Notas iniciais
Espero que gostem.

A garota corria pela rua esbarrando em senhoras com vestidos gigantes que reclamavam de tudo, o cabelo marrom esvoaçava atrás de si. Corria com um único objetivo; O de chegar ao cais da cidade, onde os navios zarpavam mar á fora.

Todos os dias, sem falta, ela ia observar os navios; tinha um grande fascínio, talvez devido a nunca ter saído daquela cidadezinha minúscula onde só viviam pessoas desprezíveis que fofocavam o dia todo. Mas aquele dia ia ser diferente. Aquele dia ela não ia passar olhando os navios saindo enquanto ela ficava sentada imaginando.

Ela estava chegando no porto, conseguia ver os homens musculosos e barbudos desatando as centenas de nós das cordas, deixando a enorme embarcação solta, enquanto outros soltavam as velas.

Ele começava a se movimentar e Annabele corria o máximo que podia, até esbarrar num senhor que vestia trajes de gala. A garota caiu no chão, mas amparou a queda com as mãos semi enluvadas. O porquê de alguém usar uma roupa de gala na rua, Annabele nunca entendera. Na verdade, ela não entendia a maioria das formalidades das pessoas excêntricas daquela cidade. O homem torceu o nariz e, endireitando o casaco de veludo, disse:

- Hoje não é dia de pedintes, menina. Não tenho dinheiro para dar-lhe.

Annabele não era nenhuma pedinte. Na realidade, ela tinha uma soma razoável de dinheiro, que estava levando consigo, mas achou melhor não perder tempo com aquele estranho vestindo meias listradas que iam até os joelhos enquanto seu plano parecia ir por água a baixo: O navio estava partindo sem ela.

Disse algo provavelmente inapropriado e correu, focando na possibilidade de bem arcar na viagem da sua vida e pulou.

Mirando a corda sacudiu as mãos, ainda no ar, tentando pega-la, seus dedos bateram na corda, mas ela caiu na água salgada e escura, afundando. Mexeu os pés e agitou os braços, fazendo impulso para subir. Cuspiu água e respirou, tirou alguns fios de cabelo dos olhos e nadou até o cais, agarrou-se no braço que estenderam para ela e subiu, sentando-se encharcada nas tábuas de madeira mal dispostas enquanto ouvia o riso de Kaine.

— Não ria de mim!

- Não estou rindo de você! Estou rindo com você.

O garoto vestia a habitual camisa suja de linho com os pulsos enrolados até o cotovelo, deixando os antebraços bronzeados expostos. Kaine passava o dia trabalhando no porto, carregando barris, amarrando ou desamarrando cordas, afiava espadas... Enfim, fazia de tudo para ganhar dinheiro. Mas quando não conseguia, não hesitava em furtar de quem quer que estivesse passando.

Kaine era o único amigo – Me arrisco a dizer, o melhor – de Annabele. Sendo ambos órfãos velhos demais para serem adotados, viviam na rua. Ele tinha dezesseis, era dois anos mais velho que a garota.

- Você nunca vai se conformar em viver aqui não é? Sempre atrás dessas... Aventuras. Annabele... — Ele franziu as sobrancelhas.

Annabele emburrou-se e saiu, deixando-o plantado lá. Pisava nas tábuas que pareciam desmontar-se sem medo, torceu o cabelo e andou pelo porto, observando as pessoas que passavam por ali. Definitivamente havia de achar um jeito de embarcar. Ela checaria todos os navios e se prepararia para todas as partidas.

Distraída com os pensamentos, esbarrou num caixote bastante grande. Se abaixou e pegou-o, pensando que poderia vir a ser útil. Era de madeira, portanto era um pouco pesado, e ela o arrastou até a parede de alguma loja, onde deixavam barris e o que quer que ninguém quisesse. Provavelmente iria dormir ali hoje.

O sol já estava a pino, a temperatura era a mais alta do dia e não havia quase sombra, forçando-a a perambular sem grandes objetivos, desanimada demais para qualquer coisa.

Tirou discretamente uma moeda do saquinho que guardava no bolso e entrou em uma loja, recebendo olhares de repulsa de alguns continuou a andar, encaminhando-se para o balcão e colocando a moeda em cima sorriu para o atendente, que já sabia o que ela queria. Devolvendo o sorriso, estendeu-lhe cinco canudinhos de alcaçuz embalados em um papel.

- Obrigada, Bert.

Ela conhecia Bert. Comprara inúmeras vezes os canudinhos de alcaçuz depois que ele foi trabalhar ali. Quando a mãe dele morreu, Bert acabara com a casa precariamente mobiliada, morando sozinho e trabalhando para se sustentar. Ele era o único funcionário que não enxotava crianças (principalmente as órfãs) da loja.

Sob o sol forte deixou a loja, indo para o cais olhar os navios. Conseguia ver Kaine tentando arranjar algum bico, porém sem sucesso, mas preferiu ignorar e continuar olhando os navios sumirem ao longe enquanto mascava o alcaçuz, o sabor doce-azedo preenchendo sua boca familiarmente. Annabele nem sempre comprava alcaçuz, só em ocasiões especiais quando conseguia juntar uma quantia de dinheiro suficiente para não preocupar-se. Havia provado o doce pela primeira vez em seu aniversário de 9 anos quando Kaine a comprou, e na ocasião ela fez uma careta devido ao sabor.

Annabele olhava com fascino as embarcações atracando, jogando a âncora e dezenas de homens descendo para amarrar cordas enquanto outros desfaziam as amarras e puxavam a âncora para ir embora, içando as velas zarpando rumo á aventuras em águas misteriosas.

As vezes a menina se perguntava o porquê de nunca ter visto nem uma garota, mas com sua ingenuidade, presumia que talvez estivessem ocupadas demais dentro do navio se certificando de que tudo estaria funcionando corretamente.

O sol começava a se pôr, pintando o céu de um rosa alaranjado, quando Annabele ouviu o rangido de uma tábua a seu lado, indicando que alguém tinha sentado. Ela virou-se para ver Kaine, cansado, provavelmente sem muitas moedas no bolso, tendo só o que sobrara dos dias anteriores. Silenciosamente, Annabele quebrou mais uma tira de alcaçuz e ofereceu ao garoto, que pegou metade. Após tê-la mascado um pouco, resolveu falar algo.

- Mais cedo... Quando você não conseguiu ir no navio... Não ficou chateada, ficou? Quero dizer, eu posso ter talvez dito algo errado e eu não... – Perguntou, embaralhando-se nas palavras e fazendo Annabele rir.

- Não se preocupe. Posso não ter conseguido hoje, mas ainda vou conseguir sair daqui, Kaine. E quando eu sair... Não vou sozinha. – Sorriu para o amigo. – Quero dizer, a menos que... Que você queira ficar. – Emendou rapidamente.

O sol fora substituído pela lua e escurecia rapidamente. Kaine levantou-se e bateu as calças, para tirar o pó.

- Vamos, temos que comer alguma coisa. Estou faminto, um maldito pirata não me pagou por carregar a droga do barril.

Annabele se assustou.

- P-Pirata? – Há anos o Porto de Burkesville não via um pirata se quer e estavam em paz, mas se eles voltassem... Seria o caos.

- Não se assuste, você é muito alarmada. É só maneira de falar, ele não era um pirata de verdade.

Deixaram o cais andando enquanto damas e lordes se recolhiam na rua. Entraram em um tipo de bar pela porta dos fundos e pararam para pedir direto na cozinha um ensopado de arenque, o prato mais barato, que custava três moedas e eles dois comiam e iam dividir uma taça de vinho barato. Trataram de pegar uma mesa e se sentar nos bancos desconfortáveis de madeira. O bar era dividido em duas partes. Uma para damas e lordes, e a outra para... Bem, para gente como eles; Gente pobre que trabalhava usando a própria força.

Annabele observou o cabelo de Kaine. Era comum, tinha alguns cachos e era marrom, mas estava um pouco grande demais. Provavelmente ele não tinha o suficiente para pagar um corte, e ela também não. Bem, não se quisesse comer ainda.
Enquanto a comida não ficava pronta, ela decidiu olhar o que estava acontecendo ao redor; Kaine dobrava o único guardanapo que tinham, alguns marinheiros jantavam, bebendo mais rum do que comendo qualquer coisa. Alguns riam alto, e outros tentavam ser discretos.

O som de uma campainha soou indicando que algum prato estava pronto, Kaine olhou para o balcão e se levantou mais rápido, trazendo o pote cheio de ensopado e uma taça de vinho. Algum molho estranho e provavelmente nada limpo com alguns pedaços de arenque, talvez alguns viessem dos pratos que sobraram dos “mais afortunados”.

Annabele, estando faminta, comeu aquilo – Mas provavelmente não apreciou tanto o gosto, comendo menos que o normal. Já Kaine, devorou tudo que ela havia deixado. O pobre garoto provavelmente não teve um dos melhores dias, e o mesmo pode ser dito da decepcionada garotinha, que tomou um último gole do amargo vinho.

Ambos haviam acabado de comer e beber quando Kaine arrotou, fazendo Annabele rir.

- Seu nojento.

- Olha quem fala, desde que caiu no mar mais cedo está fedendo a peixe!

Annabele levou o braço até o nariz e o cheirou.

- Isso não é verdade!

Kaine só revirou os olhos e se levantou, encaminhando-se para a saída e sendo seguido pela amiga. A lua era a única iluminação da qual dispunham para enxergar o cais, e Annabele não precisou andar muito até achar o seu caixote, abaixando-se e ajeitando o local para dormir.

- Então, é... Onde você vai dormir? – Indagou olhando nos olhos de Kaine, que franziu as sobrancelhas.

- Aqui por perto. Não se preocupe. – Sorriu-lhe e seguiu para algum outro lugar enquanto a garota se deitava no chão.

Annabele colocou o caixote vazado de madeira por cima dela, mordeu um pequeno pedaço de alcaçuz, e ouvindo o barulho das ondas do mar abaixo dela, caiu no sono e não teve sonho algum.

Annabele acordou assustada e desorientada quando puxaram seu caixote para cima, mas quando viu o rosto de Kaine, relaxou.

- O que foi?

Ela perguntou, percebendo a expressão preocupada.

- Não saia daqui. Finja que nem está e tente ser o mais discreta possível. Temos um problema.

Abaixou o caixote e deixou a garota tremendo. Annabele parou para pensar. Kaine nunca brincaria com algo assim, então era melhor ela ficar quieta. Encolheu-se o máximo que pode, mas tinha começado a tremer. Ouviu o som de facas sendo desembainhadas e cortando algo, em seguida de um baque surdo que reverberou pelas tábuas. Ela temia pelo bem estar de Kaine.

Annabele não soube por quanto tempo ficou acordada e tremendo, fazendo de tudo para não ser percebida, mas ouviu passos se aproximando lentamente do caixote. Ponderou se seria Kaine ou uma potencial ameaça. O som parou e Annabele relaxou, achando que quem quer que estivesse ali já teria ido embora, mas foi o seu pior erro.

O caixote foi levantado e ela foi puxada pelos cabelos por um completo estranho e arrastada para um navio.