Piltover's Finest
27 Capítulo 25 - Dinheiro Fácil
Notas iniciais

–Uuuuuaaaahhh!!!...
Espreguiçara-se com vontade enquanto bocejava, acordando cedo para o início de outro dia no mar. Virou-se na cama e ficou a fitar o teto de madeira por algum tempo. Saco, estava começando a ficar entediante aquela demora em retornar para Caitlyn... Tinha até começado a ficar ligeiramente entretida com a rotina do navio, tão diferente do que estava acostumada a ver até então... Mas também não passava disso: rotina. Todo dia o mesmo dia; amarrar cordas, desamarrar cordas, subir velas, baixar velas, água, água e mais água por todos os lados... Quanto tempo até ver de novo Piltover?
Levantou-se, passando uma mão pelo rosto para afastar o cansaço. Respirou fundo.
– ...Vamos lá.
Vestiu as botas de qualquer jeito, trocara o incômodo espartilho por um cinto largo, destrancou a porta do quarto, subiu as escadas até o deque e...
A luz do sol num dia extremamente claro ofuscou seus olhos recém-despertos, impedindo momentaneamente que ela visse o que acontecia, porém seus ouvidos captaram uma movimentação frenética, agitada, inquieta ao longo de todo o convés. Quando seus olhos finalmente acostumaram-se com a luz...
– RECOLHER A VELA PRINCIPAL!!
– PREPARAR A ÂNCORA!!
– PASSE ESSA CORDA AQUI, SEU IDIOTA; RÁPIDO! RÁPIDO!
– Mantenham a velocidade a doze nós, marujos! Duas milhas a estibordo! Alcançaremos o cais em poucos minutos; preparar para atracar!
Ao seguir o olhar da capitã, voltado para o horizonte, Vi pôde então finalmente observar... terra firme!!!
– HAHAAAA!!! — correu para o parapeito direito do navio, parecendo quase que iria saltar na água e começar a nadar desesperadamente até a costa, tamanha a animação que aparentava. A capitã observou aquilo do deque superior, enquanto ainda guiava o navio, assumindo o timão.
– Não se anime tanto, lembre-se de que não é a sua cidade ainda! — exclamou lá de cima, transferindo a atenção do porto que se aproximava para a "hóspede" ali na mureta de madeira, e vice-versa — Nós viemos pra cá para abastecer o navio... Voltar pro continente vai ser uma viagem um pouquinho longa. — Vi desencostou-se do parapeito e olhou para a capitã. Pouco depois, estava subindo as escadas para ir até ela.
– Onde estamos?
– Um pequeno conjunto de ilhas, nos mares ao sul de Ionia. Às vezes as marinhas das cidades-Estado passam por aqui caso necessitem muito de algo, mas isso é bem raro, então provavelmente estaremos a salvo. Em geral, é uma terra-de-ninguém: apostas, marinheiros, fugitivos, comércio clandestino, tavernas, bebidas; tudo o que a vida tem de melhor... Enfim, um lugar para se negociar.
– Sei... Belo negócio.
– Humpf, falando desse jeito até parece que você nunca teve nada a ver com isso...
– Justamente! Eu falo desse jeito porque eu já tive a ver com isso!... Tão agradável quanto pingar vinagre nos olhos.
– Ah! Ora, vamos, Vi, não minta! No fundo, você sente falta de tudo isso.
A enforcer deu de ombros, ignorando aquele comentário, e estava saindo quando a capitã novamente chamou-a.
– Vi, volte aqui! — teve então que fazer uma pausa enquanto manobrava a embarcação para que preparasse sua entrada no porto — Eu vou descer junto à tripulação para buscar algumas coisas e quero que me acompanhe.
– Qual a necessidade disso?
– Senhor, que mau humor logo cedo!
– Só estou perguntando, majestade! — o navio começou a tomar seu lugar em uma das docas.
– Nós estamos no mar faz dias; pra mim e para a tripulação é normal, mas você não. Só achei que seria minimamente bom esticar as pernas fora dessa "bacia". — com um pequena tremor quando a pesada âncora fora lançada ao mar e começara a ser arrastada, o navio parou. A capitã largou o timão e virou-se para ela — E então?
– ...Tá, tava precisando mesmo ver um pouco de terra...
– Ótimo. Então nós estamos indo.
Descendo a rampa do navio já era possível perceber o clima eletrizado e caótico da ilha comandada por mercadores de todos os tipo, em que a única lei era a esperteza e o único governante, o dinheiro. Gritos, risadas exageradas, brigas, barulho de coisas sendo carregadas e descarregadas a todo momento nos navios, uma algazarra interminável naquela gigante ilha-mercado que borbulhava ambição... Um pouco divertida com aquilo, Vi respirou fundo, inflando o peito.
– Hah, lembrando de casa, Vi?
– Tá brincando? Pelo menos na fronteira entre Zaun e Piltover a gente falava baixo...
Começaram a caminhar pelo não tão extenso espaço da ilha. Outras pessoas da tripulação já estavam encarregadas de adquirir a maioria das coisas de que precisariam, mas o pequeno grupo que seguia com MF ainda assim sondava os mercadores para ver se conseguiam mais disso ou daquilo num preço mais... amigável. E era notável a capacidade de persuasão quando a capitã cismava que queria algo...
– COMO ASSIM ele te vendeu ESSE colar por ESSE PREÇO?!!!!
– Ora... Era óbvio que essa pedra linda de rubi ficaria simplesmente perfeita adornando o belo colo exposto de uma bela mulher jovem e vistosa... Só precisei mostrar ao vendedor como ficaria bonita... — e ela ria, sem medo ou preocupação nenhuma — E você, maruja? Não vai levar nada de lembrança?
– Nah, essas coisas só pra se ter não chamam muito a minha atenção...
– "Só pra se ter"? ...Discorra.
– Bom... Antes, se eu botasse os olhos numa pedra dessas... Cortada com cuidado, lapidação em pera, polida; um rubi rosa de uns 200... 250 quilates, translúcido... Haha, você podia ter CERTEZA de que eu não ia pregar os olhos até que tivesse ele! Sabe do que me chamavam? "Quebra-cofres". — sorriu aquele sorrisinho torto e todo matreiro, fazendo a capitã sorrir também, entretida com a história. Aliás, eis aí algo que ela não esperava: Vi, uma ladra de categoria. Parecia saber avaliar joias de um modo que nem ela mesmo imaginava. Vi continuou — Sério, eu movia montanhas quase que literalmente, só pra colocar as mãos numa pedra como essa... — tocou o belo pingente que adornava o colo de Sarah, e então tomou-o por um momento nas mãos — ...mas depois eu só vendia. Não era por elas, sabe, nunca foi... Eu amava era a adrenalina ao fazer aquilo! Calcular o golpe, montar o plano, botar os caras da gangue no lugar que eu mandava, aquela puta expectativa pra pegar o momento certo... E aí POW! Adrenalina e porrada pra todo lado, tudo muito rápido; apagar os guardas, encontrar o lugar secreto e FODER COMPLETAMENTE a parede do cofre!!!!... E então ela estava lá... Perfeita... Esperando...
– ...Hahahahaha, uau!!!! Tá aí uma ousadia em bater de frente com o perigo que eu invejo...
– Hah! Nada supera esse sentimento do sangue pulsando mais rápido, fervendo! O coração batendo mais forte, o perigo de ser pego!... Mas... Hoje já passou. Muitas coisas mudaram... Esse rubi foda aí é só uma pedra bonita no seu pescoço; sem ofensa.
– Entendo o seu ponto, mas ainda não consigo deixar de pensar que você largou uma vida repleta de liberdade e aventura pra sumir no mundo e aparecer depois em Ionia... Sério, você poderia ser a "menina de ouro" do nosso grupo; as inscrições estão abertas!
Vi tomou aquilo no início como um elogio, rindo, porém logo percebeu, no fundo do tom de MF, que aquilo soava também abertamente como um convite, não somente uma brincadeira... Ia fazer alguma declaração, colocando claramente sua recusa, mas então de repente algo sequestrou sua atenção...
– Olha ali aquilo... — seu olhar passara por cima do ombro de Sarah, e ela então dera um passo à frente... Depois de toda uma confusão de torcedores afoitos gritando e esbravejando com as mãos, a encrenqueira de Piltover avistou um espaço que as pessoas deixavam, em círculo, no meio da rua. Dentro dele, dois homens, aparentemente uns marinheiros ou estivadores bombados, com cara de valente, brigavam para a diversão do público. Sarah pouco depois chegou ao lado dela e percebeu o que acontecia.
– ...É uma dessas rinhas em que as pessoas se reúnem, apostam num lutador e, se ele ganhar, quem venceu a aposta leva o dinheiro.
– Eu sei o que é, só tô assistindo a luta. — ...Sarah percebeu aquele enorme interesse dela na rinha, e então lembrou-se logo do que ela acabara de dizer sobre adrenalina, e de como a vira acabar com uma porrada de soldados noxianos de uma vez só...
– ...Tem mais de dois caras em campo.
– É, pelo jeito não é um "X1", é um vale-tudo; quem sobrar leva.
– Acha que consegue derrubar todos eles?
– Pff! — o olhar entediado que Vi lançou para MF, finalmente tirando os olhos daquela luta que a prendia, mostrava sua convicção de uma forma debochada muito interessante... — Tô quase entrando lá. Ia dar um bom dinheiro.
– Então espera que eu vou fazer valer o triplo!... — falando com uma empolgação esperta quase lasciva, a capitã tomou o braço da tripulante e foi à frente do ringue assim que ia começar uma nova partida — Esperem!!! ...Eu quero participar também.
– Senhorita Sarah Fortune, mas que prazer ter uma presença tão agradável aqui!...
– Pode engolir o galanteio ou enfiar onde você quiser, Hatek; eu vim por causa da luta.
– Ora, ora, ora, mas que fascinante... Não sabia que tinha esse apreço por uma "arte" tão... bruta.
– Aah, você sabe... Uma dama possui seus gostos... — o jeito como dissera aquilo, tão confiante, tão ousada, tão obscena, faria com que qualquer um largasse de imediato seu mundo para atender às vontades de Miss Fortune...
– Está bem... Mas o que traz então para o ringue, senhorita Fortune?
Puxou para frente o braço de Vi, fazendo-a aparecer. Empurrou-a com descaso para o meio do campo, recebendo um olhar confuso da mulher de cabelo rosa, mas que com certeza expressava o desejo de dar um soco na cara dela...
– Uma escrava minha que arrumei numas andanças por aí... Não me serve.
– OOOOOWW, ow, ow, ow, espere... Nós nunca aceitamos mulheres nessas lutas; veja o nível de selvageria, senhorita Fortune!
– BAH! Pff!!! Me poupe, Hatek; desde quando você começou a se preocupar mais com escravos do que com dinheiro? — exclamou num tom entediado perfeitamente interpretado. O homem ouvira aquilo... e então deu de ombros.
– Bom, está bem... Já que é assim, vamos lá.
Pouco antes dos outros lutadores se colocarem a postos, Sarah puxou novamente o braço de Vi e sussurrou, firme, em seu ouvido:
– Perca a primeira rodada.
– O que?!?!?!?!
A capitã se afastou mais uma vez, deixando Vi na área do ringue; a enforcer virando de costas pra poder falar com ela já que não tava entendendo porra nenhuma do que ela queria — perder?! Tava louca?!?!! — , contudo logo soou algo como um sino e então os brutamontes começaram a andar de volta pro ringue. A enforcer virou-se.
– VAI, VI! DESCE O CACETE NELES!!!
Espera; "desce o..." ... O QUE QUE ELA QUERIA?!
– AAAAAAARRRGGHHH!!!
Um dos homens, um peludo barbudo sem camisa, coberto de suor, avançou para cima dela com um soco esmagador. Vi esquivou-se a tempo, mas ainda não tinha pego o ritmo da luta; ficara desatenta devido àquelas ordens estranhas de MF.
– HAHAAAAAA!!! É ISSO AÍ, GOLIATH! NEM PRECISA ACERTAR A CARA DELA; ESSA FRANGUINHA VAI TER UM TRECO SÓ DE SUSTO! HAHAHAHAHAHAHA!!!!
– Franguinha?! – a mulher do cabelo rosa ficou FURIOSA — AaaaaAAAAHH... HÁÁÁ!!!! — voltou para o meio da luta, mais preparada do que NUNCA pra dar uma na cara daqueles merdas!...
Num gingado profissional de pugilista, esquivou-se dos primeiros socos que um outro cara tentava lhe dar e então acertou em cheio um jab na fuça daquele lazarento, um gancho de esquerda perfeitamente encaixado no queixo do ordinário e, levando-o ao chão, pisou na barriga do homem assegurando-se de não permiti-lo voltar à luta. A cara de decepção e desespero dos que apostavam nele foi no mínimo hilária.
– NÃO; VI!... VI, ME ESCU...
Foda-se, não tinha tempo praquilo! Um outro cara veio logo atrás dela com um banco de madeira enorme pra descer o sarrafo, porém antes da madeira chocar-se com força e nocauteá-la, Vi percebeu o ataque "sorrateiro" e virou-se a tempo de segurar o banco no ar antes que a acertasse. Segurando cada um numa ponta do móvel e fazendo força contra o outro para ver quem ficaria com ele, os dois ficaram alguns segundos disputando ali, a guarda aberta, vulneráveis a qualquer golpe. A lutadora percebeu isso e não perdeu tempo: largou uma das mãos do banco, aparentemente dando vantagem na disputa para seu adversário, mas então ela imediatamente acertou socos tão fortes no estômago do homem que este fora obrigado a largar o móvel e deixar para ela o banco. "Perfeito, seu bosta!" Levantou imperiosamente a enorme peça de madeira pra acabar com ela na cabeça do cara, quando ouviu MF desesperada às suas costas. Virou-se.
– Perca. Essa. Rodada!!!!– insistia num desespero furioso, cerrando os dentes com força para falar, enquanto emitia apenas um ruído quase inaudível ao mover os lábios; não era pra ninguém mais ouvir aquilo além de Vi.
A enforcer perguntava-se e perguntava a ela com uma expressão confusa e incrédula. "Que é que você quer de mim?!"
– Vi, Vi, VI, OLHA NA SUA FRENTE!!!!...
Quando a mulher virou-se novamente não teve tempo de assimilar NADA até sentir uma jamanta acertar seu olho, o chão bater extremamente forte contra sua bunda, fazendo uma dor aguda percorrer o quadril e as costas inteiras; o mundo escureceu num instante, girou, e aí tinha alguma coisa vermelha atrapalhando sua visão... Fim de round.
– HAHAAAAA!!!! HAHAHAHAHAHAHAHA! SUA ESCRAVA ESTÁ FORA, SARAH FORTUNE! HAHAHAHAHA...
– Ei, NÃO, espera um pouco! Eu quero ela lutando a próxima de novo; eu aumento a aposta! — encenou um desespero intrínseco tão preocupado que até ela mesma questionou-se se não era real o medo de perder numa aposta. Hatek aceitara a ousadia de que aumentassem o dinheiro posto em jogo; não havia uma pessoa ali que não gostasse de ouvir o som das moedas... Um dos homens de MF fora entregar a aposta para o caixeiro enquanto a capitã corria para ajudar a maruja a se levantar — Ei, ei ei!.. O que você está pensando?! — Vi, com uma mão no olho, levantava-se e se reestruturava.
– Ai! Au!... O que você quer?! Como assim eu tenho que entrar numa luta pra perder?!!– tirou a mão do olho e observou-a.
– ...Merda! Seu olho tá sangrando!
– Deve ter só rompido o supercílio, relaxa. Agora me explica logo.
– Tá. — removia o lenço que levava na cintura, dobrava-o e amarrava em torno da cabeça de Vi para impedir que o sangramento obstruísse sua visão, enquanto falava — É idiota de simples, só acredite em mim: a gente perde e vai aumentando as apostas, fazendo os caras aumentarem também; ninguém por aqui vai apostar em você além de mim. Quando a grana estiver gorda, você ganha e a gente leva a bolada toda! Mas, pra isso, você tem que tentar ficar viva, né? — terminou de fechar ali rapidamente o ferimento. A luta já estava começando — Vai lá e perde de novo, só confia em mim... — voltou para seu lugar fora do ringue — E tenta não se machucar demais! — gritou ao longe.
Tá. Então perder era o esquema. Mesmo que não gostasse daquilo, tava ali um motivo interessante o suficiente pra fazer ela topar a bucha. Segundo round. Começavam os socos, pontapés e tapas. Vi até fazia um esforço beeeem básico pra parecer que estava tentando... Uns minutos depois, tomou um soco de lado no tronco e dois na barriga. Podia ter continuado tranquilamente, mas caiu ali no chão e se encolheu, gemendo como se estivesse realmente sucumbindo à dor. Fim do segundo round.
– Acho que você tem um fascínio interessante por luta de rua, Sarah, mas definitivamente é uma apostadora iniciante nesta área... Volte pros seus jogos de cartas, MF, antes que comece a dever pros rapazes mais do que conseguiria pagar... — com um riso de escárnio desprezível que os marujos ao redor acompanharam, Hatek arrumou os ricos panos da roupa bufante, virou-se para o caixeiro de apostas e tomou sua gorda parte do prêmio, enquanto a senhorita Fortune não recebera nada.
– Espere! — todos os abastados apostadores olharam para ela. Sarah tomou as sacolas de moedas que seus homens carregavam, cada último centavo, então começou a abrir a blusa pela parte de cima...
– HO-HOO; ei, nós ainda não aceitamos ESSE tipo de aposta, Sarah...
– Cala a boca, seu rato leproso! — abriu somente o suficiente para mostrar o opulento colar de rubi. Arrancou-o e colocou junto a todo o seu dinheiro, tudo que trouxera ali consigo — Eu pago pra ela estar no último round; vou pro tudo-ou-nada. — falou com uma resolução realmente impressionante.
– Sarah... — o homem falou com uma amabilidade tão falsa que enjoava — Veja o estado da sua garota... Pelos deuses; ela vai ter uma síncope só de ficar em pé de novo...
– Eu tenho bastante certeza de que ela aguenta.
– Você está apostando tudo o que tem numa bolha de sabão que vai desmanchar logo, Sarinha... É a primeira vez que você aposta aqui; não vai querer perder tudo de uma vez numa briga tosca de rua...
"NÃO ME CHAMA de 'Sarinha'!!!"
– Eu digo o que eu vou fazer ou não com o meu dinheiro, Hatek. eu acredito que tenho uma mão muito boa pra lidar com apostas E para escolher os membros da minha tripulação; quem sabe não consigo me sair bem também nessa? Afinal, você sabe o que dizem, não é?... — abrira um sorriso lascivo e mortal como uma súcubo, como se fosse capaz de sugar para si toda a vitalidade de cada um presente ali... — "Tubarões já nascem nadando"... — Vi observava aquilo, como ela ia conduzindo sutilmente a situação, fingindo-se vulnerável, indefesa, até que de repente se virava, crescia e engolia a TODOS, como uma tempestade em alto-mar... Haha, capitã... Aquilo era simplesmente foda. Sarah deixara um tom instigante de mistério no ar quando fez silêncio após sua fala. O que aquela mulher tinha na manga?; todos se perguntavam... Andou até o caixeiro e depositou tudo o que trouxera em cima da mesa, e então retornou ao seu lugar. Discretamente, Vi acercou-se dela e perguntou, sussurrando, sem sequer virar a cabeça.
– E agora, qual é a ordem, "mestra"? — a lutadora analisava o campo e os outros dois competidores que restaram com uma frieza calculadora exata.
– ...Desce o cacete neles. — respondeu com total firmeza e sem mover um músculo do rosto para expressar nada. No rosto de Vi, gradualmente, foi crescendo um deliciado sorriso torto, animadíssimo com as novas ordens...
– Tá pra mim.
O caixeiro batia freneticamente numa peça oca de metal que produzia um tinido muito alto. Terceiro round. Sobraram apenas ela e mais dois, um deles aquele golem humano asqueroso, o lutador de Hatek. Goliath, se não se enganava... Os três estavam lá, no ringue, prontos para a luta... No entanto, ninguém se movia.
O terceiro cara com eles olhava de um lado para o outro: do golem pra gostosa de cabelo rosa, da gostosa pro golem... Sabia que tinha que começar atacando se não quisesse virar o joão-bobo daquele gigante musculoso e mal encarado, mas por onde começar? Decidiu finalmente: aproveitaria enquanto ainda dispunha de todo seu fôlego e força para acabar primeiro com o homem, sua maior ameaça. Se conseguisse derrubar ele, por mais que saísse ferido, a escrava ali seria alvo fácil depois. Quem sabe até... Huhuhum! Numa proposta muito "benevolente", pudesse abster-se de deformar aquele corpinho quente e então reivindicaria-a para si como "proposta de paz" com Sarah Fortune... Lambeu os lábios discretamente, abrindo um sorriso maldoso. Ele ia ganhar.
– AAAAAAAARRRRGGHHHH!!!
Precipitou-se a correr loucamente contra a muralha de Hatek! O homem era muito menor que a magnitude catastrófica de Goliath, mas tinha movimentos muito rápidos, golpeando-o e mudando de posição antes que o gigante pudesse pegá-lo. Batera de frente, esquivara-se de um soco, chutara-lhe as costas, mas já estava do outro lado antes que ele pudesse se virar; várias pequenas incursões que, contra uma pessoa comum, seriam perigosas, mas contra Goliath, eram apenas estocadas que incomodavam... MUITO.
Vi tentara achar uma brecha naquela luta; precisava aproveitar quando estivessem desatentos pra chegar e arrasar com aqueles bostas. Ensaiou juntar os punhos, como num movimento de vôlei, pular por trás do golem e ENFIAR a porra dos punhos em sua cabeça até o cérebro dele, mas então depois teria que enfrentar exatamente o mesmo tipo de problema com o cara menor que experimentara em Piltover lutando contra Novak naquele dia fatídico...
...por um instante, a memória daquele dia voltou à sua mente.
...Perdera a respiração.
...Havia esquecido? Tinha deixado mesmo de lado a memória de tudo que passara em Piltover neste pouco tempo em que esteve fora?
...Sentiu um aperto, um tanto decepcionada consigo mesma, em seu coração...
...Mas era hora de lutar.
– UuuuaaaAAAARRGHHHHH!!!!
Percebendo a oportunidade quando Goliath finalmente agarrou de jeito o cara pequeno, Vi avançou como o trator que era, mesmo sem suas luvas, e desferiu um soco titânico na cabeça do rapaz, fazendo até com que se desprendesse das mãos do imperioso homem e voasse longe, caindo completamente atordoado no chão; contagem de idiotas em pé: menos um. Aquilo lhe daria tempo e tranquilidade pra se focar no bonzão ali. Agora o negócio era entre ela e ele...
Goliath girou o corpo, pegando impulso para um soco mortal, porém sua "grandeza" o fazia ser bem lerdo, a enforcer observou. Conseguiu fugir do soco, porém logo percebeu o pé do homem que avançava, rápido e implacável como um trem de carga furioso em sua direção. Sem tempo de esquivar, a mulher fechou os braços em frente ao corpo, conseguindo bloquear o golpe, porém sentindo o corpo ser ligeiramente arrastado para trás.
Levantou a cabeça, olhando-o nos olhos com displicência. Sorriu.
– ...Minha vez.
Cravou as mãos naquele pé cascudo nojento do homem e empurrou-o pra trás com violência, fazendo com que o gigante se desequilibrasse e caísse no chão com força, tanto que o barulho ecoado quando a cabeça do sujeito bateu contra o solo fez a plateia ao redor recuar, soltando um dolorido "Uuuh!!..." em uníssono.
Sem pensar duas vezes, piltoveriana pulou em cima do cara, travando-o no chão com os joelhos; segurou novamente a cabeça dele com uma só mão e esmurrou-a contra o chão uma, duas, três, quatro vezes, até ouvir um "CREC!" de alguma coisa, então sentou a mão no meio da cara daquele desgraçado, torcendo o nariz dele para o lado e fazendo-o sangrar. O homem rapidamente conseguiu soltar uma das mãos que ela prendia e meteu-lhe um puta de um tapa, de baixo pra cima, acertando o queixo da garota um pouco de lado e acabando por fazê-la morder com força uma ponta do lábio, um pouco deslocado do centro, devido ao impacto repentino da carne contra os dentes. Vi logo segurou mais uma vez o braço do cara, apertando os dedos e cravando as unhas curtas nele com ódio, enquanto ainda olhava para o outro lado. Virou o rosto novamente para ele, e havia uma fúria gélida e silenciosa no olhar da mulher. Ergueu o punho e baixou-o como um meteoro contra a cara daquele imbecil; cuspiu um pequeno bocado de sangue para o lado e então limpou o canto da boca — de onde pendia um fio de sangue — com a costa da mão. Segurou o pescoço dele e aproximou-se, ainda focando seu olhar dominador nos olhos do homem.
– Quando eu te colocar no chão, FIQUE no chão. — puxando-o pelo pescoço, levantou e bateu a cabeça dele novamente contra o solo com força.
...É. Tinha sido uma luta daora. Um pouco curta, talvez, uma pena. Vi preparava-se para levantar, quando então o homem, esperando o momento certo, finalmente decidiu reagir.
– HHIIIIAAAAAAAAAARRRRRGGGGGHHHHH!!!!!
Aproveitando o exato momento em que Vi ia levantar-se, o gigante forçou seu corpo para cima, segurando a perna dela e obrigando-a a ir ao chão; invertia-se a posição em que encontravam-se até então, e agora o peso esmagador do homem em cima dela impedia-a completamente de sair dali. Ele segurou-a pelo pescoço, afundando os dedos na carne como ela fizera, e já erguia o punho no céu, assim como ela...
O outro, que tinha sido jogado longe, atordoado, já havia vencido em parte a luta contra a terrível dor de cabeça que viera quando aquele impacto brutal atingiu sua cabeça e lançou-o a voar, até que comesse a terra suja acumulada porcamente na sarjeta. Já havia se levantado, cambaleante e com a visão ainda inteiramente distorcida, girando em borrões, devido à tontura. O rapaz segurou a cabeça com uma das mãos, tentando aplacar a dor latejante, e, com a outra, tateava a roupa em busca de... Ah!!... Sorriu com uma malícia diabólica. Ela estava ali... Ao ver aquele rinoceronte sentado sobre o corpo da futura defunta, e com o cataclísmico punho erguido no ar, a atenção focada em outra coisa e a guarda aberta, o trapaceiro maldito não pensou duas vezes: tirou-a do bolso, ela, uma faca retrátil velha e um tanto desgastada pelo uso, antiga companheira infame de malfadadas brigas de bar... Sacou a faca e pôs-se a correr em direção ao outro homem. Era hora de acabar com a fama de Goliath.
O lutador de Hatek, segurando Vi absolutamente incapaz de fugir, desferiu um soco verdadeiramente pesado, para detonar a cara daquela louca que tivera a ousadia de enterrar sua cabeça no chão e cantar vitória, mas a encrenqueira estava realmente disposta a ganhar aquela coisa, muito menos pelo dinheiro do que pela oportunidade de mostrar que era mais forte que aquele bando de vagabundos juntos, e que era ela que mandava ali. Interceptou o soco do idiota no ar, segurando o punho com uma das mãos enquanto usava a outra para afrouxar um pouco o espaço entre os dedos dele e seu pescoço. Estavam disputando força bruta, força pura, ali, frente a frente no chão, os músculos todos tensos, veias grossas e quentes pulsando, o suor começando a escorrer da face de ambos, e a plateia ao redor, ao ver aquilo, começava a se exaltar, animada com a tensão da cena, e ia à loucura! ...Sarah, ansiosamente, do lugar que estava, vira também aquilo — a força titânica da mulher de cabelo rosa, deitada, suando... — e... ...Hum... ...sentiu um pouco de calor. "Huhuhum!..." De repente, no entanto, todos viram surgir correndo no ringue o lutador inconformado com a derrota, que voltava com ira no olhar.
– FACAAAA!!! — Sarah gritou ao perceber que ele corria em direção aos dois que lutavam; trapaceiro filho de uma...
O alerta deu tempo suficiente para que Goliath se levantasse e bloqueasse o primeiro golpe ensandecido que o homem dera e que atingiria sua nuca, porém ainda assim seu braço fora ferido ao desviar a faca da direção de seu corpo. Ele já tinha automaticamente perdido a disputa; era permitido que usassem o que quer que encontrassem ali: bancos, vasos, canos de ferro, mas desde que o golpe fosse contundente. Os participantes podiam ser feridos, mas não mortos.
O perdedor, entretanto, já nem se importava mais com isso, e continuara então a atacar seu adversário a torto e a direito, com o único intuito de ferir para matar.
– ...Ora, mas vá à merda! — Vi comentou consigo ao ver aquilo e precipitou-se para onde os dois estavam, agarrou o trapaceiro pelas costas num mata-leão poderoso; entretanto, a situação estava complicada, tendo que tomar cuidado o tempo todo com a faca que o cara tentava acertar nela, mexendo os braços de forma desvairada.
Goliath viu o abutre carniceiro preso e não perdeu tempo: deu um belo de um soco no estômago do cara, que Vi, prendendo-o por trás, aguentara firme. Outro soco. E outro. E mais um. E...
– OOOOOW, OW, OW, OW! Peraí, parça! Tá machucando aqui; meça seus socos! — a enforcer disse depois de segurar quatro porradas pesadas que já teriam levado o cara ao chão se ela não o estivesse amparando, imobilizado. Devia doer um bocado no rapaz e ele bem merecia, mas ela tava tomando porrada por tabela; não valia.
– Solta esse desgraçado então! — o gigante ralhou em sou voz rouca.
Vi largou o corpo e imediatamente o perdedor tombou no chão, prostrado sobre sua dor. Os dois gigantes se entreolharam: era hora de terminar a luta entre eles. Quando Vi ia preparar-se pra voltar à luta, o homem caído levantou-se furiosamente, brandindo a faca contra Goliath, mas ente então, cansado daquilo, simplesmente meteu a mão com força na dobra do cotovelo do cara e, com a outra, empurrou a mão da faca direto de volta no olho do próprio rapaz, violentamente.
TZZ-SPLAT!!!!...
...
...Num único segundo surpreso de horror, todos viram a lâmina nas mãos do próprio homem ser cravada em seu olho. O sangue jorrava... Goliath largara o corpo friamente no chão; não suportava trapaceiros. ...O corpo imediatamente fora removido do ringue enquanto a plateia, muito incomunmente, ainda estava em silêncio.
– Que a luta continue! — exclamou o caixeiro em sua voz anasalada, batendo de novo na peça de metal que tinia indicando que haveria luta.
O gigante de Hatek olhara para Vi, e ela não esperava nada, mas tinha visto o que acabara de acontecer e, ao perceber que o outro titã ia mover-se em direção a ela, teve uma ideia. Goliath rosnou, e então bradou, em fúria, enquanto corria em direção à mulher. Quando ele se aproximara, pronto para dar um único soco fatal, ela rapidamente pulou para o lado, deixando o golpe passar, e, quando ele estendeu o braço, ela tomou-o, puxou-o para trás das costas dele, numa torcida rápida e brutal num ângulo extremamente forçado; apoiou o cotovelo no dele e...
CRAAAAAAK!
– AAAAAAAAAHHHHHHRRRRR!!!! — o homem gritou, obrigado a cair ajoelhado no chão... O braço quebrado, impossibilitado de continuar lutando.
O som do metal vindo do caixeiro anunciou o fim da disputa.
– Fim das batalhas, fim das apostas, temos um campeão!
Incrédula, a plateia ao redor delirava em gritos de ódio por ter perdido a aposta, gritos de animação ao presenciar tremendo show; riam, gritavam, pulavam!!! Sarah Fortune, a única praticamente que apostara naquele "azarão", a "escrava" que começara perdendo miseravelmente, retirava agora com um riso completamente extasiado o gordo prêmio que ganhara ali, tendo que obter ajuda dos marujos que a acompanhavam para poder levar tudo. Vi levantou-se, olhando ao redor e começando a gostar dos gritos esfuziantes de vitória que a aclamavam, ela, a grande vencedora, o esquadrão de demolição!!!
– ÉÉÉÉÉÉ!!! — levantou o punho no ar, gritando a plenos pulmões pra galera que ia à loucura vendo aquela mulher fantástica que lutava como um touro! Ao olhar pra trás, viu Miss Fortune chegando correndo a ela, com gordos sacos de dinheiro nos braços; lançou-se em direção à cúmplice numa acrobacia meio destrambelhada, deixando cair um bocado do dinheiro sem se importar, mas abraçando a lutadora com força enquanto riam, vitoriosas! ...A piltoveriana soltou um de seus braços de MF e, novamente, socou o ar e bradou para a plateia. Se sentia ótima!
– Haha!!... Vem, vamos comemorar isso aqui! — Sarah disse, logo mais puxando-a consigo e sendo acompanhada por Vi.
Deixaram a maior parte do dinheiro no navio, mas pegaram um bauzinho cheio de moedas douradas e seguiram, ainda em êxtase, para a taverna mais próxima. Naquela noite elas iam beber como rainhas!! Haha!
Depois de uns bons goles e da mistura com aquela animação aparentemente inextinguível por terem levado a GRANDE bolada, talvez a melhor das melhores jogadas astutas que aquele bando de gente estranha já tivesse presenciado em suas vidas, a capitã abria o baú, pegava um monte de moedas de ouro com as duas mãos e deixava-as escorrer por entre os dedos como se fosse água da fonte da felicidade! Vi assistia àquilo, entornava o copo e ria dela, fascinada com mais aquele tesouro.
– Hahaaaaa!!! Você viu só?! Não é só pela força bruta que se conseguem as coisas, docinho; tem que ter a manha! Hahahahaha!
– Ah sim, claro que você teria ganho se tivesse mandado qualquer outra pessoa pra lutar lá; é; aham... — Vi dizia irônica, porém divertida, inclinando e bebendo mais um gole do copo de rum puro.
– "Blééé, blébléblé", reclamona... — jogou uma moeda dourada contra ela sem força, brincando porém acertando-a — Mas sim, com certeza você foi... inacreditável lá. Sabe que teve uma hora que eu cheguei a ficar preocupada, quando ele te segurou no chão e estava te enforcando...
– PFFFFFF!!!! — Vi interrompeu, displicente, pegando a moeda que a capitã jogara e que caíra em seu colo — Você achou mesmo que eu ia perder daquele jeito?! Olha o que eu já fiz na vida, cara! Hah! — levantou a moeda dourada na altura dos olhos, virando-a e observando seu brilho contra a luz, e então completou, jocosa — Como é que dizem mesmo?... Ah, sim! "Tubarões já nascem nadando"... — riu, atirou a moeda de volta em Sarah e terminou de beber o que tinha no copo; realmente... foda! Hahahahaha!!! Colocou o copo no balcão — Poxa... Mais um que secou. Que pena...
– Ora, pois bem, hoje é seu dia de sorte! Você acaba de ser agraciada por "Santa Fortune", a bondosa deusa da bebida, jogatina e engambelação dos oceanos! E ela vai fazer fluir rum em nossos copos como flui água nos mares! — Sarah, ligeiramente ébria, disse numa voz angelicalmente teatral, abrindo os braços na caricatura de uma aparição divina. riu e meteu a mão no baú cheio e tirou um punhado de moedas de ouro, bateu-as contra o balcão com força e chamou o taverneiro — Amigo, encha do seu melhor rum o copo de todo mundo aqui porque hoje é dia de festejar!!!
Ouvindo aquilo, o bar inteiro vibrou de alegria, saudando aquela beldade divinal que enchia, do seu próprio bolso, o copo de toda aquela cambada de cachorros do mar! Hahaaa!! Sarah Fortune nem ligava muito pra isso, mas já tinha conseguido um bom montante de fãs por ali.
A capitã sentou-se novamente, ainda rindo, e deparou-se com a expressão de leve incredulidade com que Vi observava aquilo, também animada, também rindo.
– Hah! Você parece que não tem limite...
– Não mesmo. Por que? A gente não sabe mesmo o quanto vai durar a bonança; única certeza que qualquer um tem é a morte... Então eu tento aproveitar ao máximo quando surgem esses momentos. — o taverneiro encheu os copos das duas.
– Gosto disso. Justo. — levantaram os copos em direção uma à outra, num brinde silencioso, e então beberam. De repente, um grupo de homens irrompe através das velhas e quase derrubadas portas da taverna.
– IMPOSTORA! — Hatek surgiu do meio deles, exclamando e apontando o dedo na cara de Sarah.
– OW, CRETINO; PRESTA ATENÇÃO NÃO SE APROXIME DEL... — Vi levantou, colocando-se na frente daquele idiota antes que ele de fato encostasse o dedo em Sarah, peitando-o sem medo.
– Vai ficar aí acobertando sua vadiazinha, é? Como ela te paga? TE CHUPANDO? — contornou Vi e olhou para Sarah — ESCRAVA O MEU RABO! VOCÊ E ESSA SUA CACHORRA DE ALUGUEL ARMARAM PRA LEVAR A APOSTA, SUAS ORDINÁRIAS!
– OLHA COMO VOCÊ FALA COMIGO, SEU TRASTE! — Sarah levantou-se, furiosa com aquilo — EU APOSTEI E GANHEI, MINHA LUTADORA FOI MELHOR QUE O SEU; PERCA AO MENOS COM ALGUMA DIGNIDADE! — nesse momento, a atenção de todos no bar já estava voltada para aquele ponto e eles não estavam nada contentes; o cara tava gritando com a dona da bebida...
– VOCÊ VAI PAGAR POR ISSO, SARAH FORT...
O homem, exaltado, tinha se precipitado para cima da capitã para tirar o baú de suas mãos, mas Vi interferiu novamente, agora com mais ímpeto, um ultimato para que ele fosse embora e as deixasse em paz, empurrando-o com violência para trás.
– É melhor você deixar as coisas como estão e dar o fora daqui...
– Quem é você pra me impedir?! — ele a empurrou com força de volta, deixando-a perplexa.
– Aaah, você não quer mesmo saber quem eu sou... — empurrou-o com mais força ainda; os homens que o acompanhavam o ampararam rapidamente antes que caísse.
– ...NÃO VENHA BANCAR A VALENTONA PRA CIMA DE MIM NÃO, SUA RASPA DE BOSTA! — quando o homem empurrou-a novamente, já praticamente começando a brigar, numa mesa ao canto um dos homens de Sarah, esperto com o que acontecia no bar, pegou uma garrafa, quebrou na cabeça do próprio amigo ao lado, virou a mesa, puxou-o pela roupa e atirou-o no chão, gritando. Pronto; a confusão já estava totalmente instalada no lugar e um grupo de homens que estava mais perto do balcão partiu furiosamente para cima dos guardas de Hatek!
Com o homem sozinho agora à sua frente, Vi aproveitou a distração e deu um puta de um soco na cara dele, jogando-o no meio da confusão, tomou a mão de Sarah e puxou-a para fora do bar.
– Vem!! — a capitã num instante fechou o baú, puxou-o enquanto Vi a puxava e saíram correndo, "escondidas" pela algazarra.
Corriam loucamente através das ruas escuras, já no meio da noite; os homens de Sarah logo dariam um jeito de segui-las de volta ao navio. Dificilmente desvencilhando-se da bagunça na taverna, Hatek ordenou, nervoso, a seus marujos.
– VÃO!!! PEGUEM-NAS; NÃO DEIXEM FUGIR!!!!
Um a um eles iam se livrando da baderna no bar e saindo noite a dentro, seguindo o rastro das duas fugitivas. Sarah seguia Vi enquanto esta a puxava num ritmo acelerado pelas ruas, mas cada vez mais parecia que elas travavam antes de conseguir seguir, e os marujos começavam a se aproximar. Num ponto, vi finalmente empacou.
– Ok, eu confesso: não faço ideia pra que lado tá o cais!
– E só agora você fala?! Vem comigo! — sem parar de correr, a ordem se inverteu e Sarah passou à frente, puxando Vi rumo à saída daquele labirinto de ruas mal iluminadas.
– LÁ ESTÃO ELAS! — ouviram ao fundo.
As mulheres continuaram a correr, mas, vendo uma pilha de caixas grandes, Vi empurrou uma da base, fazendo com que todas se estripassem no chão, aumentando um pouco a distância entre eles e elas. Faltava pouco para que chegassem ao navio, e a capitã já sabia que ele estaria pronto para zarpar, mas os homens ainda as seguiam, e atrapalhariam a fuga dos marujos de Fortune.
Sarah sacou uma de suas pistolas, mas atirou para cima.
– QUE QUE VOCÊ TÁ FAZENDO; PODIA PELO MENOS TER MIRADO NELES!
Um som rápido de roldanas girando tresloucadamente e então PAAAF! Um carregamento enorme que estava suspenso para ser embarcado caiu sobre quase todos os homens que as seguiam, sobrando bem poucos.
– ...Ok. — Vi pronuncio num tom de "Tá, não contesto mais."
Quando os homens de Sarah surgiram, havia apenas dois ou três caras pra derrotar, e então imediatamente seguiram numa corrida desenfreada para o navio, embarcando como um raio, a embarcação já zarpando dali rapidamente no meio da noite.
– *Arf! Arf! Arf! Arf!*
– *Arf! Arf! Arf!*
A enforcer apoiou as mãos nos joelhos e arfava, cansada pela corrida. A capitã largou o baú no chão, guardou a arma e repousou as costas no parapeito do navio, também ofegante da fuga...
– Hehe... HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!... — do nada, Vi riu baixo, ainda recuperando o fôlego, mas então logo depois começou a gargalhar, MUITO mais contente até do que ficara ao vencer a luta e sentir o calor da plateia a venerá-la. Sarah começara então a rir também, realmente gargalhar de doer o abdômen. Do que riam? Da ousadia, da malandragem, da graça de tudo aquilo!... Da adrenalina. Riram de toda aquela situação absurda e perigosamente boba, e então calmamente foram se recompondo, água brotando levemente dos olhos de tanto rir.
~¨~
Sarah riscou em vermelho mais uma parte de seu enorme mapa que ficava sempre estendido sobre a mesa de centro de sua cabine.
– É... Acho bom evitarmos passar por aqui por algum tempo... — largou o mapa da mesa e retornou à cadeira estofada à frente dele, onde Vi estava. Tomara um lenço e um frasco nas mãos, embebera o lenço com o conteúdo do frasco, de uma intensidade aromática reconfortante, e fora até a moça do cabelo rosa, que segurava contra o olho inchado um saco de gelo. A mulher viu mais um pedaço de terra, a ilha de onde acabaram de fugir, receber um grande "X" vermelho, como os que já se estendiam por uma boa parte do mapa.
– O mundo está ficando pequeno para Sarah Fortune... — comentou, afastando o saco de gelo do olho enquanto a outra passava levemente o lenço com aquela substância no local do inchaço, um cuidado intenso — ...Ai!
– Desculpa, estou tentando ser o mais delicada que eu posso, mas aqui ficou bem ruim... — Sarah passava o lenço muito levemente pelo rosto da menina de Piltover que estava com ela.
– Se você tivesse dito logo o que queria, eu não tinha tomado essa na cara.
– Eu falei pra você tentar não se matar...
Vi soltou um breve riso satisfeito.
– Humpf... Valeu a pena... Fazia tempo que eu não sentia isso, passar por esse sufoco, mas um sufoco divertido, haha!
– Olha, se você acha isso divertido, então bem-vinda ao parque de diversões... — a capitã comentava aquilo como brincadeira, mas havia uma nota clara de cansaço, cansaço de espírito, ao fundo. Começou a limpar o pequeno corte no supercílio, para então fazer um curativo bem simples.
– ...Fugindo o tempo todo? — Vi inquiriu.
– Mais ou menos isso...
– É a vida...
– Sim... — suspirou brevemente — Sabe, a liberdade também cobra uma porção de preços... — pegou um pedaço de pano limpo e seco e prendeu-o no local da ferida com esparadrapo — Ainda assim, eu não trocaria ela por quase nada nesse mundo...
– Nem os tesouros?
Sarah olhou para ela, os olhos semicerrados.
– ...Que língua afiada... — protestou calmamente — Não mesmo; é meu dinheiro que trabalha pra mim, não o contrário.
– Mas então, quando você diz "quase nada"...
– Existem coisas muito específicas pelas quais vale a pena parar. — interrompeu abruptamente, dando um fim rápido ao assunto... Não queria soar assim tão rude, mas... Preferia mudar de tópico. Trocou o lenço e molhou este novo com um pouco de água fresca, limpa, e ia começar a tratar aquele ferimento dolorido no lábio da moça; esta voltara a pressionar o gelo contra o olho — ...foi uma bela de uma mordida aqui, hein? — tentara voltar a descontrair a conversa.
– Aquele idiota me pegou desprevenida e me deu um tapa do queixo pra cima; acabei fechando os dentes com força na boca e ficou essa coisa escrota aí...
– Huhum... — riu de leve, consigo mesma — ...Eu não me importaria com uma mordida dessas na boca, se ela fosse dada de outro jeito... — deixou o silêncio cair, formando um mistério lascivo, risonho, que era tão engraçado quanto constrangedor... Caralho, Sarah Fortune!... Começando a ficar suficientemente desconfortável com o silêncio, Vi desconversou.
– Pelo menos nós fizemos alguns amigos no bar!
– Haha, desconsidere. Efeitos da bebida.
– Que nem aquela sua animação? Hahaha! — Vi debochava do jeito engraçado com que vira a mulher divertir-se com as moedas de ouro.
– Idiota; pra você, bebida de graça, não mais.
– Aah, não, vá lá! Eu juro que você não vai encontrar uma companhia de bar melhor; sério, se você fizer isso, sua vida vai ser miserável, tô te falando... Aprendi esses negócios de praga lá em Ionia. — praguejava de uma forma cômica; não fazia nem ideia do que faziam com aqueles bagulhos mágicos lá em Ionia... Mas, de repente, Sarah parou de limpar o ferimento. Lentamente, aproximou-se do ferimento nos lábios de Vi, observando-o, e então observando-a...
– ...Obrigada por interferir naquele assunto. No bar. — fez uma pausa muito breve, muito próxima... E então seu lábios fartos, belos, encostaram muito levemente naquele ferimento nos lábios da outra... Imediatamente, contudo, afastou-se, levando uma das mãos sobre a boca, aparentemente desacreditada, talvez arrependida do que acabara de fazer. Vi ficara completamente retraída, observando-a com uma perplexidade atemorizada — ...Desculpe. ...Efeitos da bebida. — a mulher falou num tom fraco, uma desculpa toscamente encaixada.
– ...Eu tenho que ir.
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