Photograph
2 Loving can hurt, loving can hurt sometimes...
O outono chega com tudo em Toronto, o vento balança os pinheiros que começam a secar, levando consigo folhas avermelhadas para o outro lado da rua deserta. Caminho de cabeça baixa, em direção à escola. Realmente espero que a segunda semana de aula seja melhor do que a primeira. Here Comes The Sun dos Beatles equaliza em meus ouvidos enquanto alguns raios de Sol insistem em me cegar, apesar de não cumprirem sua função de me esquentar.
“Little darling, it's been a long cold lonely winter
Little darling, it feels like years since it's been here
Here comes the sun, here comes the sun
And I say it’s all right”
Realmente não entendo o que as pessoas têm contra o inverno! Pobre coitado! Sempre julgado e xingado pelas pessoas que deixam seus carros na rua e que, depois de um tempo acabam cobertos de neve. Aposto que elas só reclamam porque não podem passar o dia inteiro enrolado em cobertas lendo livros ou assistindo séries, com uma caneca de cappuccino nas mãos.
“Here comes the sun, here comes the sun
It's all right”
A música acaba e eu estou em frente à porta do colégio, com a mão em volta da maçaneta. A única coisa que penso é que faria muito mais sentido se a música se chamasse “Here Comes The Hell”. Antes que você pense que eu odeio a escola, já adianto que está muito enganado. Na verdade não entendo o ódio que os adolescentes têm pela escola, é sempre tão bom escutar o sinal do fim da aula e perceber que você aprendeu algo novo. Só tenho problemas com esses adolescentes que odeiam a escola.
Respiro fundo e empurro a porta. Nada acontece, digo, ninguém olha para mim como se eu fosse o gostosão do colégio. O Zac Efron do 3º ano da Toronto High School. Na verdade estou mais para o nerd que tem fama de virgem e que é queridinho da professora. Ando até o meu armário e pego os livros para a minha primeira aula, Matemática, o terror dos adolescentes. Guardo tudo na mochila e ando lentamente pelos corredores em direção a minha sala.
No caminho até a classe reparo em como adolescentes podem ser pegajosos. Chegam a serem piores que aqueles chicletes que chegam a grudar os dentes. Até a porta da minha sala contei pelo menos cinco casais se pegando, digo se comendo entre os armários. Sorte que não tenho visão ultravioleta como o Batman ou o Robocop, aposto que encontraria mais uns dois casais no depósito do zelador.
Entro na sala que ainda está vazia. Sento-me na minha cadeira de sempre, na primeira fileira, de frente para o professor. Retiro o livro de Matemática da mochila e abro-o no último capítulo que a professor explicou. Fico pelo menos uns dez minutos lendo atentamente, até que escuto barulhos de conversas e de cadeiras se arrastando. É, os populares tinham chegado. Olho para trás apenas para confirmar o que já suspeitava. Jack – vulgo o cara pelo qual todas as meninas querem ter – está sentado na mesa, com duas garotas penduradas em seu pescoço, as estúpidas da vez. Respiro fundo e conto até dez. Sei que se pedir para eles falaram mais baixo, vou ser vítima de suas humilhações por meses.
Minutos se passam até que o professor chegue e o volume da conversa diminua. Olho para o teto, agradecendo a mim mesmo por ter sido paciente com aqueles seres descerebrados. Já estava a ponto de explodir com aqueles imbecis gritando descontroladamente. Aceno a cabeça para o professor que corresponde. Seus olhos se voltam para o meu livro, onde um tópico sobre geometria está impresso.
— Relembrando a matéria Andrew?
— Com certeza – digo sincero.
— NERD! – algum descerebrado grita, me fazendo revirar os olhos.
O professor olhar com um olha reprovador para o grupo do fundão. “Como se isso fosse mudar alguma coisa” penso comigo mesmo. Eles praticamente fazem tudo o que querem. Dizem até que um menino teve que mudar de cidade por causa das ameaças da trupe.
— Página 25, por favor.
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O sinal bate e eu sou o último a sair da sala, afinal preciso pedir para o professor mais alguns exercícios e não estou a fim de ser pisoteado por adolescentes desesperados em conseguir um tempinho entre as aulas para ficar com alguém nos cantos do colégio.
— Você tem certeza Andrew? Não estou reclamando de ter um aluno tão dedicado como você, acho isso ótimo.
— Até porque você não pode contar com os descerebrados do fundão, ele só passam de ano porque tem dinheiro – digo enquanto recolho meu material e coloco-o dentro da mochila.
— Você sabe muito bem que eu não posso falar isso sobre meus alunos – diz sério, mas sei que no fundo concorda comigo – mas ainda estamos no começo do ano, eu sequer consegui dar a matéria direito – ri um pouco – e já é a terceira vez que você me pede exercícios extras.
— Eu sei – digo – fazer exercícios é como um passatempo, quanto mais, melhor.
— Se você insiste... – percebo que ele está contrariado com minha insistência, mas prefiro ignorar – Aqui – fala me entregando um monte de folhas.
— Só 15? – digo contrariado.
— Andrew...
— OK, OK, obrigado Sr. Williams, até amanhã!
O caminho até o meu armário é torturante, acho que todos os alunos resolveram entrar na minha frente hoje. “Por que vocês ainda estão aqui?” Questiono comigo mesmo. Está decidido! Amanhã vou pegar o material de todas as aulas. Pego meu material de Física e Biologia e corro para sala de aula, me desviando dos obstáculos, vulgo alunos distraídos. Chego até a sala segundos antes do professor, e agradeço por ele ser meio devagar. Sento-me e espero as duas aulas seguintes passarem.
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Estou morrendo de fome e agradeço pelo intervalo ter chegado. Chego ao refeitório, que está à zona de sempre. É impressionante o que apenas uma semana de aula pode fazer. Entro na fila e pego meu almoço. Salada e macarrão com queijo. Viro-me para as mesas que, como sempre, estão ocupadas pelos diversos grupos daquele colégio. Ando em direção à única mesa vazia, no fundo da sala. Aparentemente a lenda de que uma garota vomitou nessa mesa ainda persiste.
Coloco meus fones de ouvido e deixo Mr. Brightside do The Killers tocar enquanto como meu almoço.
“Jealousy, turning saints into the sea
Swimming through sick lullabies
Choking on your alibis
But it's just the price I pay
Destiny is calling me
Open up my eager eyes
'Cause I'm Mr Brightside”
“Isso não é otimismo cara, é burrice mesmo”, penso comigo mesmo. Você se apaixona por ela com apenas um olhar, e depois sofre com a falta de resposta. Rio sozinho. Como se eu pudesse falar alguma coisa, nunca tinha amado ninguém. E não, a garota da qual eu gostei quando tinha dez anos não conta.
Termino meu almoço e sigo para as próximas aulas. Assim que elas acabam ando em direção à biblioteca, afinal tenho que aproveitar meu horário livre antes da última aula. Entro e vou direto para as prateleiras de livros sobre guerra. Pego uns dois livros e me sento em uma mesa afastada das pessoas, das poucas que iam para lá.
Não entendo como alguém pode dormir nas aulas de história, é simplesmente incrível ler sobre essas guerras. Quando olho para o relógio faltam dez minutos para minha aula de fotografia. Despeço-me de Annie, a bibliotecária e ando até a sala.
Vocês devem estar se perguntando o porquê de fotografia, não é mesmo? Afinal o que um nerd que gosta de ficar enfurnado em casa, lendo dezenas de livros e estudando pode querer com simples pedaços de papel com algumas imagens aleatórias? A resposta é simples! Minha mãe! Aparentemente ela acha que eu passo muito tempo estudando e que não aproveito a adolescência. Como se tivesse algo bom em hormônios à flor da pele, espinhas e todas as desgraças do mundo dos adolescentes. Enfim, ela simplesmente me obrigou, dizendo que me ajudava a comprar as edições especiais de Star Wars e Senhor dos Anéis, então cá estou eu, mentalizando minha prateleira lotada de colecionáveis enquanto continuo a caminhar.
No caminho para a sala sou praticamente atropelado por Jack, vulgo o cara mais babaca da escola e Victoria, provavelmente a garota mais vazia de todas, ainda não sei como ela não saiu voando com os ventos de Outono. Ambos estão praticamente em uma luta de UFC dentro da boca um do outro. Olho com desgosto para essa expressão de “amor” excessivo, se é que eles sentem alguma coisa que não seja egoísmo e inveja, assim como uma garota de cabelos castanhos faz, porém sua face parece ser de indignada, deve ser só mais uma das garotas que o Jack enganou, penso comigo mesmo.
Um sorriso surge no meu rosto quando entro na sala e percebo que a trupe dos metidos resolveu desistir de fotografia, pelo menos teria uma aula sem comentários desnecessários sobre como garota X é gostosa ou quem pega mais na festa da semana que vem. Acomodo-me em uma das mesas e espero o professor chegar ao som de Hello, Goodbye dos Beatles.
“You say yes, I say no.
You say stop and I say go go go, oh no.
You say goodbye and I say hello
Hello hello
I don't know why you say goodbye, I say hello
Hello hello
I don't know why you say goodbye, I say hello”
É impressionante o que uma mente brilhante, como a de Paul McCartney, pode fazer com simples palavras, não é a toa que The Beatles é a maior banda de todos os tempos. Apenas com poucas palavras eles fizeram uma música de sucesso, na verdade mais uma para a vasta coleção de sucessos.
— I don't know why you say goodbye, I say hello – murmuro comigo mesmo, distraído pelo ritmo animado da música.
Tão distraído que não percebi quando uma garota se sentou na carteira ao lado da minha. Cabelos castanhos claros um pouco acima dos ombros. Merda! Seus olhos azuis cintilantes estavam me encarando com curiosidade, enquanto sua sobrancelha se erguia levemente. Ajeito-me na cadeira e lentamente viro-me para encarar minha “admiradora”. Espera um pouco! Essa é a garota que estava fuzilando o casal faminto no intervalo!
— I say hello – ela diz no ritmo da música. Espera um pouco, ela está falando comigo! Uma garota que não seja uma descerebrada me pedindo as respostas da tarefa está falando comigo!
— Oi – digo um pouco sem jeito e ainda envergonhado por ter sido pego no meio de um Lip Sync.
— Prazer, sou Emily – vejo-a estender a mão e me pergunto se essa situação pode ficar ainda mais estranha. Aperto-a depois de um silêncio e de alguns segundos constrangedores no qual fiquei encarando para sua mão sem fazer nada.
— Prazer, Andrew – sorrio, ou pelo menos tento, afinal tenho certeza de que o meu sorriso ficou parecendo mais uma careta de nervosismo. O que só se confirma quando o canto de sua boca se curva timidamente para cima – Você é a ex do Dylan, não é mesmo?
— É – murmura enquanto olha para acima dos meus ombros, provavelmente o professor de estar chegando – Fazer o que?
— Você sabe o que aconteceu com ele? – não que eu me importe, mas o cara simplesmente sumiu do nada, sem dar satisfação para ninguém.
— Não – fala curta e grossa.
Percebo o quanto ela ficou incomodada, aparentemente os boatos de que o namoro acabou por causa de algo gravíssimo era verdade. O silêncio constrangedor está prestes a se instalar novamente, porém o professor de fotografia — acho que seu nome é Matthew — chega à sala. Ele não bate bem da cabeça, disso eu tenho certeza. Sempre usa o mesmo tipo de roupa: calça jeans e xadrez. Por isso ás vezes o chamo de lenhador.
— Boa tarde classe! – cumprimenta enquanto coloca sua mochila sobre a mesa de madeira e se senta na mesma – “A câmera não faz diferença nenhuma. Todas elas gravam o que você está vendo. Mas você precisa Ver.” – declara para o nada, porque eu duvido que alguém que esteja aqui realmente tenha interesse em fotografia, todo mundo só faz esse curso porque é o mais fácil de conseguir pontos, basta tirar fotos aleatórias – quem disse essa frase foi o fotojornalista austríaco Ernst Haas que, no caso, será a inspiração para o próximo trabalho escolar – pausa para as reclamações dos alunos que se inscreveram na aula na esperança de apenas ficar tirando fotos aleatórias – será bem simples e não adianta reclamar viu?
“Que seja trabalho individual, que seja trabalho individual...” Ok, você deve estar se perguntando do porque de eu estar torcendo para que o trabalho seja individual, e a resposta é simples: eu sempre faço o trabalho sozinho! SEMPRE! Não importa com quem seja eu sempre acabo fazendo tudo.
— Enfim, aula passada nós comentamos sobre a fotografia, o que cada um de nós pensa sobre esse pedaço de papel que para alguns é insignificante. Então agora vocês vão criar uma das coisas mais preciosas que as fotos fazem: histórias. O trabalho será em dupla, eu vou escolher e não adianta reclamar – fala assim que escuta as reclamações dos alunos.
“Ótimo, mais um trabalho que eu faço sozinho” penso e respiro fundo. Mais uma semana em que vou ter que parar de estudar durante toda à tarde para fazer essa merda de trabalho. Direciono meu olhar para a turma do fundão que neste momento está reclamando de ter que fazer dupla com um aluno desconhecido. Estou distraído com as reações dos alunos que não percebo quando o professor para na minha frente.
— Andrew e Emily – olho para a garota, que me responde com um pequeno sorriso e rapidamente se volta para o seu caderno, escrevendo freneticamente nele – Pronto! Duplas formadas! Agora é hora de explicar o projeto, não é mesmo? – silêncio constrangedor, provavelmente ele pensava que a gente responderia “Siiim” como nós fazíamos a, sei lá, dez anos atrás.
— Continua professor – Emily murmura. Aparentemente eu não fui o único a notar esse silêncio constrangedor.
— Bom como eu já disse, fotos são mais que simples pedaços de papel, são histórias. Cada foto tem uma história. E é isso que eu quero que vocês façam. Cinquenta fotos contando uma história. Vocês têm até dezembro para me entregar um álbum com essas fotos. Qualquer dúvida peça ajuda ao seu parceiro ou a mim.
Depois da explicação do professor volto a encarar Emily, que continua concentrada em seu caderno. Seu cabelo cobre metade de seu rosto e sua franja insiste em cair sobre seus olhos, fazendo-me sorrir devido à insistência da mecha de cabelo. Estou tão distraído com seus cabelos que não noto quando ela se volta para mim. Seu olhar de curiosidade me analisa enquanto eu fico envergonhado por ter sido pego no flagra novamente.
— Então Andrew, será que eu sempre vou te pegar estando distraído com algo? – sinto no tom de sua fala um pouco de deboche, nada que eu já não esteja acostumado.
— Eu espero que não – digo enquanto deslizo meu corpo pela cadeira. Posso escutar Emily mexendo em sua mochila, afinal os mil chaveiros que estão no zíper se fazem extremamente presentes. Prefiro não olhar para ela e continuar encarando o quadro, afinal já atingi a minha cota de situações constrangedoras por hoje.
— Andrew! Olha pra cá!
Fico pelo menos dez segundos desnorteado com o flash da câmera. Emily solta gargalhadas nem um pouco discretas enquanto que eu pisco meus olhos freneticamente. Nosso professor nos olha de forma reprovadora, porém um sorriso surge em seu rosto quando minha dupla mostra minha foto.
— Isso é sério? – questiono enquanto coço os olhos.
— Nem vem, ficou engraçado! – observo a foto e percebo o quão pálido eu fiquei. Poderia facilmente ser confundido com um fantasma.
— Claro, com certeza – ironizo enquanto cruzo os braços e reviro os olhos.
— Chato – murmura e volto seu olhar para o quadro. Pego minha câmera e começo a ver as fotos distraidamente. Aponto a lente para Emily e a chamo.
— Vingança – grito em meio as minhas risadas – Tá brincando não é? – ela tinha ficado perfeita, como se estivesse preparada para ser fotografada. Ela estava sorrindo e com a cabeça pendendo para o lado, fazendo com que sua franja não tampasse seu rosto – C-como? – questiono totalmente intrigado.
— Você é previsível – dá de ombros, porém seus olhos estão vidrados em outra coisa atrás de mim, na qual não tenho a mínima curiosidade de olhar – vou usa muito a razão e fica fácil de saber o que você vai fazer – um sorriso de canto começa a surgir em sua face – Como todos os homens – ela murmura provavelmente para si mesma. “Ótimo! Estou lindando com uma garota que se acha” resmungo mentalmente.
Como eu disse mais cedo, Here Comes The Hell...
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