Physis

13 Capítulo 13 - A Noite das Lanternas


Notas iniciais
Soundtrack: "Midnight City" - M83 / "Skyfall" - Adele

Esta era uma daquelas noites calmas e frescas em que se podia ver a Lua muito próxima da órbita, iluminando boa parte das áreas que não eram cobertas por tetos ou marquises. O castelo e o lago de Floratta ficavam na parte mais alta do reino, enquanto o resto da cidade crescia em camadas descendentes ao seu redor, assim como as belas cerejeiras, que eram presentes em quase todos os lugares, e espalhavam lindas e pequenas pétalas rosadas por todo o reino como pequenos flocos de neve toda vez que ventava um pouco mais forte.

As carruagens reais seguiam viagem saindo do castelo e adentrando cada vez mais nas camadas seguintes do reino. Inicialmente viam-se casas de um bom tamanho que eram razoavelmente separadas umas das outras, geralmente feitas tijolos ou de uma madeira avermelhada abundante no reino. As casas das camadas superiores eram quase sempre bem iluminadas pelo Sol, os telhados eram côncavos com telhas resistentes, e suas extremidades eram compridas e pontudas. Conforme ia-se descendo, as casas ficavam mais unidas, e eram construídas em formato de blocos acoplados às paredes rochosas e internamente esculpidas da montanha, e gradualmente adquiriam um brilho prateado e ferroso em razão de um minério usado para reforçar sua estrutura. As camadas inferiores também eram as menos iluminadas tanto durante o dia quanto durante a noite devido à proximidade de montanhas vizinhas, assim, determinados trechos estavam sempre nas sombras.

Selene raramente saía do castelo e, portanto, não conhecia realmente seu reino, ou como as pessoas viviam, embora soubesse que o Rei o administrava bem e todos viviam em relativa abundância. Dessa forma, sempre que ela precisava fazer uma viagem ao exterior, aproveitava o trajeto até o lugar tradicional da cerimônia de despedida para observar como as pessoas se adaptavam às diferentes alturas e regiões do reino, e como a luz e a sombra interagiam de maneiras diferentes a cada metro que percorriam.

A carruagem balançava um pouco no terreno feito predominantemente de pedra, e Selene sabia que logo atrás deles parte da frota os escoltava, mas era impossível enxergar devido à escuridão cada vez mais intensa. Tradicionalmente a cerimônia de despedida acontecia na última camada do reino onde a luz da Lua conseguia tocar, era a chamada "Noite das Lanternas", pois desde muitos séculos atrás, a família real se dirigia até aquele local, e os cidadãos traziam lanternas de papel de todos os tamanhos, geralmente esféricas ou em formato de cone, abertas em cima e embaixo, dentro das quais era ascendida uma pequena vela, e então soltam-nas em pleno ar como pequenos balões brilhantes e luminosos, que sobem no ar até perderem-se de vista.

Mas aquela noite estava diferente. Tudo estava escuro, quase não havia tochas para indicar o caminho, e mesmo as pessoas das camadas inferiores, que costumam usar acessórios fluorescentes, praticamente não se destacavam do domínio das sombras. Um arrepio passou pela espinha de Selene. Medo. As pessoas que normalmente estariam levando leves lanternas de papel em suas mãos, agora ficavam em círculo em volta do que sobrava de luz lunar, que servia de holofote para a ocasião, carregando pequenos baús negros que não deveriam ter mais de 30 cm de largura e a maioria das tochas de sinalização foram apagadas.

– Por que está tudo tão escuro, Al? — perguntou ela, mas antes que ele pudesse responder a carruagem parou e suas portas se abriram.

Desceram primeiramente seus pais, depois ela e Albert e por fim o Rei e a Rainha. O Rei, na idade 80 e poucos anos, em seus trajes militares tinham detalhes dourados que contrastavam com a cor azul marinho usava também seu manto real vermelho e tinha longos cabelos intensamente castanhos com predominância de uma cor prateada em determinados trechos que lhe caiam belamente passando dos ombros e chegando até o meio das costas. Seu semblante normalmente sério era acompanhado de traços fortes destacavam-lhe os olhos intensamente azuis que reforçavam seu ar de autoridade.

A Rainha, com 70 anos, era a definição de perfeição e elegância. Sua bela pele alva era impecável de modo que nela nunca existiu qualquer tipo de marca, mancha ou cicatriz, fazendo-a aparentar ser no mínimo 10 anos mais jovem. Os cabelos eram negros e brilhantes como a noite enrolados com fios prateados numa trança que chegava quase à cintura de seu vestido turquesa aumentavam sua beleza e ressaltavam seu sorriso branquíssimo e alegre. Tal conjunto de características tão harmônicas era admirado pelo povo, que considerava-a a mais bela Rainha dos últimos séculos.

Selene saltou da carruagem com pressa, olhando para a escuridão em volta de si e alcançando seu avô.

– Vovô, por que as coisas então diferentes?

O Rei tomou a frente e guiou seus familiares para o holofote natural de luz.

– Queria fazer uma surpresa para você — disse ele — Ouçam todos! Selene irá para Falcon tentar um acordo de paz! Nosso povo viveu em paz por muitos séculos numa terra em que a comida e o trabalho são abundantes! Mas agora isso mudou... As coisas estão diferentes... E é perigoso lá fora... Por isso eu lhes digo que quando esses portões se fecharem todos devem proteger-se! Tempos difíceis virão! E até lá... Que a Princesa faça boa viagem! — E mais reservadamente ele aproximou-se dela e disse "Nós amamos você".

Todos os que carregavam os pequenos baús deram um passo à frente e abriram suas tampas. Lentamente um pequeno brilho começava a resplandecer de dentro de cada baú, começando a flutuar lentamente para cima. Criaturinhas arredondadas e translúcidas começavam a levitar na brisa, balançando levemente seu curtos tentáculos, contraindo-se e expandindo-se delicadamente para mover-se pelo ar.

– O que são essas coisas? — perguntou Selene olhando em volta maravilhada com os pequenos seres fluorescentes em todas as cores e mais leves do que o ar.

– São "bestas atmosféricas" — disse Albert — Há muito tempo, antes da Guerra Branca, essas criaturas eram chamadas de "medusas" e viviam no fundo dos grandes oceanos. Depois da Guerra sua estrutura genética se modificou e alguns povos inventaram uma maneira de criá-las na superfície. E o Rei conseguiu estas para você.

– Elas são incríveis! — respondeu ela enquanto as bestas deslisavam pelo ar, subindo cada vez mais.

Todos observavam as criaturinhas irem de encontro ao céu em estado de pura admiração e fascínio, e então, quando não era mais possível diferenciá-las das estrelas no céu, soou a corneta real e os pesados e resistentes portões do reino se abriram. Selene abraçou rapidamente cada membro de sua família.

– Amo vocês. — disse ela.

Era hora de partir.