Phrenesis
8 Two For Tragedy
Notas iniciais
o título do capítulo é o nome de uma música do nightwish, pra quem quiser. :3 obrigadaaaa
O sol invadia delicadamente o quarto pelas frestas da janela que permanecia ao lado de uma das camas do dormitório. Eu estava acordando, os olhos embaçados indicavam-me que eu não estaria dormindo na minha cama, e sim na de Bert. Eu não estaria entendendo bulhufas se alguém não começasse a afagar minha cabeça delicadamente. Aqueles dedos ágeis trouxeram junto com o contato dócil, as lembranças horrorosas da noite passada.
Aquilo fora praticamente um estupro. Digo, eu sabia, ainda mais agora, que não estava em meu estado normal. Fazia dias que eu não bebia meus remédios – era fácil enganá-las. Colocava-se os comprimidos do tamanho de um navio do embaixo da língua, elas mal checavam direito – porque me sentia incomodado, lerdo mais que o comum o tempo todo, e de um certo modo, sujo. O fato de ter que me medicar pelo resto da vida era sombrio, e até agora eu não tinha tido nenhum ataque.
Será que isso fora sorte?
Voltando, aquilo estava completamente errado. Eu não estava completamente consciente, e merda, Bert sabia disso. Quem me influenciara a fazer aquilo – rejeitar os remédios – fora ele. Eu não aceitei porque gostava dele, aceitei porque precisava de contato carnal, precisava descontar meu nervosismo, me aliviar. Não passava mais que o obsceno prazer pela carne.
E Bert parecia realmente me querer. Aquele contato – bom, ótimo se fosse por outras mãos – estava me deixando enojado. Eu não o queria, os fatos me davam um tapa na cara, mas meu coração sempre mandou. E esse órgão pulsante me dizia que ele não era a pessoa certa. E eu queria acreditar nele.
- Para com isso, por favor. – Sussurrei, logo em seguida saindo da cama.
- O que foi? – Bert sentou-se com uma expressão confusa, querendo explicações.
- Nada. Isso não está certo e você sabe disso. – Expliquei, pontualmente, catando minhas roupas jogadas no chão, enquanto ele cruzava os braços.
- Não fora o que parecia ontem, princesa. – Ele se levantou e me cercou com os braços, encaixando o queixo entre meu ombro e pescoço.
- Eu estava afetado e você sabia disso, imbecil. Você se aproveitou de mim. – Retirei seus braços, seco, querendo que aquilo terminasse logo. Meu sangue já estava subindo e minha paciência estava curtíssima para tolerar aquele otário.
Só não achei que aquilo ficaria tão sério. Ele me empurrou violentamente em direção à porta, causando um baque (e muita dor). Gemi fracamente e ele se aproximou de mim, com um maldito sorriso de escárnio invadindo aquele rosto idiota. Ele estava se preparando para me socar.
- Eu não me aproveitei de você, eu realmente te adoro. Mostre que o sentimento é recíproco. – Ele estava aproximando seu rosto ao meu. Em um momento eu pude sentir sua respiração batendo em mim, contudo eu não iria ceder. Como não tinha escape, eu apenas desci a mão para a maçaneta e a puxei, deixando que a força de nossos corpos tensos abrisse a porta. Eu cai de bunda no chão, mas Bert ficou de pé, oferecendo uma mão.
- Filho da puta, eu não quero sua ajuda e muito menos o seu amor. – Levantei por conta própria e saí correndo. Não sabia para onde e estava indo, eu só queria ficar longe dele.
Eu continuaria andando – não sei pra onde – se não fosse ele invadindo meu caminho de supetão. Pousou as mãos no joelho para recuperar o fôlego – estava correndo atrás de mim – e pediu para que eu parasse para ouvi-lo.
- Olha, se você sair correndo desse jeito, tudo vai piorar. As enfermeiras vão notar a confusão, e já sabe o que vai acontecer. Quem sabe alguns dias no segundo andar. – Disse baixinho, olhando de soslaio.
- Okay. – Eu estava me coçando parar perguntá-lo porque diabos do nada Frank vem e volta a conversar comigo como se nada tivesse acontecido, contudo seus olhos amendoados temerosos pediam para que eu deixasse aquilo quieto.
- Não se preocupe, Bert se trancou no quarto com Ronnie, provavelmente não quer mais conversa. – Puxou os lábios, nervoso, desviando olhar para o chão. – Era só isso, mesmo.
Meneei a cabeça e voltei para o meu quarto sem questionar Frank. Eu me sentia em uma maldita mansão mal assombrada, cheios de loucos temperamentais (eu era um deles) andando de um lado para outro com o único e específico objetivo de me enlouquecer. Eu já estava achando que tudo aquilo era uma pegadinha.
Praticamente me joguei da cama, desejando nunca mais sair dali. Mesmo que o café da manhã provavelmente fosse daqui a pouco, tínhamos acordado muito cedo. Aliás, eu acordei.
- Bert está aí? – Eu, distraído nem percebi o garoto se aproximar. Era Quinn, ele estava apoiado na batente da porta, e seu olhar era puramente inocente. Talvez até mais que Frank. De um modo, isso me assustava. E fez com que meu estomago desse um nó e minha garganta fechasse.
Bert tinha-o traído e era por minha causa. Não importava se o amor era recíproco, ainda era traição e tinha-se que mostrar o mínimo respeito pelo loiro, ele merecia. Coisa que eu não fiz. Nunca tinha me sentido tão sujo na vida. Eu sou um merda, mesmo. Não tinha porra de relação nenhuma e ainda tinha que estragar a dos outros. Ponto pra mim.
- Não. – Hesitei em falar qualquer coisa com ele, contudo, falei. – Uh, Quinn, você pode descartar esses comprimidos para mim? – Talvez se eu mudasse de assunto ele esqueceria o que aconteceu mais cedo. Frank e Quinn estavam presentes quando eu abri a porta do quarto, iam em direção desse quarto, fazer sei lá o quê. Provavelmente algo com Bert.
E bem, eu realmente precisava descartar aqueles remédios. Se soubessem que faziam dias que eu não estava tomando, como Frank – e todos os outros disseram – quem sabe o que fariam comigo, uh? Aquele bando de insensíveis tratando-nos como animais selvagens, urubus com fome. Não gostava da ideia de ter que usar aquelas correntes de couro.
Deus estava agindo como uma vadia naqueles tempos. Uma biscate, uma Drag Queen, algo que quisesse chamar bastante atenção. Mas só a minha atenção, porque o universo conspira contra mim. Algum ser superior cochichou na orelha de Deus “Hey, tá vendo aquele branquelo azedo ali? Por que você não o deixa mais puto do que está? É muito, muito divertido. Vá em frente, colega”, e então aposto que ele se vestira com um vestido rosa pink todo cheio de glitter, alfinetando-me invisivelmente, só esperando para o dia em que eu explodir e me suicidar. Aí o resto fica com o demônio que também aposto que seja uma vadia travesti, esperando para eu descer, assim ele ia começar a me enfeitar com boás, glitter rosa, calça de oncinha, etc.
- Bert? – A voz suave de Quinn me tirara da linha de raciocínio (Eu filosofava horrores). Naquele momento ele pousava suas mãos na palma de uma das minhas, com os comprimidos, e seu rosto estava virado para a porta. Eu mal percebi ele se aproximar.
- Ah Quinn, me dá um tempo. Não te aguento mais, na verdade nunca te aguentei. Sempre foi porque você é gostosinho. – Disse, aparentemente cansado, pousando uma das mãos na testa.
E aquilo fora extremamente rude e frio. Bert estava sendo... Bert, por sinal. Entretanto mesmo ao decorrer de todo aquele tempo convivendo ao seu lado, aquilo ainda me irritava. E como se tratava de Quinn, um garoto tão frágil e inocente como ele, aquilo me irritava mais ainda. Porque porra, ele não tinha feito nada, nada. Ele, como nenhum de nós não merecia nem um pouco estar aqui. Não era culpa dele, ele deveria ser extremamente poupado. E Bert fazia aquilo, como ele faz com todos, como se fossemos obrigados a servi-lo, agradá-lo, para depois sermos descartados como qualquer lixo hospitalar aqui.
Os olhos de Quinn imediatamente começaram a ficar marejados. Por Deus, dava para perceber a luta interna do garoto, e a parte mais frágil estava ganhando, óbvio. E quando seus lábios inconscientemente começaram a formar um bico, Quinn saíra correndo aos tropeços corredor afora. Naquele ponto, se fosse comigo, ou eu estaria chorando horrores ou eu estaria matando meio mundo.
- Você é ridículo. – Disse, querendo esbofeteá-lo até que não sobrasse nenhum dente de sua boca que saia tantos risos sarcásticos.
- E você é mais ainda. Não se deixe enganar por um rostinho bonito. Ele mereceu, tanto quanto você, tanto quanto eu. – Disse, enquanto abaixava-se para alcançar minha mala. Minha mala?
- Você está falando merda, Bert, e o que você está –
- Achei. É isso aí princesa, você acha mesmo que eu não sei que você guarda bebida aqui? – Apontou para a mala e para a garrafa que estava em uma de suas mãos. – Você esconde muito mal, teve sorte das vadias não terem pegado. – Abriu e deu um gole gigante.
- Eu não acredito que você não me aceitou. Mas olha, eu não vou desistir, quero que saiba disso. E ah, a garrafa vai ficar comigo, okay? – Bert, após outro longo gole enfiou a garrafa entre o estrado e o colchão de sua cama e saiu despreocupado, sei lá pra onde.
E eu, me joguei na cama. Querendo dormir para sempre.
Notas finais
ps: preparem os lenços pro próximo capítulo muahahahaha
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