Phantomhive
9 Quatro Semanas
Notas iniciais
Capítulo 9: Quatro Semanas
– Chefe! Chefe! – Harris gritava indo em direção à sala do chefe de polícia de Liverpool. Ele abriu a porta e encontrou o Chefe em meio a pilhas de papéis. – Chefe, recebemos uma ligação, duas garotas foram atacadas na saída de Hiveshire. Estão pedindo ambulância também.
– Elas estão vivas? – o Chefe perguntou apanhando o casaco e caminhando até a porta. Harris informou que sim. – Ótimo, precisamos interrogá-las.
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O homem de casaco marrom finalmente conseguiu matar o Kroboro. Planejava segui-la e ver se ele levaria a garota até o assassino, mas a criatura miserável percebeu que estava sendo seguida e tentou matar a menina antes de ser pego. Mas conseguiu acertar a cabeça do kroboro antes que ele mordesse a garota.
Caminhou até a menina, pegou-a no colo e correu em direção a sua companheira, que ficara para trás com a outra menina e mais três dos devoradores malditos. Parou súbitamente quando reconheceu o jaguar preto estacionado logo mais a frente. O menino Ciel falava com alguém caído no chão; a gêmea da garota em seus braços. Sebastian olhou em sua direção, sabia que não poderia se aproximar. Colocou a garota no chão, bateu continência para Sebastian e se afastou.
Quando já sumia nas sombras, uma mão agarrou seu braço. Virou-se apontando a arma direto para a cabeça do outro.
– Calma, calma. Sou eu. – Dizia a mulher de jaqueta vermelha tirando os fones de ouvido.
– Não me assusta desse jeito! O que houve?
– Um dos kroboros conseguiu escapar e foi atrás da garota. O Sebastian a pegou primeiro.
– Aquele é o Ciel? – Perguntou o homem estreitando os olhos tentando enxergar o garoto à distância.
– É ele sim. Ele é fofo né?
– Não consigo ver ele direito... – respondeu guardando a arma e escutou o barulho de sirenes ao longe. – É melhor irmos, daqui a pouco, a polícia vai revirar isso aqui tudo.
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O Chefe de polícia saiu da viatura pedindo que Harris verificasse com os paramédicos se as garotas estavam bem. Teve uma surpresa quando descobriu quem havia ligado para a polícia.
– Ciel?! – Disse ele.
– Oi, pai. – Disse o adolescente, sem emoção, afastando-se do jaguar preto.
– O que faz fora de casa a essa hora? E quem é ele? – acrescentou ao notar Sebastian atrás do filho.
– Sebastian; é um amigo.
– Parece um tanto velho para ser seu amigo.
– Bom... eu...
– Sebastian Michaelis, é um prazer senhor. – Sebastian surgiu ao lado dos dois e estendeu a mão para cumprimentá-lo. O pai de Ciel hesitou um pouco, mas o homem sorria tão amigavelmente que seria uma falta de educação não cumprimenta-lo.
– Roger Valentine. Posso saber como se meteram nessa confusão?
– N.... – Sebastian iria falar, mas Ciel o interrompeu.
– Estávamos voltando pra casa, quando ela entrou na frente do carro. Nós paramos para ver se ela estava bem e percebemos que a outra garota estava caída logo ali. Ela disse que foi atacada, mas não vimos ninguém. Eu liguei pra polícia porque tive medo que o agressor pudesse voltar. Mas acho que nossa presença o afastou, isto é, se ele estivesse por perto.
– Certo. Sua mãe deixou você sair?
– Não. Eu saí escondido. – Sebastian se surpreendeu com a capacidade que Ciel tinha de mentir, tanto que seu pai nem fez mais perguntas, e ao mesmo tempo, dizer a verdade sem medo das consequências. – Durante essa semana, o planeta marte poderá ser visto no nosso céu, mas somente após a meia noite. Sebastian disse que tinha um telescópio, então eu o convenci a me levar até o parque para ver o planeta. Trabalho da escola. Ele realmente não queria vir, mas eu insisti. Perdão, a culpa é minha. Deveria ter pedido permissão e não saído escondido. – Sebastian surpreendeu-se novamente, dessa forma Ciel parecia ser uma péssima influencia para ele, a ideia o fez sorrir internamente. Ciel adquirira uma expressão de arrependimento tão meiga, realmente convincente.
– Que bom que sabe que está errado. E não pense que vai escapar do castigo. Que ideia absurda foi essa de sair no meio da noite pra fazer uma idiotice dessas? Não sabe o perigo que estava correndo? Entre logo na viatura, vou levar você pra casa. – O chefe Valentine caminhava irritado, em direção a Harris. Ciel sabia que ouviria um sermão enorme até não aguentar mais.
– Por que assumiu toda a culpa? – Sebastian perguntou.
– Porque meu pai não podia odiar você ou achar que você é um péssimo exemplo, ou ele me proibiria de vê-lo. – Confessou o garoto.
– Obrigado. – Sebastian exibia mais um de seus cativantes sorrisos. Ciel, como sempre, sentiu-se constrangido.
– Boa noite. – Ciel foi em direção à viatura.
– Nos vemos amanhã? – Sebastian perguntou.
– Se você quiser. – Ciel respondeu sério.
–Eu quero.
– Até amanhã então.
Quando o sr. Valentine e Ciel chegaram em casa era uma e meia da madrugada. Depois de mais um sermão do pai, veio mais um da mãe sobre como era perigoso para o filho do chefe da polícia andar por aí sozinho, ou fugir de casa a noite, sair de casa sem permissão, não dizer aonde vai e mais um monte de coisas que Ciel não prestava atenção. A única coisa que se passava na sua mente eram as palavras de Sebastian. Ciel finalmente chegou ao seu quarto às duas e meia da manhã. Já estava entrando embaixo das cobertas quando Angie entrou sorrateiramente no quarto.
– Pode ter enganado o pai e a mãe, mas a mim você não engana maninho. O que você e Sebastian estavam aprontando, hein? – Falava sussurrando.
– Nada, Angie. Eu falei a verdade. – Ciel se cobria com o lençol.
– Sei.... Ver Marte no telescópio? Você nunca saiu à noite sozinho. Você nunca sai de casa. Fala sério Ciel! Só mesmo o pai e a mãe pra cair nessa.
– Vai dormir Angie. Se continuar me amolando, eu conto pro pai o filme inapropriado que você nos levou pra ver.
– Você é tão mal, Ciel. – A moça deu-se por vencida.
Depois daquele dia, Liverpool e toda Inglaterra desfrutaria de um bom tempo de tranquilidade. Pela manhã os jornais já noticiavam o caso das gêmeas.
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Sebastian colocava astromelias azuis num jarro da sala de visitas. Organizou-as de maneira que ficassem bem distribuídas. Quando a luz da janela as alcançava, ganhavam um belo tom de azul brilhante.
– Bleu comme le ciel! –disse a si mesmo ao acariciar levemente uma das pétalas. Logo o silêncio da enorme casa foi quebrado pelo barulho da campainha. Ele respirou fundo e soltou o ar entediado. “Amanda”, ele pensou.
Sebastian caminhou até a porta, mas ao abri-la teve uma enorme surpresa. Um adolescente de dezessete anos, uniforme escolar impecável, cabelos pretos azulados, lisos caindo sobre um par de intensos olhos azuis. Sim, “azuis como o céu”.
– Não vai me convidar para entrar? – Ciel falou de um jeito sério. Sebastian afastou-se para o lado, dando passagem ao garoto. Estava realmente surpreso, não imaginava que o garoto realmente fosse aparecer. Mas pelo visto, Ciel era dado a fazer justamente o contrário do que se espera. Mas isso não era um incômodo de forma alguma. Significava que Ciel estava finalmente saindo de seu casulo. – Estou de castigo.... Por duas semanas.
– Seu castigo envolve vir me visitar? – Sebastian ironizou. Ciel o olhou feio.
– Não. Envolve ir de casa para a escola, da escola pra casa, sem passeios, sem saídas, sem amigos, sem televisão, sem videogame, como se eu jogasse.... – Ciel falava enquanto observava a casa ao redor, apresentava todas as proibições, que estava obviamente quebrando, de forma tranquila, talvez o garoto sentisse prazer em ser do contra. – A última aula hoje foi de matemática, o professor passou um teste surpresa, ele disse que liberaria mais cedo quem fosse terminando. Como fui o primeiro a terminar, resolvi aproveitar o tempo vago pra vir. Fiz mal? – Virou-se para Sebastian.
– Claro que não. Já que está aqui, vou preparar um chá para nós, ou prefere um refrigerante ou suco?
– Pode ser o chá. – sentou-se no sofá, colocando a mochila de lado.
– Fique a vontade, a casa é sua.
Sebastian saiu. Ciel estava na sala de visitas. Era bem espaçosa, havia cortinas claras nas janelas, balançando ao vento. Um jarro de flores azuis sobre uma mesinha próxima a janela. Decoração bem familiar. Mas não havia nenhuma foto, apenas quadros de pintura a óleo, daqueles que retratavam a vida dos ingleses na era vitoriana. Talvez Sebastian não gostasse de fotos, como ele disse que sua família morrera há anos. Será que foram mortos pelos kroboros e por isso Sebastian sabe de todas essas coisas?
Sebastian voltou com o chá.
– Você mora sozinho? – Ciel perguntou, Sebastian disse que sim. – É uma casa muito grande para uma pessoa só.
– Venha morar comigo então. – Sorriu. Ciel o olhou com a mesma expressão emburrada de sempre.
– Como sabia de todas aquelas coisas sobre os kroboros?
– Você não dá moleza, não é? Eu tenho uma proposta, falemos de Liza e eu digo o que você quer saber.
– Eu tenho uma contra proposta, você me diz o que quer com ela e eu vejo se posso ajudar. – Os dois se olharam em tom de desafio, Sebastian riu.
– Lembra-se da Amanda? Ela gostaria de conhecer Liza.
– E por quê? – Ciel perguntou, agora mais confuso do que já estava.
– Assunto pessoal. Sinto muito Ciel, mas não posso dizer mais, não agora.
– Sabia que você me irrita com todo esse mistério? Não sei se você gosta de bancar o tipo suspeito ou se simplesmente não confia em mim.
– E eu achando que meu ar misterioso te encantava. – Ciel trincou os dentes. – Confio em você, só que há coisas que realmente não posso falar. Mas garanto que de forma alguma Liza estará em perigo. A Amanda vai dar uma festa na piscina para os colegas da universidade, sua irmã vai estar lá, poderia ir e levar Liza com você?
– Angie conhece a Amanda?
– Sim, elas estudam juntas. Você não sabia? – Na verdade Ciel não lembrava da irmã ter mencionado alguma vez uma Amanda ou Villeford. Angie não falava muito da universidade, e quando falava era pra reclamar da injustiça de algum professor. Se ela alguma vez falou, deve ter sido naqueles momentos em que ele parava de prestar atenção. – Então, pode ir com a Liza?
– Detesto festas e odeio piscinas. Mas posso convencer Liza a ir só.
– Se você não for não será a mesma coisa. Com quem eu irei conversar?
– Converse com sua namorada, oras. – Franziu a testa.
– Que namorada? – Sebastian perguntou tomando um gole de chá.
– Amanda não é sua namorada?
– Não, ela é só uma amiga que estou ajudando. Por que achou isso?
Ciel não respondeu. Pensou por alguns instantes. A verdade é que Liza nunca iria a uma festa sem ele, ainda mais se não conhecesse ninguém, nem ele iria. Então por que cogitava ir? Porque estava curioso, claro. Por que mais?
– Se... Se eu for, não quero ninguém me incomodando.
– Arranjarei um lugar pra você. – conseguira convencê-lo. – Quer conhecer a biblioteca?
– Você tem uma biblioteca?!
– Pois é...tenho.
Ciel passou horas olhando e lendo livros. Embora Sebastian o irritasse às vezes e fizesse comentários que o aborreciam ou provocavam, Ciel surpreendeu-se ao descobrir que realmente gostava da companhia dele.
No dia seguinte, Ciel voltou lá. Conversavam, ou melhor, Sebastian fazia Ciel falar. Ciel passou a gostar mais de Sebastian quando percebeu que ele não tentava puxar conversa quando Ciel realmente não queria conversar. Havia dias em que ele não sentia vontade de falar com ninguém, o que Angie, sua mãe, Liza e nem ninguém entendia, mas Sebastian parecia entender, pois em dias assim os dois apenas liam. De fato, as visitas de Ciel se tornaram constantes.
Sebastian ficava o tempo todo com ele e lhe dava atenção como ninguém jamais deu. Os únicos momentos em que Sebastian o ignorava eram quando Amanda ligava. Nesses momentos Sebastian se afastava para conversar com ela. Ciel nunca conseguia ouvir sobre o que falavam e realmente se irritava toda vez que o celular dele tocava, porque sabia que era a Amanda.
Em alguns momentos, quando estavam lendo, Ciel olhava para Sebastian por sobre o livro. Observava a forma como o cabelo dele oscilava minimamente toda vez que uma brisa entrava pela janela da biblioteca. Seus olhos castanhos variavam entre um tom mais negro quando estavam num ambiente sem luz e um tom mais avermelhado quando a luz batia neles. Ciel não sabia dizer exatamente quanto tempo durava sua contemplação do outro, mas toda vez que seus olhos pousavam sobre os lábios dele, Ciel lembrava-se do sonho, seu coração começava a palpitar. Ciel tentava voltar a ler, mas era inútil, pois não conseguia mais se concentrar. Quando isso acontecia era insuportável permanecer na companhia de Sebastian, e inventava alguma desculpa pra ir embora.
Quando chegou à casa de Sebastian no dia seguinte, não foi ele quem abriu a porta. E isso realmente desanimou Ciel.
– Olá Ciel! Entre, Sebastian está se trocando ele já vai descer. – Amanda o conduziu para dentro. A vontade de Ciel foi de dar meia volta e ir embora, mas a mulher falava de um jeito cativante e ela passou o braço em volta do seu arrastando-o até a sala de visitas. – Sebastian me falou que você levará Liza à festa. Fico muito agradecida.
– O que quer com a Liza? Se é que posso perguntar?
– Quero conhecê-la, é realmente muito importante pra mim. Quero saber como ela é, do que gosta, ser uma amiga. – Ela falava de um jeito tranquilo e firme, Amanda era daquelas pessoas que quando falam te prendem de alguma forma. – Pra isso tenho que me aproximar, com sua ajuda isso será possível. Prepara-la para contar a verdade. Quando ela souber, você também saberá. Entende isso? – Seu sorriso era angelical. Ciel não entendia bem as razões de Amanda, mas agora tinha uma ideia do que ela queria com Liza e talvez não fosse tão ruim levar a garota a tal festa. Se Amanda queria conhecê-la, iria conhecê-la. Amanda olhou o relógio. – Pode, por favor, chamar o Sebastian lá em cima. Não podemos demorar muito.
Ciel achava estranho o fato de simpatizar com Amanda quando estava com ela, e de fato ela era a mulher mais bonita que já vira, mas quando ela estava com Sebastian ou ligava pra ele, seus sentimentos em relação a ela era de antipatia.
Quando começou a subir as escadas, Ciel percebeu que de todas as vezes que esteve lá, exceto a vez em que fora atacado pelo kroboro, ele nunca tinha ido ao segundo andar da casa. Quando chegou ao corredor, viu várias portas, apenas uma estava aberta, devia ser aquela a porta certa. Quando chegou à porta, viu Sebastian vestindo uma camisa, tentou voltar atrás, mas infelizmente ele o vira.
– M-manda... A Amanda está te chamando. – Odiou-se por gaguejar e temia estar ficando vermelho.
– Já estou pronto. – Sebastian vinha em sua direção abotoando a camisa. – Sinto muito, terei que sair hoje, Amanda chegou de repente, por isso não foi possível te avisar.
– Tudo bem, eu vim só pegar aquele livro que estava lendo ontem, eu tenho que fazer um trabalho com Liza hoje.
– Tudo bem, mesmo? – Sebastian colocou a mão sobre seu ombro. Ciel se afastou.
– Está. Posso pegar o livro? – Sebastian disse que sim. Ciel desceu as escadas rápido, pegou o livro na biblioteca e saiu.
Ao chegar em casa, percebeu que havia pegado um livro que já havia terminado de ler. Ligou o notebook e foi digitar o trabalho de Literatura. Quando terminou, não havia mais nada pra fazer.
Lembrou-se de Ruby.
Entrou na Internet e tentou lembrar qual era o nome que a moça havia dito. M31R1-NYAHLover. Encontrou vários textos escritos por ela em um site que nunca havia visto. Clicou em um chamado “ Sob As Cerejeiras”. Leu o primeiro capítulo, muito bem escrito, narrava a história de dois amigos, pelo que pode entender. Pulou para o segundo capítulo. A história continuava normal, no entanto o enredo começou a adquirir um ar mais romântico, até que os dois garotos da história.... Ciel não acreditava no que estava lendo. Fechou o notebook de uma vez. Mataria Ruby quando pudesse.
Naquela noite, Sebastian ligou para Ciel. O adolescente ficou receoso em atender, não se sentia bem ultimamente, mas por fim atendeu. Conversaram por horas.
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– Sabiam que a televisão não para de noticiar o resgate das gêmeas Copperpot? A todo o momento os lindos rostinhos de Melinda e Belinda aparecem na TV. “As meninas que escaparam do terrível assassino”, como se eu tivesse falhado.
Escolhia minuciosamente suas ferramentas.
– A todo o momento os idiotas da polícia fazem parecer que me boicotaram. Eles não fizeram nada. Aqueles cães imundos que me atrapalharam. Mas eu não vou permitir que nem a polícia nem a mídia me tratem como covarde. Eles estão achando que me assustaram que eu fiquei com medo e fugi. Mas eu não fugi. Eu fiquei aqui, pensando com meus botões qual seria a melhor maneira de humilhá-los. E por isso vocês estão aqui.
Pegou uma tesoura de jardineiro e começou a amolar as lâminas.
– As pessoas estão mais tranquilas, já que não houve mais desaparecimentos, nem assassinatos, mas eu estava apenas pensando no presente ideal pra elas. Nós vamos mostrar a todos que ninguém, ninguém escapa da morte e que ninguém ri de mim. Porque eu nunca deixo pontas soltas.
Segurou a mão da garota, que tremia de medo.
– Nunca desisto do que quero. Não se preocupem, – Colocou os dedos da menina entre a tesoura. – deixarei vocês duas idênticas.
A tesoura se fechou. Quatro dedos caíram no chão.
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No fim, não foi tão difícil convencer Liza. A garota sempre reclamava que os dois não saiam e que Ciel não se enturmava. E que melhor maneira de fazê-la parar de reclamar do que uma festa na piscina? Festa da qual Ciel planejava secretamente fugir quando pudesse. Quando chegou à casa da Amanda, acompanhado de Angie e Liza, e viu aquele bando de jovens juntos, rapazes falando bobagens, garotas de biquíni exibindo-se o máximo que conseguiam. Música alta e muita alegria, muita bagunça. Ciel quis ir embora naquele exato momento. Mas estava ali pela Liza. Ele era o único completamente vestido. Angie estava de maiô vermelho e Liza de biquíni cor-de-rosa.
Amanda apareceu de braços dados com Sebastian, Ruby, inesperadamente, estava com eles. Amanda usava um maiô azul claro e um chapéu de abas grandes, óculos escuros, ela parecia uma daquelas modelos de capa de revista. Ruby usava um biquíni laranja floral. Sebastian vestia um calção de banho preto e uma camisa branca aberta. Ele ofereceu-se para montar o guarda-sol e afastou-se para fazer isso.
– Que bom que vocês vieram! Sintam-se a vontade. – Amanda cumprimentou um por um com aquele jeito cativante dela. – Ah! Você deve ser Elizabeth. Ciel me falou muito de você. – era mentira, mas bastou isso para o rosto da adolescente se iluminar, não era preciso muito para que Liza gostasse de alguém, e claro que o jeito todo elegante e alegre da Amanda a conquistou rapidamente. – Quer me ajudar a pegar uns refrigerantes pra vocês?
– Claro! – As duas saíram conversando como se já fossem amigas de longa data. Talvez esse seja um dom das pessoas eloquentes. Fazerem amizades rapidamente. Dom que Ciel não invejava.
– Oi Ciel! – Ruby cumprimentou. – Você nunca mais apareceu no Darjeeling Chá.
– Eu estava de castigo. Ah, eu li o seu texto. E você deveria escrever outro tipo de história. Nunca imaginei que você escrevesse aquele tipo de coisa.
– Você leu? M-mas você achou que ficou bom? – Perguntou completamente vermelha.
– O que ficou bom? De que história vocês estão falando? – Angie perguntou.
– Eu escrevo histórias.....bom.....yaoi. – Ruby corou.
– Jura?! Qual o seu nome?
– É Ruby, mas as histórias estão com o nome M31R1-NYAHLover.
– NÃO ACREDITO! Eu, eu amo suas histórias, é você mesma? Nossa! A minha favorita é aquela em que os caras...
– ANGIE! – Ciel gritou indignado. – Você lê esse tipo de coisa?
– O quê que tem irmãozinho? São românticas, e além do mais elas...Ai-me-u-de-us! – Angie levou as duas mãos à boca arregalando os olhos. – Você leu!
– O quê?! – Ciel assustou-se.
– Você leu?
– C-claro que não! – Ciel corava violentamente.
– Sim, você leu. – Angie começou a rir.
– Foram só dois capítulos depois eu parei, tá! Eu não leria aqueles absurdos se essa maluca aqui, — apontou para Ruby, — tivesse me dito do que se tratava.
– Já ajeitei o guarda-sol pra vocês. – Sebastian voltara. – Então, o que foi que você leu?
– NADA! Não é da sua conta. – Ciel saiu empurrando eles emburrado e caminhando até as cadeiras sobre o guarda-sol. Parou e olhou para Ruby. – A propósito, você escreve bem, mas pelo amor de Deus, vai escrever outra coisa!
Ruby se deu muito bem com Angie e ficaram conversando o tempo todo. Entraram na piscina, Angie logo foi conversar com uns caras da turma dela. Ciel torcia pra que chovesse, bastante. Assim todos iriam pra suas casas colocar roupas apropriadas. Do que adiantava chover tanto na Inglaterra se quando você mais precisa de uma chuva ela não vem?
– Que bom que veio – Ciel assustou-se com a voz de Sebastian em seu ouvido. – a não ser que você queira ficar olhando as garotas de biquínis darem mergulhos, seu lugar não é aqui.
Sebastian guiou Ciel até uma sala na casa da Amanda. As portas eram de vidro, de modo que quem estava lá dentro podia ver toda a piscina, mas ninguém poderia entrar.
– Aqui ficará tranquilo, trouxe um livro pra você, Sherlock Holmes. Há um banheiro no corredor à esquerda e as chaves da sala estão na porta caso queira abri-la. Eu estarei na piscina, caso mude de ideia.
– Obrigado.
Sebastian deixou Ciel. Aquela sala era mais tranquila e aconchegante. Ciel leu por uma hora. Depois se levantou e foi dar uma olhada na piscina pela porta de vidro. As pessoas continuavam com a mesma energia. Angie estava rodeada de admiradores, Liza estava tão entretida conversando com Amanda, que nem percebeu que ele havia desaparecido. De repente, Sebastian saiu da piscina, ele não usava nem o calção de banho, nem a camisa, apenas uma sunga azul escuro. Seus cabelos negros gotejavam. As gotas de água deslizavam pelo seu rosto, caíam sobre seu peito e corriam pelo seu abdome, algumas sumindo em seu umbigo, outras, alcançado seu baixo ventre sumindo no cós de sua sunga, penetrando-a. Ciel só se deu conta de que o observava ininterruptamente, quando começou a sentiu algo estranho.
– Essa não, não! – Sussurrou pra si mesmo, entrava em pânico. Correu para o banheiro.
Ciel trancou a parta do banheiro com a chave e sentou-se sobre a tampa do vaso sanitário. Passava os dedos pelo cabelo, tentando se acalmar de alguma forma.
– Por favor, para, para. Isso não está acontecendo comigo....volta ao normal, por favor. – Ciel tentava respirar devagar. Tocou-se. Sentiu um arrepio, a pele sob o tecido de sua calça estava dolorida. Sentia-se apertado, estava hirto como jamais esteve. Sabia o que seu corpo desejava que fizesse, mas não iria fazer. Apoiou o rosto nas mãos. Foi preciso um grande autocontrole para não acabar sucumbindo. Esperou uns vinte minutos até que seu corpo voltasse ao normal por contra própria.
Ciel se sentia extremamente estranho. Isso nunca havia acontecido com ele. Não sabia o que pensar.
Olhava seu reflexo no espelho. Perguntava-se o que estava acontecendo. Precisava ir para casa. Tentou sair sem ser visto, já estava na porta de saída quando ouviu justamente a voz que menos queria ouvir.
– Já está fugindo? – Sebastian falava com o mesmo tom irônico de sempre. Percebeu que o adolescente estava estranho. Ciel estava meio pálido e esquivo. – O que houve?
– Não estou me sentindo bem. Vou pra casa.
– Está doente... – Sebastian tentou sentir a temperatura de Ciel, mas o garoto o afastou com rispidez.
– Não toque em mim! – Ciel parecia confuso. – Vou pra casa.
– Eu te levo.
– NÃO PRECISA! Eu sei me cuidar sozinho, Sebastian. Não preciso da sua ajuda.
Sebastian não insistiu mais.
Ciel vagou pelas ruas sem rumo até chegar a sua casa. Trancou-se no quarto e não falou com ninguém pelo resto do dia. Tentava se convencer de que o fato ocorrido não passara de uma infeliz manifestação de sua puberdade ainda não concluída. Talvez fosse consequência do texto de Ruby. Sebastian é uma pessoa de natureza sedutora, talvez por isso Ciel tenha....
Não. Ciel estava apenas confuso. Apenas isso. Talvez devesse limitar mais sua relação com Sebastian.
E assim o fez.
No restante da semana, Ciel evitou Sebastian o máximo que pôde. Pegava um caminho mais longo quando ia e voltava da escola para não passar pela Rua Barnabas ou pelo Darjeeling Chá. Não atendia quando ele ligava. Tentava a todo custo não pensar nele. Podia impedir-se de lembrar ou de falar com Sebastian, mas não poderia controlar seus sonhos. E frequentemente sonhava com ele.
Nos sonhos, Ciel e Sebastian conversavam, discutiam, liam, caminhavam juntos, as vezes sonhava com Sebastian lendo para ele, as vezes se abraçavam, os sonhos que mais o incomodavam era os que envolviam beijos, mas naquela noite o sonho foi pior.
Seus batimentos cardíacos estavam acelerados, sua pele queimava, estava suado e sua respiração era sôfrega. Acordou com os efeitos dos espasmos em seu corpo. Sua mão direita estava por dentro da sua roupa íntima. Puxou-a, estava úmida e melada de alguma coisa meio esbranquiçada. Ciel sentiu vontade de chorar. Tanto autocontrole, tanta fuga e para quê? Por que isso estava acontecendo? O que ele estava fazendo de errado? O que havia de errado com ele? Sentia-se sujo. Muito sujo.
Angie acordou no meio da noite e escutou um barulho de água caindo no banheiro. Andou pelo corredor, aproximando-se da porta aberta. Receosa de encontrar ali, a mesma imagem de anos atrás. Mas não encontrou. Ciel lavava as mãos compulsivamente.
– Ciel, o que está fazendo? – perguntou preocupada, mas aliviada porque ele não estava machucado.
– Minhas mãos estão sujas. – Por mais que as lavasse e as esfregasse, aquele cheiro não saía delas. Parecia que aquele odor havia penetrado sua pele, para lembra-lo sempre de seu pecado. – Estão sujas.
– Ciel, não há nada errado com suas mãos. Para com isso, elas já estão limpas. – Angie tentava afastar o irmão da pia. – Veja, olhe pra suas mãos, estão limpas. O que houve? O que aconteceu?
“Me masturbei sonhando com Sebastian”, o garoto pensou na resposta, mas nada disse. Ciel olhava para suas mãos, ardiam e estavam vermelhas de tanto esfrega-las.
– Você me acha estranho, Angie?
– Estranho como?
– Não sei, algo em mim que não é normal?
– Não acho que seja anormal. Você só é diferente das outras pessoas, mas isso é bom. Já imaginou se o mundo fosse cheio de Angies, eu não me suportaria. – Ela riu, Ciel também. – algumas vezes é bom ser estranho. Acho que estranho deveria ser o nosso segundo nome. Angélica, a Estranha. Meu Deus que horrível! Isso não é nome de um filme?
– Você é tão boba. No bom sentido.
–Hahaha, vamos pro quarto, antes que mamãe acorde e nos dê uma bronca por ficar acordados tão tarde. – Ciel deitou-se novamente, Angie estava saindo. – Ciel, sabe que pode me contar qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.
O ocorrido na noite anterior deixara Ciel mais fechado do que já era. Estava na sala de aula, mas não escutava uma palavra que os professores diziam. Se Ciel fosse mais novo, ou se tivesse nascido em outra época, poderia não entender o que estava acontecendo. Mas ele entendia. Só não imagina que algo assim poderia acontecer com ele. Não imaginava que poderia sentir algo assim. Chegava até ser irônico, quando se lembrava que há algumas semanas pensara em se afastar de Sebastian porque pensou que ele fosse gay, e agora vejam só.
Naquela aula Ciel chegou a uma importante conclusão: talvez ele sentisse atração por homens. Ciel olhou para todos os meninos a sua volta e chegou a uma segunda conclusão mais importante ainda: sentia apenas por Sebastian.
O que deveria fazer agora?
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Naquela mesma tarde, toda Liverpool se pôs em um alvoroço total. No final de quatro tranquilas semanas, o assassino deu as caras. O Chefe de polícia, Roger Valentine recebeu um pacote anônimo. O pacote era pequeno, ao abri-lo encontrou um bilhete e vinte dedos humanos. Todos do escritório se assustaram. O bilhete dizia “Venha pegar o restante aqui fora”.
Chefe Valentine caminhou depressa para a saída. Harris e os demais policiais o seguiam preparando as armas. Ao saírem se depararam com várias pessoas que se aglomeravam ali na rua. Ao virarem, viram dois corpos pendurados na sacada da delegacia, um de cada lado. Os corpos mutilados, os dedos das mãos cortados. Os mesmos ferimentos que estavam em uma estavam na outra. Ao contrário do que o assassino sempre fazia, os rostos foram deixados intactos, para que todos pudessem reconhecê-las.
Melinda e Belinda Copperpot.
– Harris. – Disse Roger.
–Sim, Chefe?
– Ligue para a Scotland Yard. Precisamos de reforço. Urgente.
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