Phrenesis

10 Now That You're Dead


Notas iniciais
GENTE desculpa a demora ok? tô aqui derretendo com os comentários, obrigado suas LIMDA.
Gente gente o título do capítulo é em ~homenagem~ ao novo álbum da The Used, Vulnerable ♥3 Corre gente, uma música maravilinda atrás da outra, tá demais, vem gente.
Esse cap. tem revelações uuuh

Cada um partiu seu caminho. Frank ficara quieto durante o percurso inteiro, vezes me esbarrando. E por isso eu achei que ele estava chamando involuntariamente por contato. Passei lentamente meu braço ao redor de seu ombro, deixando-o surpreso, mas não relutou. Não era um abraço com segundas intenções, ou um abraço forçado. Era sincero. Eu acho que sabia o que ele passava, e eu tinha essa vontade de ajudá-lo, porque eu sei que antes ele fez o mesmo por mim. Apenas continuamos caminhando, silenciosos até o nosso quarto.

Frank sentara em sua nova cama. Fez uma careta, apalpou o colchão com a mão, fez uma careta novamente. Ficou de pé, tateou por debaixo da cama o estrado velho. Pouco tempo depois estava com uma garrafa de Whisky na mão.

– Bert é incrível. – Rolou os olhos e colocou a garrafa no criado mudo.

– Na verdade quem trouxe isso foi eu, ele pegou de mim. – Eu estava envergonhado, como se Frank fosse meu pai e tivesse me pego fazendo algo muito feio. Abaixei a cabeça, em um pedido de desculpas mudo.

– Tudo bem. – Suspirou. Levantei a cabeça um pouco para poder olhá-lo, ele fazia o mesmo. Simplesmente não sabia o que dizer. Na verdade, eu queria dizer, queria esclarecer muita coisa, passar a noite inteira conversando e colocando tudo em ordem, porque eu não estava com sono. Só não sabia se era a coisa certa a fazer, e se ele queria fazer isso.

– Eu não estou com sono. – Disse Frank, se acomodando direito na cama, agora encarando o teto sujo, cheio de bolor. – Eu queria falar com você, tudo que aconteceu. É justo. – Ele proferiu, bufando. Foi como se lesse meus pensamentos. Até olhei de canto para ele, com as sobrancelhas juntas. Seria ele um tipo de vidente? Ele olhou com um semblante duvidoso para mim, como se perguntasse silenciosamente quê diabos eu estava fazendo com aquela cara. Aquele lugar me deixava assim, completamente doido.

– Nah, eu também não estou com sono. Temos a noite inteira. – Ofereci um sorriso meio amarelado, acho. Tudo para passar confiança, mas do jeito que eu sou, deveria ter o espantado.

– E uma garrafa de uísque, hm? – Disse desafiando-me enquanto levantava uma de suas sobrancelhas.

– Você está falando sério? – Falei, divertido. Não conseguia ver Frank bebendo. Ele parecia ser tão inocente para tal. Ou muito fino.

– Claro que não. – Rolou os olhos, como se a brincadeira fosse completamente óbvia a ponto de eu não ter acreditado. Rolei os olhos e ri um bocado, com Frank me acompanhando. Até que o quarto ficasse em silêncio total.

Dessa vez, não era um silêncio reconfortante, nem amigável. Era estranho, como se tivéssemos recebendo uma bronca, e eu sabia que Frank partilhava do mesmo sentimento ao ficar com as bochechas coradas.

– Isso não está certo. Eu me sinto culpado. – Disse, suspirando. Encostei a cabeça no travesseiro, e encarei a frente à procura de alguma resposta. Da voz de Frank.

– Eu acho que no fim, todos nos sentimos culpados. Quer dizer, eu também sinto culpa. Ele dormia no mesmo quarto que eu, deveríamos ser mais próximos... mas às vezes eu acabo vendo que existem coisas que não dá para evitar. Por mais que você lute contra isso, simplesmente acontece, e não há nada que a gente possa fazer. Quinn foi uma dessas coisas. – Disse Frank, com uma voz tremida (que inclusive me chamou atenção). Olhei para ele e pude vê-lo secando as lágrimas com a manga da blusa. Em sua boca rosada formava um bico infantil, involuntariamente. Eu tinha muito instinto de abraçá-lo, querer que ele parasse de chorar, mas eu não podia fazer nada. Quer dizer, eu podia, contudo seria muito estranho.

– Depois disso tudo, — mordi os lábios, tentando procurar as palavras certas – você vai se distanciar de mim novamente? Sem deixar explicações? – Era deveras curioso Frank ter se aproximado de mim – e eu dado abertura, claro – diante de uma tragédia.

– Nunca foi minha intenção distanciar, – franziu o cenho – acho que esse é o momento certo para dizer tudo, realmente. – Meneou a cabeça, passando a língua pela bochecha.

– Sou todo ouvidos – Sorri, apoiando-o. Ele sorriu de volta, fez perna de índio e suspirou, pronto para dialogar.

– Antes de entrarmos para cá eu e Bert éramos amigos, por consistência da vida, ele era meu vizinho. Bert era um daqueles bad boy sempre atazanando garotos como eu, por exemplo. Eu era alvo de bullying como tantos outros, e fora esse ponto fraco em que Bert mexera profundamente. Você deve estar pensando que ele me batia ou agredia verbalmente, mas não, fora muito ao contrário. Robert é inteligente. Percebendo minha fraqueza, ele começara a se aproximar de mim. Naquela época eu tinha 14 anos. Bert tinha 20. Por ironia eu achava que o ele me entendia. Começamos a andar juntos e eu, obviamente, comecei a dividir meus problemas com ele. Eu era muito sozinho. Era justamente isso o que o filho da puta queria. Então basicamente ele se fingia acreditar nas ilusões que eu havia, e assim ele começara a se transformar em um barco salva-vidas para mim. Não é como se tudo tivesse melhorado de um dia para o outro, mas me confortava saber que alguém pudesse me entender e até mesmo passar o que eu passava. Meus pais haviam morrido há anos e eu morava com meu tio que eu particularmente detestava. Ele era bêbado e ruim de todos os jeitos possíveis. Viver aqueles tempos com ele era um inferno, tornava tudo mais complicado que já era. Não era mais diferente dos jogadores do colégio, que me batiam até eu cair no chão com tropeços próprios. Então, Bert era a única chance que eu pudesse ter para seguir em frente.

Certo dia quando eu estava saindo do colégio, ele havia me pegado de surpresa em um dos becos que eu costumava passar para cortar caminho. O garoto me chacoalhou com olhar que praticamente sorria para mim, e pela primeira vez eu pude ver seus dentes brancos formando um sorriso alegríssimo. O perguntei o que aconteceu, porque tinha sumido e porque diabos ele estava com aquela cara maníaca. E eu em partes, nunca deveria tê-lo feito.

Bert me mostrou um pacotinho transparente cheio de um pó esbranquiçado. Minha expressão ainda permanecia a mesma, um tanto questionadora. Eu ainda precisaria de mais explicações. Eu não era tão tolo para não perceber que aquilo era cocaína, eu estive em palestras escolares sobre isso. Que nunca, nunquinha deveríamos aceitar, pois fazia um mal terrível e nos viciava e destruía nossos neurônios e blábláblá... eu só não entendia o que Bert queria fazer com aquilo.

E a única frase que eu ouvi dele fora: “essa é a sua salvação”.

Salvação? Por Deus, eu já estava morto faz tempo, só pretendia não estar. Eu era um zumbi. Só que ainda com as manias de ser O bonzinho. Perguntei porque, disse que fazia mal a saúde e que de jeito nenhum eu usaria aquilo. E tenho que admitir, Bert fora ótimo marqueteiro.

Retrucou-me com um ‘ah, isso é vida?’ ou melhor ‘fazer mal a saúde são essas tuas alucinações. Isso aqui aliviará, garanto”. Aquilo foi a perdição. O resto você já sabe, uh? Essas histórias clichês e cansativas de viciados vendendo até os pais para conseguir mais algum pó... comigo não fora diferente, vira e mexe lá estava eu vendendo os álbuns do Iron para conseguir me alimentar. Sem perceber, estava com uma dívida enorme, porque meu tio já havia desconfiado de algo, e minha situação em casa piorara. Caso despissem minhas costas poderiam claramente encontrar vergões roxos postos sobre ela feito um quadro – depressivo – e abstrato.

Aprendi a usar bala. Disse-me enquanto não fizesse o que pedisse, ele teria que por em prática a famosa frase “Não é nada pessoal, apenas negócios”. Ele mataria um zumbi, era assim que eles e seus parceiros faziam. Todavia depois de me deliciar como um urso na imensidão do esbranquiçado, eu não queria muito mais morrer. Eu tinha algo para com que viver, por que eu jogaria tudo aquilo? A droga cegara meus olhos, inebriaram meus sentidos, extasiando-os sempre. “Teremos que acabar com os males, você sabe, cortar o mal pela raiz”, disse num daqueles dias escuros, referindo-se ao meu tio calvo.

E uh, Gerard, a sensação de carregar uma arma. Deliciosa. Saber que eu poderia acabar com a alma daquele verme era o extra que deleitava minha alma.

Mas não fora assim tão fácil. Primeiro eu tinha que fazer outro serviço para ganhar a recompensa. Então eu recebi as ordens: Matar um tal de Steve. Não questionei após Bert dizer que era para pagar o que o cara devia. Eu, naqueles tempos, achava que tudo isso se resolveria: eu acabaria com a vida dele, fim. Fugia, ninguém notaria, qualquer porra. Nunca, nunca pensei que eu pararia aqui. Reaprendi que o sistema era mal. Clichê, né?

Fui de mansinho ao endereço do cara, por sorte a janela estava aberta. O resto fora facílimo: Entrar na casa, achar o procurado e meter umas boas balas naquela cabeça viciada. O cara estava lá no quarto, Bert mostrou-me uma foto sua, então seria fácil identificá-lo.

Bom, o normal seria eu sair dali correndo para caralho, hm?

Ouvi um barulho de vidro quebrando, olhei para trás e ali estava um cara branco como... a cocaína? Cabelos negros contrastavam incrivelmente com a pele – e o sangue – derramado ali.

Sabe quem era esse cara, Gerard? Era Brian. Ele estava tratando um de seus pacientes, e esse paciente devia para Bert. Não sei como, mas ele sabia que ele estaria ali naquele exato momento.

Só depois daquele olhar mórbido e carregado de desespero que recebi eu realmente tomei conta do que havia feito. Joguei a arma no chão e após isso, fiquei estático. Não corri, não gritei, fiquei ali parado, esperando que ELE tomasse alguma decisão, e não eu.

Eu não sei se acredito em anjos, mas sei que Brian com certeza não é humano. Ele simplesmente deveria acabar com a minha raça do jeito mais torturante existente, todavia o que ele fez foi me colocar aqui. Ele estava me ajudando. Sacou que eu era esquizofrênico, e ele como psicólogo e acima de tudo, bom homem, não se vingou. Eu denunciei Bert (e Bert acabou levando seu parceiro Ville junto), e deu que ele tinha sociopatia. Isso explicava o jeito frio.

E eu ganhei e perdi. Se eu não tivesse feito isso, quem sabe onde eu estaria? Eu poderia muito bem estar morto. Aqui, não por causa dos enfermeiros, mas por causa de Brian, pelas coisas infernais que acontecem aqui, eu estou aprendendo a viver da pior maneira. Mas é bem melhor viver da pior maneira que morrer, ou que matar alguém. – Naquele momento sua fala tornou-se a desaparecer pelo excesso de soluço e choro. A lua brilhante refletia em seus olhos, fazendo com que sua expressão de amargura mostrasse mais aguda a minha vista. Ele tentava recuperar a respiração normal, entretanto a tristeza o estava derrotando. E eu assistindo tudo aquilo, ainda tentando compreender tudo o que ele disse.

– Esse lugar é só pra pecador. – Disse, olhando pra mim, intensamente. Fazia com que eu me arrepiasse por inteiro. – Acho que foi por isso que Quinn se foi. – Limpou as lágrimas com a manga da blusa.

– O que você quer dizer com isso? – Perguntei.

– Quis dizer, é o Bert, Gerard. Sabe por que eu me afastei de você? Ele me ameaçou, ameaçou você. Ele provavelmente estava te usando esse tempo todo para comprar drogas. Ville tem algumas. Bert matou Quinn, mas ele não fora o único. Ele é psicopata, novato. Ele não sente remorso, ele faria tudo que ele quisesse, se tivesse poder. Eu não podia me meter. – Abaixou a cabeça, como se tivesse culpa de algo. Eu sei porque ele se sentia assim, achava que não tinha me ajudado, me deixado de lado. Como se fosse obrigação dele fazer algo por mim.

Sentei ao seu lado, na antiga cama de Bert. Pousei uma de minhas mãos em sua coxa e ofereci um sorriso.

– Não precisa se preocupar mais. – Sussurrei. – Ele não está mais aqui. – Ao completar a sentença, Frank meneou a cabeça, fracamente. Com cuidado se aproximou de mim para um abraço. Não pude dizer por quanto tempo ficamos naquela posição, só soube que eu precisava muito daquele carinho sem compromisso. Ambos precisávamos de um momento leve assim.

– É... então eu quero que a partir de agora você confie em mim. Eu sei que minha doença atrapalha um pouco, você precisa aprender a reconhecer. Eu realmente não sei o que eu faço quando eu tenho ataques, os remédios ajudam, mas nunca é o suficiente. Mas de todo o jeito, quando eu estiver consciente, eu vou te ajudar. Algo me diz que eu preciso fazer isso, porque você vale a pena.

– Esse ‘algo’ é cego. Eu não valho a pena porra nenhuma. Mas vamos fingir que sim, porque eu gosto de sua companhia. – Frank rolou os olhos e eu ri. – Obrigado. Por tudo.

E eu nunca me senti tão bem desde que pisei aqui.


Notas finais
O que acharam? Bjs e obg obg mil vezes de coração ♥