Phobos

4 Três Mulheres


Notas iniciais
Opa, desculpa pelo atraso galera, houveram alguns problemas, mas aqui está o capítulo, sem muita ação, mas com o bastante a explicar. Boa leitura.

Enzzo:

Já está anoitecendo e está quase na hora da festa. Bem, como todos sabem festas sempre tem figuras penetras ou indesejadas — se é que não são a mesma coisa -, portanto, vamos dar uma visita ao pobre milionário John Caruso — entendem a ironia?

Eu abro a porta de casa e após ir para o lado de fora, tranco a porta, com Bob tentando me seguir. Estou usando a roupa mais chique que encontrei: um terno cinza e antigo de meu tio Dave, muito antigo mesmo, junto com uma camisa social branca, sapato de bico fino e um cinto de couro marrom. Também levo comigo uma mochila, com água, comida e algumas coisas a mais, dentre elas um livro – vai que a festa fica chata.

Tenho que apressar, pois começará em meia hora e a pé eu só devo chegar lá em no mínimo 20 minutos. Vou andando na rua a paços largos e ligeiros, enquanto canto silenciosamente.

– ...dreams of liars, dreams of dragons fire, and of things that will bite... – Nunca contei isso, mas eu até tenho uma voz bonita sabem? Não que importe.

Então, após passar por diversos pontos, como uma cafeteria, um parque, dois postos de gasolina e diversas residências, chego num bairro mais chique da cidade, repleto de prédios e casas de luxo. Entre um dos comércios que vejo, está o Whoo Watches, fechado devido ao orçamento – desculpe, mas os fins justificam os meios. Cinco minutos depois, vejo o carro do Sr. Conrad – Um Chevrolet Silverado prateado – estacionado ao lado de um enorme edifício com diversas luzes coloridas e muito som saindo do local. Há também muitas pessoas entrando no edifício, todos com as mais caras roupas de grife – e eu com meu terno barato – e carros ainda mais caros estacionados na porta do prédio. Agora eu tenho que ser Enzzo Walker Thomson, estudante de direito e amador investigativo, não posso demonstrar sinais de que sou o assaltante mascarado. Vejo dois homens conferindo os cartões de convite de quem chega, um maior e de óculos escuro e outro mais magro e ruivo. Entre centenas de convidados lá dentro, vejo uma jovem garota, loira, cabelos presos e um belo vestido amarelo.

–

Tenho um plano. Eu espero o homem maior de óculos sair e vou falar com o ruivo, com uma mulher – com aparentemente 30 anos — logo atrás de mim, me olhando com atenção.

– Convite por favor. – Fala o homem ruivo, estendendo a mão.

– Sim, claro. – Entrego um papel qualquer a ele. Ele estranha automaticamente.

– Muito engraçado pirralho. – As pessoas adivinham, não é possível. Ele rasga o papel ao meio duas vezes. – Suma daqui.

– Como assim suma? Por que você rasgou meu convite? – Falo indignado.

– Que convite? Isso é só um pedaço de papel! Desaparece da minha frente garoto.

– Você é cego por acaso? Olhe aqui, até a marca do Sr. Caruso tem! – Aponto pro papel, que nenhuma marca possui.

– Você está querendo me tirar do sério garoto... – Ele fala tentando se acalmar.

– Com licença. – Diz a mulher atrás de mim, pegando no meu ombro. – Qual o problema?

– Este homem está me barrando sem motivo aparente! – Falo com raiva na voz. Cara, eu sou um ótimo ator.

– Este pivete nem ao menos está com o convite minha senhorita! – Ele grita, despertando curiosos. – Por que eu o deixaria entrar?

– Como assim sem convite? O convite está na mão dele. – Responde a mulher, olhando para o segurança com uma cara de estranheza.

– Isso é só um pedaço de papel! – Ele grita de novo.

– Segurança, você deve estar muito estressado. – Falo calmamente com ele.

– Sim. – confirma a mulher, acenando com a cabeça – Desde que horas você está trabalhando?

– Bem... – Ele coça a cabeça por trás. – Acho que ando trabalhando demais sim... – Ele abaixa a cabeça, envergonhado.

– Eu te perdoo meu querido. – Essa mulher sabe como enganar alguém. – Só deixe esse garoto passar, ele não tem nada a ver com nossos problemas.

– Err... t-tudo bem. Desculpa garoto, não acontecerá de novo. – Ele libera a corrente pra nos deixar passar.

– Tudo bem cara, acontece. Felicidades pra você. – Dou um tapinha em seu ombro.

Eu e a mulher passamos pela corrente juntos e após nos distanciarmos um pouco, tiro 2.000 dólares do meu bolso e a entrego. Ela sorri.

– Bela atuação. – Começo a me distanciar dela, quando me lembro de agradecer. – Ah, e obrigado. – Aceno pra ela.

– Disponha. – Diz a mulher guardando o dinheiro numa bolsa.

Sigo andando e vejo tantas pessoas que mal consigo me locomover sem um “com licença” ou um “perdão” por esbarrar em alguém. Pouco tempo depois, vejo um local mais aberto, perto das mesas de bebidas. Um pouco antes de chegar lá, eu olho a garota loira. E ela me olha. Cara, eu não gosto de admitir essas coisas, mas ela é muito bonita. Até demais. Um cabelo dourado, levemente cacheado, com olhos cor de mel e um nariz fino porém esbelto. Bochechas rosadas e cara, aquelas pernas. Junto um vestido amarelo de um material bem leve pra completar a obra e um salto prateado. Ambos nos encaramos, sérios, enquanto andamos. A medida que nos afastamos, giramos a cabeça pra continuar a olhar um pro outro. Até que escuto uma voz.

– Melody! – Diz uma voz masculina e rouca. Olho na direção da voz e vejo um homem barbudo, forte e com um enorme chapéu cartola. Pela aparência deve ser seu pai.

– Aqui papai. – Eu não falei? – Estou indo. – Ela para de me olhar e segue em direção ao pai. Eu continuo a observando, até que na metade do caminho ela vira a cabeça e me olha uma última vez. Eu desisto e continuo andando.

Próximo às bebidas, vejo o Sr. Conrad conversando com um sorriso no rosto com um homem magro, de óculos de grau, cabelos cacheados um pouco longos, porém não tanto. Presumo que deva ser o tal John Caruso pelo número de belas mulheres o olhando com ar de “eu não mordo”. Aproximo-me deles e chego perto o suficiente pra escutar a conversa, enquanto finjo estar bebendo uma limonada.

– Sim, realmente. – Responde algo o Sr. Conrad, já não muito sóbrio. – Mas nunca que ele entraria nessa festa. – Ele soluça. – Seus guardas são muito competentes. – Nisso não posso discutir. A ironia é algo tão bom.

– Verdade, mas ainda assim estou temeroso Peter. – O primeiro nome do Sr. Conrad é Peter? Vivendo e aprendendo. – Ele pode muito bem ser um de nossos convidados. – Ele olha ao redor.

– Veja bem John. – Ele assume uma postura séria. – Não precisamos temer o Phobos. Entendeu? Não precisamos. Bote isso na cabeça.

Phobos? É assim que a polícia está me chamando? Sim, isso é interessante. O deus do medo da mitologia grega, imponente e sem escrúpulos. Combina perfeitamente comigo. Phobos. Acho que vou gostar disso. Eu termino de beber minha limonada e me viro para o Sr. Conrad.

– Phobos? Quem é esse? – Pergunto de forma natural e curiosa.

– Enzzo? – Diz o Sr. Peter Conrad espantado. – O que faz aqui? Você foi convidado?

– Claro que sim. Bem, na verdade, outro convidado me chamou, dizendo que não viria. – Minto.

– Realmente – Confirma John. – um dos convidados disse que não ia comparecer. Tu és amigo da madame Stephanie? – Ele pergunta com uma sobrancelha erguida.

– Sim. – Respondo sem tremer nem um músculo.

– Então seja bem vindo. Madame Steph tem ótimo gosto para amizades.

– Mas, perdão, vocês ainda não me disseram quem é esse Phobos. – Volto ao assunto principal. Sr. Conrad engole em seco.

– É o deus grego do medo, você não sabia? – Saídas como essa não vão te ajudar, amigo.

– Eu sei quem é o Phobos mitológico. Não me enrole, é claro que ele não existe. Deuses não existem. – Pelo menos os deuses gregos. Vai que o Sobek existe e ele quer meu corpo nu.

– Se você diz, Enzzo. Mas existem alguns deuses escondidos na Terra, e eles podem assumir as mais diversas formas. – Explica John Caruso, pegando uma taça de vinho numa bandeja que uma das mulheres segurava, falando um curto “Obrigado” seguido de um sorriso “cativante”.

– Como por exemplo? – Falo.

– Estamos nos referindo ao assaltante do Whoo Watches Enzzo. Ele é o Phobos. Um simples homem que pode causar o medo a quem quiser. Claro que ele não é um Deus. Mas tem os poderes de um. – Eu rio da última frase.

– Vocês realmente acreditam que ele tem poderes? – Falo debochado.

– Não temos como provar que não são. – Responde Caruso.

– Bom, isso é verdade. – Boto as mãos nos bolsos. – Mas acho que ideias sobrenaturais não devem ser postas num caso.

– Também acho Senhor Walker. – Diz uma voz feminina atrás de mim. Porém com certeza não é uma voz graciosa ou bonita. É uma voz obscura, rouca e sem emoção. Olho para trás e vejo uma mulher muito alta, de quase 1.90, pele extremamente pálida, e numa aparência gótica, com roupas negras, uma gravata preta – sim, numa mulher. – em baixo duma camisa social branca que por sua vez fica abaixo de um colete negro, com suas mangas até os pulsos. Usa um batom da mesma cor das roupas, assim como suas pálpebras. Usa uma meia calça de redes – tipo aquelas da Canário Negro. Que foi? Vocês não leem quadrinhos? – e salto alto combinando com todo o conjunto. Ah, e uma saia preta, nem tão grande nem tão curta. Também usava luvas brancas nas mãos. Ela me olha penetrantemente. – O sobrenatural não pode ser posto num caso sem provas de sua existência. As vezes, em nenhuma hipótese. – Eu a olho calmo por fora, mas por dentro, sinto uma vontade de mata-la das piores formas possíveis. Nunca senti nada assim antes.

– Concordo. Mas, desculpa, quem é a senhorita? – Pergunto. Ela segura sua saia com uma das mãos, a levanta levemente ao mesmo tempo que flexiona os joelhos cruzados e tira o chapéu da cabeça, revelando seus cabelos negros encaracolados nas pontas mas lisos nas raízes, numa tradicional saudação das rodas de moças e cavalheiros.

– Senhorita Marple. Agatha Marple. – Responde John Caruso, beijando as mãos da mulher.

– Marple? A detetive dos livros? – Pergunto com curiosidade.

– Na verdade, a dos livros se chama Jane Marple. O Agatha veio do nome da escritora, Agatha Christie. Mas realmente foi uma referência de minha mãe. – Ela tira minha dúvida me olhando. Não estou gostando dessa mulher. Há algo errado nela.

– O que faz aqui senhorita? – Pergunta Sr. Conrad.

– Bem, estou aqui para solucionar o caso Phobos. – Todos nós nos surpreendemos, eu inclusive dou um passo pra trás. – Acho que vai ser interessante desmascara-lo.

– Você quer dizer, tentar não é? – Falo sério. Ela se aproxima de mim.

– Eu sempre desmascaro os vilões. – Diz num tom estranhamente natural demais.

– Você é detetive? – Questiona Conrad.

– I am not in danger, Skyler... – Fala Agatha, distraída.

– Como? Não entendi. – Pergunta Conrad confuso, não que eu não esteja.

– Ah, sim. Sim, eu sou detetive. Sim, sou. – Fala como se tivesse acabado de sair de um transe.

– Eu não sabia... – Diz John Caruso.

– Nunca me perguntou.

– Bom, como você irá nos ajudar no caso, quero lhe apresentar Enzzo Walker. – Diz Sr. Conrad, apertando meu ombro, sorrindo. – Ele é um ótimo interrogador e acho que está pronto pra assumir nossa investigação junto conosco. E precisamos de alguém para substituir Dave.

– Quem é Dave? – Pergunta Agatha. Claro, ela não conhece meu tio.

– Ah, desculpe, você não nos conhece. Ele é o tio de Enzzo. Foi sequestrado a dois dias. Estamos tentando encontra-lo também. – Ele certamente já está bêbado, posso sentir o bafo.

– Oh. Meus pêsames... Err, Enzzo não é? – Ela fala com um tom de pena.

– Sim, obrigado. – De repente sinto algo tocando meu braço. Olho para o lado. É aquela menina. Melody. Como eu ainda lembro o seu nome?

– Posso pegar ele emprestado por um segundo? – Ela pergunta com sua doce voz. Todos lá assentem com a cabeça. – Obrigada. – Ela segue me puxando pelo salão até chegar numa área mais reservada, perto de uma varanda. Eu não consigo evitar de rir. Ela para, encosta na parede e me solta. E fica me encarando por um tempo. Parece estar esperando algo.

– Algum problema? – Falo confuso.

– Por que estava me olhando? Naquela hora... – Ela fala envergonhada.

– Ah. Bem, você é bem bonita. – Ela fica vermelha. Parece ter levado um tapa na cara. Hm, acho que posso aproveitar isso. – Você também não se acha bonita?

– E-eu, quer dizer, err... eu... – Ela começa a gaguejar.

– Não precisa falar. Você é muito linda, acho que uma opinião de fora lhe ajudará a confirmar isso. – Falo naturalmente.

– Você... também é bem bonito. – Ela me olha nos olhos, sorrindo e ainda vermelha.

Cara, nunca foi tão fácil pegar alguém. A iluminação também está muito boa. Uma luminária roxa pende do teto, dando um tom mais isolado a nós. Ela só precisa de um empurrãozinho agora. Eu me aproximo dela devagar, enquanto ela vai ficando mais envergonhada, mas parecendo querer isso. Ando levemente mais rápido. Quando chego perto o suficiente dela, eu passo a mão em torno de sua cintura. Hm, deve ser a primeira vez dela. Ela está extasiada. Eu lentamente vou encostando meus lábios nos dela. Ela fecha seus olhos. Cara, pode ter sido a primeira vez dela, mas te garanto que não foi ruim. Ela logo começa a se empolgar, passando os braços sobre meu pescoço. E, enquanto nos beijávamos, eu pensava a quanto tempo eu não pensava em coisas normais.

–

Moira:

Demonstrações de afeto. Sim, algo bem natural entre humanos. Olho para aqueles dois se beijando nas sombras não tão sombrias assim afinal. Acho que esse nome falso vai servir. Agatha. Não que ela seja uma má escritora, mas seu tempo já passou. Estou meu perdendo em meus pensamentos de novo. Preciso investir de alguma forma. Quem será o Phobos? Será que ele é um Deus? Eu olho para aquele garoto. Enzzo. Se for se considerar que ele é humano, demonstrações de afeto são naturais pra ele. Mas infelizmente – ou felizmente – eu não estou aqui pra isso. Eu estou aqui para destronar um Deus. E se ele é o Deus do medo, eu também sou. Não posso me rebaixar a tais coisas humanas. Não posso perder. Por que eu sou a Moira. Me aguarde Phobos. Ninguém escapa do destino.

Notas finais
Muito bem, chegamos ao final deste capítulo. Não deixem de comentar se gostaram e não sejam leitores fantasmas. Coments = Motivação. Flw e se liguem no Galvão!