Plagued

2 Capitulo I


Notas iniciais
Vamos que vamos.

Volta nunca é fácil, talvez sair de um lugar não seja fácil. Mas naquele momento voltar estava sendo difícil. Eu havia saído da minha cidade por um motivo e não sabia se esse motivo havia sumido ou coisa do tipo, então o mesmo medo que me assolava quando fui embora me assolava agora. Medo de não saber o que está por vir, do que encontrarei.

— Lucille! – Grita minha mãe do outro lado do portão de desembarque.

Fazia dois anos que eu não via ela e o resto da minha família, meu pai, avó e irmão mais velho. Havia viajado para Londres, para fazer um intercâmbio e depois acabei ficando para conhecer melhor a cidade. Como meu pai era inglês, tínhamos visto de lá. Nesses dois anos eu sentira muitas saudades deles, mas sabia que esse tempo que passei foi melhor para eu fugir de certas coisas que assombram meus pesadelos até hoje.

Atravessei o portão e corri até eles, largando minha mala no chão. Estava só minha mãe e meu pai ali. Provavelmente meu irmão ficou com minha avó.

Ambos me abraçaram com força. Quando sair do abraço, minha mãe ficou me analisando de cima abaixo, tocando meus cabelos que agora estavam ruivos, diferente do castanho médio natural deles. Meu pai ficou olhando o piercign que tinha no meu nariz e não fez uma cara muito amigável, apesar de ele já sabe disso, pois avisei quando fiz.

— Sentimos tanto sua falta. – Ela me abraçou de novo.

Minha mãe era uma mulher alta e magra. Muito diferente de mim, filha e neta de brasileiro. Ela tinha a pele negra e os cabelos cacheados castanhos presos em um coque no alta da cabeça. Olhos verdes e um sorriso encantador. O que amava nela era a forma como se vestia, com cores que a deixava radiante, foi modelo quando mais nova e agora era dona de uma galeria de artes e sabia fazer bolo como ninguém, sentira falta disso.

— Também senti mãe. – Abracei de volta.

A verdade era que eu não queria muito está ali. Eu queria ter continuado em Londres, com meus amigos que tinha por lá. Mas meu pai insistira que eu deveria volta para completar meus estudos no Brasil.

— Pegue a mala dela, Henri. – Falou minha mãe ao meu pai.

Meu pai pegou minha mala. Ele era um cara alto, de ombros largos. Por volta dos 50 anos. Tinha a pele branca, cabelos loiros lisos e olhos azuis quase cinza. Trajava sempre uma camisa social ou polo, sempre bem vestido. Trabalha numa grande empresa como gerente executivo.

— Estou feliz em te ver filha. – Ele disse com a voz grossa, me deu um beijo na testa e saiu andando na frente.

Eu e minha mãe passamos seguindo ele para saída do aeroporto. A viagem de carro até em casa foi tranquila, tanto meu pai como minha mãe ficaram perguntando como tinha sido em Londres, apesar de que eles já sabiam de quase tudo pois eu conversava bastante com eles por Skype. Eu fui analisando a paisagem da cidade, morávamos em São Paulo e a cidade continuava a mesma coisa de sempre. Prédios, com alguns grafites bem coloridos, gostava disso, e o transito caótico da cidade, sem conta a chuva de sempre.

Meu pai entrou dentro da garagem do apartamento e foi estacionando o carro. Descemos do carro e minha mãe foi me puxando para irmos para o elevador. Meu pai levaria as malas quando subisse.

— Estamos tão felizes que você voltou para casa, filha. – Ela disse isso pela centésima vez.

Eu apenas dei um sorriso e fiquei olhando meu reflexo no espelho do elevador. Meus cabelos estavam ruivos e soltos, caiam em ondas abaixo dos meus seios, quando estavam lisos eram mais longos. Eu tinha os olhos castanhos avermelhados, que deduzira puxar de algum dos meus avôs, nunca perguntei para minha mãe. Minha pele era branca, igual a do meu pai.

Saímos do elevador e entramos no apartamento 88, que era o nosso. Assim que minha mãe abriu a porta um monte de gente gritou “Seja bem-vinda Luci” e as luzes se acenderam. Havia um cartaz bem grande escrito “Seja bem-vinda Luci” e uma mesa com um monte de comes e bebe e um bolo no centro, que parecia ser de chocolate. Minha avó estava sentada numa cadeira, com meu irmão atrás dela e sua namorada Amanda. Minha amiga Alice e seu namorado também estava ali e alguns tios e primos também estavam.

Eu entrei dentro do apartamento com um sorriso no rosto e comecei a olhar para todo mundo forçando um sorriso. A verdade era que estava cansada da viagem de quase 11 horas e queria dormir.

— Minha filha, tão bom você está de volta. – Minha avó se levantou da cadeira com dificuldade e veio andando na minha direção.

Eu a abracei e ela me apertou com força.

— Obrigado vó. – Forcei um sorriso.

Ela voltou para o lugar dela e reprendeu meu irmão por não vim me cumprimentar. Logo depois ele veio fazer isso.

— Que bom que voltou. – Ele me deu abraço sem jeito. – E como foi Londres?

— Foi bom.

— Seja bem-vinda. – Falou a namorada dele. Não era a mesma menina de quando eu fui embora, agora era uma ruiva baixinha.

— Obrigado.

Alice veio saltitando em minha direção.

— Estava com tanta saudade. – Ela me abraçou com força.

Eu também estava com saudades dela, nos falávamos sempre durante o tempo que estive fora, mas há uns três meses havíamos reduzida a frequência com que nos falávamos e eu não sabia que ela estava de namorado novo. Que também mudara.

— Eu também. – Apertei de volta.

— Seja bem-vinda. – Disse o namorado dela.

Eu apenas dei um sorriso. Ele era um cara alto e magrelo, parecia ser um emo. Usava um gorro preto nos cabelos escuros e tinha um piercing nos lábios e no nariz. Tinha os olhos castanhos e uma cara de poucos amigos. Alice era uma menina alegre, diferente dele. Tinha os cabelos negros lisos, os olhos cor de jabuticaba e a pele branca. Sempre usava vestidos e roupas coloridas, como hoje, que estava de vestido azul claro.

Depois disso meus tios e primos vieram me cumprimentar e falaram seja bem-vinda e perguntaram como tinha sido Londres. Depois que cumprimentei todo mundo fui procurar minha mãe, que estava na cozinha tomando água.

— Oi filha. – Ela disse assim que me avistou.

— Oi, mãe eu posso subir por meu quarto? Estou cansada. – Pedi, não queria parece rude indo embora da festa logo assim que chego depois de dois anos fora.

— Claro, meu amor. Eu aviso o pessoal que você está cansada, é compreensível. – Ela largou o copo em cima da pia e me deu um beijo na bochecha.

Saiu da cozinha e foi para a sala. Eu passei pela sala e subi para o andar de cima atraindo alguns olhares que eu ignorei. Ao analisar o corredor que dava para os quartos, lembrei do tempo que brincava por aqui com minhas primas. Afastei a lembrança e fui em direção ao meu quarto, abri a porta. Ele continuava o mesmo, as paredes cinzas com alguns quadros coloridos, que já não tinham mais significados. A cama de casal no centro e dois criados mundos de cada lado. Havia uma porta branca que dava para o closet que devia está infestado de roupas que já não condiziam mais comigo, mas não queria me ater assim agora. E outra porta que dava para o banheiro. Fechei a porta atrás de mim e me joguei na cama.

Está ali, naquela cama, naquele quarto era como se não fosse mais eu. Nada mais ali era eu e isso estava me dando uma angustia. Tentei ignorar por hora, eu só preciso descansar e nada mais. Respirei fundo e tentei pegar no sono logo.

Sonhei com o que sempre sonhava nos últimos anos. Era raro eu sonhar com alguma coisa boa nos últimos tempos, então eu já não ligava mais para isso. Tomava remédios para dormi, pois com isso afastava os pesadelos e era como eu conseguia aguentar o dia seguinte sem ter medo de virar cada esquina e encontra um monstro, literalmente.

Abri os olhos e me encontrei no meu antigo quarto. Ele havia sido decorado de acordo com a Lucille de dois anos atrás, nada ali me agradava mais. Muitas coisas haviam mudado em Londres e eu havia absorvido muitas coisas novas, referencias novas e no momento sentia saudade do meu quarto de Londres, na casa que dividia com meus amigos. Bateu um aperto no coração, ignorei tentando pensar em outra coisa.

Peguei meu celular em cima do criado mudo, minha mãe deve ter deixado lá a noite, e vi que havia diversas mensagens novas. Desbloqueie o celular e tinha mensagens de Margaret, Richard e Peter, meus amigos de Londres. Perguntavam se eu tinha chegado bem e como havia sido a viagem, respondi a todos e depois sai da cama. Sai rapidamente do quarto, fica ali estava me dando nervoso. Quando desci as escadas vi todos a mesa de jantar tomando café, olhei a hora, era 10 horas. Eles olharam para mim e deram um sorriso de orelha a orelha.

— Senta aqui minha filha. – Disse minha avó batendo no assento de uma cadeira ao lado dela.

Me sentei na cadeira que ela indicou e ela foi logo colocando torradas no meu prato, colocou café preto numa xícara e empurrou para mim.

— Continua sendo seu favorito, né? – Ela perguntou me encarando com os olhos verdes.

Minha avó havia vindo mora com a gente quando meu avô morreu de câncer há quatro anos atrás. Como ela havia ficado muito triste minha mãe achou melhor trazer ela para casa e ficar na companhia da família, havia sido e é até hoje a melhor coisa que aconteceu. Ela trazia alegria para casa quando ninguém estava feliz. Era a minha avó materna e tinha a pele negra que quase não dava para ver a velhice chegando e os cabelos meio cinza com preto disputando lugar.

— Sim, continua sendo meu favorito. – Peguei o copo e tomei um gole.

Ela deu um sorriso. Eu amava vê-la feliz, estava com saudades dela.

Terminei de tomar o café e voltei para meu quarto. Resolvi tirar tudo de lá, as roupas do guarda roupa guardei em uma caixa para doação. Os quadros da parede deixem no chão, meu pai teria um fim para aquilo. Guardei minhas roupas novas que estavam na mala no guarda roupa, alguns objetos de decoração eu coloquei em cima dos criados mudos. Havia trazido muito livro comigo e precisava de uma estante. Antes não gostava de ler, mas por um bom tempo quando fui para Londres fiquei sem internet e tive que encontra outros meios de me entreter.

— Filha... – Minha mãe entrou no quarto e ficou parada olhando para minha bagunça.

— Oi.

— O que está fazendo? – Ela entrou no quarto e começou a tira as roupas da caixa de dentro dela.

— Arrumando minhas coisas. – Coloquei as roupas dentro da caixa. – Essas coisas já não dizem mais quem eu sou.

— Entendo. – Ela baixou o olhar.

— O que a senhora veio fazer aqui?

— Ah sim. Alice está aí querendo te ver. Melhor você ir dá um passeio. Eu arrumo o resto das coisas aqui. – Ela começou a pega minhas roupas da mala e a colocar no cabide.

— Não. Vá fazer suas coisas, eu me viro depois. – Dei um beijo na bochecha dela e desci as escadas.

Antes de ir para Londres me acostumara com minha mãe fazendo tudo por mim. Ela arrumava meu quarto, minha bagunça, colocava comida para mim e tudo mais. Só que enquanto estava em Londres eu tive que me virar, não tinha ninguém para fazer as coisas para mim. Era só eu e ponto.

Ali estava sentada no sofá mexendo no celular. Quando me viu nas escadas largou o celular e deu um pulo do sofá para vim em minha direção. Usava uma saia midi florida e uma blusa branca, parecia alguém que tinha saído de um filme romântico dos anos 50, a cara da Alice.

— Oi, Luci. – Ela me deu um abraço forte. Abracei de volta.

— Oi.

— Bem, já que você está de volta precisamos sair. Por favor, não diga que não. Eu senti muita a sua falta e precisamos colocar tudo em dia. – Ela falava como uma metralhadora, ela estava nervosa. Alice falava de mais quando estava nervosa.

— Calma, Ali. Vamos sair, okay? – Levantei e abaixei a mão conforme ela respirava.

— Me desculpe. – Ela sussurrou.

— Não precisa pedi desculpas por nada. Vou me troca e agente já sai. – Voltei para meu quarto.

Fui até meu quarto, coloquei uma calça jeans preta e uma camiseta estampada com gatos. Amarrei meus cabelos em rabo de cavalo e peguei minha mochila que ainda estava com as coisas da viagem, como passaporte e passagem, mas era o que tinha minha carteira e tudo mais. Seria aquela mesma.

Desci as escadas e fomos para uma praça toma um sorvete.