Pirateship
2 Cap 1 - Being a Seaman
Notas iniciais
Acho que haviam se passado três dias. 3 longos dias, durante os quais eu passei a maior parte do tempo desmaiada. E eu vou te contar uma coisa, desmaiar não é legal. Nem um pouco. Você fica perdido e se sente como se estivesse flutuando, mas ao mesmo tempo se afogando – mesmo sem precisar de ar. É estranho e bastante desagradável. Além do que, não é uma das coisas mais dignas de se fazer.
Durante os poucos momentos em que eu estava consciente eu ouvi algumas coisas. O capitão reclamando, principalmente. Marinheiros insatisfeitos e mais gente trancada nas celas do navio, assim como eu. É, eu estou trancada numa cela, que maravilha, não?
Sentei-me escorada na parede do navio. Sob a barulhada dos marinheiros no convés ainda ouvia o som da água do mar angustiada batendo contra o casco da embarcação. Era até tranqüilizante, e comecei a mordiscar uma balinha de alcaçuz... E foi aí que me lembrei do garoto. Kaine. Não sabia o que tinha acontecido com o pobre menino. Sim, navegar era meu sonho, talvez eu devesse estar feliz, afinal, não estava mais no porto de Burkesville. Mas Kaine! Como eu pude esquecer, mesmo que por alguns momentos? Onde ele estava? No porto? No navio? Ele estava ao menos vivo?
Minhas idéias estavam confusas e foi aí que assimilei o que havia acontecido.
Eu estava num navio pirata, e pior: estava como prisioneira lá, eu não devia estar feliz. Meu melhor amigo tinha sumido e eu não tinha idéia nem de se ele estava bem. Muita coisa estava errada e eu não fazia idéia de como ia consertar. Mas então, tive uma idéia.
Corri até as barras da cela onde me mantinham e comecei a gritar e sacudi-las. Idiota? Talvez. O velho esfarrapado na outra cela se encolheu e ouvi gritos de “PARE COM ESTA BARULHEIRA INFERNAL!”, vindos de alguém que julguei ser o capitão, e, logo após, um marujo sem camisa desceu as escadas.
– QUAL É O PROBLEMA?
Ele gritou, sem nem ao menos me ver. Parei de gritar e ele seguiu até minha prisão.
– Me tire daqui!
O garoto respirou fundo, como se o tivesse irritado.
– Só podia ser a garota! Você só trouxe problemas. Nem deveria estar aqui, você é uma garota. Trouxe o azar para este barco.
– Que absurdo você está falando? Eu não fiz nada! Vocês que me jogaram aqui. Deviam me deixar sair! Exijo falar com o capitão!
E ele riu de mim! Estava ficando realmente cansada das pessoas rindo da minha cara.
– Ah, falar com o capitão? – Debochou – Boa sorte!
O sujeito se virou e subiu as escadas gritando pelo capitão. Ótimo, o garoto ia ver como eu ia sair daqui e ia se arrepender de ter caçoado de mim.
Algum tempo depois um velho fedendo a rum desceu as escadas, resmungando; Ele devia ser o capitão. Limpei a garganta e me preparei para falar, juntando o máximo de orgulho que me restava.
– O que foi?
Ele me olhou como se fosse um animal morto no meio do caminho.
– Bem... Eu gostaria de sair daqui.
– E eu gostaria de encontrar um tesouro, mas, aparentemente, ninguém tem o que gostaria, pirralha.
O capitão se preparava para ir, já havia se virado.
– Meu nome não é pirralha.
Ele fez cara de poucos amigos.
– Não me importo com seu nome. Não sei nem quem foi o idiota que te trouxe aqui, se soubesse ele já estaria sendo comido por tubarões. Mulheres não deviam estar nos barcos.
– E porque não?
– Bem... Por que... Por que vocês trazem azar. Deviam estar em casa, cozinhando ou bordando ou sei lá o que vocês garotinhas fazem. Mas tanto faz, a deixaremos na próxima cidade, menina.
Me deixariam numa cidade? Tipo, sozinha? Sem a menor idéia de como achar Kaine, ou ao menos de como voltar para casa? Não acho que meu plano estava funcionando...
– Mas espere! Eu... Eu discordo! Mulheres não são amaldiçoadas e eu não trouxe azar nenhum até agora. Me deixe sair daqui! Eu posso ser tão boa quanto qualquer um de seus marujos.
Ele riu – Não caçoando, mas com certo divertimento.
– Então você não passa de um verme! Muito bem, mocinha. – Ele abriu a cela, jogando a grade para um lado. – Você vai sair e vai provar que é tão boa quanto um marujo, não é? Então vá em frente. Faça o que fazem; limpe o convés, verifique o que está vindo à bombordo e à estibordo. Ice as velas, pegue no leme. Adoraria vê-la tentar.
Ele sorriu como se eu não fosse capaz – E bem, eu sei o que você está pensando, mas eu era perfeitamente capaz disso.
Saí da cela e subi as escadas. No ultimo degrau, me voltei para ele e disse, num tom debochado:
– E para sua informação, capitão, meu nome é Annabele.
***
Abri um alçapão e a luz quase me cegou. O sol estava á pino, e castigava os marinheiros, principalmente os que não usavam camisa. O convés estava cheio de gente, algumas pessoas limpavam o chão enquanto outras se ocupavam com as velas, e ainda os claramente mais importantes que gritavam ordens – provavelmente repassadas.
Quando subi, felizmente ninguém prestou atenção em mim. Andei em direção á proa prestando atenção aos detalhes do barco. A madeira estava gasta, mas dava pra notar que era um barco de boa qualidade. Os marujos limpavam o chão com esforço, mas duvido que seja por vontade própria. Se você parasse pra pensar, na verdade navios piratas não eram tão diferentes assim de navios comuns. Quando cheguei na proa me apoiei na amurada e observei o mar. Era uma sensação boa que os respingos de água salgada e o vento no rosto criavam, era algo como paz. Era um bom momento para pensar em o que eu devia fazer agora – não que houvesse muito a ser feito, quero dizer, eu devia achar Kaine, mas para Burkesville eu não iria voltar, agora eu dependia da sorte, e ela nunca pareceu estar do meu lado.
Respirei fundo e deixei a amurada, fui andando de volta quando ouvi um marujo (daqueles que passavam as ordens) gritando.
– Ei! Ei você, menina. – Com a menção da palavra “menina” alguns outros marujos pararam o que estavam fazendo e encararam. — O que está fazendo aqui? Bem, não importa, aparentemente nada produtivo. Por que não está fazendo nada produtivo? Vá logo ajudar os outros a limpar o convés, está me ouvindo?
Ele vomitava palavras em cima de mim com um tom zangado, mas eu não prestei atenção nisso. Meus olhos focavam em outro ponto. Uma certa cabeleira cacheada cujo dono estava ajoelhado esfregando o chão. Será que... Será que era o Kaine?
Deixei o marujo gritando sozinho e andei em direção a ele. Quando me ajoelhei a seu lado e pus a mão em seu ombro, ele se virou. O pequeno brilho de esperança que eu tinha desapareceu, afinal, por que achei que seria tão fácil? Ali quem me encarava não era Kaine, mas sim um marujo qualquer com um cabelo parecido. De perto dava pra ver todas as diferenças enquanto ele me olhava interrogativamente.
E foi aí que eu ouvi. Uma risada profunda e verdadeira vinda detrás de mim, era uma risada travessa e que eu conhecia muito bem. Então automaticamente me virei e joguei os braços ao redor de Kaine, sentindo o cheiro salgado que ele exalava.
– Então é assim mesmo? Sai me confundindo com qualquer um que tenha um cabelo bonito?
Ele disse enquanto ria. O soltei e sorri.
– Sinceramente, achei que não ia mais te achar. Como você veio parar aqui?
– Você não vai se livrar de mim tão fácil, você sabe. E, bem, eu...
Mas ele não terminou a frase. Foi empurrado pelo marujo que gritou comigo um pouco antes.
– Ande! Faça logo seu trabalho, ou está achando que aqui tem moleza?
Ele disse, dirigindo-se a Kaine, e depois se virou pra mim.
– E você? Não te disse para limpar a porcaria do chão? Estava achando bom o papo com o Bonitão é? Vá logo fazer o seu trabalho antes que eu chame o capitão pra você ver o que é que acontece com gente que não obedece.
Ele me empurrou um pano e um balde. A contragosto aceitei, me ajoelhei e comecei a esfregar. Quando vi que estava distante relaxei e parei de limpar, coloquei o pano dentro do balde e sentei, torci o pano e o batia distraidamente nas tábuas de madeira. Pra quê diabos alguém precisava limpar a porcaria do convés? Não é como se a água do mar não limpasse, e também, quem precisa de um barco pirata limpo?
Estava tão distraída reclamando que não percebi quando o capitão chegou, pisando forte e parou para me encarar. Comecei a esfregar de verdade, mas já era tarde demais.
– Que moleza é essa aqui? Você não disse que ia ser tão boa quanto um marujo? Então faça o seu trabalho direito da próxima vez, e por agora vá para o mastro.
Ele disse me puxando pelo cabelo. Ah cara, viu o que eu disse? 0% de sorte! Lá em cima, e pior, já estava escurecendo. Como que eu ia descer depois?
– Vai, anda logo!
Ele disse, enquanto eu não me mexia. Ciente dos olhares que recebia, subi desconfiada a escada grudada na madeira que parecia desmoronar. Quando estava quase lá, cometi o erro de olhar pra baixo, e quase caí. Havia experimentado a pior vertigem de minha vida, mas aposto que terei piores esta noite.
Continuei subindo até entrar no mastro, e aí olhei para baixo. Era a parte que mais balançava do navio, e eu estava quase vomitando. O capitão ria lá embaixo, e não fui capaz de achar Kaine. Deixei o vento salgado bater em meu rosto e encarei o mar revolto.
Ah, cara, essa ia ser uma longa noite.
Havia vomitado uma vez apenas, em um balde que havia ali. Já estava descendo (com a permissão do capitão, que custei a conseguir) e Kaine era o único que me esperava lá embaixo. Minha barriga estava roncando de fome, mas eu estava até acostumada. Pulei quando faltavam ainda 5 degraus, e a madeira estalou sob meus pés. Prontamente Kaine me estendeu um prato (se é que pode-se chamar aquilo de prato, parecia uma cumbuca mal feita) com sopa e alguns pedaços de pão boiando, uma colher preta estava apoiada.
Eu sorri em agradecimento e andamos até alguns caixotes para nos apoiarmos enquanto eu comia.
– Então, como foi?
Ele perguntou.
– Horrível. Só não vomitei mais porque não tinha mais o que vomitar.
– Nojenta!
– Você não pode falar nada! Está fedendo a gente suada!
– Deve ser porque eu trabalhei de verdade, e não fiquei batendo um paninho no chão.
Ele disse. Era incrível como conseguia fazer as saudades que eu senti sumirem falando uma só frase.
Fiquei calada por um instante até que decidi revelar meu “plano”
– Eu estou pensando em começar um motim.
Despejei.
– O quê? Você está aqui consciente há menos de um dia e já quer fazer um motim? Ah, meu Deus, Annabele! Não tenha dessas infantilidades só porque ele te mandou lá pra cima.
Encarei ele no fundo dos olhos e ergui uma sobrancelha. Nenhum de nós mexeu um músculo, até que ele soltou o ar pela boca.
– Ótimo, maravilha. Nós vamos começar amanhã cedo. Ah, cara, eu odeio quando você me mete nessas suas furadas.
Ele disse e se levantou, me deixando terminar a sopa sozinha.
Fale com o autor