Phrenesis
4 Can I Play With Madness
Notas iniciais
O despertador tocava interruptamente com um ‘bep’ horrorosamente alto que Gerard julgou ter um barulho parecido ao grito de Lucifer de tão irritante. Pegou travesseiro fofinho de cima de sua cabeça – que antes lhe proporcionava como bloqueador de qualquer luz – e atirou sobre o relógio demoníaco, resmungando qualquer palavra logo em seguida. Mas aquilo não adiantou muito já que a voz de Bert fora preenchida – aliás, esta estava mais grossa e rouca do que o comum devido o efeito do sono – pelo quarto parcialmente escuro.
– Acorda, princesa. – Bert rosnou enquanto sentava-se desleixado na cama bagunçada, coçando os olhos com as costas da mão.
– De Drama Queen fui para princesa? — Questionou curioso, enquanto ainda permanecia com os olhos fechados na proteção de várias camadas de cobertores.
– Nah, é que o senhor aprendeu rápido, entende? Já não é tão Drama Queen. Princesa é mais light. – Sorriu. – Está reclamando? Porque se quiser, eu conti-
– Não. Não quero nenhum sobrenome Bert, obrigado. – Bert apenas gemeu baixinho, fingindo concordar. Não enganava a ninguém: Iria apelidar o garoto até a morte, se quisesse.
Gerard saiu da cama relutante e foi em direção ao banheiro, fazer sua higiene rotineira. Após os dois colegas de quarto ficarem prontos, seguiram a sala de televisão, que estava aglomerada, por sinal.
– Não era para todo mundo estar no refeitório? – Gerard perguntou, franzindo o cenho. Não sabia que horas eram exatamente, mas poderia jurar que era o horário para tomar café da manhã.
– Ah, isso aí é só a checagem... É uma frescura que eles fazem, — Gesticulou com as mãos – Sabe, olhar o pulso pra ver se tem marca de corte... Iero sabe bem como é – riu, ácido – Não tem um dia que o garoto se corta. E quando fazem isso, tiram algum objeto dele como castigo.
Gerard apenas meneou a cabeça, tentando processar a informação. Ele parecia ser tão antagônico. Ele pedia para ser decifrado como um quadro abandonado implorando por descobertas, mas que ninguém fazia absolutamente nada justamente por não achar nenhuma resposta. E droga, eu quero decifrá-lo. Por que diabos ninguém se importa? Ele parecia ser tão diferente dos outros.
E qual é a razão de eu achar isso?
Chegando a aglomeração e feita a checagem diária – onde uma das enfermeiras insistiu em que aquelas marcas de travesseiro sob sua pele frágil fosse uma tentativa falha de se cortar – todos foram para o refeitório. Bert, Ronnie, Syn e Gerard se reuniram na mesa afastada aos demais, ambos segurando suas respectivas bandejas.
– E então o Doctor me disse “Cuidado com os Daleks!” e então eu corri e-
– Já entendemos o quão você é viciadonessa série a ponto de ter sonhos eróticos com ele, Syn – Bert resmungou, apoiando o queixo em uma das mãos enquanto com a outra mexia a comida – omelete com espinafre -, sem nenhuma fome. E então, antes de qualquer um ali voltar ao rumo da conversa, Frankie veio sorrateiro até Gerard, tocando de leve seus ombros para receber atenção. Gerard se virou e ficou surpreso ao vê-lo. Lembrou do que Bert tinha dito antes, e como a curiosidade falou bem mais alto do que a razão, não conseguiu evitar o olhar aos pulsos do garoto. Mas veio a decepção: Ele estava com uma manga comprida que chegava até as costas da mão. Frank não deixou de perceber aonde Gerard direcionou seu olhar, e quase como se uma lâmpada acendesse em cima de sua cabeça, ele notou o porquê de Gerard ter feito aquilo. Desmanchou seu sorriso rapidamente e encarou Bert.
– Ora, que fofoqueiro você é, Bert. – Nessa hora, Bert apenas respondeu com um sorriso irônico, ainda mexendo na comida. — Já contou do seu quase suicídio ingerindo aquelas porcarias de remédio, também? – Frank continuou ácido, e ofereceu um sorriso sarcástico. Bert se deu por vencido, xingando-o – “filho da puta” – rapidamente. Frank fingiu que não ouviu: Evitava brigas com ele. Sabia que era motivo de stress ficar discutindo com Bert.
– Brian me pediu para que lhe avisasse a não se atrasar na consulta de hoje. Ele quer testar alguma coisa com você. Certo? – Frank deu um sorriso mínimo enquanto colocava uma mecha de seu cabelo para trás.
– Tudo bem. E desculpa por... – Gerard encarou a comida, envergonhado.
– Nah, não se desculpe. – Frank deu um soco amigável nos braços pálidos de Gerard. – Se precisar de algo, me chame. Cá entre nós, esses enfermeiros só atrapalham. – Gerard acenou e ouviu Frank se distanciar com passos largos.
– Cá entre nós, o Iero não é confiável. – Bert declarou, encarando os olhos de Gerard. Este desviou o olhar, já se sentindo incomodado com o fato de Bert falar tanto mal dele. Não conseguia achar nada de estranho naquele garoto. E definitivamente, não queria.
Gerard’sP.O.V
O dia foi razoavelmente bem e passou rápido. Depois do café da manhã, tive que engolir à força um remédio. Horrível. Bert disse que os remédios eram padrões e que todos deveriam tomar, não importa se eu tivesse autismo ou gravidez psicológica.
Mesmo com todas as gracinhas que Bert me propunha eu não conseguia esboçar um sorriso, Ainda não havia achado um motivo bom para que eu pudesse fazê-lo. Não valia a pena.
A parte mais difícil de tudo foi não sentir nenhuma bebida descer por minha garganta até agora. Aliviava temporariamente tudo, seria mais fácil levar a vida nesse instante com um pouquinho de álcool. Quem sabe aquela melancolia exalada por cada milímetro de parede e de vida diminuísse?
Já chegara a hora da consulta e Frank me levou até a sala de Brian. Eu ainda não tinha visitado aquela área do hospital: Era mais um corredor que por mim, estava bem escondido. De um lado haviam portas enumeradas – assim como a minha, distingui que eram quartos de mais pacientes – E do outro lado, as portas tinham nome de talvez, doutores. Percebi que meu chute estava certo quando Frank me parou à frente da porta escrita “Dr. Molko”. Esta diferente das outras, tinham algumas carinhas felizes carimbadas pela extensão da porta de madeira pintada de branco.
Frank me deu um aceno olhando a porta para que eu batesse. Eu o fiz e então ouvi um breve “entre”, e abri a porta. Lá estava Brian, sentado em uma cadeira giratória – aparentemente muito velha e cheia de pó – com as mãos apoiadas na mesa, esperando que eu entrasse.
– Frank, será que você pode voltar depois que eu terminar com Gerard? – Questionou Brian, enquanto acenava para mim para que eu sentasse.
– Tudo bem. – Frank sorriu. Eu precisava perguntá-lo que tipo de bebida ele tomava para ficar tão alegre naquele lugar tão horrendo, em uma situação tão apavorante. – Até mais. – E ele saiu, deixando-me com Brian. Entrelacei as mãos e esperei que ele falasse.
– Tem ideia do que faz aqui?
– Claro. Minha mãe não aguenta mais as merdas que eu fazia só porque ela não tem um pingo de compaixão e me colocou aqui. – Suspirei, um sorriso sarcástico envolvendo-me automaticamente. A situação chegava a ser cômica. – Como se eu fosse completamente demente.
Brian olhou para mim e deu um suspiro. Tamborilou a madeira escura da mesa com os dedinhos; seu semblante carregava seriedade e preocupação.
– Diga-me Gerard, com toda a sinceridade do mundo – Entrelaçou as mãos e crispou os lábios -. Qual é o seu maior desejo nesse exato momento?
A pergunta veio à tona, e eu não soube responder de imediato. Pensei e repensei, pondo todos esses meus neurônios danificados em trabalho, tentando achar alguma droga de resposta. E realmente não tinha resposta alguma. Porque eu não queria respirar, não queria sentir, não queria absolutamente nada. Ou seja, eu não tinha desejos. Certo?
Errado. Tudo ficou claro rapidamente como um relâmpago. Esse não querer desejos direcionava a apenas um desejo.
– Morrer.
Ao que eu pensava, Brian anotava algumas coisas em uma caderneta velha. Todavia quando eu pronunciei a última palavra ele parou com as anotações e voltou a me encarar com uma das sobrancelhas arqueadas. Ficou algum tempo assim, e eu desviei o olhar. Eu sabia que ele queria desvendar o que eu tinha, era óbvio. Só não sei como ele faria isso se nem eu tinha certeza de meus pensamentos e das decisões que eu tomava.
– Certo... – Fora apenas o que ele falou, ainda me encarando. Revirei-me na cadeira, minhas mãos suadas escorregavam no braço de madeira. Eu estava me sentindo pressionado e exposto diante de Brian, mesmo que ele não perguntasse mais nada. O olhar dele parecia enxergar mais do que deveria.
– Como você se sente agora? – Era aquela pergunta típica que faziam, já vi alguns seriados mostrando psicólogos fazendo isso. Sempre achei que nunca adiantou porra nenhuma.
– Não sei. Na maioria das vezes eu nunca sei o que estou sentindo, essa é uma pergunta falha. – Brian apenas acenou com a cabeça e largou a caderneta em uma das gavetas da mesa trincada. Massageou a têmpora com os dedos pálidos e fechou os olhos por um tempo.
– Aquilo que aconteceu ontem... Foi a primeira vez? – Abriu os olhos um pouquinho.
Senti minha garganta doer e meus olhos arderem. Abaixei a cabeça, flashes rápidos me invadindo. Gritos, ambulância, luzes, água, raiva, dor, desespero e Mikey pálido.
– Não quero falar sobre isso. – Cortei com voz embargada.
Ficamos em silêncio. Era aquele silêncio incomodo que me sufocava lentamente, julgando meus atos como se conhecesse meu passado que eu queria muito esquecer. Então eu pigarreei, querendo que a sala fosse preenchida com algo, mesmo que fosse mínimo. E Deus, como eu agradeci demais quando ouvi a porta se abrindo. Alguém estava ali para quebrar o clima horroroso.
Olhei para trás e vi Frank vermelho como um pimentão olhando para mim. Só aí eu percebi que uma gota imbecil de lágrima havia escapado de meus olhos. Então eu a sequei com a manga da minha blusa e voltei a olhar para frente, envergonhado.
– Desculpe, eu pensei que vocês já estivessem terminado. – Se desculpou.
– Já terminamos... – Brian disse. Então tínhamos terminado? Que ótimo.
– Mas eu tenho uma tarefa para vocês dois. Gerard, sua mãe me disse que você é ótimo com arte, e acho que esse por hora, é o melhor jeito de você se expressar. Quero que faça isso todo dia antes de vir para cá, tudo bem? Frank levará você até lá.
– Okay.
Segui andando os passinhos apressados de Frank que ecoavam o corredor vazio. Ele estava um pouco a minha frente, e assim deu para perceber nossa diferença de altura: ele era um pouco mais baixo que eu, e isso lhe dava um ar bem infantil apesar dospiercings e o moicano que usava.
Algum tempo depois estávamos dentro da sala. Era ampla e um pouco mais clara que as outras, porém ali não tinha nenhuma janela. Dentro do local se estendia uma mesa que chegava praticamente do outro lado da parede, e dos dois lados permaneciam dois bancos. Ao fundo e aos lados tinham um monte de tranqueiras amontoadas em armários com portas escancaradas. Parecia realmente ser um lugar completamente abandonado todo empoeirado. Aquele lugar em geral, parecia se retirado de alguma estória que vovó me contava antes de dormir.
Estralei os dedos, procurando por algo que eu poderia usar para começar meu trabalho. E então eu vi Frank deitando na mesa, com um bloquinho em mãos. Estava deveras distraído escrevendo ali, suas sobrancelhas às vezes subindo, às vezes quase unindo-se. Tive a ligeira curiosidade de perguntar o que ele estaria escrevendo ali, mas sabia que não era da minha conta.
Geralmente em dada situação – quando eu me sentia nervoso, ou triste – eu tentava entrar em contato com a arte sozinho, sem ninguém, era mais fácil me focar e me abrir. Quando tinha alguém me olhando, eu pensava o que elas poderiam achar daquilo e me limitava um bocado. Porém, olhando aquela figura petrificada, nem de longe ele parecia ali para me julgar. Na verdade, seu jeito era de que ele se refugiaria ali com o mesmo propósito que eu, e eu também não podia simplesmente chegar para o garoto e dizer “Hey, dá pra sair daí? Eu quero pintar.” Eu não estava em casa.
E parecia mesmo que ele leu meus pensamentos.
– Oh. – Frank saiu de seus devaneios e pousou a caneta de lado. – Você quer que eu saia? – Questionou ele, olhando de relance para a porta.
– Não. – Ele grunhiu em resposta, compenetrado no bloquinho. Então eume aproximei do armário e revirei as tranqueiras até achar um pouco de tinta – algumas delas estavam sem tampa, outras já estavam secas -, e alguns pincéis sujos. A tela e o cavalete estavam do outro lado, estranhamente limpas e postas, como se estivessem me chamando para tocá-las. Eu esperava que ela gostasse do que eu iria fazer. Eu descartaria todas as cores claras. Não havia necessidades de usá-la.
Eu não encontrei nenhuma palheta então havia improvisado, derramei um pouco de tinta em uma superfície de papel cartão. A primeira pincelada que eu dei não fora algo bom: fez-me lembrar de coisas que eu queria apagar para sempre. Não eram saudáveis e nunca ganhei nenhuma aprendizagem com isso. As pessoas sempre diziam para eu levar perdas como alguma lição de vida, mas sempre achei tudo tão, tão imbecil. Minha perda só retirou minha vida, eu não conseguia pegá-la e reconstruir algo bom e novo, parecia ser muito errado. Ser feliz parecia ser errado.
Mas eu continuava: A cada pincelada alguma memória escondida me invadia. Muitas delas eram completamente felizes, mas com a passagem do tempo elas se tornaram tristes e agonizantes. Tornaram-se doentias, porque eu sabia que era impossível que aquilo tudo acontecesse novamente, e era tudo culpa minha.
E o passado se misturava com o presente que se misturava com o futuro e eu chorava e eu misturava tinta com lágrimas. E eu continuava a pintar, não perdia o ritmo. Não era como se eu fizesse isso porque eu precisava encarar meus medos, de jeito nenhum. Estava pouco me fodendo! Eu poderia me esconder do meu passado até quando eu quisesse, seria bem mais fácil do que encarar tudo agora. Só que a arte de algum modo me aliviava, mesmo que o pincel me cutucasse na parte mais sensível do meu coração. Até parecia que eu não estava sozinho no mundo.
Limpei as lágrimas com as costas da mão e voltei a pintar. Brian poderia me dar um cascudo, eu não fazia ideia do que estava desenhando. Eram apenas camadas de tintas escuras não tendo porra de nexo nenhum. Um borrão mórbido que talvez pudesse traduzir meu cérebro.
Após alguns minutos, eu já tinha terminado o quadro. E droga, eu tinha esquecido que Frank estava ali para me ver chorando como uma criancinha. Fato era que ou ele não se mexera em nenhum momento, ou eu estava muito distraído. Eu olhei para trás e o vi. Estava agora sentado em um dos bancos olhando para o que eu tinha feito, sustentando a cabeça com as mãos, meio cansado. Seus olhos brilhavam e ele continha certo sorriso. E eu não sabia se aquilo era irônico ou não.
– Isso foi muito bom. – Ele disse, agora cruzando os braços.
– Isso o que? – O questionei. Chorar igual uma criancinha enquanto borrava um quadro?
– O jeito que você se entrega quando está pintando. É bonito de ver. O lugar se preenche de vida. – Ele disse meio receoso, baixinho, repuxando o piercing.
– Se enche de vida? Eu estava chorando, isso é patético. Não acho bonito.
– Chorando sangue... – Disse Frank, apoiando o rosto em só uma mão, olhando de lado para mim. Eu arqueei a sobrancelha, pedindo para que ele me explicasse. – seu rosto está manchado de tinta vermelha, você sujou mais ainda quando tentou limpá-lo.
Soltei um grunhido em resposta, mas não limpei o rosto, já que poderia piorar a situação. Sentei no banco de frente para Frank e pedi para que ele explicasse seu pensamento.
– Você não acha que chorar é melhor que ficar indiferente? Viver não é só ser feliz o tempo todo. Até porque sem a tristeza, não existiria a felicidade. – Disse ele, olhando para o que eu tinha acabado de pintar.
– E demonstrar suas emoções não te faz patético, te faz corajoso. É mais fácil escondê-las do que mostrá-las. Causa menos alvoroço. Mas Gerard, isso não é algo bom... chega uma hora em que a gente precisa se sentir aliviado, entende? Ficar segurando o que sente só piora as coisas. Eu sei que é muito clichê, e que você já deve ter ouvido isso milhares de vezes, mas é a pura verdade.
Ficamos em silêncio, mas era aquele silêncio bem antagônico de outrora que havia compartilhado com Brian. Era gostoso, aconchegante. Cada um estava preso em pensamentos, refletindo sobre a conversa que gerara. Eu estava ainda absorvendo cada palavra que Frank me dissera, e incrivelmente essa era a primeira vez que alguém disse isso para mim há tempos. Não que eu fosse seguir o que ele tinha acabado de dizer, mas porque ele me lembrava de alguém especial, e consequentemente, me fazia quase pensar que ele se importava comigo. Mas era impossível, já que tínhamos nos conhecido quase agora.
Ele olhou para mim, talvez me analisando. E não foi como das outras vezes, em que eu deveria desviar o olhar de primeira. Eu lhe ofereci um sorriso rápido e aí sim eu olhei para o quadro, ele fez o mesmo.
– Isso é uma banheira com sangue? – Atravessou Frank, apontando para o quadro fresco. Primeiramente eu neguei com a cabeça, pensando que, obviamente, aquela pintura não fazia sentido algum. Depois eu olhei atentamente para o quando, mas mesmo assim achei que não tivesse nenhum desenho estampado ali. Só notei que o quadro ficara bem mais mórbido do que eu pensei.
Frank apenas meneou com a cabeça, com uma expressão de dúvida estampada na sua cara e um sorrisinho tomando forma em seu rosto.
– Você sabe o que tem? – Perguntou Frank rolando os olhos por toda a superfície do meu rosto, me estudando, estudando a tinta ali.
– Seja o que for não era para eu estar aqui.– Disse baixinho ou pensei alto, como preferir.
Então Frank riu debochando de mim, mas não chegava a ser ofensivo. Eu só não entendi.
– E onde era para você estar? – Frank lançou a pergunta, arqueando uma sobrancelha. Fiquei de boca aberta: Eu não tinha parado para pensar nisso, e ele o fez, como se fosse algo tão óbvio. Se eu saísse agora, onde eu estaria? Estaria obviamente fodendo alguém, bebendo, fumando... era rotineiro, vicioso porque eu não tinha motivação para fazer nada além daquilo.
Mas aquilo não era certo. Por Deus, não era para eu estar fazendo aquilo, tampouco estar aqui. Eu não sabia, não tinha convicção de que tudo ia melhorar.
Abaixei minha cabeça, considerando-me derrotado diante de Frank. Este espalmou uma de suas mãos em minha coxa, para receber atenção, então eu o dei.
– Ger, você tem muito que aprender. – Disse, inclinando a cabeça enquanto sustentava seus olhos que praticamente sorriam para mim. – E independente de qualquer merda que Bert tenha te falado sobre mim, eu vou estar sempre a sua disposição, — Frank acenou com a mão – não quero que aquele filho da puta encha sua cabeça com besteiras.
Aquilo soou reconfortante. Porque apesar de Bert e seus colegas andarem comigo e fazerem gracinhas, nenhum deles realmente pareceram se importar – não é como se devessem se importar – comigo. Então a partir daquele momento eu realmente descobri que Frank não estaria ali apenas para conversar e perder o tempo, ele parecia entender pelo menos um pouco o que eu sentia, ou então fingir fazer isso para que eu pudesse colocar meus sentimentos para fora. E ele fez isso como mágica, pois eu nunca demonstrava emoções tão fortes e humanas como essa para outras pessoas há anos, então eu sabia que havia algo diferente nele.
Todavia uma coisa grudara em minha cabeça fora essa panelinha de Frank e Bert. Eles pareciam se odiar, e Bert em especial, ao observar seu comportamento, fazia de tudo para irritar Frank. E as coisas que Bert disse a respeito do garoto que estava ao meu lado, me deixavam com aquele mínimo de dúvida me fazendo questionar se eu realmente poderia confiar nele.
Mas afinal, o que eu estaria perdendo com isso?
– Por que você e Bert se odeiam tanto? O que aconteceu?– Fora o que eu precisei pronunciar para que ele perdesse todo aquele tom amorenado, virando quase um fantasma de tão pálido. Parecia desmanchar a qualquer segundo embora em seus olhos – agora – opacos e arregalados não contivessem nenhum vestígio de lágrima. Ele apenas levantou rapidamente catando seu bloquinho e saindo de supetão, me jogando um “tenho que ir” com a voz embargada. Deixou-me sozinho com a confusão dos velhos tempos.
Aquilo era tremendamente injusto! Ele me forçou a fazer aquela pergunta, não deveria sair do nada assim e... oh, por um momento tinha esquecido que estava em um hospício.
Merda.
~~ *~~
O resto da tarde passou voando. Metade das coisas que falam comigo eu fingia que ouvia. A outra metade entrava por uma e saia por outra. Havia dias que eu ficava assim, desligava-me por impulso do mundo real e viajava quilômetros – às vezes metros – de distância e mentalmente punha minha vida em lugar, ou então as incógnitas sobre algo era tão forte que não me deixava em paz nem por um decreto, e eu era obrigado a me questionar sobre tudo aquilo.
Por enquanto, Frank era minha incógnita.
Passara um dia após aquele episódio vergonhoso, e nos encontramos depois apenas uma vez. No lugar da tal conversa. Porém não trocamos nenhuma palavra: Preferi ficar quieto, no meu lugar, fazendo o que eu deveria fazer. Tinha a impressão de que se eu abrisse a boca, ele iria se sentir ofendido mais ainda; mesmo que essa não fosse minha intensão.
Estávamos na sala de estar. Havia no mínimo umas vinte pessoas ali, junto com uma enfermeira desengonçada mais preocupada com o cabelo do que com os pacientes. Já era de noite e nos chamaram para permanecer ali, pois aquela era a noite musical – Bert me explicara logo depois, que uma vez por mês eles reuniam os músicos ali para fazer a tal noite – e aquele evento era imprescindível para minha socialização e distração ao passado amargo e oh, traumatizante. Vindo dos outros soava besta e dramático.
Para minha surpresa, Frank era um dos músicos. Ele estava sentado na ponta da mesa de mármore, segurando um violão claro com uma das mãos enquanto o apoiava nas coxas. Sua face parecia demonstrar certa ansiedade enquanto seus olhos brilhantes e estreitos estavam a procura de algo entre os pacientes. E um sorriso se deixou claro ao olhar em nossa direção. Eu estava doido ou ele sorrira para Bert?
Dei de ombros. Talvez antes os dois antes estariam apenas fazendo drama para ganhar minha atenção ou caçoar de mim. Mas uh, foda-se, já estou acostumado com gente assim. Fora da clínica havia um a cada esquina. E eu pensando que Frank seria diferente! Oh, que tolice a minha.
Então eu possuí a cara mais carrancuda do mundo e sentei em uma poltrona disponível – os pacientes já se acostumaram com a minha presença, logo eu poderia ter mais flexibilidade ao fazer minhas coisas. – escura, fingindo não me importar com a presença do menor.
Frank começara a tocar e a principio, quase ninguém o acompanhara com a música. Mas quando ele tocara o refrão, alguns corajosos se atreveram a acompanhar e movimentar os pés enquanto sentados no sofá ou no chão. Quem ficava de pé, batucava os sapatos no chão de madeira, como Bert e Ronnie. Achara um tanto bonita a cena. Porque sinceramente, fora daqui, reuniões simples como essa geralmente não ocorriam. A felicidade vinda da pura simplicidade – como por exemplo, da música – era má vista, desnecessária, uma perda de tempo. E eu pude experimentar o quão bom era esquecer um pouco da parte amarga para apreciar algumas cordas virarem melodia. As pessoas não sabiam o que estavam perdendo. Era como se cada corda jogasse uma onda tranquilizante para cima de mim, e diferente de tudo era uma onda sincera, e o principal: não se provinha de uma agulha ou capsula. No momento ninguém estaria ligando para seus respectivos problemas e os problemas dos outros, porqueah, foda-se, eles só queriam cantar até que suas vozes se esgotassem para no outro dia relembrar um momento tão vigoroso como aquele.
Era como se a música por códigos dissesse “Hey, você pode estar numa pior, mas a vida está aí para quem quiser, e é muito bem-vinda para sua apreciação!” E uh, como eu gostaria de poder abraçá-la naquele momento. Havia-me embriagado de felicidade saudável como a nunca acontecera. Só não quero pensar nas consequências.
E elas vieram mais rápido que eu pensei.
Após a sessão amnésia, voltamos a realidade de sempre, com Bert enlaçando o braço pesado sobre o meu ombro e o de Brian.
– Oh, fizemos muito bem. Bem para caralho. – Bert disse, entre os risos. Ronnie logo a frente concordou com a cabeça, enquanto dava piruetas em comemoração ao karaokê improvisado. A felicidade deles me impressionava.
– Deveríamos ganhar algum tipo de premiação, hm? – Ronnie parou em frente a Bert, bagunçando o cabelo dele com as mãos. – Mas hoje não estou apto para tal. Vou fazer meu sono de beleza. Boa noite, e uh, sonhe comigo Bert. – Ronnie ofereceu uma piscadela marota para Bert o fazendo grunhir entre os dentes. Syn riu e retirou o braço de Bert em seu ombro, logo depois nos dando boa noite e partindo para seu dormitório.
– Agora são apenas nós dois, princesa. – Bert murmurou com a voz rouca. Pigarreei incomodado e acelerei o passo. Particularmente ele não havia nenhum atrativo, e eu não gostaria de ser estuprado por ele.
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