Piltover's Finest
26 Capítulo 24 - Death & Despair
Notas iniciais

O mundo tropeça loucamente ao ritmo do trote dos cavalos negros, e a tempestade, vista de dentro da carruagem, parece um deus furioso engolindo o mundo em sua loucura e ódio. A água entra inevitavelmente por todos os lados, mesmo com aqueles inúteis panos surrados tentando mantê-la do lado de fora.
– Shh, nós já estamos chegando, nós já estamos chegando.
Aquele velho caquético, magro e seco como uma fruta esturricada no deserto, tentava dar-lhe algum conforto sem conseguir esconder seu próprio medo. Os jovens olhos observam-no, espantados, chacoalhados por todos os lados, mal conseguindo se segurar enquanto os cavalos corriam desvairadamente por terrenos acidentados. Parecia que a miserável carroça iria se desfazer na fúria do titã engolidor de mundos a qualquer momento.
De repente, a carruagem para abruptamente. O velho e os olhos pequenos voam. O pano que recobre a carroça é puxado.
– Desça, velho.
Parece um demônio do lado de fora... Há espinhos por todos os lados, os trovões incendeiam a terra por trás dele; enormes chifres despontam de sua cabeça. Ele carrega algo muito feio; não consegue dizer se é um tridente ou uma lança...
– Calma, por favo...
– CALE A BOCA E DESÇA! — o demônio segurou no colarinho puído da camisa do velho e arrancou-o com violência em direção à tempestade, fazendo-o cair no chão coberto de lama negra.
– NÃO!!! — pequenos olhos quebra o silêncio e joga-se para a frente. O demônio vê e logo sua mão gigantesca e impiedosa arrasta também pequenos olhos para o olho do furacão.
– Haha! Olha só... Um prêmio de consolação! Mais uma criança maldita para engordar nossas fileiras...
– Deixem el...
– COLOQUE-SE NO SEU LUGAR, SEU VERME! — o demônio chutou a barriga do velho, que encolheu-se com um gemido angustiante de dor — Mandem-no logo pra caravana que vai sair para o mercado de escravos. Não aguento ver esses bichos podres olhando para a minha cara...
Pequenos olhos tentou levantar-se e correr na direção do velho, mas assim que apoiou-se em seus joelhos para começar a se erguer, algo pesado puxou seu pescoço para baixo, direto em direção à lama. Um dos demônios pisara em sua capa com sua enorme bota, estrangulando-a e fazendo-a cair com força; o capuz caindo e revelando os curtos cabelos brancos, sujos agora pela lama negra. De repente, todos os demônios acercavam-se dela, ao redor dela, e riam o riso frenético dos condenados, suas presas horrendas brilhando sob a luz de cada raio, os chifres gigantes aterrorizando-a, suas sombras, ao redor dela, crescendo, crescendo...
– HAHAHAHAHAHAHAHA!!
– HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!
– HAHAHAHA!!! HAHAHAHA!!! HAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!
As mãos e os pés presos, sem conseguir se mover, sem conseguir fugir, sem conseguir lutar...
– MAIS FORÇA, SEUS PEDAÇOS DE MERDA!!!
Bolas descomunais de ferro eram atadas a grilhões em seus pulsos e tornozelos; o sol era escaldante enquanto o instrutor gritava com todo o ódio de seu coração, e só o que os jovens olhos repletos de raiva de tudo aquilo desejavam era chegar no maldito poste onde estavam as chaves da liberdade antes de qualquer outro oponente, para se certificar de que sairia viva dali mais um dia.
– VOCÊS ACHAM QUE ISSO AQUI É DIFÍCIL?! VOCÊS NÃO QUEREM ENTRAR NUM CAMPO DE BATALHA E VER COMO AS COISAS SÃO POR LÁ!!!! SE TEM ALGUM IDIOTA FRACO QUE QUEIRA DESISTIR, É MELHOR MORRER AQUI MESMO DO QUE MORRER NO CAMPO E SER SÓ MAIS UMA POÇA DE SANGUE E TRIPAS DEIXANDO O CHÃO ESCORREGADIO PARA OS VERDADEIROS GUERREIROS!!!!
A jovem se matava com aqueles pesos enormes atados a ela, tentando chegar o quanto antes ao objetivo da tarefa, mas um rapaz ao lado parecia estar ganhando a dianteira... "Não!..." Aquilo não era um jogo. Aquilo eram as suas vidas postas à prova nos limites da sobrevivência. Porque um soldado de Noxus não entra despreparado em campo... Um soldado de Noxus não entra simplesmente para sobreviver, ele entra para VENCER em campo.
– EU JÁ ESTOU VENDO QUEM VAI MATAR QUEM AQUI, SEU BANDO DE LERDOS!!!! — o instrutor maldito ainda berrava, percebendo também o rapaz forte que chegava cada vez mais perto do prêmio...
"Não... Não, eu não vou morrer assim, não MESMO!"
Com fúria, a garota agarrou com força a própria corrente em seu pulso e, num acesso de puro ódio e instinto, foi capaz de girar a bola de ferro no ar...
– AaaAAAAAAAAARRRRRRRRRGGGHHH!!!
– AAAAH, NAAAA...!
SPLAT!
...a cabeça do "campeão" havia virado uma mistura líquida vermelha grudada na bola de ferro da garota, enquanto o corpo caía ao chão, decapitado brutalmente com um golpe concussivo letal! Aquela visão imediatamente chocou a todos, que congelaram, atônitos, ao presenciar tal cena tão horrível ali, de perto... Mas logo os outros condenados também se tocaram de que, se não agissem com aquela mesma loucura frenética, iriam acabar fazendo companhia ao outro na vala. ...finalmente, o instrutor deixou sua mudez espantada, e então se exaltou.
– HAAAAAAAAHAHAHAHAHAHA!!!!! É DISSO QUE EU ESTOU FALANDO!!! QUEM BOBEAR VAI MORRER, IDIOTAS INÚTEIS!!! CONTINUE, SUA BESTA VORAZ; CONTINUE!!!
Ela não ouvia merda nenhuma do que aquele canalha filho de uma puta estava dizendo; ainda no pico de toda aquela adrenalina, só tinha em mente chegar às chaves eliminando qualquer outra ameaça que se colocasse em seu caminho. Puxou a bola de ferro de novo e lançou-a para a frente, obrigando o resto do corpo e o resto dos pesos a acompanharem-na, ganhando uma distância considerável do resto. Lá atrás, o inferno se instalava, com outros jovens ensandecidos pela possibilidade de morrer daquela forma começando a atacar uns aos outros, num carnaval de sangue e urros descontrolados traumatizante. Mas ela mantinha o foco no ponto final...
– *Arf! Arf! Arf!* AAAAARRGH! — forçava-se a vencer aqueles pesos e continuar avançando, mesmo exausta, até que finalmente... HA!!!!! Alcançara as chaves! Com as mãos trêmulas e a visão quase delirante, segurava o molho e tentava, atrapalhadamente, soltar-se o mais rápido possível e IR EMBORA dali, mas errava a fechadura, deixara as chaves cair, os olhos se enchiam e se turvavam... — Droga... DROGA!!!!!
Finalmente a maldita chave encontrou seu lugar, girou e então ela estava LIVRE! LIVRE! ...Precisava ir embora. Precisava sair do campo agora... Roubou uma espada decorativa, parte do símbolo da cidade-Estado que adornava a parede da arena, e começou a sondar desesperadamente por uma rota de fuga, mas, para todos os lados, só o que via era sangue, pedaços de carne e bolas de ferro voando para todos os lados, tingindo tudo de vermelho, inclusive os imaculados cabelos brancos... Onde estava a porta? ONDE ESTAVA A... Olhou para cima. O instrutor, ainda com o capacete do demônio, aquele demônio de anos atrás, de braços cruzados e um sorriso extasiado, apontou para uma das paredes lá em baixo, na arena... A saída! ...Mas ficava justamente do outro lado, atravessando o pandemônio que ocorria ali no meio...
– Bahamut, o Comando Central enviou ordens de...
– Shhh!! Sente aí e olhe ali em baixo o FESTIVAL que está acontecendo!!! HAHA!
– EU NÃO TENHO TEMPO PARA...
– ALI!
O General olhou para baixo. Uma jovem de cabelos brancos que dizimava os oponentes todos sem hesitação com uma espada sem fio e uma bola de ferro... A lâmina de decoração, que nunca fora afiada, ainda assim, nas mãos apocalípticas dela, causava um estrago difícil de imaginar, cortando o corpo dos oponentes apenas com o uso de sua força bruta. ...Incrível.
– ...Parece que você está entretido, general...
– Cale a boca, coronel...
Chocava a bola de ferro contra os outros oponentes, lentos, presos ainda aos grilhões, e então avançava de forma ligeira com a espada para trucidá-los... Um a um os corpos iam caindo, e suas mãos banhadas em sangue já não vacilavam para atacar; ela estava na batalha, mas mais que isso: a batalha estava nela. Foi abrindo caminho até o objetivo final, até a porta de saída, até que...
...
*Clap...Clap... Clap...*
O instrutor, de pé, aplaudia lentamente com um sorriso lascivo deliciado pela carnificina proporcionada, enquanto um outro membro do exército, provavelmente da mesma posição ou superior devido à forma como parecia se portar e vestir, estendia-se ao lado dele, parado, observando a arena de modo inexpressivo... Bahamut era um degenerado idiota entretido, mas o olhar daquele segundo homem focava-se diretamente no seu, um olhar severo, cheio de ódio e sangue, mas que parecia dilacerar sua alma em busca de algo...
– A viagem acabou. Pra fora!
Desceu pela última vez de uma carroça, chegando num lugar que desconhecia e sequer tinha pretensão de conhecer, sabendo que provavelmente ficaria novamente enjaulada num moquifo de pedra cheirando a carne podre, suor e morte...
– Soldado! — ela virou-se, de alguma forma já preparando-se para um combate inexistente, e então viu um homem aproximar-se, seguido logo de perto por outros quatro — ...Não sabe mostrar respeito batendo continência?
Displicente, olhou nos olhos do militar com uma fúria selvagem bem contida e endireitou a postura, levando uma das mãos à cabeça respeitosamente, enquanto seus olhos desafiavam o homem dizendo a ele justamente o contrário do que sua postura queria dizer.
– Os degenerados de Bahamut... — o homem observou... Era o mesmo homem que, um mês ou dois antes, cruzara o olhar com o dela na arena — Você foi transferida e será treinada na divisão da capital agora. É bom que aprenda a ter modos, entrando agora em um grupo de elite, se quiser manter sua cabeça no lugar onde ela está, soldado.
– Pode ter certeza de que eu sei muito bem manter minha cabeça onde ela está...
O general ficou irritado com a afronta, mas ainda assim apreciou aquela firmeza sem precedentes que via agora e que vira há algum tempo atravessando a ferro o campo de batalha... Um diamante bruto em meio ao cascalho que Bahamut não percebera, mas que precisava o quanto antes ser lapidado...
A jovem começara a treinar. Devia estar tão acostumada às loucuras psicóticas do "campo de treinamento" isolado de Bahamut que definitivamente não se importava com qualquer tom das ordens dos instrutores ou superiores: ela estava ali para lutar e estava ali para vencer, não para fazer amigos, e essas coisas ela aprendera a fazer muito bem...
– ...Me dê sua espada. — o general falou a um dos comandantes — ...SOLDADO! — todas as pessoas em treinamento viraram-se para o general , alguns ficando em posição de sentido. Mas ele olhava para um apenas, e sabia que ela olhava de volta... — Lute.
O general caminhou para um espaço um pouco mais afastado dos outros. De longe, a jovem mulher veio com a espada empunhada. Os dois pararam em frente um ao outro, sem ninguém se mover ou entrar em posição de luta. Sempre se enfrentavam, desde que ela chegara à capital dois ou três anos antes, e se enfrentavam da mesma forma agora de novo, através de olhares incisivos que de maneira alguma recuavam... Cansado de esperar, o general atacou, simplesmente baixando a espada com força na direção dela. O eco agudo das lâminas se chocando feriu os ouvidos de todos, que haviam parado para olhar aquele embate atípico. A soldado e o general mediram forças, um forçando e outro defendendo o golpe... A moça era surpreendentemente resistente, segurando o golpe pesado dele com uma espada de uma mão só. Ainda assim, depois de resistir por um bom tempo, a mulher simplesmente recuou um passo apenas para armar o contra-ataque e já imediatamente investir contra seu superior. As consecutivas explosões das duas peças de metal em choque prenderam a atenção de todos; alguém ali ia sair muito mal... A determinação ferrenha que o general via apenas instigava ainda mais nele a vontade de lutar até a morte, de puxar ao limite extremo aquele treino que não era treino, mas uma disputa real em si. Ela não pensava em nada. Apenas cravara os olhos em seu objetivo e apostava todas as suas fichas, caindo de cabeça na luta como se perder a vida fosse ainda um preço muito pequeno a ser pago. Ela sobrevivera. Sobrevivera a TODAS as provas que haviam lhe colocado até agora e ainda estava ali, e sabia que a única chave para a vitória é não ter opção senão vencer. ...E dessa determinação absoluta é de onde tirava tanta certeza do que deveria fazer, tanta força.
O combate transcorria com um equilíbrio entre os oponentes quase que inacreditável; entretanto, um deslize, talvez por falta de refinamento em seu estilo de luta, fez com que a moça fosse pega pelo general de guarda baixa, tomando um golpe com o cabo da espada diretamente no pescoço, fazendo-a perder o ar, engasgar e deixar de prestar atenção à luta. Outro golpe no estômago, mas ela não se permitiu curvar sobre a dor... Mas já era tarde. Rapidamente após o golpe, o general derrubou-a no chão e prendeu a espada ao seu pescoço...
...Fim....
...o general tirou a espada, que já formava um vergão vermelho na pele açoitada pelo sol.
– ...Você devia ter morrido hoje... — sem dizer mais nada, ainda sobre ela, prendendo-a, seus olhos buscavam a besta selvagem nos olhos dela. O general levantou-se — Apresente-se amanhã cedo no quartel general do Alto Comando.
Ela entendia o jogo dentro do exército de Noxus e aprendera cedo a jogá-lo com maestria: não importa absolutamente nada em alguém, a não ser a força. E, por meio da força, ela seria capaz de chegar a qualquer lugar. Sua única ambição era ver-se livre das amarras que impuseram a ela num tempo do qual sequer se lembra bem. Ambição única, mas que tratou de alimentar muito bem: ela não queria simplesmente liberdade. Ela ia mandar naqueles que mandaram nela um dia. Uma recompensa no mínimo justa por todo o ferrenho treinamento no exército desde que se tem memória.
– Qual é seu nome, soldado?
– ...Riven. — pronunciá-lo depois de tanto tempo sem uso era estranho... Quase novo... Mas enchia-a de um orgulho extremamente revigorante, pois mostrava que já não mais era um simples soldado no meio das fileiras que serviam de bucha-de-canhão, dos que eram enviados para morrer antes que os verdadeiros guerreiros chegassem trazendo o caos e a vitória... Ela tinha recuperado com garra seu direito a um nome.
– Riven... Eu pretendo fazer com que esse nome ecoe nos ouvidos dos inimigos, e que seus ossos tremam perante o simples ato de ouvi-lo... Eu pretendo que seja assim. Mas o esforço deve partir de você, ou será somente mais uma frustração nessa vida de miséria. Você será treinada diretamente por mim, para que eu tenha certeza de que nenhum outro menos qualificado vá desperdiçar um talento à toa, mas definitivamente não significa que o privilégio tornará as coisas mais fáceis para você; pelo contrário... Nós vamos treinar até que sinta dor simplesmente por estar respirando, e quem sabe um dia tudo isso valha algo...
– Acredite senhor, eu farei valer...
– Você tem ideia de com quem estará treinando?
– Obviamente, general Darius. Seu nome ecoa nos ouvidos dos inimigos e faz com que seus ossos tremam simplesmente ao ouvi-lo, não? — esboçou um sorriso jocoso, quase desafiador. Pela primeira vez, parecia ter visto o militar também sorrir frente à "afronta"... Era justamente essa ousadia que o cativara.
...
– AVANTE!! ATEIEM FOGO AOS PORTÕES; OBRIGUEM-NOS A ABRI-LOS!
– OS SOLDADOS DE DEMACIA ESTÃO REFORÇANDO A SEGURANÇA DA PONTE! EXTERMINEM-NOS, TIREM-NOS JÁ DALI!!!
– ARQUEIROS!!! PROTEJAM-SE!!
O caos impetuoso da batalha pela conquista de territórios espalhava-se por todos os lados, disseminando-se como a fumaça negra dos portões que queimavam, entrando nos pulmões das pessoas inseridas na fortaleza que tentava resistir ao ataque do implacável exército de Noxus. Não fora necessário mover o exército inteiro, nem de longe. Somente as tropas do general Darius seriam já poderio bélico suficiente.
Conforme o sangue jorrava pelo chão e o fogo engolia a construção fortificada, a região teoricamente neutra, porém protegida por Demacia, ia caindo sob o poderoso metal noxiano. Logo, sem outra alternativa, os soldados demacianos presentes, que não esperavam por tamanho ataque de surpresa, começaram a deixar o forte e partir pessoalmente para a luta. Era ali que o general considerava que a batalha já estava vencida.
Os soldados demacianos caíam sob sua espada feroz do grupo de elite de Noxus, e ela adorava sentir o sangue espirrar por sua armadura, em seu rosto, como se estivesse sendo ungida pelos deuses da vitória e do poder. Com a espada larga, quase de seu tamanho, cruzava o campo ceifando vidas com a mesma vivacidade de quando cruzara aquela arena pela primeira vez, mas dessa vez não havia medo. Nenhum medo. Apenas corpos mutilados de vermes que não valiam o próprio ar que respirava, caindo e fazendo um favor à humanidade, que livrava-se daqueles seus membros fracos e sem futuro. Estava já às portas da fortaleza, seguindo quase ao lado do general, quando viu que um soldado demaciano que se fingira de morto levantava do meio dos corpos e tentaria atacar Darius pelas costas.
– GENERAL!!
Precipitou-se para frente com toda a velocidade que conseguiu, e seu grito alertou o general sobre a ameaça, mas ainda assim, mesmo desviando, o homem conseguiu acertar o ombro de Darius antes que a espada dela o alcançasse. O ódio por aquele povo flamejou mais intenso em seus olhos, e quando finalmente pôde alcançá-los, colocando-se entre o general e o demaciano, baixou sua espada com tanta violência que, ao tentar aparar o golpe, a própria espada do demaciano cortou-lhe o rosto, fazendo com que o sangue cobrisse seus olhos dolorosamente. Sem trégua, golpeou-o com uma fineza de movimentos espetacular mais uma, duas, três vezes, em vários pontos falhos da armadura do homem, deixando o sangue escorrer por cima do metal dourado enquanto o homem caía já desprovido de vida.
Ao final da noite, de volta ao acampamento, a vitória já havia sido declarada: aquela era agora uma região do crescente Império de Noxus. Recolhera-se para sua tenda mais cedo enquanto os outros soldados e oficiais ainda comemoravam animadamente mais um triunfo, mas não fora logo dormir. Estava do lado de fora, na ferramentaria, limpando o sangue da espada e certificando-se de que saíra ilesa e ainda afiada.
– General de Divisão. — a voz forte chamou-a pelo título, um apenas abaixo de seu mestre.
– General de Exército. — saudou-o apropriadamente.
Ele fez um gesto para que ela saísse da escuridão da ferramentaria. Deixou guardada ali a espada e, ao segui-lo, percebeu o ombro enfaixado do superior.
– ...Qual o estado desse ferimento?
– Foi só um corte. Mesmo que não tivesse interferido, pela estupidez desse golpe aquele soldado não teria feito muito pior que isso.
– Compreendo.
– Ainda assim, foi um bom trabalho, general.
– Nada além do meu dever. Seria uma traição vergonhosa não interferir.
Caminhavam na noite levemente clareada, pelas tendas dos oficiais, enquanto jogavam fora aquela conversa polida, porém fiada.
– Devo dizer que foi uma aquisição feliz para o exército noxiano, Riven. Não que eu tenha perdido batalhas o suficiente para dizer isso, mas desde que ascendeu ao posto de general, ao meu flanco, não caímos em nenhuma missão. Vitórias conquistadas com glória.
– É a vontade insaciável de vencer que nos leva a estes triunfos, mestre; mais do que qualquer outra nação, Noxus almeja sua soberania... E é capaz de criar oficiais aptos o suficiente para guiar as tropas a conquistá-la. Me animam as conquistas que obtemos.
– Sim, e isto está fazendo as outras cidades-Estado começarem a perceber nosso poder... Soube que ganhou um epíteto dentre nosso povo... E também dentre os oponentes. — o general insinuou, satisfeito. Riven, tentando esconder a estranha timidez que ainda sentia ao pensar naquilo, baixou um pouco o olhar, mas logo então prosseguiu.
– "A Conquistadora". Não sei se é exagerado, embora de fato tenhamos tomado muitos territórios nestes últimos tempos.
– Um epíteto destes é algo que te dão, e nada que é ganho é exagerado; há motivos para que seja assim. — sua voz soava com uma firmeza determinada — Foram conquistas notáveis protagonizadas pelas minhas e pelas suas tropas, Riven. Juntos somos um exército de elite implacável!... — ela achara que ele se exaltara um pouco pela forma com que falava, e não achou que fosse um comportamento comum do general... O grande homem parecia falar um pouco mais rápido, respirar com um pouco mais de intensidade... Mas então as coisas se acalmaram e ele parou de andar.
– ...General?
– Riven... Eu tenho um requerimento oficial importante a fazer... ...lute ao meu lado. Para sempre. Seja minha companheira não somente na guerra, mas também quando retornarmos a Noxus...
– Darius!!!– fora pega de surpresa, não sabia o que dizer, o que fazer...
– Riven, eu não tenho o costume de pedir nada, mas estou me colocando em frente a você e propondo... — já virado de frente para ela, impedindo que continuassem a andar, tomou a mão da general e se aproximou rápido, desacostumado a saltar de seu pedestal como maior dos oficiais noxianos — ...seja minha. Fique comigo e, juntos, nada no mundo poderá ficar contra nós!...
– E-eu... Darius... — tentava juntar o ar para falar, sua cabeça parecia que girava... era.. era... — ...Não.
– O que?!... — a expressão do general era perplexa, ultrajada... Como se uma redoma de cristal que havia construído para abrigá-la para sempre se espatifasse violentamente no chão.
– Não; general, eu... Eu não sei. É muito cedo. Eu... não quero... pensar nisso agora. — não havia uma forma certa de se dizer "não" a um oficial de Noxus, pelo que se lembrava de sua própria experiência... então brigava com as palavras — Darius, eu preciso descansar.
Soltou-se da mão dele e, contornando-o, caminhou a passos largos para sua tenda.
Começava a sentir o suor frio em sua testa. Aquilo... Aquilo fora... Aquilo era um desastre! Havia acabado de deixar ao relento um dos mais importantes oficiais de Noxus, seu mestre, que lhe tirara do inferno dando-lhe a possibilidade de crescer dentro do Exército noxiano, mas ainda assim sentia ter feito o certo; nunca agira por aparência, não seria agora que começaria. Não tinha também nenhuma dívida ou pendência, nada do que se retratar. Mergulhava de cabeça em toda batalha que lutava, mas tinha antes sempre o cuidado de escolher se valia a pena o risco ou não... Sim. Tinha feito a coisa certa em negar aquilo enquanto não tivesse tempo para pensar sobre o assunto. E, no fundo, sentia mesmo que a resposta final continuaria sendo aquela...
Sim... Então fora melhor ter agido daquela forma mesmo.
Virou-se para pegar água na mesa à entrada da tenda, mas então subitamente deparou-se com espanto com uma figura gigantesca que se impunha na entrada.
– General, eu disse que preciso descansar. — afirmou, categórica.
A forma colossal e imponente da Mão de Noxus, entretanto, continuava ali, plantada à porta, obstruindo a pouca luz que entrava na tenda; o peito e as costas largos subindo e descendo com cada respiração intensa que ele dava...
– Darius, eu peço que se retire! — exclamou com força e firmeza, tencionando recuar, porém sem se mover um milímetro.
– Como eu disse, eu não tenho o costume de pedir nada...
– General, SAIA DAQUI!
Ele avançou na direção dela, agarrando-a pelos pulsos.
– Você NÃO PODE virar as costa para mim, Riven!! EU te fiz chegar onde você está hoje!
– O que eu consegui eu consegui SOZINHA; foi o MEU sangue, foi o MEU suor!!!
– EU TIREI VOCÊ DAS MÃOS DAQUELE PSICOPATA DESVIRTUADO QUE TE MATARIA E JOGARIA AOS PORCOS!
– EU NÃO DEVO NADA A VOCÊ! — com força, puxou os braços para baixo, desvencilhando-se das mãos dele, e foi em direção à saída; entretanto, o homem, insano, precipitou-se e agarrou-a pelas costas, prendendo as mãos dela para trás com umas das mãos e, com a outra, segurando o rosto dela perto do seu; fungava em seu pescoço, passava os lábios pelo rosto e pela nuca dela...
– Você sabe, sua devassa; desde a primeira vez que nossos olhos se cruzaram essa besta dentro de você pede para ser destruída, essa selvageria domada...
– ME SOLTE!! EU NUNCA QUIS NADA COM VOCÊ!!!
– MENTIRA! ...Mentira! — ele desceu a mão que apertava insensivelmente o rosto dela e começou a acariciar seus seios, apertá-los com força excessiva; doía– Esse tempo todo você me desafiava... Nunca voltava atrás, ao contrário: ia sempre de frente, de encontro direto a mim... Você sempre me buscou, Riven... Você estava me provocando... — começava a levantar a túnica dela.
Aterrorizada, Riven começou a debater-se com força, tentando livrar-se dele, mas parecia que, quanto mais lutava, mais ele crescia sobre ela. Em desespero, pisou com força no pé descalço do oficial, realmente com vontade, machucando-o e obrigando-o recuar, e por um momento ela se viu livre dele, mas não foi suficiente e ele a agarrou novamente por um dos braços e puxou-a em sua direção.
– VENHA AQUI! Venha aqui... — ele conseguiu prendê-la contra si; Riven tentava soltar-se de todas as formas que podia. Ele a derrubou na própria cama da oficial, caindo sobre ela; um peso sufocante e desesperador. Começava a beijá-la, chupar sua pele — Ah... Ah, sim... Você sempre quis isso, não é? Você gosta da forma bruta, huh? Haha...
– NÃO!! SAI!!! ME SOLTA!!!!!! SAI, saia daqui!!!... SAIA DAQUI!!!!!!!!
– ANALA, PELO AMOR DOS DEUSES, ACORDE!!!!
– AAAAAAAAAHHHHH!!!!! AAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!!!! NÃO, NÃO, NÃO!!! SAI, ME DEIXA!!!!
– ANALA!!!!!!
– AAAAAHHHH!!!!
Ela acordou num sobressalto, sentindo-se morrer; o coração palpitava frenético na garganta, não conseguia respirar, estava encharcada de suor, desnorteada... Onde estava, o que estava acontecendo?! QUEM ERA QUE ESTAVA EM SEU QUARTO?!
– ANALA, ANALA, CALMA! SOU EU!
– DEUSES, O QUE ESTÁ ACONTECENDO?!
– Ela começou a gritar no meio do sono, Karma; eu vim ver o que era e ela estava se debatendo, batendo contra a armação da cama, estava se machucando! Tentei impedir, mas então ela despertou descontrolada!...
Com mais gente aparecendo para rodeá-la, sem ainda entender que não estava mais naquele maldito pesadelo, se recolheu como um bicho assustado para o canto da cama, querendo distância de todos...
– Anala... Calma... Somos só nós aqui; Karma, Irelia e os monges, que estão preocupados...
– Eu...
– Respire...
– Eu... — recobrando a consciência de que estava acordada e de que estava em Ionia, no Templo, onde havia se deitado noite passada, com alguém mais ou menos conhecido por ali, pôde, aos poucos, ir recompondo-se de todo aquele medo, toda aquela tensão... Céus, sentia-se envergonhada rodeada daquela forma, todos olhando para ela como se lessem sua mente...
– Acho que o melhor seria apenas deixá-la tentar voltar a dormir, certo? — Irelia falava segurando levemente sua mão, olhando nos olhos dela, com calma. Ao cruzarem-se, Riven imediatamente desviou o olhar. — Anala... Está melhor?
– Eu... eu... vou ficar...
– Acha que precisa de algo? Quer que deixe alguma luz acesa?...
– Não, não, não, eu só... — olhou os mil rostos que a olhavam... Seu coração parecia se retorcer de forma insuportavelmente sufocante... Suspirou, tapando com as mãos o rosto.
~¨~
– Monja! — ouviu ao longe, do primeiro círculo de meditação, antes de chegar no jardim onde ministrava o treino. Encarou, ainda sem conseguir realmente se livrar do sentimento de vergonha pelo que houve na noite anterior, a governante do Placídio. Irelia fez sinal para que se aproximasse, e então a exilada respirou fundo e caminhou até ela — ...Ei... — não sabia bem o que dizer... Queria ver se ela estava melhor, mas talvez não fosse bom ficar recordando e perguntando sobre aquilo... A pausa, longa, começava a ficar incômoda — ...Eu pensei no que você disse... De ensinar o estilo Hiten... Mas não sei... Acho que seria bom testar antes. E já que você é uma das poucas pessoas que luta... Quer dizer, acho que você é a única pessoa que luta corpo-a-corpo aqui... — soltou um riso encabulado; claramente sua falta de conhecimento sobre a mulher impedia que conduzisse bem a situação...
– Tudo bem. Eu passo aqui depois do treino.
– Bom...
Não conseguiam olhar na cara da outra; aquele acontecimento havia deixado as coisas estranhas.
– ...Preciso ir. Não é bom que eu me atrase.
– Com certeza. Até mais.
Retomou o caminho de pedras e continuou caminhando, exercitando a mente com o intuito de tentar afastar o que acontecera de lá. As lembranças foram se perdendo aos poucos, mas sempre havia um resquício inacabado de algo que retornava... Sua saída na maioria das vezes, em momentos como esse, era simplesmente se fechar na expressão sisuda de dama de ferro que impedia que qualquer coisa transparecesse. Com o tempo, acabava caindo na própria peça, acabando por agir naturalmente com aquela disciplina militar que carregava consigo. Mas em Ionia as coisas funcionavam de forma diferente, e se fechar não parecia mais a melhor opção; contudo, só não queria que ninguém por acaso sentisse pena dela...
– Bom dia, mestre!
– Bom dia, mestre!
Os aprendizes exclamavam calorosamente quando ela passava por eles... Sentiu-se pega por uma peculiar surpresa com aquela amabilidade, e logo no início do dia. Pôde apenas cumprimentar acenando com a cabeça em retorno. Não tinha aquele costume; saudar um superior era bater continência e ficar em silêncio. Observou-os intrigada, e então contou novamente... Havia duas pessoas novas no grupo. Teriam que correr atrás do que perderam, não havia tempo para retomar tudo. Naquele dia, Riven levara uma espada de verdade. Não a sua, mas uma espada que conseguira. Entretanto...
– Guardem as espadas, eu quero fazer um treinamento diferente hoje... Vamos trabalhar a defesa, pura.
...Terminado o trabalho do dia, passou uma água no rosto para afastar o cansaço e o calor, e encaminhou-se para o primeiro círculo de meditação. Sentou-se na grama e esperou até que parecesse que Irelia tinha terminado sua própria prática particular.
– Ah! Não vi que estava aí. ...E então, algo de bom pra contar?
– Mais duas pessoas vieram para o treino hoje. Acho que alguém andou fazendo propaganda boca-a-boca e convenceu mais gente doida a tentar...
– Hum, algo positivo. Logo poderemos abrir oficialmente a "Escolinha da Tia Anala".
– Argh! — puxou um punhado de grama do chão e jogou para frente, como se quisesse acertá-la; cruzou os braços atrás da cabeça e deitou-se, fechando os olhos.
– ...Que bom ver que você está animada pra levantar e se exercitar!
– Eu estou meditando. Não é assim que funciona? Vocês não fazem isso?
– Não de olhos fechados e começando a babar.
– Eu não babo dormindo.
– Acabou de confessar que não estava meditando...
Riven levantou o tronco, voltando a ficar sentada, e franziu o cenho.
– Acho que você percebeu que eu NÃO DORMI à noite.
– Não tem problema, eu preciso testar como eu ensinaria a técnica a alguém iniciante; sua sonolência deve quase se igualar à situação.
– Deuses!... Por que eu não morri? – exclamou baixo, quase inaudível, somente para si mesma — Ok, o que eu faço?
– Primeiro, aja como se nunca tivesse aprendido nada disso na vida.
– Mas eu não aprendi nada desse estilo na vida.
– Ponto positivo em atuação pra você! Ok, agora, como você mesma tinha dito: o exercício começa com meditação. O estilo Hiten é sim uma técnica de combate extremamente letal e eficaz, mas para aprendê-la você deve primeiro alcançar a iluminação... ou... quase isso.
– É só ficar de olho fechado?
– Não. Na meditação, você tem que se concentrar em coisas... ...Sem. Dormir! – Riven só foi perceber o cascalho que Irelia jogara quando este atingiu sua cara.
– OOOOOOWWWwwww!!!... Peraí!...
– Olha, falando a verdade: eu não penso nem nunca pensei em ensinar isso pra ninguém, ok? Foi só um pretexto pra te chamar, então a gente pode esquecer e deixar pra lá.
– Ei, calma! Eu só não tô no dia mais apropriado pra tentar aprender algo novo; não precisa se irritar.
– Eu não estou irritada! Eu só... Eu nunca pretendi mesmo ensinar isso a ninguém... Parece que, quando eu luto, eu ainda consigo sentir a presença do meu pai e do meu irmão... E das pessoas da família... É a única lembrança viva deles que me resta, e se eu passar isso pros outros... Sei lá; é como se eu estivesse dividindo meu pai com alguém! Isso é...
– Tá, não precisa se explicar. Mas... Novamente: você não acha que devia passar isso adiante? Me parece doloroso pelo modo como você fala, mas é um legado. Um dos bons. Além disso, você poderia pensar de outra forma: dividindo com os outros a memória do seu pai, ela estaria mais presente... Mais viva.
Irelia recolheu os joelhos.
– ...Um dos ensinamentos que temos é nos desapegar das coisas e das pessoas, nos desligar, não nos prender neste mundo. Mas é bem difícil. Eu consigo não me importar que destruam minha casa, que levem meus pertences... Mas não posso deixar descansar minha memória de todos que foram... Nem deixar de me preocupar com aqueles que ainda podem ir... Eu sinto que é por isso que não consigo chegar no ápice do estilo...
– Você sempre fala baseada em tradições, mas esse mundo que a gente tá agora está mudando, Irelia. Olhe em volta, nada está do jeito que era antes. Talvez seja a hora de mudar essa tradição também. Talvez criar o seu estilo, não sei... Por que não pode ser justamente essa a sua motivação, sabe? Não largar do osso.
– Você fala como se entendesse...
– Não, Irelia, eu falo como se estivesse tomando na cara o tempo todo pra aprender. — retrucou com rispidez intrínseca, não intencional. Era sempre assim; uma conversa começava tranquila e terminava com uma desejando matar a outra. Não era cansativo? Parecia que existia um gigantesco abismo ali, diferentes visões, diferentes interesses, diferentes vidas e uma névoa de aparentes segredos... Entraves demais para que tentassem ao menos tratar-se amigavelmente, como Karma pedira que fosse, uma vez que formariam todos uma aliança... A ioniana respira fundo. Só no que pensa é em sua província, em como as coisas estão enquanto ela está fora... Se está em paz, se está sendo perturbada pelas tropas de Noxus... Deveria fazer uma visita, enquanto os membros do Conselho não chegam... Talvez passasse na rua do mercado da pequena vila para se preparar antes de ir. Olhou para o lado.
– Você está com a mesma roupa desde que chegou. Não seria saudável trocar?
– É o que eu tenho.
– Acho que Karma presta muita atenção em algumas coisas, mas se esquece completamente de outras... Eu vou passar no mercado; se quiser vir, deve ter algo lá pra você.
– Eu não tenho dinheiro.
– Não tem problema...
– Ah, tem problema sim. Eu não quero ficar de rabo amarrado com ning...
As lâminas se levantaram do chão de súbito.
– ...O que você estava dizendo?...
O mercado, naquele vilarejo em reconstrução, não era nada mais que uma rua caótica cheia de barracas onde se comercializava qualquer coisa que as pessoas pudessem encontrar ou recuperar dos escombros. Nada era considerado inútil, uma vez que precisavam ainda de muitas coisas para irem se reerguendo. Riven suspirava, contrariada, a cada dois passos que davam. Irelia, à frente, comprava comida para seu cavalo, cantis de água, coisas para se preparar para uma viagem não muito longa, mas também nada curta; ida e volta de sua província, para saber como as coisas estavam. Encorajava, quase tendo que ordenar, que Riven olhasse as barracas a ver se encontrava algo para vestir. A mulher olhava a maioria das coisas com notável desinteresse.
– Céus, você é uma companhia péssima para compras...
– Olha pelo lado bom: pelo menos não tem ninguém te obrigando a fazer nada! — falou com um grande sorriso, do tamanho de sua ironia. Balançando a cabeça, desapontada, Irelia seguiu até a barraca da frente.
– Por favor, me veja aquelas calças... E a camisa azul-escura... Tem um cinto, alguma couraça, qualquer coisa para proteção?
Enquanto Irelia negociava e resolvia rápido a questão, Riven começava a sentir-se vazia, como se não tivesse vontade própria, mas porque a culpa era dela mesma, que preferira não escolher... Virou o rosto para o outro lado, e foi quando viu algo que finalmente chamou sua atenção.
– Este aqui... Quanto é? — pegara uma capa verde-musgo com capuz, adornada nas barras com simples, porém bonitos arabescos dourados... Seria útil; cobria seu rosto, e era justamente isso que ela queria: não ser identificada. Poder passar como um fantasma pelas pessoas... Ainda que um fantasma numa peça bela de vestiário. Irelia observou aquilo só de canto de olho, satisfeita, porém temendo que qualquer movimento "espantasse" aquele bicho arisco novamente.
– Pode deixar, eu pago. — antes que qualquer objeção pudesse ser feita, como ela sabia que Anala faria, entregou o dinheiro ao homem e pegou as peças, entregando a ela. Imediatamente, Riven vestiu a capa para ver como lhe caía — Hah, eu acho que você devia tomar um banho antes de ir vestindo e sujando já as coisas novas...
– Eu não vou vestir, eu só estou... — naquele momento, um rebuliço começou a se intensificar no começo da rua, perto da entrada do vilarejo. A noxiana estranhou o movimento desesperado das pessoas que vinham dali, já imaginando o que pudesse ser... — ...soldados! — exclamou baixo enquanto via as grandes armaduras sobre os cavalos, tomando subitamente Irelia pelo braço e puxando-a para uma viela escondida no meio das casas e continuando a correr para esconder-se. Já estavam entranhadas no labirinto de ruelas entre as casas que se erguiam sem ordem ou planejamento, ouvindo ao longe o som de coisas sendo destruídas e pessoas gritando para que os soldados parassem de estragar suas barracas. Irelia fez forte oposição, puxando o braço e soltando-se de Riven com violência, fazendo-a parar — O que você está fazendo?!
– Nós temos que ajudá-los!
– É, eu sei, mas não desse jeito; é melhor se os pegarmos de surpresa!
– Nós nem sabemos onde estamos mais!
– Eu sei onde a gente tá!... Confie em mim, só me segue.
Puxando o ar e então soltando-o com uma expressão fechada, a ioniana concordou. "Tudo bem." Riven puxou o capuz sobre sua cabeça e continuou a andar. Chegaram numa bifurcação e a fugitiva então explicou:
– Cada uma vai seguir por um lado e vamos chegar um pouco atrás de onde estávamos na feira. É um ataque pelos flancos; se preocupe primeiro em tirá-los do cavalo e então a vantagem é nossa. Não deixe que eles te vejam até a hora de atacar, espere meu sinal. Ok?
– Ok.
Separaram-se. Seguindo exatamente o caminho que a outra indicara, chegou num espaço escondido entre duas casas, que ficava atrás de uma das barracas da feira onde podia se esconder. Viu, do outro lado da larga rua, a monja que se esgueirava pelas sombras entre os prédios, encostando-se na parede para não ser vista e tentando espreitar a posição dos guardas. Olhou para Irelia e fez um sinal de silêncio... Depois indicou que avançassem e explodiu numa velocidade incrível de dentro da viela, enquanto a governante igualmente avançava vertiginosamente para atacar.
– Aaaaa HÁÁÁ!!!!
Riven correu em direção a um dos guardas, tomou impulso contra uma parede, saltou, tomou impulso novamente na própria parede e então avançou exatamente na altura do homem sobre o cavalo, derrubando-o da montaria com um violento impacto. Caiu sobre ele no chão; seus joelhos forçando os braços para que não se movesse, uma mão apertando seu peito contra o solo e a outra segurando a espada pronta contra a garganta dele. Olhou para o lado e viu Irelia ser mais rápida: atirara logo uma lâmina no coração do homem, fazendo-o cair do cavalo já sangrando, e então, ao aproximar-se, lançou as outras três em sequência, assegurando-se de tê-lo apagado...
– CUIDADO!
Aproveitando o instante de distração, o homem tentou levantar-se e golpear Riven com um punhal, mas no exato momento em que ele se precipitava contra ela e Irelia gritou, uma explosão de sangue banhou Riven, que ficara em choque por um tempo...
...a lâmina de Irelia havia atravessado o coração do homem.
– Anala, o que houve?
Vendo sangue novamente banhá-la, brilhante, ficou sem ação por alguns segundos, mas então respondeu normalmente.
– Eu me distraí... Que idiotice.
– É... Cuidado da próxima vez. — percebeu que a monja ainda observava atenta todo aquele sangue — ...Agora com certeza você deveria se limpar e trocar de roupas...
Riven observava com um foco quase obsessivo aquele líquido rubro que tomava conta de si, de suas mãos, de suas roupas... De sua alma. Não, não era mais isso que queria presenciar! Não era com mais sangue que queria lavar suas dívidas, não! Sentia uma certa angústia apertar-lhe o peito; flashes do pesadelo, lembranças da guerra, a pele purulenta de seus soldados e também daquelas pessoas inocentes que eles açoitavam, todos, com a carne os pulmões em brasa devido àquela névoa de pura morte e desespero que pairava por onde quer que fosse; verde, densa, azeda, corroendo a vida e fazendo o sangue brotar de uma forma bestial: olhos que afogavam-se num sangue grosso e horrível, como se fosse piche escorrendo ao invés das lágrimas, imensas feridas abrindo-se na pele daqueles que entraram em contato com o líquido, os gritos, os gritos abissais de dor e agonia...
– Anala! — Irelia empurrou seu ombro, como se esperasse que deixasse de perder tempo e se levantasse logo. ...tudo bem. Estava tudo bem, afinal...
Os cidadãos de repente voltaram às ruas, vendo aquilo que acontecera, o que elas fizeram... E então agradeceram-nas, comovidos, por protegerem-nos e o pouco que eles tinham. Após uma brevíssima adoração que Irelia logo interrompeu gentilmente, conseguiram com os mercadores um pouco de água pelo menos para tirar o grosso do sangue sobre a instrutora de luta. "Não queremos essas roupas novas já machadas assim..." a ioniana falou com toda sua simpatia a um dos mercadores. Riven jogou a água sobre o corpo, torceu um pouco as roupas para tirar o excesso, retornou à governante e seguiram assim mesmo para o Templo. Lá, pôde se limpar direito, um bom banho; vestiu as roupas novas e deixou o resto a secar. Desceu, mas ainda era muito cedo para a refeição da noite. ...teve vontade de visitar de novo a grande sacada.
O sol já havia começado a se por, deixando o céu com uma engraçada coloração violeta. Logo ao atravessar as portas, viu longos cabelos negros sentarem-se num banco, com longos panos de um robe caprichoso espalhados pela superfície da pedra. Bem diferente de como ela vinha. A imperatriz e a andarilha. Aproximando-se, viu que ela tinha uma espécie de pequena mesa carregável, um apoio que jazia sobre seu colo onde parecia escrever com símbolos bonitos, porém desconhecidos sobre folhas de um papel todo adornado. Tinha alguma curiosidade quanto ao que era aquilo, mas não era de seu feitio perguntar.
A mulher de ionia molhava o pincel numa bandeja com tinta negra, puxava a manga do robe para trás e então, com traços leves, porém firmes, ia preenchendo o papel com movimento graciosos, que originavam símbolos graciosos. Percebia, vez ou outra, muito discreta e raramente, a instrutora olhar o que acontecia ali. Puxou a mesa um pouco mais para perto de si, virou-se ligeiramente na direção dela, de uma forma que impedisse ver o que fazia. Aquilo, Riven pensou, parecia um sinal sutil de "pare de se intrometer". Afinal, já haviam tocado naquele assunto no outro dia. Tudo bem, ignorou então. Sua curiosidade nem era lá tanta, de qualquer jeito...
Passou-se um bom tempo. Calmo, silencioso. Conseguira se entreter um bocado com as estrelas; tanto, que levou um pequeno susto quando a ponta do papel tocou seu braço.
– Acho que foi um bom rascunho... — a imperatriz deixou a folha sobre a mureta e entrou para o salão onde começavam a arrumar as coisas para o jantar.
A fugitiva, a "monja", olhou para o lado aquela coisa que a assustara levemente, e então viu, no fino papel de um leve tom amarelo, adornado com bordas vermelhas com desenhos dourados fluidos e simétricos, um desenho de uma maestria fenomenal, em traços limpos e belos de tinta negra... Era ela, na sacada, observando as estrelas. Tomou o desenho nas mãos, observando os detalhes — que cuidado com os detalhes... — e então virou-se, olhando na direção do salão, mas o tecido fino do robe já havia desaparecido. Esperou estar certa de que a tinta no papel havia secado; enrolou-o e guardou-o consigo.
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