Phantomhive
32 Três vezes Ciel, eternamente Sebastian
Notas iniciais
Capítulo 32: Três vezes Ciel, eternamente Sebastian
COVENTRY, 1940
A estação de trem estava cheia de pessoas que íam e vinham pela plataforma com suas malas em mãos, chorosas, esperando a hora em que abondonariam suas casas, sua cidade. August estava com as passagem no bolso de seu casaco, correu em meio aos passageiros e se dirigiu ao seu automóvel o mais rápido que pôde. Uma vez no veículo, passou no esconderijo de Lesley para apanhá-lo e fez o caminho de volta para o escritório da P&M Company.
A certa altura, os dois encontraram Thomas no caminho. August freou e correu para ele.
– O que houve? – Lesley indagou.
– Onde está a Lílian? – August quis saber. – Eu já estou com as passagens, temos que sair daqui o quanto antes. Vamos buscá-la.
O loiro já foi puxando o jovem pelo braço em direção ao carro. Mas Thomas fincou os pés no chão para não ser arrastado.
– A Lil não vem. Nem eu vou. Voltarei para ajudá-la.
– Como assim, que loucura é essa? – Lesley saltou fora do carro e olhou em volta de Tom, como se Lílian estivesse escondida atrás do irmão.
– Então eu também ficarei – August falou decidido.
– Não. Ela pediu que você levasse Evie em segurança até a Elizabeth. Com você, ela terá uma chance de sobreviver.
Thomas entregou a cesta com o bebê escondido dentro. E só então os outros dois pararam para observar o objeto que o jovem trazia. Thomas empurrou a cesta para August, que a segurou ainda atônito.
– Não posso… – August insistiu. – Não posso deixá-la.
– Algust, me escuta. Neste momento, a pessoa mais importante do mundo para Lil está nas suas mãos e ela a confiou a você. Se você realmente a ama, precisa fazer isso.
O loiro apertou a alça da cesta. Arrependia-se neste momento de nunca ter dito a Lílian o que ele sentia por ela. Mas a jovem havia lhe confiado uma importante missão, e ele não falharia.
– Tudo bem – ele concordou tristonho.
– Neste caso, como não tem bebê para eu levar, eu voltarei com você, Tom – Lesley falou, voltando ao carro para pegar seu florete e escondeu uma pistola na parte de trás de suas calças. – Alguns cretinos mataram meus parceiros e me incriminaram, não vou deixar por isso mesmo.
August entregou o carro a Tom e Lesley, para que chegassem mais depressa até Lílian, e mal sabia ele o quanto a garota estava realmente precisando de ajuda naquele momento.
August pegou um carro de aluguel para seguir no caminho contrário, mas não tomou o trem para Manchester. A plataforma de embarque estava cheia de soldados quando ele voltou para lá, e não dava para dizer se aqueles seriam amigos ou inimigos. Encontrou abrigo em uma pousada na parte mais afastada do centro de Coventry. A pequena Evelyn dormiu a viagem inteira dentro de sua cesta coberta, não fez nenhum barulho que chamasse a atenção de estranhos.
Naquele estabelecimento pouco conhecido e pouco movimentado, August conseguiu entrar em contato com Elizabeth pelo telefone. A mulher o aconselhou a permanecer lá até o amanhecer. Ainda naquela noite, August ficou sabendo do ataque que tinha ocorrido em Coventry.
Antes dos primeiros raios de sol aparecerem na cidade, um carro parou em frente a pequena pousada e apanhou August e o bebê. Alguns minutos depois, Evelyn estava em segurança com Elizabeth na casa dos Midford.
Elizabeth chorou ao encontrar a carta de Lílian escondida em meio aos cobertores do bebê. No envelope estava escrito:
“De Lílian
Para Lizzy
Estou lhe devolvendo o bebê que um dia eu não pude impedir que lhe tirassem. Espero que você seja capaz de cuidar e amar o bebê que é meu e dele, com o mesmo amor e carinho que teria cuidado do bebê que era meu e seu.”
Mesmo tendo ido com August ajudar Eleonor a procurar Lil e Tom, Elizabeth não contou a mulher sobre o bebê. Seria melhor assim.
Na noite daquele mesmo dia, Iridel apareceu para Lizzy, contou que Sebastian tinha sido o responsável por parte da destruição na noite anterior, e ressaltou a importância de manter a pequena Evelyn longe de qualquer demônio, o que incluía seu pai. Os Midford ficariam encarregados de tudo até que o Phantomhive voltasse. Por motivos próprios, Iridel não informou a Elizabeth que Sebastian havia sido controlado e que o akuma era inocente de algumas coisas, por essa razão, a senhora Midford continuou a achar que o antes fiel mordomo dos Phantomhive havia se tornado um traidor da pior espécie.
Depois dos ataques daquela noite fatídica, o Rei e o Primeiro Ministro finalmente pararam para ouvir as explicações de Elizabeth e chegaram a conclusão de que tinham sido manipulados. As acusasões contra os Phantomhive foram retiradas, embora isso não tivesse mais o menor valor, já que Thomas fora o único a restar vivo. Mas por respeito a coroa, era preciso manter a aliança entre Rei e Cão de Guarda. Além disso, fazer do governo um inimigo não era a atitude mais sábia quando se tinha que manter uma criança meio demônio escondida.
A pequena Evelyn tinha que ser mantida escontida de todos. Ninguém além dos Midford e Thomas tinha conhecimento da existência da menina. Ela era um bebê tão calmo e encantador, que ganhou a afeição de toda a família Midford, apesar do estranhamento inicial ao saberem quem era o pai da criança. Entretanto, deve-se resaltar, ninguém amava mais aquela criança do que Lizzy e August, que a tratavam como se fosse de fato uma filha.
Depois de recuperado, Thomas foi visitar a sobrinha, levou para ela um presente. Um passarinho de pelúcia preta.
– Você comprou um corvo de pelúcia?! – Augst indagou.
Thomas brincava com o bebê em seu colo, fazendo caras e bocas para arrancar risadas da pequenina. Sacudia o brinquedo diante dos olhos dela, e ela esticava os bracinhos, tentando agarra-lo.
– Não é um corvo. É um passarinho… Mas até que parece um corvo – Tom ficou analisando o pássaro de pelúcia. – Oras, eu achei fofinho. Além disso, não há muita opção de brinquedos, não é mesmo?
Por causa da guerra, as fábricas de brinquedo interromperam a produção.
– Pretende dizer aos seus pais que a neta deles está viva?
– Não. Temos que ser francos. Evelyn não é, nem nunca será uma criança comum. E ela vai precisar de todo o apoio de pessoas que a compreendam. Sua famílian já está acostumada com todos os infortúnios e bizarrices que envolvem os Phantomhive, mas os meus pais não. Minha mãe está mais mais paranoica do que nunca. Vamos nos mudar para Liverpool e esperar lá até ver no que resultará esta guerra. Lílian confiou Evie a vocês por uma razão: ela sabia que vocês poderiam protegê-la. Eu confio no julgamento dela e na capacidade de vocês. Sempre que possível, voltarei para visitar minha sobrinha. Ela é o único pedacinho que sobrou da minha irmã.
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LIVERPOOL, ATUALMENTE
– Eles queriam... Queriam a nossa filha.
Ciel falou um pouco receoso, temendo a reação do akuma. Claro que ele não esperava que Sebastian desse pulos de alegria, isso seria exagero, mas também não queria que o outro agisse de forma muito negativa. A ideia de uma filha era surpreendente até para ele, que acabara de se lembrar de toda uma vida.
Sebastian arregalou os olhos, surpreso, tentando saber se escutara bem o que seu mestre dissera. A declaração de Ciel o deixou tão atônito, que tudo o que ele pôde dizer foi:
– O quê?!
Aquilo era praticamente impossível. Uma filha? Dele e de Ciel? Isso era absurdo! Como poderiam os dois ter gerado uma filha?
Passado o espanto inicial, Sebastian parou para pensar. Na vida anterior, Ciel era Lílian, uma jovem saudável e em idade fértil. Virgem. E fora ele a roubar a castidade dela. Não havia dúvida de que era perfeitamente possível que Lílian pudesse ficar grávida. Mas e quanto a ele? Como podia um demônio ser fértil? Não que algo assim não tivesse acontecido antes na história dos demônios, afinal, as quimeras naturais existiam. Mas Sebastian jamais ouviu falar de uma que fosse meio akuma.
Os dois estavam surpresos e ansiosos por causa da declaração feita. Precisaram parar para conversar. Ciel permaneceu sentado na cama, ao seu lado a pequena caixa de curativos, o pulso enfaixado. Sebastian sentou-se em uma cadeira de frente para ele, os olhos rubros presos no adolescente.
Sebastian contou a Ciel tudo o que havia acontecido depois que ele partiu naquela tarde ensolarada, prometendo voltar e não voltou. Como ele foi controlado pelo outro mestre, como se libertou e porque foi preso pelos anjos. Ciel ficou surpreso ao descobrir que Sebastian tinha matado o outro mestre, e que tinha destruído meia cidade ao descobrir que Lílian tinha morrido. Saber daqueles detalhes, de certa forma, animou Ciel. As explicações de Sebastian se encaixavam com os fatos, e Ciel não teve dúvida de que o akuma dizia a verdade. Além disso, todas as atitudes descontroladas e destrutivas de Sebastian mostravam a Ciel a intensidade do que o akuma sentia por ele naquela época. E provavelmente, Ciel desejava, mostrava o que sentia hoje.
Em seguida, foi a vez de Ciel contar ao akuma tudo o que havia acontecido com ele na época de Lílian. Como aquela primeira e única tarde de amor resultou em uma criança e em consequências e eventos diversos que levaram a morte da jovem.
A cada informação, Sebastian ficava surpreso em saber tudo o que seu mestre havia sofrido e suportado na vida anterior. Ele ficou imaginando o desespero dela ao descobrir-se grávida e sozinha, e tentava imaginar como ela teria conseguido esconder uma gravidez durante tanto tempo. E todos os danos que a gestação de um ser híbrido causara ao seu frágil corpo.
Por mais que Sebastian tentasse se colocar no lugar de Ciel naquela época, por mais que ele soubesse pelo que Lílian passara e suportara, ele tinha consciência de que, como um demônio, sequer conseguiria sentir metade do que seu mestre sofrera. Surpreendeu-se ao descobrir que, apesar de todos os fatores que poderiam ter feito seu mestre fraquejar, ele seguiu em frente, e o aguardou até a morte. Se é que era possível, sua admiração e tudo o mais que ele sentia por aquele humano aumentou.
– E isso é tudo – Ciel concluiu. O jovem ficou esperando que Sebastian fizesse ou disse mais alguma coisa, mas o homem continuou parado, olhando para ele em silêncio. – Vai, diz alguma coisa.
Ciel estava incomodado com a falta de reação do akuma.
Sebastian levantou-se da cadeira, se aproximou de Ciel, segurou o rosto dele com as duas mãos e o beijou lentamente. E quando se afastou, se deparou com aqueles grandes olhos azuis e indagadores.
– Por que fez isso? – Ciel perguntou confuso.
– Porque acho que o que eu sinto por você acabou de ficar maior – Sebastian confessou.
– Não seja tão meloso. Desse jeito eu até te estranho.
– E quando foi que estando com você em intimidade, eu não te tratei com excesso de carinho? – As mãos dele acariciaram o rosto jovem e desceram para encontrar as mãos de Ciel. Sebastian sentou-se ao lado dele na cama e continuou a falar. – Desculpe Ciel. Isso tudo... Tudo o que você passou, foi culpa minha. Por meu egoísmo e negligência de meu verdadeiro dever: proteger você. Eu falhei. Se eu tivesse levado você comigo, depois daquela tarde em que você se entregou a mim, se tivéssemos fugido naquele mesmo dia... Eu fui egoísta, só pensei em encontrar uma forma de não perder aquela alma, mas Clive não era o que eu pensava. Nem ele, nem ninguém, nunca, chegou aos seus pés.
– Mas você não vai comer a minha alma. Ainda que deseje, ainda que queira. Se você falhou por orgulho, eu também falhei. Você estava faminto, sem se alimentar por muito tempo, por minha causa. Eu ignorei sua necessidade e me deixei levar pelo ciúme. Talvez, se eu não tivesse obrigado você a deixa-lo, ele não tivesse controlado você e eu seguiria dividindo sua atenção até que seu contrato com ele terminasse... Mas se você tivesse continuado comigo, os Serafins teriam matado você no momento em que descobrissem sobre o bebê. Longe, eu pude barganhar pela sua vida.
– Aqueles cretinos! – Sebastian falou com um risinho. – Todo esse tempo, eles me fizeram acreditar que eu ser obrigado a trabalhar para eles era parte da punição por eu ter destruído aquelas almas em 1940. Eles disseram que foi a gota d’água desde o incidente com a Peste Negra. Que a paciência deles comigo tinha acabado. Mas confesso que não entendi porque eles não me mataram, embora eu tenha achado aquela prisão que me lembrava você a todo segundo uma punição bem sádica da parte deles. Mas foi você. Você trocou os meus serviços e os serviços dos Phantomhives pela minha vida. Naquele momento, você ainda não sabia a verdade, ainda acreditava que eu havia te traído. Então, porque ainda assim tentou me salvar?
Ciel desviou os olhos, enrubescido. Sebastian podia ouvir o coração do jovem acelerar mais uma vez.
– Porque eu estava zangado com você, e eu sabia que eu retornaria. Eu queria ter a chance de me vingar de você, não podia deixar que outra pessoa o matasse. Por outro lado... – Ciel soltou as mãos do akuma e ficou mexendo na atadura que enfaixava seu pulso. – Eu sabia que eu retornaria e... não existiria um Sebastian para me encontrar. Eu queria que você pagasse pela dor que eu estava sentindo, mas não queria perder você. Não para sempre.
– E por que não? – Sebastian indagou como se não soubesse a resposta.
Ciel olhou para ele, ainda corado, e fez outra pergunta.
– Por que você fez a loucura de destruir tantas almas e não comer nenhuma, mesmo estando faminto? Por que arriscar sua liberdade e sua vida por uma humana que já estava morta?
Ambos se olharam como se pudessem enxergar a resposta flutuando dentro do peito do outro. Mas permaneceram em silêncio. Então, depois de alguns segundos, Ciel começou a rir.
– Eu queria ter visto essa cena. Você destruindo tudo como uma fera descontrolada, quase assumindo sua forma demoníaca, e os shinigamis em desespero. Deve ter sido divertido.
O rapaz parecia realmente se divertir imaginando a cena.
– Você tem uma ideia estranha de diversão. Mas não vou fingir que não aprecio sua forma de ver as coisas.
Sebastian respondeu sorrindo, seu mestre era realmente impressionante. Mas depois voltou a ficar sério. Ele se levantou da cama e caminhou até a janela, afastando a cortina um pouco para o lado para espiar do lado de fora.
– Se fosse em outro contexto, eu provavelmente teria me esbaldado de alegria. Mas diversão nem me passou pela cabeça naquele momento. O que eu senti foi muito mais... amargo.
O sorriso de Ciel morreu, sua memória o fez lembrar daquela noite. O corte em seu pulso, o fogo em sua pele, a fuligem em seus pulmões, os estilhaços em sua carne, o sangue em sua boca. E o mundo escurecendo antes que ele conseguisse ver Sebastian pela última vez. As lembranças fizeram o coração de Ciel acelerar, e ele sentiu um nó em sua garganta. Sebastian continuou a falar.
– Quando eu o perdi pela primeira vez, eu estava preparado. Eu já esperava por aquilo. Sabia que a doença o tiraria de mim a qualquer momento, por mais que eu prolongasse a sua vida. Mas da segunda vez, você foi arrancado de mim. Não foi... fácil... encontrar o seu corpo sem vida e naquele estado. Eu nem me lembro de ter te encontrado antes, não lembro de nada depois daquela tarde no campo de bluebells e antes daquela noite em Coventry.
– Isso não importa mais. É passado – Ciel colocou a mão sobre o ombro do akuma, deixando claro que perdoara Sebastian de qualquer coisa que tivesse feito.Sebastian se virou enlaçando o jovem pela cintura e beijando-lhe a testa. Ciel repousou a cabeça sobre o peito de Sebastian e ficaram ali por alguns segundos. – E... E o Tom? O que houve com ele?
Ciel perguntou pelo irmão gêmeo, embora achasse que a resposta só podia ser uma, visto a situação em que eles estavam da última vez que se viram.
– Thomas sobreviveu.
– Mesmo?! – Ciel se afastou surpreso e feliz pela notícia. – Como?
– Não me pergunte. Deve ser o que os humanos chamam de sorte. Não cheguei a revê-lo, afinal, fiquei anos preso. Mas conheci uma filha dele chamada Liliana de quem eu comprei um velho piano.
– O meu piano?
– Sim, o seu piano. Ela estava se mudando com o marido para outra cidade, estava vendendo tudo de dentro da velha casa dos Cavendish. Felizmente, cheguei a tempo para resgatar o piano.
– Pensei que você não fosse apegado a coisas materiais – Ciel falou levantando uma sobrancelha.
– E não sou. Guardei apenas algumas coisas de que você gostava e que me lembravam você.
– Que fofo – Ciel o provocou.
– Pode zombar – Sebastian riu. – Quem aqui estava com ciúme de si mesmo?
Ciel corou e inflou as bochechas.
– E como eu ia saber que eu era Lílian? E eu não estava com ciúmes.
– Não é?
– Não – Ciel sentou-se na cama com os braços cruzados e as sobrancelhas franzidas. – Eu estava zangando por você estar escondendo coisas de mim.
– Não precisa ficar com vergonha, Ciel. Fico feliz por saber que você sente ciúme de mim.
Não demorou muito, e os dois voltaram a ficar sérios e em silêncio. Até então, eles estiveram contornando o assunto, falando de uma coisa ou de outra. Mas não era um tema que podia ser ignorado. Eles tinham que falar sobre.
Sebastian voltou-se para Ciel, hesitou um pouco, depois perguntou:
– E a menina? A... nossa criança?
– Evie?
– Sim. Você... fala com ela?
– Não. Ela fala comigo. Não sei como ela faz. Mas todas as vezes, foi ela que entrou em contato comigo primeiro. Por alguma reação maluca da minha cabeça, eu acabei esquecendo, mas eu a via quando criança também. Ela me encontrou primeiro.
– Eu só a vi uma vez. Ela pareceu ser forte.
Sebastian lembrou-se da noite em que Undertaker sequestrou Ciel para realizar o despertar, mesmo depois de dizer que seria perigoso fazê-lo. Naquela noite, quando Ciel parecia morto, Sebastian viu uma menina, olhos bicolores, trajada de preto e vermelho, curvar-se sobre Ciel. A menina pousou a mão sobre o peito do jovem e este puxou o ar com toda a força que seus pulmões conseguiram.
Ciel estava vivo! E graças à menina misteriosa.
Naquele momento, Sebastian tentou se aproximar da menina, mas no momento que o fez, os braceletes de ouro que ela usava nos pulsos, assim como o arco em seu pescoço, brilharam com uma intensidade absurda, revelando símbolos angélicos da Ordem dos Serafins. Os olhos dela, antes cada um de uma cor, brilharam rubros. Tão vermelhos como os olhos de qualquer demônio. A menina gerou uma explosão de energia para manter Sebastian longe. Tanto o akuma quando Undertaker, e tudo o mais ao redor da insígnia foi arremessado para longe. Naquele instante, Sebastian acreditou que ela fosse realmente um demônio. Nunca passaria pela sua cabeça que aquela pequena criança de cabelos negros fosse sua filha. Sua e de Ciel.
– Todas as quimeras possuem algum tipo de poder. Que tipo de poder ela tem?
– Poder? Não sei. Não sei nada sobre ela. Ela conversava comigo quando eu era criança, mas confesso que eu achava que ela era uma amiga imaginária. Ela nunca chegou a mencionar nada sobre os pais dela, nem sobre eu ser.... Não, espera... Ela mencionou sim. Quando eu tinha oito anos, ela começou a me contar coisas.
– Sobre seu passado?
– Acho que ela queria que eu recuperasse as memórias de Lílian. Foi quando os primeiros pesadelos começaram. E eu só fui piorando.
– Você era muito pequeno para ter essas memórias, seu corpo não suportou.
– Depois da noite em que Angie me encontrou quase morto, meus pais me levaram a muitos psiquiatras. Eles me convenceram de que tudo era sonho, acho que me convenci que Evelyn também era um. E ela não retornou mais para provar o contrário.
– Talvez ela tenha ficado receosa de lhe causar mais danos.
– Pode ter sido isso.
O silêncio se instalou entre eles novamente. Ciel mexeu na gola de seu moletom e ficou olhando para os joelhos.
– E... Ela sabe que eu sou o pai dela? – Sebastian perguntou, Ciel levantou os olhos para ele.
– Não tenho certeza. Se Lizzy tiver contado, pode ser que ela saiba.
– Hum.
Sebastian continuou encarando Ciel, e vice-versa.
– O que pensa sobre isso? – Ciel soltou em voz alta a pergunta que tanto queria fazer.
– Sobre ter uma criança híbrida em algum lugar do mundo carregando nas veias parte do meu sangue?
– ...
Ciel não gostou muito da pergunta do parceiro. E Sebastian levantou uma sobrancelha, intrigado com o silêncio do jovem.
– Se eu for sincero, vai ficar zangado comigo?
– Contanto que seja sincero comigo, é o que importa.
Sebastian puxou a cadeira para mais perto da cama e sentou-se de frente para Ciel novamente. Seus joelhos tocando os do jovem. Ele queria que Ciel entendesse bem o que ele diria.
– A verdade, Ciel, é que eu não sei o que pensar, ou o que dizer, ou o que sentir. Você sabe que o único humano com o qual me importo é você. Como um demônio, só o fato de eu querer você sempre por perto, o fato de eu gostar tanto de você já é algo novo e incomum para mim. E agora você me diz que eu tenho uma filha! Não me entenda mal, mas não sei o que sentir além de surpresa. A grande maioria dos demônios não procria. Eu sempre achei que era uma das raças estéreis.
– Undertaker disse que pode ter relação com o fato de você ter ficado muitos anos na forma humana.
– Aquele shinigami é outro que nos deve muitas e boas explicações. Mas não pense que eu estou rejeitando a paternidade da nossa filha. Não foi minha intenção. Não é o que eu quis dizer. Só estou tentando dizer que minha raça não foi criada para ser pai ou paternal. Então, me perdoe se eu for deficiente nesse sentido, se de alguma forma eu te decepciono.
– Eu sei. Eu entendo você. Você só a viu de relance uma única vez. Não estou exigindo nada de você, mas saiba que não me decepcionou, nem nada disso... Até agora você falou “nossa criança” e “nossa filha”, isso já é alguma coisa. Eu também não soube como reagir na época, e acho que a situação acabou de ficar mais estranha, já que agora ela tem dois pais. Eu não planejei isso. Eu nunca quis ter alguém que dependesse de mim, porque eu sempre lutei por mim mesmo, unicamente por mim, e nunca achei que fosse capaz de salvar alguém, mas... Aconteceu. Somos pais agora e responsáveis por ela e pelo que ela possa causar.
Ciel engoliu em seco e continuou.
– Não estou pedindo que a ame, se não puder fazer isso, apenas que a aceite. Ela não é mais do que uma estranha para mim agora, mas.... Sempre que lembro dela bebê... nos meus braços – Ciel começou a fazer os movimentos com os braços, como se segurasse um bebê. – Quando lembro dos olhinhos dela olhando para mim, eu...
Ciel reparou que Sebastian o observava com atenção e ficou envergonhado. Sebastian sorriu, achando as reações de Ciel adoráveis.
– Estou curioso para conhecê-la. Isso eu posso dizer sinceramente. Quero saber como ela é, se é mais parecida com você ou comigo. Espero que seja mais parecida com você.
– E por que isso? – Ciel indagou curioso. Será que Sebastian não queria que a filha se parecesse com ele?
– Porque se ela for como você, tenho certeza que acabarei me afeiçoando rapidamente – Sebastian respondeu sorrindo.
Ciel sorriu, achando que aquele akuma era um grande bobo bajulador.
– Acha que os demônios que nos atacaram naquela época sejam os mesmos que capturaram a Evie? Que estão por trás dos assassinatos?
– É provável que sim. Não lembro de ter conhecido esses demônios que você mencionou, mas eu nunca fui do tipo que gostava de andar em bandos... as coisas mudam, não é mesmo? O fato, é que eu nunca tive muito contato com outros demônios, eram concorrência. E temos que saber como foi que a capturaram, já que os Midford nunca me falaram nada sobre ela.
– Ah... Isso foi culpa minha. Eu devo ter deixado uma carta ordenando veementemente que nunca deixassem que você soubesse e se aproximasse dela. Não me olhe assim, eu estava zangado ainda. Só fui saber de tudo depois de escrever a carta.
– Bom, o que eu sei é que ela é nossa. E alguém a roubou. E eu detesto quando me tiram o que é meu. Precisamos pegá-la de volta.
– Você é um egoísta idiota.
– E mesmo assim você me ama.
– Humph, que atrevimento! Você é muito convencido, Michaelis.
– Posso considerar agora que estamos juntos, sem mais problemas, razões para brigas ou mentiras?
– Pode. Mas se não estou enganado, era você quem estava me escondendo coisas.
– Somente eu? E a filha que eu nunca soube ter?
– Mas isso foi culpa sua também.
Sebastian estava com as mãos nos ombros de Ciel, ele voltou a ficar sério e levantou a mão esquerda diante dos próprios olhos.
– Depois que eu fui solto, as minhas unhas, que sempre foram negras como piche, estavam normais, e a marca do contrato havia sumido do dorso da minha mão, grande parte dos meus poderem tinham desaparecido. Os anos passavam e eu não sentia você em lugar nenhum. Tive medo de que sua alma ter sido destruída, ou recolhida pelos anjos como punição a mim. Temi que você voltasse e eu não o reconhecesse. Então, eu quis manter comigo o máximo de coisas que me lembravam você, que me ajudavam a manter a sua memória viva. Fosse como Ciel, fosse como Lílian.
Não era exagero, nem impressão, Ciel concluiu, Sebastian realmente estava mais sentimental. E isso era estranho.
Ciel levantou e fez Sebastian ficar de pé, segurou os braços do akuma e os colocou em volta de si.
– Eu estou aqui agora. Nos seus braços, porque eu sou seu. E nada vai me afastar de você, porque é aqui que eu quero estar.
Ciel falou com convicção e os olhos do akuma brilharam de êxtase. Sebastian apertou o corpo do jovem contra o seu ainda mais. Ciel reclamou que estava sendo esmagado, e Sebastian apenas riu da rabugice do jovem.
– Pensei que tinha dito que você era meu.
Ciel olhou pra ele fechando o cenho e cruzando os braços.
– E sou – ele sorriu maldosamente. – Mas tem que ser do meu jeito.
Ciel deu três batidinhas nos lábios com o dedo indicador. O akuma abriu um sorriso de orelha a orelha, deslisou as mãos sinuosamente pela cintura do jovem, uma delas trazendo Ciel para si, a outra descendo para agarrar o bumbum com desejo, ao passo que depositava beijos no pescoço do jovem. Ciel olhou para ele, vermelho, uma mistura graciosa de vergonha e prazer. Ciel colocou os prórios braços em volta da cintura de Sebastian, e este tomou os lábios de Ciel num beijo urgente.
Se perderam naquela agradável troca de abraços e, vez ou outra, um carinho mais ousado. Deliciavam-se com sabor da boca do outro, com o cheiro e com o calor gostoso que se espalhavam por seus corpos, fazendo-os desejar mais e mais o outro.
Depois de alguns agradáveis minutos, Sebastian sobressaltou-se, largando um Ciel completamente sem ar.
– É mesmo, esquecemos da srtª Verônica!
– Quem? – Ciel indagou ainda ofegante. Os lábio vermelhos por causa do beijo.
Eles tinham esquecido da misteriosa mulher no andar de baixo. Se distraíram tanto conversando, que nem faziam ideia de quanto tempo havia se passado. Chegaram a sala e encontraram Ruby com o celular em mãos, digitando rapidamente e sorrindo a cada nova mensagem que recebia; Richard estava largado no sofá, com uma almofada sobre a cabeça, aparentemente dormindo.
– Onde está a mulher? – Sebastian perguntou. Ele olhou ao redor, mas não havia mais ninguém ali além deles quatro.
– Ela precisou ir. Falou que não tinha todo o tempo do mundo para ficar esperando – Ruby explicou. – Disse que tinha que resolver umas coisas, mas que depois ela voltaria.
– O que ela queria mesmo? – Ciel indagou.
– Ela disse que tinha sido mandada por Iridel e que tinha informações sobre os assassinatos – Ruby informou sem tirar os olhos do celular.
– O quê?! E por que vocês deixaram que ela fosse embora?
Ruby encolheu os ombros e começou a gaguejar uma desculpa.
– N-nós não queríamos interromper o q-que vocês estavam fazendo lá em cima – ela falou corando.
– Que história é essa? – Ciel ralhou com o cenho fechado. – A gente estava só conversando. Era só bater na porta.
– Esse tembo todo? – Ruby soltou sem querer. E dessa vez foi a vez de Ciel corar e gaguejar.
– S-sim. É claro que sim. O tempo todo. O que você está insinuando?
– Nada – ela respondeu balançando a cabeça com os olhos fechados, sentindo as bochechas queimarem.
– Que seja. O jeito agora é esperar ela voltar – Ciel cruzou os braços. – Droga! Eu devia estar na escola agora. Não vão me deixar entrar e não posso voltar para casa a essa hora. Minha mãe não ia para a Little Mozart hoje.
– Por que você não fica? Já está quase na hora do almoço, eu preparo alguma coisa pra você.
Sebastian sugeriu.
– Almoçar agora seria maravilhoso! – Richard se levantou do sofá. – Já estou faminto.
– Eu estava falando com o Ciel – Sebastian falou entre dentes.
– Qual é, cara? Meu estômago está roncando. Eu te ajudo a cozinhar – Richard choramingou.
– Ciel? – Sebastian olhou para o jovem, deixando claro que só permitiria se o garoto concordasse. Ciel apenas deu de ombro.
– Tanto faz.
E Sebastian foi preparar um almoço para todos ali a contragosto, pois esperava passar mais algum tempo só com Ciel.
Quando estavam à mesa, Ciel contava para Ruby sobre a verdadeira identidade de Lílian Cavendish, achou que a mulher merecia saber, afnal, se não fosse pela incapacidade dela em guardar segredos, Ciel não teria descoberto algumas coisas sobre sua vida anterior.
Enquanto Ciel e Ruby conversavam, Sebastian falou para Richard, que cortava um pedaço de carne.
– Não se sente envergonhado por ficar segurando vela?
– Eu? Não – respondeu de boca cheia e apontou para Ruby com o garfo. – Ruby está aqui também e eu não dispenso comida boa, nem faço cerimônia para comer. Se vocês querem namorar, fiquem a vontade. Não me incomodo não.
Sebastian fuzilou Richard com os olhos. Sentiu uma mão tocar sua cintura e olhou para Ciel. O jovem aproximou-se dele e sussurrou:
– Não fique aborrecido. À noite a gente fica a sós.
Sebastian arregalou os olhos surpreso. O jovem voltou a comer e a conversar com Ruby naturalmente. O almoço prosseguiu sem mais problemas.
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Ciel chegou em casa conferindo se a manga de seu moletom cobria bem o curativo em seu pulso, mas não viu ninguém na cozinha ou na sala.
Subiu para o seu quarto.
Quando passou pelo corredor, a porta do quarto do bebê estava aberta. Sua mãe colocava a pequena e adormecida Evangeline no berço, aquela cena lhe trouxe muitas lembranças e uma dolorosa sensação de ausência. Agora, ele entendia porque sempre que estava com sua irmãzinha no colo, ou quando a olhava dormindo, sentia algo que ele não sabia explicar. Agora entendia porque ficava comtemplando o rostinho da irmã tentando descobrir o que chamava sua atenção. Agora ele tinha todas as lembranças perdidas de Lílian, lembranças do seu bebê. A filha que ele nunca viu crescer.
Quando Hortense viu o filho parado no corredor, disse que precisava conversar com ele, antes que Roger ou Angélica chegassem. Ciel falou que deixaria suas coisas no quarto e voltaria. Ele não gostou muito do tom sério de sua mãe. Mesmo assim, Ciel desceu as escadas e foi para a sala de jantar, onde sua mãe disse que estaria esperando.
Ciel sentou-se à mesa de jantar, de frente para a mãe. Ela o encarava muito séria. Ele começou a se sentir inquieto.
– Pode me explicar o que significa isto? – Hortense colocou um pedaço de papel sobre a mesa e o empurrou para o filho. Ciel nem precisou ler o que estava escrito, reconheceu de imediato o bilhete que Sebastian lhe deixara há alguns dias.
...
Obrigado pela noite maravilhosa. Pego você depois da escola.
Com amor, Sebastian.
...
– Mexeu nas minhas coisas? – perguntou com cuidado, ele ainda não conseguia perceber se a mãe estava zangada ou não.
– Não. Eu simplesmente fui lavar as roupas, como sempre faço. E fui checar os bolsos da sua calça, como costumo fazer para ver se não tem nada que possa molhar, e encontrei esse bilhete. E me pareceu um bilhete comprometedor demais, íntimo demais para um homem enviar a um jovem. Então, antes de sair tirando conclusões, eu preferi conversar com você, e espero que você me dê uma resposta honesta. – Hortense fez uma pausa, que apesar de pequena, pareceu muito, muito longa para ambos. – Filho, que tipo de relação você tem com o Sebastian?
Ciel olhou para a mãe. A mulher parecia ansiosa pela resposta, e essa era a única emoção que Ciel conseguia distinguir no rosto dela. Ansiedade. Ciel olhou para o bilhete em suas mãos, bilhete que lhe trazia boas lembranças.
– A senhora quer saber se ele e eu somos amigos ou outra coisa, é isso?
Ele perguntou com tato, a mãe apenas meneou a cabeça afirmativamente.
– Sebastian é meu namorado.
Ele falou de uma vez, pronunciando bem cada palavra. Sua mãe prendeu a respiração e pareceu paralisar momentaneamente. Ela piscou os olhos e engoliu em seco.
– Namorado?
– Sim.
– Mas como… quando isso aconteceu?
– Como todo namoro começa. A gente se conheceu, ficamos amigos e percebemos que gostávamos um do outro de um jeito mais especial. Já estamos juntos há algumas semanas. Eu queria contar mas…
– Mas até que ponto chegou esse... esse namoro? – ela o interrompeu. – Esse bilhete sugere o que eu estou pensando?
– Talvez sim – Ciel se moveu na cadeira, desconfortável com o rumo da conversa. – Eu não quero falar sobre isso.
– Talvez sim?! Como pode se envolver com ele assim? Filho, você mal o conhece.
– Eu o conheço há tempo suficiente.
– Pouco mais de três meses não é tempo suficiente para você conhecer alguém e saber se, se gosta de alguém dessa forma.
– Muitas pessoas diriam que é tempo mais que suficiente.
– Eu sei que você está confuso e as coisas podem não ter ido bem com a Elizabeth, mas não é motivo para se precipitar....
– Não, Mãe! Mãe? Escute! A Elizabeth não tem nada a ver com isso. Eu não estou saindo com Sebastian para esquecer a Liza, eu terminei com a Liza para ficar com o Sebastian. Eu não estou sendo precipitado, eu tive séculos para decidir o que eu sinto por ele, e estou certo sobre este sentimento. Assim como estou certo sobre o que eu sou e não tenho nenhuma dúvida ou vergonha disso.
– Você namorou a Elizabeth por tanto tempo. Talvez se você tivesse tido outras...
Ciel não acreditou no que sua mãe estava dizendo.
– Liza e eu fomos amigos por muito tempo. Nunca foi um namoro de verdade e a senhora sabe disso. Eu tentei, mãe, mas nunca senti por ela o que eu sinto pelo Sebastian.
O rosto de Hortense estava vermelho e seus olhos lacrimosos. Ela tentava lidar com a situação da melhor maneira, mas não estava conseguindo.
– Ele é muito velho pra você. É um homem.. um homem adulto. E você é só um menino. Ele induziu você a...
– Eu não acredito nisso. Ele não me induziu a nada, eu que quis, ok? Eu não sou mais um menino, mãe. Não mais. A senhora achou que ele era um bom partido para a Angie quando o conheceu. Por que ele é bom o suficiente para a Angie e não é pra mim?
– Não é isso, filho – ela falou agoniada.
– Então o que é? – Ciel já estava impaciente.
– Eu só quero o seu bem. Não quero que ninguém o faça sofrer só porque você...
– Porque eu sou gay? – Hortense trincou os dentes e os dois ficaram em silêncio por mais alguns segundos. – Eu realmente não me importo com o que os outros dizem ou pensam sobre mim. Mas neste momento, a única pessoa que está me fazendo sofrer por conta disso, mãe... é você.
Hortense ficou em choque por alguns segundos. Levantou-se da cadeira e se colocou diante do filho. Ela pôs uma mão sobre o ombro dele e segurou-lhe a face com a outra.
– Você é e sempre será o meu menino amado. E continuarei te amando amanhã da mesma forma que eu te amei ontem.
– Me ama, mas não gostou de saber que estou namorando o Sebastian.
– Por favor, não me entenda mal. Eu só não estava preparada para isso. Eu pensei que estava, mas não estou.
– Bom, a senhora vai ter que se acostumar com isso – Ciel falou com a voz embargada. – Porque eu realmente gosto dele e isso não é uma fase. Tenho certeza que não é.
– Eu sei – a voz da senhora Valentine falhou, uma lágrima escapou de seu olho. – Por que não me disse nada?
– Eu queria contar, mas estava esperando um momento certo para isso. Eu estava com outras coisas na cabeça e acabei deixando para lá.
– No fundo, eu suspeitava, mas não queria acreditar, me desculpe.
– Vai contar para o papai?
– Agora não. Vamos esperar o momento certo. Agora ele está com a cabeça tão cheia por causa do trabalho. E você sabe como ele é. Vamos contar juntos, tudo bem? – Hortense falou, encerrando a conversa.
Ciel se afastou para a porta, parou por um instante e voltou-se para a mãe.
– Então tudo bem para a senhora? Meu relacionamento com o Sebastian?
– Claro, Ciel. Se é o que te faz realmente feliz – a mulher respondeu sorrindo minimamente.
– Obrigado.
Ciel se esforçou para retribuir o sorriso e acreditar que estava mesmo tudo bem. Mas era inevitável notar que o “Se é o que te faz realmente feliz” pronunciado por sua mãe soou mais como um “Se não há outra maneira”. Mas ele não podia reclamar, poderia ter sido muito, muito pior.
Mas para Ciel não importava o que os outros pensassem. Ele vivera por três vezes. Por três vezes fora ele mesmo, ainda que de diferentes formas, e mesmo assim acabara se apaixonando por Sebastian. E mesmo podendo se libertar, Sebastian o procurara e lutara para conquistar o amor dele. Isso dizia alguma coisa. Agora, mais do que nunca, Ciel estava bem resolvido consigo mesmo e com seus sentimentos, e feliz em saber que aquele akuma seria eternamente o seu Sebastian.
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Sebastian estava arrumando os estragos feitos na sala de visita quando Ciel usou um feitiço antidemônio nele. Consertou a estante e colocava os livros no lugar quando ouviu o barulho de bicadas no vidro da janela. Ele foi até lá para ver o que era, e encontrou um corvo. Ele abriu a janela e pegou o pássaro, ao fazê-lo, teve a estranha impressão de que havia algo de estranho com aquele bicho.
Inesperadamente, ele sentiu uma presença, que de alguma forma lhe lembrava Ciel. Ele virou-se e viu uma menina de uns 13 anos sentada no sofá. Ela tinha os olhos de Ciel, mas um deles era castanho. O corvo soltou-se das mãos de Sebastian e pousou sobre os joelhos da menina.
– Oi pai.
Sebastian sentiu um arrepio por todo seu corpo, seus olhos castanhos, assim como o olho castanho da garotinha, brilharam, vermelhos como rubis. Ele analisou a criança que o encarava, sem qualquer sinal de medo ou hesitação.
– Olá Evie – ele respondeu sorrindo. – É um prazer.
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