Phrenesis
7 F.T.W.W.W
Notas iniciais
Gerard’s P.O.V
Após aquele encontro inesperado, eu disparei completamente corado em busca de Ronnie. Eu aposto que aquilo fora apenas para me embaraçar, só podia.
Depois de caminhar por alguns corredores, consegui finalmente achá-lo. Ele estava encostado na parede ao lado de meu dormitório, mascando – talvez – chiclete, com os braços cruzados. Cheguei de supetão, dando um tapa em sua cabeça.
- Ficou louco, Way? – Ronnie disse, se esquivando.
- Eu fiquei? Seu filho da puta, você sabia que Bert e Quinn estavam fodendo no banheiro. – Após me pronunciar, Ronnie praticamente engasgara com o chiclete. Arregalou os olhos, descrentes, pousando as mãos tatuadas sobre sua barriga. Meneei a cabeça, e então Ronnie começara a rir escandalosamente.
- Shhh! Vão acordar! – Eu meio que gritava sussurrando, esperando que ele atendesse meu pedido, porque pelo amor de Deus, estaríamos fodidos demais se alguém acordasse.
Ronnie se tocou e levantou – ele tinha escorregado no chão -, limpando as lágrimas acumuladas no canto dos olhos.
Rolei os olhos, puto demais. Haviam me acordado de madrugada para ver a cena mais bizarra possível.
- Olha, — Resmunguei, abrindo a porta do meu dormitório – eu vou dormir. Vocês que se fodam. E fechei a porta, arrogante. Foi de propósito, para mostrar que, ugh, eu estava mal humorado pra caralho.
Eu tinha que tomar um descanso, tinha mesmo, depois daquela cena perturbadora. Às vezes achava que era tudo para chamar atenção.
-x-
Estávamos reunidos na mesa do refeitório — devo acrescentar que era cheia de rabiscos e chiclete grudado por debaixo dela –, no almoço. Talvez estivessem falando sobre bebidas, entretanto minha cabeça estava muito longe para notar o assunto. Eu encarava o macarrão asqueroso, remexia com o garfo – e fazia aquele barulho estranho -, mas meu estomago pedia paz por enquanto. E eu também.
A verdade é que, encarando aquela comida, eu estava tendo uma pequena epifania.
Talvez fosse embaraçoso demais para admitir, mas eu estava gostando de Frank. Não sabia o que queria, a única coisa que eu tinha certeza é que aquilo tudo era mais forte que uma amizade. Eu sei, parecia ridículo pra caralho, por que não faziam nem dois meses que convivíamos juntos, mas todo aquele tempo que eu estive ao lado dele, admitindo agora, foram os melhores em muito tempo.
Juntos, éramos eu e ele, em uma dimensão onde pouca coisa parecia nos machucar. Admirávamos as coisas simples, tínhamos mesmos pontos de vistas, e de um modo, nós nos completávamos. E estive muito cego e ocupado para ter notado outrora o que valíamos juntos.
E agora que eu estava sem absolutamente ninguém em um nível mais elevado, eu me sentia sozinho, e de certa forma, invejoso do relacionamento precoce entre Bert e Quinn. Porque Quinn parecia mais radiante ao seu lado.
Realmente, quando temos alguém, tudo aparenta ser mais leve. É um problema divido para dois, ambos levam vantagens, e as desvantagens se tornam algo para que esse relacionamento cresça cada vez mais.
- Você vai comer mais? – Bert tirara do meu transe, falando de boca cheia enquanto olhava de relance para meu prato. Ora, eu nem tinha comido.
- Pode comer. Não estou com fome. – Meneei com a cabeça e empurrei o prato para o infeliz. Espero que engasgue, vomite e morra. Eu vou procurar o Frank.
- Já volto. – Saí sem dizer aonde iria, qua
ndo voltava. Afinal, não era da conta deles.
Frank não estava no refeitório, meus instintos me levaram até o jardim. Uma vez Jimmy me contara que o lugar favorito de Frank era abaixo de um pinheiro gigante, bem ao limite do local, logo eu estava caminhando naquela direção.
Particularmente o fundo do hospital era meu pedaço favorito dali. As rosas eram vivas, apesar de há tempos não cuidarem delas, permaneciam em um carmim reluzente e gigante de acordo com o dia de hoje, extremamente nublado, branquíssimo. Tinham também as gramas e as ervas daninhas, que cresciam absurdamente rápidas, tomando muitas vezes conta do caminho entre as frestas do chão antigo e rachado.
Esses aspectos sombrios — para muitos — faziam com que o lugar fosse dificilmente visitado por pacientes.
Finalmente tinha achado Frank. Ele estava com um livro em mãos — Frankenstein -, e como da outra vez, estava tão compenetrado na leitura que mal podia me ver.
E o que eu falaria pra ele? 'Oi Frank, não sei porque nos afastamos, mas eu gosto de você de um jeito estranho. Ajude-me a descobrir o que é isso, sim?' Claro que não.
- Eu achei que fosse me ajudar com os remédios. — Pigarreei. De fato, eu achava, mas não era o que me incomodava. Até tinha esquecido. O que incomodava era o fato dele se afastar assim, do nada, e me deixar sem o que fazer, sem o que pensar. Eu pelo menos tinha o direito de saber o porquê de tudo isso.
Frank timidamente começou a abaixar o livro, e sua face, agora completamente visível, mostrava-se um misto de receio e tristeza, vindo daqueles olhos reluzentes. Engoli em seco.
- As coisas são complicadas, Way. – Ele hesitou um pouco. Seu semblante demonstrava que estava completamente seguro. Mas seus olhos, como sempre, denunciava o que ele estava sentindo. E eu não sossegaria até ler o fundo de sua alma.
- Como? – Cruzei os braços, esperando mesmo que essa conversa gerasse frutos.
- Não posso te ajudar mais, Gee. Não pergunte o porquê, respostas não são dadas assim tão facilmente. Eu não sou seu psicólogo, se quiser ajuda, vá atrás de Brian. – Fechou o livro com descaso, entretanto não me olhava nos olhos, falhava ao tentar driblar a insegurança.
- Eu achei que você fosse diferente. – Instintos profundos e escassos me diziam que havia alguma coisa errada ali, entretanto a pontada de dor e decepção fora mais forte, sempre seria mais forte que a compreensão. Ri sarcasticamente de toda a situação. Eu estava de saco cheio de tudo aquilo desde quando eu entrei. Não sei até quando aguentaria, fingiria para mim mesmo que tudo estava bem, que eu estava estabilizado naquela merda. Eu não estava, mesmo. E Frank não poderia fazer isso comigo.
Eu iria caçá-lo, aquilo não ficaria assim.
Parecia que Frank não estava pronto para aquilo. Touché, novamente. Suspirou um bocado, torceu os pés, recuperou a falsa posição de autoritário e revirou os olhos. Não sustentou o olhar, apenas saíra como se não acontecesse nada, para dentro do hospital. E me deixara sozinho. Novamente.
Eu precisaria de um tempo sozinho. A alguns metros de distância havia um banco de madeira livre, encostado no limite da trilha, onde atrás tinham as rosas vermelhas. Acomodei-me na ponta, apoiando minha cabeça em uma das mãos.
Meu conformismo me deixava em uma zona de conforto, como se fossem amortecedores para futuros tombos. Mas isso não resolvia muito, meu cérebro me enganava demais. Porque para eu achar respostas de coisas tão óbvias e simples, era necessário atravessar um labirinto de desafios inacabáveis, e isso cansava.
Eu tinha que aprender a gostar de quem gostava de mim, porque na minha atual situação, eu não poderia depender de luxos. Eu precisava primeiro do básico.
Era engraçado pensar assim, porque sentimentos não deveriam ser algo necessário. Eles poderiam ser descartáveis, como roupa, poderíamos decidir que dia usar a raiva, amor, tristeza, etc. Mas não, tínhamos que aprender a conviver com ela, e essa era uma das partes mais difíceis da vida.
Afinal, o que não é difícil na vida?
- Você sabe que ele não gosta de você, princesa. Não sabe? – Bert estava do meu lado, como mágica. Eles tinham que ser tão bizarros assim? Assustava-me, às vezes achava que todos ali eram fruto da minha imaginação.
- Eu não sei, Bert. Você mal nos via quando estávamos juntos...
- Você é burro e persiste no mesmo erro quinhentas mil vezes. Quer dizer, tudo bem errar na primeira vez, é inevitável, mas parece que você é cego. – Disse, frustrado comigo. Ele se importava, por acaso?
- Eu me importo com você, e sei que Frank não é um bom cara. Eu o conhecia antes. – Cantarolou, com os olhos muito abertos e sobrancelhas arqueadas, batucando levemente na superfície de madeira.
- Bert, talvez é só uma fase, algo sobre esquizofrenia...
- Olha, desde que você entrou eu percebi sua desconfiança sobre mim. Eu não te julgo por isso meu bem, eu sei que essa barba mal feita te assusta e minha estrutura raquítica apavora. Mas uma vez que se entra aqui, e se permanece por muito tempo, esses valores estéticos já não são tão vitais como antes. Simplesmente porque estamos em um lugar onde todos permanecem na mesma situação. E você sabe porque se atrai tanto em Frank? Porque ele parece não ter problemas, não ter culpa de nada. É essa segurança que ele tem quase sempre e compreensão de que ele está aqui para seu próprio bem. Você se sente bem ao lado dele porque ele te passa certa segurança, Gerard. É só isso, segurança. Mas você sabe qual é a pior parte nisso? Você não saber o porquê dele não ter culpa. A única coisa que te falarei é: Homens ruins não devem sentir culpa. Só isso. – Bert terminou a discussão, calmo, como se tivesse explicando para um bebê indefeso.
Fiquei estático por alguns instantes, tentando processar toda a informação. Sabe qual era o problema, também? Confiança. A esse ponto, eu não sabia mesmo em quem confiar, mas tinha que admitir, o que Bert falava fazia muito sentido. E até agora, eu não sabia da história de ninguém ali.
Eu não era uma pessoa fútil de modo a julgar as pessoas pelas aparências, até porque eu nem ligava para a minha. Todavia cheguei aqui em um estado tão chocante que tudo me assustava, tudo me assusta, então era melhor evitar, ser grosso, ser fresco.
E Frank parecia ser tão seguro, mesmo. Sempre ele estava ali com um sorriso enorme, ajudando mesmo que precisasse de ajuda. Agora, depois que nos afastamos, suas risadas tornaram-se mais rara, pelo que percebi.
Eu ainda acreditava que tinha algo estranho ali. Tudo tinha que ser tão complicado?
Gerard’s P.O.V (Créditos vai para Sara)
O silêncio naquele quarto estava começando a me incomodar. Eu sei que já deveria ser quase de madrugada, mas eu precisava conversar. Ou ler. Ou pintar. Qualquer coisa bastava.
Tornei o olhar do teto ao meu colega de quarto, deitado silenciosamente de costas para mim. Pensei em acordá-lo para me fazer companhia, mas com que desculpa? Robert não parecia ser o tipo de pessoa que acordava calma no meio da noite. Aposto que se acordasse de seu sono de beleza, mataria algum facilmente. Mesmo assim, não resisti. Levantei cuidadosamente, com um pequeno sorriso divertido nos lábios. Parecia uma criança prestes a acordar os pais na manhã de natal.
Sem a mínima delicadeza, simplesmente me joguei por cima dele na cama, rolando e rindo enquanto ele se debatia e me proferia coisas horrorosas.
- Gerard! – berrou ele, levantando-se e parando de pé ao lado da cama – Qual é o seu problema, uh?
Continuei rindo, sentando-me sobre os lençóis bagunçados a seguir.
- Ficou louco de vez? – perguntou, respirando profundamente em seguida. Repetiu esse mesmo gesto algumas vezes, antes de tornar a me encarar com a mesma calma de sempre – O que você quer, princesa?
- Atenção – respondi, ainda sorrindo – Conversa comigo!
Bert sentou-se ao meu lado, erguendo uma das sobrancelhas.
- E então...? – disse ele – Quer falar sobre o quê?
- Ahn... – pensei por um momento – Você e o Quinn. Eu sinto inveja da relação entre vocês dois.
- Nah, não vai... rolar– disse simplesmente, sem esboçar reação alguma.
- Por que não? Quer dizer, ele parece tão feliz com você, e vocês estão mais próximos, e...
- Eu não o quero – interrompeu-me ele.
- Sério? – perguntei ironicamente – Você não pareceu nem um pouco relutante no chuveiro...
Bert apenas riu sarcasticamente.
- Sério que ainda não notou? – perguntou ele, dando outra risada – Gerard, você sempre foi tão estúpido assim? A única razão pela qual eu transei com o Quinn foi pra te irritar, gatinha.
Deixei minha cabeça pender de lado por um momento, pensativo.
- E por que você faria isso? – perguntei.
Bert sorriu maliciosamente, passando a língua lentamente por entre seus lábios curvados. Em seguida, segurou meu queixo firmemente, aproximando-se sem convite de mim, direcionando seus lábios ao meu ouvido esquerdo.
- Quantas vezes vou ter que repetir? – sussurrou, provocando-me um arrepio involuntário – Não é o Quinn quem eu quero.
Eu sei que deveria ter parado e raciocinado um pouco, mas minha impulsividade nata adicionada ao meu distúrbio não me permitia ao luxo de pensar antes de agir. Sem que eu ao menos notasse, meus lábios já estavam colados aos do meu colega de quarto, envolvendo-nos em um beijo ardente e estranhamente desejoso. Enquanto nossas línguas brincavam juntas, por vezes nos fazendo faltar o fôlego, pude sentir uma de suas mãos adentrando meu pijama vermelho, apertando minha cintura, impaciente, enquanto a outra brincava por entre os fios de meu cabelo, por vezes puxando-o para que seus lábios pudessem passar por entre meu pescoço, deixando pequenos beijos e mordidas ali enquanto meu corpo respondia através de fracos ofegos.
Conforme suas mãos avançavam invasivamente pelo meu corpo, um delicioso calor começou a subir pela minha epiderme, revelando-se em pequenos arrepios involuntários que pareciam provocar ainda mais o garoto à minha frente.
As roupas que nos encobriam, agora pareciam nos sufocar. Em pouco tempo, elas se tornaram completamente desnecessárias, e logo se encontravam jogadas no chão ao lado da cama que ocupávamos.
Continuamos a nos beijar com uma vontade ardente, mas aos poucos o contato entre nossas línguas deixou de ser o suficiente. Pelo olhar de Robert, ele queria aquilo tanto quanto eu, se não mais.
E naquela noite, eu me entreguei completamente. Completamente cego.
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