Phantomhive
31 Um Lírio Em Meio A Guerra – Parte III
Notas iniciais
Capítulo 31: Um Lírio Em Meio A Guerra – Parte III
...
Eu não tenho razão para viver
Também não tenho motivos para morrer
Mas quando eu estou de pé na forca
Eu vou estar olhando para o céu
Porque não importa onde eles me levem
Eu vou sobreviver a morte
E eu nunca serei esquecido
Com você ao meu lado
Porque eu não preciso desta vida
Eu só preciso
Alguém por quem morrer
Alguém por quem chorar
Quando eu estou sozinho
Somebody To Die For – Hurts
…
ALGUNS DIAS ANTES
NOVEMBRO DE 1940, ALEMANHA
Centro de Pesquisas Secretas, em algum lugar de Noremberg.
Havia várias pessoas reunidas, algumas trajavam o tradicional uniforme militar alemão, outros trajavam jalecos brancos. Na parede atrás deles, havia uma enorme bandeira vermelha, com a suástica no centro de um circulo branco. Em volta, muitos equipamentos e aparelhos estranhos. Amostras de sangue, fluídos e órgãos humanos ficavam expostos em tubos de vidro, e eram analisados por homens de óculos redondos e máscaras brancas.
O maior número de pessoas naquele lugar estava reunido em frente a uma sala fechada com vidro. Observavam com atenção as ações de cinco pessoas deixadas lá dentro. Os corpos estavam deformados, tinham sido cortados e costurados novamente, como bonecos feitos de retalho, sem cabelo e sem roupas.
Um deles se levantou, caminhou até o vidro que o separava dos que estavam do lado de fora, notou que estava preso e voltou os olhos para os outros atrás de si. Seus olhos sem pálpebras se chocaram ao ver as formas monstruosas que se moviam. Olhou para o próprio corpo e começou a gritar de agonia e desespero.
O segundo ser apenas olhava de um lado para outro, sem conseguir mover com exatidão seus próprios membros, e parecia determinado a arrancar as linhas que mantinha sua pele costurada. O terceiro não resistira ao processo.
O quarto revelou dentes e garras, e passou a atacar e a comer os outros experimentos até sobrar somente ele e o quinto, que parecia três vezes mais forte e extremamente raivoso. Lutaram entre si com uma brutalidade bestial. No fim, sobrou apenas o quinto, com parte da pele do rosto arrancada e um braço meio comido. Mas nem este durou muito. Depois de quarenta minutos, teve uma compulsão, começou a se decompor e morreu.
Os espectadores estavam estáticos de horror, exceto um, que vibrava com a luta violenta e torcia a cada mordida ou sangue que jorrava, e que soltou um muxoxo de decepção quando o último experimento não resistiu.
Os soldados tiraram os corpos de lá, colocaram em carrinhos de mão e os levaram até uma pilha de experimentos fracassados, que queimavam em uma vala cheia de enxofre e fogo.
– Você disse que me daria um exército invencível – um general robusto, de barba grisalha e cabelo castanho gritava com uma mulher loira e alta. – Um exército de criaturas poderosas que nos traria a vitória. Soldados invencíveis. E até agora só conseguimos fracasso.
– Cale-se, insolente! Se só tivemos fracasso a culpa também é sua – a mulher falou, batendo o chicote na mesa. – Não entendo, depois de anos e anos, elas ainda não vivem mais do que algumas horas.
– Talvez porque estamos usando uma raça inferior para as experiências. Esses vermes são muito fracos – um soldado sugeriu.
– E o que você sugere, ahn? Que usemos seus preciosos e saudáveis soldados arianos no lugar desses judeus decrépitos? Não depende da raça, isso deveria funcionar mesmo em cadáveres.
– Então talvez seja você a parte inferior que não funciona aqui... – o general robusto sugeriu.
– O que está insinuando? Se trabalhassem direito… – a mulher olhou para ele furiosa, mas o homem a interrompeu.
– Nós fizemos tudo o que você mandou, exatamente como nos mandou. Pelo tempo que já perdemos com essas experiências, eu já deveria estar recebendo as parabenizações do Führer. Condecorado com as mais altas honrarias por dar ao Führer um exército invencível, mas tudo o que tenho a oferecer a ele é uma pilha de monstros mortos.
– Prefere que eu leve meu projeto para os ingleses?
– Nein – respondeu, visivelmente irritado.
– Então fique quieto e reiniciem o processo, desta vez dará certo.
Ela deu a ordem e saiu furiosa, os soldados desviavam de seu caminho. Entrou em sua sala para ficar sozinha, mas os outros já estavam lá.
– Talvez devêssemos desistir – um rapaz de olhos avermelhados e cabelos cor de ameixa falou. Ele estava sentado sobre a mesa e nas cadeiras ao lado havia mais dois rapazes idênticos a ele.
– E fracassar como o imbecil do Dhalion? Nunca! Eu não descansarei até ter êxito.
– Isso é determinação ou medo? Afinal, se você voltar lá para baixo de mãos vazias, o chefe vai acabar com você – o outro rapaz falou. – O Dhalion teve até sorte de ser morto pelos Phantomhive. O chefe ficou bem furioso ao descobrir que ele desperdiçou todo o tempo dele aqui pra tentar ser rei no Domínio Humano. Ele colocou todo o projeto a perder.
– Até eu fiquei zangado. Tive tanto trabalho para entregar o livro de feitiço para aquele humano tolo, e ainda tive que sugerir o local em que Dhalion estava preso – o terceiro rapaz comentou. – Na verdade, não imaginei que seria tão fácil convencer aquele humano a libertar Dhalion.
– Os humanos estão sempre desesperados. É fácil convencê-los de qualquer coisa.
– Vocês três querem parar de tagarelar? – a loira pediu. – Estão me irritando. Foram os demônios que criaram as primeiras quimeras, não admito que não encontremos um jeito de criar outras novamente. Vamos voltar as experiências e desta vez dará certo.
– Tecnicamente, os primeiros híbridos eram meio anjos, lembra, os nefilins? Então, os anjos foram os primeiros – um dos rapazes sentados nas cadeiras corrigiu.
– Quem a ouve falar assim, até acredita que falas a sério. Não adianta quantas vezes você tente, o máximo que suas quimeras viverão será um dia – o outro rapaz acrescentou.
– E o que você sabe sobre isso, demôniozinho tolo?
– Não mais do que você. Mas sei que aquele shinigami desertor conseguiu mais em um ano do que nós conseguimos em séculos. Não é verdade, Timber?
– Sim, Thompson. Ele fez mortos andarem por aí como se estivessem vivos. Não estavam perfeitos, mas imagino o quanto ele já conseguiu progredir depois de todo esse tempo que estivemos fora da Inglaterra.
– Mas o nosso senhor não deseja simples mortos que andam, ele anseia quimeras tão poderosas quanto as naturais – a mulher começava a se irritar com os três.
– Então deveria estar providenciando quimeras naturais, e não perdendo tempo criando quimeras artificiais com data de validade vencida – o terceiro rapaz alfinetou.
– Afinal, do lado de quem vocês estão? Acha que sou idiota, Canterbury? Se pudesse, acha que já não teria feito? Minha raça, como muitas outras, foi amaldiçoada pelos anjos. Não procriamos – os olhos da loira faiscavam de irritação e os três rapazes apenas riam por conseguirem irritá-la. – Calem essa boca! Parem de rir! Um dia eu ainda arranco a língua de vocês.
Uma mulher de pele bronzeada e cabelos brancos entrou na sala. Esta não usava uniforme militar como os outros quatro da sala, apenas um vestido verde escuro.
– Senhora Gretel, Mindrael deseja lhe falar. Posso deixa-la entrar?
A loira suspirou. Sentou-se cruzando as compridas pernas, e cruzou também os braços, fazendo seus seios parecerem ainda maiores no decote avantajado.
– Claro, Hannah, querida. Ver a sua tranquilidade é um bálsamo para mim. Esses três reclamões me estressam. Fique ao meu lado. Deixe Mindrael entrar.
Uma jovem de compridos cabelos castanhos claro entrou na sala. Ela tinha baixa estatura e parecia acuada. Olhou para os demônios na sala e torceu os dedos.
– Finalmente você aparece para dar o ar da graça, A.C. Estava começando a achar que você era uma aliada inútil – Gretel alfinetou.
– Pare de me chamar de A.C. Eu tenho um nome – Mindrael respondeu irritada.
– Mas não é isso o que você é, um anjo caído? É até um apelido fofinho, como você A.C. Vamos, não me olhe desse jeito até parece que tenho culpa de alguma coisa. Você caiu por que quis.
– Porque você me induziu, você me enganou, disse que…
– Blá blá blá! Quantos milênios você tem de vida? Ora, por favor. Você parece com um humano no dia de pagar por seus pecados. “Eu não tive culpa. Eu fui enganado. Eu não sabia. Buá buá” – falou com voz fininha e imitava um bebê chorando. Timber, Canterbury e Thompson sorriram. O semblante de Gretel voltou a ficar sério. – Acontece que todos sabem muito bem o que estão fazendo. E mesmo que digam que não havia escolha, sempre há uma escolha. Mas ninguém reclama até sentir a dor das consequências na própria carne. E você, minha cara Mindrael, sabia muito bem que quando um anjo cai, não há mais volta. Agora conte-me o que você descobriu.
Os olhos de Mindrael lacrimejaram.
– Não sei se devo. Não gosto de ajudar você a prejudicar os meus irmãos.
Gretel bufou de impaciência.
– Então porque você veio até aqui sua tola? Eles não são mais seus irmãos. E não importa o quanto tente, não poderá mais voltar. Você. Não. É. Mais. Um. Anjo. Agora você só tem a mim, isto é, se você provar ser útil. Ah, você vai chorar?
Mindrael piscou, incomodada com a estranha sensação de ter lágrimas se acumulando em seus olhos. Tudo naquele corpo era estranho, sem mencionar a dor, tudo era insuportável, frio, calor, ferimentos, fome, ser humano era horrível! Ela trincou os dentes e olhou para os demônios em volta dela.
– Há alguns meses, três pessoas entraram no território protegido na Floresta do Norte, onde as quimeras que veem o futuro estão escondidas. Eu conhecia alguns dos anjos que guardavam aquela área, e sei que ninguém de fora entrava lá há anos.
– A não ser que você tenha encontrado um jeito de roubar aquelas quimeras daquele mosteiro fedorento, ainda não vi o valor da sua informação.
– Uma das três pessoas a entrarem lá era uma jovem, grávida. E eu senti uma energia demoníaca nela. A princípio, achei que fosse por ser uma contratante...
– Oh, a senhora de um demônio! Está começando a ficar interessante. Não enrole, poupe-me dos detalhes. Diga logo a parte importante.
– A jovem estava grávida de um hibrido.
Os olhos da demônia cintilaram.
– Está me dizendo o que penso que está?
– Uma quimera natural genuína. Meio demônio. Como não vemos há séculos.
– Não vamos com muita sede à fonte. A quimera pode morrer durante a gravidez ou durante o parto. Temos que encontrar essa garota e garantir que…
– Acha que eu seria tola de vir até você com uma notícia incerta? Como eu disse, isso foi há alguns meses, a criança já nasceu e permanece viva.
– Parece que o destino me sorri finalmente. Você tem potencial, Mindrael. Em breve será uma de nós. Agora, onde ela está?
– Essa é a parte em que o destino lhe prega uma peça. A criança é uma Phantomhive.
– Pensei que essa praga tivesse sido extirpada há anos. Mas tudo bem, isso não será um problema. Como os humanos dizem: dois coelhos, um só golpe.
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AGORA
Coventry, Inglaterra
– Seus idiotas! Enquanto perdem o seu tempo e o meu tempo nesse interrogatório sem sentido, os verdadeiros inimigos estão lá fora. Provavelmente planejando onde irão atacar da próxima vez. Eu exijo que me soltem, agora!
Lílian já estava aborrecida de repetir a mesma história para aqueles homens arrogantes que insistiam em trata-la como uma criança que roubou a lojinha da esquina. Eles tinham separado ela de Thomas, e pior, tinham levado Evelyn para longe dela. Os dois irmãos tinham sido transferidos para Coventry, e apesar de Lílian insistir para falar com o rei ou o primeiro ministro, ninguém lhe dava ouvidos.
– Não adianta reclamar, moça. Enquanto não nos disser o paradeiro do seu capanga sabotador.
– Você é surdo? Eu disse que ele NÃO TRABALHA MAIS PARA MIM! Ele agiu sozinho. Vocês entendem o que essa palavra significa? Sozinho?
– Mas e os outros dois? Brendan Findlay e Zhao-Wei Leong?
– Se eu dissesse vocês não acreditariam.
– Porque não tenta – um dos guarda falou cheio de si. Provavelmente ele deveria achar muito másculo interrogar uma jovem de dezessete anos algemada e presa em uma cadeira.
– Eles estavam possuídos por demônios. Por isso fizeram o que fizeram, do contrário, não teriam feito.
– Acho que você não entendeu sua situação aqui mocinha – o guarda metido a valente bateu as mãos sobre a mesa, provavelmente tentando assustar a garota, mas só estava conseguindo deixa-la mais irritada ainda. – Estamos falando sério. Queremos respostas.
– Vocês que não sabem com quem estão brincando. E eu não direi mais nenhuma palavra enquanto vocês não me devolverem a minha filha.
– Ela está sob a custódia do exército. Está segura.
– Nas mãos de vocês? Eu duvido muito. Eu quero a minha filha, agora! – Lílian se debateu na cadeira, seus braços estavam presos para trás.
– Ela está na sala ao lado com uma enfermeira, poderá vê-la depois que cooperar.
– Eu já disse tudo o que sei.
– Te darei mais algum tempo para pensar, quem sabe sua memória não volta.
O sujeito se aborreceu e saiu, provavelmente para fazer alguma coisa inútil e depois voltaria para interroga-la novamente. Lílian ficou sozinha com um soldado a vigiando. De repente, ela ouviu um choro de bebê. O choro de Evie. Afinal eles disseram a verdade, a menina devia estar em alguma sala ali próximo. Lílian insistiu para ver a filha, mas seus pedidos foram negados.
Para seu horror, ela viu quando um soldado passou pelo corredor em direção ao choro do bebê. Um soldado de olhos negros. Lílian sentiu seu sangue congelar. Ela sabia que aquele demônio estava indo atrás de sua filha.
– Por favor, por favor! – ela implorou para o soldado. – Preciso ir até a minha filha.
– Negativo – o soldado respondeu sem mover um músculo.
– Então vá lá. Aquele soldado vai fazer mal a ela. É um demônio.
– Com certeza, moça – ele riu, como se Lílian estivesse inventando uma desculpa tola.
Lílian poderia arrancar a cabeça daquele homem se estivesse com as mãos livres. Ela teve uma ideia, mas se lamentou por ter que fazer aquilo. Esforçou-se em ser o mais feminina, graciosa e gentil que conseguia ser.
– Poderia, por favor, só algemar minhas mãos na frente? Meus braços estão dormentes. Já estou nesta posição há um bom tempo – fez a expressão mais inocente que pôde. – Olhe para o meu tamanho, o que eu poderia fazer contra um soldado grande e forte como você?
O soldado encheu-se de orgulho, e Lílian de constrangimento por dizer aquilo.
– Tudo bem.
O soldado caminhou até a cadeira e abriu as algemas de Lílian. Num movimento rápido, a garota agarrou a gola do uniforme do soldado e o puxou com toda a força para baixo, batendo a cabeça dele na mesa. O homem apagou na hora. Lílian pegou a arma dele e espiou o corredor cuidadosamente, havia mais um soldado do lado de fora. Ela voltou para pegar a cadeira em que estivera sentada, se escondeu atrás da porta e chamou pelo outro soldado. Quando o segundo homem entrou, ela o acertou nas costas. O sujeito caiu sobre os joelhos e levou uma segunda cadeirada, desta vez na cabeça.
Lílian passou por cima do soldado caído, seguiu o choro da filha pelo corredor e encontrou uma sala com a porta aberta. Dentro, havia uma enfermeira com a cabeça esmagada, caída no chão e um soldado de olhos completamente negros segurava Evelyn. Lílian ficou na porta impedindo a passagem e apontou a arma para a o demônio.
– Eu não sei quem você é ou o que quer. Não me importa. Só me entregue o bebê, ou eu atiro.
– Vai ter que me matar se quiser ela de volta.
– Que seja.
Lílian mirou na cabeça, e a bala passou a milímetros da cabeça do demônio, que desviou por pouco. Ele a derrubou com um tapa, mas a garota continuou segurando a arma, virou-se rapidamente e deu mais dois tiros, um no ombro e um na cabeça. O demônio tombou ao ser atingido, e Lil correu para pegar o bebê antes que o demônio caísse com ele. Checou se Evelyn estava bem. A menina parou de chorar assim que a mãe a pegou. Lílian beijou a testa da filha e deu mais dois tiros no demônio, só para ter certeza. Precisava sair dali, os tiros atrairiam outros soldados.
Ela avançava pelo corredor a passos largos, segurando Evie com uma mão, a arma na outra. A qualquer momento ela encontraria outro soldado, ou outro demônio. Ela escutou passos vindos do corredor ao lado. Ficou parada, encostada na parede e se preparou para atirar. Quando os soldados fizeram a curva, Lílian apontou a arma para eles.
– Calma, calma! Somos nós – Thomas e August estavam vestidos com os uniformes do exército inglês. – Viemos te salvar.
– Já me salvei.
– O que você fez?
– Não queira saber. Não olha para trás, só continua andando.
– August me ajudou a derrubar um soldado e peguei o uniforme dele – Thomas explicou, seguindo a irmã.
– Tem demônios... – August começou a falar.
– É eu sei – Lílian o interrompeu.
– Temos que chegar até o carro, se chegarmos até lá, estamos bem – disse August.
Os dois homens fingiram escoltar Lílian quando chegaram a uma área com mais soldados. Os corações pulavam no peito. Os três tentavam andar rápido, mas sem parecer que estavam fugindo. Quando alguém os parava, Thomas tentava esconder o rosto, e August dava a desculpa de que receberam ordens para transferir a garota de volta para Londres.
Por sorte, conseguiram chegar ao carro e escapar antes que os alcançassem. August começou a falar enquanto dirigia.
– Tia Lizzy estava tentando transferir Phillip para um hospital mais seguro e mais afastado quando tudo aconteceu. Todos fomos pegos de surpresa, não sabemos como isso aconteceu, nem porque resolveram acusar o Clã Phantomhive tão rapidamente, vocês são os Cães de Guarda do Rei, mereciam um voto de confiança. Tudo bem que viram o Sebastian, o Brendan e o Zhao fazendo aquelas coisa, mas mesmo assim, não nos deram chance para explicações. Tia Lizzy está tentando entrar em contato com Rei ou com o Primeiro-ministro para esclarecer a situação. Enquanto isso, temos que manter vocês em segurança.
– E quanto ao Lesley? – Thomas perguntou.
– Ele conseguiu fugir, está escondido também.
– O que eles estão fazendo aqui? – Lílian falou. Os outros dois olharam para ver se estavam sendo seguidos, mas viram que a jovem olhava para os telhados dos prédios e das casas.
– De quem você está falando, Lil? – Thomas indagou.
– Deles – indicou os telhados com a cabeça. – Nunca vi tantos deles. Vocês não estão vendo?
Tom e August se entreolharam e deram de ombros, não viam nada, apenas o céu nublado daquele fim de tarde. Lílian via vários homens vestidos de pretos sobre os telhados, parados e observando, talvez esperando. Ela olhou para a filha, que segurava um de seus dedos e tentava leva-los para a boca. A criança devia estar com fome. Lílian queria alimentá-la, mas não gostava muito de amamentar, achava estranho, e não tinha como fazer isso com Tom e August no carro.
Olhou novamente para os ceifeiros nos telhados, se tantos deles estavam ali, era sinal de que alguma coisa grande iria acontecer. A jovem teve uma sensação ruim.
Em uma parede na rua, Lílian viu vários cartazes colados, os quais traziam a seguinte mensagem:
“Mães, mandem seus filhos para o interior. Não os tragam de volta, pois é isto o que Hitler quer.”
Os cartazes apresentavam a imagem de mães e crianças sorrindo ao se separarem. Não poderia ser mais falso. Lílian e Tomas já tinham presenciado a partida de um trem cheio de crianças que seriam enviadas a famílias no interior. Nem mães, nem crianças ficavam felizes. No dia em questão, Lílian achou crueldade das mães mandarem seus filhos para famílias desconhecidas cuidarem, mas agora, com Evie em seus braços, Lílian percebia que para manter os filhos vivos, era preciso fazer alguns sacrifícios.
– Temos que realizar o encantamento e chamar os anjos agora. Tenho a impressão de que não temos mais tanto tempo. Há algum lugar seguro aqui por perto? – ela falou.
– Encantamento? – August perguntou, mas os dois irmãos não disseram nada. – Posso deixa-los num escritório da P&M Company aqui perto. Não podemos ficar nas ruas.
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Era uma época divertida para qualquer demônio, de horror para os humanos, mas de muito trabalho para os shinigamis. Centenas de pessoas morriam todos os dias, aqui e acolá, e a quantidade continuava aumentando. Nunca tiveram que fazer tanta hora extra.
– Dividam-se em duplas e fiquem bem atentos. Teremos muitas almas para recolher esta noite, o que possivelmente atrairá muitos demônios, e não podemos perder nenhuma para eles.
William T. Spears repassava as orientações de como deveriam proceder naquela noite para os outros shinigamis. Os ceifeiros começaram a se movimentar, procurando formar pares.
– Will, Will! Vamos fazer dupla? – Grell Sutcliff, um shinigami de compridos cabelos ruivos, pendurou-se no braço de William e pediu com voz doce. – Você e eu. Trabalhando juntos. O que acha?
Grell desenhou um coração no ar, seu corpo balançava de animação.
– Negativo – William respondeu direto, apenas ajeitando os óculos.
– Quê?! – perguntou fazendo biquinho e deixando os ombros caírem. – Por que está sendo tão frio comigo?
– Você fará dupla com o sr. Ronald Knox. Eu terei que coordenar o trabalho de todos os outros, mas ficarei de olho em vocês dois.
– Por quê? – Ronald entrou na conversa ao ouvir seu nome ser mencionado.
– Porque um de vocês é um preguiçoso incorrigível e o outro não sabe o que significa seguir ordens. E eu não tolerarei atrasos nessa missão.
– Humph! Não quero fazer dupla com o fedelho narcisista – Grell cruzou os braços, olhando para Ronald com desdém.
– Eu posso ouvi-lo, sabia? E quem é você para me chamar de narcisista?
– Os anos passam e eu continuo com um bando de idiotas infantis – William resmungou para si mesmo.
– Senhor Spears, com licença – um shinigami chamado Alan Humphfres se aproximou deles. – Nas documentações que o senhor me entregou, consta o nome de uma moça chamada Lílian Cavendish, filha de Eleonor e Phillip Cavendish, e apenas isso. Mas ao conferir o meu Livro da Morte, percebi que está registrado Lílian Phantomhive, filha de Eleonor e Phillip Phantomhive, neta de Elizabeth e Ciel Phantomhive.
Alan mantinha o livro aberto na árvore genealógica. William olhou fixamente para o nome Ciel Phantomhive e Lílian Phantomhive. Estreitou os olhos. Não gostou muito de ver aquele nome novamente. Ajeitou os óculos e olhos para Alan, tentando não passar preocupação.
– Não há equívoco algum. Trata-se da mesma pessoa. O Livro da Morte mostra a verdadeira linhagem das almas, a família a qual realmente pertencem. Isso costuma acontecer com filhos de pais adotivos.
– Oh! Eu ainda não tinha encontrado um assim.
– Já tem um parceiro?
– Sim, senhor. Meu amigo Eric.
– Fiquem atentos durante a coleta desta noite. Fui informado de que haverá muitos demônios na área.
– Certo.
Todos partiram para a cidade e se colocaram sobre os prédios, observando a distância.
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Lílian estava em uma sala do escritório amamentando a filha. Quando a criança se sentiu satisfeita, afastou o rosto do seio da mãe e olhou para ela com seus pequenos olhos bicolores. Lílian começou a conversar com ela.
– Eu queria ver você crescer, ouvir as suas primeiras palavras, acompanhar seus primeiros passos. Ensinar-te coisas, te acalmar quando ficasse assustada durante a noite. Queria descobri se sou realmente capaz de ter uma família. Queria te dar tudo o que eu não tive, mas parece que você herdou a minha maldição, e eu estou prestes a te privar de tudo o que um filho deseja. Eu sinto que enfraqueço a cada dia desde o seu nascimento. Há veneno em meu sangue. Mas não quero que pense que é culpa sua. De todos você é a mais inocente. Eu vou proteger você e para isso terei que privar você de seus pais. Só quero que saiba que eu amo você, e eu certamente não costumo dizer isso a qualquer um, e seu pai... Seu pai, apesar de tudo, terá que permanecer longe. Mas espero que você seja tão forte e astuta quanto ele.
Lílian notou que havia papel em branco sobre a mesa, e decidiu escrever uma carta. Assim que a terminou, colocou dentro de um envelope, o endereçou a Elizabeth e o escondeu entre do manto que aquecia a pequena Evie.
Duas batidas na porta.
– Posso entrar? – Tom falou do outro lado da porta e Lil lhe deu permissão. – August saiu para conseguir passagens para Londres. Se você quer realmente fazer aquilo, agora é a hora.
Lílian sabia que os demônios a encontrariam mais cedo ou mais tarde, mas que isso, ela sentia, como se seu corpo inteiro a tivesse alertando do perigo. Então decidiu fazer logo o ritual para proteger Evelyn.
– Tem certeza de que quer fazer isso? – Thomas perguntou. – Depois que começarmos, não tem mais volta.
– Eu sei disso. Eu sei.
Eles procuraram um galpão que fosse bem espaçoso. Thomas tirou os móveis e as caixas que havia pelo meio, depois tomou Evelyn dos braços da irmã e entregou a ela um canivete.
– Tenha cuidado. Não faça tão profundo.
Lílian passou a lâmina do canivete sobre o próprio pulso, fazendo uma careta de dor ao sentir a carne se abrir. O sangue quente começou a escorrer por sua mão. Ela passou a desenhar, com o sangue, um enorme círculo em volta de si e os símbolos angélicos que Cassandra e Moira haviam ensinado. Enrolou uma tira de tecido em volta do pulso e ficou de pé. Pegou Evelyn de volta e pediu para que Dimas mantivesse distância.
– Eu, Lílian Eleonor Ivenn Cavendish, outrora conhecida como... Conde Ciel Phantomhive, herdeira legítima do sangue Phantomhive, ofereço à Corte dos Serafins um sacrifício de sangue em troca de um pacto de proteção. Afirmo estar ciente de minha decisão, e por não poder oferecer minha alma como garantia, ofereço minha vida. Para que tal acordo seja feito, exijo a presença de vocês neste circulo sagrado.
A princípio, nada aconteceu. Então, o chão tremeu e a insígnia de sangue brilhou, uma luz desceu sobre o círculo e iluminou todo o ambiente. Duas figuras apareceram ali. A primeira figura era feminina, Iridel, a segunda era masculina, mas o anjo emanava tanta luz que Lílian nem conseguia levantar os olhos para ver o seu rosto. Thomas ficou tão chocado que caiu sobre os joelhos, não acreditava no que estava vendo.
Os anjos fecharam suas enormes asas, e o “homem” falou com severidade.
– Eu sou Ezael, membro da Corte dos Serafins. Você nos invoca para o Domínio Humano para pedir proteção? Você que em duas vidas escolher entregar a própria alma para um demônio? Você que causou a perda de tantas outras?
– Minha alma não pertence mais a mim, isso é verdade. A primeira vez a entreguei por vingança, a segunda foi por... – ela hesitou.
– Amor? – Iridel perguntou, mas Lílian ignorou a pergunta.
– Se causei alguma morte, foi a de pessoas que fariam coisas piores do que eu; e vocês sabem disso. É o meu trabalho. Agora, quero apenas evitar mais perdas. Peço proteção não para mim, mas para minha filha, Evelyn.
– Cometeu fornicação com um akuma e esse pecado gerou um fruto. Um ser híbrido que viola as leis naturais. Sabe quais são as leis sobre isso? – Ezael bradou.
– Eu sei que suas ordens são de mata-la, mas ela ainda não demonstrou ser mais do que uma criança inocente. Peço que tomem a guarda dela e evitem que demônios possam corrompê-la.
– Nunca mataríamos uma quimera antes de ter certeza de que ela é má e perigosa – Iridel afirmou.
– Por outro lado, já toleramos os pecados dos Phamtomhive por muito tempo. Os pecados de seus avôs, e os de seus pais, e agora os seus. – Lílian concluiu que o anjo estava se referindo a Vincent e aos outro antes dele, afinal, Elizabeth e ela decidiram manter Phillip afastado de todo o mundo dos Phantomhive. – Amaldiçoou a própria alma, entregou-se a um demônio, tem prejudicado a si mesma. Sua família se desviou do propósito original, e você se desvia mais ainda. Por que continua a servir um governo que usa você como moeda de troca?
– O quê? – Lílian perguntou confusa, não sabia a quê Ezael se referia agora.
– O grupo alemão responsável pelos ataques aéreos, ofereceu um sessar fogo, mas pediram você e sua filha em troca. Governantes humanos sempre colocam seus interesses egoístas a frente de qualquer coisa.
– Isso é mentira! – Thomas os interrompeu. – O Rei nunca faria isso.
– Mas ele fez – Ezael afirmou e voltou a se dirigir a Lílian. – Não pensaram duas vezes quando ofereceram a vitória nesta guerra. Como acha que aqueles demônios conseguiram encontrá-la tão rapidamente? As nações estão em guerra, e neste momento, para elas, um tanque é mais vantajoso que um leal Cão de Guarda. Enquanto isso, demônios continuam a tramar e a causar aflição por baixo dos panos, demônios que os Phantomhive deveriam estar eliminando.
– Há muito mais por trás dessa guerra do que pode imaginar. São os demônios que controlam as peças. E agora eles querem uma que está em seu poder – disse Iridel. – A criança que você pede para protegermos, possui muitas possibilidades, muitos caminhos de destino, a maioria desastrosos.
– Acho que já ouvi isso.
– É mais seguro para ela e para todos que ela esteja sob o nosso controle. Podemos fazer o que você deseja, mas a proteção repelirá dela toda e qualquer forma de vida demoníaca. E... Mesmo alguém que possua em seu corpo a marca de um demônio não poderá chegar perto dela. Você compreende isso?
– Sim. E estou de acordo.
– E sabe que precisaremos usar parte de sua energia vital para fazer isso? – Iridel indagou.
– Grandes feitiços exigem grandes sacrifícios. Ao fazermos isso, seu tempo de vida será encurtado – Ezael acrescentou.
– Também estou de acordo.
– Muito bem, nós aceitamos o seu sacrifício de sangue, herdeira dos Phantomhive – Ezael falou.
Iridel pegou a Evelyn no colo. Ela e Ezael começaram a recitar palavras em uma língua desconhecida, que para Lílian e Thomas soava como uma melodia onírica. Com um movimento de mão, Ezael fez um fio de sangue levantar dos símbolos desenhados no chão, e um fio de luz sair do peito de Lílian. A jovem sentiu como se perdesse parte de si. Como se um enorme e repentino cansaço lhe abatesse.
Iridel retirou um fio de seu próprio cabelo, fio que se entrelaçou com os dois fios pegos por Ezael e o prendeu em volta do pescoço do bebê, e repetiu o mesmo processo, amarrando fios de cabelo nos pulsos de Evelyn. Quando os anjos terminaram, os três fios entrelaçados se transformaram em arcos de ouro maciço, com runas angélicas entalhadas em toda sua circunferência.
– Está feito. O corpo dela está selado e os poderes controlados, os demônios não poderão encontra-la. Mas deve tirá-la daqui o quanto antes.
Lílian estendeu os braços para pegar a filha. Abraçou-a devagar e lhe deu um beijo na testa. Assim que o fez, sentiu seu nariz sangrar. Chamou pelo irmão, e entregou Evelyn a ele.
– Leve-a para onde combinamos.
– Mas e você? – Tom olhou para a irmã, apreensivo.
– Vou esperar aqui. Estou muito cansada. Eu só te atrasaria.
Thomas escondeu a sobrinha dentro de uma cesta e partiu.
– Sua vida está se esvaindo Phantomhive. Deseja mais alguma coisa? – Ezael perguntou.
– Sim – falou com timidez. – Não... Não matem o Sebastian... por favor.
– Quanto a isso não há acordo. Ele deve ser punido pelo que fez. Não é a primeira vez que aquele akuma faz uma grande tolice com consequências sem tamanho.
– Eu sei que ele deve ser punido, e queria eu mesma poder fazer isso, mas acredito que não era a intenção dele criar uma quimera. Se fosse, ele teria me procurado novamente. Vocês disseram que são justos. Seria justo puni-lo por um crime que ele não teve a intenção de cometer? Além do mais, naquele dia – o rosto dela corou –, no dia em que Evelyn foi concebida, fui eu que o levei a... bom, o que estou tentando dizer é que, a culpa é minha. Se ele é pai de uma quimera, foi porque eu permiti.
– Mas você não parece arrependida – Ezael acrescentou.
– Não me arrependo de ter amado ele. E certamente não me arrependo de ter a minha filha. O fato é que Sebastian é parcialmente inocente. Não o matem, deem a ele outra punição, mas não o matem.
– Você está cheia de mágoa e ressentimento por ele, e ainda assim, quer barganhar a vida dele? Por quê? – Iridel perguntou, mas Lílian permaneceu em silêncio, a resposta era óbvia para Iridel. – Para um akuma, o que seria pior do que a morte?
– Podem desfazer meu contrato com ele? – Lílian arriscou.
– Sinto muito, apesar de vil, o Contrato de Fausto é um direito legal dos demônios, os humanos têm livre arbítrio, podem escolher aceitar ou não; mas no momento em que aceitam, não podemos mais interferir. Você continuará sendo mestre dele, até que ele morra – Ezael explicou.
– Espere um pouco, então eu ainda tenho poder sobre ele?
– A marca dele ainda está em seu olho, não está?
– Mas eu não entendo por que ele... Eu já tenho uma punição para ele, mas jurem não mata-lo. Eu declaro que o akuma Sebastian Michaelis deve ser colocado a serviço da Corte dos Serafins por cem anos, a contar de hoje, como punição por participar da criação de uma quimera. E isto é uma ordem!
– Ele não será morto, mas poderá ser punido caso cometa outro erro. Você tem a nossa palavra. Agora precisamos ir, já ficamos tempo demais aqui na Terra – disse Ezael, e depois partiu.
Iridel permaneceu.
– Phantomhive, preciso te revelar algo. Você deseja saber por que seu akuma não vem quando o chama. Ele está sobre um ardil humano.
– Como assim?
– O outro humano a quem Sebastian serve usou de feitiçaria para sobrepor as ordens dele as suas. Para anular a sua existência da memória de Sebastian.
– Está me dizendo que Sebastian foi enfeitiçado, que ele não me abandonou porque quis?
– Exatamente.
Lílian olhou para Iridel com os olhos lacrimejantes, seu coração batia como nunca, ela não saberia explicar o que sentia naquele momento, mas parecia que suas forças tinham se renovado.
– Obrigada – ela falou com um sorriso.
– Fuja para um lugar seguro, demônios estão a sua procura.
E Iridel também se foi, desaparecendo em meio a luz.
Sim, Lílian sabia que os demônios estavam vindo, mas ela não queria fugir. Ela os esperaria e tentaria distraí-los o máximo que pudesse. Ficou parada no centro da insígnia desenhada com sangue e esperou. Esperou pelos demônios, e esperou que Thomas tivesse conseguido levar Evelyn o mais longe possível.
Ela tinha perdido muito sangue, estava fraca, mas seu espírito estava forte como nunca, pois agora ela sabia a verdade. Sabia que Sebastian não a deixara de propósito, que não mentira. Sentia-se tão arrependida por ter odiado ele, por ter duvidado e ao mesmo tempo tão feliz.
De repente, todas as luzes se apagaram e o lugar mergulhou na escuridão completa. Pontos luminosos começaram a surgir, e a medida que se aproximavam, Lílian pôde ver que eram homens encapuzados carregando archotes. A luz das chamas criavam sombras assustadoras nos rostos deles. Assim como desconfiou, Lílian percebeu que se tratava de demônios. Estes tinham dentes que se assemelhavam aos de cães, e os olhos deles brilhavam com ferocidade. Eles avançaram sobre Lílian, e ela usou um encantamento que as siamesas haviam lhe ensinado para se defender. Ela ergueu as mãos, apontando-as para os demônios que se aproximavam e disse:
– Discedite a me daemonis! Discedite a me, idest animam peccatricem. Purga corpus in nomine Domini.
Os demônios foram arremessados para longe da insígnia. Mas eles eram muitos, e continuavam vindo e vindo. Lílian caiu de joelhos sobre a insígnia de sangue. O esforço estava fazendo seu pulso sangrar mais, o tecido que protegia o corte já estava encharcado, sentia-se muito fraca, mas não desistiria. Ela esperava mais uma onda de ataque, no entanto, os demônios ficaram quietos e em silêncio.
O barulho de saltos sobre o piso começou a ecoar pela enorme sala, e os demônios com os archotes deram espaço para que alguém passasse entre eles.
– Você se acha muito esperta, não é mesmo? Se escondendo nesse circulo de anjo – o demônio revelou ter a forma feminina. Era alta, loira e tinha o corpo curvilíneo. Usava um uniforme alemão apertado e com um decote vantajoso. Seus olhos eram amarelos e os lábios extremamente vermelhos traziam um sorriso perigoso. – Por que você não sai daí para conversarmos. Apenas nós duas, de mulher, para mulher.
– Nem morta – Lílian respondeu sem se mover um centímetro.
– Que seja – a loira respondeu furiosa, abandonando sua fala mansa e sedutora do início. – Você, venha até aqui!
Ela chamou um dos outros demônios. Assim que o sujeito se aproximou, ela sacou um revolver e deu um tiro na cabeça do outro. O sangue respingou em Lílian e no rosto da loira. A princípio, Lílian não entendeu a atitude, mas logo notou que o sangue do morto começou a se espalhar pelo chão cobrindo a insígnia que ela tinha feito. A loira sorriu e se aproximou da jovem. Dentes pontiagudos. Olhos vermelhos e ferinos. Garras compridas que apertaram o pescoço da garota.
– Eu não sou muito paciente mocinha, então só vou perguntar uma vez. Onde ela está? – ela estava furiosa, mas Lílian não respondeu, estava sufocando. O demônio apertou mais ainda sua garganta. – ONDE ELA ESTÁ?
– Com os anjos. – Lílian se esforçou para sorrir em deboche.
– Vou encontrar aquela quimera de qualquer jeito. Vamos ver se vai fazer piadinhas agora.
O demônio, enfurecido, colocou uma corda em volta do pescoço de Lílian e a arrastou para longe da insígnia já desfeita. Passou a corda sobre uma viga de sustentação do teto e a ergueu do chão, somente a ponta de seus pés tocavam o piso, e ela fazia força para evitar ser sufocada pelo peso do corpo na corda.
– Eu segui o cheiro de quimera daquele monstrinho até aqui, e sei que você a escondeu em algum lugar. É melhor dizer logo, antes que eu perca a paciência. ONDE ESTÁ A QUIMERA?
– Eu já... Disse... Eu a entreguei para... os anjos. Eles... a mataram... como... devia ser...
O rosto da mulher ficou vermelho de raiva.
– Mentirosa! Timber, Thompson, Canterbury, Hannah!
– Sim, senhora? – quatro demônios apareceram atrás da loira e responderam em uníssono.
– Procurem a quimera por essa área. Ela deve estar aqui perto – os quatro assentiram e saíram rapidamente. Gretel voltou a olhar para Lílian. – Eu posso esperar até eles encontrarem sua fedelhazinha ou posso fazer você me contar onde procurar.
Lílian franziu a testa e continuou calada. A loira deslizou o dedo pelo rosto de Lílian, segurou seu queixo e falou-lhe ao ouvido.
– Sabe, eu adoro brincar com mulheres, elas são mais divertidas que os homens. Porque elas gritam mais alto. É tão excitante! – a mão de Gretel desceu pelo pescoço de Lílian, acariciou lhe o seio desceu para a cintura. – Já que estamos aqui... Deixe-me ouvir o seu grito também. Torturem-na. Façam-na falar.
Gretel entregou Lílian para os outros demônios, a garota tentava se soltar, mas era inútil, cada movimento só apertava a corda em seu pescoço. Os demônios a agrediam, a tocavam e sorriam das tentativas dela de mantê-los longe. Um dos demônios trouxe uma lata de óleo e derramou sobre o corpo da jovem e com os archotes lhe atearam fogo. Gretel olhava para ela com um sorriso sádico.
– Eu posso acabar com a sua dor, basta dizer o que eu quero – insistiu, mas a garota continuou em silêncio. – Então queime.
Lílian sentiu o fogo começar a avançar sobre seu corpo, primeiro o calor, depois a dor insuportável. As chamas lhe aterrorizavam, não só pela dor que causavam, mas pelas lembranças que traziam de seu passado. Ela se segurou o máximo que pôde, mas não aguentou por muito tempo, começou a gritar e os demônios riam com o sofrimento dela. O fogo estava quase alcançando seu rosto...
– Discedite a me daemonis! Discedite a me, idest animam peccatricem. Purga corpus in nomine Domini. – Thomas apareceu, acompanhado de Lesley Phipps.
Os demônios foram lançados para longe de Lílian. Lesley cortou a corda com a espada e Thomas cobriu o corpo da irmã com o casaco, tentando apagar o fogo, Lílian chorava de dor.
– Lil, você está bem? Lil? LÍLIAN?
– Por que você voltou, Tom? – ela perguntou, fazia um grande esforço para ignorar a dor.
– Eu tenho que proteger minha irmãzinha.
– E a Evie?
– Segura com o August. Consegue andar? – ele indagou, olhando para as queimaduras nas pernas e nos braços dela.
– Tira logo ela daqui, eles estão voltando – Lesley gritou. E disparou tiros para todos os lados.
– Mas e você? – Thomas perguntou.
– Eu dou cobertura pra vocês. Vão logo!
Ignorando toda a dor que sentia, Lílian correu com Thomas para fora do galpão. Saíram para a rua escura e vazia, tentavam alcançar o carro, mas antes que chegassem até ele, Gretel surgiu do nada e destruiu o carro com um único soco. Empurrou Thomas para longe e acertou o rosto de Lílian com o dorso da mão.
A garota caiu, tentou se levantar, mas Gretel a acertou novamente; seus olhos lacrimejavam de dor, o ar frio da noite fazia as queimaduras em suas pernas arderem. Thomas se levantou e voltou correndo para a irmã. Gretel ergueu Lílian pela gola do vestido.
– Eu disse que iria matar você belezinha. Nós não terminamos nossa brincadeira... – sorria doentiamente.
Naquele momento, os três ouviram um barulho familiar. Hélices em movimento. Ao olharem para o céu, viram os aviões alemães se aproximando, vários dele.
– Não, NÃO!! – Gretel largou Lílian e gritou irritada. – Eu disse para aqueles idiotas adiarem o ataque de hoje.
Os quatro demônios que tinham partido, voltaram e pararam ao lado de Gretel.
– Senhora, não encontramos a criança. Não conseguimos mais senti-la em parte alguma – disse Hannah.
Os trigêmeos olharam para os aviões que sobrevoavam a área.
– Eu pensei que esperaríamos até amanhã para trair o acordo secreto feito com a Inglaterra – Timber falou.
– Parece que aquele general velhote está tentando se livrar da gente também – Thompson constatou.
– Não se pode mais confiar em ninguém – Canterbury ironizou.
– Eu vou matar aquele desgraçado quando voltarmos – Gretel esbravejou.
A primeira bomba caiu à distância de uma quadra de onde eles estavam, o impacto e a explosão fizeram as vidraças das janelas dos prédios vizinhos se partirem. Diante do bombardeio inesperado, a loira resolveu ir embora e deixar Lílian e Thomas para trás.
– Eu ainda não terminei com você – ameaçou e sumiu com os outros quatro demônios.
Mais e mais bombas começaram a cair ao redor deles, as explosões e as chamas ficavam cada vez mais próximas. Não havia como fugir pelas ruas.
– Não podemos ficar aqui fora, vamos voltar para o prédio, tem um abrigo no subsolo – Thomas puxou a irmã pela mão e correram em meio ao barulho e aos estilhaços que voavam ao redor deles. Entraram no galpão novamente, não havia mais demônios ali, mas se depararam com o corpo de Lesley, não houve tempo para lamentos nem despedidas, seguiram para a passagem que levaria ao abrigo. O lugar explodiu diante deles, bloqueando a passagem. Thomas sentiu que algo havia atingido seu corpo e não conseguia se mover. Lílian não conseguia ouvir mais nada além de forte zumbido por cerca de três minutos. Atordoada, ela se levantou e procurou o irmão, parte da estrutura do galpão havia caído sobre ele.
– Lil? – ele a chamou e ela engatinhou até ele, sentindo a pele queimada em contato com o piso, arder. – Lil, você precisa fugir. Precisa ir, agora!
A garota olhou ao redor. O lugar estava em chamas e completamente destruído.
– Oh, Tom... Não há mais para onde ir. E certamente não o deixarei aqui sozinho.
Thomas começou a chorar.
– Eu não consegui salvar você. Desculpe. Eu prometi ao papai que...
O bombardeio continuava do lado de fora.
– Mas você conseguiu, Tom. Você me salvou.
– Eu só queria que você fosse feliz, minha irmã. Você sempre pareceu tão triste.
– Mas eu sou feliz, Tom. Alguém com uma vida como a minha, ou vidas, sabe que a felicidade constante é uma vaidade irreal. São as pessoas e os momentos de felicidade que temos com elas, que nos mantém vivos. Eu tenho três pessoas que eu gosto de verdade, por quem eu morreria, e você é uma delas. Isso faz a vida ter valido a pena.
Thomas sorriu.
– Três?! Que exagerada. Eu só morreria por uma.
As explosões ficavam cada vez mais altas.
– Foi uma honra ser seu irmão, Condessa Phantomhive – ele tentou sorrir, mas ao fazê-lo começou a tossir sangue. – É uma tarefa difícil, admito. Mas eu faria tudo novamente.
O chão tremia, mais estilhaços entravam pelas janelas quebradas, as bombas se aproximavam, era questão de tempo. Lílian apertou ainda mais a mão do irmão contra o peito.
– Fui eu quem jogou fora sua boneca quando a gente tinha sete anos, eu estava zangado, mas não lembro mais por que.
– Não faz mal, eu a odiava mesmo – Ela respondeu chorando, não pela dor, não pelo corpo ferido, não porque ia morrer, mas porque não queria perder o irmão. – Tom, eu...
E o céu caiu sobre eles.
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Alguns minutos antes
Coventry
Clive entrou no costumeiro restaurante acompanhado de Sebastian. A maioria das mesas estava ocupada por homens de aparência suspeita, a fumaça de cigarro se espalhava por todo o ambiente, garotas pin up cantavam e dançavam sobre um pequeno palco. Logo Clive avistou um homem louro que visivelmente tentava esconder sua identidade, pois usava sobretudo com a gola levantada, chapéu e óculos. Clive o cumprimentou, e o sujeito indicou a cadeira vazia.
– Guten Abend, herr Halpeny – o loiro cumprimentou, e vendo que tinha falado em alemão, olhou para os lados, para ter certeza de que ninguém ali tinha o ouvido. Depois de confirmar que todos em volta deles continuavam conversando, bebendo e fumando, o alemão empurrou um envelope sobre a mesa para Clive. – Aqui está o seu pagamento. Ficamos muito gratos por ter descoberto onde estavam fabricando os novos caças e por ter sabotado eles. Isso nos dará uma grande vantagem.
– Sinto não ter conseguido uma cópia dos projetos, estavam com uma velha chamada Elizabeth Midford. Mas ainda posso tentar consegui-los, por uma quantia extra é claro.
O alemão olhou para o homem alto parado ao lado de Clive, reconheceu aqueles olhos incomuns, as unhas negras, o porte e aparência perfeita demais.
– Tem um demônio do seu lado? – falou baixo, tentando disfarçar seu sotaque.
– Oh! Não se preocupe, ele está completamente sob meu controle – se vangloriou, e acendeu um cigarro para si. – Mas como você percebeu? Até hoje ninguém tinha reparado.
– Existem outros como ele do nosso lado. A diferença é que somos nós que estamos sob controle – o alemão falou com um tom sinistro.
– É preciso ter pulso firme – Clive riu alto e virou a garrava de uísque em seu copo.
– Acredito que sim. Trouxe a informação que pedimos?
Clive ergueu a maleta e deu uma batidinha nela.
– Está aqui, companheiro. Todas as informações que consegui usurpar do exército britânico. Ficou bem mais fácil depois que vocês mataram aqueles dois lacaios do Rei.
– Tenho uma curiosidade, herr Halpeny, porque não é leal ao seu país?
– Não me entenda mal. Eu amo meu país, mas amo ainda mais o dinheiro e a boa vida – ele deu mais uma tragada em seu cigarro, mais um gole em sua bebida e assobiou para as dançarinas no palco. – Sendo assim, sou leal a quem paga mais, o que infelizmente não é o caso do meu “querido Rei”.
O alemão sorriu.
– Que bom para nós. Mas sabem o que dizem sobre traidores. E deve saber o que o Fuhrer costuma fazer com traidores.
– Não. Receio que eu não saiba – respondeu apagando o cigarro no cinzeiro sobre a mesa.
– Espero mesmo que não venha a descobrir – o alemão falou com seriedade, e o sorriso de Clive esmoreceu por um instante.
– Vamos tratar de negócios, então – mudou de assunto.
Desde o encontro com Lílian, Clive precisava vez ou outra ordenar ao akuma que esquecesse a garota, pois o demônio acabava se lembrando dela e tentava se rebelar. Clive não havia notado que a resistência de Sebastian ao feitiço sempre começava depois que eles voltavam daquele restaurante. Havia um momento durante a noite, como o que acontecia agora, em que uma das garotas tocava uma música ao piano. A sonoridade das notas produzidas pelo instrumento ia aos poucos penetrando no fundo da consciência do akuma, e ele se dava conta de que aquele som o lembrava de algo... de alguém.
Foram tantas as vezes em que Clive ordenou ao akuma que esquecesse de tudo, numa tentativa desesperada de manter ele sobre controle, que chegou ao ponto em que o akuma não era mais que uma marionete sem vontade própria.
Enquanto estava ali, parado, a mente de Sebastian continuava obscurecida. Mas assim que a mulher começou a tocar, o som produzido pelo piano atraiu a sua atenção. Instantaneamente, ele se lembrou de uma garotinha de olhos absurdamente azuis tocando uma música alegre, sorrindo para ele. Depois, a garotinha se transformou numa bela jovem de olhos bicolores, e em um deles a marca do contrato brilhou com intensidade.
Neste exato momento, Sebastian escutou um chamado longínquo. Ele sentiu em cada partícula de sua forma humana que Lílian estava em perigo, e isso o trouxe de volta à realidade, de volta ao controle de si mesmo. Só então ele percebeu que uma força tentava subjuga-lo. Mas havia algo ainda mais importante naquele momento: Lílian precisava de ajuda.
Clive ordenou a Sebastian que lhe trouxesse mais bebida, mas foi completamente ignorado.
– Aonde você pensa que vai? – Clive se interpôs em seu caminho ao ver que o akuma caminhava para a saída.
– Eu preciso ir agora, minha mestra precisa de mim.
– Que inferno! Outra vez isso? – Clive falou irritado. – Eu sou o seu mestre. Seu único mestre. E eu orden...
Sebastian tapou a boca de Clive com força, apertando o rosto do homem com uma única mão.
– Se me der uma ordem agora, eu arranco sua língua fora – o akuma sibilou irritado, e soltou Clive, que cambaleou até a mesa.
– Eu ordeno que fique! – Clive exclamou irritado com a humilhação. O demônio caiu de joelhos no chão. As pessoas ao redor, não sabiam muito bem o que estava acontecendo, mas suspeitavam que era uma briga de bêbados como costuma acontecer. Clive caminhou até o akuma e puxou a cabeça dele para trás, para que olhasse em seus olhos. – Eu sou o mestre, você é meu escravo. E eu digo o que você deve ou não fazer.
Sebastian sentiu mais uma vez o chamado de Lílian, não que ela o estivesse chamando de fato, mas podia sentir com toda a intensidade que ela precisava dele naquele momento. A força do contrato entre ele e a jovem foi mais forte que o feitiço que o mantinha preso. Sebastian conseguiu se erguer do chão e olhou para Clive com os olhos em chamas.
Clive tirou o amuleto de dentro de sua camisa e continuou a dar ordens, mas viu que o amuleto não tinha mais efeito. Cheio de orgulho e vaidade, Clive ainda tentou impedi-lo.
—Precisa me obedecer se quiser a minha alma, é nosso trato – falou com autoridade.
Sebastian viu o estranho objeto nas mãos de Clive, e enfurecido com a audácia do homem que insistia em atrapalhar sua partida, fez com que suas unhas crescessem afiadas, e cravou a mão no peito do outro.
– Você, seu verme arrogante, passou tanto tempo se empanturrando e se embebedando e se afundando na preguiça, que sua alma perdeu o valor que tinha quando eu o conheci. Você ousou me manipular, ousou me afastar de minha verdadeira dona, ousou me atrapalhar e ainda acha que pode me ameaçar? Acha que pode barganhar? Acha que pode me comprar com uma alma que vale menos que esterco?– as pessoas ao redor estavam assustadas, os olhos de Sebastian pareciam feitos de fogo puro, sua boca se alargava e deixava expostos longos e pontiagudos dentes quando ele falava e uma névoa negra começou a surgir de seus pés. Os olhos de Clive estavam esbugalhados de pavor. – Você quebrou nosso contrato primeiro, e eu não tenho mais nenhum interesse pela sua repugnante e intragável alma. Espero que apodreça no limbo!
Sebastian sorriu de maneira assustadora e arrancou o coração de Clive do peito. As mulheres começaram a gritar de pavor e os homens, horrorizados, começaram a atirar no akuma. Sebastian sentiu mais uma vez o chamado de Lílian. Aqueles humanos tolos só o atrapalhavam, precisavam ser eliminados. Como um animal feroz, ele matou todos em seu caminho e partiu para onde sentiu que sua mestra estava.
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Vários homens de preto, aguardando a onda de mortes anunciadas. Sabiam o que estava prestes a acontecer, mas não poderiam interferir em nada. Seus olhos verdes observavam aquele tranquilo fim de tarde e começo de noite.
Algum tempo depois, vários aviões passaram sobre a cabeça deles e jogaram sobre a cidade uma chuva de bombas e explosivos. E centenas de Cinematic Records começaram a surgir. Centenas de fitas de luz ascendendo em meio ao fogo e fumaça. Centenas de almas perdidas. Os ceifeiros seguiram para lá, para dar inicio ao pesaroso trabalho.
Como esperado, havia muitos demônios rondando a área, mas a maioria deles pareciam mais preocupados em procurar alguém em meio aos escombros, do que em pegar as almas que aguardavam para serem recolhidas pelos shinigamis.
– Já estão todos mortos, nem há necessidade de analisar o registro de vida. O maior trabalho é manter esses demônios longe. O que será que eles ainda querem por aqui? – Eric Slingby comentou, mas seu parceiro, parecia distraído. – O que houve Alan?
– Às vezes, nós esquecemos que alguns humanos lutam desesperadamente contra a morte.
– Alguém na sua lista ainda está vivo?
– Sim. Vou dar uma conferida, fica aqui perto.
– Não se afaste tanto. E não fique chateado caso a pessoa tenha que morrer – Eric gritou para o amigo que já estava longe. Mesmo depois de tanto tempo realizando o mesmo trabalho, Alan ainda ficava melancólico toda vez que precisava recolher uma alma. E Eric levava um bom tempo para reanimar o amigo.
Alan entrou num prédio que estava quase todo destruído, e os encontrou em meio aos escombros. O rapaz já estava inconsciente, era apenas uma questão de tempo, Alan só precisaria avaliar o registro dele, mas a moça ainda estava lúcida. Ela olhou diretamente para Alan quando ele se aproximou.
– Shinigami... – disse num fio de voz.
– Você consegue me ver?
– Achei que... fosse... outra p... pessoa – falou, cada palavra exigia um grande esforço para ser dita.
Alan notou que a jovem tinha um pentagrama no olho direito, isso indicava que ela tinha um contrato com um demônio. Ele deveria tomar cuidado e ficar atento, mas não havia mais ninguém por perto além deles dois e do jovem moribundo logo ao lado. Alan achou muito triste alguém tão jovem quanto ela perder a vida e mais triste ainda perder a alma para um demônio. Notou que ela continuava a olhar para os lados, o tanto quanto conseguia, parecia estar a espera de alguém, em busca de alguém. Talvez daquele que vinha buscar seu pagamento. Teria valido a pena? Perder a vida? Perder a alma? Alan não podia deixar que um demônio comesse a alma dela, era seu trabalho impedir.
– Não se esforce tanto –ajoelhou-se ao lado dela. – Eu ainda tenho que analisar o seu registro de v...
– Não perca... seu tempo. A morte e eu... somos velhas amigas – a garota falou com um sorriso faceiro, mantinha todo o seu orgulho apesar de tudo. – De tempos... em tempos, nos encontramos... e eu... tenho que... ir... com ela... Só quero aguentar... até que ele...
E o último suspiro escapou dos lábios dela. Alan colheu a alma da garota e ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para o rosto belo e jovem, coberto de machucados, sangue e fuligem. E enquanto estava ajoelhado ao lado dela, Alan escutou um brado as suas costas, fazendo-o colocar-se de pé por causa do susto.
– NÃO! Afaste-se dela!
O demônio aproximou-se rapidamente da jovem, tomando o corpo dela nos braços. Os olhos dela congelaram no tempo e a marca em seu olho desapareceu. Ele começou a chamar por ela, como se ela ainda pudesse ouvi-lo. Insistiu em chamá-la pelo nome, como se não pudesse ouvir que o coração dela tinha parado de bater, como se não tivesse percebido que ela não mais respirava. Depois de tentativas tão inúteis, tão falhas, tão humanas de trazer de volta quem já tinha partido, o akuma apenas fitou os olhos azuis e sem vida da jovem mulher, derrotado, envergonhado, entristecido. Ele fechou os olhos dela com a mão e beijou-lhe delicadamente os lábios. O akuma a abraçou e, de olhos fechados, começou a repetir um pedido de perdão.
Era uma atitude extremamente incomum para um demônio, ainda mais para um akuma, Alan pensou. A criatura a sua frente parecia realmente estar sofrendo com a morte daquela humana, embora não houvesse lágrimas, sua angústia era visível e dolorosa.
Talvez demônios não conseguissem chorar, mas não conseguindo fazer isso, Sebastian fez o que demônios costumam fazer: encheu-se de fúria e de ódio.
– Quem fez isso? QUEM?
– Os alemães bombardearam a cidade. Você não viu? – Alan explicou, mantendo-se alerta com a mudança de comportamento do demônio. Ainda precisava colher a alma do rapaz caído logo atrás do akuma.
Sebastian olhou furioso ao seu redor, só naquele momento ele se dava conta do estrago feito ali. Mas havia mais além disso, ele podia sentir a presença de outros demônios no local. E então, voltou os olhos vermelhos para Alan.
– Você. Você está com a alma dela. Devolva-me!
Sebastian não pensava direito, estava irado com o mundo e consigo mesmo, e, naquele momento, deixar que aquele shinigami levasse a alma de Lílian lhe pareceu absurdo, como se estivesse desistindo dela, como se fizesse alguma diferença ter a alma dela em mãos, ele não poderia trazê-la de volta.
– Não posso fazer isso.
Sebastian se aborreceu com a resposta negativa e ameaçou atacar Alan, mas Eric apareceu para impedir, atingindo Sebastian com um golpe de sua foice.
– Fique longe, akuma. Aqui não tem comida para você.
Mas o ataque que deveria afugentar o demônio só o deixou mais furioso, e ele voltou com tudo para cima dos shinigamis.
A algumas quadras dali, William, Grell e Ronald tentavam afastar os demônios que rondavam a área para que os outros shinigamis fizessem seus trabalhos. Em desastres assim, em que muitas pessoas morriam ao mesmo tempo, os demônios costumavam atacar, pois se tornava difícil para os shinigamis colher todas as almas a tempo. Grell parecia se divertir com sua motosserra, arrancando membros e partindo ao meio os demônios que surgiam em meio a fumaça e ao fogo.
– Não me divirto assim há muito tempo.
– Não faça esse tipo de comentário sr. Sutcliff, somente os demônios se divertem com esse tipo de coisa. Mate apenas os demônios e não os humanos possuídos.
– Aah, Willy, não seja tão ranzinza. Eu realmente não consigo sentir pena desses humanos mortos. Muito menos desses que estão possuídos. Vejam o poder devastador e glamoroso da minha motosserra, Death!
O ruivo dançava com sua motosserra em meio aos mortos.
– Não estou vendo diversão. Todo esse trabalho extra está acabando comigo. Que horas isso termina? – Ronald reclamava, conferindo a hora no relógio de pulso.
– Parem de conversar e continuem seu trab...
– Senhor Spears! Precisamos de reforço urgente no setor norte – um jovem shinigami surgiu aos gritos.
– O que houve? Um demônio está tentando roubar as almas?
– Pior. Ele está completamente descontrolado, não está comendo as almas, está destruindo todas ao seu alcance e está lutando contra os shinigamis Alan e Eric; não conseguimos fazê-lo parar. Ele só fica mais incontrolável.
– Alan, você disse... Droga, eu devia ter suspeitado que haveria problemas quando vi aquele sobrenome. Grell, você vem comigo. Senhor Knox, continue vigiando esta área.
– Sozinho? – Ronald começou a reclamar, mas ao ver o olhar de repreensão de William, achou melhor simplesmente obedecer.
Os outros seguiram até o local onde estava acontecendo a confusão.
– Mas é o meu Sebby!! – Grell exclamou e Will franziu a sobrancelha para ele. – O que o deixou tão zangado?
– Acredito que a contratante dele estava na nossa lista de mortos. Se concentre no seu trabalho, Grell, não temos tempo para os seus exageros. Precisamos deter aquele akuma o quanto antes. Os humanos poderão notar algo estanho acontecendo aqui.
Sebastian estava fora de si. Aquele sentimento continuava crescendo dentro dele e se transformava em raiva. Sua fúria era tão grande, que não conseguia mais contê-la. Voltou a perder a consciência do que fazia e passou a agir como uma fera sanguinária. Ele matou os demônios que havia por perto, humanos que ainda viviam e destruiu os Cinematic Records que surgiam em sua frente. Ele se desviava habilmente das foices que tentavam mata-lo e revidava com golpes cada vez mais fortes. Sua forma humana começava a se alterar, ganhando a cada minuto características mais demoníacas. Sua destruição aumentava o estrago feito no lugar e seu fogo alimentava o fogo causado pelas bombas.
– Esse cara não cansa? – Eric comentou, observando as trevas que emanavam do akuma e que se moviam como tentáculos, sufocando e jogando longe os shinigamis que o atacavam. – Afinal de contas, o que há com ele? Nunca vi um akuma agir assim e resistir tanto.
– Ele está zangado. Está zangado porque aquela moça morreu. Mas não acho que ele fosse comer a alma dela, acho que... Acho que ele a amava.
– Ficou louco. Demônios só amam a si mesmo.
– Você não o viu com o corpo dela. Não viu a forma como aquilo o atingiu. Eu sim. É por isso que ele está desse jeito. A culpa é minha, Eric, eu colhi a alma dela.
– Opa! Espera um pouco. A culpa não é sua, Alan. Ela ia morrer de qualquer jeito, se não fosse você, seria eu ou outro shinigami.
Eric tentou convencer Alan, mas duvidou se o amigo o ouviu. Alan continuava a olhar fixamente para o akuma. As trevas de Sebastian se espalhavam mais ainda, destruindo as almas. William tentava impedi-lo de causar mais danos, Grell tentava chamar a atenção dele e ficou furioso quando Sebastian destruiu sua motosserra. Asas negras começaram a sair das costas de Sebastian, lentamente. Ganharam forma e força, com uma única batida de asas, várias penas voaram atingindo os shinigamis como lâminas afiadas. As chamas continuavam a se espalhar. Sebastian não distinguia mais ninguém, para ele, todos eram responsáveis pela morte de Lílian. E se ela tinha morrido, todos mereciam morrer também.
– Se ele voltar a forma original, ficará mais forte. Temos de impedi-lo.
Eric tentou deter o amigo, mas Alan se moveu muito rápido. Ele passou entre os shinigamis caídos e saltou sobre os entulhos de concretos espalhados pela rua, e mergulhou sobre o demônio com a foice a frente. No entanto, antes que chegasse perto o suficiente, um dos tentáculos de trevas o agarrou. Sebastian se virou para ele, puxou a foice de sua mão e a cravou no peito do shinigami.
Alan foi lançado para longe e Eric correu para ajuda-lo. Ali estava uma das únicas coisas capazes de matar um demônio ou um shinigami, uma foice da morte. Eric puxou a lâmina do peito de Alan e segurou a cabeça do amigo.
– Aguente firme, você vai ficar bem – Eric falou com a voz embargada, embora nem ele mesmo acreditasse no que estava dizendo, o ferimento era muito grave.
– Não precisa mentir para mim, Eric. Morrer com um golpe de minha própria foice, que ironia, não é?
– Não... amigo... – Eric começou a chorar.
– Veja só... aquele demônio reagiu da mesma forma, mas ele não pôde chorar... ele não pôde. É triste ver a morte, e não poder chorar por quem se ama. É triste ver a morte constantemente e não poder... Você foi um ótimo amigo Eric, não fique triste por mim, eu estava cansado dessa “vida”. Estou livre agora. Finalmente.
Antes que Sebastian atingisse sua forma demoníaca completa, ouviu-se um estrondo alto, como um trovão bem forte. Uma forte luz surgiu no lugar, e três deles apareceram em volta do demônio. Asas e vestes brancas, olhos cor de prata líquida. Os anjos atiraram flechas com correntes, atingindo as asas e o corpo de Sebastian. Com muito custo, conseguiram dominá-lo. Aprisionaram Sebastian dentro de uma cúpula de luz, e voltaram-se para os shinigamis, falando ao mesmo tempo.
– Os crimes deste demônio vão além da alçada de um ceifeiro, ele será julgado pela Corte dos Serafins. Fizeram um bom trabalho até aqui. Por favor, continuem com a colheita.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!E assim que os anjos desapareceram com o demônio, o corpo de Alan se desfez em luz nos braços de Eric. Restou aos shinigamis apenas terminar o trabalho que tinham começado. Como William temia, seria preciso um longo e detalhado relatório para explicar o que tinha acontecido ali.
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Coventry, Inglaterra
15 de Novembro de 1940
Na manhã seguinte, todos os jornais da Inglaterra noticiavam o terrível bombardeio a cidade de Coventry na noite de 14 de Novembro. Muitas fábricas, prédios e casas foram destruídos. Muitas pessoas morreram e outras tantas ficaram feridas. A maior parte da cidade não era mais que uma pilha de tijolos quebrados. Até então, nunca se vira um ataque tão devastador. As pessoas falavam de duas ondas de ataques numa mesma noite. Mal sabiam elas que o primeiro ataque foi causado pelos alemães e suas bombas, e o segundo foi na verdade resultado da fúria de um demônio descontrolado.
Elizabeth, acompanhada de August e Eleonor, caminhavam em meio a fileiras de mortos e feridos expostos na rua. Chamavam e procuravam por Lílian e Thomas. Mesmo que se preparassem para o pior, nada foi capaz de impedir o choque e a dor quando encontraram o corpo de Lílian.
A jovem tinha queimaduras por todo o corpo, as roupas e o cabelo estavam chamuscados. Seu rosto estava cheio de hematomas e cortes. Elizabeth fechou os olhos e chorou em silêncio, sendo amparada pelo sobrinho, August, que também caiu em prantos. Eleonor se debruçou sobre o corpo da filha, inconsolável.
Bem próximo dali, num posto de atendimento improvisado, um jovem abria os olhos sem acreditar que estava vivo. Ele viu uma enfermeira passando e a chamou.
– Pois não.
– Enfermeira, você pode, por favor, procurar a minha irmã. Ela estava comigo – falou com voz arrastada.
– Claro. Qual o nome dela?
– Lílian Cavendish.
– E qual é o seu. Caso eu a encontre ou alguém da família venha procura-los – a mulher anotava numa prancheta.
– É Tom. Thomas Cavendish.
– Pode deixar Tom, assim que identificarmos sua irmã, lhe avisamos.
E Thomas continuou deitado naquela maca, olhando para o teto de lona. Esperou até que sua família o achasse e lhe dissesse o que ele mais temia. Lil estava morta.
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Sebastian estava com as mãos e os pés acorrentados ao chão, em meio a um enorme campo de flores. Raríssimos e incontáveis lírios azuis. Ele olhava para aquela cor, e sentia uma sensação ruim, pesarosa. Ele escutou passos as suas costas, e falou sem se virar:
– Enfim veio me visitar.
– Vim para avisar que seu castigo foi decidido – disse Iridel. – Você ficará preso aqui por trinta anos. É uma pena absurdamente branda se comparada a todos os danos que você causou e a todas as almas que você destruiu em uma única noite.
– Faria tudo novamente.
– É por esse tipo de atitude que está sendo punido. Foi sentenciado a servir a Corte dos Serafins por cem anos. Seguirá ajudando os Phantomhive no Domínio humano.
– Phantomhive está morto.
– Não o Clã Phantomhive. Este sempre renasce, como o seu mestre. Quando sair daqui, você reunirá um novo clã. Era isso o que seu mestre desejava, e é isso o que a Corte deseja. Você irá encontra-los e treiná-los. Você me entendeu?
– Não sabia que vocês tinham senso de humor – o akuma falou ainda sem olhar para o anjo.
– Do que falas?
– Desta prisão feita de hyacintho lilium – os olhos vermelhos percorreram o campo coberto de lírios azuis. Parecia não ter fim em qualquer direção, mas era apenas uma ilusão. Sebastian sabia que estava em uma prisão.
– Achamos que isso o acalmaria.
– Prefiro o fogo, os ferros a tortura. Não gosto daqui. Este lugar...
– O deixa triste? Não reclame de sua sorte, depois do que fez, você estaria morto agora. Certamente era o desejo de Ezael.
– E por que não estou?
– Por que alguém neste universo cuida de você.
– Por favor, não diga que é o “Pai”.
– Não blasfeme, akuma. Não, não é ele. Mas devia ficar grato por ele permitir que você continue a possuir uma alma tão rara e incomum.
– É justamente o contrário, minha cara Iridel. Sou eu que pertenço àquela alma, inteiramente.
– Então, no futuro, meça os seus atos e o seu poder. Lembre-se das consequências do que você faz. E lembre-se do que lhe é mais importante.
Iridel estendeu um relicário prateado pra Sebastian. Só então o akuma virou-se para encarar o anjo. Sebastian pegou a joia em suas mãos e a abriu, mas não havia mais foto. Era uma pena, Sebastian ansiava ver o rosto de Lílian mais uma vez. Iridel partiu, sem que Sebastian percebesse, apenas admirava as iniciais do nome de Lílian.
L.E.I.C.
Sua Lílian... seu amado mestre, Ciel.
Sim, Sebastian sabia o que lhe era mais importante. E não importava o quanto teria de esperar, ele esperaria até o dia em que seu mestre despertasse novamente.
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