possa se salvar, só para retirá-la segundos depois pisando em seu estômago e o impedindo de andar. Ele urra de dor.
—Não parece tão poderoso agora, não é mesmo Sua Majestade.- o que parece ser o líder faz uma reverência irônica. Consigo, pela primeira vez, reconhecer as rugas de idade do meu pai, seus cabelos grisalhos e os olhos frios, que agora mostram mais emoção do que jamais o vi ter antes: medo, desespero, arrependimento talvez. Tudo isso para pela minha cabeça ao ver seu rosto cair no cimento, três ferimentos de bala na testa. Não tive tempo de reagir, não tive tempo de impedir, não tive tempo de gritar, de fazer nada.
Continuei no mesmo exato lugar, olhando o corpo parcialmente queimado e completamente morto do rei de Illéa, sangue cobrindo sua face. A tosse me retira do transe e olho para trás assustado. Não vejo nada. Olho novamente para a cena, com a certeza de que estou ouvindo coisas devido ao choque e observo enquanto os rebeldes se retiram da estrada, entrando em seus carros modernos e sumindo no horizonte.
—Maxon. — ouço uma voz fraca. — Meu filho... Maxon. — um choro baixo me guia até o corpo da minha mãe deitado sobre a plantação. Corro em seu alcance e vejo o sangue manchado em seu vestido, bem no meio da barriga. Retiro suas delicadas mãos do ferimento e vejo o estilhaço do vidro cravado em sua pele. A entrego uma das minhas mãos, a qual ela segura com todas as suas forças. A olho pedindo permissão e ela assente silenciosamente, fechando os olhos e engolindo em seco. Então puxo o vidro.
Nunca havia ouvido um som tão angustiante como esse. Foi como se um machado tivesse me acertado em cheio, assistir a dor e o sofrimento da minha única família foi o pior dos castigos imaginados. Rasgo um pedaço da camisa e pressiono sob o ferimento,para estancar o sangue. Levanto sua cabeça devagar e me movimento, fazendo com que ela deite em meu colo.
—Tudo vai ficar bem, eu lhe prometo. Você vai sobreviver. — a asseguro e ela sorri fraca, com os olhos praticamente fechados.
—Clarkson... Ele... Ele...- ela gagueja e sangue jorra de sua boca.
_Está vivo. Está vivo. — minto,não suportando a ideia de fazê-la ficar pior, não em seus últimos suspiros. — Você ficará salva. Vai sobreviver. Virão nos ajudar. — digo mais para mim mesmo enquanto seus olhos gradativamente vão se fechado. — Ajuda! Eu preciso de ajuda! Alguém? Tem alguém ai?
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