Photograph

3 When it gets hard, you know it can get hard sometimes...


— Merda!

Corro para a cozinha a tempo de evitar que a fumaça gerada pela torradeira chegue até o alarme de incêndio, não preciso repetir o mico de ter que explicar aos bombeiros que só deixei a comida queimar. Já basta a idosa que mora ao lado sempre me falar para eu tomar cuidado para não colocar fogo na casa. Deixo a torrada queimada de lado e pego outra fatia de pão. Coloco-a na torradeira e fico vigiando até ela ficar pronta. Como a torrada junto com uma xícara de café, enquanto leio a próxima matéria de Física.

Estou distraído no meio das fórmulas quando percebo que o barulho de passos em direção à cozinha.

— Oi mãe – cumprimento.

— Bom dia Andy!

—Mãe! Para de me chamar assim! Até parece que eu tenho um caubói de pano chamado Woody.

— Tinha me esquecido de como você é mal humorado pela manhã – bufa – O seu irmão ligou e disse que vem visitar a gente em novembro.

— Que bom – falo um pouco desinteressado enquanto olho para o relógio pendurado na parede, correndo para o banheiro para escovar os dentes logo em seguida – Preciso ir pra aula, depois a gente se fala – digo assim que coloco a mochila nas costas e a torrada na mão.

— Ok, beijos Andy! – reviro os olhos ao escutar o meu apelido ridículo de infância de novo. A culpa não é minha se eu gostava de assistir Toy Story quando pequeno.

— Beijos mãe!

❖❖❖❖❖

— Você não usa o celular não? – a voz de Emily me tira dos meus pensamentos sobre o último episódio de Marvel’s Agents Of S.H.I.E.L.D. que eu assisti. Aquele Ward é mesmo um filho da mãe.

— Na verdade uso sim, só não fico com ele 24 horas por dia – fecho meu armário e me viro para encará-la. Vejo seus olhos revirarem, apesar disso decide por ignorar meu humor matinal.

— Eu não sei se você sabe, mas nós temos um trabalho para fazer.

— Você tá brincando não é? – uma interrogação se forma em sua face – é trabalho de fotografia, é extremamente fácil. É só nos lembrarmos dos truques de luz que o professor falou na aula passada – dou de ombros e sou acompanhando por uma risada seca de Emily – O que foi? – questiono.

— Nada! É só que é estranho ver um nerd falando assim de alguma matéria sabe? Nerds geralmente amam trabalhos e coisas que exigem muito do cérebro.

— Primeiro que fotografia não é nem se quer uma matéria – começo a contar com os dedos – segundo que apertar o botão de uma câmera não exige muito do cérebro. E terceiro que só porque eu tiro notas boas, não significa que eu sou nerd.

— Enfim – bufa e respira fundo – quero saber que dia nós podemos começar a fazer as fotos para o trabalho – cruza os braços enquanto eu reviro os olhos, ainda insistindo na ideia de que isso é desnecessário.

— OK! Quando mais rápido isso começar, mais rápido acaba – sorrio cinicamente e pego o meu celular. Digito por alguns segundos e espero o celular de Emily soar no corredor.

— Sério? – me olha depois de ver o remetente da mensagem. Provavelmente algo como “Nerd Trabalho” ou “Andrew Nerd” brilhou em sua tela. Dou de ombros.

“High Park depois da aula?”

“Pode ser”

❖❖❖❖❖

Eu tinha me esquecido de como o High Park era bonito, principalmente no outono. As folhas avermelhadas iluminadas pelo Sol ganham um tom de dourado, fazendo-me lembrar da época em que eu e meu pai andávamos no parque todos os dias de tarde. Lembro-me de ele me falar que o Sol fazia com que tudo ficasse mais bonito, mais brilhante, mais vivo. Deve ser por isso que ele pediu para que seus aparelhos só fossem desligados quando o Sol estivesse iluminando o interior do quarto.

Olho para o céu e respiro fundo. O que passou, passou. Sei que sempre existirá um vazio, mas sei também que meu pai não queria que eu gastasse o resto da minha vida chorando, amaldiçoando o vento pela sua doença e lamentando sua morte. Bom, pelo menos foi isso que o meu irmão me disse quando comecei a chorar na sala de espera do hospital.

Olho para os lados e vejo que Emily ainda não chegou. Afinal, o que você esperava? Que ela iria ser pontual e tudo mais? Sento-me no chão e sou praticamente engolido pelo monte de folhas vermelhas e amareladas acumuladas. Coloco meus fones de ouvido e ignoro as formigas que insistem em subir na minha jaqueta ao som de Somebody To Love.

“I have to spend all my years in believing you
But I just can't get no relief Lord
Somebody (somebody) ooh somebody (somebody)
Can anybody find me somebody to love?”

Ainda não entendo como cantores tão geniais, como o Freddie Mercury morrem. Essas pessoas deveriam viver para sempre, ou sei lá, terem a consciência e a genialidade guardadas em um computador, tipo em Futurama. Aproveito o ritmo da música, cantando o coro mentalmente. O sol que antes estava iluminando as folhas se direciona para o meu rosto, fazendo com que eu feche os olhos, incomodado com a claridade extrema.

“Somebody to love
Find me somebody to love...”

A música acaba, porém eu continuo de olhos fechados. Até que uma sombra cobre os raios de Sol que estavam no meu rosto, fazendo abrir os olhos mesmo que com má vontade. Emily está na minha frente, bom pelo eu acho que é ela, já que a sombra que o Sol fez não ajuda em nada.

— Oi – é Emily, tenho certeza. É impossível não reconhecer essa voz doce, eu tenho que admitir.

— Oi – respondo e me levanto rapidamente. Coloco minha mão acima do meu rosto, a fim de tampar o Sol – achei que você ia me dar um bolo.

— Não coloque a culpa em mim! Culpe o cachorro que eu encontrei no meio do caminho e que precisava da minha atenção – justifica enquanto eu me divirto com a sua pequena irritação.

— Entendi – digo a contra gosto. Não que eu odeie cachorros, eu simplesmente prefiro manter uma distância segura deles. Não depois que o Mike, o labrador de estimação, morreu semanas depois que o meu pai. O veterinário me disse que foi por causa da saudade, mas eu ainda não aceito essa explicação, o resto da família ainda estava lá com ele, brincando e levando ele para passear. Prefiro pensar que o meu pai estava certo ao dizer que aquele cachorro tinha certeza que era filho dele e que isso que causou essa tragédia.

— O que foi? Tá tudo bem? Andrew? – Emily toca meu ombro e me sacode levemente. É, eu devo ter ficado no mundo dos meus pensamentos por tempo demais.

— Tá tudo OK, só voei um pouco – invento uma desculpa.

— Certeza?

— Absoluta – sorrio forçado – vamos tirar as fotos então? – digo “animado”.

— Assim? Sem conceito nem nada? – fala exaltada, e eu assinto com receio – você tá brincando não é? Se a gente não tiver um conceito o nosso trabalho vai fazer BOOM – ela gesticula com os braços, simulando explosões, bom, pelo menos eu acho que é isso. Seguro o riso com seu jeito, mas deixo um som, vulgo um riso bem estranho, sair da minha boca, fazendo com que ela me olhe estranhamente – Qual é a graça? – coloca as mãos na cintura e me encara. Não resisto e começo a gargalhar.

— Você... – respiro fundo e tento falar depois de alguns longos segundos – seus gestos – respiro fundo de novo e limpo algumas lágrimas que estavam em meus olhos.

— Ah, isso – Emily cora instantaneamente e abaixa a cabeça, com vergonha. Mesmo tendo uns dez centímetros a mais que ela, posso ver um sorriso envergonhado se formando em seu rosto – é mania mesmo – dá de ombros e coça a cabeça logo em seguida – minha mãe já me disse para parar que um dia eu ainda acerto alguém.

— Já aconteceu? – questiono curioso.

— Algumas vezes – diz enquanto passa a mão no pescoço – já fiz um cara derrubar um café em si mesmo. Foi horrível.

— Tá brincando?! – praticamente grito e arregalo os olhos de surpresa.

— Quem dera se fosse mentira – ri – tive que pedir minha mãe pra levar o cara para o hospital porque a mão dele queimou feio.

— Eu queria muito ter visto essa cena – comento divertido enquanto sento de novo no monte de folhas – deve ter sido hilário.

— E foi, se não fosse pelos gritos de dor do cara – diz com uma expressão de dor enquanto se senta ao meu lado. Encostamos nossas cabeças no tronco da árvore e começamos a pensar no tal “conceito” que ela tanto insiste em criar. Cinco, dez, quinze minutos se passam e eu já estou impaciente. Não seria mais fácil, sei lá, pegar uma música e tirar fotos que representem seus versos?! Estou prestes a chamar Emily quando a mesma praticamente grita, fazendo com que os pássaros que estavam na árvore voem.

— Já sei! Nossa isso vai ser ótimo! Vai ficar perfeito! – exclama animadamente, batendo as palmas freneticamente. Pigarreio e chamo sua atenção, afinal eu ainda não sei a tal ideia “perfeita” – Ah sim, a ideia. Que tal a gente contar uma história de amizade? A nossa amizade!

Ok, eu sei que tem muitos alunos que fumam ou cheiram algo, mas eu realmente só achava que os homens estilo “sonho de consumo feminino” que faziam isso devido a falta de desenvolvimento do cérebro. Afinal ela só podia estar brincando, não é mesmo? Eu, Andrew Stewart sendo amigo de alguém? Principalmente de uma garota como Emily Campbell, que não está conversando comigo só para eu fazer seus deveres de casa.

— Você tá brincando, não é? – rio um pouco de sua ideia “perfeita” que está mais para sobrenatural.

— Claro que não! – exclama – por que eu estaria? – questiona enquanto me olha de forma séria.

— Sei lá – dou de ombros – talvez porque nós não sejamos amigos? – digo ironicamente.

— Mas podemos ser – afirma – não sei se você sabe, mas existe uma coisa chamada conversa, você já deve ter lido sobre ela em um dos milhares de livros que você deve engolir – diz de forma óbvia.

— Ok, eu vou fingir que não escutei isso, apesar de ser verdade – acrescento – Então como você espera que nós sejamos “amigos”? – faço sinal de aspas no ar, afinal a verdade é que no final nós vamos acabar o trabalho e dar as costas um para o outro.

— Conversando talvez – diz obviamente – podemos fazer perguntas um para o outro e ver se temos algo em comum – sugere – Eu começo – diz antes de eu responder que aquela era uma péssima ideia – Banda favorita?

— The Beatles sempre – digo orgulhoso do gosto musical que aprendi com o meu pai.

— Clássico – diz pensativa – mais alguma?

— Bom, eu gosto de algumas do The Killers, mas é só porque meu irmão não me deixou em paz até eu escutar o álbum, e no final eu acabei gostando – dou de ombros – Ah! Eu gosto de Queen também!

— E só? Nada dessa década? – diz indignada.

— The Killers é dessa época – contradigo.

— Um em um milhão não conta! Mais nada? Tipo nada? – gesticula com as mãos, como se falasse “Chega” com os braços. Afirmo com certeza – Você é bem das antigas hein, por quê?

Que tal pularmos para a parte que eu viro as costas para Emily e vou para casa. Não que eu não goste de falar sobre o meu pai, eu até gosto, mas só com pessoas que eu realmente conheço. Respiro fundo e conto até dez. É só uma pergunta. Só um simples “Por quê?”. Ela não fez por mal, na verdade ela não deve nem saber o que aconteceu. Volto meu olhar para Emily, que me encara preocupada com seus olhos azuis claros, é impressionante como seus olhos sempre refletem suas sensações. É como se eles fossem um espelho da sua alma e que ela pudesse esconder o que passa em sua cabeça.

— Andy, tá tudo bem? – pisco os olhos freneticamente e assinto – Mesmo? – confirmo de novo – você é meio voado – comenta divertida – como consegue prestar atenção na aula? – indaga.

— Acho que matéria nova é a única coisa que me impede de voar para outros planetas – digo divertido – eu não acredito que você me chamou de Andy – rio – só minha mãe me chama assim, ou meu irmão quando quer me irritar.

— Me lembra do Andy do Toy Story – comenta.

— Por isso mesmo que eu tenho esse apelido, era viciado no filme quando era pequeno – afirmo lembrando-me da minha infância, ou pelo menos dos melhores momentos dela.

— Eu não sabia que você tinha um irmão – diz pensativa – qual o nome dele?

— Alexander. É raro alguém se lembrar dele – digo pensativo – assim que fez dezoito, juntou tudo e foi fazer faculdade de Arquitetura na Alemanha.

— Uau! Que coragem! Deixar tudo sem mais nem menos e ir para outro país – comenta abismada – eu nunca teria coragem de fazer isso.

— Eu teria, na verdade não pensaria duas vezes – afirmo – você não pode depender das outras pessoas para realizar seus sonhos, se não você sempre vai colocar elas em primeiro lugar, aí sua vida vai passar e você vai perceber que não fez nada do que realmente queria, só ficou fazendo as vontades das pessoas ao seu redor – acho que vou trocar Química pela Psicologia depois disso – por isso mesmo que planejo fazer o mesmo que o meu irmão – digo com certeza. Emily está assustada, ou melhor dizendo, surpresa com a minha resposta.

— Não sabia que você era tão radical assim – diz junto de um riso nervoso.

— Te garanto que é mais fácil de viver quando se é assim.

— É, talvez – diz pensativa.

Minutos se passam e o silêncio se torna constante. Estou pensando em como eu poderia estar atualizando minha grade de séries ao invés de tentar ser sociável com alguém. Mas sei que a mente de Emily está longe – provavelmente por causa do que eu disse – porque seus olhos estão fixos em um ponto qualquer do horizonte enquanto seu braço descansa em seu joelho.

— Parece que alguém também saiu do ar, não é mesmo? – cantarolo fazendo com que ela me olhe curiosa.

— Acho melhor a gente tirar as fotos, antes que escureça – fala se levantando, já com a câmera na mão. Levanto logo em seguida e pego minha câmera também.

— Alguma ideia? – balanço minha câmera na mão.

— Eu acho que seria bacana se a gente começasse com fotos individuais, como se nós não nos conhecêssemos.

— O que de certo modo é verdade, porque a gente nunca trocou uma palavra se quer – acrescento divertido.

— É mesmo. Quem começa? – diz animada.

— Primeiro as damas – faço uma pequena reverência e dou passagem para Emily andar para uma área onde o Sol ilumine mais.

— Que cavalheiro – responde a referência, rindo um pouco e caminhando para a luz do Sol.

Sei que Emily é bonita, na verdade esse é um dos motivos que eu ache uma loucura nós tentarmos ser amigos, simplesmente está escrito nas estrelas que vai dar merda, ou que depois que o trabalho for feito, nós vamos começar a ignorar um ao outro de novo. Enfim, voltando ao fato de Emily ser bonita. Ela me parece diferente das outras garotas. Claro que existem outras que são mais gostosas que ela na escola. Ou que são até mesmo mais bonitas, não vou negar isso. Mas algo nela me chama atenção, talvez o fato de ela não usar maquiagem ou não fingir ser alguém que não é me encante.

Aponto minha lente em sua direção e espero a imagem focar. Emily está olhando para o pôr-do-sol, pensando na pose ou simplesmente esperando eu tirar a foto para depois virar-se de novo. Espero mais alguns segundos e tiro a foto. E como qualquer coisa que envolve a Emily, fica bem bonita.

— Sério, você tem que parar de ficar bonitas em todas as fotos – comento divertido – desse jeito só vai ter foto sua no trabalho.

— Não seria má ideia – ri da minha observação – agora sua vez – aponta sua lente para mim, automaticamente curvo minha cabeça para baixo – anda Andy – diz animada.

— Você não vai desistir desse apelido, não é mesmo? – digo a contragosto.

— Definitivamente não! – ri e tira a foto, me deixando atordoado depois.

— Você podia ter esperado ou me avisado, não acha? – não, ela não ia esperar! Aparentemente ela adora tirar fotos enquanto eu estou distraído, ou seja, sempre, a não ser na sala de aula.

— Assim é mais divertido, e além do mais ficou boa – comenta com a cabeça inclinada para a câmera.

— Deixa eu ver então – ando até sua posição e estico a mão, afinal a definição de uma foto boa minha para Emily deve ser algo do tipo “cara de assustado”.

— Depois – diz e começa a arrumar o cabelo – esse vento é um saco! Daqui a pouco vou ficar parecendo o Simba do Rei Leão – reclama enquanto termina de fazer um coque, sentando-se logo em seguida.

— Se a gente continuar nessa lerdeza, nunca vamos terminar o trabalho a tempo – reclamo me sentando logo em seguida. Sim, eu sou o tipo de aluno que acaba o trabalho faltando meses para entregar.

— Tenha calma, se não o trabalho vai ficar sem sentido – diz impaciente.

— Como se fotografia fizesse sentido – reclamo e reviro os olhos.

— Sabe, por que você faz fotografia se odeia tanto a aula? – meneia a cabeça e me observa curiosa em saber minha resposta.

— Porque minha mãe disse que eu precisava fazer algo menos “nerd” – faço aspas no ar – precisava ser mais sociável, mas ela na verdade só está com medo de não ter um neto – solto uma risada seca – coitada! – exclamo – e porque ela disse que iria me ajudar a comprar as edições especiais de Senhor dos Anéis e Star Wars.

— Você não trabalha não? – questiona depois de soltar uma risada com a minha resposta.

— Só nos fins de semana na livraria do centro, mas o salário não serve pra muita coisa.

— Entendi – fecha os olhos e encosta a cabeça no tronco da árvore – mas falando sério, você não pensa em ter filhos não? – diz com um tom de indignação.

— Claro que não! – exclamo – dá muito trabalho e a taxa de divórcio não para de crescer! Eu que não vou entrar nessa fria!

— Eu não acredito que você disse isso! V-você é muito insensível! – xinga – Sério! Como alguém pode pensar isso? – seus olhos estão frenéticos, olhando para todos os lados, suas mãos estão forçadas em punho, tomara que o soco dela não doa muito – você é mais insensível que a pessoa que pisou nesse lírio – pega delicadamente a flor e a observa – e olha que essa flor pode virar um perfume da Dior – diz irritada.

“Sou o silêncio constrangedor” “Prazer, sou o Andrew”.

Um clima tenso se forma entre eu e Emily. Ninguém fala nada. Penso em uma resposta enquanto Emily se distrai com a flor entre seus dedos, provavelmente está pensando se vai ou não me dar um tapa ou um sermão sobre como não querer ter filhos é algo inaceitável e horrível.

5 minutos de silêncio constrangedor.

Os pensamentos de Emily estão longe e a flor de lírio parece ser a coisa mais interessante do mundo. Observo como seus olhos estão mais claros por causas do Sol e que os mesmos examinam a flor como se ela fosse a mais perfeita de todas, mesmo que esteja suja de terra e com algumas pétalas faltando. Chega a ser bizarro ela querer criar uma amizade comigo, somos totalmente o oposto um do outro e eu ainda não sei como não jogamos tudo para o alto e desistimos dessa ideia.

Momentos depois Emily leva a flor ao rosto, respirando o seu cheiro, se é que ainda resta algum. Distraio-me por alguns segundos com a cena, até que uma ideia surge em minha mente. Rapidamente pego minha câmera e tiro uma foto da situação, não que eu vá colocá-la no nosso trabalho, na verdade só achei a cena bonita e resolvi recordar o momento. Merda! Aquele papo do professor pega mesmo!

— Então... – comento com cautela – você vai ficar com raiva de mim por causa do que eu disse? – questiono – porque se sim, já adianto que não vou pedir desculpa por falar minha opinião – digo convicto.

— Não é isso, é só que a sua resposta me pegou de surpresa sabe? – dá de ombros – não estou acostumada com respostas frias – apoia a cabeça nos joelhos.

— Eu não fui frio, eu só fui racional – penso por alguns segundos – ok, talvez eu tenha soado um pouco frio – digo em meio a um fraco riso.

— É mesmo – assente enquanto olha para o Sol, ou pelo menos o restante dele – Acho melhor a gente ir, daqui a pouco vai escurecer – comenta enquanto veste sua jaqueta e pega sua bolsa – Vamos? – se levanta e me oferece sua mão.

Assinto e seguro a sua mão pequena e pálida, fazendo com que eu quase a esmague. É impossível não notar o quanto a sua mão é macia se comparada com a minha, cheia de pequenos cortes causados pelo passar de folhas dos diversos livros que leio. A mão de Emily é o lírio, delicado e suave, já a minha é a terra, desgastada e grossa.

Fico de pé em um segundo e percebo claramente que a nossa diferença de altura é um tanto quanto razoável, digo, não é como se eu fosse uma girafa e ela uma anã. Na verdade está mais para uma desigualdade de uns dez centímetros apenas. Saímos do parque comentando sobre o labrador que estava brincando dentro do lago, bom, na verdade que falou mesmo foi a Emily, o tempo todo, sem pausa!

— Então, está escurecendo – comento olhando para o céu, que está com uma cor bonita, o resto do dia contrastando com o começo da noite – você vai querer companhia até a sua casa? Só me diga que você não mora no Lawrence, porque eu sou sedentário e não vou chegar nem na metade do caminho – acrescento.

— Não se preocupe – comenta divertida – sorte sua que eu moro em Kingsway.

— Sorte mesmo, não vou ter que aguentar o discurso da minha mãe falando sobre como é perigoso andar sozinho a noite – rio.

— Então você também é de Kingsway? – pergunta com curiosidade.

— Era – corrijo – agora estou morando no Bloor West Village.

— Nossa, então você vai passar pertinho da sua casa – questiona – sabe, você não precisa de me fazer companhia, não quero que você chegue tarde a casa – diz preocupada.

— Não tem problema, sério mesmo. Ela vai reclamar se eu deixar uma garota ir sozinha para casa, então de todo jeito vai ter reclamação – solto uma risada.

— É coisa de mãe eu acho, por isso que eu não saio de casa tão cedo, minha mãe ia ter um treco – ri um pouco.

— Provavelmente –concordo. Ficamos uns cinco minutos em silêncio, apenas escutando a brisa que levava algumas folhas das árvores. Até que me lembro de uma conversa inacabada que tive com Emily no parque – Sabe, você praticamente me interrogou no parque e eu ainda não fiz isso com você – viro-me para encarar seu rosto sereno se transformar em uma expressão curiosa.

— Em minha defesa, eu só perguntei qual era a sua banda favorita – dá de ombros – e se você quer saber eu prefiro Ed Sheeran – sorri orgulhosa, ou seria convencida?

— Quem? – exclamo.

— Você tá brincando né? – diz assustada, nego com a cabeça – Você por acaso vive debaixo de uma pedra? – fala surpresa, quase gritando para ser mais exato.

— Você sabe que ficar falando “Não acredito! Você tá brincando?” não vai me fazer saber quem é o tal do sei lá das quantas Sheeran não é? – comento divertido.

— Ed Sheeran – me corrigi – o nome do sei lá das quantas é Ed. Como você não conhece ele? Nunca escutou Lego House? Shape Of You? – questiona.

— Eu já fiz uma casa de Lego, serve? – me encolho dentro da minha jaqueta para me proteger do “tapa” que Emily está ameaçando me acertar.

— Você consegue ser muito irritante quando quer – murmura enquanto vasculha a mochila a procura de algo, provavelmente o celular.

— A culpa não é minha se as músicas antigas são melhores – dou de ombros. A verdade é que Queen e The Beatles foram essenciais para o que acontece hoje, por isso prefiro o original ao inspirado. Além disso, música é uma das únicas lembranças relacionadas ao meu pai na qual não criei barreiras, e agradeço por isso, não escutar esses clássicos seria desperdício de genialidade.

— Sei... – diz irônica enquanto revira os olhos – Achei! – exclama e começa a mexer freneticamente em seu celular – Apresento-te Edward Christopher Sheeran, vulgo Ed Sheeran e sua “Lego House” – me alerta com um olhar tipo “não me venha falar sobre casas de Lego”.

“I'm gonna pick up the pieces
And build a lego house
If things go wrong we can knock it down”

Emily cantarola baixinho enquanto balança a cabeça lentamente no ritmo da música. Seus olhos estão fechados e eu fico me perguntando quanto tempo vai demorar para ela esbarrar em alguém. Concentro-me na canção do tal Ed Sheeran e percebo que ela não é de todo ruim, digo, não é um Elton John ou um Freddie Mercury, mas até que é “escutável”.

“And out of all these things I've done
I will love you better now”

— Então, o que achou? – Emily questiona com um sorriso no rosto que significa “Eu sei que você gostou, é Ed Sheeran afinal”.

— É bacana – dou de ombros – dá pra escutar.

— Só isso? – levanta a sobrancelha, apesar de seu rosto demonstrar um pouco de decepção.

— Ué você esperava que eu desse um ataque de fangirl? – arqueio minha sobrancelha e rio, lembrando de como eu fiquei quando vi o trailer de Batman Vs. Superman.

— Claro! É Ed Sheeran! Todo mundo gosta e não tem a desculpa de falar que as letras dele são vazias, porque não são.

— OK, OK! Talvez eu escute mais algumas músicas dele, mas não prometo nada – levanto as mãos em sinal de rendição. Mulheres sempre ganham a discussão, minha mãe que o diga.

— Ótimo – sorri convencida – lembre-se de escutar “Kiss Me” e “Happier” porque são as minhas preferidas. Ah! Escuta “Photograph” também, é muito boa!

— Uma coisa de cada vez, eu disse “Talvez eu escute” não que ia escutar o álbum inteiro – reclamo mesmo sabendo que são apenas três músicas.

— Deixa de ser dramático Andy – diz dando ênfase no meu vergonhoso apelido – E eu indiquei músicas de três álbuns diferentes – pisca um olho em sinal de esperteza – vamos fazer o seguinte, você escuta um álbum do Ed e eu escuto um álbum do The Killers, porque meu pai já preenche minha cota de bandas do século passado. – faço uma careta ao escutar “banda do século passado”.

— Vou ignorar esse xingamento contra os Beatles e os Rolling Stones, mas acho uma boa ideia. Escuta o “Hot Fuss” ou o “Direct Hits” se já quiser conhecer os maiores sucessos. – afirmo.

— E você escuta o “+”. E não reclama do nome do álbum – me repreende antes que eu possa falar o quão ruim, ou estranho é o nome.

— OK – me rendo com os braços – mas que é estranho é – murmuro e tenho com resposta um revirar de olhos.

— Essa é a minha deixa – Emily vira-se para mim enquanto eu olho para uma casa clássica, quase rústica, com paredes de tijolos e janelas de armação branca, junto dos detalhes em pedra que delineiam a porta e a maior janela da moradia – te vejo amanhã?

— Acho que sim – assinto, voltando meu olhar para Emily, que me olha com um pequeno sorriso no rosto.

— Muito obrigada pela companhia, boa noite – Emily se despede de mim com um abraço e dá as costas indo em direção à porta.

Estou prestes a desejar “Boa noite” quando percebo algo óbvio. Emily foi muito mais amigável comigo do que na nossa primeira aula em dupla. Sei que mulheres são um tanto complicadas de se entender, mas não acho que isso seja caso de bipolaridade ou dupla personalidade.

— Emily! – chamo-a e espero até que ela vire seu corpo completamente, esperando minha fala – por que você foi tão diferente comigo hoje? Não reclamando nem nada, mas é que naquela nossa aula você estava um pouco hostil comigo.

— Ah! Isso – abaixa a cabeça por alguns instantes – você tinha falado sobre o meu ex, e nunca é bom fazer isso – dá de ombros – e porque aquele dia tinha acontecido algo que me incomodou.

— Só isso? – espero ela assentir para continuar falando – só para garantir que você não é bipolar – solto uma risada fraca – mas você sabe que se quiser falar comigo sobre alguma coisa sou todo ouvidos, só não garanto que vá dar bons conselhos e que não fique pensando um pouco na série que eu poderia estar vendo – rio mais um pouco, acompanhado de Emily.

— Viu?! Eu falei que a gente ia se tornar amigos! – sorri convencida – Boa noite Andy!

— Boa noite Emily, até amanhã!

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As ruas de Toronto estão frias, o vento balança as árvores fazendo com que suas últimas folhas caiam. É, as pessoas tem razão ao afirmar que o outono é a estação mais charmosa. Encolho-me na minha jaqueta e coloco as mãos no bolso, deixando que o som do tal Ed Sheeran me acompanhar na minha caminhada até em casa. Quando estava dentro do ônibus tinha escutado “Lego House” de novo, e agora “Give Me Love” ecoa em meus ouvidos. Espero terminar esse álbum até o fim de semana, pelo menos para ter certeza que Emily vai parar de me chamar de velho por nunca ter escutado suas músicas.

“Give me love like her
'Cause lately I've been waking up alone”

É muita loucura pensar que talvez eu e Emily possamos ser amigos? É sim Andrew! Você sabe muito bem que no final vocês simplesmente vão parar de se falar com o passar dos dias e no final do ano já se tratarão com estranhos – minha consciência praticamente grita. Viro a rua e entro no meu prédio, ou como eu chamo carinhosamente, caixa de fósforos. Cumprimento Robert, vulgo Bob, o porteiro/encanador/parceiro de xadrez.

“My my, my my oh give me love
My my, my my give me love”

Assim que chego a casa escuto reclamações sobre o meu atraso, que são cessadas assim que explico o real motivo. Minha mãe comenta, mais uma vez, sobre a visita de Alexander, provavelmente esperando uma resposta mais entusiasmada de minha parte, mas a verdade é que a única coisa que me passa a cabeça é pedir para trazer chocolates.

— My my, my my, oh give me love, give a little time to me, we'll burn this out – cantarolo indo em direção ao banheiro.

É, talvez eu tenha de admitir que Emily tem um ótimo gosto musical.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.