Phantomhive

14 Um mar de lágrimas


Notas iniciais
Olá ^^

Eu sei que querem me matar ( principalmente a Liv, a Shasha e a Náh)....mil desculpas, as explicações estão no final.

obrigada a todos que comentaram...pfv ignorem possíveis erros, meu teclado tá com um defeito dos infernos e eu não manjo tudo de portugues.

Larissa e Gabriel....Sejam bem vindos.

Boa leitura.

Capítulo 14: Um mar de lágrimas

Elizabeth caminhava pelas ruas de Liverpool cantarolando a música de O Quebra-Nozes. Em sua mão direita as sapatilhas de balé, enquanto sua mãe, Helen, puxava-a pela mão esquerda. Elizabeth tinha oito anos e dançava desde os sete. Embora não fosse lá muito boa, gostava das aulas, pois se sentia uma princesa toda vez que vestia o tutu cor de rosa. Em um dia qualquer, sem nenhuma razão realmente especial, Helen Wilson resolveu fazer uma visita a sua velha amiga de faculdade, Hortence Valentine. Não a via há tanto tempo e por negligência, afinal, a Little Mozart ficava tão perto da escola de dança da pequena Liza.

Enquanto as duas mulheres conversavam, Elizabeth foi atraída por uma melodia alegre até uma sala no fim do corredor. Havia várias salas com alunos tocando vários instrumentos, produzindo sons agradáveis ou não. Mas uma música, vinda do final daquele corredor, se destacava. Seus pequenos pés aproximaram-se lentamente e, chegando à porta, pôs-se a espiar pela fresta. Liza ficou espantada. Deslumbrada. Um garotinho do seu tamanho tocava ao violino uma musica alegre, música que não conhecia, mas se tratava de A Primavera de Antônio Vivaldi. O menino, embora pequeno, tocava com a habilidade de um adulto.

Ficou ali, assistindo escondida a apresentação de violino. O menino abriu os olhos, revelando um azul intenso e encantador, que imediatamente divisaram o par de olhos verdes que o espionava. Quando percebeu que o menino realmente olhava para ela, Elizabeth ficou vermelha e pensou em sair correndo. Mas o garotinho correu em sua direção, segurando o violino numa mão e escancarando a porta com a outra. Liza achou que levaria uma bronca, mas o menino falou muito receptivo.

– Olá! Você vai estudar aqui? – perguntou o garotinho olhando Liza com curiosidade. Ele achou que a menina parecia com a boneca da caixa de música da sua irmã, pois tinha os mesmos cabelos loiros encaracolados e a roupa de bailarina.

– Não. Estou só visitando.

– Meu nome é Ciel e o seu? – estendeu a mão para cumprimentá-la revelando um sorriso angelical.

– Elizabeth. Mas pode me chamar de Liza. Eu gostei muito de como você toca.

– Obrigado. Minha mãe me ensinou. Eu estava treinando com minha irmã. Quer conhecer a sala de música, Liza? – não esperou resposta, apenas segurou a mão da menina e puxou-a para dentro – Angie veja. Esta é Liza. Ela veio visitar a escola.

– Olá lindinha. Eu sou Angélica. – uma jovem de dezesseis anos, com olhos azuis acinzentados e cabelos compridos e laranjas a cumprimentou do piano.

– Quer que eu toque uma música pra você? – Ciel perguntou com o entusiasmo natural da infância.

Elizabeth assentiu. E Ciel tocou. A sala encheu-se de risos alegres. Era como se o próprio violino sorrisse.

Liza ainda não tinha vivido muito tempo e nem conhecia muitas coisas da vida, mas nenhum menino fora tão gentil com ela. E aquele sorriso... De alguma forma, ela soube que gostaria daquele garotinho para sempre. Por insistência das duas crianças, Ciel e Liza, sempre que possível a senhora Helen Wilson ia visitar a Little Mozart. Com o tempo, os dois se tornaram melhores amigos. Quando saiu do balé, Liza quis fazer jazz. Não que gostasse de dançar isso ou aquilo, mas era uma ótima desculpa para sempre visitar a Little Mozart, ou melhor, Ciel. Os sentimentos que Liza nutria por Ciel aumentavam cada vez mais.

Mas como a vida é cheia de altos e baixos, um ano depois, Ciel ficou doente. Não sabia exatamente de quê, os Valentine não gostavam de comentar. E Ciel apenas piorava. Parecia que não melhoraria, talvez por isso tenha feito o que fez. Nem Liza, nem ninguém sabia ao certo o que, se a estranha doença ou aquilo ter acontecido, mas algo mudara Ciel. Aos poucos deixou de brincar, de falar com outras crianças. O sorriso tornou-se raro, até que desapareceu. Não tinha mais a mesma vivacidade. Mesmo assim Liza continuou ao seu lado.

Por anos Elizabeth amou o amigo secretamente, sem nunca lhe dizer nada. Mas quando cursavam a oitava série, a loira notou que as outras meninas observavam Ciel. O apontavam, cochichavam e davam risinhos bobos quando ele passava, suspiravam quando ele entrava na sala e quando ele respondia “bom dia”. O ar indiferente do garoto só o tornava mais atraente as outras meninas que viam nele um tipo de rebelde sem causa. Que estupidez! Ciel não era nada disso. Elas não o conheciam como podiam se achar no direito de ser namoradas dele?

Liza percebeu que, se não pedisse Ciel em namoro, alguma espertinha poderia tomar-lhe a frente. Mas e se ele dissesse não? Teria que tentar, imagine que garotas se interessariam por ele no segundo grau? E se fosse uma do tipo que não se pode competir? Mesmo temendo a resposta de Ciel, durante um trabalho de química que os dois faziam na casa do garoto, Liza fez o pedido. O jovem olhou para as longas cadeias de carbono, fazendo Liza se perguntar se ele realmente ouvira sua declaração e seu pedido. Depois de alguns segundos, Ciel olhou para ela. A garota sentiu seu coração saltar do peito.

– Claro. – ele respondeu comprimindo os lábios em um pequeno, tímido e rápido sorriso.

Desde aquele dia, os dois eram oficialmente namorados. Liza podia abraçá-lo, andar de braços dados em raros momentos, andar de mãos dadas em momentos mais raros ainda, e beijá-lo no rosto quando tivesse certeza de que ele não negaria. Mas o tão sonhado primeiro beijo ainda não chegara. Apesar de retraído, Elizabeth tinha certeza que algum dia Ciel se sentiria a vontade para dar seu primeiro beijo, e quando esse dia chegasse, ela estaria pronta, mesmo que esse dia demorasse a chegar.

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Isabella acabara de sair de casa. Como sempre, acordara bem cedo para sua caminhada matinal. O ar era mais fresco e havia menos pessoas nas ruas, menos carros. Caminhava tranquilamente até que um transeunte a parou.

– Com licença, senhorita. Vejo que está indo naquela direção, poderia fazer-me um favor?

Isabella olhou para a figura despreocupada. A pessoa tinha boa aparência, fala mansa e olhar gentil. Por que não?

– O que é?

– Poderia colocar esse cartão dentro da caixa de correio que há no fim dessa rua?

– Claro, tudo bem. – Isabella recebeu o tal cartão, não estava fechado, nem dentro de um envelope. – Vai mandá-lo assim mesmo?

– Sim.

Sem perder mais tempo, Isabella voltou a sua caminhada com o cartão em mão. Olhou-o por cima e percebeu que estava destinado a polícia. Não havia endereço nem nada. Somente “à Polícia”. Vencida pela curiosidade, ao chegar perto da caixa de correio, assegurou-se de que não havia ninguém por perto (como se um estranho pudesse imaginar que a correspondência que ela tinha em mãos não lhe pertencia). Abriu o cartão para ver do que se tratava. Para sua surpresa o cartão trazia uma única frase aparentemente sem sentido. O que isso queria dizer?

– Tsc, tsc. Que coisa feia ler a correspondência alheia – Isabella virou-se assustada, a mesma pessoa que lhe entregara o cartão apareceu sem que ela percebesse. – Odeio gente mexeriqueira. Sabe o que eu faço com elas?

Isabella nem teve tempo de fazer ou sequer pensar qualquer coisa. A faca cortou sua garganta com velocidade surpreendente. O sangue espirrando longe, pintando de vermelho a calçada, a parede, a caixa de correio e assinando com sangue o cartão caído no chão. Isabella desabou no asfalto debatendo-se como um porco no abate.

Por fim, parou.

– Bilhete entregue. Espero que a polícia encontre. – e foi-se embora levando o corpo.

No chão ensanguentado, jazia um simples cartão manchado de sangue com os dizeres:

“Aqui, ela foi morta.”

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Elizabeth acordou naquela manhã de quinta-feira sentindo-se recuperada do resfriado que tinha pegado no dia anterior. Esfregou os olhos lembrando-se do sonho que tivera. Sonhara com o dia em que conhecera Ciel. Sempre que se lembrava daquele dia, sentia-se imensamente feliz. Mas por alguma razão, naquela manhã, aquele sonho a deixara triste.

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Ciel faltara à aula e Liza não conseguiu falar com ele. O celular do garoto chamava, mas ele nunca atendia. Era incrível como a escola parecia ainda mais monótona sem o Ciel. Embora o dia sem o jovem tenha sido exatamente como os dias com ele. A única diferença era ter que realmente prestar atenção às explicações, pois não tinha Ciel para lhe ajudar. O professor de Literatura começou a falar sobre o Realismo. O professor de Matemática passou umas três páginas de exercício de cálculo. O Professor de Língua Inglesa perguntou quem tinha feito o resumo que ele apenas mencionara na aula passada, mas não dissera se era realmente um trabalho. Pegou toda a turma desprevenida.

– Quem fez ganhou um ponto. Quem não fez perdeu dois. – disse o professor ranzinza.

Toda a turma ficou indignada, mas há muito aprenderam que questionar ou reclamar só faria o professor distribuir mais notas negativas. Liza o odiou profundamente. Era por isso que sempre estava com a corda no pescoço naquela matéria.

O senhor Cranston, professor de Geografia, que Ciel não suportava (Liza também não ia com a cara dele), passava mais tempo dando bola para as alunas do que explicando alguma coisa. O que era uma pena, pois Elizabeth até gostava da matéria. A antipatia dos dois pelo professor era consequência da afeição que eles, e todos na escola, tinham pela senhorita Bathory, a bibliotecária. Os dois professores eram namorados de longa data, no entanto o cafajeste galanteador não parava de ficar jogando cantada nas alunas, nas outras professoras, nas funcionárias e em qualquer coisa que vestisse saia. Cranston era bonito, educado, atencioso, um Romeu. Talvez seu único defeito fosse ser mulherengo. Pobre senhorita Bathory, como podia ser tão cega a ponto de não perceber que era traída?

E foi justamente a bibliotecária a surpresa daquele dia comum. A diretoria a escolheu para substituir a falecida professora Mary Margareth nas aulas de Arte, pelo menos até que eles encontrassem um novo professor. O que era difícil, depois da morte horrível da professora, alguns começaram a criar uma espécie de lenda urbana sobre o cargo estar amaldiçoado. Se estava ou não amaldiçoado, ninguém sabia de fato, mas assim que a Senhorita Bathory entrou, preencheu todo o lugar. Era bonita. Com seus compridos e lustrosos cabelos negros e olhos igualmente escuros. Óculos discretos. Um jeito gentil, quase tímido, de falar, mas com um grande poder de controle e firmeza. A professora favorita de Ciel, Liza sabia. A mulher sempre indicava bons livros a ele.

O dia terminou com a aula do Professor de alemão, o senhor Hubberman, que deu um texto complicadíssimo para que eles traduzissem em casa. Elizabeth e Dimas se reclamavam do exercício zerado, se Ciel estivesse ali....

A jovem se perguntava o que teria acontecido. Onde Ciel estaria? Com quem estaria?

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Queridos Phantomhive

Primeiramente, gostaria de agradecer por mais uma vez terem atendido ao nosso apelo. Muito obrigada.

Como já devem saber, várias mulheres do nosso maravilhoso país foram brutalmente assassinadas. Como se essa monstruosidade não fosse o suficiente, outros pais e mães de famílias, filhos e filhas, cidadãos inocentes têm desaparecido sem deixar vestígios. E os que têm desaparecido não são poucos.

Em outras circunstâncias, assassinatos em série e desaparecimentos não seriam algo tão extraordinário que a polícia não soubesse resolver. Mas isso em outras circunstâncias. Então, qual a circunstância atual?

Há alguns dias, um representante da Corte dos Serafins me informou que algumas pessoas na Europa conseguiram esconder a existência de quimeras. Ainda não sabemos exatamente quantas quimeras escaparam da execução dos Serafins, se são artificiais ou naturais, quais poderes possuem, ou se seus criadores são amigos ou inimigos. Por enquanto, a existência de cinco quimeras está confirmada, sendo que uma dessas criaturas estava escondida aqui mesmo na Inglaterra. Tudo o que sabemos é que elas foram roubadas e logo em seguida, os primeiros assassinatos e desaparecimentos ocorreram.

Não sabemos quem é nosso inimigo ou o que ele pretende fazer com as quimeras roubadas. Mas se estas quimeras sobreviveram até agora, podemos ter uma ideia do perigo que nos aguarda. Antes que esse inimigo conclua seu plano maligno, peço aos meus leais Cães de Guarda que resolvam esse caso.

Atenciosamente,

A Rainha

Ciel estava na sala de visitas na casa do Sebastian. O garoto e Richard escutavam o akuma ler a carta da Rainha em voz alta. Sebastian, que sempre se mostrava indiferente a tudo, ao ler a carta, não conseguiu evitar uma expressão intrigada.

– Claus Midford te entregou isso?

– Não... – Ciel respondeu, constatando que estava certo. Esse tal detetive Midford tinha mesmo ligação com Sebastian. – Um cara esquisito que me entregou, ele disse que Midford estava resolvendo outros problemas.

– Como ele era?

– Cabelo comprido e quase branco, alto, meio maluco....

– Ele tinha uma cicatriz no rosto ou no pescoço?

– Não. Eu teria visto se ele tivesse uma. O nome dele é Mark Callaway.

– Aquele filho da mãe! – bradou Richard – O que ele veio fazer aqui? E porque Claus o trouxe?

– Quieto!

– A carta estava dentro de um cilindro de prata e... É verdadeira?

– O recipiente abriu com o seu sangue?

– Hum... – Ciel parou um instante ao ouvir a pergunta, na hora em que o lacre se rompeu, não passou pela sua cabeça que o seu sangue tinha feito aquilo, achou que tivesse ativado ou apertado alguma coisa. – Sim. Eu não sabia que os adornos eram cortantes.

– E não são. É um feitiço de lacre. Só abre com o sangue do destinatário. A carta é verdadeira. E alarmante.

– Pelo tom da carta achei que fosse algo sério, mas não sei exatamente por que. O que realmente é uma quimera? – o garoto disse “realmente”, porque conhecia aquela quimera das lendas greco-romanas, criatura metade isso e metade aquilo que cuspia fogo e sabe-se lá mais o que.

– Quimera é uma criatura hibrida resultante da união de duas espécies. São instáveis e extremamente perigosas. Isso quando sobrevivem.

– Como assim?

– Não é de hoje que humanos e demônios tentam criar quimeras, usando magia negra ou branca, alquimia e até métodos absurdos chamados de ciência. Mas as quimeras nunca vivem por muito tempo, sejam elas naturais ou artificiais. No entanto as únicas quimeras que sobreviveram causaram tanto estrago que, sempre que uma surge sobre essa terra, os Serafins imediatamente executam os criadores e a criatura. E agora temos mais perguntas do que respostas. Um: quem criou as quimeras e com qual objetivo? Dois: como conseguiram ocultá-las dos Serafins? Três: como a Corte e a Rainha ficaram sabendo da existência delas? E quatro: como isso se relaciona com os assassinatos?

Ciel sentia-se meio perdido, era como faltar um mês inteiro de aula e voltar justamente no dia da prova. Olhou para Sebastian que encarava a carta com irritação, pelo visto Callaway tinha razão, o demônio não sabia sobre todos os segredos. Quem saberia então? Ciel tinha uma resposta em mente.

– No passado, alguns faziam sacrifícios humanos para dar vida as quimeras, não é? – começou Richard – E se estiverem fazendo o mesmo?

– Pode ser, mas as vítimas encontradas não apresentavam o padrão de ritual correto. – Sebastian explicou.

– O quê?! Desfigurar as pessoas, cortar os pedaços, espetar agulhas e sei lá mais que tipos de torturas, me parecem ser o tipo de coisa usado em ritual de magia negra... E daquelas bem pretas, meu amigo.

Sebastian suspirou como se tudo aquilo fosse enfadonho.

– Muitos psicopatas já fizeram isso mesmo não tendo nenhuma ligação com o sobrenatural. Eu quis dizer que as vitimas não apresentam os padrões de sacrifício humano usados para criar quimeras.

– Ah. Quem melhor do que um demônio pra saber, não é?

– E se as vítimas forem uma distração para algo maior? – Ciel soltou sem querer, atraindo imediatamente a atenção dos dois homens. – Vocês julgam que todos os desaparecidos viraram comida de kroboro, mas e se no meio desses, alguns estiverem sendo capturados para outros fins?

– Você pode ter razão, Ciel – Sebastian disse analisando a possibilidade. Ciel não demonstrou, mas sentiu-se um pouquinho orgulhoso por ter dado um bom palpite.

– Você disse que os assassinatos revelam uma personalidade humana, mas só um demônio pode invocar kroboros. Talvez sejam realmente os dois, um humano e um demônio trabalhando juntos. Se uma quimera, ou estar em posse dela, é algo tão perigoso assim, seja lá o que o inimigo planeja fazer com ela, precisaria de uma distração para por o plano em ação. Um assassino em série seria perfeito para concentrar a atenção da policia em tentar encontrar o responsável pelas mortes. Mas ainda sobrariam vocês. E se o inimigo souber sobre os Cães da Rainha? Vocês precisavam impedir que os kroboros matassem mais pessoas, certo? Com tantos deles comendo gente aqui e ali, como poderiam ter certeza se dentre tantos desaparecidos, um não foi realmente devorado? Se mais um desaparecimento fosse anunciado, o que vocês concluiriam?

– Que fora mais uma vítima dos kroboros. – Sebastian admitiu. – E o pior é que realmente não dá para confirmar isso.

– Alguém provavelmente está contando com essa reação de vocês e da polícia. Estive na delegacia hoje à tarde, fui levar uns papéis para meu pai, eram encaminhamentos. Eles estão enviando os casos dos desaparecidos para unidades menores, ou destinando os casos para policiais novatos, estão concentrados apenas em encontrar o Serial Killer. O Departamento de Policia estava um caos, eles não sabem o que estão procurando exatamente.

– E não estão totalmente errados. Se um demônio estiver envolvido, não poderemos encontrá-lo tão facilmente se ele não quiser. Em outras palavras, temos que nos esforçar em dobro para achar o assassino antes da polícia. Ele nos levará ao seu parceiro demoníaco. Então poderemos...

– Senhor Michaelis! Senhor Michaelis! Senhor Mic...

Dimas irrompeu na sala berrando a plenos pulmões. Quando viu Ciel, paralisou-se instantaneamente, seu rosto ficou branco como um fantasma. Olhou para Sebastian como se pedisse desculpas por ter feito uma grande idiotice.

– Tudo bem, Dimas – Sebastian disse. – Seu amigo, Valentine, já sabe sobre o legado da Casa Phantomhive e sobre os Cães da Rainha. E... – Sebastian virou-se para Ciel – ...pelas atitudes recentes dele, acredito que tenha aceitado o convite.

Ciel deu de ombros.

– Pode-se dizer que sim.

– Não há algo que você queria dizer, Dimas? – Sebastian indagou, voltando-se novamente para o outro jovem.

– Sim. Seja bem vindo, Ciel! – cumprimentou com um enorme sorriso no rosto.

– Isso não, tolo. Você entrou aqui aos berros, o que ia dizer?

– Eu ia....? Ah!! Sim, ia sim. É muito importante.... O que era mesmo? – o garoto começou a dar soquinhos na testa tentando lembrar. Os outros três reviravam os olhos. – LEMBREI! O assassino fez mais uma vítima. O corpo foi abandonado no Winton Park no Eccles, não há muita coisa lá, só um monte de árvores e alguns campos de futebol. A grama estava bem aparadinha, deu até vontade de correr lá. Consegui tirar uma foto da mulher antes que a polícia chegasse. Essa tinha algo diferente. Uma mensagem. Vejam.

Dimas pegou o celular, procurou a foto e mostrou aos três. A mulher estava com o corpo aparentemente intacto, não fosse a garganta degolada, não era uma visão muito agradável. Dimas deu zoom na imagem, até que fosse possível ler algo escrito no braço dela.

“ Denn die Toten reiten schnell”

– O que está escrito? – Richard perguntou.

– Só sei que é alemão, mas eu não entendi. – Dimas falou coçando a cabeça. Deveria prestar mais atenção nas aulas do professor Hubberman, mas alemão era tão difícil. Nunca achou que fosse realmente precisar saber alemão.

Ciel puxou o celular para ver melhor e leu. Exibindo sua pronuncia perfeita do idioma alemão.

– Denn die Toten reiten schnell. Significa: “Pois os mortos cavalgam céleres”. – Ciel parou para pensar um pouco – É uma frase do poema Lenore do escritor alemão Gottfried August Bürger. O poema faz parte das baladas góticas do século XVIII, famoso por ser um dos precursores da literatura sobre... vampiros. Embora os personagens do poema não fossem considerados vampiros. O poema fala sobre um homem que volta dos mortos para levar a sua noiva. Essa mesma frase também é citada no livro Drácula de Bram Stoker. O nosso professor de Língua Estrangeira mencionou o poema durante uma aula sobre literatura alemã, eu o procurei pra ler por que... – porque se sentia atraído pelo sobrenatural, era o que ia dizer, mas não disse. – Enfim, o que isso quer dizer? Vampiros não existem, não é?

A sala ficou em silêncio.

– Puxa! – Dimas exclamou – O que é que eu fico fazendo em aula? Eu não lembro nada disso tudo que você falou.

– Não aparece muito sangue na foto. – disse Richard.

– Não havia mesmo. Só ela. – Dimas respondeu.

– Isso quer dizer que ela foi morta em outro lugar. Pra facilitar o nosso trabalho de busca. – Richard falou com sarcasmo enquanto coçava o queixo.

– Dimas vá ao Darjeeling Chá e informe a Ruby sobre tudo. – Sebastian disse – Richard, vá até o Winton Park e verifique toa a área, faça algumas perguntas e...

– Já sei, não deixar que a polícia perceba que estou xeretando. – o homem acendeu um cigarro, ajeitou o casaco marrom e saiu com Dimas em seu encalço.

– E eu faço o quê? – Ciel perguntou.

– Vá pra casa.

– O QUÊ?! Você me encheu a paciência e faltou me deixar louco pra ajudar... Como é que vocês dizem? “Manter o legado dos Phantomhive” e agora me manda pra casa?

– Não é isso. Você ainda precisa aprender algumas coisas. Enfrentar demônios sem saber o básico é suicídio.

– Eu me virei até agora.

– E quase morreu. Na primeira vez eu estava lá e na segunda vez, Ruby estava lá. Eu estava ocupado com a Amanda, e se Ruby não estivesse por perto naquela hora? Já pensou nisso? –Ciel olhou para o lado emburrado. Sebastian segurou o queixo do jovem. – Por que todo esse desapego à própria vida? Fique em casa hoje. Aceite pelo menos essa ordem minha, pelo menos dessa vez. Vem, vou levá-lo em casa.

Sebastian deu carona para Ciel até sua casa. Permaneceu pensativo, o que foi estranho, pois geralmente Sebastian é quem fica provocando e Ciel é quem fica quieto e emburrado, mas algo incomodava o demônio. E Ciel odiava não saber o que estava acontecendo. Embora tivesse descoberto muitas coisas, sentia que essas eram apenas a ponta do iceberg. Quando entraram na rua de sua casa, viu o carro do pai logo à frente.

– Para aqui. Meu pai está entrando em casa, ele vai me encher de perguntas se nos vir.

– Namorando escondido, é? – Sebastian ironizou.

– O quê?! Claro que... Cala a boca. – Ciel ficou vermelho de vergonha. A palavra namorado, propriamente dita, ainda não passara pela sua cabeça. O garoto abriu a porta do carona e saiu do carro.

– Não vai me dar um beijo de despedida?

– Vai pro inferno. – balbuciou o jovem fazendo o moreno rir.

Sebastian ficou olhando o adolescente entrar na casa. Seus olhos adquirindo um tom de vermelho brilhante.

– Seus dias felizes estão terminando, Ciel. Estará preparado?

O demônio olhou para as próprias mãos sobre o volante do carro. Deu a ré no jaguar preto e foi embora.

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– Onde estava ontem? Eu liguei pra você várias vezes.

Elizabeth e Ciel caminhavam para a escola.

– Estava ocupado. Escuta Liza, preciso conversar com você. É importante.

Elizabeth sentiu um aperto no coração.

– Pode ser depois da aula? – a loira perguntou e, sem dar tempo para que Ciel desse qualquer resposta, emendou uma falação sem fim sobre os mais diversos assuntos.

Ela sabia que o namorado não gostava de muita conversa e por isso vinha se controlando há anos, mesmo assim continuava a falar. Ciel jamais dissera tão seriamente que precisava conversar com ela. Normalmente ficaria feliz em ouvi-lo. Mas uma angustia a perturbava. Estava com medo do que ele pretendia dizer.

E se ela tiver feito algo que aborreceu o garoto. Tentava se acalmar. Talvez estivesse se estressando à toa. Ciel apresentara uma melhora no seu humor ultimamente. Queria acreditar que tal mudança fosse por algo que ela tenha feito, mas no fundo, no fundo, sabia que era graças ao novo amigo Sebastian. E por mais que dissesse a si mesma que estava sendo uma boba, não conseguia deixar de sentir uma pontinha de ciúmes. Doía-lhe ter de admitir que tudo o que fizera durante todos esses anos não ajudou Ciel em nada.

Ciel tentou falar com ela durante o dia todo, e Liza que sempre corria atrás dele parecia fugir. Em sala, ficou discutindo com Pauline o episódio de alguma série de TV. No intervalo, saiu apressada dizendo que estava morrendo de fome. Quando Ciel juntou-se a mesa, Liza saiu arrastando Pauline para o banheiro dizendo que tinha que retocar a maquiagem. No fim do dia, Liza saiu correndo dizendo que tinha prova na aula de esgrima. Ciel tentou ligar pra ela, ela apenas atendeu dizendo que não podia falar e desligou. Ou Elizabeth estava se vingando dele ou ele realmente não estava com muita sorte.

Ciel queria conversar com Elizabeth. Explicar e esclarecer as coisas. Dizer à garota o que realmente sentia por ela e por Sebastian. Sabia que ela iria chorar, mas se ela o escutasse talvez aceitasse numa boa. Talvez.

Sabia que qualquer um lhe diria que ele estava brincando com fogo por se meter com alguém como Sebastian. Mas Ciel não estava brincando. Não lhe importava se Sebastian realmente gostava dele, se era homem ou humano, queria apenas estar com ele. E surpreendentemente, a cada dia, menos se importava com qualquer tipo de convenção social. Como Angie dissera, quando estava com aquele homem, ou demônio, todo o resto era insignificante. Somente uma coisa ainda o incomodava: Liza. Sentia que jamais se entregaria verdadeiramente a esse novo sentimento enquanto estivesse preso ao compromisso com Elizabeth. Pela consideração, respeito e estima que sentia pela amiga, sim, apenas amiga, não podia permitir que a farsa continuasse.

No entanto, por mais que tentasse contar a ela, a garota escapava-lhe como a água entre os dedos.

Aquele dia estava sendo deveras estressante. Ficou o tempo todo procurando uma oportunidade de falar com a amiga, mas sempre algo o interrompia. Pra piorar, o maldito Mason e sua turma não perdiam a chance de importuná-lo. Ciel o odiava cada vez mais, ainda mais ultimamente, que trazia um sorriso cínico no rosto como se tramasse algo. Talvez estivesse apenas esperando que Ciel revidasse ali mesmo na escola, onde poderia causar um grande estardalhaço. Ciel não sabia o que Ivan estava tramando, mas estava. Que tentasse qualquer coisa. Aquele cretino. Poderia até ir expulso, mas arrancaria sangue daquele nariz.

Quando estavam sós na sala, Dimas entregou a Ciel, a pedido de Sebastian, um livro bem antigo. O livro era de tamanho médio, capa dura com uma espécie de trinco nas laterais. As páginas eram decoradas com ilustrações pouco agradáveis de diversas criaturas. O texto fora escrito a mão. Classificação dos Demônios e Outras Criaturas Negras por Aodh Ferghus.

– Sebastian mandou você estudar tudo. Ruby e Richard mandam bem nas armas, eu me viro com os punhos e você pode se especializar em hierarquia demoníaca. – dissera Dimas.

– O que Sebastian espera que eu faça, que eu acerte os demônios com o livro?

– Só segue as instruções dele, tá? Eu achei que ele estava brincando no inicio e me dei mal, quase fui capturado. Ele falou “Da próxima vez eu mesmo te jogo para os kroboros”. – falou tentando imitar o tom sinistro e ameaçador de Sebastian – Depois disso eu tomo cuidado com os dois tipos de demônio, os que estão contra nós e o que está do nosso lado. Vai por mim, isso nem é o pior. O Despertar, esse sim é terrível, eu quase não consegui voltar.

– O que é o Despertar?

– Não posso dizer. Você não está pronto ainda. Sebastian me mataria. Só precisa saber que só será um Cão de Guarda completo quando passar pelo Despertar.

Ciel, Dimas, Liza e Pauline voltavam da escola reclamando do trabalho absurdo que teriam pra fazer em casa. Ciel estava aborrecido, pois novamente estava cercado de pessoas, como poderia conversar com Elizabeth assim? O jovem não sabia exatamente sobre o que os outros falavam, mas logo o assunto comida entrou na roda. Provavelmente, quando se volta faminto da escola o cérebro tende a pensar apenas nisso. Liza informou a Pauline sobre o café que conhecera. Obviamente falava do Darjeeling Chá. Insistiu que todos fossem fazer um lanche no lugar, Ciel foi o único a resistir, mas como era a minoria, foi arrastado.

Estavam a uns cinco estabelecimentos de distância do café, quando os primeiros pingos de chuva começaram a cair do céu. Os quatro correram em direção ao Darjeeling para abrigar-se. Ao entrarem no café, com a chuva ganhando força às suas costas, os jovens avistaram Sebastian numa mesa do fundo conversando com Ruby. Liza, muito entrosada, acompanhada do espaçoso Dimas, dirigiu-se até Sebastian, que aparentemente, não se incomodou que todos se sentassem na mesma mesa que ele.

Elizabeth apresentou Pauline a Ruby e começou a falar de mil coisas, Dimas começou a contar histórias cômicas que aconteceram com ele, tão absurdas eram, que não se sabia se ele era realmente tão desventurado ou se estava fazendo piada para as garotas. Ciel e Sebastian apenas se cumprimentaram pelo olhar. O mais velho achando graça do aborrecimento do jovem ao ver seu lugar tranquilo ser engolido pela balburdia dos colegas.

Acontece que o Darjeeling tinha naquela tarde outro novo cliente que se ocultou ao ver os quatro entrarem. Ficou observando-os escondidos. Em dado momento, Elizabeth levantou-se e foi até o balcão comprar seus tão amados cupcakes. O observador viu ali a chance perfeita de por seu plano de vingança em ação.

– Olá, Li-za. Que surpresa te encontrar fora da escola. – Elizabeth virou-se e encarou Ivan Mason. O garoto aproximou-se devagar, tirando os fones do ipod do ouvido.

– Me deixa em paz, Mason. Vai procurar a sua turma. – o delinquente a rondava tão próximo que podia escutar o chiado alto da música que escapava dos fones.

– Nossa! A gatinha tem garras. Sabe... eu gosto de você, é. Você é uma pessoa muito legal, muito amiga, amiga mesmo. – Esgueirava-se em torno da garota como um tigre faminto. – Não é toda garota que aceitaria fazer o que você faz por um amigo.

– Do que você está falando?

– Do Valentine, é claro. É preciso ser muito altruísta para fingir ser a namorada de um amigo pra que ninguém descubra que ele é... gay. – praticamente sibilou a última palavra como uma serpente destilando o veneno.

Elizabeth virou o rosto para Ivan, sem ter certeza de que o ouvira direito.

– O quê?

– Eu disse que você finge ser namorada do Ciel pra que ninguém descubra que ele é gay. Isso é legal da sua parte, eu não teria coragem de fazer isso. Quem diria, não é? – abafava um risinho dissimulado – Se alguém me contasse eu não acreditaria, se a turma soubesse...

– Que absurdo você está dizendo? Ciel não é gay. Eu sou mesmo a namorada dele.

– Sério?! Eu nunca vi vocês se beijarem, por isso achei que fosse um tipo de joguinho de vocês, além do mais, já vi Ciel com outros caras de forma mais... cê sabe, mais íntima.

– Qual o seu problema Ivan? Não se cansa de inventar mentiras e de perturbar as pessoas?

– Oh, não, senhorita Wilson. Não estou mentindo e posso provar. Imagine que lá estava eu caminhando tranquilamente por uma rua qualquer –, o jovem gesticulava como se estivesse encenando para uma plateia de teatro – quando me deparo com uma cena nada comum. Se eu contasse, ninguém acreditaria, por isso gravei pra que ninguém colocasse a minha palavra em dúvida. Se não acredita em mim veja o vídeo.

Ivan ficou atrás de Liza, esticando o braço na frente do rosto da garota de maneira que ela pudesse assistir ao vídeo no celular. Apoiava o queixo no ombro da loira esperando ansiosamente pelo impacto que as imagens causariam.

De inicio Elizabeth achou que fosse mais uma troça boba de Mason, mas seus olhos rapidamente reconheceram os personagens no vídeo. Sebastian e Ciel conversavam, embora o vídeo não tivesse áudio, numa rua pouco movimentada ao lado do jaguar preto que ela já conhecia. “O que tem demais nisso?” ela disse irritada. “Continue” insistiu maliciosamente o jovem ao seu ouvido. Para seu completo espanto, Liza viu Sebastian inclinar-se sobre Ciel, que estava encostado no carro preto, e beijar-lhe ternamente os lábios. O coração de Liza começou a acelerar angustiado. Como ele teve coragem de tomar tamanha liberdade? A garota pensou, achando que seu querido namorado fora pego de surpresa. Mas contradizendo as explicações que seu cérebro criava para o que seus olhos viam, viu Ciel corresponder ao beijo do outro, enlaçando o pescoço do mais velho com a ternura de um amante. Não pode ser verdade. “Isso é uma montagem... só pode ser” a voz saiu num sussurro.

– Não é não. E faz tempo que eu gravei isso.

Liza sentiu como se um enorme peso tivesse caído sobre ela. Por mais que não quisesse acreditar, sabia que aquilo não era uma montagem. Era real. E quando acontecera? Desde quando Ciel tinha esse tipo de relação com aquele homem que sempre a tratou com tanto respeito? Notou que o Ciel do vídeo usava o uniforme escolar, o Sebastian vestia uma camisa branca, colete cinza e cachecol preto. Já o vira vestido assim, mas quando? Chegou a uma resposta quando viu o Moreno entregar ao Ciel uma caixa azul de cupcakes do Darjeeling.

– Se você realmente... acha... que é namorada dele, então, acho que ele estava enganando você. Todo esse tempo. Que cruel da parte dele. Ele deve ter pensado que você nunca descobriria. – Ivan sussurrou no ouvido da jovem, como o próprio Lúcifer ao seduzir Eva.

O jovem coração queria saltar do peito. Os cantos dos olhos começaram a encher-se de água, afogando os orbes verdes até que as pálpebras não foram mais capazes de conter as lágrimas, despejando-as sobre a pele de porcelana.

O coração e o orgulho estavam feridos. Duas vezes traída. Traída por aquele que amava e por aquele em quem confiou. Traída de forma cruel. As venenosas palavras de Mason fazendo a fúria e a indignação crescer em seu peito. Os lacrimosos olhos verdes saltaram do celular para a mesa no fundo do café onde o grupo conversava animado. Como se uma venda tivesse sido arrancada de seus olhos, pôde ver o que não vira até então. Como os dois sentavam próximos, os sorrisos carinhosos de Sebastian, as faces rosadas do jovem em resposta, os olhares cruzados cheios de significado e cumplicidade. A maneira como se tocavam minimamente sem que ninguém percebesse, talvez nem eles mesmos percebessem que o faziam, mas faziam. Elizabeth sentia sua garganta arder, como se estivessem enrolando-se em nós apertados. Não respirava direito. “Acho que ele estava enganando você. Todo esse tempo. Que cruel da parte dele”. Sim, muito cruel com alguém que fizera tudo por ele, que o ama mais do que tudo.

As palavras de Mason ficaram rondando sua mente. Não enxergava mais nada, não ouvia ninguém. Por um instante, a garota sentiu que estava num espaço vazio, onde apenas ela existia. Percebendo apenas a música que vinha do fone de ouvido de Mason, que ainda estava ao seu lado. Um trecho da melodia fora captado por seus ouvidos trazendo-a de volta para a realidade.

…I believe in you

Eu acredito em você

I can show you that

Eu posso te mostrar isso

I can see right through all your empty lies

Eu posso ver através de todas as suas mentiras vazias

I won't stay long, in this world so wrong

Eu não ficarei por muito tempo, neste mundo tão errado.

Say goodbye

Diga adeus

As we dance with the devil tonight…

Enquanto nós dançamos com o diabo esta noite

Elizabeth afastou-se do balcão e encaminhou-se até a mesa a passos largos. Era a personificação da fúria na forma de um anjo loiro.

Dimas narrava com grandes gestos e trejeitos um episódio em que fora perseguido por um cachorro e perdera o sapato em sua fuga desesperada. Falava alto e às vezes até imitava a carranca zangada do cachorro, em sua inocência ou mesmo falta de tato, nem percebia que as pessoas das mesas vizinhas o observavam como se vissem um louco. Pauline e Ruby pouco se importavam, caiam na gargalhada, aumentando a algazarra na mesa. Lá se foi meu recanto tranquilo, Ciel pensou. Sebastian afastou um pouco o cabelo que cobria os olhos do jovem, constrangendo-o quando os olhares se cruzaram. Ciel estava tão distraído em esquivar-se dos olhares intensos que o espreitavam e em observar a algazarra do Dimas, da Ruby e da Pauline que levou alguns segundos para entender o que aconteceu a seguir.

Estava entretido na conversa animada quando fora subitamente atingido por um jato de água, causando uma rápida sensação de afogamento que o deixou desnorteado. Olhou para seu uniforme que escapara da chuva, agora encharcado. Depois percebeu uma voz e um rosto em fúria.

– Como pôde? Eu confiei em você, eu acreditei em você! – Liza falou profundamente magoada. Todos no café viraram-se espantados para a cena súbita e inesperada. Só então Ciel percebeu que Liza havia jogado um copo de água sobre ele. Percebeu os olhos vermelhos e chorosos da amiga.

– O q... – tentou perguntar por que ela tinha feito aquilo, mas a garota disparou pela porta de saída, deixando a mochila, o guarda-chuva e os amigos pra traz. – LIZA! – Ciel a chamou atônito e, como se levasse um choque, soube que a garota tinha percebido. Fora descoberto antes que pudesse contar. Mas como? O que ele fizera de errado? Que atitude idiota sua teria o delatado, o impedindo de fazer uma confissão adequada à amiga? Olhou para o Sebastian meio perdido.

– Tudo bem. Pode ir – o moreno respondeu firme. E Ciel saiu pela porta à procura de Elizabeth.

Assim que chegou a rua, Ciel fora primeiro apanhado pela chuva. Olhou para um lado e para o outro e conseguiu ver os longos cabelos loiros e molhados de Liza virando a esquina. Correu o mais rápido que pôde para alcançá-la. Gritava o nome da moça, mas ela o ignorava. Foi se aproximando até conseguir agarrar o ombro feminino, fazendo-a parar e virar-se para ele.

– Elizabeth esper...

– NÃO ME TOQUE! – o grito indignado atravessou a chuva, atraindo a atenção de alguns guarda-chuvas curiosos que passavam pelas ruas e calçadas.

– Liza, me deixa explicar...

– Explicar o que, Ciel? Que durante todo esse tempo, você estava me escondendo coisas, as quais, eu acredito, tinha o direito de saber? Como, por exemplo, sua sexualidade ou seu namoro secreto. Isso não é justo! EU que sempre estive do seu lado. Eu sempre amei você, com todas as minhas forças. Não houve um dia sequer em que eu não tenha pensado em você. Tudo o que eu fazia, fazia pensado se te agradaria ou não. Tomando cuidado pra não ser o tipo de pessoa que você odeia, controlando-me pra não irritá-lo ou ofendê-lo. Eu sempre pensei no seu bem estar, no seu humor, no seu contentamento. E pra quê? Você nunca se importou comigo de verdade. Como pôde fazer uma coisa dessas comigo? Você nem o conhece direito. Como pode ser tão egoísta?

– Egoísta, eu? Tudo o que fiz até hoje foi por você, pra não magoá-la, não vê-la triste. Eu não sou indiferente e nem tão frio a ponto de não perceber o seu sentimento por mim. Eu gostava de você, gosto, sempre gostei. Mas você sempre foi para mim uma amiga muito querida com quem eu podia contar. Eu não queria uma namorada, mas quando você fez o pedido, como sempre, atendi ao seu capricho, para não vê-la triste.

– Capricho? Quer dizer que só aceitou namorar comigo por que sentiu pena?

– Não, Liza. Pena não...

– Pena sim! Sentiu pena da idiota medíocre que vivia atrás de você mendigando ninharias de afeto e atenção. Você nunca me amou de verdade. Nunca se importou verdadeiramente com os meus sentimentos. Eu tentava te dar amor e você sempre arredio...

– O quê? Você que é a egoísta mimada. Sim. Você é quem não se importa com os outros. Não consegue enxergar o que as pessoas a sua volta sentem. Você só vê o que deseja ver. É claro que eu me importo com você e Deus sabe o quanto eu me esforcei e tentei te amar como eu sei que você me ama. No entanto, meus sentimentos por você nunca saíram do berço do amor fraternal que enlaça os irmãos e os amigos mais íntimos. Mas isso não bastava pra você. E quanto eu me martirizei por não conseguir te retribuir o mesmo sentimento. Por vezes achei que havia algo de errado comigo. Durante muito tempo eu estive fingindo sorrir, fingindo estar feliz, fingindo ser o garoto perfeito, pra te agradar, mas eu não sou assim. Eu fingia não pra você mais fingia pra mim mesmo. E pela primeira vez em tanto tempo eu me sinto realmente vivo. E não preciso simular felicidade ou raiva, basta eu ser como sou e ele me aceita. E quando estou com ele, que ironia, sinto vontade de rir, mas me controlo por puro e tolo recato. Nas poucas horas em que passo com ele, sinto-me mais enamorado do que me senti em nove anos com você.

– Mas eu amo você, Ciel. Se me deixasse realmente me aproximar de você. Poderíamos voltar a ser como éramos quando crianças. Éramos almas gêmeas, lembra? Você era tão alegre e brincalhão e cheio de vida.

– Esse é o seu problema, Liza. Eu não sou mais assim e dificilmente voltarei a ser. Você não me ama. Você ama um garotinho que não existe mais. O Ciel que você amava morreu.

– Eu sempre fui a garota que você queria. Acreditei que assim você gostaria de mim aos poucos e um dia, poderíamos ser um casal feliz.

– Não, Liza. Eu não quis que você fosse de um jeito ou de outro. Era você quem queria que eu fosse exatamente como você sonhou. E esse sonho te cegou, não te deixou ver que eu, você também, nós mudamos. Eu errei ao não te contar de imediato. Mas tão perdido e assustado fiquei, que precisei primeiro me achar e me organizar. Não pretendia te enganar ou te fazer de tola. Tenho tentado te contar, mas você sempre fugia e a oportunidade escapava e a conversa era adiada.

– Era isso que queria me dizer?

– Sim.

– Ciel me dê mais uma chance. Talvez você só tenha se encantado por ele porque eu não fui muito carinhosa ou afetuosa ou... Deixe-me tentar te mostrar que você pode se apaixonar por mim.

– Elizabeth, você não entendeu nada do que eu... – o jovem fora impedido de falar. Elizabeth roubara-lhe um beijo. Os lábios macios da jovem pressionando os dele. Um beijo repentino e umedecido pela chuva. Elizabeth se afastou, encarando, ansiosa, os olhos azuis. Finalmente seu primeiro beijo, embora não tenha sido no contexto que tinha imaginado. – Oh, Liza. Seu primeiro beijo tinha que ser com alguém que você ama muito.

– Mas esse alguém é você! – disse impaciente. A loira percebeu, para sua profunda tristeza, que o beijo não surtira nenhum efeito sobre Ciel. O conselho do jovem trazendo para ela a lembrança do beijo registrado no vídeo, e uma constatação terrível: Ciel amava Sebastian.

Os olhos de Elizabeth caíram sobre os próprios sapatos molhados. Queria que a chuva a dissolvesse. Aquilo parecia um pesadelo. Seu mundo desmoronara completamente. Tentou caminhar novamente, desalentada, em direção a Ciel.

O adolescente achou que ela fosse tentar beijá-lo novamente.

– Eu amo o Sebastian. – confessou com firmeza pondo um ponto final no assunto, o semblante sério.

A face da loira corou de imediato, espantada com a declaração aberta. Sempre sonhou com o dia em que Ciel diria isso, mas o destino tratou de pregar-lhe uma peça, arrancando da frase o nome Elizabeth. O que Liza mais temia aconteceu, e da pior maneira possível. Perdera Ciel. E o perdera para outro homem. Um demônio saído sabe-se lá de onde para seduzir e rouba-lhe o único a quem amou na vida. Estava com o orgulho ferido e queria tanto que Ciel sentisse a sua dor que gritou o primeiro insulto que lhe veio à mente:

– Eu te odeio! – a pior mentira já contada por ela e pôs-se a correr pela chuva.

Dessa vez Ciel não a seguiu. Elizabeth correu sem rumo, com os pingos de chuva a raspar-lhe o rosto. Chorava compulsivamente. Correu até não aguentar mais, até tropeçar e desabar sobre os joelhos. Apoiando os antebraços sobre o chão alagado, molhando completamente a manga e a saia do uniforme. Seu peito doía tanto que sentia que ia morrer. Queria morrer de fato, se não fosse de amor, que fosse de dor mesmo.

Ciel ficou alguns instantes parado na chuva. Esperava que Elizabeth um dia fosse capaz de perdoá-lo. Ao contrário do que ela achava, ele realmente se importava. E a tristeza da amiga o abateu mais do que imaginou. Era exatamente por isso que pretendia contar com calma. Mas ela sempre com seus caprichos... Deu no que deu. Mas como teria descoberto? Pensou se devia voltar ao Darjeeling, mas não queria que Sebastian o visse naquele estado.

Ciel foi para casa. Ouviu mil e uma reclamações da mãe e da irmã sobre andar na chuva e pegar um resfriado e coisa e tal. Ficou no quarto tentando livrar-se da incomoda sensação de culpa que o abatera. Eram mais de oito horas da noite quando ouviu a mãe bater a porta do quarto.

– Ciel, a Helen ligou. Disse que até agora a Elizabeth não chegou em casa. Ela quer saber se a filha não estava com você se não sabe de nada.

Que inferno! Agora ficaria preocupado com aquela inconsequente. Pensou em ligar pra ela até lembrar-se de que as mochilas tinham ficado no Darjeeling. Uma hora depois a senhora Valentine voltou a bater na porta. Dessa vez mais cautelosa.

– Ciel, Helen disse que Liza chegou em casa chorando, se trancou no quarto e não quis falar nada. Aconteceu alguma coisa?

Ciel ficou em silêncio. Por fim disse que eles tinham terminado. A mãe quis saber por que. Felizmente Angie, provavelmente imaginando o que teria ocorrido, conseguiu fazer a mãe deixá-lo em paz e adiar as perguntas pra outra ocasião.

Em seu quarto, Elizabeth, tomada pela fúria, começou a rasgar cartas e poemas de amor nunca entregues, jogou fora os diários escritos por uma menina boba, começou a rasgar as fotos. Olhou para um mural na parede e, uma a uma, foi arrancando as fotos de recordação, até que uma lhe refreou. Observou atentamente duas fotos em que o Ciel aparecia. Limpou todo o mural e colocou nele apenas as duas fotos. Sentou-se sobre a cama e pôs-se a fitá-las com a atenção de um devoto.

A primeira foto trazia Ciel ao seu lado retratado aos oito anos de idade. Um largo e gostoso sorriso juvenil. A segunda foto trazia Ciel e Liza novamente, aos quinze anos. Ciel sorria também, mas era um sorriso tímido, vazio. Observou atentamente os dois Ciel e lembrou-se do semblante do jovem quando estava com Sebastian. Olhou para as fotos por horas a fio. As lágrimas correndo silenciosas. Parecia estar em transi ou em estado catatônico. Mas depois de um longo período, ela realmente enxergou o Ciel. O Ciel que se recusara a ver.

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.

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Na manhã do dia seguinte, a campainha da casa dos Wilson tocou. Helen foi atender a porta e deparou-se com um homem de terno e gravata, bem aparentado e de pasta na mão, ao seu lado um senhor mais velho e mais alto, igualmente bem vestido, loiro e de olhos verdes.

– Pois não?

– Bom dia, senhora. Esta é a residência da senhorita Elizabeth Wilson? – perguntou o mais baixo.

– Sim. É minha filha. – respondeu desconfiada.

– Ela se encontra?

– Está lá em cima... ela tem aula agora...

– Precisamos falar com ela sobre um assunto de suma importância, com a presença dos pais.

– Claro. P-posso saber do que se trata?

– É referente a um testamento do qual ela é beneficiária. Poderia chamá-la, por favor?

Elizabeth ainda não sabia, mas choraria outro mar de lágrimas.

Notas finais
A música que aparece nesse capítulo é Dance With The Devil do Breaking Benjamin. era a música que eu estava ouvindo quando escrevia a cena da briga do Ciel e da Liza.
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Vamos lá...
Me atrasei e muito na entrega desse capítulo, eu sei, mas trabalhar e estudar é fogo, há momentos em que realmente vc fica completamente sem tempo.
Se não bastasse a falta de tempo, tive uma crise de criatividade medonha. embora soubesse o que tinha que acontecer nesse capítulo, não conseguia desenvolvê-lo. finalmente, no domingo passado tive tempo. Passei o domingo inteiro escrevendo, é verdade, as primeiras dez páginas e o resto foi saindo durante essa semana. E acabei de ajeitar agora. portanto, me avisem se tiver algum erro absurdo ou sem nexo, pois não tive tempo nem paciência pra revisar.

Sei que não teve sebaciel. Sei que não ficou muito bom, mas foi o melhor que consegui. pelo menos consegui fazer com que os fatos ocorressem nesse capítulo, agora Ciel tá oficialmente solteiro :)

Bem continuo sem tempo, por isso essa nota podre e sem conteúdo, e por isso já estou indo. tenho que começar o capitulo 15 logo.

espero que tenham gostado. deixem suas críticas e opniões pr favor.

até o 15

Bjs, Tai =^.^=