Phantomhive
2 Meu Novo Amigo: o cara mais legal do mundo!
Notas iniciais
Capítulo 2 – Meu Novo Amigo: o cara mais legal do mundo!
Ciel teria ficado mais surpreso ao ver o estranho do outro dia, O Sem Nome, se já não estivesse assustado o suficiente com o quase atropelamento.
― Obrigado ― Ciel respondeu envergonhado, afastando-se do homem.
O sujeito tinha os cabelos negros caindo sobre o rosto, trajava roupas cinza e um casaco preto, tinha um visual meio esporte-social. Segurava uma bolsa tipo pasta na cor preta, a mesma do outro dia. Ele continuava olhando para Ciel, provavelmente se perguntando se o jovem estava realmente bem. Depois de um momento ele soltou os braços de Ciel. Ciel enfiou a mão no bolso do uniforme e puxou o pendrive para fora.
― Ah, eu queria te devolver isso.
Ciel estendeu o pendrive para o homem, sem se preocupar em fazer uma introdução. Ciel não achou necessário, era óbvio que o homem se lembrava dele. De repente, ele se sentia constrangido o suficiente para querer se afastar dali.
Os olhos do estranho brilharam em reconhecimento ao ver o pendrive.
―Muito obrigado! Meu trabalho está todo aí. Eu o procurei tanto ― ele sorriu. Então parou um momento, franzindo a testa para Ciel. ― Espera, você veio aqui para me devolver isso? ― Ciel assentiu. ― Então você foi quase atropelado por minha culpa.
― O quê?
O sujeito parecia realmente triste e horrorizado com essa ideia.
― Posso me desculpar de alguma forma?
― Não precisa. Você acabou de salvar a minha vida.
― Mesmo assim, eu ainda gostaria de agradecer. Logo aqui perto fica um café que eu gosto muito. Eles são especialistas em chá e têm um ótimo bolo de chocolate. O que acha? Podemos conversar.
Ciel piscou e encarou o homem. Ele tentou descobrir se havia alguma outra intenção por trás daquele convite. O homem parecia inocente e sincero, mas algo naqueles olhos...
Ciel ficou surpreso ao notar que estava tentado a aceitar o convite, mas achou melhor recusar. Afinal, o sujeito estava sendo muito insistente. Isso era um pouco suspeito, Ciel pensou.
― Não, obrigado. Realmente não é necessário.
― Mas eu salvei a sua vida. Então, tecnicamente, você está me devendo. Você não me faria essa desfeita, não é?
Ciel levantou uma sobrancelha surpreso pela audácia do homem. Notando a expressão de Ciel, o sujeito sorriu e insistiu.
― Aceite o convite e estaremos quites. Apenas vinte minutos. Diga que sim.
O sujeito usou um tom definitivamente mais doce e provocador, o que automaticamente fez Ciel lembrar de Liza tentando chamá-lo para sair. Então, Ciel não sabia se o estranho estava sendo infantil com o intuído de ser irritante e engraçado, ou se ele estava realmente flertando. Ciel relutou um pouco, mas acabou seguindo o homem, para sua própria surpresa.
Ele foi, mas pela curiosidade, afinal ainda não sabia o nome do sujeito, do que pela chantagem cretina.
Ciel não era tolo. Não é todo dia que um homem adulto convida um adolescente para uma cafeteria a troco de nada. O sujeito era educado e o tirou da frente de um carro, mas ele ainda era um completo estranho. Ciel decidiu ficar atento e agradeceu por haver outras pessoas no caminho.
Era realmente muita idiotice seguir um estranho, não era essa a primeira regra que toda mãe ensina aos filhos no momento em que podiam andar com as próprias pernas? Ainda assim, Ciel o fez. E a cada passo ao lado daquele sujeito, ele sentia seu coração acelerar um pouco, e não por medo. Ciel não sentia perigo nesse homem, mas sem dúvida sentia alguma coisa e ele queria descobrir o que era.
Os dois caminhavam lado a lado. Vendo que o garoto permaneceria em silêncio, o homem resolveu puxar conversa.
― Só agora me ocorreu que não nos apresentamos ainda. Eu sou Sebastian Michaelis ― disse, e estendeu a mão para o jovem.
― Sebastian? ― Ciel repetiu o nome apenas para saborear a pronuncia. ― É o primeiro Sebastian que eu conheço. É bonito. O nome, quero dizer ―Ciel se amaldiçoou mentalmente. Por que ele disse algo idiota assim?
― Obrigado. Bem, você ainda não me disse o seu.
― Valentine. CielValentine.
Por um momento, Ciel pensou ter visto surpresa nos olhos do estranho, Sebastian, mas quando seus olhos se encontraram, Ciel desviou o olhar.
―Seus pais te deram esse nome por causa de seus olhos. Estou certo? ― Ciel olhou para Sebastian, confuso. ― Seus olhos são azuis como o céu.
― Não sei, nunca perguntei nada sobre isso a eles. — Ciel respondeu mantendo os olhos na calçada, mas sentia que Sebastian o observava.
― Eu acho que é um nome muito apropriado.
Com certeza esta era a conversa em que ele se sentia mais confuso em relação a alguém. Ele tinha essa curiosidade, ele podia até chamar de atração, por este homem desde o primeiro momento em que o viu. Ele definitivamente queria conversar mais com esse Sebastian, embora acreditasse que não deveria. E por alguma razão, diante desse Sebastian, Ciel sentia como se tivesse perdido qualquer habilidade social. Era frustrante e constrangedor.
― Posso chamá-lo apenas de Ciel?
Mas uma vez, Ciel encarou o rosto pálido e os olhos castanhos de Sebastian, tentando descobrir o que se passava na mente dele.
― Isso depende — Ciel colocou as mãos nos bolsos da calça e deu de ombros —,posso chamá-lo de Sebastian?
— Você deve. — Sebastian sorriu e anunciou que eles haviam chegado. Ele abriu a porta para Ciel entrar. — Você primeiro.
Antes de entrar, Ciel olhou para Sebastian parado segurando a porta. Com suas roupas pretas e quase formais, e sua postura elegante, ele quase parecia um mordomo.
Ciel queria fugir da monotonia da vida, certo? Bem aqui estava um completo estranho que em menos de 24 horas salvara sua vida, estava bagunçando sua cabeça e ainda o convidou para um café. Isso era realmente alguma coisa. Ele concluiu que isso era inusitado o bastante.
Seria interessante.
Ciel sorriu e entrou. Afinal, quem recusaria bolo de graça?
Ciel se perguntou como nunca encontrou aquele lugar antes. Ele nunca passara pela rua em que o café se situava e ele ficava num ponto quase escondido, talvez fosse por isso. O lugar se chama Darjeeling Chá, e tudo ali parecia requintado e aconchegante.
A decoração era o que chamavam de vintage, em estilo vitoriano.As cortinas de tom azul pastel nas janelas davam ao ambiente uma iluminação quase etérea. Cada mesa era coberta com toalhas brancas, com um único vaso de cristal alongado contendo rosas. Tudo era muito agradável aos olhos de Ciel. Mas o que mais chamava a atenção no lugar eram as garçonetes, todas usando um vestido verde com avental branco e babados em um estilo Lolita, que Ciel só reconheceu porque sua irmã costumava usar esses desenhos japoneses como fundos de tela do computador.
Uma das garçonetes se aproximou deles e serviu água.
― Boa tarde, amo Sebastian! Quem é seu amigo? ― Ela se dirigiu a Sebastian com uma familiaridade maior do que a normalmente dirigida a um cliente costumeiro. Ela tinha grandes e brilhantes olhos verdes, que pareciam ainda mais marcantes por causa de seus cílios grossos e seu cabelo castanho avermelhado. Ela olhou para Ciel com curiosidade, mas era óbvio que ela estava mais interessada na atenção de Sebastian.
―Este é Ciel. Ciel, esta é Ruby. Ela sempre me atende quando venho aqui.
Por mais surpreendente que fosse, os olhos da garçonete pareceram ainda maiores e mais brilhantes. Ela emitiu um tipo de gemido que soou muito como Elizabeth quando via vídeo de filhotes de gato no celular. Por instante, Ciel pensou que a mulher fosse abraçá-lo ou apertar suas bochechas, mas ela se conteve a centímetros dele.
— Amei ele, Sebastian! É tão fofo, não é? ― Ciel ficou completamente vermelho, e Sebastian riu da reação do garoto. Aparentemente satisfeita com a reação que tinha provocado, ela pigarreou ironicamente e levantou um bloquinho e uma caneta diante dos olhos. ― O que vocês vão pedir?
― Dois chás, o mesmo de sempre. E uma fatia de bolo de chocolate, por favor.
― Oh, sim. Nosso famoso Bolo de Chocolate Especial. Um minuto só. Com licença, amo Ciel, amo Sebastian. ― Ruby fez duas breves reverências e saiu.
― Por que ela fica nos chamando de amos?
― É tradição do café. Todas as garçonetes chamam os clientes de amo. Como se fossemos os seus patrões. Acho que tem haver com a temática do café, inspirada em alguma coisa do Japão. Eu não sei se era um desenho ou um estilo de roupa, Ruby tentou me explicar, mas eu não entendi muito bem. Como era mesmo o nome...?
— Maid Café?
— Sim. Você já ouviu falar.
— Só ouvi mesmo.
— Parece que cafeterias temáticas como esta são bem populares por lá, no Japão. Na verdade o que me agradou aqui foi o estilo vitoriano, é bem bonito.
— E as garçonetes não tiveram nada haver com isso? — Ciel soou mais cético do que pretendia, e percebeu tardiamente que era uma observação rude. Se Sebastian não tinha interesse pelas garçonetes, Ciel poderia tê-lo ofendido. Por outro lado, se Sebastian gostava daquele lugar pelas garotas, isso não era da conta de ninguém. Felizmente, Sebastian apenas sorriu.
― Sim, eu vejo porque você perguntaria isso. Elas têm certo apelo. — Ciel não sabia se isso era uma confirmação ou uma negação. Novamente, não era da sua conta. — Acredito que elas sejam parte do entretenimento do lugar. Elas são bem dedicadas, eficientes e, de fato, muito bonitas. Não só em aparência, mas tudo o que compõe seus figurinos. As roupas, a maquiagem, o cabelo, a atuação. Mais que atendentes, elas são artistas. O trabalho bem feito e a beleza devem ser reconhecidos e apreciados, você não concorda?
Ciel concordou, emudecido. Mesmo que seus olhos estivessem concentrados em Sebastian o tempo inteiro, ele não foi capaz de notar que os olhos de Sebastian não desviaram para qualquer uma das moças servindo as mesas ao redor, em nenhum momento.
Sebastian apoiou a cabeça na mão esquerda, e observou Ciel. ―Vejo que você não está acostumado a receber elogios. Tem que ser menos tímido se quiser conquistar uma garota.
― O quê?! — Ciel pareceu acordar.
— Você gostou da Ruby?
— Ahn? Não foi isso. Eu não...
―Acalme—se... ― disse sorrindo. ―Não quis ser indiscreto foi apenas uma dica. Está na escola, não é? Você estava de uniforme ontem e hoje. Que série você faz?
Ciel pegou o copo com água e deu três grandes goles. Esse sujeito gostava de provocá-lo. Qual era a dele?
― O último ano do Ensino Médio.
― Quantos anos você tem Ciel?
― Dezessete... Quase dezoito. ―Ciel corrigiu rapidamente. Quase dezoito era um eufemismo, ainda faltava mais de cinco meses, mas ele não queria parecer tão jovem. Temendo que Sebastian percebesse sua mentira, Ciel quebrou o contato visual.
― Então, o que você costuma fazer para se divertir? Gosta de ler? É raro encontrar jovens que gostem hoje em dia, a maioria prefere festas.
― Na verdade, eu leio muito.
―Sério? Que tipo de história te agrada? Eu sempre leio mistério ou romance policial... adoro Sherlock Holmes...
―Mesmo? Eu também! Li todas as aventuras deles, eu tentava resolver os casos antes de chegar ao final do livro.... Já leu Agatha Christie? Ela é muito boa também, desfechos impressionantes! Bom, pelo menos em alguns que eu li.
― Sim, tenho todos os livros dela.
― Todos?! Deve ser uma coleção e tanto. Eu tenho alguns e pego emprestado na biblioteca da escola, mas não há a coleção completa lá também.
― Se você quiser, posso te emprestar.
Ciel parou, contendo seu súbito entusiasmo.
― Tá falando sério?
― Sim. Olha, acabei de ler esse. ―Sebastian tirou um livro da pasta. “Os Elefantes Não Esquecem”, a história é muito boa. Poirot tem que resolver um caso muito antigo, e ele só pode contar com a memória das testemunhas, e no fim você descobre que antigos pecados sempre deixam marcas profundas. Você já leu?
― Não. Este não.
Ciel pegou o livro das mãos de Sebastian muito lentamente, e começou a folhear as páginas. As rodas em seu cérebro estavam girando. Seu sexto sentido o alertava de que algo não estava certo. Ele olhou para Sebastian outra vez, desconfiado. Talvez ele só não estivesse acostumado a encontrar pessoas sendo legais com ele.
― Vai mesmo me emprestar? Você nem me conhece direito. Como sabe que eu não vou sumir com o livro?
― Ora, Ciel. Você me devolveu um pendrive que eu não tinha como saber onde tinha perdido. Considere como um empréstimo de amigo. Quando me devolver ele, eu te empresto outro. Assim terei uma desculpa para te ver novamente. Afinal, não é todo dia que encontramos pessoas que compartilham os mesmos gostos literários. Poderemos conversar sobre os livros. Concorda?
Uma desculpa para me ver novamente?Ciel pensou. Ele ficou encarando o livro em suas mãos.
― É só um livro, Ciel. Aceite o empréstimo, não seja orgulhoso. Eu realmente gostaria de vê-lo novamente. Sou novo nessa cidade, seria bom ter um amigo com quem conversar.
— Um amigo? — novamente Ciel soou mais cético do que pretendia.
— Um amigo.
― Okay. Eu vou ler o mais rápido que puder.
― Isso é um sim? — Ciel confirmou, e Sebastian sorriu. ― Não há pressa para você terminar de ler, no entanto ficarei feliz em reencontrá-lo em breve.
― Como eu te encontro? — Ciel guardou o livro em sua mochila.
― É só me procurar aqui, no Darjeeling Chá. Eu sempre tomo café da manhã aqui. Além disso, há sempre muitas pessoas em volta, então você não precisa ficar com medo de mim.
— Eu não estou com medo de você.
— Você parecia um pouco assustado quando eu te convidei.
— Eu não estava — mentiu. — Eu só não tenho o hábito de sair com estranhos. — Droga, escolha errada de palavras, Ciel pensou.
— Bem, eu não sou mais um estranho para você. Somos amigos agora, não somos?
— Isso ainda está em discussão.
— Ai. — Sebastian colou a mão sobre o peito e fez uma expressão fingida de dor. Mas em poucos segundos, seus lábios se curvavam em um sorriso novamente. — Você tem um gênio forte. Eu gosto disso. Tudo que realmente vale a pena precisa ser conquistado.
Ciel estava prestes a perguntar o que exatamente Sebastian queria dizer com isso, quando Ruby colocou os chás e o bolo sobre a mesa. Ciel tomou um momento para se endireitar na cadeira e folgar um pouco a gravata de seu uniforme. Por aquele breve instante, ele tinha esquecido onde estava.
A generosa fatia de bolo de chocolate dava água na boca só de olhar. Ele pegou a colher de sobremesa e tentou engolir a sensação de constrangimento. Sebastian tinha pedido apenas chá, e Ciel estava agora diante dele com um prato de bolo. De alguma forma, em sua cabeça, toda a cena parecia estranha e constrangedora. Ele se sentiria menos bagunçado se Sebastian tivesse sua própria fatia de bolo, ou se Ruby não estivesse torcendo as bordas do avental e olhando para ele com olhos expectantes de coruja, esperando sua aprovação. Ciel levou um pedaço à boca e...
Ele fechou os olhos de prazer.
— Isso é muito bom! É o melhor bolo de chocolate que eu já comi.
Ruby suspirou aliviada. Depois vibrou de alegria. Desta vez, ela não se conteve, e abraçou Ciel. O que quase fez Ciel se engasgar com o bolo. Sebastian riu.
Depois de discutirem os métodos de investigação de Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Arsène Lupin, Miss Marple e tantos assuntos mais, Ciel despediu-se de Sebastian. No começo, Ciel tinha ficado constrangido e desconfiado, principalmente porque, às vezes, Sebastian dizia umas coisas... mas talvez fosse apenas o jeito dele. Ele obviamente gostava de brincar e irritar Ciel, mas era apenas isso. Ele não fez nenhuma proposta indecente, ou avanços indesejados, nem parecia o tipo estranho e bizarro. Ele foi sempre muito educado e... divertido. Sim, divertido. Ciel passou o resto da tarde com ele e nem viu a hora passar.
Em todos esses anos, Ciel nunca encontrara alguém que gostasse de ler os mesmos livros que ele. Ou alguém com quem pudesse conversar sobre assuntos que lhe interessava. Quem na escola perderia tempo analisando o psicológico de personagens da literatura? Liza com certeza não.
Seria bom ter um amigo assim e Sebastian não parecia ser má pessoa afinal; fora bem simpático. E ele ainda lhe emprestara um livro. Das duas uma: ou Sebastian é um idiota carente ou ele é o cara mais legal do mundo. Pois que outra razão ele teria para ser tão amigável com Ciel?
No final daquela tarde, Ciel já estava ansioso para reencontrar Sebastian. E, claro, pegar outro livro emprestado.
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