Pictures of Us
25 Anniversary || Oliver
Notas iniciais
― Tá bom, mãe, solta. ― Felicity tirava as mãos de Donna dos seus cabelos. ― Eu sei, mãe. Mãe!
Sorri das duas Smoak sem levantar os olhos do celular, que discutiam por bobagens há meia hora. A da vez era que Donna queria os cabelos de Felicity presos, segundo minha sogra mostrar o pescoço era mais sexy, enquanto Felicity os queria soltos, sem penteado algum.
― Mãe, já não basta você estar nos obrigando a ir em uma boate em pleno dia de semana, ainda quer me dizer como ir?
― É só uma sugestãozinhazinha ― falou com a voz infantil.
― Como o vestido devasso, as lentes de contato ao invés dos óculos, a maquiagem pesada, os sapatos?
― É uma boate, querida, não uma igreja.
― Por Deus, você quis escolher até minha calcinha!
― Acho que vou esperar vocês duas no carro. ― Escapei pela tangente, antes que a discussão virasse para mim, mesmo que Felicity tenha me olhado quase implorando que não a deixasse sozinha com a própria mãe.
Hoje era véspera do nosso aniversário de casamento e minha sogra tinha voado de Vegas para passar uns dias e comemorar conosco. Seria um jantar simples entre amigos, mas quando se coloca o fator Donna na equação, acabamos todos quase obrigados a estar na Verdant numa quinta à noite, para uma, como ela mesma disse, celebração apropriada.
Resolvemos reunir nossos entes queridos para comemorar um dia antes, para que amanhã fosse apenas nosso. Ainda iríamos trabalhar, mas à noite tínhamos reservas para nosso restaurante de sempre, onde usaríamos roupas chiques e desconfortáveis que seriam tiradas tão logo voltássemos para casa. Esse era meu plano, ao menos.
― Inferno! ― Felicity entrou no carona, descontando toda sua raiva na porta do carro ao fechá-la.
― A porta não tem culpa ― tentei amenizar o clima, mas só recebi seu olhar fulminante. ― Ou pode culpá-la, tanto faz. Melhor ela do que eu.
― Quer saber, isso é culpa sua, sim. Custava não ter sugerido a Verdant para hoje à noite?
― Ah, amorzinho, ela queria uma noite mais animada, e acabei dizendo que Thea era dona de uma boate em outra vez que ela esteve aqui, o assunto surgiu de novo, foi meio que natural. E você sabe como ela consegue ser persuasiva.
― Sério, Oliver, você tem o recorde de tiro e prisões da sua delegacia, mais de oitenta quilos de músculos, e vem me dizer que não consegue dizer não para minha mãe?!
― Vocês mulheres Smoak são assustadores quando querem ― murmurei e me encolhi no banco, enquanto Felicity rosnava, provando meu ponto.
― Deveria ter convidado sua mãe, então.
― Minha mãe não frequenta boates, nem a de Thea.
― Muito conveniente pra você.
― Cheguei, cheguei, tinha esquecido meu batom. ― Donna entrou no carro, sentando na ponta do banco traseiro e se aproximando de nós dois, sem perceber a tensão. ― Quer um pouco, filha?
― Meu batom está bom, mãe!
― As duas estão lindas, perfeitas, melhor irmos logo.
Quando chegamos na Verdant, havia muita gente na pista, e logo estávamos com a área VIP só pra nós, drinks por conta da minha irmã. Por conta do nosso atraso, todos já estavam lá, Tommy, Sara, Kara e Monel, Laurel e Ray, assim como Caitlin e Curtis. Roy estava em algum outro lugar, provavelmente seguindo minha irmã enquanto esta trabalhava. A animação da galera teve o efeito de acalmar o clima tenso do carro, e logo estávamos como sempre.
― Okay, vamos lá. ― Sentei ao lado de Felicity, lhe entregando o Dry Martini e segurando meu drink não alcoólico, já que estava dirigindo. ― Melhor momento da festa de casamento, quero ouvir de todos. Barry? ― Quando o moreno abriu a boca para falar, lembrei que a cerimônia havia sido logo depois de seu término com Iris, ele quase fez da nossa festa um velório. ― Esquece, Kara?
― Pista de dança, certeza. E vocês também estavam muito fofos, bem apaixonadinhos e bobos.
― Obrigado, eu acho. ― Troquei um olhar com Felicity que nos perguntávamos se Kara nunca aprenderia a fazer elogios sem nos fazer parecer uns idiotas. ― Sara?
― O final. Festas de casamento são um porre.
― Amém, irmã, amém! ― Tommy tocou o copo no dela concordando. ― Se bem que conseguir todos os olhares em mim na hora do brinde foi foda. Ah, e peguei a cerimonialista ― completou pensativo. ― Esqueçam o que eu disse, podem me chamar pra padrinho de novo.
― Não chamem ele pra padrinho, vão por mim ― Caitlin aconselhou, mas sem revelar os motivos para Tommy ser tão ruim assim.
― Calada, Snow. ― Colocou a mão para cobrir a boca dela, mas logo foi rebatido com uma tentativa de mordida. ― Chamem sim, eu fico a visão dos céus em um smoking.
― Então quer dizer que sua parte preferida do casamento deles foi você?
― Não me surpreenderia se fosse a melhor parte para todo mundo ― respondeu a ela com uma arrogância encenada.
― E pra vocês dois? ― Ray Palmer, que eu nem lembrava que existia, perguntou. Ele e Laurel estavam mais distantes do grupo depois que casaram, o que, graças a Deus, não aconteceu conosco.
― Os votos ― respondemos juntos, e depois de mais um olhar trocado, rimos.
― Nojinho, vocês. ― Tommy fez careta. ― Donna, quer descer comigo e mostrar pra esses perdedores como se domina uma pista de dança?
― Não, mãe, não! Argh! ― Felicity até tentou pará-la, mas foi impossível.
― É estranho ver seu peguete e sua quase madrasta dançando como… ― Curtis comentou com Sara, que deu de ombros como se não fosse nada demais. ― Oh, minha nossa, aquilo está ficando intenso.
De cima assistíamos a vergonhosa dança bem próxima, menos Felicity, que se recusava a ver, escondendo o rosto em minha camisa. Tadinha.
― Laurel, você sabe como anda as coisas entre eles? Donna e o capitão, eu quero dizer. Não consegui nada além de uns comentários brincalhões de Donna sobre o assunto, que não dá pra saber se são verdade ou não.
― Sei lá, Oliver, nem perguntei.
― Eu sim ― Sara respondeu. ― Acho, apenas acho, que eles transaram depois do casamento, mas não foi nada além depois que ela foi embora.
― Por favor, podemos mudar o assunto da vida sexual da minha mãe e do capitão?
― Eu agradeceria também ― Laurel tinha a mesma expressão de "não quero saber de nada disso" de Felicity. ― Opa, onde está o Tommy?
― Perto do bar, engolindo a cabeça daquela morena ― Sara apontou. ― Estranho é ter alguma garota nessa cidade que ainda caia no papinho dele tão rápido. E Donna está dançando com um estranho agora. Eu amo essa mulher.
― Quer saber, às vezes devemos pegar algumas páginas do livro da diversão da sua mãe, Lissy. ― Caitlin falou surpreendendo Felicity ao levantar. ― Vamos dançar, Barry?
― Mas você disse que não gosta de…
― Você me ensina, vem! ― Puxou o coitado pelo braço, que saiu aos tropeços atrás dela.
― Sendo assim, vamos também, amor ― Kara convocou o namorado, que a seguiu.
― Vou no bar, vão querer alguma coisa? ― Curtis ofereceu, e como todos estávamos de copo cheio, apenas negamos.
― Óbvios, não acham? ― Sara comentou olhando para baixo, e franzi o cenho, sem entender. ― Deixa pra lá. Oliver, meu pai pediu pra te lembrar que o prazo das inscrições para a prova de sargento acaba semana que vem.
― Vai fazer a prova pra sargento, amor?
― Nós dois vamos. ― Foi Sara que respondeu.
― Não, eu não vou, inclusive já falei isso para o capitão ― contradisse a loira e respondi à pergunta de Felicity.
― Por que não? Não te faria subir de patente, salário e poder de comando? ― minha esposa argumentou.
― E só por isso eu deveria fazer? ― rebati.
― É claro que sim.
― Bom, mas eu não vou. E não quero mais falar nesse assunto, okay? Apenas deixe para lá, estou te pedindo.
― Tá bom.
Sara e os Palmer agora disfarçavam para parecer que não estavam ouvindo aquela que estava sendo nossa segunda minidiscussão em menos de duas horas. Mas eu não via motivos para fazer essa prova, estava muito feliz onde e como trabalhava, não precisava de uma patente acima para fazer o que amava. Ao contrário, aumentaria as responsabilidades, e com certeza meu estresse diário. A vida já era boa como era, ponto final.
Mas eu já deveria conhecer Felicity o bastante para saber que ela não deixaria para lá tão fácil, só que esperava mesmo que ela respeitasse minhas opções, mas na manhã seguinte lá estava eu sendo atormentado por argumentos de que eu estava errado e deveria sim fazer a prova.
Dessa vez, lidei de forma diferente: esperei que ela terminasse de falar e não argumentei mais, apenas disse não. Mas tinha que confessar que aquilo estava me tirando completamente a paciência, o que era bem raro de acontecer. Para mim, minha opinião havia sido bem clara na noite anterior, Felicity era inteligente o bastante para que eu não precisasse ficar me repetindo naquele assunto chato.
~
― Cheguei, cheguei, desculpa! Só preciso de dez minutos.
Joguei minha bolsa, arma e distintivo na poltrona do quarto de qualquer jeito, depois daquele dia de cão. Era como se os bandidos e advogados daquela cidade não respeitassem nem meu aniversário de casamento.
Felicity já estava quase pronta, toda linda em um vestido azul justíssimo de um ombro só, cabelos jogados por sobre um ombro sem tecido, maquiagem pronta, terminando de colocar os brincos.
― Que merda, Oliver, estamos quase nos atrasando e perdendo a reserva.
― Eu sei, foi mal ― me desculpei, entrando no closet para pegar uma toalha. ― É que foi surgindo uma coisa depois da outra na delegacia, perdi a noção do temp... ― Me interrompi quando notei os papéis em cima de uma das prateleiras. ― O que é isso aqui, Felicity?
― Ah, são as fichas para inscrição da prova de sargento. Pedi a Sara o link e imprimi pra você dar olhada depois.
― É, mas eu disse que não queria fazer a prova ― atestei o óbvio.
― É, mas eu pensei em te fazer mudar de ideia. Deixa isso pra lá, peixinho, vá se arrumar, as reservas.
― Não, não vou deixar isso pra lá. Que inferno, porque você ainda insiste tanto nessa merda de prova? ― Joguei os papéis sem cuidado algum na penteadeira, elevando a voz.
― Okay, moço, baixe o tom. ― Usou sua voz séria e autoritária, apontando o indicador para mim. Ai, eu odiava quando faziam isso, era tão Moira Queen.
― Não baixo não, porque minha esposa de inteligência absurda não consegue entender a simples frase "não quero fazer"! Falei isso ontem, falei hoje e você continua insistindo!
― Quero o melhor pra você, e qual o problema de subir de cargo e de salário? Você não imagina mesmo nenhuma perspectiva de vida melhor para nossa família?
― Agora eu não sou o bastante?
― Eu não disse isso, não distorça minhas palavras, Oliver.
― Eu não preciso, você já fala o bastante. Nada pode contrariar você, ninguém pode ter opiniões opostas, sempre do seu jeito!
― Sempre do meu jeito?! ― A esse ponto eu estava ciente da gritaria, e por um milagre ainda não tínhamos Donna ali no meio da confusão. ― A gente debate sobre tudo que vamos fazer.
― Grandes debates, onde eu sempre perco. Nem a droga da cor das cortinas eu posso escolher. "Peixinho, azul é melhor, destaca seus olhos." Eu não preciso combinar com as cortinas, eu queria as verdes!
― Oh, meu Deus, de novo sobre essas cortinas?! São como uma obsessão pra você!
― Assim como essa droga de prova é pra você.
― Quer saber, cancela esse jantar, vamos comprar as malditas cortinas verdes agora mesmo.
― Não é sobre as cortinas, é sobre minhas escolhas, você não me deixa ter elas! Você me dá duas opções e me manipula a escolher o que você queria desde o início. Sua manipuladora!
― Oliver, para de falar ou eu vou ter que responder à altura ― murmurou trincando os dentes.
― Duas opções, uma manipulação. Clássico da Felicity.
― Se eu te irrito tanto, porque só estou sabendo disso agora? E se queria ser levado mais a sério, devia parar de brincar tanto e dar opiniões de verdade!
― Eu dou opiniões de verdade, mas com brincadeiras. Deus sabe que essa casa não pode viver só com a sua tensão, planejamento e controle!
― Crianças, crianças! ― Como previ Donna irrompeu no quarto, tentando apaziguar a situação. ― O que está acontecendo aqui?
― Nada. Eu preciso de ar. ― Saí do quarto, Felicity me seguiu pelas escadas.
― Que merda, cara, fica aqui e conversa sobre. Sempre tem que sair correndo quando está incomodado? Oliver? Oliver! ― gritou.
― Me deixa respirar, Felicity. ― Fechei a porta atrás de mim com um estrondo.
― Pois saiba que perdeu uma lingerie lindíssima e bem cara que está por baixo desse vestido!
A ouvi gritar, mas já estava com as chaves em mãos, tomando o lugar do motorista em meu carro. Ainda precisei dar um soco no volante, que ecoou acidentalmente a buzina pela rua, antes de arrancar dali, dirigindo a para nenhum lugar específico.
~
Quando adentrei a mansão Queen, estava tudo escuro e silencioso, o que só poderia significar que Thea, assim como Tommy, não estava em casa.
Inferno.
Era estranho olhar para todos aqueles móveis caros e antiquados e não mais reconhecê-los como meus, depois de quase a vida toda morando aqui. Minha casa cabia toda ali no salão principal, mas era mais lar do que aquelas paredes daquele castelo, que havia sido transportado da Europa para a América e reconstruído aqui, como se isso fosse a coisa mais comum do mundo.
Resolvi dar uma olhada em meu quarto, já faziam anos que não entrava lá. No que será que minha mãe o havia transformado quando fui embora? Uma nova biblioteca ou outro escritório? Talvez uma sala especial para suas teleconferências.
Qual não foi minha surpresa ao encontrá-lo igualzinho eu deixei. Limpezas periódicas eram feitas, dava para notar, mas cada uma das minhas escolhas de mobília, assim como os porta retratos e quadros na parede estavam iguais.
Um barulho chamou minha atenção para o corredor, automaticamente busquei minha arma no cós da calça, mas esta havia sido deixada em casa, então ao sair em estado de alerta, mesmo que ladrões entrando naquela fortaleza fosse quase impossível, meus ombros relaxaram e meu semblante suavizou ao ver que era só minha mãe, quem eu não esperava encontrar pois achei que já estaria dormindo. Provavelmente estava ou bem perto disso, pois usava um robe longo de seda bege.
― Filho?
― Hey, mãe.
Estávamos bem no último ano. Não era nenhuma relação exemplar de mãe e filho, mas era o melhor que conseguimos desde nosso rompimento. Depois que ela cumpriu a promessa de se comportar no meu casamento, lhe dei esse voto de confiança. Tivemos um par de almoços com Thea e até estive em sua festa de aniversário, que se resumia basicamente a funcionários de alto escalão de QC, mais eu, Felicity, Thea e Tommy.
O tratamento do câncer ia bem também. As sessões de quimioterapia se encerraram dois meses depois do casamento e os exames mostravam que ela estava bem, mesmo que todos aqueles remédios a tivessem deixado bem fragilizada.
― É você mesmo? O que faz aqui, posso te ajudar em algo?
― Não, tudo bem, estava procurando minha irmã ― menti. Não que eu não estivesse à procura de Thea, mas não estava nada bem, e eu só precisava de algum refúgio.
― Thea deve estar na Verdant nesse horário ― falou como se fosse uma informação que eu saberia. ― Espera, hoje você não deveria estar com sua esposa em algum jantar ou viagem romântica?
― Você lembrou ― atestei.
― Eu sei tudo sobre meus filhos, querido. ― Sorriu.
― Então, é melhor eu ir nessa. ― Apontei com os polegares em direção à saída. ― Talvez eu vá na Verdant.
― Ou talvez você deva voltar para casa e resolver seus problemas com Felicity.
― Não temos problemas, vivemos em um arco íris de amor ― falei sarcástico.
― Filho...
― Tchau, mãe ― cortei o assunto com a despedida. A última pessoa que eu ia querer conversar sobre meus problemas conjugais seria minha mãe. Quer dizer, a penúltima, a última seria William Malone.
― Tchau, Oliver.
Percebi que poderia ter agido de modo muito rude, quando Moira não havia feito nada dessa vez, e quando voltei para uma despedida mais apropriada, minha mãe segurava firme na borda de uma das mesas de mogno adornada de flores que ficava no corredor.
― Você está bem? ― Me apressei a ir em seu encontro, e se tivesse andado mais devagar, não teria conseguido a alcançar a tempo de vê-la perder a força das pernas e quase cair no chão. ― Mãe?! ― a chamei assustado.
― Eu estou bem.
― Não, você não está. Eu te ajudo. ― A coloquei no colo, levando até seu quarto e a depositando com cuidado na cama. Com a luz mais forte agora eu conseguia ver como ela estava pálida.
― Obrigada, pode ir agora. ― Era uma clara dispensa, marca registrada da família Queen em fugir ou esconder problemas. Eu mesmo havia acabado de usá-la.
― Não até você me dizer o que está acontecendo.
― Nada está acontecendo. Pode ir.
― Mãe! ― exigi.
― Não é nada de mais, eu tenho sentido algumas tonturas e fraqueza, e meu oncologista acha que o câncer pode ter voltado.
― Como assim? Thea não me disse nada! ― Levantei com o susto de sua resposta.
― Ela não sabe, eu não contei até ter certeza.
― Puta que pariu, mãe! Somos seus filhos, a gente tem que saber dessas coisas! Você não pode esconder coisas importantes das pessoas que se importam com você!
― Igual você escondendo a discussão que te trouxe aqui hoje à noite? ― rebateu e eu desviei o olhar do dela. ― Só um pra reconhecer o outro, querido.
― Eu não vou falar sobre isso com você.
― Não estou pedindo que fale.
― Que conselho matrimonial você teria para me ajudar, se seu casamento com o papai foi literalmente o mais fracassado da história?!
― Duro, mas justo ― concordou comigo.
― E pensando aqui, deve ser apenas carma. Onde eu achava que ia em um relacionamento sério? Eu não consigo mantê-los, nem exemplo eu tenho pra seguir.
― Tenho certeza que está exagerando, Oliver.
― Eu falei coisas horríveis pra ela, no dia do nosso aniversário. Mas é só que eu estava tão cansado de sempre ter que ser a pessoa a se desculpar primeiro, a compreender, a esquecer e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Eu tô maluco ou sempre eu sou o errado e Felicity a certa? ― desabafei. ― Errado sobre o ex perfeito dela, errado sobre querer bater nos chefes imbecis dela, errado sobre a escolha das cor das malditas cortinas, errado sobre a merda da prova pra sargento! Sabe o pior, claro que a cor que ela escolheu combina melhor com a casa do que a que eu queria, só que agora eu não posso dizer isso, porque daí ela vence!
Minha mãe ficou apenas me olhando por longos segundos, as mãos no colo, como se esperasse que eu falasse logo tudo de uma vez. Já esperei o sermão que viria a seguir.
― Vai pode falar, "eu te disse, você estava errado em casar com ela", eu não me importo! Ainda a amo mais que tudo, nada que diga vai mudar isso.
― Seu pai tinha um ditado interessante ― começou a falar com calma. ― Aprenda com os erros dos outros, porque…
― …não vai ter tempo de cometê-los todos sozinho ― completei. ― E daí? ― Sentei na cama de braços cruzados, emburrado como uma criança.
― Querido, você não achou mesmo que ia entrar em um casamento perfeito, sem brigas ou discordância alguma, achou?
― Não banque a passivo-agressiva comigo.
― Só estou dizendo que todo relacionamento passa por problemas. Se vocês concordassem em tudo, aí sim seria estranho. Mas só porque eu e seu pai éramos péssimos nisso, não quer dizer que você vá ser também, Oliver, não é um problema genético. Aprenda com os nossos erros.
― Isso na verdade é um bom conselho.
― Dito isso, vá resolver as coisas com ela!
― Mas também, nem adianta! Felicity deve estar com ódio de mim, ela nem me ligou nem nada. ― Conferi o celular rapidamente para confirmar minha teoria. ― Ela sempre liga.
― Oh, meu menino lindo e ainda tão imaturo. ― Fez um carinho na minha mão que estava perto da sua. ― Se sua esposa é tão inteligente e perspicaz como acho que é, só acho que ela está te dando espaço. Vocês são casados e aquela é sua casa, pelo amor de Deus, Oliver, você vai voltar pra lá cedo ou tarde sem que ela precise te ligar.
― Meu Deus, ela é tão inteligente. E tão linda! ― exclamei. ― É injusto uma pessoa ser tanto das duas coisas.
― Você também não é nada mal, querido. E ainda é um herdeiro bilionário.
― Eu não sou, você sabe. ― Não queria me aprofundar muito no assunto, já que esse foi o estopim do nosso rompimento e sempre era motivo de tensão entre nós. Mas ao contrário de sempre, minha mãe sorriu.
― Tudo bem, melhor te contar logo de uma vez. ― Respirou fundo, mas não disse mais nada.
― Mãe, o que foi? ― perguntei ansioso, o suspense estava me matando.
― Te coloquei de volta no meu testamento quando fiquei doente, antes mesmo de fazermos as pazes.
― Mãe! Eu não quero, pode ir tirando!
― É o meu testamento, escrevo nele o que eu quero, você é meu herdeiro, ponto final ― falou não me dando direito a opinião, e eu resmunguei. ― Quando eu morrer, deixei 90% pra dividir igualmente entre você e sua irmã, e outros 10% para o Tommy, já que as Indústrias Merlyn quando quebraram foram absorvidas pela QC. Na verdade, o contador me avisou recentemente que seu fundo fiduciário já está disponível para ser usado quando e como quiser ― falou tudo com uma calma e simplicidade, e eu não poderia estar mais chocado.
E diferente de quando ela mandou um cheque de um milhão depois do que aprontou com Helena em Vegas, dessa vez ela me deu uma escolha, que era mais do que eu tive dela a vida toda.
― Eu não quero, okay?! Estamos muito bem sem ele, e esse dinheiro me trouxe muito estresse a vida toda. E se insistir no assunto, a gente vai brigar.
― Tudo bem, Oliver, só estava te informando, não tenho exigência nenhuma em troca.
― Bom.
― Então, eu ouvi sobre uma prova pra sargento. Você vai fazer? Eu conheço o comissário, e…
― Não, eu não vou. Quer dizer, Felicity quer que eu faça, foi por isso que a gente brigou, mas sei lá... Não sei se seria bom pra mim, e talvez eu só me frustre ao não passar na prova. ― Finalmente ao falar, eu mesmo pude entender os reais motivos de não querer arriscar, que era para não decepcionar quem colocava tanta fé em mim, como o capitão, e Felicity.
― Meu bem, você subestima muito a própria inteligência. E que mal há em subir de cargo e aumentar o salário?
― Foi o que ela disse.
― Como falei antes, inteligente e perspicaz. Aqui vai outro conselho: faça a prova, não custa nada.
― Não sei, veremos. ― Dei de ombros, ficando em pé. ― Melhor eu voltar para casa. Depois você me liga e me diz quando vai ser sua consulta com o oncologista? Eu vou junto.
― Não precisa, eu…
― Sem acordo! Você é teimosa, mãe, posso ser o dobro. ― Beijei seus cabelos. ― Vai ficar tudo bem, okay?
― Obrigada, filho. E não conte nada para Thea até termos certeza, tá bem?
― Tudo bem, mas só por enquanto. Tchau.
― Tchau, querido.
Ainda precisei dirigir pela cidade por mais algum tempo. Se voltasse de cabeça quente como estava, mais a notícia do possível retorno do câncer da minha mãe e a herança que me foi devolvida, eu ia explodir, e não ia ser bonito.
Quando cheguei em casa, encontrei Felicity na sala, ainda usando o vestido que sairíamos para jantar, acompanhada por Donna no chão da sala, duas taças de vinho pela metade, e uma garrafa quase seca.
― Meu filho, graças a Deus! Nós estávamos morrendo de preocupação com você. ― Donna veio aos saltos até me abraçar, ao que apenas retribuí friamente.
― Eu percebi, pela total ausência de ligações no meu celular ― falei baixinho, e Felicity rolou olhos.
― Cresça, Oliver.
― Um conselho que todos aqui poderiam usar.
― Ai, meu Deus, você parece uma porta fechada de tão teimoso! ― Felicity exclamou elevando a voz, dando um tapa na mesa de centro.
― Você parece uma porta fechada! ― também elevei minha voz, toda a calma que acumulei indo por água abaixo, retrucando do jeito mais idiota possível.
― Eu pareço o quê?
― Parou! Ai, ai, ai, que feio! ― Donna bateu palmas ao ritmo de sua bronca. ― Os dois estão agindo como crianças agora! Senta lá, Oliver, e conversem. ― Empurrou minhas costas em direção à Felicity.
― Mas, mãe...
― Donna… ― tentamos argumentar ao mesmo tempo, mas fomos interrompidos.
― Nada de "Donna" e "mãe" pra cima de mim! Vão sentar e conversar como duas pessoas adultas, sempre fizeram isso, qual o problema agora? ― Pegou sua bolsa em cima do aparador e encaixou a alça no ombro. ― Estou saindo com a Sara, ela prometeu ontem me mostrar Star City e talvez vire minha enteada até o fim da noite, e vocês dois, conversando! E depois, caprichando no sexo de reconciliação, é uma ordem! Até amanhã. ― E saiu batendo a porta.
Sentei em um canto no sofá, mordendo a unha do polegar, enquanto Felicity brincava passando o indicador pela borda da própria taça.
― Eu estava certo sobre Lance e Donna. ― Ouvi uma daquelas suspiradas fundas, que ela só dava quando estava chateada. ― Tanto faz. Posso pegar um pouco desse vinho pra mim?
― Não.
― Okay. ― Recuei, fazendo uma careta, puxando a celular do bolso, sem nada para fazer nele, apenas para não parecer desocupado.
Ficamos a hora seguinte em silêncio. Quase puxei assunto meia dúzia de vezes, mas desistia, até que foi ela a iniciar a conversa. Eu já estava bem mais calmo a esse ponto, nem lembrava direito o motivo inicial da briga, só não podia dar o braço a torcer.
― Desce aqui, por favor ― pediu, indicando o lugar no chão ao seu lado. ― Vai me contar por que não quer fazer a prova pra sargento? ― E está aí o motivo.
― Por que insiste tanto nisso?
― Não dá pra ver que só quero o melhor pra você, Oliver?
― O melhor pra mim é ser forçado a ser algo que eu não quero? Fazer algo que não quero?
― Aí é que está, acho que é algo que você quer sim. ― Se virou pra mim. ― Você ama seu trabalho, por que não fazer mais?
― E ser chefe do Tommy? Passo.
― Seu amigo se atiraria de uma ponte se você pedisse, todos sempre te seguem como líder. O que é, de verdade?
― Ah, Felicity… E se for fazer essa prova e não passar? Vai ser frustrante! Você não sabe disso porque tem um QI tão acima da média que nunca reprovou em nada na vida.
― Peixinho... ― Suavizou o tom, pegando minhas mãos. ― Você é capaz, mais do que se dá crédito. Okay, aí vai… Me desculpa por ter forçado a barra. É só que você não se vê como eu te vejo, na minha cabeça, meu marido lindo consegue fazer tudo.
― Tá viajando, hein, babe? Quer dizer, eu amo resolver mistérios, a adrenalina do serviço de campo, mas sei lá... Liderança? ― Fiz uma careta.
― Você seria maravilhoso. ― Segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos. ― Mas se não quiser, tudo bem. Não vou falar mais nada, é sua decisão.
― Me desculpa também. ― Beijei as costas de sua mão que eu segurava. ― Eu te falei coisas horríveis antes de sair daqui, e ainda estraguei nosso jantar de aniversário.
― Vou ter que dividir os créditos disso com você. ― Torceu o nariz para si mesma. ― Quando é necessário que minha mãe me dê conselhos de relacionamento que me provem estar errada, a coisa está séria, só sou teimosa demais para admitir ― comentou com um sorriso sem graça.
― Idem pra mim.
― Como assim, esteve com sua mãe hoje?
― Sem planejar, mas sim. ― Felicity me olhou em expectativa, me pedindo para continuar, mas apenas neguei com a cabeça. ― É uma longa história, te conto tudo amanhã.
― Tudo bem.
― Olha, não quero brigar mais com você. Mas minha mãe me fez ver que talvez eu só estivesse com medo, sabe? A gente é tão bom junto, que nunca deixamos tudo tão feio quanto mais cedo, e eu só... Me perdoa.
― Se me perdoar também. ― Deitou a cabeça no meu ombro e beijei seus cabelos. Era como tirar um peso das costas e um bolo enorme do estômago. ― Vamos zerar essa noite, okay? Fingir que nada aconteceu, que você acabou de chegar do trabalho.
― É, mas já perdermos nossas reservas. ― Constatei, conferindo o relógio de pulso. ― Na verdade, o restaurante até já fechou a essa hora.
― Comemos sanduíche então, só não vamos deixar nosso aniversário passar em branco assim.
― E isso leva à minha próxima pergunta: por que ainda está usando esse vestido? Não que ele não seja lindo, ele é, só que parece desconfortável.
― É tão desconfortável! ― resmungou, escondendo o rosto no meu peito. ― Mas a droga do zíper emperrou, nem eu ou minha mãe conseguimos tirar, e não confio em Donna Smoak com uma faca ou tesoura pra cortar qualquer coisa perto da minha pele. Viu, você saiu dois segundos e eu já estava precisando de você, eu juro que quando sair desse tecido maldito, eu vou cortar ele em pedaços tão pequenos que nem o melhor mestre dos quebra-cabeças vai conseguir emendar.
― Deus, amo sua tagarelice.
Segurei seu rosto e a puxei para um beijo, mas quando apoiou as mãos em meus ombros para subir em meu colo, mais uma vez o vestido justo até os joelhos lhe atrapalhou.
― Tem certeza que não quer mais esse vestido?
― Absoluta.
Peguei um abridor de garrafas e usei a ponta fina para iniciar um corte na parte superior das coxas, descendo até o final e liberar suas pernas.
― Que alívio! ― exclamou passando uma das pernas por cima das minhas, ladeando meu quadril.
― Espera mais um pouco… ― Aproximei meu tronco do seu, usando as duas mãos para segurar o tecido em suas costas e quebrar o zíper, rasgando o que ficou inteiro do vestido. ― Consegue respirar melhor? ― questionei quando pude olhar para ela e encontrei seu olhar intenso sobre mim, uma sobrancelha erguida.
― Eu nunca me senti tão atraída por você como agora.
Felicity me encarava excitada, mordendo os lábios e quando atacou os meus, suas mãos pequenas já subiam por baixo da minha camiseta, a tirando no processo.
― Uh, esse é novo ― observei o sutiã tomara que caia preto de renda apertado e semitransparente. ― Fora. ― Atirei a peça no meio da sala.
― Victoria Secrets vai que fazer melhor para prender sua atenção, peixinho. Te amo, meu melhor amigo, meu parceiro.
Colou o corpo ainda mais ao meu, e quanto voltava a me beijar, moendo o quadril contra o meu.
― E eu amo todos os dias fazer a escolha de te amar, me entregar e crescer juntos ― parafraseei um trecho dos seus votos, seus lábios agora exibiam o sorriso mais lindo do mundo todo, quando demos uma pequena pausa nos amassos e ela sentou sobre minhas pernas, me olhando comovida.
― Awn, nosso aniversário ― falou emocionada, lágrimas que dessa vez era de alegria brilhando em seus olhos, e eu sorri, orgulhoso por ter conseguido aquele sorriso de volta para mim. ― Mas melhor apressarmos isso, se conheço bem minha mãe e suas saídas noturnas, daqui a pouco recebo uma ligação para tirá-la de alguma cadeia.
É, talvez minha mãe tivesse razão e eu havia apreendido com os erros do casamento dos meus pais. E com esforço, paciência, compreensão e muito amor, iríamos conseguir fazer isso. Afinal, eu a amava demais para perdê-la.
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