Phobos
3 Uma solução
Notas iniciais
2 dias depois...
Assim tudo fica bem mais emocionante para ambos os lados. Apesar de estar fazendo isso pelo meu tio, até que é divertido. Mas isso é o de menos. Tenho outros compromissos agora.
Eu entro pela porta da frente de um supermercado e sutilmente me dirijo a banca do gerente, e enquanto percorro essa pequena distância, todos os presentes no mercado olham pra mim — que aliás são muitos, afinal é o maior mercado da cidade. Ele é bem gordinho e é calvo, com olhos pequenos e cobertos por um óculos de grau — bem forte por sinal — e está usando uma camisa de manga curta laranja — cor padrão dos funcionários — e uma calça comprida de cor preta. Vejo na sua bancada uma placa com o nome Paul Goodman. Paul me olha de sobressalto, como se não esperasse minha presença. Ele se desespera e levanta suas mãos imediatamente. Isso poderia até parecer estranho. Se eu não estivesse com uma arma apontada em sua cabeça.
– P-por favor não m-me mate. Aqui está a chave do c-cofre. — Ele gagueja me entregando a chave de uma grande porta de metal que fica perto da seção de salgados. Bem que umas fritas vinham a calhar agora.
– Perfeito. — Respondo. Sei o que está pensando, mas não, ele não me reconhece como Enzzo Walker, o estudante de direito e amador investigativo, mas como um assaltante mascarado. Minha máscara é feita de ferro e possui um formato de um rosto masculino, daquelas estátuas gregas do museu — falando nisso ela foi bem difícil de achar — e estou usando um sobretudo preto, acompanhado de uma calça comprida também preta, luvas da mesma cor e uma Glock 42 em punho. Viro-me em direção as mulheres dos caixas eletrônicos.
– Botem todo o dinheiro em sacolas me entreguem. — Elas o fazem na mesma hora, e eu entrego uma sacola que eu segurava pra mais próxima de mim, que ela agarra do mesmo jeito que eu — não que isso importe.
Alguns minutos depois de elas começarem a preencher os sacos, escuto um estrondo na parte da frente da loja. Cerca de 10 polícias fortemente armados aparecem com suas armas apontadas em mim. Porém, eu sou mais rápido. No momento que entram, eu pego o Sr. Goodman e o coloco em minha frente, com a Glock em cima de sua orelha direita. Os policiais se acanham um pouco e abaixam levemente as armas, não parando de aponta-las para mim. Eu sorrio por de baixo da máscara.
– Abaixem as armas. — Falo, com minha voz um pouco distorcida devido a máscara. Eles nem ao menos pensam em acatar a hipótese. — Ou eu atiro nele.
– Rendasse e sairá vivo. — Responde um deles, aparentemente mais velho que os outros.
– Vocês vão me matar? — Falo com sarcasmo.
– Rendasse. — Repete o mesmo homem. Eles não vão atirar, se não comprovariam minha pergunta.
– Sabem o que é Agorafobia? — Falo lentamente, tomando cuidado para não botar meu corpo em uma posição desfavorável. — É bastante conhecida, e é o medo compulsivo de...
– Multidões. — Fala um dos Cops. Eu simplesmente confinuo.
– Exato. É uma fobia bastante conhecida ao redor do mundo e muitas pessoas a tem de forma mais leve, como se fosse simples timidez. Porém, em estados mais graves... — Dou uma pausa. — Agorafobia. — Esta última palavra eu falo de forma um pouco mais alta.
Nesse momento uma mulher dá um grito do outro lado do mercado. Ela começa a se debater e se jogar pros lados, com uma expressão terrificada, como seu um demônio tomasse conta de seu corpo — aliás, um corpo bem magro. Todos os tiras olham para a mulher por um segundo. Eu atiro nessa mulher no segundo que se distraem. Eles voltam a olhar pra mim perplexos.
– Abaixem as armas. — Digo novamente. Desta vez eles acatam minha ordem e colocam as armas no chão. — Muito bom. Agora, quero que cada um de vocês, um por um, coloque suas armas no saco que a mulher estava usando. Rápido. — Eles temem um pouco, então atiro no pé do Sr. Goodman, que solta um gemido de dor. Eu não o solto. Então eles finalmente acatam minhas ordens, e vão botando suas armas no saco, uma por uma, segurando a sacola pelas abas, e voltando ao local original.
– Pronto. — Diz o mesmo policial que respondeu minha afirmação sobre a Agorafobia. – O que você quer agora?
– Deitem-se. Vou contar uma historinha. – Eu solto o Sr. Goodman, que cai no chão com uma enorme dor no pé. Foi mal, mas foi necessário. Os policiais se deitam no chão de barriga pra baixo, com as mãos na cabeça, exceto um, este o policial mais velho entre eles. – Eu mandei abaixar. – Ele não abaixa. – Eu. Mandei. Você abaixar. – Falo friamente.
– Eu não vou lhe obedecer, pirralho. – Ah, que beleza. Ele falou a palavra. – Prefiro morrer.
– Se você quer... – Atiro contra o rosto do homem. Um dos cops deitado grita por seu nome. Ross. Bom, não vou lembrar-me dele mesmo. Se bem que pode ser que eu fique culpado. Esse homem provavelmente tem família. Esposa. Filhos. Não que isso importe. Mas eu também tenho uma família pra salvar.
Os policiais engolem em seco. A maioria deles está suando frio, senão todos. Uma mulher no fundo chora copiosamente. Por que estou fazendo isso? É algo tão... mau. Mas eu não me sinto tão mal assim. Na verdade, faz tempo que não me sinto tão bem.
– Escutem crianças. Existe uma fobia muito rara, que muito dificilmente alguém teria. Acho que que as estatísticas são tão improváveis que devem entrar em casa decimais. Ela, em seu estado máximo, pode causar um suicídio biológico, basicamente, seu corpo se mata sozinho. Ela causa o medo a tudo e todas as coisas, todos os medos num só. Sabe qual o nome dessa fobia? – Eu dou uma grande pausa pra aproveitar meu triunfo. – Pantofobia.
A palavra percorre e ressoa por todo o meu corpo, me dando um prazer nunca antes sentido. Ao falar a palavra, todos os polícias começam a se debater de forma inumana, seus olhos se arregalam de forma que acho que saltarão das orbitas e suas pupilas de dilatam. Esse é um estado máximo do medo. Alguns começam a tremer, como se estivessem tendo uma convulsão. A mulher que chorava nos fundos começa a gritar. Esse pavor, esse horror. Ele é delicioso. Depois de mais alguns segundos, eles cessam seus movimentos. Eu apenas observo. Pego o dinheiro do cofre depois de um tempo olhando as pessoas em seu estado de pânico. Pego todas as sacolas e boto numa mochila, que levo nas costas, e de precaução, cubro essa mochila com outra mochila sem ninguém ver. Saio andando em direção ao lado de fora da loja, vendo os carros da polícia que nunca mais verão seus antigos donos. Antes de passar pela porta do mercado, olho para cima. E vejo uma câmera me focando silenciosamente.
–
Vejo o dinheiro passando por minhas mãos, enquanto o conto. Só 20.000. Ainda não está nem perto de dois bilhões, mas posso usar isso pra pagar minhas próximas investidas. E tenho que ser mais cuidadoso. Apesar de ter previsto os policiais, estes foram mais do que esperado. Tive que improvisar e isso não é bom. Já estou com minha roupa normal de volta e a bolsa que levei o dinheiro, devidamente incinerada. Apesar de ter cerca de 15 pessoas, não estou me sentindo tão culpado quanto deveria. Isso é estranho. Levanto para guardar o dinheiro e já aperto o botão de ligar do controle da TV. Ela liga no canal 6 e está passando a programação local. Excelente.
– A criminalidade da cidade está aumentando a cada dia e a população se preocupa. Vejamos os que o departamento de policia diz a respeito. – Fala uma mulher, aparentemente a repórter, que passa o microfone pro Sr. Conrad.
Eu acabo de guardar o dinheiro e já me dirijo a mesa pra guardar meu trunfo. Acima da mesa, perfeitamente empilhados, um pouco mais de 200 adesivos transparentes – praticamente invisíveis -, protegidos cada um por uma película. Cara, vocês não sabem como foi difícil fazer isso. Mas não são simples adesivos. Cada um deles levemente molhado com o soro do medo, já que devido aos testes que fiz em mim mesmo, uma pequena quantidade do soro causa o mesmo efeito que uma grande quantidade. E ela possui uma absorção absurdamente rápida, que nunca vi antes, e se inspirada, injetada, tomada ou até mesmo colocada em contato com a pele do alvo, faz efeito quase instantâneo, cerca de 3 segundos. Eu não as usei no primeiro assalto, planejava usa-las mais tarde, quero que achem que tenho um... “poder sobrenatural”.
Foi bem simples eliminar aqueles guardas. Eu basicamente dei uma sacola, banhada levemente no soro, á uma das caixas. Por instinto, ela pegaria a sacola da mesma forma que eu, já que se tratava de um assalto, inconscientemente o alvo tenta simular as ações do assaltante para fazê-lo achar que são parecidos em essência. Não que funcione. Então, ao explicar sobre a Agorafobia, eu a fiz adquirir tal medo rapidamente. Com a distração, consegui prova-los de que eu estava pronto pra sacrificar as vidas que precisasse. Logo, foi fácil faze-los tocar no mesmo lugar da sacola que a mulher, devido ao próprio instinto que citei antes. Mas aquele tal de Ross era bem irritante. Após esconder meus “condutores”, sento-me numa cadeira pra ver o noticiário. E me deparo com a notícia do meu assalto. Vamos ver a impressão que causei.
– Agora vamos para uma reportagem inédita. Um assalto, em plena luz do dia, no supermercado Whoo Watches, um maníaco rouba 20.000 dólares em dinheiro e mata 16 pessoas, entre elas 15 policiais armados. Segue agora os detalhes e o vídeo da ação do assaltante.
A gravação é vista por cima, num angulo horizontal, e mostra toda a minha performance. Escutas perto da banca do gerente gravaram todo o áudio, devia ser alguma preocupação com clientes desonestos ou algo parecido. Ainda bem que logo o canal 6 veio a reproduzir essa notícia. Ele é assistido diariamente por milhões de habitantes da cidade. Agora, no mínimo 97% da cidade sabe o que são agorafobia e principalmente pantofobia, e isso vai me ajudar muito contra certas pessoas indesejáveis.
Me viro para o lado e olho o calendário. Faltam aproximadamente 11 dias pra eu ter todo o dinheiro. Eu preciso dele rápido, a vida de meu tio está em jogo. Troco de canal e sem querer coloco no canal 2, que é basicamente um canal de fofocas – visto por muitas donas de casa, diga-se de passagem. Vejo o Sr. Conrad falando na tela, ao vivo, com sua pose machona e uma gravata azul com terno preto, preparado para fazer algo. Ele fala algo sobre uma festa do milionário John Caruso, em nome de seus 39 anos. Interessante. Acho que tenho um compromisso hoje a noite.
–
Atenção: Leia essa parte como se narrada por outra pessoa que não o senhor Enzzo Walker (Não que importe, a voz é feminina)
Um dia atrás...
Um telefone toca ao meu lado. Será um novo caso? Espero que não, tenho que terminar essa série ainda hoje. Pauso o vídeo justo no momento que um personagem diz: — “Say my n...”. Atendo a ligação, clicando num gravador na base do dispositivo.
– Hello. – Digo, calmamente, com minha típica voz fria. Escuto um som ofegante do outro lado da linha. Isso as vezes me lembra que “a” ao quadrado é igual a “b” ao quadrado somado a “c” ao quadrado.
– Alô, senhorita Moira? – Fala o homem.
– Depende. – Respondo de forma rápida.
– Ah, desculpe. – Ele suspira, provavelmente não acreditando no que vai falar. – Senhorita Asa das Trevas... – Ele fala como se estivesse com nojo do que fala. Vou pedir pra reduzirem seu salário. Ele não é pago pra debochar de exigências.
– Sim, aqui quem fala é ela. – Eu enrolo meus dedos no fio do telefone, mas logo desisto e faço o mesmo com os cabelos. – Não me diga que é outro caso...
– Sim Senhorita Mo... – Pigarrejo, indicando que ele está se referindo de forma errônea novamente. Deveriam reduzir o salário dele. Sim, tão certo como dois corpos atraem-se com força proporcional às suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que separa seus centros de gravidade. – Asa das Trevas... – Ele fala arrastado enquanto eu aceno com a cabeça, apesar dele não estar vendo. – Estão discutindo um caso extremamente peculiar, numa grande cidade nos EUA. Você deveria dar uma olhada. Vou passar os arquivos.
Recebo um arquivo no meu computador. Eu o abro e vejo diversas fotos, arquivos de texto, áudio e um vídeo. Olho cada um cuidadosamente. Sim, peculiar. Muito peculiar. Extremamente peculiar. A minha série vai ter que esperar. Sim, tão certo quanto (a + b)2 = a2 + 2ab + b2.
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