Pirateship
3 Cap 2 - Its a big thing, you know.
Uma semana desde o “trato” de ser um marujo e da idéia do motim, e nenhum dos dois tinha evoluído muito. Quer dizer, eu não estava mais só batendo um pano molhado no chão, mas ainda não fazia muita coisa (só quando tinha alguém olhando, nesse caso eu fazia uma pose e esfregava o chão vigorosamente ou fingia analisar se uma corda estava frouxa ou não), e o motim, bem, eu não encontrava nenhuma forma de fazê-lo. Quer dizer, não é como se um bando de marujos experientes fosse preferir a mim do que ao capitão deles, certo?
O problema é que fiquei bastante decepcionada com esses piratas. Não eram como eu imaginava; não eram briguentos, não caçavam tesouros e ninguém nunca tinha ouvido nada sobre eles — ou, se tinham, não era nada relevante. Eles simplesmente asaltavam pequenos navios comerciantes (como o capitão planejava fazer essa tarde) ou cidades e gastavam a maior parte de seus diminutos ganhos em bebida. Para ser sincera, isso me enfurecia, e tornava mais claro ainda que ninguém iria ajudar no meu incrível plano de fazer um motim. Mas talvez não precisasse de ajuda...
Sorri com a idéia que brilhou em minha mente, uma faísca de genialidade. Era algo novo e não inteiramente bom, mas para tudo têm-se suas primeiras vezes, não é?
O Imediato proferia xingamentos sem sentido, só pelo bel prazer de poder mandar e desmandar em todos alí (menos no Capitão, claro) e eu já estava bem inquieta. Armei-me de um esfregão e vigorosamente limpei tudo alí, impressionando até a mim mesma. Enquanto estava empenhada — de verdade, pelo menos dessa vez — em amarrar uma corda que segurava alguns barris de pólvora, sinto uma mão esbarrar em minha cintura e uma voz masculina e contida cochichar.
– O que você pensa que está fazendo?
Olhei de soslaio para encontrar o dono da voz — já sabia quem era, só queria analisar suas feições; Um misto de curiosidade, dúvida e talvez um pouco de raiva estava estampado em seu rosto sardento e bronzeado. Kaine talvez estivesse cheio de minhas estripulias, mas duvido que fosse me abandonar.
– Calma, garoto! Não é nada, credo, não posso nem levar um juramento à sério por aqui?
– Tanto faz. Escute, eu tenho boas notícias.
Soltei completamente a corda, sem dar a mínima para os barris de pólvora.
– Ora, fale logo! O que está esperando? Gosta de me torturar? — Perguntei, mas já sabia da resposta. E era afirmativa, claro.
– Achei um cara, louco o suficiente que topou esse plano maluco seu. Não é muita coisa, mas...
– Ótimo! — Exclamei, empolgada. — Preciso dele para hoje à noite.
Kaine engasgou, mas não teve tempo de dizer nada, porque as cordas afrouxaram com o peso da carga e o balanço do navio, então basicamente barris estavam rolando soltos — nem queria pensar em que estrago um barril daquele poderia provocar se entrasse em combustão — e tratei de correr atrás deles, mas não sem antes dar uma piscadela para o moreno.
O tempo estava passando enquanto o sol descia, e minha camiseta estava molhada e suada — não tivera a chance de lavá-la desde que cheguei — e talvez me beneficiasse caso o capitão conseguisse parar um navio da marinha. Mas como Annabele nunca pode ter sorte, a alguns metros de mim havia um capitão inquieto apontava sua luneta para todos os lugares quando saia de sua cabine — em dias normais significava quase nunca, mas hoje mal passava dez minutos alí dentro. E claro, a inquietação dele só serviu para atiçar minha curiosidade. Aproximei-me de um dos Mestres do navio e discretamente perguntei-lhe o que estava acontecendo.
– Ora, esse salafrário vagabundo nos prometeu lucros hoje, iríamos assaltar um navio que levava suprimentos ao rei da Espanha. Nos informamos e viemos aqui só para isso,
ávidos pelo ouro, pela comida, e até pelas roupas. Era para o navio estar aqui, nós devíamos estar emparelhandos e pegando tudo agora, droga! Todos aqui estão morrendo de ódio daquele cachorro, dá para ver nas expressões. Até o Imediato está com cara de quem vai matá-lo a qualquer segundo. — Ele respondeu, sem se virar. De fato, estavam todos insatisfeitos, até mesmo aqueles de posição mais baixa que tinham de permanecer gratos por ainda não terem morrido. Afastei-me lentamente esperando que ele não prestasse atenção à quem tinha respondido essa pergunta, mas senti alguém me segurar pela gola da camisa.
– E o que você pensa que está fazendo? Não é seu lugar tomar parte nos assuntos do Capitão.
– E... Eu... Eu... É...
Lindo. Simplesmente perfeito. O cara devia ter o dobro do meu tamanho — e parecia prestes a me deixar banguela — enquanto eu era incapaz de inventar uma mentira. Fechei os olhos e esperei pelo pior, mas só o ouvi soltar ar (tão pesadamente que nem as ondas da maré revolta abafaram o som) e me soltou.
– Vai pra cozinha. Ajuda aquele cozinheiro paspalho e vamos ficar por isso mesmo.
Abri os olhos em alívio e segui para dentro do navio — era úmido, quente e abafado. Quando finalmente cheguei na cozinha, fiquei surpresa — nunca tinha ido lá antes, e de maneira alguma a imaginava assim. Havia dois porcos e várias galinhas, assim como ovos sujos espalhados, várias especiarias, e claro, barris com várias verduras (a maioria já estava ficando podre). O cozinheiro estava empapado de suor, e com um tom de pele rosado fazendo-o parecer um leitão, e não pareceu se importar com minha invasão. Ele mexia um caldeirão com um líquido de aparencia não muito convidativa.
– Ah que bom que mandaram ajuda, já não era hora! E olha se não é a famosa tripulante que veio por engano! Tome aqui garota, mexa esta caldeira. E a propósito, sou Hank.
Ele não esperou pela minha resposta — Por que esperaria? Sou basicamente um pau-mandado — e soltou a colher ali dentro. Aquele líquido espesso era mais difícil de mexer do que parecia, e eu sinceramente não estava dando conta do recado. Felizmente, poucos minutos depois Hank apareceu, e com um estalo de língua assumiu a colher.
– Tem que mexer direito, senão ninguém come isso. Pegue algumas verduras, e seja rápida.
Voltei em alguns segundos com as mãos cheias de tomates, batatas, cenouras e outras coisas, tão brilhantes e com a casca tão lisa que fizeram meu estômago roncar.
– O que diabos... Não, não e não. Essa comida não é a do Capitão, isso aqui tem de alimentar os marujos como você, volte com as estragadas e cortadas.
Dessa vez, quando ele falou pude ver que tinha um dente de ouro. Peguei as “selecionadas” e levei para o balcão, a fim de cortá-las. Infelizmente ele era quase mais alto que eu, e Hank pareceu notar, porque ele chutou um caixote para perto de mim com um sorriso cúmplice.
Tomates moles eram extremamente desagadáveis, alguma coisa em que eu havia tocado fez minhas mãos coçarem mas eu tinha que continuar cortando. E confesso que fui rápida! Surpreendi até o cozinheiro ao levar o que havia pedido.
– Aqui está.
Anunciei.
– Olha, você cortou bem direitinho! Parece ser bem caprichosa. Talvez seja uma boa idéia lhe por encarregada da comida do capitão. — Hank parecia contente com as hortaliças entregues a ele, e após jogá-las na sopa também colocou um punhado de folhas e ervas. — Hoje precisa ser especial, sabe. Estão todos muito frustrados com a falha do capitão, mas se sabem o que é bom pare eles mesmos vão permanecer quietos.
Ele disse, para ninguém em particular. E eu até que gostei da idéia de fazer a comida do capitão. Mas como nem tudo são flores, a próxima coisa que ouvi sair da boca do cozinheiro foi uma ordem para depenar uma galinha já morta que ele havia deixado no balcão. E, cara, como isso era nojento.
Algumas horas depois, era a hora do jantar — um dos poucos momentos de folga, e mesmo assim éramos divididos em dois grupos de quinze, para que o navio não ficasse desprotegido. Com sorte — Ou com um pouco de suborno — Kaine e eu sempre pegávamos o mesmo horário, e por isso quando senti a madeira ranger do meu lado, indicando que alguém havia se sentado, me virei esperando dar de cara com o moreno, mas quem estava alí era um loirinho que aparrentava ser pouca coisa mais velho que eu. Não parecia de maneira alguma com os marujos desse navio, ele era bastante delicado na verdade.
– Oi, Annabele. Kaine me falou do seu plano. Sou James.
James falava engraçado, e tive que beber da caneca para não rir dele — esqueci de mencionar que havia “aprendido” a beber rum, mas preferia não fazê-lo porque tinha um gosto ruim. Havia visto o garoto algumas vezes, ele consertava partes do navio e chegava até à mandar em alguns marujos.
– Ah, sim... Sabe, James — disse, ao engolir o rum — não posso deixar de perguntar-lhe o por quê de você querer se livrar o capitão.
Ele fixou o olhar em um ponto do navio, mas não havia nada alí além de caixotes.
– Meu pai me vendeu à esses piratas. Você agora deve pensar que meu pai é desnaturado ou coisa do tipo, e não vou negar; até porque, ele realmente é, você não tem idéia das atrocidades pelas quais passei nas mãos dele. Um medalhão que brilhava era tudo que precisava — Ele fez uma pausa — e Francis não é o tipo de cara que despacha marujos, toda ajuda é válida aqui. Simplesmente quero matá-lo por ter oferecido um pingente idiota e reluzente à meu pai, depois caçar aquele desgraçado e fazê-lo pagar com as minhas próprias mãos. Mas fale logo do plano, soube que era para hoje.
Ok, isso foi pesado. O garoto tinha tão pouca idade e tanta raiva que tremi.
– Ah, sim, claro. Fui chamada para servir na cozinha hoje então tive que adaptar bastante — comecei, encarando o pôr-do-sol — Vai acontecer daqui algumas horas. Vou servir seu jantar, embebedá-lo e, em seguida, desacordá-lo, enquanto você e Kaine me dão cobertura. Caso algo dê errado vocês, obviamente, se intrometem. Mas precisam ter cuidado para não levantarmos suspeitas.
Disse, torcendo para que não soasse tão ridículo quanto achei que soava.
– Hum... E depois? Não que seu plano seja ruim, é só que... — James foi interrompido por um par de botas que fazia a madeira do navio ranger à cada passo.
– Que plano? Annabele! O que você ainda está fazendo aí? Vá servir o capitão!
Por sorte era Hank, e aquele cozinheiro era tão tapado que a mentira mais deslavada o satisfaria.
– Ah! Sim, sim, estou indo. Pode ir indo que lhe sigo.
Ele me deu uma piscadela cúmplice e olhou diretamente para minha mão; Segui seu olhar e percebi que a de James encostava nela. Hank virou-se, e tão logo quanto foi embora, o loiro pronunciou-se.
– Tome, use isto. — Ele referia-se à uma adaga que estava empurrando para cima de mim com urgência. Tudo que fui capaz de fazer foi enfiá-la na pouca folga que a bota tinha, e colocar os dedos sobre os lábios ao levantar-me, pedindo segredo. Dei algumas piscadas indicando que devia seguir o plano, e, correndo, fui atrás do cozinheiro.
– Quem era aquele?
Forcei-me à sorrir para o homem-porco.
– Ninguem...
Ele deu outra piscadela e me passou alguns pratos. Reconheci a galinha que havia feito mais cedo, as batatas com molho, um pernil meio seco que havia tirado do fogo (e queimado Hank no processo), e mais algumas coisas que não tinha visto na cozinha antes. Como eram muitos pratos, Hank ajudou-me a levar para a cabine do capitão e a arrumar a mesa para seu grandioso banquete. Antes de Francis (pelo menos foi assim que James o chamou) entrasse, ele me puxou de lado.
– O Capitão pode querer beber um pouco demais, mas você sabe que isso não traria benefício algum para o navio. Por isso, faça o possível para impedí-lo, sim?
– Claro. — Sorri para ele, e quando capitão abriu a porta ele me soltou como se meu braço estivesse em brasa e correu para fora da cabine.
– Annabele! Que surpresa agradável...
Só que não. Ele sentou-se e fiquei de pé a seu lado, como faziam nos restaurantes em que não poderia entrar. Estiquei a mão para passar o vinho à ele, porém fui detida.
– Prefiro rum — Ótimo, dessa forma só facilitaria meu trabalho — e vou esperar eles chegarem.
E assim foi feito. Esperamos quinze minutos, meia hora, uma... E foi quando o capitão finalmente aceitou que todos estavam com raiva dele e que não compareceriam, e resmungando esticou-se para pegar a garrafa de rum e, ignorando os copos, tomou diretamente do gargalo. Depois de tomar meia garrafa e comer boa parte do pernil e das batatas ele me chamou, completamente bêbado.
– Senta aqui, Annabele, você deve estar com fome. Sabe, essa comida é bem melhor do que a servida aos demais tripulantes e seria uma pena desperdiçar por pura birra dos Imediatos e de alguns Mestres mais chegados.
Ele falou, com a língua enrolando, completamente miserável pelo erro que havia cometido — que talvez nem fosse tanto culpa dele assim. Tentando afastar os pensamentos, sentei-me na cadeira o mais longe possível dele, e comi um pãozinho enquanto ele bebia.
– Não se acanhe! Coma mais, mais Annabele, mais! — E virou a segunda garrafa, já pela metade, enquanto algumas gotas escorrendo pela barba suja. Quando tornou a colocá-la sobre a mesa estava vazia, então ele jogou para trás, o que a fez se espatifar, e começou a rir, aparentemente sem motivo. E então, de tanto rir, o capitão tombou com a cadeira para trás, por cima dos cacos de vidro da garrafa.
Confesso que fiquei ansiosa, mas quando vi uma sombra familiar na janela, relaxei e comecei a por o plano em ação. Com o capitão engasgando no chão e rindo ainda, levantei-me e cheguei do lado dele, tirando a adaga de James da bota e encostei contra sua gargant, então ele imediatamente parou de rir.
– A... Annabele? Ora, largue essa coisa.
– Não. Estou apenas seguindo ordens, agindo como um marujo; do jeitinho que o senhor me pediu. Marujos fazem motins às vezes, capitão.
– Motim? Como você ousa se rebelar contra mim? Ora sua maldita rata fedorenta, eu sabia que devia ter jogado você aos tubarões! É isso que se acontece quando se tem compaixão, esses macacos de convés esquecem o lugar deles — Ele ia se levantando e eu recuava um pouco com a lâmina — e você, Annabele, não vai me matar. Sabe por quê? Porquê você sabe que não passa de uma criança suja e infeliz sem capacidade de mandar em um navio, e mesmo que eu chegue a morrer esta noite nenhum daqueles imbecis vai te aceitar como capitã, garota.
Enquanto ele falava minha mente maquinava, e eu percebi que realmente não queria matar o capitão. Quero dizer, adoraria me livrar dele, mas... matar é algo maior. Agora ele estava quase sentado à minha frente, e quando olhei com o rabo do olho vi a porta aberta, porém sequer tive tempo de pensar quem teria entrado pois um segundo depois senti o metal gelado e duro ser encostado à meu pescoço. Automaticamente empurrei a adaga contra a pele do capitão, que caiu no chão agonizando e gorgolejando o próprio sangue.
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