Pictures of Us
26 Two Lines || Felicity
Notas iniciais
― Ollie, pensa rápido!
Tommy atirou uma bola de futebol americano que foi girando na direção de Oliver parecia estar em câmera lenta, e o loiro, com seus reflexos rápidos, se preparou para segurar, mas Diggle foi mais rápido, pegando o objeto no ar. A destreza e velocidade do tenente foi surpresa, me fez até largar os amendoins que aplacavam minha fome até a hora do jantar, e eu e Kara começou a aplaudir.
― Ae, tenente, pegador! Poderia ser jogador de futebol, que tal?
― Dá um tempo, Queen! ― Tirou a mão de Oliver que o congratulava de seu ombro. ― E você, Merlyn, dá pra parar de ficar atirando coisas pela delegacia com essas brincadeiras bobas? Consertamos aquela janela semana passada, por causa de vocês dois.
― Por causa da Sara, que estava treinando atirar facas na gente, queria que ficássemos parados?
― Parem de atirar objetos pela delegacia uns nos outros, ponto final! ― decretou, entrando na sala de descanso com uma batida estrondosa, e quase pude sentir a mesa vibrar sob minha mão.
― Dig não tem noção da própria força e vai acabar quebrando uma porta qualquer dia desses.
― Ele parece tenso ― comentei quando Oliver sentou em sua mesa, pois eu ocupava sua cadeira, girando distraidamente esperando que ele terminasse seu turno, já que tinha saído mais cedo do meu expediente.
― Tem estado assim o dia todo, geralmente ele gosta de como somos divertidos e dinâmicos ― explicou.
― Bagunceiros e irresponsáveis, você quer dizer ― Kara comentou, voltando à sua mesa, mas os meninos lhe mostraram a língua.
― Vamo saber a fofoca?
― Melhor não, Tommy… ― Ainda tentei impedi-los, mas tão logo Diggle saiu da sala com uma xícara em mãos, os dois o interceptaram ao passar por suas mesas.
― Vocês não têm nada melhor pra fazer não? Como se as minhas duas crianças pequenas não fossem o bastante, agora tem as crianças grandes da delegacia!
― Nossa, que TPM, hein tenente? ― Tommy rebateu teimoso, sentando na frente em sua mesa, colocando seus pertences em uma mochila já para ir embora.
― O que foi? JJ comeu o cabelo da pequena Sara? Eu não sei como crianças se provocam ― Oliver justificou para mim com um sorriso e eu franzi o nariz, rindo também. ― Podemos ajudar em algo?
― Você magicamente criou em si mesmo o dom do trato com crianças e está com a noite livre para substituir minha babá irresponsável, para que possa comemorar com tranquilidade meu aniversário de casamento?
― Claro ― Oliver respondeu de pronto, saltando para o chão.
― Como é?
― Você precisa de babá, vamos nessa! Eu e Felicity estamos com a noite livre e estou com saudades da minha afilhada e de JJ. ― Me incluiu no trabalho sem nem perguntar. Mas tudo bem por mim, eu amava os gêmeos.
― Não, cara, não entra nessa não ― Tommy o alertou, lhe dando cutucões. ― Aquelas crianças são fofinhas, mas viram dois pequenos demônios quando querem.
― Não exagera, Tommy, podemos dar conta, não é, amor?
― Claro, sem problemas. Também estou com saudade dos gêmeos.
― Tem certeza que não vai dar muito trabalho pra você?
― Não, eu não acho...
― Estou falando com a Felicity, Queen ― rebateu e Oliver fechou a cara emburrado.
― Hey! ― exclamou, se fazendo de ofendido.
― Não entendi a revolta, todo mundo sabe que ela vai ter que ficar responsável pelos três, e não deu certo da última vez que tentamos essa dinâmica.
― Última vez? ― questionei confusa. Eu nunca tinha ficado de babá daquelas fofuras, e eles pareciam bem bonzinhos para mim.
― Deixei os gêmeos e Tommy sozinhos por dois segundos com Caitlin e todo mundo sabe o que aconteceu com seu bolo de casamento.
― Não, todo mundo não sabe! O que aconteceu com meu bolo de casamento? ― elevei a voz alarmada, apertando forte meus dedos no braço de Oliver. Claro que eu sabia que não era o mesmo bolo, mas ainda não sabia como tinha acontecido, até agora. E que o padrinho e a madrinha ainda estavam envolvidos, claro.
― Diggle, seu fofoqueiro! ― o moreno falou revoltado. ― Foi só um acidentezinho, galera, mas ficou tudo bem.
― E já faz muito tempo. Respira fundo, amor, tá me machucando. ― Oliver gemeu de leve, e afrouxei o aperto em seu braço.
― Okay. ― Fiz o que ele pediu e respirei fundo, ou eu mesma começaria a atirar coisas em Tommy. ― E podemos dar conta, Dig, relaxe. Vá aproveitar a noite com sua esposa, nós cuidamos da Sara e do JJ. ― Me olhou descrente. ― E do Oliver, eu cuido dos três ― garanti.
― É, tranquilo demais. ― Oliver chegou me abraçando, como se assim, formássemos para Diggle a imagem de uma perfeita dupla de babás. ― Como é que dizem? Mamão com açúcar.
~
Caos.
Era a palavra para definir o que estava se tornando a casa do Diggle e aquela noite.
― Como assim, perdeu os gêmeos, Oliver? Vocês estavam brincando.
― De esconde-esconde. E agora não consigo achar! ― Fez uma careta, conferindo rapidamente em baixo da mesa da cozinha. ― Mas, calma, babe, eles não saíram da casa, está trancada e você tem a chave. Não tem?
― Tenho, escondi nos meus bolsos depois da primeira tentativa de fuga. Eu devia ter ficado com eles e você com o bolo. Ele queimou.
― Sua capacidade de queimar qualquer coisa que coloque no fogão é meio impressionante, meu amor.
― Oliver, foco! ― Estalei os dedos bem na frente de seu rosto. ― Sara e JJ.
Um barulho chamou a nossa atenção para o andar de cima, onde ficavam os quartos. Corremos até lá, Oliver reclamando o tempo todo que crianças de cinco anos que não gostavam de Moana não eram normais e confiáveis mesmo e tudo bem perdê-las às vezes, desde que as encontrássemos em algum momento, e eu explicando que não era bem assim e que John e Lyla nunca poderiam saber.
― Olha aí, atrás das cortinas ― cochichei chamando sua atenção para os pezinhos inquietos que se torciam em ansiedade, acompanhados de risadinhas.
― Ah, não, onde eles foram? Eles são tão espertos! Acho que está na hora de chamarmos a polícia.
― Mas você disse… ― Com seu olhar sugestivo foi que peguei a deixa da brincadeira. ― Ah, claro. Vamos chamar a polícia.
― Não, não, não! ― Sara saiu do seu esconderijo e correu até se jogar nos braços de Oliver, que a pegou de pronto. ― Ganhamos e você perdeu no esconde-esconde.
― Como fizeram isso?
― A gente ficava trocando de esconderijo, você é tão burro, tio Oliver.
― Okay, começou a ofender, hora de descer do colo do tio ― falou a colocando no chão.
― Amor, espera um segundo. Onde está o outro? ― Olhamos para Sara e ela deu sorriso bem maléfico para alguém tão pequena. Soltei um suspiro exasperado. ― Ela é a distração.
Corremos para baixo para encontrar JJ escalando os armários da cozinha, a mãozinha quase alcançando o pote de biscoitos que eles pediam desde que chegamos, e fomos instruídos a não lhes dar ou quebraria a maldita dieta infantil.
Por questão de segundos o garotinho não caiu no chão, Oliver o alcançando a tempo. Nosso desespero era o total oposto da reação das crianças, que gargalhavam como se estivessem tendo as melhores babás da vida.
― Quer saber, comam os malditos biscoitos! ― Eu mesma peguei o depósito plástico e entreguei a eles.
― Pote do palavrão, pote do palavrão!
― Pote do palavrão, pote do palavrão! ― Os dois pulavam e gritavam, comemorando por ter conseguido o que queriam e tirando uma com minha cara
― Pote do palavrão, babe. ― Oliver, que já tinha colocado JJ no chão, também sorria de mim, o ombro encostado na geladeira.
Segurei um "merda" na ponta da língua, depositando o dólar no frasco de vidro em cima do balcão, frustrada por ser a pessoa a cair naquela primeiro.
― Vá se ferrar, Oliver ― murmurei apenas para ele, quando seguimos os gêmeos felizes e seus biscoitos para a sala.
― Olha a boca, pote do palavrão ― alertou, e lhe dei um soco no ombro. ― Ai.
― Cala a boca!
Aproveitamos os dois minutos que as crianças estavam distraídas com seu jantar nada saudável, para sentar no sofá. Minhas costas estavam me matando por correr abaixada atrás deles e eu já me sentia exausta, poderia dormir agora. E só estávamos com eles há duas horas.
― Não vamos conseguir, Oliver. ― Suspirei profundamente, relaxando melhor no sofá.
― Calma, amorzinho, só falta uma hora para eles irem dormir.
― Não isso, com os nossos próprios ― elucidei. ― Quer dizer, se não conseguimos por três horas sem quebrar uma dieta, perdê-los duas vezes, quase ter que ir ao hospital por um acidente, destruir a sala e dizer que transar é sinônimo de brincar no pula-pula e orgasmo de pipoca, como faremos todos os dias?
― Nessa última você se superou, Diggle vai ter algumas festas infantis bem constrangedoras à frente. ― Gargalhou, me puxando para seu abraço.
― Eu fiquei assustada, caramba! Eles não deveriam saber dessas coisas! ― me defendi. ― Nosso pequeno milagre vai ter que esperar mais alguns anos para vir.
― Quer saber, acho que vamos ficar bem.
― Por quê? ― O olhei com curiosidade.
― Você consegue ser a melhor em tudo que faz, é dedicada e amorosa, vai ser uma boa mãe também um dia. ― Deixou um beijo em minha testa. ― E eu? Bem, eu sei lutar, atirar e sou super divertido, meus filhos e os coleguinhas deles vão me amar!
― Idiota! ― Sorri, lhe dando um selinho, para então ficar em pé. ― Melhor eu ir começando a limpar essa casa, cobrir os rastros do nosso fracasso como babás. Nunca pensei em dizer isso, mas: Tommy estava certo, devíamos ter escutado ele.
― Verdade ― concordou. ― E eu vou amarrar aqueles dois pra ver desenho. Deve ter algum que consiga deixar os pestinhas quietos.
― Duvido.
― Eu consigo distrair meu melhor amigo, que é quase a mesma coisa, me dá algum crédito!
Nos dividimos em nossas funções, e quando voltei para a sala, os três discutiam sobre algo que acontecia no desenho que passava na TV como se tivessem a mesma idade, mas pelo menos estavam sentados, uma criança de cada lado do Oliver, os braços do meu marido sobre o encosto do sofá atrás de cada criança, pronto para segurá-los caso algum queira fugir. Dei uma arrumada parcial na sala e peguei a bolsa.
― Peixinho? ― O apelido fez as crianças rirem da cara do Oliver, o repetindo continuamente em tom de ofensa. Crianças são tão más, às vezes.
― Quietos, ou não faço meu chocolate quente especial antes de irem dormir.
― Aquele com pedacinhos mashmallows?
― Esse mesmo.
― Quieto, JJ! ― A pequena Sara ordenou, os dois se calando e voltando a assistir.
― Aonde vai? ― Levantou para chegar até mim na porta.
― Estou saindo para comprar mais biscoitos iguais aos que demos para as crianças. John e Lyla nunca saberão.
― Ainda cobrindo os rastros, saquei.
― Vai ficar bem só com eles? Está na hora de banho e colocar para dormir.
― Relaxe, essas crianças me adoram.
― E você os tem sobre a chantagem do chocolate quente?
― Exato. ― Me deu um selinho. ― Não demora, não sei o que fazer quando perder minha vantagem.
― Volto já. ― Lhe dei outro beijo rápido e saí.
Quando finalmente achei os biscoitos, que eram raros e caros, só pra constar, e estava de volta na casa, Oliver tinha feito mais bagunça. Não que fosse uma surpresa, eu o conhecia bem, mas era bagunça para ser organizada no fim das contas.
As cadeiras da mesa da cozinha estavam na sala e muitos lençóis as cobriam, formando um tipo de barraca, e no chão, almofadas, mantas e travesseiros.
Entrei devagar, JJ de pijamas já dormia e Sara estava no colo de Oliver, os dois conversando baixinho.
― A tia Felicity é tão linda que parece uma princesa. E você parece um príncipe, tio Oliver.
― Obrigado, meu bem. Ela é mesmo uma princesa.
― Você ama ela igual os príncipes amam as princesas?
― Não, querida. Eu amo mais, muito mais. ― Sara achou alguma graça naquilo, e eu senti um nó na minha garganta de emoção. Eu também o amava muito mais.
― Eu queria um dia que alguém me ame tanto.
― Se você quiser isso daqui há uns anos, com certeza vai achar, pequena. Você também é uma princesa, é o que significa seu nome, sabia? ― Fez carinho no rostinho dela, que o abraçou mais apertado. ― E é esperta e linda o bastante para deixar seu pai estressado apenas com a ideia de todos seus futuros pretendentes.
― Como assim?
― Nada não, seu padrinho aqui explica daqui há uns anos. Agora que tal você deitar e ir dormir igual seu irmão? ― Sara deu mais um abraço apertado no pescoço dele, antes de se soltar e obedecer.
― Tio, não conta pro papai e pra mamãe que a gente se comportou mal, ou eles não vão mais deixar a gente ficar com você e a tia Felicity.
― Tá bom, mas só se prometer que vai ser mais boazinha da próxima vez.
― Eu prometo. Te amo, tio.
― Também te amo, princesa. ― Oliver beijou a testa dela, que já foi fechando os olhinhos para dormir. Se o meu cansaço fosse medida para o dela, estávamos exaustas.
Oliver saiu com cuidado da barraca improvisada, só então me viu parada ali do lado, na entrada para a cozinha.
― Isso foi tão fofo. ― Enxuguei uma lágrima que teimou em descer. ― Você vai ser o melhor pai.
― Há quanto tempo está aí?
― Não o bastante. ― Ele sorriu, veio ao meu encontro e me abraçou. ― Crianças são as coisas mais lindas quando dormem ― fiz o último comentário, antes de segurar sua mão para me acompanhar à cozinha e colocar os biscoitos no lugar.
― Isso é tão difícil.
― A coisa mais difícil existe ― concordei. ― Mas ao mesmo tempo é tão...
― Bom e gratificante. E sobre o tanto que eles demonstram amar a gente...
― Que se dane, vamos começar a tentar! ― declarei resoluta.
― Mas a gente combinou daqui a dois anos.
― Não precisamos esperar, já queremos isso há tanto tempo. E pela experiência de hoje, não tem nada que nos prepare para isso, só vivendo mesmo.
― Então vamos nessa! Vamos fazer um bebê! ― Segurou meu pescoço e me beijou.
― Mas não agora, tem duas crianças ali, peixinho.
― Eu sei disso.
― Vamos fazer um bebê! ― Não podia gritar para não agitar os gêmeos, então sussurrei o mais alto possível, jogando o punho ao alto em empolgação.
― E podemos começar só amanhã? Eles sugaram toda minha energia, só de pensar na nossa cama meus olhos já estão se fechando.
― Claro, amor. Sem pressa.
~
― Amiga, rapidão. ― Caitlin deu duas batidinhas na porta, já foi entrando e a fechando atrás de si. ― Preciso de absorvente.
― Fica à vontade ― falei quando ela já remexia na minha bolsa.
― Mas onde… ― Se virou pra mim com as mãos na cintura, a testa franzida. ― Cadê seus absorventes?
― Eu sei lá, amiga. ― Dei de ombros. ― Devo ter algum pacote no armário, última gaveta.
― Boa ideia! Minha amiga, a prevenida. ― Saltitou até o outro lado da sala, erguendo o pacote ao alto quando o achou como algum tipo de troféu. ― Esse mês atrasei dois dias, meu coração já estava na boca. Já imaginou, engravidar por acidente de um estranho que só saí uma vez?
― Quem?
― Eu te falei, mês passado, o cara da cafeteria.
― Ah, o cara que você disse ter o trabalho mais chato do mundo? ― Fiz uma careta. ― Você dormiu com ele? Eca.
― Ele era bonito e limpinho, e se parasse por dois segundos de falar sobre máquinas de lavar e diferentes manchas e os produtos para removê-las, seria até legal. Talvez você gostasse dele! ― apontou.
― Pensei que tivesse mania de limpeza.
― Não, essa é você. Eu prefiro que nem suje.
― Sabe, e se você procura namorar alguém que eu goste… Eu gosto do Tommy ― comentei casualmente, organizando os documentos da minha mesa, e já sorri, esperando o ataque.
― Meu Deus do céu, deixe isso pra lá! Você e Oliver são insuportáveis com essa história.
― Somos obstinados, é diferente.
― O que é tão ruim quanto! Olha, eu quero casar e adotar dois lindos doguinhos, enquanto Thomas quer transar com o máximo de mulheres que conseguir enquanto aquela coisa dele funciona. Ou seja, propósitos diferentes ― concluiu, encerrando o assunto. ― Enfim… Almoço hoje? Você paga.
― Quem convida não deveria pagar?
― Você é casada com um bilionário, você paga ― decretou, e eu me alarmei, olhando ao redor para ver se não tinha mais ninguém perto o bastante para ouvir.
― Pelo amor de Deus, Caitlin, fala baixo! Oliver não quer que ninguém saiba, e eu só contei pra você.
― Seu marido é um herdeiro e vocês não querem contar a ninguém e nem usar um centavinho. Estranhos. ― Rolou olhos.
― Casei quando ele ainda não era.
― Tudo bem, eu entendi isso. Mas as coisas mudaram, a dama de ferro Queen está até amiguinha de vocês, qual o problema?
― Oliver não quer, eu entendo e concordo com ele. Esse dinheiro não lhe trouxe coisas tão boas como todos podem pensar, e somos felizes como somos. Além do mais, ele só fica rico quando a mãe dele morrer.
― O que pode ser logo, pelo que soube ― rebateu afiada.
Essa a parte triste do nosso último mês. O câncer de Moira havia retornado e por mais que nosso início de relacionamento tenha sido conturbado, eu só conseguia sentir empatia por ela e por Oliver e Thea que tinham ficado péssimos com a notícia. Quando finalmente começamos a nos dar bem, tinha isso para lidar.
― Nossa, seu humor está “interessante” hoje, Cait. ― Fiz sinal de aspas, para ela saber que interessante não era exatamente a palavra que eu estava pensando. ― Tem certeza que não está mesmo grávida?
― Deus me livre e guarde! ― Fez sinais da cruz. ― Hey, Deus, escuta ela não, Felicity só fala besteira ― falou olhando para o teto e eu sorri.
Ficando mais parecida com Tommy a cada dia.
― E você sabe… Pode ter um herdeiro milionário nas mãos também, se quiser.
― Como assim? ― questionou sem entender.
― Tommy Merlyn, ué. ― Seu sorriso desmanchou e ela se levantou em direção à saída. ― Por mais que tenha se comportado de um modo ainda mais depravado nos últimos meses, você sabe que ele faz isso porque gosta de você, não sabe? Você só precisa tomar a iniciativa.
― Nem por todo dinheiro do mundo ― dispensou a ideia completamente. ― Até o almoço.
Falar com Caitlin sobre gravidez e bebês vindouros fazia eu me sentir culpada. Queria já ter contado a ela no minuto seguinte que eu e Oliver decidimos antecipar nossos planos dois anos e já começar a tentar engravidar, mas eu sabia como o processo poderia ser frustrante e demorado, não queria envolver mais gente nisso antes de ter alguma certeza das coisas.
Estava guardando o pacote de absorventes que Caitlin deixou em cima da minha mesa quando uma informação estalou na minha mente. Algo estava errado, meu ciclo era antes do dela, pouco antes, e se ela já estava com dois dias atraso...
― Merda, merda, merda! ― Peguei meu celular e nem desbloquear o coitado com o mínimo de agilidade eu conseguia, já sentia as mãos tremerem e suarem. ― Não pode ser, mas já?!
Abri o aplicativo com o qual eu acompanhava e monitorava meus ciclos menstruais. Eu e tinha e Oliver também, os dois conectados, até pra ele estar cientes da proximidade das minhas TPMs, mas havíamos perdido aquele aviso, pelo menos eu havia. E com toda a questão da doença de Moira, nem me liguei nisso. Merda.
Uma semana e meia de atraso.
― Curtis, cancela minhas duas reuniões da tarde e desmarca meu almoço com Cait por mim, ela não vai me deixar sair dessa sem sermão se eu falar diretamente. ― Me equilibrava em um só pé, calçando o salto do outro, já que eu os havia tirado enquanto estava sozinha no escritório, a bolsa presa no meu antebraço.
― Felicity, você está bem? Parece pálida.
― É, acho que sim. Tchau.
Não dei mais margem à conversa, apenas saindo rapidamente dali, parando na primeira farmácia e comprando uns cinco testes diferentes de gravidez.
Eu sentia minha cabeça rodar quando cheguei em casa, colocando as caixinhas empilhadas em cima da mesinha de centro e sentando na poltrona com o queixo apoiado nas mãos, as encarando como se fossem algum tipo de tabuleiro de xadrez.
Havíamos decidido começar a tentar ontem, minha consulta com a ginecologista ainda seria no final dessa semana. Eu sabia que precisava tomar vitaminas três meses antes, sem falar que ainda não tinha um obstetra, havia bebido duas taças de vinho semana passada e tinha estado tempo demais na mesma sala que Barry e seu perfume novo e super forte há três dias. Nada disso podia fazer bem para o bebê.
Calma, Felicity, não surta como da última vez, você vai ficar bem. Pode ser só um alarme falso! Isso aí, com certeza era alarme falso, eu ainda estava trabalhando muito, e depois que nosso chefe foi demitido, tudo estava uma loucura para nos adaptarmos ao novo. Exaustão, era exaustão de novo.
Oh, Deus, vou vomitar! É estranho me sentir enjoada agora? Ou seria apenas meu psicológico me fodendo? Ai, cadê o Oliver nessas horas para me acalmar?
Droga, Oliver! Eu tenho que contar ao Oliver. Ou talvez só deva contar quando tiver um resultado, ele quer muito esse bebê, não posso dar falsas esperanças. Mas se não consigo levantar da merda do sofá para fazer o teste, como vou contar qualquer coisa para ele?
― Ai, meu Deus, eu tive o melhor dia no trabalho da vida! ― Meu marido entrou aos gritos, e uma conferida rápida na janela me mostrou que já era noite. ― Sabe meu último pedido de natal? Se realizou! Boa noite, babe. ― Deixou um beijo em meus cabelos, deitando no sofá maior. ― Parecia uma apreensão simples de drogas, mas daí virou uma perseguição por cima de prédios! Alguém devia ter filmado como eu saltava por cima dos telhados e descia por escadas, Demolidor que se cuide, talvez eu seja o próximo para o papel ― se gabou, o que eu só entendia vagamente, já que tinha a cabeça em salas de parto e pré-escolas. ― Mas não se preocupa, estou mais do que disposto para começar a fazer nossos bebês, só me dê uns minutinhos para um banho, e… Felicity! ― Bateu uma palma alta perto de mim, e o susto me fez levar uma das mãos à barriga. Já havia virado uma dessas mulheres?
― Oi? Tô aqui, oi.
― Por onde você está viajando, amorzinho?
Respira fundo e apenas fala!
― Peixinho, aconteceu uma coisa. Me dei conta de uma coisa. ― Mordi o lábio e meus olhos foram direto para as caixinhas, e os dele também.
― Não acha muito cedo para começar a testar, amor? Os gêmeos Diggle nos deixaram tão exaustos que ainda nem fizemos sexo! Somos bons, mas se lembro bem das aulas de educação sexual, não tão bons.
― Minha menstruação já está atrasada, Oliver.
― Oh. Quer dizer que...
― Sei lá, estou aqui há horas e ainda não tive coragem de fazer o bendito teste.
― Okay, fica calmo. ― Começou a andar em círculos pela sala, foi então que percebi que falava consigo mesmo. ― Pode ser que não seja, mas se for, será. E será bom, será maravilhoso, a gente já ia fazer isso mesmo. Quem antecipa dois anos, antecipa dois meses, não é?!
― Oliver, presta atenção!
― Ahn?! ― Tirou o polegar da boca, que ele mordia com força, me olhou ansioso. ― Estou prestando atenção, você tem toda minha atenção.
― Acha que devo fazer o teste de farmácia ou deixar pra ir amanhã em um laboratório?
― Pelo amor de Deus, amorzinho, você quer me matar do coração? Faz logo, agora, vamos. ― Me ergueu pelos ombros, as caixas coloridas empilhadas na outra mão.
― Quando sair o resultado, não poderemos voltar atrás ― ponderei enquanto nos dirigíamos ao nosso quarto.
― Já não podemos voltar atrás agora, babe. Eu posso ficar com você no banheiro, se quiser.
― Nada disso, fica aí fora. Não tem xixi que saia com esse seu olhar ansioso. ― Bati a porta em sua cara.
Vamos lá, é simples. Xixi em cinco palitos, mais cinco minutos e teremos resultado. Droga, deveriam colocar um copo pra enfiar essas merdinhas, quem fabricou não pensou como seria difícil acertar a mira nessas coisas com as mãos tremendo tanto.
― E aí? ― questionou nervoso, quando o encontrei na sala.
― É só aguardar. Liga o cronômetro, peixinho. ― Sentamos lado a lado na ponta do colchão, os palitos deixados na pia do banheiro e ele fez como eu pedi, e dessa vez, parece que o tempo ainda mais devagar do que da outra. Só queria Tommy e Caitlin aqui pra nos distrair desse buraco infinito no tempo que nos metemos.
― Falta quanto?
― Três minutos. ― Grunhi, roendo o que ainda tinha restado das minhas unhas. ― A gente pode cantar uma música, daí quando terminar, acabou o tempo.
― Por favor, não começa a cantar agora. ― A última coisa que eu queria agora era barulho, com silêncio já estava difícil demais esperar.
― Tá bem. ― Mais outra longa espera, até o celular dele apitar alto e meu coração ir na garganta. ― É agora.
― Não tenho coragem de olhar. ― Me mantive firme sentada, quando Oliver quis me levantar com ele. ― Mas eu tenho que olhar, não é?!
― Vamos, juntos.
Quando entramos no banheiro, ao invés de ir direto para a pia, fiquei de costas para ela, e abracei Oliver, meu rosto escondido em seu peito.
Se fossem duas linhas ali naqueles testes, tudo mudaria. Em segundos, tudo poderia mudar, e eu não me sentia nem um pouco pronta.
― E aí? ― perguntei, ele já sabia a esse ponto, e seu silêncio estava me matando.
― Melhor você mesma olhar, babe. ― E estava lá, duas linhas, em todos os testes. ― São cinco positivos.
Quando finalmente tive coragem de encarar os olhos de Oliver, eles estavam marejados, seu nariz começando a ficar vermelho, e ele engoliu o choro que segurava. Eu mesma sentia meu olhar embaçado de emoção.
― Nós vamos ter um bebê? ― perguntei apenas para confirmar a notícia, e que eu não estava sonhando.
― Vamos ter um bebê! ― exclamou, me tirando do chão e me girando pelo quarto em seus braços.
― Okay, para, para, vou vomitar em você! ― Segurei seus ombros, pedindo para que me colocasse no chão. ― Estava enjoada, achei que era do anticoncepcional novo e do seu chili da semana passada, mas agora… Um bebê!
― Isso aí, eu ainda sei cozinhar e… Um bebê!
Não contive mais minhas lágrimas, mas eu soube na hora que com ele e nosso frutinho de amor que já crescia em meu ventre, tudo ia ficar bem. Eu já previa surtos, enjoos, cansaço, mas tudo ia ficar bem.
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