Phantomhive

1 Um Estranho Na Rua


Notas iniciais
Essa Fic surgiu há muito tempo, enquanto ouvia uma música. E se desenvolveu por uma brincadeira e duas ideias diferentes que se tornaram uma. É só o que posso dizer.....por enquanto. . Capítulo atualizado em 23/07/2020.

Capítulo 1: Um Estranho Na Rua

...:::...

― Está na hora de despertar, meu jovem.

A voz soou tão distante que Ciel pensou ter sonhado com ela.

Aos poucos, foi recuperando a consciência e percebeu que estava numa posição desconfortável. Abriu os olhos lentamente, a cabeça latejava como o inferno. Apoiou-se nas mãos para tentar erguer o corpo, mas o máximo que conseguiu foi sentar-se sobre as pernas. Ele não conseguia lembrar como fora parar ali. Seus olhos, embaçados pela dor e sonolência, conseguiram avistar, com alguma dificuldade, uma figura esguia e alta próxima a ele.

No primeiro momento, pensou ser Sebastian, mas logo viu que estava enganado. Olhou para o chão em volta de si e viu que estava no centro de um círculo branco com cinco velas dispostas em volta do desenho. Ciel tentou sair dali, mas percebeu, com horror, que não podia. Uma força invisível o impedia de se erguer do chão. Estava preso no círculo.

Ele levou os dedos para a cabeça, rapidamente encontrando o ponto dolorido e inchado em seu couro cabeludo. A memória de Ciel voltou imediatamente. Callaway tinha o colocado ali.

Ciel escutou Callaway começar a falar numa língua que ele não conhecia, mas suspeitou que fosse latim. As velas acenderam sozinhas, e um vento súbito começou a girar em torno de Ciel, prendendo-o em um tipo de casulo de calor e odor de cera derretida.

― O que está fazendo? Eu exijo que me solte! ― Ciel gritou. Sentiu seu coração acelerar e seu corpo tremer.

― Sinto muito. Isso não será possível.

Ciel ainda conseguiu ver Callaway dar um largo sorriso. Depois, veio a dor. E foi como se seu peito explodisse em milhares e milhares de fitas luminescentes.

...:::...

TRÊS MESES ANTES

Ciel saiu aliviado da escola por finalmente poder voltar para casa. Nos últimos tempos, a monotonia da vida o desanimava e o irritava. E a escola, sem sombra de dúvidas, o estressava de todas as maneiras possíveis. Ele simplesmente sentia que devia estar fazendo alguma coisa mais excitante, mais interessante, mais desafiadora, embora não fizesse à mínima ideia do quê.

Mas por enquanto, estar livre da sala de aula, dos garotos idiotas, da conversa fiada já era o suficiente. Ele estaria mais relaxado se Liza não estivesse enchendo seus ouvidos desde que o sinal tocara. Ele tentava prestar atenção no que ela dizia. Tentava mesmo, não queria parecer mal educado, mas sua mente divagava. Estava com a cabeça em outro lugar. De tempos em tempos, ele murmurava um “Aham” para dar a ilusão de que estava acompanhando, e Liza parecia não notar.

― Sério Ciel, estou preocupada. E quem não está? Nunca imaginei que uma coisa dessas pudesse acontecer na nossa cidade. Mamãe não me deixa mais ficar fora até tarde. É um saco! Mas também não fico brava com ela porque na verdade também ando com um pouco de medo. Não dá mais pra sair sozinha por aí. Que bom que você me faz companhia. ― ela apertou o braço de Ciel e colocou a cabeça em seu ombro, enquanto fitava o rosto despreocupado do garoto.―Você não sente medo? Não está nem um pouco preocupado?

― Na verdade Liza, a única coisa que me preocupa agora é terminar o secundário.

― Tem razão. Acho que me dei mal no último trabalho de matemática. Espero que não, porque se eu não tiver uma boa nota vou depender do resultado da prova, e eu realmente fico muito nervosa durante as provas de matemáticas. Na verdade eu fico nervosa em todas, mas fico mais ainda na de matemática, e se eu...

Liza desandou a falar novamente e Ciel ficou realmente tentado a tapar os ouvidos com as mãos. Ela não era má pessoa, mas sabia ser realmente irritante às vezes. Na maioria dos dias, Ciel agradecia pela capacidade que a garota tinha de manter uma conversa sozinha, já que ele não era muito de falar. Mas hoje definitivamente não era um desses dias. Hoje ele ansiava por silêncio. Ele tentava não ficar bravo com ela porque, afinal, o problema era ele.

― Será que você poderia dar uma olhada no meu exercício de matemática? ― Liza fez a pergunta num tom mais infantil que o normal, quase implorando. Ela revirou a mochila por alguns segundos e retirou um papel de cor rosada. Ciel aproveitou a distração dela para revirar os olhos. ― Eu levei horas pra responder. Poderia dizer se está certo?

Ciel pegou a folha e analisou os cálculos.

― Estas três questões estão corretas, mas nesta aqui você deve primeiro fatorar esses três números para chegar ao resultado correto. E esta você fez tudo certo, mas errou no jogo de sinais, o resultado vai ser x = 0 e não 84.

Liza pareceu ultrajada.

― Uma folha inteira de cálculo para o resultado ser zero?! Afinal, qual o objetivo de fazer todos esses cálculos idiotas?

Ciel devolveu a folha para ela. Liza pegou o exercício ainda aborrecida, mas logo olhou para Ciel com um enorme sorriso.

― Obrigada, Ciel! Pelo menos eu acertei três. Quando eu chegar em casa.... ―Ela não teve tempo de terminar, uma rajada de vento arrancou o papel de suas mãos, levando-o pela rua. ―Oh, não!

― Deixa. Eu pego. ― disse Ciel com um suspiro.

Ciel correu para pegar o papel, mas o vento parecia determinado a humilhá-lo. Um avião de papel com certeza não voaria tão alto e com tanto ímpeto quanto aquela folha cor-de-rosa. Temendo que o vento soprasse a folha para mais alto e mais longe, Ciel correu, pegou impulso e saltou o mais alto que pôde para agarrar a folha antes que ela atravessasse a esquina. Conseguiu segurar a folha com as pontas dos dedos e caiu miseravelmente em cima de alguém que acabara de fazer a curva. Estatelaram-se os dois na calçada.

Na queda, Ciel amassou o exercício de Liza, e a bolsa que o estranho carregava se abriu, espalhando vários objetos pelo chão

― Desculpa! Eu sinto muito...

Ciel começou a desculpar-se, todo sem jeito, ajudando o homem que atropelara a juntar suas coisas do chão: uma caneta, um celular, uma agenda, dois livros, um fone de ouvido. Enquanto apanhava as coisas e a folha rosada, Ciel olhou para o homem e parou.

Ele era alto, magro, pele muito clara, cabelos pretos e olhos castanhos rubros admiráveis. Feições quase perfeitas. Ciel não soube exatamente o que, mas algo naquele estranho lhe era familiar. Ou seria simplesmente uma daquelas sensações que você tem quando vê alguém pela primeira vez e sente que já a conhecia. Nunca o tinha visto ali. Nunca. Nem ninguém como ele. Mas ainda assim... ainda assim...

― Você se machucou? ― o estranho indagou.

A voz dele era grave e gentil. Ele repetiu a pergunta novamente, olhando bem as feições de Ciel, talvez verificando se a queda não afetara o jovem de alguma forma.

Percebendo sua indiscrição, pois ele estava claramente encarando o sujeito, Ciel se levantou. Piscou algumas vezes, se recompôs de um jeito orgulhoso, ajeitando o uniforme.

― Não, não me machuquei, estou bem. Desculpe o incômodo, eu estava tentando pegar isso... ― levantou a folha cor-de-rosa em sua mão e, ao notar novamente o cor-de-rosa, apressou-se a dizer: ― É a tarefa de uma amiga. O vento...bem...

― Entendo. Sim, está ventando bastante hoje, não é? — o sujeito parecia estar tentando aliviar a situação com uma piada, mas tudo o que Ciel conseguiu fazer foi acenar com a cabeça, como um bobo. — Tem certeza que você está bem?

— Sim.

— Certo. Só tome mais cuidado― o estranho sorriu. ― Então, tenha um bom dia!

O homem deu um sorriso gentil, tão gentil que Ciel chegou a sentir-se envergonhado por não conseguir retribuir o gesto, apenas assentiu com a cabeça. Ciel teve o repentino impulso de querer dizer algo para deter aquele homem. Mas o que ele diria? E por que ele faria isso?

O homem virou-se e seguiu seu caminho, fazendo um breve movimento com a cabeça para cumprimentar Liza quando passou por ela. Essa, por sua vez, veio correndo na direção do garoto.

― Tudo bem, Ciel?

― Sim — ele respondeu. Seus olhos ainda estavam fixos nas costas do estranho até que desapareceu no final da Rua Barnabas.

Ciel nunca se sentiu tão constrangido e nunca ficara tão emudecido como agora pouco, diante daquele sujeito. Seu coração estava um pouco acelerado. Tudo isso por causa de um cara estranho? Ou foi só o esforço da corrida e da queda? Quem seria aquele homem? Alguém novo no bairro, com certeza.

Ciel pigarreou sem jeito quando notou que Liza ainda o observava.

―Seu exercício. Bem, está amassado e sujo. De qualquer forma, você teria que refazer mesmo. E Liza, pare de fazer seus trabalhos escolares em folhas cor-de-rosa.

― Mas é tão mais fofo! ― Liza choramingou. ― Ciel, não esqueça seu pendrive.

― O quê?

― Seu pendrive. Ali no chão — ela apontou para o objeto. Ciel se abaixou e o pegou.

― Não é meu. Deve ser daquele cara. Deve ter caído e ele não viu.

― Que pena. E se tiver algo importante aí?

Ciel olhou para o objeto em sua mão por alguns segundos.

― Ele ainda deve estar por perto... Liza, você pode seguir o resto do caminho sozinha? Vou ver se encontro aquele cara, preciso devolver isso.

― Tudo bem. Não quer que eu vá com você?

― Não precisa. Se você demorar sua mãe ficará preocupada e a bronca vai sobrar pra mim. Vai pra casa. E tome cuidado, ok?

Depois que Liza se afastou, Ciel correu na direção que o homem tinha ido. Perguntou a algumas pessoas se o tinham visto. Mas não conseguiu encontrá-lo. Estava ficando tarde e ultimamente era perigoso andar sozinho por aí.

Meio desapontado, pois esperava encontrar o sujeito, achou melhor ir pra casa. Decidiu que voltaria àquela rua no dia seguinte; quem sabe o homem, ao dar-se conta de que perdeu seu pendrive, não passasse por ali novamente? Pelo menos é o que Ciel esperava, porque nem ele nem ninguém ali perto conheciam o homem, e aqueles que o tinham visto, não sabiam seu nome.

Naquela noite Ciel foi dormir pensando na única coisa incomum que aconteceu no seu ano monótono: derrubar um cara estranho e bonito numa calçada. Mal sabia ele que daquele momento em diante, seus dias seriam tudo, menos monótonos.

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Ao acordar, a primeira coisa que lhe veio à mente foi “O Sem Nome”, como passou a chamar o estranho que “atropelara” na Rua Barnabas no dia anterior. Era um apelido idiota, mas Ciel não se importava. Além disso, “O Sem Nome” parecia menos ridículo e constrangedor que “Cara Alto e Bonito”. Também não se importou em questionar por que se dera o trabalho de dar um apelido para alguém que provavelmente não voltaria a ver.

Tomou café as pressas e saiu correndo de casa, dizendo à mãe que tinha que chegar cedo à escola. Na realidade esperava encontrar O Sem Nome logo pela manhã. Se, é claro, o conteúdo daquele pendrive fosse importante o suficiente para fazer o sujeito voltar por ali. Ciel preferiu não verificar o conteúdo do pendrive, só o faria se demorasse a localizar o dono. Embora ele achasse difícil que alguém colocasse, por exemplo, o número de seu celular em um pendrive aleatório.

Embora fosse obviamente mais velho do que Ciel, aquele estranho parecia jovem. Algo entre vinte e seis e trinta anos, com certeza não mais que isso. Então, ou ele estaria na faculdade ou no trabalho. De uma forma ou de outra, talvez ele passasse por ali novamente. Talvez não passasse nunca mais. Mesmo assim, Ciel decidiu ficar ali, esperando. Sem entender porque sua insistência em devolver um objeto a um estranho, quando a maioria não se importaria.

Ciel esperou uns 30 minutos na rua do dia anterior e, já aborrecido, decidiu seguir para a escola antes que chegasse atrasado. Não, ele nunca foi um poço de paciência. Ele já estava quase admitindo para si mesmo que, o que realmente queria, fosse lá qual fosse o motivo, era ver o sujeito outra vez. No entanto, ele já estava ficando constrangido com as pessoas olhando curiosas para ele parado naquele canto da rua.

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Ele chegou à sala de aula um pouco aborrecido. Nem teve tempo de alcançar a sua mesa antes de ser abordado por um colega, acompanhado de vários curiosos, e ser bombardeado por perguntas.

― Ei, Ciel! Você assistiu ao noticiário de ontem? Seu pai falou alguma coisa? Eles já têm algum suspeito?

Desde que os crimes começaram, todos da sua turma pareciam pensar que ele era algum tipo de informante extraoficial dapolícia. A maioria daquelas pessoas nunca se importou em tentar conversar com ele antes, mas agora todos achavam que tinham o direito de tentar tirar alguma informação dele. Seus colegas não acreditavam nele quando ele dizia que sabia menos do que era mostrado nos noticiários, já que ele não tinha o hábito de ver TV. Ele também achava o caso curioso, mas seu pai sempre fez de tudo para manter a família o mais longe possível de seu trabalho. O pai de Ciel era o tipo de sujeito que não queria que os filhos seguissem a mesma carreira.

Ciel pensou em uma maneira de se livrar dos curiosos, mas felizmente, ou infelizmente, Liza chegou interrompendo os meninos.

― Cieeeeeel!

Liza pulou em seu pescoço fazendo-o cambalear para frente e corar com o beijo em sua bochecha. Os outros se afastaram quando Liza lançou um olhar ameaçador para eles, principalmente para as outras meninas.

― Bom dia! Olha só, fiz do jeito que você disse. Obrigada pela ajuda. ― Liza o soltou e agitou seu exercício de matemática refeito na frente dos olhos de Ciel. Desta vez estava em folha branca. Ela começou a enrolar os dedos numa mecha de cabelo, uma mania que sempre tinha quando estava nervosa. Depois, ela começou a falar em um tom suave e manhoso, quase provocador. ― Escuta, Ciel, eu estive pensando, o que você vai fazer no...

Antes que Liza pudesse terminar sua frase, o professor de História chegou interrompendo a todos:

―Muito bem, pessoal, todos para seus lugares! E em silêncio.

Os alunos demonstraram sua insatisfação arrastando os pés e as cadeiras provocando mais ruídos do que o normal. Ciel sentou em seu lugar e olhou para a janela, suspirando. Só notou que ainda apertava opendrive em sua mão quando foi tirar o livro de história da mochila.

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Durante o intervalo, Ciel escondeu-se na biblioteca. Mesmo que os alunos o seguissem até lá, não poderiam fazer barulho ou perguntas inconvenientes. Sempre que Ciel não estava para conversas e interrogatórios, fugia para lá. O que acontecia com muita freqüência, principalmente nos últimos tempos. Ele até ficara amigo da bibliotecária.

Certa vez, Dimas comentou que ficar amigo da bibliotecária da escola era meio deprimente. Liza disse que era algo como suicídio social. Ciel não se importava, a senhorita Bathory era legal, e ela não fazia perguntas irritantes ou piadas idiotas. Além disso, ela parecia saber quando Ciel estava disposto a conversar e quando ele só queria sentar e ler sozinho. Ele passou todo o intervalo na Biblioteca, nem lembrou de comer.

No fim da aula, Ciel escapuliu antes que fosse seguido por Liza ou qualquer um. Ele se sentiu um pouco culpado por praticamente abandonar Liza para trás, mas ultimamente ela exigia cada vez mais de sua atenção e Ciel estava começando a se sentir sobrecarregado com isso. Ele queria estar sozinho agora, principalmente naquela tarde, caso encontrasse O Sem Nome.

Chegou à Rua Barnabas e ficou esperando, outra vez, apertando o pendrive na mão. Após cinco minutos, já estava aborrecido. Após 10 minutos, já insultava O Sem Nome mentalmente. Ora, se ele quiser o pendrive que me procure, pensou, e seguiu caminho irritado com o estranho. Embora soubesse que o dito sujeito não tinha a real obrigação de aparecer. Nem culpa por não aparecer.

Mas Ciel estava irritado justamente por não entender por que queria tanto reencontrar aquele homem. Instantaneamente, sua memória o lembrou do rosto daquele estranho. Os olhos castanhos brilhantes e o sorriso bonito. A voz profunda e macia.

Ciel sacudiu a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Continuou caminhando rapidamente e, distraído, atravessou a rua. Tão absorto estava em sua irritação que não viu um carro vindo em sua direção.

Alguém segurou em seu braço direito e o puxou para trás. Tão rápido foi, que viu o carro passar a centímetros de seu corpo. Seu coração martelava no peito, como se estivesse preso na garganta. Ciel foi puxado para a calçada e sentiu uma mão sobre o seu peito.

― Calma, respire devagar. Está tudo bem ― o homem o acalmava. Aos poucos a respiração de Ciel normalizou. ― Eu disse “tenha cuidado”, mas pelo visto você é meio rebelde ― o homem disse em tom de brincadeira.

Ciel ergueu os olhos para encontrar o dono do pendrive sorrindo para ele.

Notas finais
Não acontece muita coisa nesse primeiro capítulo..mas acontecerá com certeza. Mesmo assim.. Obrigada por ler ^^ Comente se gostou *_*