Phobos
1 Uma maleta
Notas iniciais
A vida é uma coisa que envolve muitas decisões e qualquer decisão errada pode a destruir. Mas a palavra destruir, apesar de não estar escrito em nenhum dicionário, lhe garanto, tem muitos sentidos. Acredite ou não, mas ela pode ser destruída pra melhor ou pior. Claro, na maioria das vezes você não tem opção de escolher qual vai ser sua destruição.
- E devemos lembrar sempre, um crime doloso é aquele em que o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo, ou seja, o fez por vontade própria. — Falava um homem alto, de aparencia arrumada e cabelos curtos, grisalhos. Usa um casaco escuro de tons rubros, aberto, mas podendo ser fechado por um ziper que pende na lateral do casaco. Usa uma calça jeans basica e um cinto de couro preto. Sim, pelo que ele falou deve ser fácil entender que é meu professor. Não que importe, seu nome é Joshuel. — Porém...
Eu olho pra janela, próximo ao ventilador na parede. É estranho o quanto esse país fica quente algumas partes do ano não? E o professor de casaco. Também é muito estranho a visão do meu tio Dave do lado de fora da sala, dentro do carro, me olhando fixamente a vários metros de distância. Pra um homem de 50 anos ele é bem conservado. Cara, eu penso muita...
- Você não acha senhor Enzzo? — Pergunta Joshuel, me olhando com a ponta dos olhos.
- Sim professor, concordo. — Respondo com pouco caso. Por que não pulamos pra parte em que vamos atrás de bandidos? Direito é muito chato no começo.
- Você sabe que eu posso muito bem o deixar distraído como estava... — Lá vem de novo. — Mas eu prezo meus alunos e quero que todos um dia alcancem um patamar ideal na sociedade, com um bom emprego e estabilidade social. Então preste atenção, sim? — Ele termina a frase olhando para o quadro, enquanto anota algo.
- Sim, senhor Joshuel. — Repare na minha mudança de "professor" para "senhor". — Vou me concentrar.
E antes de me focar na aula novamente, dou uma última olhada na janela, e vejo meu tio tomando um sorvete — eu disse que estava quente — e atendendo uma ligação. Ele parece preocupado.
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Bom, deixem eu me apresentar. Sou Enzzo Walker Thomson, tenho 20 anos, — solteiro — cabelos pretos curtos, olhos castanho claro, pele branca, médio porte, estudante de direito e amador forense, embora seja somente um hobby. Não tenho condições pra comprar um apartamento, então vivo de graça com meu tio Dave Philip Thomson, careca, olhos azuis e não tão acima do peso. Ele é detetive daqui da cidade e por causa dele eu estou nesse curso, porque "não posso ser investigador sem me formar em direito". Bom, se é o que ele diz.
Eu saio da aula umas duas horas depois e vejo meu tio logo na escada da saída do curso, ele olha pra mim com um olhar um pouco preocupado. Está usando uma roupa — muito estranha por sinal — exatamente igual áqueles detetives da TV, como Sherlock Holmes. Muito legal. Ele dá um tapa em minhas costas, quase me empurrando pra frente, mas me seguro ao chão e retribuo o tapão.
- Como vai Enzzo? Muitas emoções na aula?
- Você fala com se fosse divertido. Por que não entra lá de novo e tenta sentir algumas emoções?
- Porque eu não sigo ordens de moleques. — Cara, essa doeu. Ainda bem que ele não me chamou de pirralho. — Aliás, pirralhos. — Filho da mãe.
- Bom, afinal, o que veio fazer aqui? Você não me visita muito desse jeito. Algum problema?
- Já que falou, vamos ir direto ao assunto. O senhor Conrad — Chefe do meu tio e o cara mais machão que já vi. — disse que precisa de alguém pra interrogar um suspeito, mas eu já estou incumbido de outro serviço. Ele disse que posso fazer uma indicação. Você está pronto pra isso?
- Se estou pronto? — Eu aperto meus dedos de forma a faze-los estalar. — Eu mal podia esperar pra fazer isso de novo.
- Mas o senhor Conrad disse que é um trabalho sério. Tem certeza que consegue?
- Você me conhece tio.
- Por isso eu tenho dúvidas em escolher você. — Ele diz olhando pros lados, como se nervoso.
- Pode confiar em mim tio Dave. — Eu bato de leve em seu ombro. — Eu nunca vou lhe decepcionar.
Ele me abraça, e sinto como se estivesse falando com meu pai. Como seu eu já tivesse tido um.
-
- Uma maleta? — Pergunto ao policial mais próximo a mim. Ele parece assustado. Estou no local onde eles interrogarão o carinha. Disseram que ele está com uma maleta de metal presa ao seu pulso.
- S-sim, ele chegou aqui dizendo que se rendia, portando a maleta. Estamos temerosos em abri-la devido a hipótese dela ser uma bomba.
- Entendo. Ele disse algo?
- Somente que se ele for pro inferno, nos leva junto.
- Então peçam a Deus que não haja uma bomba nessa maleta. Posso falar com ele?
-
- Clark Charles Harrison, 23 anos e uma bela ficha criminal. Bem limpa ela não acha? — Pergunto ao homem sentado a minha frente na mesa de metal. Ele me olha diretamente nos olhos, como uma afronta. Presa ao seu pulso, a maleta prateada, com uma senha de 4 números perto da trava. Engraçado, o cara é heterocrômico. Não que isso importe.
- Não quero ser interrogado por um pirralho mais novo que eu. — Ele disse pirralho.
- Lamentavelmente você não tem escolha. Ou tem, pode mofar na prisão se quiser.
- Se eu quiser eu posso matar todos vocês aqui e agora. — Ele bate na mesa.
- O que tem na maleta?
- Não vou dizer.
- É uma bomba?
- E se for?
- Então estamos mortos. Você aceita o risco?
- Você deveria aceitar o risco. Quer morrer?
- Como?
- Com a bomba!
- Que bomba?
- A que está dentro da maleta!
- Que maleta?
- ESSA MALETA, MOLEQUE DESGRAÇADO! — Ele bate a maleta contra a mesa, criando um estrondo na sala. Ele se estressou. Perfeito.
- Tem uma bomba nela?
- Não vou dizer.
Eu me viro pro senhor Conrad, do lado de trás de uma parede de chumbo, sendo visto por um vidro, a prova de balas, só num breve detalhe.
- Ele não tem uma bomba. — Digo.
- Ei, espere! Tem sim! — Ele fala levantando da mesa.
- Não tem, você sem querer admitiu que há uma bomba aí dentro quando disse que ela estava na maleta e logo após disse que não ia contar se era verdade. Você se distraiu. — Ele para e pensa.
- Mas como você sabia que era um blefe? — ele pergunta incrédulo. Eu apenas dou um sorriso.
- Agora eu sei. — Falo entre o sorriso, quase maior que meu rosto. Ele caiu fácil.
O senhor Conrad e seus homens saem de trás da parede e se postam ao meu lado. Olho de soslaio pro meu "chefinho". Está relativamente impressionado.
- Pirralho maldito... — Se falar isso de novo eu juro que faço uma bomba aparecer dentro dessa maleta.
- Normalmente os criminosos não caem nessa de primeira. Apesar de agressivo, ou você não é criminoso, ou é muito burro. E aquele que colocou essa maleta em você não escolheria uma pessoa burra. — Ele se senta, rendido. — Quem lhe deu essa bomba?
- Não é uma bomba... — Ele diz, entregando a última informação que precisava. Não está mentindo. Claro, sempre há a chance. Mas são nulas.
- Ótimo. — Relaxo o corpo. — Quem lhe deu a maleta?
- Eu não sei. — Tento falar, mas ele já responde a próxima pergunta. — Ele... — Excelente, já sei que se trata de um homem. Ou não, mas provavelmente — ...simplesmente me perguntou se eu queria uma grana. Eu estava precisando pra... err... — ele tenta pensar em uma desculpa, mas não consegue. — ...jogar. Eu sou viciado em jogo de azar.
- Compreendo. Você viu o rosto dele?
- Não. Ele usava um óculos e uma máscara cirúrgica. Mas seu cabelo era preto. — Outra informação. Um policial atrás de mim anota tudo.
- Sim. Ele pediu pra você entregar essa maleta a alguém?
- Não. Ele pediu para eu me render. — Como assim? Se render? Bom, isso deve significar duas coisas. Ou aí dentro tem uma bomba, ou alguma informação que ele quer entregar a polícia. Olho para uma mulher vestida de branco perto da parede de chumbo. Ela cuidou da parte da análise.
- Há digitais na maleta? — Pergunto.
- Não. — Responde Clark, antes da mulher. — Ele usava luvas também.
- Interessante. — Boto a mão no queixo. — Você têm a senha? — A pergunta é idiota. E a única resposta mais idiota e coerente pra ela é...
- Sim. Ele disse pra eu entrega-la para vocês assim que me perguntassem.
- E não te perguntaram? — Questiono, mesmo já sabendo a resposta.
- Não. — Ele responde, ainda de cabeça baixa.
- Vamos pros finalmentes. Qual a senha, Clark?
- 4-2-3-3. — Responde o homem.
- Bom garoto. — Olho pros policiais. — Abram a maleta. — Dois deles imediatamente se prontificam para abri-la.
-
Cara, é incrível você ter tanto trabalho só pra depois você se sentir um lixo. Podia ter um milagre da tecnologia ali, a localização de um cartel de drogas, da máfia até. Mas não. Quando abrimos a maleta, não havia um milagre da tecnoligia. Nem a localização da máfia. Mas um simples pedaço de papel escrito: "Peguei vocês". Eu amassei o papel e o coloquei no bolso, chutei a mesa no chão. E sai em direção de casa, xigando tudo. E todos.
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