Phrenesis
11 Rebirth
Notas iniciais
queria desculpar se a formatação estiver errada :/
esse cap moxtra o passado do gerd e etc.
Eu sei o que eu estava fazendo naquele exato momento era extremamente gay, mas eu não conseguia evitar. O sol estava começando a invadir preguiçosamente o quarto pelas frestas da janela. Eu não sabia direito que horas eram, mas pelo silêncio, todos ainda estavam dormindo. Inclusive Frank.
E era isso que eu estava fazendo, encarando-o como se ele fosse a coisa mais interessante no momento. E de fato, era. Eu estava com um caderno e um lápis em mãos, fazendo um esboço dele. Era engraçado como a sombra o marcava, fazendo com que sobre seu corpo houvessem listras amarelas por causa do sol, e vez em quando as listras se moviam devido a sua respiração calma. Ele parecia estar em um sonho terrivelmente pesado e tranquilo, e eu agradecia, porque seria mais fácil desenhá-lo.
Frank era muito bonito. Ele não tinha uma beleza comum, fácil de ser vista. Era uma beleza alternativa, inclusive com seus piercings e seu corte de cabelo estranho. Mas isso não chegava nem aos pés de sua beleza interior. Eu me pegava pensando toda hora no tanto que ele sofreu para chegar aqui, e mesmo assim continuar sendo limpo e sincero. Uma pessoa que teve tamanhas dificuldades em sua vida geralmente logo depois se tornaria no mínimo fria e ranzinza. Todavia Frank não era assim, era visível que ele se esforçava o máximo para tentar ser feliz. É óbvio que ele não era de todo forte, cometia seus erros. Porque ele era humano, e sempre estaria em seu direito de reclamar, só pelo fato dele ser Frank. Se eu estivesse valorizando-o demais, com certeza ele merecia.
Ele se moveu, ficando de barriga pra cima. Bocejou, e com os olhos ainda fechados começou a se espreguiçar. Naquele momento eu não sabia se ele despertara ou não, então decidi não dizer nada para não parecer um completo idiota.
- Bom dia – Disse entre os bocejos, baixinho. Sua voz estava mais grossa que o comum, pela falta de uso. Ele estava me espionando?
- Como você sabe que eu estou acordado? – Questionei.
- Ter esquizofrenia tem suas vantagens! – abriu os olhos de uma vez, sem frescura. Mas abriu bem mesmo, me encarando com aquelas íris cintilantes, como se eu fosse difícil de enxergar. – Quando eu tenho ataques alguém começa a me perseguir – disse, como se alguém o seguisse de verdade -, então meus sentidos ficam mais sensíveis, principalmente audição e visão. Deu pra sentir que você estava acordado. – Percorreu os olhos sobre o meu caderno.
Esqueci de esconder.
- Que isso? Um daqueles cadernos que o Brian dá? – Sentou, interessado no que eu segurava. Levantou a cabeça para que pudesse ver melhor e sorriu de leve – Ah, é um desenho... esqueci que você era um artista.
E por algum milagre nossa conversa fora interrompida por um Brian eufórico. Queria abraçá-lo e agradecê-lo por aquele momento. Se não fosse ele, Frank provavelmente veria o que eu desenhei.
- Frank, depois de se arrumar, quero que você vá ao escritório do Sr. Wood explicar o que aconteceu... ontem. Depois quero te ver na sala dos segredos, vocês e os meninos farão um exercício hoje. Tudo bem? – Disse enquanto recuperava o folego encostando uma das mãos na batente da porta. Frank olhou com receio mas meneou a cabeça, de qualquer jeito.
- Não se preocupe, não vai acontecer nada com você. – Ofereceu um sorriso logo depois. Imaginava a correria daquele lugar depois do que aconteceu ontem. Péssimo.
Após isso Brian fechou a porta e nos deixou as sós novamente. E eu estava lá, com aquela cara de bobo encarando a porta, até que senti um puxão na mão. Frank tinha acabado de pegar meu caderno. Ai, Deus.
Ele estava folheando aquilo tudinho com um semblante pervertido. Ora lia minunciosamente cada palavra, ora pulava as páginas e fazia uma cara estranha para alguns desenhos. E eu ali, me remoendo por dentro.
- Você ainda não me contou sua história. – Juntou as sobrancelhas, mostrando um esboço terrível: Uma banheira com um líquido espesso. Olhei pra ele, com um sorriso lamentoso. Não era uma boa história.
- Não é daquelas para fazer uma criança dormir, sabe? – Disse, meio abalado. Eu odiava lembrar daquilo.
- Não se preocupe, eu não estou com sono. – Disse, tentando me convencer a contá-lo. E eu ainda não achava uma boa ideia. Juntei as sobrancelhas, esperando que ele entendesse. Peguei o caderno de suas mãos e fechei.
- Não é curiosidade, eu quero te ajudar. Como eu posso fazer isso se eu não sei o que aconteceu? – Sussurrou, olhando para os meus... lábios. – Confie em mim.
Frank pousou uma de suas pequeninas mãos sobre a minha, com cuidado. Seu olhar revezava entre minhas pupilas e meus lábios. Estava cada vez mais perto. Uma onda elétrica percorreu minha espinha quando senti sua respiração descompassada, porém leve, bater sobre meu rosto.
E então, de um segundo para o outro, pude sentir seus lábios nos meus. Quando diziam sentir borboletas no estomago, ou o mundo inteiro simplesmente desaparecer, eu não acreditava, porque nunca tinha sentido. Mas só agora com Frank eu pude entender como isso funcionava. Meu mundo inteiro tinha parado. Nesse tempo, não me importava com segunda guerra mundial, com as merdas de Bert ou com qualquer outra coisa. Frank era o que valia.
Seus lábios eram macios, quentes, reconfortantes... era único, real. Eu conseguia senti-lo, era sincero. Inexplicável. Bom demais.
Ele pousara sua mão tatuada no meu rosto, me acariciou um pouco e foi em direção à nuca. Contudo ao invés de aprofundar o beijo, ele mordeu meu lábio inferior e se afastou, sem tirar a mão dos meus cabelos.
- E então? – Disse, e eu ainda poderia sentir sua respiração. Não sei como Frank não ouvira meu coração; até agora estava acelerado para caralho.
- Tudo bem — Concordei. – Você venceu.
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ele simplesmente riu e deitou a cabeça no meu colo, de mansinho, olhando para mim.
- Como você espera que eu consiga falar uma coisa com você aí? – Não que isso me incomodasse. Na verdade incomodava, mas não porque eu o queria longe, mas sim porque eu não sabia lidar com a situação. Quer dizer, era Frank no meu colo. Eu estava quase tendo um infarto.
- Com a boca... – Respondeu, maroto. Rolei os olhos e comecei a afagar seus cabelos de leve, entrando na dele.
- Meu pai meio que nos abandonou quando eu era novo, deixando eu e meu irmão nos cuidados da minha mãe. Ela não nunca fora nada legal, era superficial e completamente babaca. Donna saia o dia inteiro, nunca nos dava atenção e sobrava para eu tomar conta de Mikey. Eu a odeio.
Eu perdia a vida indo para as ruas, beber, usar drogas, foder com alguém... era o que eu fazia quando eu não estava pintando. Minha vida sempre fora uma merda, e essas coisas me distraiam. E como sempre, mamãe não apoiava. Ela ria de mim, falando que eu não iria a lugar nenhum pintando. Então seria mais fácil se eu me drogasse.
Certa vez quando Donna tinha nos deixado novamente por um longo tempo, aconteceu algo que arruinou a minha vida.
Flashback
Calcei um tênis surrado e botei um sobretudo. Não ligava para aparência, contudo estava frio e eu não queria ser reconhecido. Era para eu ficar cuidando de Mikey, obviamente que minha mãe tinha saído de novo. Mas eu sei que ele se virava bem, então era só eu fazer o menor barulho possível e esperar que ele estivesse com a atenção naquele vídeo game idiota.
Abri cuidadosamente a porta do meu quarto e andei sorrateiro no corredor. Mas pfft, nem o começo do meu plano deu certo. O imbecil com uma cueca do Homem-Aranha estava no banheiro, pronto para tomar banho. A banheira estava cheia e havia um patinho de borracha flutuando ali.
- Onde você pensa que vai? – Começou com o sermão. – Era para você tomar conta de mim. – Mikey era cinco anos mais novos que eu, todavia bem mais responsável.
- Nah, você não precisa disso. Não me atrapalhe, okay? – Eu queria ser paciente, porque ele era chato e iria dedurar com certeza. Minha vontade era de estourar a cabeça dele.
-Claro que eu vou te atrapalhar, e contar pra mamãe. Assim você vai ficar de castigo e nunca mais poder sair de casa. – Respondeu ele, com o braço cruzado.
-Sério, não me faça perder a paciência, que já está curta. Eu vou sair daqui e você não vai falar nada. – Apontei o dedo para ele, saindo. Mas quem disse que ele calou a boca?
- Ótimo. Vá lá fumar uma de novo, porque você é fraco. E vagabundo. Você nunca vai sair dessa, Way? Às vezes eu tenho nojo de você. Não era pra ser assim.
Então a pura raiva me possuiu quando a última sentença fora dita. Meu próprio irmão falando aquelas coisas para mim? Aquilo não estava mais beirando ao ridículo, ultrapassava todas as barreiras aceitáveis. Ele não podia falar naquele tom comigo, porque eu era o mais velho e ele tinha que me respeitar. Bastou apenas um passo para que eu agarrasse sua cabeça com as mãos e o impulsionasse para trás, fazendo com que Mikey escorregasse no tapete molhado e batesse a cabeça na quina da banheira.
- Você não entende – disse, com a voz embargada. – Ninguém nunca vai entender. — Juntei as sobrancelhas, olhando-o.
Ele me encarou com desprezo, mesmo que soubesse que eu poderia fazer coisa muito pior. Sua cabeça estava encharcada de sangue. Aquilo deveria ter doído pra caralho.
- Eu entendo sua fraqueza, eu entendo isso – Apontou para o machucado. – Você não é normal, mas não é por isso que você precisa ser de todo um babaca. Era para você ser meu exemplo.
- Você simplesmente poderia não existir – Comecei a chorar. De raiva, de ódio, de tristeza, de tudo. Eu queria matá-lo estraçalhá-lo e depois fazer o mesmo com a minha mãe. Por que ele não cala a boca?
Puxei sua cabeça pelos cabelos loiros e o guiei até a banheira cheia, jogando-o lá dentro. Quanto mais o filho da puta se debatia, mais eu o afundava. Ele tentava gritar, mas obviamente não conseguia. E entre as lágrimas, eu estava adorando tudo aquilo.
A sensação era deveras agradável: Ter total poder sob uma situação. Violência, esse é o único jeito de fazer alguém te respeitar completamente. Por mais que alguém te admire, você não terá controle sobre ela. Mas se você tiver uma arma em mãos, pode-se fazer maravilhas.
Eu socava sua cabeça para mais fundo e a água começava a adquirir um tom escarlate devido ao machucado de sua cabeça. E por meio daquilo tudo, ele começou a se enfraquecer. Os braços que antes se debatiam com força na superfície acrílica, agora apenas davam conta de agitar a água suja.
Mikey foi aos poucos desistindo. Às vezes inventava de tirar minha mão de seus cabelos, mas não conseguia. Ele estava fraco demais, perdendo a noção no meio de seu próprio sangue, engolindo aquele líquido nojento, tossindo, se desesperando, misturando sangue, água e choro.
E pouco tempo depois, eu tive A epifania, mas quando eu notei o que estava fazendo, era tarde demais. Era tarde demais para tudo.
Eu retirei o seu corpinho pálido da banheira e o estendi no chão, chamando-o dezenas de vezes, tentando reanimá-lo a qualquer custo, dando tapas, gritando, chacoalhando-o. Mas nada, claro. Porque Deus era um filho de uma puta, e milagres não existiam.
O que eu fiz foi deitar ao seu lado, me molhando, caindo aos prantos.
Mikey estava morto. Eu tinha o matado. Eu tinha matado a única pessoa que um dia já se importou comigo. A única pessoa que eu podia contar, a única pessoa que me amava realmente. Eu tinha matado minha esperança. Meu mundo caiu.
Fim do flashback
- A última vez que eu vi seus olhos brilhando, foi por causa do choro que eu o causei. – Sussurrei, deixando as lágrimas escaparem. Eu sei que o rosto de Frank também estava molhado, porque as gotas pingavam em sua bochecha, abaixo de mim. Ele não se incomodava.
Frank estendeu a mão para cima e começou a limpar meu rosto inchado com o polegar, esperando que eu me acalmasse.
- Eu queria dizer tanta coisa pra ele, mas não pude. – Disse entre soluços – Eu nunca vou me perdoar por isso. Ele só queria o meu bem.
- Você sabe — Ele levantou cuidadosamente e envolveu seu braço em minhas costas. Suspirou e ficou encarando um ponto fixo no espaço, sem realmente estar olhando –, Não podemos trazê-lo de volta. Mas... você sabe que ele só queria seu bem, hm? Então é isso que vamos tentar fazer. Seguir seu tratamento, e dessa vez tomando todos os remédios necessários. Mesmo que esses te deem cansaço e sintomas nada legais, no fim tudo vai melhorar. – Disse com cautela, esperando que eu entendesse o sentido de tudo – A gente precisa espantar o fantasma do passado que habita sua cabeça e não te deixa ser feliz.
- É... eu acho que sim. – Ofereci um sorriso, que meio que concretizava nosso “acordo”. Eu estava aceitando sua ajuda sem dificuldades a partir de agora. Minha mente estava começando a piscar depois de um cansaço terrível. Eu ainda me sentia culpado por Quinn, e então eu faria isso pelos dois. Era o único jeito, eles não voltariam. Então eu tentaria de tudo para honrá-los.
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