Piano e Violino.
2 Música.
Notas iniciais
Virgo podia estar treinando, mas não. Estava trabalhando na loja de seu avô, este havia pedido, portanto, não teria como recusar. Ela era simples, tinha vinis e cds antigos à venda. Alguns hipsters apareciam, porém, francamente, Virgo não gostava muito deles, a maioria nem gostava da música, compravam para decoração. Pelo menos pagavam. Observava os transeuntes do balcão e pensava no repertório para o próximo concerto. Esperava a reposta do seu produtor, com sorte, haveria mais um. Talvez fosse tocar música do movimento impressionista, seria uma escolha interessante. Lembrou dos compositores impressionistas, mas seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho da porta. Um jovem de casaco vermelho e calça jeans escura entrou no local. Virgo se lembrou dele, era Leo Nemeia. Reparou na roupa que estava vestindo. A combinação era muito boa, contudo, o relógio de ouro e o óculos de aviador eram desnecessários. Virgo levantou uma sobrancelha e imaginou que Leo ficaria melhor sem eles.
— Bom dia, posso ajudar?
— Sua presença já me ajuda, brincadeira. — riu Leo. — Eu falei que ia vir, então estou aqui.
— Hum... O que gostaria de ouvir? Vinis? Cds?
— Espere! É um álbum da Ella? — Apontou para um álbum branco que estava torto na estante.
— Droga! Está torto! — antes que Virgo arrumasse, Leo pegou o objeto.
— É mesmo! O álbum natalino! Adoro o cover dela de ‘’What Are You Doing New Year’s Eve!
— Gosta de jazz?
— Não sou muito familiarizado, sabe, porém é impossível não amar a Primeira Dama da Canção.
— Meu avô gosta muito dela, vocês se dariam bem.
— Sério? Legal, nunca conheci alguém que gostasse.
— Eu também gosto, mas só ouvi esse vinil.
— Tem outros?
— Deve ter na coleção do meu vô, no entanto ela é preciosa.
— Entendo, esse está à venda?
— Sim.
— Vou levá-lo, a minha pessoa não pode sair daqui sem comprar algo.
— Dinheiro ou cartão? — disse Virgo já no balcão.
— Dinheiro. — Leo entregou o dinheiro de uma maneira tão pomposa que deixou Virgo com uma careta esquisita no rosto, ela parecia dizer “O que você está fazendo, cara?’.
— Colocarei numa sacola.
— Pretende fazer um novo concerto?
— Sim... Isso depende do meu empresário...
— Tenho certeza que vai conseguir!
— Espero que sim. Aqui.
— Até logo, Virgo. — piscou e saiu da loja.
O pianista esperava que fosse mais um dia rotineiro, não esperava que um cara que conhecera dias atrás realmente viesse à loja. Virgo organizava sua rotina diária e detestava quando algo saía fora dos eixos. Hoje não trabalharia, entretanto, é claro que seu avô não recusaria um convite para um churrasco, sobrou para ele, é logico. O neto favorito, como diziam, pois era o único. Tudo sobrava para ele. Suspirou. Leo era bem...peculiar. Ele parecia ser convencido, fato que não agradou Virgo, contudo, dizia coisas legais. Podia contar nos dedos de quantas pessoas haviam o motivado. Quando decidiu seguir a carreira da música poucos de sua família ficaram felizes. Era óbvio que não é uma caminho fácil, porém eles nem desconfiavam o quanto a música era importante, era como um oxigênio para ele. Virgo sem a música, não seria Virgo. Por isso as palavras de Leo deixaram ele surpreso, apesar não transparecer. Ele odiava surpresas, mas dessa vez ficou confuso se gostou ou odiou ver Leo.
***
Nos fundos da loja, Virgo treinava. Havia uma porta que separava a parte comercial da loja dos fundos. Continha uma placa que avisava que só pessoas autorizadas podiam entrar. Era dia de trabalho, no entanto, ele teria que treinar. Parar jamais. Havia escolhido o compositor e o repertório, faltava treinar mais. Seu empresário trouxe a notícia de que faria mais um concerto na noite anterior, então Virgo estava entusiasmado. De repente, ouviu um barulho que devia ser da porta. Seria um cliente? Logo neste momento? Tudo ficou em silêncio, então ele voltou a tocar.
— Oi!
Virgo pegou um disco de vinil mais próximo e jogou na direção do som.
— Ei! Isso machuca! — reclamou Leo depois de ter sido atingido.
— Você me assustou!! Como entrou aqui?!!
— A porta estava aberta e entrei...
— Ninguém lhe ensinou sobre educação?! Você não pode simplesmente entrar assim!!
— Como não?!! A loja estava vazia!! Devia haver alguém lá!!
— ... Saia daqui! — Virgo engoliu a saliva, isso era verdade, mas Leo devia ter perguntado por alguém e não simplesmente ir entrando.
— Eu vou mesmo!! Mas não porque você pediu!! Ultraje. — Leo foi embora enquanto fazia barulho com pés.
— Era só o que me faltava. — suspirou Virgo e limpou um rastro de suor do rosto.
***
Faltava muito pouco, mais um treino e ele estaria pronto. Amanhã seria o dia do segundo concerto, Virgo ficou apreensivo. Ele descansava no balcão da loja, olhando o panfleto do concerto e de vez em quando, olhando os transeuntes pela porta transparente. Momentos depois, apareceu uma figura e abriu a porta. Leo. Ele estava diferente do habitual, sem aquela expressão sorridente, na verdade, na sua face tinha uma expressão cautelosa e de hesitação, como se estivesse com vergonha de falar algo.
— E-eu quero falar com você. — disse Leo.
— Pois não?
— ... — Leo ficou quieto, passaram-se dois minutos e ele ainda estava em silêncio. Virgo suspirou.
— É sobre aquele dia? Eu sei, eu sei, não devia ter jogado aquele vinil e nem ter gritad...
— Exatamente! — interrompeu Leo. — Embora eu também estivesse um pouco errado, só um pouco, em entrar daquele jeito.
— Só um pouco? — Virgo levantou uma sobrancelha e cruzou os braços. — Está bem, eu me desculpo só um pouco por ter jogado o vinil e ter gritado.
— Não! Espere! Tudo bem, não foi legal, eu não faço mais isso, ok? Foi errado ter entrado assim, mas... Eu assustei você com a minha beleza? — passou a mão no cabelo e sorriu.
— Meu deus! Não! Você é tão convencido, tenho apenas uma razão para não lhe odiar. É sério. Maneire nessas atitudes.
— Eu não sou convencido, eu me auto afirmo, eu sou demais!
— Eu, eu, eu. Que originalidade. — bufou.
— Eu mesmo, Leo Nemeia! — Leo se aproximou de Virgo e tocou nos seu ombro. Em resposta, Virgo enrolou o panfleto e bateu na mão de Leo.
— Ai! Por que me bateu?!
— Desculpe, um mosquito pousou na sua mão e quis mata-lo. — mentiu.
— E esse panfleto? — pegou da mão de Virgo. — É do seu concerto! Vai ter mais um!
— Vai.
— Viva! Vamos comemorar! — segurou as mãos do outro e as sacudiu.
— Calma! Sem contato físico! — soltou as mãos das dele. — Tenho que treinar mais!
— Oh... Tudo bem! Até amanhã!
— Você vai? — perguntou Virgo confuso.
— É claro! — disse isso e saiu da loja.
***
Ele tinha acabado de se arrumar. O traje era o mesmo do primeiro concerto. Ternos são caros, Virgo não gastaria tanto dinheiro. Teria que poupar. Esperou dizerem que tudo estava pronto e foi para o palco. Observou as pessoas, a maioria ficara em silêncio, porém existia aquelas que não se calavam de jeito nenhum. Ignorou elas e se dirigiu ao piano. O compositor dessa vez era de Debussy. Virgo amava música clássica, contudo a música moderna também era ótima. O francês Debussy é um dos grandes percursores da música moderna. Foi em 1889, na feira internacional chamada Exposition Universelle que ele teve contato com um estilo de música, a qual o influenciaria. O Gamelão. Um tipo de orquestra, sendo a maioria formada por instrumentos metálicos. A mistura de sons impressionou Debussy, era combinação totalmente diferente, algo que ele nunca havia visto. Ela não influenciou de forma direta em suas composições, mas foi o estopim para repensar no modo como compunha.
Debussy também conheceu a música de Modest Musorsky, um compositor russo, este, apesar de usar instrumentos europeus, conseguiu criar melodias únicas. Essa poderia ser uma referência direta para as composições do francês, pois era evidente que Modest quebrara os padrões. A primeira música a tocar seria Arabesque No. 2, uma das primeiras peças impressionistas na música. Atmosfera animada da música serviria como abertura. Virgo caminhou com os dedos pelas teclas. Acordes expressivos saíam do piano. Debussy teve como inspiração a natureza e a art noveau, isso era totalmente claro quando ouvia-se a música.
Com os olhos fechados, Virgo tinha a sensação de estar num parque, sentado embaixo da árvore, enquanto suas pessoas queridas riam e conversavam, até dançavam. A brisa batia em seu rosto ou pelo menos tinha a sensação. As obras do francês tinham fama de atingir cenas evocativas. A melodia suave inundava o local, trazendo alegria e tranquilidade. Necessitava de técnica para tocá-la, ela tinha uma padrão diferente do padrão clássico europeu. Logo, de forma dramática, terminou a música.
A segunda música era o prelúdio Bruyères. Ela era calma, suave, um dos prelúdios mais fáceis, seu nível de dificuldade nem chegava aos pés da anterior, apesar disso, havia os mesmos ritmos intricados e bagunçados, característicos de Debussy. Bruyères também era o nome de uma comuna francesa. Basta procurar por ela que verá várias imagens de diversas flores, geralmente nas cores lilás, rosa e amarelo. A obra aparentava ser uma representação dos campos floridos, segundo Virgo. Era uma representação de uma paisagem terna, que deixava qualquer um num estado de paz. O pianista concentrava-se e tocava com firmeza. Os sons agudos se misturavam com os graves, formando uma linha melódica agradável. Quando a música estava terminando, os acordes abafados ficaram mais presentes. E com um som polido, o qual transpôs um grave, ela terminara.
Virgo esticou os dedos. Minuto depois, iniciou a próxima canção. Prélude à l'aprés-midi d'un faune. Essa música marcou a música moderna. O compositor usou o poema ‘’ A tarde de uma fauno’’, de Stéphanie Mallarmé, responsável pelo que consideram escritor dos mais magníficos poemas franceses. Tanto o poema e obra contam a história de um fauno alegre, que corria atrás de náiades e ninfas, porém nunca conseguira atenção. Num momento de cansaço, ele deita-se e sonha que tudo que desejava era seu. Inclusive a atenção das seres da natureza. Os acordes se encaixavam perfeitamente uns nos outros, a melodia mostrava claramente a sensualidade proposta pelo poema, sendo envolvida por uma sonoridade suave e confortável, que seria a presença do carácter onírico. Essa obra em especial, rompeu conceitos da tonalidade da época, motivo de ser um marco. Cada movimento mostrava as emoções do fauno e as paisagens por onde ele passava, todas elas sendo iluminadas pelos raios brilhantes da tarde. No final, há só o descontentamento do fauno, despedindo-se das ninfas de seu sonho. E com um toque suave, existe apenas o silêncio do pianista.
Virgo levantou-se e olhou para a plateia, que antes não olhara. As expressões das pessoas estavam diferentes do concerto anterior, algumas estavam um sorriso calmo no rosto e outras pareciam querer dormir. Ele avistou Leo em uma das fileiras e percebeu que Nemeia se levantava.
— Virgo!! Uhul!! — gritou Leo.
Suas orelhas pareciam queimar de tão quentes e tentou esconder o embaraço, uma pena que não podia gritar com ele dali. Respirou fundo e agradeceu, fazendo reverência, no momento seguinte, caminhou até as cortinas, desaparecendo aos olhos do público. Nos fundos do local, Virgo se encostou numa parede. Seu corpo estava suando e ao mesmo tempo estava gelado, era o segundo concerto e agia dessa forma, se achava patético. Olhou para suas mãos e percebeu que elas tremiam, então as apertou com a intenção de que o sangue circulasse melhor e elas ficassem quentes. Por que ele escolheu música? Virgo não lidava com sentimentos muito bem, portanto, por que escolher o piano? E foi aí que ele se lembrou.
No dia em que ele tocou o instrumento pela primeira vez estava de mal humor. Seu primo, Sagitário, bagunçara toda sua coleção de brinquedos. Recordou que desceu das escadas e notou o piano próximo a ela. Seu tio sempre tocava piano e ele fazia alguns barulhos esquisitos e lhe davam sustos. Virgo Erígone pensara pouco e decidiu tocar o piano. Foi uma tentativa falha de tocar Chopin, mas... Ele não sabia explicar, porém se conectara com os sons e melodias. Erígone achara uma nova amiga, a qual seria inseparável e que nunca o aborreceria.
— Acho que vou me trocar e ir embora daqui. — suspirou.
Colocou um moletom cinza e depois saiu do local.
— Oi!
— Oi, Leo?
— Você não assustou dessa vez.
— Acho que estou me acostumando. — disse dando de ombros.
— O que?! Então permite que a minha pessoa fique ao seu lado?!
— Cale-se, idiota!
— Vamos, responda! — Virgo ficou em silêncio.
— Vamos, por favorzinho. — continuou Leo, fazendo olhar de gatinho abandonado.
— Faça o que quiser, não mando em você.
— Hehehe... A apresentação foi magnífica como sempre!
— Você acha? — de repente sua atenção voltou-se para Leo.
— Eu juro por minha palavra! Eu... Nunca tinha visto uma interpretação tão perfeita, calma... Isso é irresistível para mim... — Erígone arregalou os olhos surpreso. — E pensando bem, você também é.
— Deixe de brincadeiras. — deu um beliscão na orelha de Leo.
— Ai! Cuidado! — reclamou da dor. — Mas é verdade!
— Sei. Não vai para sua casa?
— Vou não, estava pensando ir na loja do seu avô.
— Mais problemas... — suspirou.
— Ei! Todo mundo me adora e você também. — encostou-se em Virgo, que o afastou logo em seguida.
Assim, continuaram com as implicâncias e apenas pararam quando se separaram.
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