Phantomhive

30 Um Lírio Em Meio A Guerra – Parte II


Notas iniciais
Olá pessoas lindas ^w^ Voltei com um capítulo grandão. Eu tinha dito no facebook que dividiria pra não ficar tão cansativo, mas no fim das contas iria dar na mesma, vcs leriam tudo de uma vez. Mas pra falar a verdade, eu dividi sim, pode até não parecer. Tem algumas coisas no final que ainda não consegui organizar direito, e outras que tive que reescrever para ficar mais coeso. Então vai ter uma parte 3. Queria agradecer a recomendação linda de Bloody Usagi San, que me fez achar que zerei a vida, e a todos os comentários lindos e pessoas que favoritaram. Vocês fazem valer meu sono perdido. Espero que gostem, boa leitura.

Capítulo 30: Um Lírio Em Meio A Guerra – Parte II

“Conte-me suas mentiras
Deixe seus segredos me hipnotizarem.

Porque a vida nunca irá brilhar
Neste meu coração
E todo amor que nós sacrificamos

Olhe para todos os danos que você fez
Você pode ver quão selvagem eu estou
Se você olhar em meu coração você encontrará

Nenhum amor, nenhuma luz, sem fim à vista.

[...]

Há um lugar onde quero ir

E uma vida que quero conhecer

Mas você crucificou meu precioso coração.”

Miracle — Hurts

LONDRES, 1940

Thomas avançava com dificuldade pelo terreno encharcado e lamacento. Gritava a plenos pulmões o nome da irmã, mas o som era abafado pelo barulho da forte chuva. Ele já a tinha procurado por toda a parte e sem resultado. Já se encontrava muito longe da casa de campo, estava muito escuro e sua lanterna não aguentaria por mais tempo com todo aquele aguaceiro.

– Por favor, Deus, eu sei que ela não tem sido lá uma menina tão boa, e sei que ela fez umas coisas ruins no passado e que o namorado dela é alguém que provavelmente o senhor não aprova, eu não aprovaria, mas, por favor, por mim, não deixa nada de mal acontecer a ela. Ajude-me a encontrá-la.

Thomas fazia sua prece em voz alta, talvez imaginando que Deus não o escutaria direito com todos aqueles trovões. Ele não sabia se alguém tinha respondido a sua oração improvisada ou não, mas, três minutos depois, o facho de luz da sua lanterna moribunda iluminou Lílian. Ela vinha em sua direção com braços em volta da cintura, ombros caídos e tremendo de frio. O jovem correu para a irmã, abraçando-a e perguntando o que tinha acontecido. A garota não respondeu, apenas tossiu e tremeu mais um pouco. Thomas tirou seu casaco e o colocou sobre a cabeça da irmã, a tomou no colo e a levou de volta para casa. A sua mãe e os parentes dela, os Ivenn, estavam a espera deles. Eleonor acompanhou a filha até o quarto, alternando sermões com palavras de preocupação.

– Ela saiu para caminhar e se perdeu – Thomas inventou uma desculpa para a mãe e os tios dela. Lílian ainda estava em silêncio. Thomas não tinha absoluta certeza, mas podia imaginar que Sebastian estaria envolvido na história de alguma forma. Mas Lílian parecia tão triste e desamparada, o que teria acontecido?

Pegar toda aquela chuva não resultou em outra coisa, Lílian ficou doente. Pegou uma gripe tão forte, que passou duas semanas e meia de cama. O lado bom disso tudo foi que a mãe esqueceu de perguntar o que ela estava fazendo naquela tarde. O lado ruim foi saber que mesmo depois de todo esse tempo, Sebastian ainda não tinha voltado.

.

.

.

Naquele dia completaria quatro meses desde o sumiço do Sebastian. Nesse meio tempo, Lílian, Thomas, Elizabeth, Lesley, Brendan e Zhao-Wei o procuraram por todos os lugares que podiam, mas ninguém tinha qualquer informação sobre o akuma. Lílian até mesmo buscou a ajuda de Undertaker, que tinha reaparecido em Londres há algum tempo e com quem ela evitava contato. No entanto, a visita a Undertaker só serviu para deixá-la mais inquieta.

– Eu o procurei. Realmente o procurei, mas não o encontrei. A única informação que consegui é de que ele está servindo outra pessoa. Já parou para pensar que talvez ele não queira ser encontrado?

Lílian se sentia zangada, indignada, magoada e decepcionada, no entanto permanecia firme, não queria demonstrar tamanha fraqueza diante do shinigami, nem queria se deixar dominar pela dúvida. E o funerário continuava a falar:

– Não é de se estranhar que ele tenha ido embora. Na verdade eu acho até que ele demorou bastante. Bem, é a natureza dele, não é? Demônios costumam ser traiçoeiros e inconstantes. E os akumas, então, costumam pensar mais com a barriga do que com qualquer outra parte do corpo. E faminto como Sebastian estava...

– Não! Ele é o meu akuma. Ele não poderia partir, jamais! Além do mais, eu ainda tenho a marca do contrato – ela colocou a franja que sempre cobria o olho para trás da orelha para mostrar o olho de cor lilás, que trazia o pentagrama de Sebastian.

Undertaker avaliou o olho da jovem.

– Realmente, o selo parece intacto. O que supõe que ele deveria vir quando você o chamasse. A não ser que ele não queira vir. Ele já fez algo parecido alguma vez? – o funerário ficou olhando para o teto, batendo a ponta do dedo no próprio queixo. – Oh, sim, teve aquela vez em que ele abandonou você em Paris.

Lílian se lembrava muito bem daquela vez, foi em sua vida anterior como Ciel Phantomhive. Sebastian tinha deixado Ciel em Paris, porque achou que Ciel estava se desviando de seu objetivo, a vingança, mas depois que Ciel se encontrou novamente, Sebastian retornou. Mas a vingança já fora concluída. Depois disso as coisas mudaram muito, afinal, duas vidas é muito tempo. Lílian se perguntava se Sebastian a considerava uma alma indigna de seu paladar agora.

Mas houve outra ocasião em que ele sumiu por um mês somente. O akuma precisava urgentemente se alimentar, e não queria prejudicar o trabalho de Ciel, nem fazer mal a ele pelo impulso da fome. Lílian lembrou que havia pedido para Sebastian que deixasse o outro mestre, isso foi muito egoísmo de sua parte. Sebastian já estava trabalhando há muito tempo por aquela alma. Teria o akuma escolhido ficar com o outro mestre para se alimentar? Mas se assim fosse, por que ele não dera qualquer aviso a ela?

Como se pudesse ouvir todos as suposições e dúvidas que passavam na cabeça de Lílian, Undertaker comentou:

– Você deixou o seu cão muito tempo sem a coleira. Deixou-o muito livre para passear. Ele viu a oportunidade e escapou.

– JÁ CHEGA! – ela gritou. As bochechas vermelhas de raiva. – Eu sei que há uma explicação para o sumiço dele, e sei que ele vai voltar.

Os olhos verdes do shinigami apareceram por trás da franja cinza de cabelo e analisaram a jovem em pé no meio da sala, ela estava ofegante de raiva e nervosismo.

– Tem alguma coisa diferente em você, condessa Phantomhive – ele falou com um pequeno sorriso. As únicas pessoas que a chamavam de Phantomhive eram os que sabiam de seu passado como Ciel, mas Undertaker era o único a se referir a ela como condessa.

– Não há nada de diferente em mim – ela falou empertigando o corpo e prendendo a respiração.

– Sim, tem sim. Eu sinto algo diferente em você – ele começou a andar em volta da garota e aproximou a mão da barriga dela. Undertaker abriu um largo sorriso. – Tem um monstrinho crescendo em você!

Falou como se fosse a coisa mais divertida do mundo.

Lílian ficou extremamente aborrecida, afastou a mão do shinigami com um tapa e saiu da funerária batendo a porta com toda a força, ignorando os pedido de Undertaker para que ficasse.

Até então, Lílian se concentrava na ideia de que alguma coisa teria acontecido ao Sebastian, afinal ele não a abandonaria. Não sem explicações, não sem prévio aviso, embora já tivesse feito algo parecido antes. Mas mesmo que tivesse feito, ele nunca ficara tanto tempo distante. Lílian podia ver a dúvida nos olhos dos outros. Primeiro a dúvida e depois a certeza de que Sebastian tinha sumido por vontade própria e que não queria ser encontrado. Mas Lílian se recusava a acreditar nessa hipótese, embora o medo, às vezes, fizesse seu coração fraquejar em curtos momentos, principalmente depois de perceber que escondia um segredo em seu corpo.

À noite, quando ia se deitar, colocava as mãos sobre o ventre, tentando sentir algo ali. Queria sentir algo ali, e ao mesmo tempo, não queria que existisse algo ali. Ela não sabia exatamente como deveria se sentir em relação a sua nova condição. Presumia que devia ficar feliz, mas tudo o que ela conseguia sentir era medo e apreensão.

Quatro meses. Não havia mais dúvidas. Por quanto tempo mais ela conseguiria disfarçar? Por quanto tempo mais ela conseguiria manter em segredo? Era preciso apenas mais um pouco para que reparassem que o corpo dela estava mudando, para que percebessem que ela não estava simplesmente engordando.

E o que ela diria? O que ela faria?

Não era apenas o fato de ser mãe solteira, o que por si só já era uma coisa horrível. Quem dera fosse apenas isto. Mas a criança que crescia em seu ventre, não era de fato uma criança normal, era? Não era inteiramente humana, disso Lílian tinha certeza. E as palavras de Undertaker não saiam de sua mente, lhe causavam pesadelos.

“Tem um monstrinho crescendo dentro de você.”

Como ele podia ser tão cruel? Seu bebê não era um monstro. Pelo menos ela achava que não. No entanto, as únicas mulheres grávidas de bebês metade humanos, metade demônios que ela chegou a tomar conhecimento, deram a luz a monstros carnívoros que mataram as próprias mães. Chegou a se arrepiar ao lembrar-se disso.

Ela só queria que Sebastian estivesse ali, com ela. A quem ela contaria? Quem a ajudaria? Quem lhe daria respostas para esse tipo de situação?

.

.

COVENTRY, 1940

Lílian e Thomas tinham ido para Coventry com Elizabeth. A P&M Company, antiga Funtom Company, estava financiando uma fábrica que estava produzindo caças mais resistentes para a Força Aérea Britânica. Os novos caças faziam-se cada vez mais necessários, uma vez que a Alemanha continuava aumentando os ataques ao país e apresentavam uma tecnologia espantosa.

Apesar de estar muito ansiosa para a visita as fábricas, Lílian precisou ficar no hotel, pois estava se sentindo muito mal. Para evitar perguntas, disse que estava apenas com dor de cabeça, mas ela sabia que o mal estar era por causa da gravidez. Umas duas horas depois, ela melhorou e pediu a August, sobrinho neto mais novo de Elizabeth, para leva-la até a fábrica.

– Tem certeza de que já está melhor? – os olhos verdes de August revelavam genuína preocupação.

– Sim. Estou bem – ela tentou dar um sorriso. Ao sair, ela sempre tomava o cuidado de ver se o vestido não deixava transparecer a barriga saliente. Optava sempre pelos modelos mais folgados e nunca abandonava seus casacos.

Os dois entraram no carro de August e foram para a parte industrial da cidade. Todo o percurso, o loiro tentou manter um diálogo com a jovem, que sempre dava respostas curtas e objetivas. Talvez por ter olhos somente para o Sebastian, ou por estar sempre concentrada em seu trabalho, Lílian nunca notou a atenção que August Midford lhe prestava. De fato, o homem nutria uma paixão por ela, mas nunca deixou isso tão claro. Ele se julgava muito velho para ela, embora só tivesse vinte e sete anos; a respeitava demais para tentar galanteios, além disso, todos os envolvidos com os Cães do Rei sabiam que a moça tinha um relacionamento romântico com Sebastian Michaelis.

Lílian dava vaga atenção ao que August dizia. Olhava para as ruas, distraída. Era um dia de sol tão bonito, como aquela tarde em que ela e Sebastian fizeram amor pela primeira vez, e quando esteve com ele pela última vez. Se fechasse os olhos e pensasse naquele dia, naquele momento, ela ainda conseguia lembrar do cheiro dele, do toque, do calor dos corpos. Sentiu-se corar e abriu os olhos. Não estava mais em um campo florido, não estava mais na presença dele, e talvez não voltasse a vê-lo, ela começava a pensar nessa possibilidade. Estava quase perdendo as esperanças quando viu Sebastian andando pelas ruas de Coventry.

– Pare o carro! Pare o carro! – ela gritou, August freou o carro subitamente, os veículos que vinham atrás deles, deram a volta pelo lado, reclamando e ameaçando os dois. Lílian foi abrindo a porta para sair.

– O que houve? – August indagou, já pegando um revolver no porta-luvas, achando que era algum malfeitor.

– Não se preocupe, espere aqui.

– Mas...

– Fique aqui. Espere aqui. Eu já volto – e já virava a esquina.

Não estava enganada, tinha certeza de que era ele, mas o que ele estaria fazendo naquela cidade? Será que estava a procura dela? Correu o mais rápido que pôde, não queria perdê-lo de vista, não depois de ter uma pista dele depois de tanto tempo. Ao entrar em outra rua, avistou as costas dele.

– Sebastian! – ela gritou com todo o fôlego que lhe restava e cessou sua corrida, ofegante, sentindo o coração saltar dentro do peito.

O akuma parou e virou-se para ela, sem nada dizer, ele parecia mais intrigado do que surpreso. Lílian recuperou um pouco da energia e caminhou até ele a passos largos. Ela o abraçou, sentindo um imenso alívio, e estranhou quando ele permaneceu imóvel. Ela estava tão feliz em vê-lo, finalmente.

– O que aconteceu? Onde você esteve esse tempo todo? – ela se afastou para olhá-lo nos olhos e reparou que os olhos dele estavam negros, opacos. – O que houve com seus olhos?

– Estava seguindo as ordens do meu mestre – respondeu seco, olhando para ela de modo estranho.

–Você faz ideia do quanto Thomas e eu te procuramos? Eu fiquei tão preocupada, pensei que tinha lhe acontecido algo. Por que não me avisou?

– Porque eu não lhe devo explicações – ele respondeu dando as costas. Não entendia por que aquela humana insistia em falar com ele como se o conhecesse.

– O quê? Como ousa falar comigo desse jeito? Sebastian! – Lílian o segurou pela manga de seu casaco.

– Se ainda não percebeu estou ocupado. Não tenho tempo para perder com você.

– Porque está agindo assim? O que houve com você?

A moça parecia tão convicta que Sebastian parou para observá-la. Ela era bonita. Embora fosse muito pálida, suas bochechas estavam rosadas pelo frio e seus lábios eram vermelhos. Usava um vestido roxo um pouco folgado, casaco e um chapéu de camurça verde escura. E os olhos... eram de um azul intenso. Azul como um céu sem nuvens. Azul como o céu...

– Sebastian, Sebastian… Não seja tão rude com a pobre garota – uma voz chamou a atenção dos dois e tirou Sebastian dos seus devaneios.

– Quem é você? – Lílian perguntou com altivez, aproximando-se mais ainda do akuma. O sujeito estranho se aproximou com um sorriso cafajeste, e fez uma mesura um tanto teatral.

– Clive Halpenny. O mestre do Sebastian. E você, suponho que seja “a outra”. Todo esse tempo eu achei que o misterioso segundo mestre fosse um homem. Alguém mais imponente, sabe? Mas não passava de um rabo de saia – ele olhava para Lílian como se ela fosse um pedaço de carne. – Sebastian, você me decepciona assim.

– Todos cometem erros, mestre – respondeu de forma mecânica, sem compreender realmente a quê seu mestre se referia. Parou de prestar atenção a conversa dos dois e passou a observar a jovem. Ela era agradável aos olhos e lhe causava uma sensação estranha.

– Verdade. Está desculpado – Clive tentou acariciar o rosto de Lílian, mas ela o afastou.

– Sebastian... – Lílian voltou a chamá-lo. Não entendia como o akuma permitia que aquele homem horrível se aproximasse dela daquela forma e tomasse tamanha liberdade.

– Não adianta querida. Você ainda não percebeu? Sebastian só serve a um mestre agora. Ele fez uma escolha. E claro que ele viu que o melhor mestre nesse caso sou eu.

– Eu não acredito em você. Sebastian, vamos embora daqui.

– Ela acha que estamos brincando, Sebastian – Clive falava sorrindo, como se toda a situação fosse uma grande piada. – Minha cara, tenho certeza que você teve seus atrativos para divertir o Sebastian por algum tempo, mas ele é um demônio e como tal, não dispõe de tempo para brincadeiras de meninas. Estamos fazendo um trabalho de adultos aqui, então se não se importa, não nos atrapalhe.

Os dois homens começaram a se afastar da jovem.

– Eu quero falar com ele – Lílian falou alto. – A sós.

– Que seja – ele falou aborrecido, e sussurrou para o akuma. – Sebastian. Ela está me incomodando, dê um jeito de mandá-la embora.

– O que quer que eu faça mestre? – O akuma olhou para o mestre com os olhos tão escurecidos quanto sua mente.

– Apenas diga…

Lílian viu Sebastian se aproximar novamente. Ela tremia um pouco e, inconscientemente, colocou as mãos sobre o ventre. Ele parou diante dela.

– O que houve com seus olhos? – perguntou novamente, estranhando aquele olhar frio e negro como um abismo. Tão diferentes dos olhos castanhos rubros que brilhavam toda vez que olhavam para ela.

– Meu mestre gosta assim.

Lílian franziu as sobrancelhas.

– Sebastian, isso é alguma daquelas suas lições idiotas? Por que se for, por favor, pare. Esta brincadeira não tem graça – ela falou sem forças.

– Não, não é nenhum tipo de brincadeira.

– Eu não acredito nisso – Lílian não o reconhecia. Sebastian falava de um jeito tão frio e apático que chegava a assustar. Se não o estivesse vendo com seus próprios olhos, se não estivesse sentindo o perfume característico dele, juraria que se tratava de outra pessoa. Mas não era. Então por quê? O que o fizera mudar? – Você realmente me trocou por ele? Eu sou sua mest...

– Você não é. Ele sim. Com licença.

– Não. Eu não dou licença. Por que está agindo tão friamente comigo? Por que está me tratando como se não me conhecesse? Como se tudo o que vivemos não tivesse importância? Você não pode ser tão falso e cruel assim! Sebastian, me fala o que está havendo com você!

– Eu sou um demônio. Entenda, eu cansei da brincadeira. Foi divertido enquanto durou, nada mais além disso – repetiu o que Clive havia dito.

A jovem olhou espantada para ele, fechou as mãos em punhos, respirou fundo e soltou o ar lentamente. Tentava controlar suas emoções.

– Muito bem, então. Não vou tentar impedi-lo. Se é o que você deseja. Pode ir – ela disse com a cabeça erguida e voz embargada.

Sebastian virou as costas para ela e começou a se afastar, ao fazê-lo, ouviu a jovem sussurrar:

“Eu ainda toco todas as noite...”

A jovem não disse mais nada nem tentou impedi-lo. Antes de virar a esquina, Sebastian olhou para trás, para ver se a humana ainda estava lá, mas ela já havia partido, e ele sentiu que havia alguma coisa errada.

Lílian não quis seguir viagem para encontrar Thomas, Elizabeth e os outros nas fábricas, pediu para que August a levasse de volta para o hotel. August percebeu que ela estava um pouco amuada, então, decidiu não puxar conversa.

– Você está bem? – August perguntou quando eles chegaram ao hotel.

– Eu estou bem. Só não estou com humor para conversas agora. Eu quero ficar sozinha.

– Quer que eu avise seu irmão e a tia Lizzy que você voltou? Para que não fiquem preocupados.

– Seria muita gentileza da sua parte, August – ela respondeu sem olhar nos olhos do homem.

Trancou a porta a chave. Tirou o casaco e o jogou sobre a cama. Descalçou os sapatos que lhe apertavam os pés. Encostou-se na parede, olhou para o nada por alguns segundos e foi deslizando lentamente até o chão. Suas mãos apertaram o tecido de sua saia com toda a força, trincou os dentes tentando impedir que o queixo tremesse, mas nada adiantou. As lágrimas começaram a vir sozinhas e silenciosas, e não aguentou por mais tempo, rompeu-se em prantos. Sentia uma dor terrível. Queria poder arrancar aquilo de seu peito para não ter que sofrer mais.

Ela se levantou, com a mão sobre a barriga. Caminhou até a penteadeira e fitou seu reflexo no espelho. Uma garota com o rosto molhado pelas lágrimas e olhos vermelhos de chorar. Achou a imagem tão vergonhosa e digna de pena, que quebrou o espelho com um soco.

“Não vou mentir, às vezes, sinto falta do que você foi. Mas, o que eu preciso fazer para que você entenda e acredite que não me importa a forma ou a aparência que você tenha?”

Que bela maneira ele encontrou de mostrar isso. Se ele nunca a amou de verdade, por que não seguiu a vida e a deixou para trás há muito tempo? Ele a conheceu criança, e fez questão de fazer parte da vida dela, de encanta-la e de seduzi-la dia após dia, com afeto, atenção e carinho. A fez lembrar de uma vida anterior de sofrimento, e de anos compartilhados como um casal apaixonado. Ele tinha ficado ao seu lado até a morte, até depois da morte. Ele a procurara novamente, e para quê? Apenas para dizer que cansou?

Foram realmente todos os beijos e abraços sem qualquer importância para ele?

Fora Sebastian quem convenceu Ciel a amaldiçoar a própria alma com um ciclo de reencarnação, porque não queria perder seu mestre para a morte. Isso foi uma prova de amor para Ciel, que aceitou apenas porque queria estar sempre com ele. Por tanto tempo Sebastian foi tudo o que Ciel tivera.

O que mudara agora? Porque ele mudara de ideia? Lílian só conseguia pensar numa razão, e era tudo muito injusto e doloroso. Dizia a si mesma que chorar era perda de tempo, mas não conseguia parar. Sentia-se ferida em seu interior.

Chorou o máximo que pôde, pois não queria que seus olhos ainda estivessem vermelhos quando seu irmão e Lizzy voltassem.

.

.

.

Lílian não contou a ninguém sobre seu encontro com o akuma, e quando alguém tocou no assunto do sumiço do Sebastian, ela disse apenas que ninguém deveria perder tempo procurando por ele, que havia coisas mais importantes a serem feitas. Se os outros perceberam um tom de ressentimento? Perceberam, mas ninguém se atreveu a saber mais.

Depois disso, a jovem trabalhou com afinco para que o projeto dos novos caças saísse do papel, trabalhava como se a vida dela dependesse disso. Todo o projeto devia ser mantido em segredo, até que os caças estivessem prontos. Brendan, Lesley e Zhao-Wei garantiam a segurança dos projetistas, Elizabeth controlava a produção normal das outras fábricas, e Lílian supervisionava a produção dos aviões. Em outra época, muitos teriam estranhado uma mulher tão jovem dando ordens a um bando de mecânicos e soldados, mas durante a guerra, nada era como costumava ser. Além disso, ninguém dava ordens como Lílian Cavendish. Parecia ter nascido para isso.

– Não. Não Não. Essa envergadura está muito grande, faça com 11 metros – ela dizia aos projetistas, e lá ia os homens refazer os desenhos, aborrecidos por ter uma adolescente dando palpites no trabalho deles.

– Não! Que material vocês usaram? Está muito pesado. Os caças alemães são leves. Vocês querem que os aviões caiam sobre as cabeças dos ingleses?

– Não, senhorita! – respondiam e corriam fazer as mudanças.

– A que velocidade ele chega? – ela perguntou a um piloto que acabava de voltar do teste.

– No máximo 450 km/h, senhorita.

– Quero que chegue a 600km/h. Troquem o motor! – gritava para os mecânicos. – Quantas metralhadoras eles suportam?

– Seis.

– É pouco. Coloquem oito.

– Mas vai ficar muito pesado, senhorita.

– Pensei que tinha dito para arranjarem um jeito de deixar mais leve.

– Mas é impossível – alguém reclamou.

– Não é não. Os alemães conseguiram, não conseguiram?

Lesley, Brendan e Thomas observavam a atuação da garota de longe.

– Eu queria saber como ela virou especialista em aviões – Lesley perguntou.

– Ela passa a noite estudando os projetos e pesquisando em livros. Quando ela coloca uma coisa na cabeça... É preciso fôlego para acompanha-la – Thomas comentou.

– Eu tenho até pena dos mecânicos e dos operários. Ela é osso duro – Brendan acrescentou.

– Ela não era tão exigente assim – Thomas disse. – Não sei o que houve.

.

.

LONDRES

Lílian e Thomas só podiam ir a Coventry uma vez por semana e depois voltavam para Londres, o que na opinião de Lílian, só atrasava o trabalho deles. Thomas fingia não perceber que a irmã estava usando o trabalho como distração para algum problema. Ele achava que era para não pensar no desaparecimento do Sebastian, afinal, ele ainda não sabia do rompimento dos dois. Ele até achou bom a irmã tentar esquecer, mas ela parecia estar se desgastando demais. Ela parecia muito cansada ultimamente, parecia doente, embora tentasse esconder. Quando voltaram para a casa dos pais deles em Londres, Thomas decidiu conversar com ela.

Thomas entrou na sala, Lílian tocava uma música triste ao piano. Ela parecia perdida em pensamentos. Ela sempre ficava um pouco melancólica quando tocava, e dizia que era efeito da música. Thomas duvidava disso.

Ele chamou a irmã para conversar, mas era difícil convencê-la de algo.

– Só acho que você poderia ir mais devagar. Descansar um pouco. São os mecânicos e os operários que têm que construir os caças e não você.

– É o meu trabalho garantir que fiquem prontos. O rei e o primeiro ministro estão contando com esses aviões para a RAF.

– A Inglaterra não vai perder a guerra só porque você tirou um dia de folga. Além do mais, você não precisa carregar o mundo todo nas suas costas, os outros Cães de Guarda servem para isso, para apoio. E os Midford cuidaram de tudo até hoje e muito bem. Eles podem se virar sem você.

– Está dizendo que eu sou desnecessária? – Lílian falou desanimada, sentando-se no sofá, com a cabeça baixa. – Que eu não faço diferença?

Thomas suspirou.

– Não foi o que eu quis dizer, Lil. Tudo o que eu quis insinuar, é que você deveria tirar um dia de folga, você parece doente. Passa mal o tempo todo, se cansa rápido, vive com dores de cabeça, está sempre se trancando nos banheiros, acha que eu não percebi? Acho que esse trabalho está te fazendo mal.

Lílian parecia absorta em pensamentos. Thomas se perguntou se a irmã teria ouvido alguma palavra sua.

– Você sabe quem eu sou, Tom? – ela perguntou repentinamente, o irmão não entendeu o porquê da pergunta e como ela se encaixava na conversa.

– Você é Lílian Cavendish, minha irmã gêmea mandona e mal-humorada – ele falou com espontaneidade, tentando animá-la, mas ela continuava com o semblante triste.

– Eu achava que era... Mas alguém me disse que eu era Ciel Phantomhive, e eu era mesmo. E eu tive que aprender a ser os dois, Ciel e Lílian. No começo foi difícil para mim, porque tudo era diferente. Mas eu segui em frente, porque aquela pessoa era importante pra mim, e eu era importante pra ela, e eu passei a ser Ciel e Lílian ao mesmo tempo, e estava muito feliz. No entanto, acredito que aquela pessoa, passou a achar que havia Lílian demais e Ciel de menos. E sendo assim, Lílian não tem o mesmo valor que Ciel. É desnecessária, descartável.

Lílian ficou em silêncio. Thomas engoliu em seco, sentindo um nó na garganta. Ele soube, naquele momento, que a irmã tinha finalmente conseguido contato com Sebastian, e que este, pelo visto, realmente não planejava retornar. Que canalha! Thomas pensou.

– Bem, eu não cheguei a conhecer Ciel Phantomhive, mas conheço Lil Cavendish desde que nasci, e posso dizer que ela tem muito valor. E se alguém não nota isso é porque é cego ou um grandessíssimo idiota – sentou-se ao lado da irmã e a abraçou.

– Você é meu irmão. Tem a obrigação de gostar de mim.

– Ora essa! Você é muito orgulhosa, não acha?

– Não posso fazer nada, está na minha essência – respondeu dando um pequeno sorriso. – Mesmo que haja Lílian demais e Ciel de menos, eu ainda sou eu, em toda a minha essência. Isso não mudará. Se ele resolveu que não gosta mais de mim, o problema é dele. Neste caso, foi ele quem mudou, e eu sigo sendo exatamente quem fui.

Thomas evitou tocar no nome do Sebastian naquele dia, pois a irmã parecia muito sensível. Algum tempo depois, ele arriscou mencioná-lo, e a única coisa que ela disse foi:

– Não sei do Sebastian, quero mais é que ele exploda ou que se engasgue com aquela alma.

Thomas deu o assunto por encerrado.

.

.

.

Com o marido na guerra, Eleonor travava uma luta diária para manter o controle sobre os filhos. Ela não gostava do trabalho que os gêmeos tinham na P&M Company (ela não sabia no que eles realmente trabalhavam lá), pois lhes roubava muito tempo e exigia viagens constantes. Mas não adiantava tentar fazê-los desistir do tal emprego, logo eles ameaçavam se alistar no exército. Eleonor não gostava de tê-los longe por muito tempo, e achava que Lílian não deveria trabalhar. Não era preciso dizer que vez ou outra mãe e filha discutiam.

Um dia, Lílian desceu as escadas vestindo roupas masculinas. Poderia ser confundida com Thomas se não fosse o cabelo comprido. A mãe quase teve um ataque do coração.

– Ficou louca, menina?! Vá tirar isso e colocar um vestido. Não pode vestir roupas de homem, onde já se viu isso?

– Não são roupas de homem. Muitas mulheres estão usando, está na moda – Lílian retrucava.

– E desde quando você liga para moda, Lílian? Tire isso agora.

– Não. É muito mais confortável e prático do que esses malditos vestidos que ficam me apertando e essas malditas saias que prendem em tudo e deixam minhas pernas a mostra.

– Olha a língua, mocinha! Você quer que as pessoas te confundam com um homem?

– Não me importo com isso.

– Lílian Eleonor, você não vai sair de casa usando isso.

As duas continuaram a discutir, e Thomas, que só chegou depois da discussão ter começado, ficou quieto no seu canto, ou sobraria bronca para ele também. Já estava acostumado com as discussões da mãe com a irmã. No meio de toda aquela confusão, Lílian sentiu a temperatura de seu corpo cair bruscamente, de repente, ela viu apenas sua mãe movimentando a boca, mas não ouvia o que ela dizia, e o mundo escureceu a sua volta.

Eleonor e Thomas esperavam do lado de fora do quarto de Lílian. O médico saiu já pedindo para que eles se acalmassem.

– Foi a asma? Ela não tem crises há muito tempo, mas essa menina não se cuida. Eu falo pra ela, mas ela não me ouve. – Eleonor falava com nervosismo, uma palavra atropelando a outra.

– Acalme-se, sra. Cavendish – pedia o médico.

– Mãe, deixe o médico falar – Thomas pediu com impaciência.

– Não há motivo para tanto alvoroço. A pressão dela baixou, mas já a mediquei, e ela deverá ficar dormindo por algumas horas. A jovem vai ficar bem. Por enquanto ela só precisa descansar.

– Ah, graças a Deus! – Eleonor exclamou aliviada. – Mas está tudo bem mesmo? Ela nunca teve problemas de pressão antes.

– Quanto a isso, não se preocupe. A queda de pressão e os desmaios são perfeitamente normais nos primeiros meses de gravidez. Mas se persistirem depois disso, deverão procurar um médico novamente.

– O quê?! – e desta vez foi Eleonor quem quase desmaia, mas foi amparada por Thomas, que a impediu de cair para trás. – O que o senhor está me dizendo, doutor?

– Sua filha está grávida. Perdão, a senhora não sabia? – o médico pareceu surpreso e desconfortável com a situação.

– Grávida?!! Há quanto tempo?

– Diria que há uns três ou quatro meses – o médico se deu conta de que não tinha visto aliança no dedo da jovem, e que provavelmente ela vinha escondendo a gravidez da sua família. – De qualquer maneira, receio que o ambiente atual de Londres não seja o ideal para ela no momento. Não com todas essas bombas caindo. Ela precisa de um ambiente tranquilo, evitar estresse. E evitem deixar que ela saia sozinha, embora os desmaios sejam normais, o bebê pode sofrer algum dano se ela cair.

Thomas acompanhou o médico até a saída. Eleonor ficou sentada no sofá sem saber se ficava enfurecida ou se chorava, ainda estava muito chocada, não sabia o que fazer.

– Grávida! O que eu direi ao seu pai? – ela perguntou ao filho quando este voltou para a sala.

– Que ele vai ser avô? – Thomas deu de ombros.

– Isso não tem graça, Thomas. Essa menina passou dos limites. Grávida!! Solteira e grávida! De quem, meu Deus? Ela arruinou a vida dela, arruinou a honra da família.

– Não vamos exagerar…

– Não vamos? O que os vizinhos não dirão quando souberem que ela é mãe sem ter um marido. Vão achar que ela é uma desfrutável. E talvez seja mesmo, como isso foi acontecer? Vou agora mesmo falar com essa menina….

– Por favor, pare! – Thomas exclamou irritado. – Já prestou atenção nos absurdos que a senhora está dizendo? É da sua filha que a senhora está falando. E estamos no meio de uma guerra, os vizinhos tem coisas mais importantes para se preocupar. Esqueceu o que o médico disse? Ela não deve se estressar, e eu não vou deixar a senhora ir gritar com ela.

Eleonor olhou espantada para Thomas. Era um complô, só podia ser. Seus filhos finalmente resolveram se rebelar. Thomas respirou fundo e tentou falar mais calmamente.

– Não estou dizendo que o que ela fez foi certo. Mas já está feito, não tem como mudar. Vamos olhar pelo lado bom. Ela vai ter um bebê e precisamos saber o que vamos fazer.

– Thomas, você sabe quem é o pai dessa criança?

– Não olha pra mim. Ela nunca me falou nada dessas coisas. Nem sabia que ela gostava de alguém. Nem faço ideia de quem poderia ser – mentiu.

– Mas tem que ter um pai, ela não engravidou por obra divina.

– Divino não foi mesmo – falou revirando os olhos.

– Vamos seguir o conselho do médico. Neste caso, é realmente o melhor. Vamos mandá-la para a casa de campo dos Ivenn. Ela ficará lá até ter o bebê. Depois, nós vemos o que podemos fazer. Mas o que diremos aos meus tios e primos?

– Tenho uma ideia melhor. A vovô Elizabeth tem uma casa no campo também, ninguém mora lá. Tenho certeza que se pedirmos, ela irá concordar. E duvido que ela espalhe qualquer fofoca que pudesse prejudicar Lílian, ao contrário dos Ivenn.

Eleonor acabou aceitando que Lílian fosse para a casa de Elizabeth, no fundo ela só estava preocupada que ninguém mais soubesse da gravidez da filha. Mas ainda não sabia o que faria depois que a criança nascesse. Entregaria para adoção? Mesmo que fizesse isso, Lílian não era mais virtuosa, o que acabava com todas as suas chances de um bom casamento.

.

.

Lílian ainda pensou em se opor a sua volta para o interior, mas ela realmente não se sentia muito bem ultimamente. Talvez precisasse mesmo passar um tempo longe de todo aquele estresse. Ela também se sentiu aliviada ao saber que iria para a casa dos Midford e não dos Ivenn, tios de sua mãe, Lílian não gostava deles, eram cheios de tradição demais, imagine o que diriam ao serem obrigados a esconder uma jovem grávida.

Quando se sentiu melhor para sair, Lílian foi fazer uma visita a Elizabeth, esclarecer a situação.

– Como isso foi acontecer?! – Elizabeth arregalou seus olhos enrugados quando Lílian revelou estar grávida.

– Ora, como todos os bebês acontecem – respondeu corada.

– Como pôde ser tão descuidada?

– Foi só uma vez. Uma única vez. Esse tipo de coisa nunca aconteceu antes, então, eu nem pensei nisso na hora – seu rosto ficou mais vermelho ainda. Já se arrependia de ter tocado no assunto.

– Isso porque você não era uma mulher antes. Homens não engravidam, mas mulheres sim, por isso precisam se cuidar.

– Isso me parece injusto.

– Bem vinda ao mundo das mulheres. Bem, de qualquer forma, eu sempre pensei que demônios fossem estéreis.

– Eu também achava. Eu achava muitas coisas sobre ele, mas vi que me enganei.

– Contou a ele sobre o bebê?

– Não. E nem quero que ele saiba.

– Mas ele precisa saber o que está acontecendo...

– Ele não está nem um pouco preocupado comigo. Muito menos com um bebê. Ele não quer mais saber de mim, deixou isso bem claro. E eu também não quero mais saber dele. Eu não preciso dele, sei me virar sozinha. Acabou.

– Quer conversar sobre isso com essa velha amiga aqui?

– Não.

– Tem certeza?

– Não quero falar sobre isso.

– Eu sei que você não gosta de falar sobre o que está sentido. Mas falar ajuda, nem que seja só um pouquinho. Ajuda a tirar um pouco da dor que se acumula. Tenta...

Lílian olhou para Elizabeth com o semblante fechado. Descruzou os braços e deu um suspiro, dando-se por vencida. As palavras pareciam entaladas em sua garganta, e todas elas começaram a sair bruscamente.

– Eu simplesmente não consigo acreditar que tudo o que vivemos juntos era apenas fingimento. Que todas as palavras de amor e carinho eram mentiras. Não me parecesse real. Se ele nunca gostou de mim de verdade, nem por um momento, por que fazer isso tudo? Por que me fazer passar por tudo isso? Eu só estou aqui, agora, por que ele quis que eu estivesse. Ele disse que não queria me perder para a morte, disse que queria viver mais de uma vida comigo. Era tudo isso mentira?

– Ele não disse o por quê?

– Eu pedi uma explicação, eu dei a chance para ele fazer isso, mas ele só disse que tinha cansado. Ele se cansou de mim. Disse que foi divertido enquanto durou. Eu era só um passatempo, como eu fui idiota. Ele nem quis se explicar… Ele nem me olhou direito. Aquele não era o Sebastian que eu conheci – a tristeza se misturava com a indignação, a dor com a decepção. Sua garganta começou a ficar embargada, e sua voz saía rouca. – Mas talvez esse tenha sido o meu erro, eu esqueci que os akumas são apenas aquilo que seus mestres desejam. São apenas uma ilusão. Um reflexo do que desejamos ter. Do que desejamos ver.

– Se duvida das ações dele, por que acha que ele está agindo assim?

– Eu não sei! – se jogou no sofá, derrotada.

Ela enxugou os olhos lacrimejantes com as costas das mãos. Por mais que tentasse prender as lágrimas dentro de si, elas teimavam em sair sozinhas. Sua garganta ardia como fogo, e seu peito doía a cada batida de seu coração.

– Eu estou tão zangada com ele. Zangada por me fazer de idiota. E zangada comigo por ter acreditado. – Lílian não entendia como, mas tudo que lhe passava pela cabeça, tudo que lhe incomodava, ela ia botando para fora. – Mas o pior de tudo é que eu ainda gosto dele. E essa coisa dentro de mim não me deixa esquecer todas as vezes em que ele fez parecer que me amava.

– Não chame de essa coisa. É seu filho – Elizabeth sentou-se ao lado dela e a abraçou.

– É mais do que um filho, é uma lembrança contínua dele. Todos os dias quando eu acordo, lembro que há uma parte dele dentro de mim. Mesmo que eu tenha ouvido da própria boca dele, meu coração me diz que foi verdadeiro. Isso é o que mais machuca, eu não consigo aceitar que não significou nada para ele, quando pra mim significou muito. Não consigo.

– Minha pobre menina, você está experimentando pela primeira vez a dor de um coração partido. Isso machuca tanto quanto a dor da perda. A única maneira de sarar isso é deixando de amar.

– Eu quero, mas não sei se consigo – confessou.

.

.

Thomas levaria Lílian de carro até a casa de campo dos Midford. Elizabeth pediu a Zhao-Wei que acompanhasse os dois irmãos, para garantir a segurança de Lílian durante a viagem. Partiram a noite. No caminho, para azar deles, os alarmes da cidade começaram a soar ensurdecedoramente. Eles viram os aviões alemães cruzarem o céu noturno de Londres, rumo ao norte de onde eles estavam, e por onde eles teriam que passar. Não demorou muito para que as explosões começassem. Thomas parou o carro a uma distância que lhe pareceu segura e aguardou até que o bombardeio cessasse. Depois de algum tempo, eles seguiram viagem. Passaram pelo meio de uma cidade destruída, prédios em chamas, fumaça, e soldados procurando sobreviventes. Aviões da RAF cortaram os céus, atrás dos alemães que tinham feito aquilo. Mas do que adiantava agora? Lílian olhava para todo aquele fogo e se perguntava quantas vezes ela veria Londres queimar.

– Olhando assim, poucos minutos depois do ataque, parece uma cidade feita de fogo, não é?

– O que você disse, Tom? – Lílian perguntou, aquela declaração de alguma forma lhe pareceu familiar. Foi como um estalo em sua memória.

– Eu disse que parece uma cidade feita de fogo – Thomas respondeu acelerando o carro o máximo que podia, queria estar bem longe dali, caso os alemães resolvessem voltar para continuar a festa.

Então, Lílian se lembrou.

.

“– Ouça... Morrerás jovem, mas viverá além desta vida. E quando vir pássaros de ferro voando sobre uma cidade de fogo...

– E levares contigo o rebento de um demônio em secreto, deverá vir até nós, e nós ajudaremos.

– Sim, ajudaremos. Não esqueça.”

.

Viver além desta vida. Uma reencarnação. Pássaros de ferro. Os aviões, eles ainda não existiam naquela época, é possível que se referissem a eles. Cidade de fogo. Uma guerra. O rebento de um demônio em secreto. O bebê em seu ventre, filho do Sebastian.

– Thomas, precisamos ir para a Irlanda. Agora.

– Você ficou louca, irmãzinha? Estamos no meio de uma guerra. Vai levar mais de doze horas de viagem e ainda teremos que pegar uma balsa. E ESTAMOS NO MEIO DE UMA GUERRA!

– Eu sei, mas precisamos encontrar um mosteiro que fica na floresta do norte.

– E o que diabos você quer fazer em um mosteiro onde judas perdeu as botas?

– Há pessoas lá que podem me ajudar com o problema do bebê.

– E o que tem de errado com o bebê?

– Você ainda não percebeu, Tom? – Ela sussurrou para o irmão. – O pai dessa criança não é humano.

– Ah… – Thomas ficou em silêncio por alguns segundos, ele sabia que o único e provável pai daquele bebê só podia ser o Sebastian, mas ainda não havia parado para pensar no pequeno detalhe da natureza demoníaca dele. – Isso pode trazer algum problema para você e para o bebê? Você sabe….

– Bom… não tenho certeza. Acho que sim.

– Não devemos nos desviar do caminho – Zhao-Wei falou de repente, assustando Thomas.

– Droga Zhao! Você ainda está aí atrás? Fica tão calado que eu tinha até esquecido de você.

– Eu realmente preciso ir até lá, Zhao-Wei – insistiu Lílian.

– Eu prometi a senhora Elizabeth que manteria você em segurança até chegarmos a casa de campo – o chinês explicou.

– Bom, eu ainda irei para a casa de campo, mas passarei na Irlanda primeiro. Você pode me manter segura enquanto isso.

Thomas olhou para o Chinês. O chinês olhou para Lílian. Zhao-Wei assentiu.

– Muito bem então. Para que lado fica a Irlanda? – Thomas falou.

.

.

.

FLORESTA DO NORTE, IRLANDA

– Se é como você diz, essas mulheres já devem estar mortas, ou pelo menos bem, bem velhinhas.

– Não sei. Só sei que elas me disseram para procura-las quando chegasse o momento, e acho que este é o momento. E foi naquele mosteiro que eu as vi pela última vez.

– E elas são quimeras, também? Como o seu bebê?

– Não exatamente.

Apesar de duvidar que mosteiro ainda existisse, Thomas levou Lílian até lá. A garota advertiu o irmão quanto a possíveis inimigos que encontrariam no caminho, mas tirando as pedras e os buracos na estrada de terra, toda a viagem foi tranquila. Ao chegarem ao mosteiro, que permanecia inteiro no meio da floresta, os irmãos foram recebidos por monges que disseram já aguardar pela chegada deles, lhes deram um lugar para se acomodarem e informaram que em breve poderiam falar com as quimeras.

Os irmãos foram levados para uma grande sala e aguardaram lá, até que as mulheres chegassem. Thomas ficou surpreso ao ver a aparência incomum delas. Não era os corpos grudados um no outro o que causava mais estranheza, eram os olhos. Os olhos delas eram completamente brancos, mas elas não eram cegas. Aqueles olhos causavam uma sensação estranha em Thomas, era como se elas pudessem ver dentro dele, através dele. O cabelo ruivo delas estava preso em tranças, e usavam arcos de ouro em volta do pescoço e dos pulsos.

– Eis que nos encontramos novamente, Phantomhive – elas disseram em uníssono.

– Podem me chamar de Lílian, agora – a garota as cumprimentou, espantada, pois as duas não tinham envelhecido um só dia.

– Creio que não nos apresentamos adequadamente da última vez. Eu sou Moira – uma delas disse.

– E eu sou Cassandra – a outra acrescentou.

– E eu sou Tom, e aquele chinês em pé lá porta é o Zhao-Wei – Thomas se intrometeu, sentindo que estava sendo excluído da conversa. – Que legal, um encontro de gêmeos!

Moira e Cassandra pediram para que eles se sentassem.

– É uma menina. Temos certeza – disse Moira.

– E ela está se desenvolvendo muito bem. Você precisa se preparar para a fase turbulenta – Cassandra advertiu.

– Que fase é essa?

– A fase em que a quimera termina de se formar. Quando ficará definido se ela será mais humana ou mais demônio. É uma fase delicada, é quando a maioria das quimeras naturais morre – explicou Moira.

– Você já deve ter começado a sentir os efeitos em seu corpo. O sangue híbrido do bebê está se espalhando pelo seu corpo, te envenenando. Ao mesmo tempo, seu corpo tenta se defender. É uma batalha para saber quem mata quem primeiro.

– O bebê está tentando me matar? – Lílian indagou assustada.

– Oh, não! Claro que não. Perdoe nossa escolha de palavras. Só estamos tentando explicar que esta é uma das razões pelas quais mães e bebês quimeras acabam morrendo durante a gravidez. Os dois organismos não se harmonizam. Seu corpo passa a tratá-la como um invasor e o corpo do bebê faz o mesmo com o seu.

– E tem como impedir ou amenizar isso?

– Não. Podemos apenas auxiliá-la e esperar.

– Esperar o quê?

– Esperar que seu corpo suporte até que ela nasça.

– Vocês a viram nascer. Então ela não vai morrer. Quero dizer, antes do parto, certo? Nem o bebê, nem a Lil – Thomas indagou apreensivo.

– Nós vemos possibilidades. Nada está definitivamente confirmado, não é irmã?

– Não até que aconteça, irmã.

– Muitas quimeras morrem minutos após o parto. Algumas sobrevivem, mas nascem com algumas deficiências, resultado da defesa do corpo da mãe.

– Que tipo de d… — Thomas começou a perguntar, mas as siamesas apontaram para o próprio corpo, unido pela cintura e o quadril.

– Esteja preparada para qualquer eventualidade. Devemos nos concentrar na possibilidade de que a criança nasça e sobreviva. Mas quando ela nascer, você terá que fazer uma escolha.

– Uma escolha simples.

– Você quer que ela continue viva?

– Mas é claro que sim! Por que eu não iria querer? – Lílian falou.

– Ao contrário do que se pensa, nem todas as quimeras são más, no entanto, elas têm propensão à maldade como nenhuma outra criatura. É poder demais contido em um único ser, que pode andar livremente pelo Domínio Humano e cruzar a fronteira entre o céu e o inferno – os olhos de Cassandra se desviaram de Lílian e pousaram em Thomas, tinham uma intensidade assustadora.

– Vocês podem fazer isso? Essa coisa aí de cruzar fronteira? – Thomas perguntou, incomodado com os olhos das gêmeas.

– Nós, não – Moira tocou o arco dourado em seu pescoço. – Nosso corpo está selado, os demônios ficam longe. Além disso, nosso poder pode até causar problemas, mas não é do tipo destruidor.

– A criança em seu ventre tem muitas possibilidades. Muitos caminhos. A maioria leva ao desastre.

– O que isso significa?

– Muitas linhas de destino atuam nela de forma misteriosa. Alguém poderia manipular essas possibilidades a seu bel-prazer. De qualquer forma, se ela sobreviver, nós vemos um futuro...

– Oh! Os anjos vão querer protegê-la irmã.

– Sim, eles irão. Precisarão, irmã.

Thomas olhou assustado para Lílian, tentando entender do que as duas mulheres falavam, mas Lílian apenas deu de ombro.

– Você e Sebastian cometeram um crime considerado grave, punível com a morte. Mas não se desespere, a mãe quase sempre é considerada inocente em casos de quimeras naturais. E acredito que procriar não era a intenção de vocês ao fornicarem – Tom e Lil ficaram completamente vermelhos ao ouvirem aquilo, vergonha alheia constrangedora. – Os Serafins são justos, eles não matarão uma quimera que não possui maldade, mas matarão uma que mostrar ser perigosa demais para os humanos.

– Vocês têm certeza disso? – Thomas perguntou, as mulheres tinham um certo ar de loucura.

– Estamos vivas, não estamos? – Cassandra respondeu.

– Quimeras naturais não demonstram qualquer tipo de poder antes dos cinco anos. Então, até que apresente qualquer habilidade sobrenatural, sua filha será poupada do julgamento da Corte.

– Mas ela não estará segura, demônios virão atrás dela, acredite. E quando o lado demoníaco dela começar a amadurecer, os Serafins virão e executarão o julgamento. Se ela estiver do lado dos demônios, ela irá morrer.

– E quanto ao Sebastian? – ela perguntou tentando disfarçar a preocupação.

– Ele será executado. Não podemos fazer nada quanto a ele.

Lílian pensou em dizer que não era justo, que Sebastian não pretendia criar nenhuma criatura e usá-la para o mal. O akuma nem mesmo sabia daquela gravidez. Mas aquele demônio não merecia ser defendido por ela, mesmo que a ideia de vê-lo morto a desagradasse.

– Não espere até ela completar cinco anos. Existem demônios que procuram quimeras naturais como abutres procuram a carniça, e eles irão encontrá-la, mais cedo ou mais tarde. Não espere os Serafins virem. Invoque-os e faça um acordo. Ensinaremos a você o que o nosso pai fez para nos manter vivas. Mas diremos somente a você.

Thomas e Zhao-Wei entenderam o recado e se retiraram da sala.

.

.

LONDRES, INGLATERRA

Lílian não contou a Thomas o que precisava ser feito para garantir que a filha não fosse executada pelos anjos ou usada pelos demônios. Achou que ainda não era a hora.

Ela ficou os três meses seguintes reclusa na casa de campo dos Midford, na companhia de Thomas e de Elizabeth. A gravidez não foi fácil, quanto mais o bebê se desenvolvia, mais o corpo de Lílian sofria para manter mãe e filha vivas. Por vezes ela tinha fortes dores de cabeça, seguidas de hemorragia nasal. Não conseguia se alimentar direito, tudo lhe dava náuseas. Perdeu a conta de quantas vezes chegou a perder a consciência.

Antes de completar o oitavo mês de gravidez, Elizabeth achou melhor que elas voltassem para a cidade. Dada a fragilidade em que Lílian se encontrava, era melhor que o parto fosse realizado num lugar onde ela tivesse toda a assistência possível. Se houvesse uma complicação, e algo ruim acontecesse com Lílian e o bebê, Elizabeth não se perdoaria.

Mas para alegria de todos, e alívio de Lílian, ela e seu bebê, de alguma forma desconhecida, encontraram um equilíbrio; as semanas seguintes foram tranquilas e não houve mais mal estar.

.

.

“...as coisas não tem melhorado nada por aqui, mas estamos resistindo. Por água, os alemães não entrarão em nosso país, eu garanto.

Lílian, minha princesa, que falta eu sinto das suas músicas ao piano. Aqui, os soldados só houvem Boogie Woogie Bugle Boy, daquele trio de cantoras que vocês jovens gostam, serve para deixar os rapazes empolgados, e isso é bom, mas eu queria mesmo era um pouco da tranquilidade das suas melodias clássicas. Mas convenhamos, melhor Boggie Woogie que o som de tiros.

Thomas, meu filho, peço que tenha um pouco mais de juízo e maturidade. Não se apresse para o alistamento, espere ser convocado. É você quem deve cuidar de sua mãe e irmã enquanto eu estiver fora. Conto com você para isso.

Eleonor, querida, se as coisas piorarem e eu não regressar, volte para o interior com nossos filhos, lá é mais seguro.

Sinto muita saudade de todos vocês e espero vê-los em breve.

Com amor,

Phillip Cavendish”

Sempre que possível, Phillip escrevia para mulher e filhos, para mantê-los informados. As cartas não eram só uma informação de como andava a guerra nos portos e em alto mar, mas um sinal de que ele ainda estava vivo e bem. Então, quando as cartas pararam de chegar, Eleonor ficou aflita.

Nesse meio tempo, Eleonor nem sabia das aventuras de seus filhos, jurava que eles estivessem o tempo todo na casa dos Midford, e recebendo cartas e ligações de Elizabeth para confirmar, porque ela duvidaria?

A mulher permaneceu em Londres a espera de notícias, e um dia chegou uma carta, mas não de Phill, do Marinha. Naquele mesmo dia, Eleonor escreveu aos filhos, contando que Phillip estava num hospital em estado grave. Thomas e Lílian decidiram voltar para a cidade.

Os dois irmãos ficaram chocados ao chegarem a Londres, grande parte da cidade estava em ruínas. Foram informados de que os bombardeios estavam cada vez mais frequentes e devastadores, e não só ali, nas cidades vizinhas também.

Lílian começou a sentir um desconforto, mas preferiu não dizer nada, sabia que Thomas começaria a exagerar, e não era nada que ela não pudesse suportar. Comparado a tudo o que ela já havia sentido durante aquela gravidez, uma dorzinha intermitente não era nada.

No hospital, ao reencontrar os filhos, Eleonor chorou, e pediu desculpas para a filha.

– Acho que eu nunca vou entender você, minha filha. É tão diferente de mim, mas eu a amo mais que tudo. Vocês dois, amo os dois – Eleonor puxou Thomas e Lílian para um abraço. – Eu sei que você nunca me dirá quem é o pai dessa criança, mas não importa mais. Quando o pai de vocês melhorar, e ele vai melhorar, todos começaremos uma nova vida longe de tudo isso. Pensei em irmos para Nova York, a guerra ainda não chegou lá. Era para lá que eu devia ter ido há muito tempo.

Eleonor parecia muito mais velha e cansada. Ela vinha trabalhando no hospital, ajudando as enfermeiras. Era um meio de se manter ocupada e permanecer perto do marido, que estava em estado coma.

Os três conversaram por uma hora, embora metade da conversa girasse em torno da guerra. Eleonor contou aos filhos que Phillip e todos os outros pacientes seriam transferidos para um hospital mais longe da costa, o que o governo achava mais seguro.

– Eles não podem atacar hospitais, não é certo – Thomas reclamava.

– São nazistas. Eles não ligam para o que é certo. Já ouvi as pessoas falarem horrores sobre eles. Sobre o que está acontecendo do lado de lá.

– Também ouvimos, mas pessoas exageram, e mesmo que seja verdade, não é bom amedrontar a população. O povo precisa de coragem mais do que nunca. Não vamos entregar a Inglaterra para ele.

– Você fala como se estivesse em batalha também – Eleonor falou cansada.

– E estou. Todos estamos, quero dizer, de uma forma ou de outra.

Lílian já se mantinha fora da conversa há algum tempo, aquele desconforto parecia estar aumentando. Percebendo que a filha não estava bem, Eleonor foi chamar a enfermeira e esta informou que a jovem estava entrando em trabalho de parto.

.

.

No início, Lílian se recusou a ver o bebê, apesar de Thomas dizer que não havia nada de errado com a criança e que era o bebê mais lindo do mundo. Ela ficou receosa de segurar a filha, mas quando o fez pela primeira vez, sentiu um estranho contentamento e uma súbita vontade de proteger.

Ela tinha a pele branquinha e bochechas rosadas. Era tão pequenina e calma. Ela parecia perfeitamente normal e saudável. Mas os olhos dela eram tão exóticos quanto os de Lílian, um deles era azul, o outro era castanho. O mesmo tom de castanho dos olhos do Sebastian, avermelhado.

Lílian achava que a filha se parecia com o Sebastian, e por mais que estivesse zangada e magoada, todas as vezes em que estava com seu bebê no colo, ela só pensava no akuma. O que ele diria ou como reagiria se soubesse que tinha uma filha?

Um mês depois, Lílian estava em seu quarto com o bebê adormecido em seu colo, quando notou a presença de mais alguém ali.

– O que você faz aqui? – ela indagou rispidamente.

– Eu vim em paz – Undertaker ergueu os braços como se tivesse declarando rendição. – Queria apenas vê-la, isto é, a criança.

– Já viu. Agora vai embora.

– Vejo que não está de bom humor. Ou será que sou eu que a irrito? – perguntou em tom inocente.

– Você a chamou de monstrinho da última vez que nos vimos, esqueceu?

– Oh, isso. Hihihihihi.... Já me conhece a tempo suficiente, condessa Phantomhive, para saber que eu gosto de monstrinhos. Perdoe-me, eu não pretendia soar pejorativo. Qual o nome dela?

– Evelyn.

– Bonito. Estou curioso, qual sobrenome você escolheu? Cavendish, Phantomhive ou Michaelis?

Lílian trincou os dentes a menção do sobrenome do akuma. Ela sabia que o shinigami gostava de provocar, e não daria esse gostinho a ele.

– O nome dela é Evelyn Abigail Cavendish, satisfeito? – respondeu impaciente. E o shinigami voltou a sorrir. – Posso saber qual é a graça?

– Nomes curiosos você escolheu. Sabia que Evelyn pode significar tanto avelã quanto maçã? O fruto do pecado. E Abigail significa “razão de alegria”. Imagino que ela deva ser.

– Eu não escolhi os nomes. Meu irmão, Tom, escolheu o Evelyn, minha mãe escolheu o Abigail.

– De qualquer forma, são nomes apropriados para alguém especial como ela.

– Ela é meio demônio. Está marcada para o resto da vida, o que há de especial nisso?

– O simples fato de ela existir. Todos os pequenos detalhes ao longo dos anos, que possibilitaram a sobrevivência dela. Ela é rara e única. Quimeras naturais não costumam sobreviver, mas ela sobreviveu. Demônios, em sua grande maioria, são estéreis, no entanto, um akuma que passou tempo demais na mesma forma humana, se tornou fértil. E você, herdeira dos Phantomhive, só você poderia ter dado esta filha a ele. Só você sobreviveria a uma gravidez como essa, e daria a luz a um ser hibrido perfeito.

O bebê nos braços de Lílian se moveu, abrindo a boquinha para um bocejo e voltou a dormir tranquilamente.

– Dizem que quando alguém se torna pai, passa a amar tanto os filhos, que está pronto para morrer por eles. Você está pronta para morrer pela sua?

Lílian ficou em silêncio, observando o shinigami se aproximar e passar a mão sobre o topo da cabeça do bebê.

– Acredito que Moira e Cassandra explicaram para você o que está envolvido em ser mãe de um ser híbrido. Se quiser mantê-la em segurança, um sacrifício se faz necessário. Mas pense bem, você só conhece essa criaturazinha a pouco mais de um mês, é a filha daquele que a abandonou sem pensar duas vezes, e esta criança ainda lhe trará muitos problemas quando o lado demônio dela começar a se desenvolver. Você que sempre foi tão egoísta, que trocou a alma por vingança, morreria pela criatura em seus braços?

A jovem desviou os olhos do shinigami e fixou sua atenção ao rostinho da filha, que ainda dormia tranquilamente.

– Ela é parte de mim e parte dele. E eu estou tão ligada a ela, quanto estou ligada a ele. É minha obrigação protegê-la. Acima de tudo, ela é uma Phantomhive, e eu não permitirei que ninguém, homem ou demônio, use minha filha como me usaram.

– E o destino segue seu curso.

– O que quer dizer?

– Possibilidades, minha cara condessa. Possibilidades.

Undertaker esboçou um sorriso. E caminhou para a saída, parou ao chegar à porta e deu um aviso.

– Pessoas estranhas andam pelas ruas da cidade fazendo perguntas, procuram por você. Tenha cuidado, virão atrás dela. Seria desastroso perdê-la para os demônios.

Mal saíra o funerário, Thomas entrou no quarto como um furacão. Ele pegou as malas que estavam sobre o guarda-roupa e as jogou sobre a cama.

– Pegue somente o necessário pra você e para o bebê. Rápido! – falou ofegante.

– Por quê? O que houve? – indagou alarmada.

– Brendan e Zhao-Wei estão mortos... – o jovem abriu as gavetas do armário do bebê e jogou tudo dentro da mala. – Estamos sendo caçados. Fomos declarados traidores. Traidores!

– O quê?! Tom, explique direito. O que está acontecendo? – Lílian começou a balançar Evelyn, que acabou acordando com todo o alarde do tio.

– Nos sabotaram... Eu não acredito.... aquele cretino... nos incriminaram... – Lílian se esforçava para entender, mas o irmão não falava coisa com coisa. Fechou a mala e saiu puxando a irmã pelo braço. As orelhas e as bochechas dele estavam vermelhas de tanta tensão. – Precisamos ir, depois damos um jeito de avisar a mamãe no hospital.

– Eu não estou entendendo nada, Tom. Quem matou Brendan e o Zhao? Por que somos procurados?

O rapaz parou um instante para olhar para a irmã. Evelyn chorava. Thomas respirou fundo e parou para pensar em como contaria.

– Testemunhas afirmam que viram Brendan e Zhao-wei assassinarem os projetistas e cometerem suicídio em seguida. Algumas pessoas disseram que eles usavam um tipo de lente especial, pois estavam com os olhos completamente negros.

– Estavam possuídos.

– Provavelmente. Não para por aí. Alguém sabotou todos os caças Supermarine que já estavam prontos e matou trinta soldados que estavam no local.

– Mas quem fez isso? – Lílian indagou indignada. Eles trabalharam tanto para que aqueles aviões ficassem prontos.

Thomas comprimiu os lábios e fez uma careta, receando responder.

– Alguns seguranças viram quem foi... Foi o Sebastian.

– O quê?!

– Aquele filho da mãe nos traiu! – repentinamente, lembrou-se da urgência da situação, apertou a mão na alça da mala e voltou a puxar Lílian pelo corredor. – Sebastian nos sabotou, ele matou os soldados lá. E com a ação estranha do Brendan e Zhao-Wei, o primeiro ministro declarou os Cães de Guarda como traidores. Eles não sabem que Brendan e Zhao estavam possuídos, não sabem que Sebastian não trabalhava mais conosco. A polícia acha que eles estavam sobre nossas ordens. Expediram ordem de prisão para todos nós.

Aquela informação atingiu Lílian como uma bala. Abandoná-la já tinha sido uma atitude horrível, mas incriminar os Cães do Rei, isso era imperdoável.

– Como esses estúpidos podem pensar numa coisa dessas? Nós estávamos trabalhando nesse projeto, por que sabotaríamos a nós mesmos?

– Acho que eles não estão preocupados em raciocinar, e sim em nos prender. Lesley disse para sairmos daqui o quanto antes.

Quando os irmãos chegaram à sala de estar, escutaram fortes batidas na porta da frente. Uma voz masculina estrondou do outro lado.

– Sabemos que ainda estão aí dentro. Saiam!

Lil e Tom se entreolharam, o que fariam?

Notas finais
Vocês leram o equivalente a 24 páginas....só os fortes sobrevivem até aqui.. Pois é...toda a ação ficou para a parte final. E eu mudei o título pq sim. Para quem quiser se situar no contexto histórico, toda a história da Lílian se passa no período conhecido como A Batalha da Inglaterra. E o assunto da mãe solteira, hoje em dia é comum, e algumas mulheres até preferem assim, mas naquela época, ser mãe solteira era desgraçar a própria vida e o futuro do filho, que sempre seria visto como um bastardo. Não quis me prender muito a essas questões, é muita coisa pra contar, mas acho que deu pra ter uma ideia. O trecho no início do capítulo é a música Miracle da banda Hurts ( que eu amo). Eu escolhi essa música porque acho que traduz bem esse sentimento chamado “Você mentiu pra mim, desgraçou a minha vida, mas eu ainda te amo, droga!” pelo qual a Lílian passa nesse capítulo. Quem quiser ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=HrAclaz5GvA RAF – Força Aérea Real Caças Supermarine Spitfire – foram os modelos de caças usados pela Inglaterra durante a guerra. Boogie Woogie Bugle Boy é uma música do trio The Andrews Sisters. Na verdade essa música só foi lançada em 1941, um ano depois de onde nossa história está, mas eu acho essa música tão legal que tive que mencioná-la. Quem tiver curiosidade: https://www.youtube.com/watch?v=qafnJ6mRbgk kkk....gente, amo essas coisas antigas. Nos vemos no próximo beijos da Tai =^3^=