Phantomhive
21 Os pecados do Passado – Parte III
Notas iniciais
Capitulo 21: Os pecados do Passado – Parte III: de 1897 a 1898
Num galpão escuro e frio, na parte mais distante e abandonada de East End, um homem, miserável em todos os sentidos, acreditando não ter mais alternativas em sua vida miserável, terminava de montar o altar para um ritual. Fez exatamente como mandava o livro negro e começou a invocar um demônio. O cheiro de vela derretida se espalhava pelo lugar, misturado ao ar frio e poluído. Postando-se no meio do pentagrama, cortou o próprio pulso e deixou o sangue pingar. Não sabia se daria realmente certo, mais continuou a chamar a criatura. Depois de algumas horas, nada havia acontecido. Tomado pela cólera, começou a destruir todos os objetos do ritual.
Repentinamente, um buraco surgiu na parede, e línguas de fogo escaparam por ele. As chamas correram em volta do homem, alcançando o teto. Não tinha como fugir. Ele sentia um calor insuportável e o cheiro de enxofre enchia suas narinas.
– O que você deseja, humano? – a voz grotesca saiu de dentro do buraco fazendo o homem tremer de pavor.
– E-eu, eu... – gaguejou sem saber o que fazer até que as palavras se desprenderam de sua garganta. – Eu quero ser rico. Rico como o infeliz que tirou de mim tudo o que eu tinha.
O demônio riu. Uma gargalhada apavorante. O homem viu as chamas tomarem uma forma humanoide e começarem a tremular ao redor dele; não havia rosto, apenas fogo.
O demônio riu, mas estava irritado. Observava a criatura deprimente que tremia da cabeça aos pés diante de sua presença. Que perda de tempo. O humano cheirava a bebida barata e a vômito. Não passava de um sacrifício sem valor. Era fraco. Entretanto aquela criatura patética poderia ser útil. Pelo que aparentava era do tipo facilmente manipulável. Talvez pudesse moldá-lo a seu bel-prazer.
– Sempre tão previsíveis. Vejo que seu coração é ambicioso. Isso poderá ser aperfeiçoado com o tempo. Por que só ter dinheiro, se você pode ser o mais rico de todos? Por que só ter poder, quando você pode ser o homem mais poderoso da Inglaterra? Por que subjugar apenas um homem se você poderá ter todos aos seus pés?
– Poderia fazer isso?
– Se eu posso? Há! Ora, você me subestima. Eu tenho o poder necessário para lhe conceder isso e muito mais. Mas terá um preço.
– Minha alma.
– E o que eu haveria de fazer com ela?
– Mas você não é um akuma? Aqui diz que akumas exigem...– indagou pegando o livro no chão e o folheando para ver se fizera a invocação correta.
– Sou um demônio. Chamaste um demônio, não foi? – vociferou e incendiou o livro nas mãos do outro. – Que importa de que raça sou? Vai querer realizar seus desejos ou prefere morrer na miséria?
– Sim! Quero dizer, não. Quero seus serviços.
– Perfeito. Mas... Eu quero um favor em troca – falou passando os dedos de fogo pelo rosto do homem, chamuscando a barba malfeita do humano.
– E o que seria?
– Eu farei de você o homem mais poderoso da Inglaterra; mas para conseguir isso, você deverá tirar um inimigo do caminho. Depois que fizer isso, tudo o que desejar será seu.
– Que inimigo?
– O Cão de Guarda da Rainha. Phantomhive.
– O comerciante de brinquedos? Mas ele não é meu inimigo, não. Nunca nem cheguei perto d...
– Silêncio! Eu direi quem você deverá tirar do tabuleiro e você o fará. Com sua ajuda conseguirei minha vingança.
– Não pretende me enganar, não é, demônio? Você tem que fazer o que eu pedir.
– Oh, não. Tenho grandes planos para você. Mas você deve me libertar daqui. Eu preciso de uma forma completa.
– Como faço isso?
– Eu direi como...
O demônio começou a dar as instruções, as quais foram ingenuamente seguidas pelo homem. O humano desenhou todos os símbolos e realizou o novo ritual ensinado pelo demônio. Começou a pronunciar as palavras desconhecidas. Tão logo terminou de falar tudo o que o demônio lhe ensinara, as chamas de fogo se transformaram em nuvens negras e densas que produziam barulhos estrondosos como trovões. Pareciam capazes de destruir o lugar. O homem não conseguia enxergar nada além da espessa massa negra. Ele gritou pedindo socorro, mas era inútil. Sentiu garras percorrerem sua pele e mãos abrirem sua boca a força e algo que parecia brasas ardentes invadir sua garganta, sufocando-o. A densa nuvem foi entrando no homem até que não restasse mais nem uma partícula de escuridão fora dele. Ele apertou o estomago como se fosse regurgitar, entretanto não o fez. Empertigou o corpo e apertou os olhos ardentes. Testou o movimento das mãos. E sorriu satisfeito.
– Primeiro, vamos encontrar meus leais súditos.
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Assim que a carruagem chegou a Funtom Company, Ciel entrou e bateu a porta com tanta força que os cavalos relincharam de susto. Quando o veículo começou a se mover, Ciel reparou nos olhos vermelhos de Elizabeth.
– Andaram brigando de novo? – o rapaz ralhou com os dois. Reparando que Ciel estava muito irritado, o mordomo e a mulher preferiram permanecer em silêncio.
Quando voltaram para a mansão, Ciel continuou irritado, mas não quis dizer a razão. Sebastian até preparou um chá para acalmá-lo. Quando os ânimos do jovem pareciam ter se acalmado um pouco, Elizabeth tentou conversar com ele. O conde parecia disposto a revirar todos os papéis do escritório a procura de sabe-se lá o quê.
– Ciel, eu posso falar com você? – Lizzy perguntou torcendo as mãos.
– Claro. Vai falando que estou te escutando – e continuou a revirar as gavetas do escritório e a examinar papéis das caixas de arquivos.
Elizabeth, apreensiva com a atitude do marido, olhou sobre o ombro, para Sebastian, que estava na porta de entrada. O mordomo deu de ombros e fez um gesto com as mãos para que ela dissesse logo. Não parecia ser o momento certo. Mas havia a chance de Ciel nem prestar atenção no que ela dizia. Então ela começou a contar tudo o que havia ocorrido na casa de seu irmão e o que ela havia dito sem querer. E Ciel continuou a olhar as pastas de papel. “Acho que ele não ouviu nada” foi o que Elizabeth pensou.
– Você disse o quê?! – o rapaz parou subitamente o que fazia.
– Exatamente o que ouviu – a voz saiu vacilante.
– Será possível que eu estou cercado de irresponsáveis?! Como pôde dizer que estava grávida?
– Encurralaram-me – falou nervosa –, Lady Lenora insinuou que eu sou estéril. Eu fiquei assustada, acabei falando sem pensar. Não fiz por mal.
– Deixasse Lenora dizer o que quisesse. Que praga de mulher fofoqueira!
– Não compreende o problema, Ciel. Se saírem por aí dizendo que sua esposa é estéril e que os Phantomhive não possuem um herdeiro será vergonhoso para mim. Vão dizer que eu sou uma esposa inútil, sem valor. Isso não é justo, Ciel. Não é. Você sabe que tudo o que faço, faço pensando em não prejudicá-lo.
– Eu sei que você é capaz de superar isso. Basta dizermos que foi um engano, sei lá... – falou coçando a cabeça, parecia agoniado. – Pense em alguma coisa.
– Não é só isso – Sebastian os interrompeu. – Durante o chá, ouvi Lady Lenora questionando sobre as possíveis razões que poderiam impedir que vocês dois tivessem um filho. Ela insinuou a esterilidade de sua esposa, uma possível amante sua e... Insinuou que talvez você não gostasse da companhia feminina.
– Mas que inferno! O que diabos essa mulher quer com as nossas vidas? Deveria mandar jogá-la da ponte.
– Lenora se diverte espalhando a discórdia – comentou Elizabeth. – Não é a primeira vez que ela insinua esse tipo de coisa, e se as pessoas começarem a acreditar?
– Se ela fosse a única a fazer esse tipo de comentário seria fácil de resolver – continuou Sebastian –, mas sabe que ela não é a única.
– Depois do escândalo causado pela prisão do senhor Wilde as coisas ficaram mais delicadas para pessoas como vocês?
– Como assim pessoas como nós, Lizzy?
– Eu não quis ser rude, mas você me entendeu.
– Como é possível que alguém saiba sobre nós? Somos discretos, não somos?
– Até demais – comentou o mordomo. – Mas as pessoas não estão preocupadas se é verdade ou mentira, se um boato como esse se espalhasse...
– Sim, eu sei.
Ciel sabia muito bem o que poderia acontecer se seu adultério viesse a público, e pior, se descobrissem que seu amante era outro homem. Não seria apenas o seu status de nobre honrado que estaria ameaçado. Ciel odiava aquela sociedade onde tudo era proibido e ao mesmo tempo permitido, contanto que ninguém soubesse.
Ciel sabia muito bem quem eram todos os homens que posavam de maridos honrados com suas esposas castas e puras em casa e se divertia com prostitutas de luxo nos bordéis de East End, sabia também quem eram os que visitavam secretamente as ainda mais secretas casas de prostitutos. Quem eram os tipos de pessoas que prezavam tanto a pureza da virgindade, que mandavam sequestrar meninas inocentes para roubar-lhes a primeira vez. Quantos desses falsos moralistas ele mesmo já não dera um fim definitivo? Era esse mesmo tipo de pessoa que costumava ser o primeiro a apontar os erros dos outros e jogar na fogueira quem fosse diferente. No entanto, sendo o Cão da Rainha, Ciel não podia se expor dessa maneira. Se fosse capturado ou preso por alguma razão, o problema seria inteiramente seu; como Lizzy lembrou uma vez, a rainha não interferiria. E não interferiria mesmo.
Ciel podia até ser casado com uma mulher e se deitar com um homem, mas pelo menos havia verdade no relacionamento entre os três. Cada um tinha plena consciência das consequências de suas escolhas e concordavam com isso.
Ciel sentou-se apoiando os cotovelos na mesa do escritório, mergulhando todos os dedos nos seus cabelos. Olhava para baixo, para um documento, que parecia ser o que ele estava procurando. Pensava em toda a situação. Parecia que o universo estava de complô para que ele chegasse a esse ponto. Mas por quê?
Elizabeth e Sebastian ficaram olhando para Ciel, que parecia pensar. Depois de algum tempo em silêncio, o conde falou:
– Talvez esse deslize da Elizabeth tenha vindo em boa hora. Talvez não seja uma má ideia ter um filho.
– Não é?! – a mulher perguntou surpresa.
– Não é?!! – o mordomo perguntou mais surpreso ainda.
– Isso – Ciel respondeu. Mulher e mordomo se entreolharam, cada um estranhando a reação do outro. Elizabeth pareceu aliviada e alegre; Sebastian pareceu levemente irritado.
– Tem certeza disso, Mestre?
– Não. Eu não nasci pra ser pai de ninguém. Eu não tenho condições de ser pai de ninguém. Crianças me irritam! Elas são faladeiras e bagunceiras. Isso com certeza não estava nos meus planos.
– Então?
– Mas eu preciso ser...
– Por quê?
– Porque aquele maldito contrato que eu assinei me obriga.
– Que contrato? – indagou Elizabeth.
– O da rainha. Aquele que Sebastian falou que estava tudo bem em eu assinar.
– O quê?
– Eu disse, Mestre, que você poderia continuar com sua função como antes, de minha parte não haveria objeção, como de fato nunca fiz. Mas foi o Mestre quem leu contrato inteiro. Você disse que concordava com tudo – isso era verdade. Ciel não ligou muito para o que o contrato dizia porque achava, na época, que morreria antes de completar quatorze anos.
– Só que agora eu não posso mais me afastar do cargo nem que eu quisesse.
– Explique melhor, Mestre.
– Depois que vocês partiram para a casa de Edward, eu fui ao encontro da rainha. Mas ela não estava. Grey e Phipps me aguardavam...
– Que milagre aparecer sem seu ilustríssimo mordomo a tiracolo.
Charles Grey comentou ao ver Ciel entrar na sala. Não era segredo que Ciel e Grey não se davam lá muito bem, mas como cavalheiros mantinham a cordialidade. O conde esperava encontrar a rainha, mas pelo visto ela mandara apenas a dupla de mordomos.
– Aqui está o relatório do último caso – Ciel jogou a pasta sobre a mesa.
– Aqui está o pagamento – Charles Phipps entregou uma pequena bolsa e se postou ao lado da mesa, apontando a cadeira para que Ciel se sentasse.
– Infelizmente – continuou Grey – a rainha está muito adoentada e não pôde comparecer, no entanto, ela nos deixou encarregados de alguns assuntos importantes que ela gostaria de tratar com você. Acredito que já podemos adiantar o primeiro tema. Uma dúvida em relação a você tem preocupado Sua Majestade: quem será o seu sucessor?
– Como assim?
– A rainha está morrendo e ela se pergunta se os netos e o filho dela, Eduardo, contarão com o apoio dos Phantomhive após a sua morte.
– Mas é claro; não é esse o meu dever?
– Exato; seu dever. Mas e se você vier a morrer, quem apoiará o rei se você não tem herdeiros? Quem levará adiante o seu legado? Poderíamos escolher alguém para substituí-lo, mas sabe o risco que corremos ao escolher outra família para o cargo de Cão de Guarda da Rainha? Na verdade, não podemos escolher outra. Poderemos estar jogando a Inglaterra aos lobos. Apesar de todos os seus rompantes de desobediência, a rainha confia em você.
– Como se a própria rainha já não tivesse tentado me jogar no fogo.
– Isso foi a “outra” rainha.
– E as vezes que foram “esta” rainha?
– Você fez por merecer todas as punições, não fez?
Grey se levantou e começou a dar a volta na mesa. Tirou a espada da bainha e pareceu admirar a lâmina por alguns segundos, depois a colocou sobre a mesa, ao lado de Ciel. Ciel não sabia se Grey pretendia ameaçá-lo ou mostrar que não queria encrenca.
– Por que estamos tendo essa conversa exatamente?
– A rainha quer garantir um reinado tranquilo para o filho e a segurança da população, isso depende muito da continuidade do trabalho da sua família, conde. Portanto – Grey se inclinou e sussurrou para Ciel – você pode até se divertir mais com caras altos e morenos do que com sua linda esposinha, mas, sendo você o Cão da Rainha, os interesses da Inglaterra devem vir primeiro que os seus.
Ciel o encarou atônito, depois olhou para o rosto de Phipps para ver se este havia escutado. Phipps permanecia parado sem dar sinal de que ouvira alguma coisa. Grey começou a gargalhar.
– Confesso que era só uma suspeita minha, mas pela cara que você fez, percebo que eu estava certo – Grey declarou com um sorriso maldoso ao sentar-se sobre a mesa. – Deve estar se perguntando como eu descobri. Tenho um faro pra essas coisas. Além disso, nossa função envolve conferir se você está cumprindo seu trabalho; então espiamos aqui e alí... Não é verdade, Phipps?
– Não sei do que está falando.
– Não me ignore desse jeito, é claro que você sabe! – irritou-se o secretário, depois voltou a olhar para Ciel, adquirindo o tom de antes. – Não se preocupe, seu segredo está seguro comigo. Não contarei nem para a rainha. Apenas apresse-se para conseguir um herdeiro.
– Que ideia estapafúrdia! Estou perdendo meu tempo aqui. – Ciel levantou-se ofendido, pegando seu chapéu e a bengala.
– Qual o seu problema Conde. Acho que essa é a melhor ordem que você já recebeu até hoje. Não é todo dia que alguém recebe uma permissão Real para fornicar. – Grey concluiu em meio a mais gargalhadas.
Ciel irritou-se mais ainda, era óbvio que Grey estava fazendo troça com sua cara.
– Isso é um absurdo! Não sou obrigado a ter filhos só porque a rainha exige.
– Na verdade é sim. Agora estou falando sério – o homem mudara o tom repentinamente, falando com uma seriedade preocupante. – O contrato que você assinou com a rainha era mais que um contrato, era uma maldição. Ele continha termos invisíveis aos olhos humanos.
– O quê? Isso é contrato insidioso.
– Eu chamo de medidas desesperadas. Ao assinar o contrato, você colocou sua família e toda a sua descendência em submissão, em primeira ordem, a Corde dos Serafins e, em segunda ordem, ao rei ou rainha da Inglaterra. Exigia também que seus herdeiros assumissem sua função depois de você. Ou seja, você é obrigado a proteger o Império. Além disso, a rainha está preocupada com o destino de sua família, por isso ela exige que você apresente um herdeiro o quanto antes.
– Que absurdo você está dizendo? – Ciel se irritou com aquela maluquice toda. A rainha só podia estar caduca. Mas percebendo as expressões de seriedade de Phipps e Grey, uma sensação estranha lhe perpassou. – Por que essa preocupação repentina com o fato de eu ser ou não o último Phantomhive?
Grey e Phipps se entreolharam de modo estranho. Ciel notou que Phipps disfarçadamente olhou para a porta e para a janela antes de fazer um sinal para Grey continuar. Quando Grey falou, sua voz saiu muito baixa, mas firme.
– O contrato não amaldiçoou somente você, mas a coroa também. Assim como você não poderá nunca mais abandonar seu cargo, nenhum outro rei ou rainha poderá destituí-lo do cargo de Cão de Guarda. Temos uma nova missão para você, Phantomhive. O Império está em perigo.
– Me diga quando não esteve?
– Mas dessa vez, o inimigo não pode ser morto pela polícia. Soubemos por meio de uma fonte confiável que alguém está tramando contra o Império e contra o Cão da Rainha. Acredite Conde Phantomhive, você precisa de um herdeiro, e nós precisamos dos Phantomhive. Faremos uma visita a sua casa no final da semana. Há alguém que quer falar com você. Lá, explicaremos melhor. Até lá, cuidado!
Quando Ciel terminou de narrar seu encontro com a Dupla Charles, Sebastian ficou pensativo. Era muito estranho essa repentina insistência para que Ciel tivesse um filho. O que eles realmente pretendiam ao exigir isso de seu mestre? A ideia pareceu estranha e sem propósito.
Um primogênito Phantomhive.
De certa forma, Ciel era o último Phantomhive. Elizabeth também o era agora, por meio do casamento. Mas Ciel era o último a herdar o nome e o sangue. Porque a preocupação em dar continuidade à família? Sebastian não ligava para isso, só lhe interessava Ciel, mas essa novidade lhe pareceu mais do que estranha, suspeita. Pelo visto essa mesma dúvida se passava na mente do conde. Até Elizabeth, que de início ficara feliz com a possibilidade de ter um filho, pareceu estar estranhando a situação também. Sebastian não gostou nada de saber que os Phantomhive deveriam se sujeitar a Corte dos Serafins. E quem estaria ameaçando a vida de seu Jovem Amo?
– O que pretende fazer? – indagou finalmente o mordomo.
– Eles virão no sábado para dar explicações. Dependendo de qual for a razão de todo esse disparate... Bem, então saberei se teremos um filho ou não. Se você concordar com isso, lizzy; é claro.
Elizabeth sorriu um pouco sem jeito. “Até parece que ela não concordaria” pensou Sebastian. Quando Ciel achou a cópia do contrato, Sebastian pôde lê-lo. Realmente havia um tipo de segundo contrato oculto sobre as letras do outro, somente com seus olhos demoníacos conseguiu ler. O texto estava em um dialeto de aramaico antigo, língua usada entre anjos e humanos há muitos, muitos anos. Depois daquele dia, Sebastian sentiu que haveria problema pela frente. Eles só puderam aguardar até que chegasse o sábado.
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A carruagem dos secretários da Rainha chegou por volta de três horas da tarde de sábado. Grey dissera que alguém gostaria de falar com Ciel, no entanto vieram apenas ele, Phipps e John Brown, este último permaneceu na carruagem, não quis entrar.
Todos se reuniram na sala de visitas e Grey começou a falar.
– Nos últimos anos, percebemos certa movimentação dentro e fora da Inglaterra. Não alarmante, mas de certa forma, desagradável. Você já deve ter percebido também, afinal, recebeu mais missões nesses últimos dois anos do que em todos os anos anteriores. Parece que tem alguém tentando nos manter ocupados, não é?
– Nos manter ocupados?
– Sim, veja. Durante o reinado da rainha Vitória a Inglaterra cresceu muito, tanto em território, como em economia e tecnologia. Mas você, assim como o resto do mundo, já deve ter notado que esta era está para acabar. A Rainha, que só vive adoentada, não durará por muito tempo. E quando isso acontecer, a morte da rainha, teremos algumas mudanças. Muitos países estão doidos para passar a perna na Inglaterra e tomar nosso posto. Cá entre nós, nossa aliança com a Itália e a Alemanha não anda mais tão amistosa assim. Esses países ainda estão insatisfeitos com a divisão dos territórios da Ásia e da África. Estamos enfrentados alguns problemas sérios nas colônias da Índia e da África.
Eduardo, nosso príncipe, é um pacifista, tem tentado controlar as coisas e imagino que seguirá esse plano quando assumir a coroa. Mas sempre que resolvemos uma questão outra surge e tem piorado agora que a Rainha está cada vez mais ausente. Literalmente tem explodido problemas em todos os cantos, por isso você tem recebido tantos casos. As alianças estão fracas e tem alguém na surdina fazendo de tudo para rompê-las de vez.
– Com que propósito?
– Uma palavra: guerra.
– Guerra?! Impossível! Ninguém teria coragem de desafiar a Inglaterra num conflito assim.
– Há muito poder em jogo. E esse comentário corre em segredo entre as nações. Ninguém quer admitir e preferem manter as alianças por enquanto, mas você acha que eles já não estão se preparando as escuras? É claro que estão! Eles estão investindo mais do que nunca em armamento. Por que fariam isso se todo mundo está em paz? Alguém está manipulando as nações, tentando, de uma forma ou de outra, jogar um país contra o outro?
– Nos últimos casos que resolvi estavam em jogo as boas relações entre a Inglaterra e os demais países. Os casos antigos costumavam ser apenas de problemas internos do país.
– Não parece haver alguém tentando criar uma desavença?
– Sim, de fato. Mas se uma guerra acontecesse muita gente lucraria com isso, incluindo a Inglaterra.
– Você sabe bem disso, não é? Sabemos que está envolvido num projeto de produção em massa de armas, juntamente com comerciantes alemães e norte americanos.
– Como sabe disso? Esse projeto é altamente sigiloso, como conseguiu essa informação?
– Nada permanece oculto por muito tempo. Não se preocupe. Como eu disse, a rainha confia em você, embora essa sua atitude pareça muito suspeita no presente momento. Mas não pretendemos perder a aliança com os Phantomhive. Sabemos que você possui aliados na Alemanha, na França, na China, no Japão, na América e até na Austrália. Isso poderá nos ser útil, caso as coisas se intensifiquem. A Alemanha fala em unir todos os povos germânico em um único império, a Rússia quer juntar os povos eslavos em único império também, se conseguirem isso, terão poder o suficiente para enfrentar o Império Britânico.
– Se começasse uma guerra, eu não poderia impedi-la. Ainda não entendi como eu entro nisso e por que tenho de ter um filho.
– Você tem controlado as coisas. Depois da rainha e do Parlamento, você é a pessoa de maior poder. É você quem atua por baixo dos panos limpando a sujeira e eliminando os galhos podres. Quem quer que esteja fazendo toda essa confusão, vai tentar tirar você do caminho. Além disso, não se trata apenas de jogo político. Sua família é a única “habilitada” para casos anormais.
– Habilitada? Casos anormais?
– Casos envolvendo o sobrenatural. Bom... Acho melhor você se segurar na poltrona, essa informação pode ser surpreendente demais. Você pode até não acreditar, mas anjos e demônios realmente existem.
– Não diga – Ciel falou sem disfarçar o sarcasmo, que Grey interpretou como incredulidade da parte do conde, pois não fazia ideia de que naquele exato instante estava na companhia de um demônio em trajes de mordomo.
– Estou a falar sério. Como eu disse antes, o contrato coloca você, e o Império também, em submissão a Corte dos Serafins. Caso não saiba, são anjos, de cuja ajuda precisaremos no futuro. Isso tem haver com a história da sua família. Mas essa parte não serei eu a explicar.
Ciel olhou para Phipps, mas este permaneceu quieto e calado. Grey tirou do interior de seu casaco algo que parecia ser uma miniatura de flauta, como se fosse um apito dourado com uma longa correntinha.
– Eles têm de ser invocados, sabe? – comentou levando o instrumento a boca.
Quando Sebastian olhou para o objeto nas mãos do humano, logo o reconheceu. Era uma Flauta Celeste.
– Você não vai trazê-los p... – o mordomo exclamou, surpreendendo todos com sua intromissão repentina.
Mesmo sendo tão rápido, o mordomo não conseguiu impedir que Grey assoprasse o instrumento. Grey assoprou com tanta força, que Ciel e Elizabeth esperaram ouvir um som alto e agudo, mas não ouviram som nenhum. Diferente do casal, o mordomo caiu sobre os joelhos, a meio caminho de Grey; tapando os ouvidos, que eram agredidos pelo som emitido pelo objeto. Sua forma humana tremulou por alguns instantes.
Phipps e Grey olharam para o mordomo, espantados.
– Sebast... – Ciel começou a falar, mas se interrompeu ao sentir o chão tremer levemente. Sentiu o ar ficar mais pesado e uma leve brisa girar pela sala ao mesmo tempo em que sentia uma fragrância estranhamente agradável. Assustou-se ao olhar para Lizzy e perceber que a pele dela começava a brilhar. Elizabeth parecia mais assustada ainda.
O conde sentiu Sebastian segurar sua mão e puxá-lo para longe da mulher. O corpo de Lizzy foi brilhando cada vez mais, até que ninguém conseguisse enxergar nada. Quando a luz se dissipou e Ciel abriu os olhos, viu a sua frente, não mais Elizabeth, mas outra mulher.
– Meu nome é Iridel. Vigésimo primeiro anjo mensageiro da Corte dos Serafins. Estou aqui para representar a Corte. Que sejam abençoados por receber-me.
Ela era alta. Tinha longos cabelos de um branco sobrenatural. Seus olhos brilhavam como prata derretida. Sua pele reluzia. Sua vestimenta era branca com uma couraça dourada. Sua voz era suave como seda. Ciel soube naquele momento que estava olhando para um anjo. Mas este era diferente de Ash e Angela, imensamente diferente. A figura a sua frente tinha algo encantador e surpreendente.
– Há quanto tempo Iridel; vejo que não mudou nada – a voz de Sebastian pareceu acordá-lo de seu transi momentâneo.
– Você, pelo contrário, tem uma nova aparência. Sebastian; é assim que devo chamá-lo agora?
– Sim, eu prefiro. E como vai Ezael? – Sebastian indagou como se fossem velhos amigos, mas Ciel podia sentir uma certa tensão por parte do akuma. Como a que havia entre o akuma e os shinigamis, só que maior.
– Vigiando os seus passos. O Serafins ainda não esqueceram os estragos que você fez no passado, você ainda está sob vigilância. Embora suas atitudes recentes tenham sido muito ambíguas; só me pergunto se pelos motivos corretos – os olhos do anjo deslizaram suavemente para o jovem homem ao lado do akuma, Ciel. Os olhos prateados fitaram o penetrante olho azul. Depois, os olhos de Iridel desceram para as mãos do rapaz e viu que Sebastian segurava firmemente uma delas. – Não tenha medo, akuma. Não vim para levar seu humano. O Contrato de Fausto é fidedigno, portanto a alma é legalmente sua. Além disso, ele possui livre arbítrio, se escolheu ficar com você, não posso interferir.
– Agradeço sua justiça – Sebastian cumprimentou movendo levemente a cabeça. Ciel pôde sentir que a presença daquele anjo deixava Sebastian desconfortável. O conde nunca vira o mordomo agir assim.
– Não agradeça. Não estou contente com isso. Mas a escolha é de vocês.
– Você a conhece?! – Grey perguntou surpreso, afinal estava vendo o anjo pela primeira vez, como podia o mordomo já conhecê-lo? – Você... Você é um anjo também?
– Não me insulte – disse o mordomo olhando para o secretário real com furiosos olhos vermelhos e pupilas em fendas.
– DEMÔNIO! – Grey gritou apontando a espada para o peito do mordomo.
– Não vai enfiar a espada no meu mordomo novamente, vai senhor Grey? Então abaixe isso e cale-se – Ciel voltou-se para Iridel. – Onde está Elizabeth?
– Está aqui – colocou a mão sobre o peito –, mas você apenas vê a mim. Não se preocupe, ela não sofrerá nenhum dano.
– Mensageiros não podem vir a Terra em sua forma plena, precisam de um receptáculo para isso. Em outras palavras, Iridel está possuindo o corpo da senhorita Elizabeth – explicou Sebastian, encontrando mais um motivo para ter inimizade com a jovem Midford. Receptáculo de anjo; era só que faltava.
– Vai me explicar o que está acontecendo? – Ciel perguntou a Iridel.
– Mesmo estando em um receptáculo, não posso ficar por muito tempo. Então, tentarei resumir. Quando estas eram terras sem lei e sem rei, os demônios causavam todo tipo de terror e destruição. Os humanos invocaram uma Ordem Angélica, a Corte dos Serafins e pediram ajuda. A ajuda foi concedida. Por séculos, a Corte lutou ao lado dos humanos contra os demônios, no entanto, por mais que lutassem isso parecia não resolver o problema. Foi quando decidiram criar uma barreira protetora para o domínio humano. O Domo. Os demônios foram banidos para o seu próprio domínio e nós para o nosso. O que vocês humanos erroneamente chamam de Inferno e Céu. Entretanto, o Domo impedia apenas a passagem de forças mais poderosas, criaturas menores como Mensageiros e demônios do caos poderiam passar, mas destes os humanos poderiam se proteger sozinhos.
– Demônios do caos?
– Os demônios do caos se subdividem em várias espécies. São demônios que se alimentam das fraquezas humanas, como raiva, inveja, sofrimento, luxúria – explicou Sebastian.
Iridel prosseguiu:
– Mas alguns humanos tinham um interesse especial em determinada raça de demônios. Os akumas.
– Porque são demônios controláveis e podiam conceder desejos, por assim dizer – raciocinou Ciel.
– Exato – continuou Iridel. – Os akumas são umas das poucas raças demoníacas que conseguem assumir a forma humana sem precisar possuir um corpo humano. Uma vez libertos da barreira, eles podem transitar livremente entre os dois domínios. Muitos akumas conseguiram trazer para cá outros demônios. Assim o caos se instalou novamente. Os Serafins não poderiam voltar, se voltassem, sua poderosa presença romperia a Domo e criaturas mais perigosas entrariam. Deixamos os humanos em segurança e eles se atiraram no fogo por conta própria. Mas havia humanos bons na Terra. Foi quando a Corte escolheu cinco famílias diferentes para continuar o trabalho de proteger o Domínio Terreno, já que eles não poderiam mais interferir. Isso não só aqui, mas em outros lugares do mundo também. No início, todas as famílias desempenharam bem o seu papel. Com o passar dos anos, as famílias foram se extinguindo, outras se desviaram de seu propósito e a última que restou se aliou a um governo humano, servindo aos propósitos egoístas de um monarca e, atualmente, até mesmo conta com um akuma como ajudante.
– Está dizendo que os Phantomhive eram uma dessas famílias escolhidas?
– Descendem de uma. Por que acha que geração após geração, de um jeito ou de outro, alguém tenta por fim a sua linhagem? E aqui entra a parte que interessa sua Rainha: por anos, tanto sua família como este reino tiveram o apoio da Corte, mas os antepassados desse reino fizeram tantas coisas detestáveis, que os Serafins cortaram os laços com eles. E seu reino ficou a mercê da própria sorte.
– Com sua licença, senhorita Iridel – interrompeu Grey. – Podemos contar essa parte? É que preparamos alguns recursos visuais.
Iridel olhou para o homem de branco mais baixo e sorriu gentilmente. Grey jogou vários papéis sobre a mesa de centro, desenrolou um que parecia conter uma árvore genealógica e apontou para um nome. E continuou a falar:
– O Império perdeu a proteção da Corte antes mesmo da Idade Média, então foram séculos de “se virem como puderem”; mas sua família nunca perdeu tal proteção. Muitos anos se passaram até que... Depois da morte da rainha Ana I, o Parlamento decidiu escolher um rei protestante, por causa da Reforma: o rei Jorge I da Casa Hanôver; tal escolha provocou a união dos tronos do nosso reino com o de Hanôver, o que gerou descontentamento em alguns; mas foi com o neto de Jorge I que começou nosso problema.
“O rei Jorge III participou de muitas batalhas e em uma delas, encontrou um inimigo que estava além de seu poder, um demônio. Não possuímos muitas informações sobre isso, o que sabemos é que ele e seus homens enfrentaram e baniram para o inferno um demônio que vinha causando problemas ao reino por longos anos. Dizem que este demônio o amaldiçoou antes de ser banido e jurou vingança. Não sabemos se foi a maldição ou um coincidente infortúnio do destino, mas o fato é que ele foi acometido por uma terrível doença que lhe impedia de se expor ao sol, lhe fazia ingerir sangue para aplacar as dores e por fim, foi tomado por uma loucura que o levou a morte. Ele mesmo dizia estar amaldiçoado, mas como sua razão estava afetada, ninguém lhe deu ouvidos. E a desavença com o demônio e a maldição foram consideradas desatinos de um moribundo louco. Em 1875, a rainha Vitória recebeu isto de uma fonte confiável."
O secretário entregou a Ciel um pedaço de pergaminho, onde estava escrito:
“Enforque o dono o seu cão com a corrente
Antes que ele lhe devore a destra”
– Como conseguiram isso? – Sebastian perguntou.
– Isso é segredo – Phipps respondeu.
– O que é isso? – Ciel perguntou, relendo a inscrição.
– É uma profecia – Grey continuou. – Ash, que era então o secretário e conselheiro mais próximo a Rainha, a convenceu de que essa previsão falava sobre o Cão da Rainha, que este lhe trairia. Depois, forjou provas de uma traição dos Phantomhive e assim ele conseguiu convencer a rainha Vitória a tentar destruir sua família. Só depois viemos a saber que o “o cão” se referia ao próprio Ash e “ sua destra” se referia aos Phantomhive, ou seja, a profecia advertia a Rainha a se livrar de Ash, pois este tentaria destruir sua “mão direita”, os Phantomhive. Pouco tempo depois de assumir o lugar da verdadeira Vitória, a nossa “nova rainha” recebeu isto.
Ciel recebeu um pergaminho semelhante ao primeiro.
“Quando o cão que vigia na morte adormecer
A Casa Hanôver terá de perecer”
– A família Real! – Ciel exclamou. – A Rainha é a última da Dinastia Hanôver.
– A Rainha teme que com o fim de sua Linhagem, alguém tente algo contra o Império. Por isso, por meio do contrato, ela tentou reatar os laços entre o Império, os Phantomhive e a Corte dos Serafins. Lembra que eu falei que tínhamos um novo caso pra você?
Grey chamou Phipps, que abriu uma pasta de arquivos sobre a mesa e espalhou cinco fotos de mulheres. Ele disse:
– A polícia recebeu a denúncia de cinco desaparecimentos. Essas duas desapareceram há mais ou menos dois meses, essas duas aqui desapareceram há um mês, e esta ultima, há umas duas semanas. Uma semana atrás os corpos das duas primeiras foram encontrados assim – Phipps mostrou a Ciel as fotos dos corpos mutilados, que usavam roupas e maquiagens características de prostitutas. – Apesar da aparência, todas eram mães de família, esposas de operários e estavam grávidas. O fato lembrou um pouco o caso Jack, o estripador, por isso a polícia decidiu não levar nada a público para evitar alvoroço.
– Querem que eu descubra quem é o assassino.
– Não; nós sabemos quem é. Queremos que descubra quem o ajuda, e o pare. Isso veio com o segundo corpo. Não é uma profecia, é uma ameaça.
“Caríssima Vitória,
Seus dias de glória estão chegando ao fim.
Longa vida ao Império Britânico!
Ad mortem fidelis canis!”
“Morte ao leal cão!”. Ciel leu na mente a inscrição em latim. A carta manchada de sangue tinha o mesmo símbolo que marcava suas costas. O mesmo símbolo da seita que Ash e Angela apoivam.
– A Rainha já vinha recebendo ameaças desse tipo com o mesmo brasão, mas esta foi a mais direta, por isso sua saúde se agravou tanto e se recusa a sair em público – falou Grey.
– Porque só estou sabendo disso agora?
– Só recentemente tudo se encaixou. Só agora descobrimos sobre a maldição e sobre o demônio.
– O demônio é um Possessor – Iridel voltou a falar.
– O que é um Possessor? – Ciel perguntou.
– Um demônio que não assume a forma humana, são possuidores de corpos e extremamente cruéis. Este conseguiu de alguma forma entrar no domínio terreno com o auxilio de um humano. Ele precisa ser imediatamente banido de volta, antes que faça algo desastroso.
– Ele quer se vingar dos que o baniram destruindo o Império. Por isso tem colocado uma nação contra a outra. Sabemos que é este demônio, mas não sabemos qual sua aparência, nem onde se esconde.
– Você não tem essa informação, Iridel? – Ciel perguntou ao anjo.
– Infelizmente não. Para trazer demônios ao domínio terrestre é necessária magia negra. Os locais onde é realizado esse tipo de ritual são protegidos por maldições que anulam nossos poderes e impedem a nossa entrada. Não se preocupe apenas com a Rainha, Ciel; lembre-se que ele virá atrás de sua família primeiro.
– O quê? Por quê? Por causa da profecia idiota?
– Por que é único que pode impedi-los. Quando humanos decidem trilhar um caminho errado, não podemos interferir, pois estaríamos quebrando o direito de Livre Arbítrio; só poderíamos agir se fossemos invocados. Os demônios se aproveitam disso, influenciando e manipulando humanos para seus propósitos. Se um demônio coloca em risco a vida de uma pessoa, isso é entre os dois, e ambos sofrerão as consequências no devido tempo. Mas se um demônio coloca em risco a vida de muitas pessoas ao mesmo tempo, nós encontramos meio de interferir sem ferir o Livre Arbítrio. O contrato que sua rainha fez você assinar não faz de você nosso escravo, mas concede a você nosso apoio. Por isso tentarão eliminá-lo. Você é o único com nosso apoio, o apoio da rainha e... e de um demônio.
– Lembrem-me de agradecer a Rainha por isso – Ciel falou ironicamente aos secretários reais.
– Esse aqui não pode se virar contra nós? – Grey apontou para Sebastian.
– Poderia, mas ele está sob as ordens de um mestre – Informou Iridel.
– Akumas costumam ser mais fiéis a seus estômagos do que a outros demônios – Sebastian brincou, mas Ciel o olhou feio. – Nenhum outro demônio tocará no meu Mestre.
– Se concordar em nos ajudar a banir esse Possessor, Ciel Phantomhive, terá nosso apoio quando precisar.
– Apoio? Quando precisar? – Ciel falou com amargura. – Eu tenho o Sebastian. Assumirei este caso como todos os outros porque é minha função, como foi a função de meu pai e dos que vieram antes dele. Mas não preciso do seu favor ou do resto da sua Corte.
– Não despreze nosso apoio, Phantomhive. Precisará de nós no futuro. Depois de tudo o que já fez, não pode ser arrogante a ponto de nos ignorar. Isso seria desastroso, seu akuma sabe disso.
– Já sei qual é o meu destino. Não tenho medo de pagar pelos meus pecados.
– É bom que não tenha. Nosso acordo está limitado em prestar-lhe ajuda apenas para salvar vidas e fazer o que for justo. Qualquer decisão iníqua será de sua responsabilidade. Não estamos barganhando sua salvação, pois somente o verdadeiro arrependimento limpa os pecados. Sua alma já pertence a outro.
– Tenho plena consciência disso. E quanto ao filho?
– Isso é sua rainha quem exige. Se todos os Phantomhive morrerem, os humanos perderão sua ligação conosco – Iridel pediu a Grey a flauta que ele tinha usado para chamá-la e entregou a Ciel. – É uma Flauta Celeste. Produz um som que atrai os anjos e afasta os demônios. É um guia para nós. Use somente quando for extremamente necessário. Já fiquei tempo demais aqui. Preciso partir. Enquanto este demônio estiver livre, pessoas estarão em perigo, além disso, ele quer desesperadamente lhe fazer mal. Portanto tenha cuidado Phantomhive. E antes da minha partida quero que saiba de algo: naquela noite, seu medo chamava por Deus, seu sofrimento chamava pelos anjos, mas seu coração não invocou nenhum dos dois. Quem seu coração invocou, Ciel? Lembre-se disso.
Depois disso, Iridel deixou o corpo de Elizabeth. A mulher disse ter ouvido tudo o que eles tinham conversado, embora não tivesse nenhum poder sobre seu corpo.
– Seu mordomo é um demônio? – Phipps falou finalmente. – Porque você tem de ser tão estranho, Phantomhive?
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Pelo que Ciel pôde entender, algum idiota invocou um demônio de uma raça diferente e mais poderosa que a de Sebastian, Possessor; este demônio foi banido pelos ancestrais da rainha Vitória e agora voltara querendo vingança. Ciel tinha que descobrir quem eram e impedi-los antes que concluíssem seus planos.
A missão ele havia aceitado. Caçar demônios parecia ser bem instigante. Queria, sobretudo, ver qual seria a reação de Sebastian, visto que o mordomo teria de lutar contra os seus nesse caso. Mas pelo que o akuma mencionara, parece que a filosofia dos demônios era “cada um por si e que se dane o resto”. Mas quanto ao herdeiro que a rainha exigia, ainda parecia uma ideia absurda. Pensando bem, ele preferia enfrentar um demônio a ter um filho.
Entretanto, uma vez que disse estar grávida, Elizabeth sentiu o desejo de ser mãe se acender em seu peito, e com tal força, que a mulher decidiu que estava na hora de lutar por seu sonho. Percebeu que Ciel estava novamente inclinado a desistir da ideia de ter um filho. Quando todos já haviam ido embora, foi até o escritório falar com o marido e pediu que Sebastian também estivesse presente.
– Ciel escute. Durante toda a minha vida eu abri mão de coisas que eram importantes pra mim somente para ficar do seu lado e vê-lo feliz. Tudo o que eu sempre quis é que você me amasse. Sempre tentei ser útil pra você de todas as formas possíveis, embora eu tenha atrapalhado na maioria das vezes. Eu concordei com esse casamento porque eu sabia que eu jamais conseguiria amar outra pessoa como amo você, e se eu tivesse outro marido, ele não me permitiria vê-lo. Mas este arranjo me machuca, como você me advertiu que seria, como eu sabia que seria. Mas eu sei que sofreria ainda mais se não pudesse estar com você.
“Não estou culpando você nem o Sebastian. Mas você é meu marido e eu sou sua esposa; as pessoas esperam que eu cumpra com minhas obrigações como esposa. Sei que você não se importa com isso e eu realmente não me importo com o que as pessoas pensam ou dizem sobre mim, mas me importo com o que dizem sobre você. No entanto não posso ignorar meus sonhos e desejos. Eu não ligava pra isso antes, mas já faz algum tempo que venho sonhando com isso. Eu quero ser mãe, Ciel. Quero um filho seu. Não é possível que não tenha notado meu olhar triste sempre que vemos as senhoras e seus filhos. E eu sei que você poderia me conceder isso. Vocês sempre tem um ao outro e eu não tenho ninguém. Mas se me desse um filho... Se me desse essa alegria... Depois, você ainda teria o Sebastian, e o Sebastian ainda teria você, e eu teria meu filho.”
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Não dava mais para simplesmente inventar uma desculpa. A mentira de Elizabeth se espalhou com uma rapidez surpreendente. Muita gente sabia que os Phantomhive ganhariam um herdeiro em breve. Pelo visto a única diversão que as pessoas tinham em suas tediosas e fúteis vidas era fofocar da vida alheia. Na segunda-feira, eles receberam cartões de parabéns de várias pessoas, incluindo Lau e a Rainha. Na terça-feira, todos foram surpreendidos com uma visita inesperada de Soma e Agni.
– Parabéns Lady Elizabeth. Ah, Ciel, por que não me contou que eu ia ser tio? Estou tão feliz!
– Como assim tio? De onde tirou essa ideia?
– Lady Elizabeth foi abençoada por Shiva – dizia Agni.
– Minha ama dizia que mulher grávida não deve comer melancia.
– Não? – Lizzy parecia confusa.
– Não. O bebê nasce com pintinhas pretas.
– Que idiotice é essa? – Ciel esbravejava. – Não ignore o que estou falando.
– E não pode levantar os braços muito alto, pode enforcar o bebe no cordão umbilical.
– Eu não sabia disso! – Lizzy assustou-se e juntou os braços ao corpo.
– Sim, as senhoras inglesas não sabem dessas coisas, por isso perdem tanto os filho.
– Minha nossa!
– Você não está realmente acreditando nisso, está? – Ciel se irritava com o absurdo dos três, mas continuava a ser ignorado.
Não havia outra saída, eles teriam que ter um filho. E não podiam se dar ao luxo de protelar, afinal todos acreditavam que Elizabeth já estava grávida. E também porque se comoveu com o pedido da esposa; depois de conversar com Sebastian, chegaram a um acordo. Claro que o mordo disse que exigiria uma recompensa muito cara para concordar com isso. Ciel não contou a ninguém, pois sabia que soava ingênuo, para não dizer idiota, mas quando concordou com a ideia, não lhe passou pela cabeça que para terem um filho, eles teriam que ter relações. Sua cabeça estava cheia de problemas, não parou para pensar nisso direito.
Ele só se deu conta do fato quando Sebastian, de visível mau humor, perguntou se ele pretendia tentar naquela mesma noite ou em outro dia. A pergunta de Sebastian também lhe lembrou de outro fato; se não desse certo na primeira vez, teria que haver uma segunda, talvez uma terceira. A possibilidade de deitar-se com Elizabeth era assustadoramente absurda. Definitivamente, não conseguia nem imaginar ele e a prima compartilhando os mesmos prazeres que ele compartilhava com Sebastian. Mas o que poderiam fazer, roubar um bebê? Até que não era má ideia. Não; era uma ideia absurda.
Num primeiro momento, Sebastian não tentava nem disfarçar seu descontentamento, mas depois voltou a provocar Ciel como sempre.
– Como deve saber, com uma mulher é, de certa forma, diferente.
– Diferente como?
– Se o Mestre realmente tivesse prestado atenção nas aulas de biologia quando falávamos de reprodução humana, você saberia a resposta.
– Eu era só um garoto de doze anos. Aquela aula era constrangedora.
– Interessante... Pensei que você fosse adulto naquela época.
– Shiu!
– Parece que o assunto ainda é constrangedor. Isso é irônico, pois você é mais desinibido na prática.
– Calado! Vai ficar me importunando agora?
– A questão é: vai saber o que fazer?
– É claro; eu não sou idiota. E não tem nada de tão diferente assim. Eu só não vou precisar... e eu tenho que... nela... – Ciel se embaraçou com as palavras e ao ver o mordomo fitá-lo com uma sobrancelha levantada e aquele sorriso faceiro, o conde ficou completamente vermelho. – Ora essa! E o que te interessa isso seu demônio de mente suja?
– E existe demônio de mente limpa?
– Pare de me importunar com isso, Sebastian. Que inferno! Não quero ficar pensando nisso, só quero que passe logo. Vai procurar o que fazer!
Quando Ciel já estava decidido, Sebastian apenas pediu para retirar-se da mansão por aquela noite e recebeu permissão do Ciel. Houve uma época em que não se importava muito com o que Ciel fazia. Sim, houve essa época, mas parecia nunca ter havido. A simples imagem que sua mente fez da tão tardia primeira noite do jovem casal lhe produziu uma raiva tão grande, que Sebastian percebeu que o melhor era se afastar da mansão aquela noite. E mesmo estando longe, tudo o que conseguia pensar era que seu mestre estaria com outra pessoa. Ocultou-se em um lugar bem solitário, pois sabia que se alguém aparecesse na sua frente, ele seria capaz de trucidar.
Por que era tão ruim dividir seu mestre?
Porque Sebastian sempre fora o único a poder tocá-lo, agora sentia como se perdesse seu mestre.
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O conde entrou no quarto de Elizabeth vestindo seu pijama e um roupão de veludo verde escuro. A mulher trajava um chemisier comprido até os pés, de tecido leve e branco; tinha os cabelos loiros soltos; seus olhos verdes brilhavam de ansiedade. Ela era realmente uma mulher muito bonita. E era sua esposa. Não havia nada de errado nisso. Então porque Ciel sentia que estava fazendo algo errado?
Elizabeth aproximou-se de Ciel e o beijou com relutância. Ciel recebeu o beijo com relutância. Ambos se olharam com certa estranheza.
– Talvez.... – Elizabeth começou. – Você pode tentar fingir que sou ele. Talvez fique mais fácil assim.
– Isso seria assustador.
– Acredito que sim...
Os dois ficaram alguns instantes parados, em silêncio. Instantes que pareceram horas. Aborrecendo-se com a situação constrangedora, Elizabeth começou a rir. Uma risada amarela e sem força, e se afastou do marido.
– É melhor desistirmos disso. O erro foi meu, eu assumo as consequências. Não vai dar certo mesmo. Tenho que aprender a controlar minha língua quando fico nervosa. É isso. Essa foi uma ideia ruim. Se eu não...
– Lizzy.
– O quê?
A mulher calou-se ao perceber que Ciel segurava sua mão.
– Não faça tanto barulho.
Elizabeth assentiu.
Ciel pensou que a melhor maneira de lidar com essa situação era ser rápido e acabar logo com aquilo. Mas ao segurar a mão da prima, percebeu que ela tremia. Lembrou-se de sua primeira vez com Sebastian, como estava com medo e nervoso, e como Sebastian fizera de tudo para deixá-lo confortável, como o ajudara a perceber que aquilo não era uma experiência ruim como pensava. Lembrou-se que Lizzy ainda era virgem e que se conservara assim por tanto tempo somente para tê-lo a seu lado. Lembrou-se, sobretudo que ela o amava. Não seria justo tornar a primeira vez dela uma experiência rápida, forçada e sem sentimento. Já que tinha que ser feito, que fosse feito com carinho, pois nem ele se agradava da ideia de fazer aquilo obrigado.
Então pensou que o melhor seria não pensar. Apenas deixou que acontecesse. E dessa forma se deu o primeiro beijo, um de verdade, e assim se deu todo o resto.
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Elizabeth, ainda corada, tinha o lençol de seda chinesa cobrindo seu corpo. Estava deitada no lado esquerdo da cama e observava o homem de cabelos pretos e úmidos ao seu lado. Ele fitava o teto pensativo.
– Sabe, mesmo que eu não engravide, acho que não devemos fazer isso novamente.
– Por quê? Não gostou?
– Gostei muito – puxou mais o lençol sore o corpo, corando mais ainda. – Mas acho que se fizéssemos isso novamente, Sebastian seria capaz de me matar.
– Provavelmente – Ciel riu pela primeira vez naquela noite.
– Você gosta dele. Eu vejo. Seu semblante muda sempre que está com ele ou quando fala dele. Por isso não vou mais forçar você a isso. Meu desejo é ver você feliz, mesmo que não seja comigo.
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Na manhã seguinte, quando Sebastian entrou no quarto de Ciel com o café da manhã, o conde já o esperava.
– Prepare um banho pra mim.
– Sim – o mordomo ficou observando Ciel escolher uma roupa enquanto enchia a banheira com água. – Então, como foi?
– Bom.
– Bom?
– Foi estranho. Mas não foi ruim como imaginei.
– Que bom para o senhor – Sebastian falou indiferente enquanto aquecia a água. – Seu banho está pronto.
– Ótimo – Ciel caminhou até o banheiro olhando para o mordomo de soslaio. – Na verdade, acho que deveria repetir a experiência outras vezes.
– Outras vezes?
– Isso mesmo, sem a pressão de gerar um filho deve ser melhor.
– Certamente. Creio que não será necessário.
– Não vejo porque não – Ciel falou virando as costas para o mordomo e seguiu até a banheira. – Ela é minha esposa, não é?
– Mas você é meu!
Sebastian segurou Ciel pelos braços, suas mãos o apertando com força. O homem mais jovem encarou o mordomo com olhos furiosos, deixando o akuma mais irritado ainda. Mas para surpresa do maior, os lábios de Ciel se curvaram num malicioso sorriso.
– Estava blefando – o mordomo concluiu.
– Sim.
– Você é um mestre cruel. Posso saber por que fez isso?
– Às vezes, tenho a impressão de que você dorme comigo porque sou seu mestre. É bom saber que sente ciúmes.
– Eu passei essa impressão? Desculpe-me.
– Isso não importa. O que foi?
– Ainda posso sentir o cheiro dela em seu corpo.
– Então o tire de mim.
– Agora?
– E por que não?
– Você disse “nunca durante o dia” – Sebastian abriu o roupão de Ciel.
– Eu sou o mestre. Eu digo quando quebrar as regras.
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Para alegria de Sebastian e alívio de Ciel, a primeira tentativa funcionou muito bem. Elizabeth ficou realmente grávida. Ninguém nunca a viu tão feliz. Ela encontrara na criança que crescia dentro de si, alguém para receber o amor que ela não podia dar a Ciel. Claro que haveria uma divergência na data de nascimento da criança, mas eles já tinham pensado numa solução. Quando estivesse perto da data em que Elizabeth supostamente ganharia o bebê, ela faria uma viagem para França e só voltaria quando o bebê realmente tivesse nascido; o que daria uma diferença de dois ou três meses.
Apesar de dar total assistência à esposa, Ciel tentou ignorar tudo aquilo, pelo menos até o sétimo mês de gravidez, quando colocou a mão sobre a barriga da mulher e sentiu o bebê se mexer. Foi a primeira vez que realmente se deu conta de que ali crescia um ser vivo, seu filho. Essa ideia o fez sentir um calorzinho no coração, um sentimento que o fez sorrir.
Com a gravidez, Ciel passava mais tempo com Elizabeth do que com qualquer outra pessoa. Alguém não se agradou disso. O akuma começava a se arrepender de ter concordado com a ideia. Se as coisas estavam assim agora, como seriam quando o bebê nascesse?
Mas diferente do que achava o akuma, Elizabeth não se esquecera da promessa que fez. Mesmo apreciando a atenção extra que recebia de Ciel por conta da gravidez, a mulher sempre tentava fazer os dois homens ficarem juntos, e em paz. Parecia que os dois viviam em constante provocação.
– Por que você trata o Sebastian assim, Ciel?
– Assim como?
– Por que não tenta ser mais carinhoso e dizer algo romântico.
Elizabeth começava a imaginar uma cena fofa entre Sebastian e Ciel, mas o conde apenas olhava pra ela com uma cara de desaprovação, como se ela tivesse dado o conselho mais idiota do mundo. Depois de um tempo, Elizabeth percebeu que o normal dos dois era se provocarem mesmo.
E se seguiram oito meses de gravidez tranquila.
Oito meses de investigação.
Outras mortes aconteceram. A rainha continuava a receber ameaças e o demônio anônimo continuava a gerar problemas. Foram meses de investigação, mas sempre que pareciam estar chegando perto, tinham que evitar algum conflito político.
Algumas noites, Sebastian saia sozinho para investigar, pois o trabalho excessivo estava prejudicando a saúde de Ciel.
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Sebastian tinha saído àquela noite.
Bardroy acordou no meio da noite com uma sede avassaladora.
Como teria que passar a noite fora para investigação, Sebastian tinha preparado um prato picante para o jantar e Bard acabou exagerando no molho. Não deveria ter comido tanto, agora estava com uma sede insaciável que não o deixava dormir. Demorou-se um pouco na cama, estava com uma preguiça de levantar, mas não teve jeito.
Vencido pela sede, levantou-se meio grogue e saiu tateando pelo quarto escuro. Infelizmente, sua canela encontrou a cama de Finnian. A dor da pancada tratou de acordá-lo e ele passou pela antiga cama de Tanaka mancando. Chegando a cômoda, pegou a jarra de água e virou-a na boca, mas a jarra já estava vazia.
– Maldito Finny, bebeu tudo! – o cozinheiro reclamou, olhando feio para o contorno do jardineiro esparramado na cama.
Derrotado, Bardroy seguiu para a cozinha em busca de água, reclamando que já estava velho para ficar andando durante a noite. Bebeu quase um litro de água. Estava voltando para o seu quarto quando ouviu uma movimentação estranha. Seus instintos de soldados o fizeram esconder-se nas sombras e espremer-se contra a parede do corredor. Seus olhos espreitando a cozinha mal iluminada. Antes que conseguisse ver quem estava entrando ali, ouviu a voz de Maylene vinda do corredor.
– Minha água acabou, estou com uma s... – disse a empregada erguendo uma jarra no ar. Ela nem conseguiu terminar de falar, Bardroy a puxou para o lado ao mesmo tempo em que ouviram um tiro acertar a jarra em suas mãos.
– Estão invadindo a casa! – os dois disseram em uníssono.
O tiro inicial foi seguido por outros, os dois empregados fugiram em meio às balas até conseguirem chegar a seus quartos. Armando-se com as armas escondidas em seus aposentos, saíram de lá atirando em revide. Maylene seguiu pelo outro lado do corredor, abriu a janela e saiu para pegar os invasores que estavam do lado de fora. O barulho fez Finnian sair da cama num pulo.
– O que está acontecendo, Bard?
– Invasores, vários. Jogue alguma coisa neles – disse o cozinheiro desviando de uma bala que passou a milímetros de seu cabelo grisalho.
– Jogar o quê? – perguntou o homem mais jovem, olhando para o corredor vazio de objetos.
– Qualquer coisa.
Finnian entrou no quarto e voltou de lá carregando a cômoda.
– Abaixa!
– Não! Finny, isso não!
Bard tentou impedi-lo, mas o móvel já voava pelo corredor, derrubando os atiradores. Os dois servos seguiram o caminho da cômoda. Ao ver o estrago que os invasores tinham feito na cozinha, Bard ficou mais zangado ainda.
– Agora é guerra!
Alguns minutos antes, três mascarados subiam silenciosamente pelas escadas da mansão, quando ouviram o barulho de tiros vindos da cozinha.
– O que esses idiotas estão fazendo? – disse um deles. – Não era para começar a atirar agora.
– Nosso alvo está lá em cima – falou outro –, se não formos logo vão nos ouvir.
Eles seguiram pelo corredor do andar superior em direção ao quarto do Ciel. Quando invadiram o lugar, a cama estava vazia.
– Está vazio! – um dos mascarados constatou o óbvio. – Eles deveriam estar aqui, não tem como ter saído. Devem estar aqui em algum l...
Um tiro atravessou a cabeça do mascarado que falava. Ciel saiu do quarto de vestir atirando nos dois invasores restantes. O conde enfiou-se apressadamente em um roupão e pegou mais uma arma e munição dentro de uma gaveta. Encontrou Elizabeth no corredor.
– O que está havendo?
– Parece que estamos sendo atacados. Por favor, fique no quarto e não saia.
– Certo.
Quando Ciel chegou às escadas, deparou-se com uma zona de guerra.
– Cuidado, mestre Ciel! – ouviu a Finnian gritar. Ciel abaixou-se e por pouco não foi atingindo por uma estátua voadora.
– Olha pra onde você está jogando, idiota! – ralhou.
– Eu não tive culpa, o senhor apareceu aí de repente.
Balas ricocheteavam de um lado para o outro. Estilhaços de madeira e porcelana voavam entre os atiradores dos dois lados. Com uma enorme pancada, as portas do grande salão se abriram repentinamente e Maylene entrou segurando dois rifles. Com uma agilidade digna de Sebastian e uma precisão absurda, a empregada avançou pelo salão acertando em cheio todos os invasores. Quando acabaram as balas, ela segurou os rifles pelos canos e, usando-os como porretes, arrancou sangue do nariz do último intruso que sobrou em pé. A empregada já se preparava para dar o golpe final...
– Espere! – Ciel gritou e a mulher deteve-se.
Bardroy e Finnian seguraram o homem pelos braços, para que este não pudesse escapar. O conde arrancou a máscara de tecido que o intruso usava. Era um homem caucasiano de rosto comum, olho roxo e um nariz lavado de sangue.
– Por que invadiram minha casa? O que queriam?
– Não sei. Só nos mandaram vir executar alguém aqui. Disseram pra trazer muita gente. Estou vendo a razão.
– Quem? Quem mandou me matar? Responda!
Nesse momento, o intruso levantou a cabeça lentamente e sorriu. Um sorriso manchado de sangue.
– Quem disse que você era o alvo?
Ciel sentiu um arrepio quando ouviu aquilo. Mal o homem terminou de falar, ouviram um barulho de vidro se partindo e um grito de mulher veio do andar superior.
– Lizzy!
Ciel e Finnian correram para o quarto de Elizabeth. Encontraram a loira caída no chão, com um tipo de dardo em seu pescoço.
Elizabeth estava muito gelada, seu corpo tremia e ela começava a chorar.
– Ciel... A-acho que vou ter o bebê.
O conde imediatamente chamou Sebastian. Quando este apareceu, espantou-se com toda a situação.
– Mas o que houve aqui?
– Não há tempo para explicações. Rápido, traga um médico.
O mordomo saiu o mais rápido que pôde e conseguiu arrastar um médico para a mansão aquela hora da noite. O médico foi rapidamente levado até o quarto de Elizabeth e a examinou.
– O que houve com ela?
– Ela foi envenenada com isso – Sebastian entregou ao homem o dardo. O médico sentiu o cheiro deixado pela substância, mas não soube identificar o que era, ninguém pôde.
– Ela terá o bebê de qualquer jeito, já está perdendo sangue. Vou tentar um antídoto comum e esperar que funcione, tenho que realizar o parto antes que o veneno chegue a corrente sanguínea do bebê. Vou precisar de ajuda. Você! – o doutor apontou para Maylene.
– E-eu?!
– Sim, você. O resto espera lá fora – dizia colocando as mãos dentro de luvas brancas.
Elizabeth não conseguia ver nem escutar nada direito. Sentia apenas como se chamas corressem por suas veias, espalhando-se por todo seu corpo. Implorou ao médico que não deixasse nada acontecer ao seu filho, mas não soube se suas palavras saíram com nexo ou não. Sentiu Maylene segurar sua mão e tentar acalmá-la.
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Os gritos de Elizabeth podiam ser ouvidos do escritório. Ciel andava de um lado para o outro impaciente.
– Tem certeza de que ela não está morrendo?
– Acredito que os partos costumam ser assim mesmo, Mestre. Não é fácil trazer um filho ao mundo.
– Deus! Ela está sofrendo muito. Isso foi uma péssima ideia, eu nunca deveria ter concordado com isso.
– Agora já é mais do que tarde, não acha? Acalme-se. Vai ficar tudo bem.
Sebastian falou tranquilo, quisera ele estar realmente tão certo de suas palavras. Continuou girando o pequeno dardo na mão. Vasculhando sua mente, tentando lembrar se realmente não conhecia tal substância, mas nada lhe vinha à memória.
O médico, Elizabeth e Maylene ficaram um bom tempo no quarto. Três horas de um doloroso parto. Ciel permaneceu no escritório, quase explodindo de ansiedade. Sebastian o deixou por uns instantes para consertar os estragos feitos na mansão. Depois de colocar tudo no lugar, Sebastian foi fazer companhia ao conde.
O sol já surgia no horizonte quando um choro de bebê se espalhou pela mansão. Aquele som produziu em Ciel uma sensação única e inexplicável de alegria. Ciel encaminhou-se até a porta do quarto de Lizzy, não queria esperar mais.
– Parabéns, conde. É um menino! – disse o médico, trazendo no colo um pequeno bebê de pele rosada embrulhado num lençol manchado de sangue.
Receoso, Ciel pegou o bebê no colo e o pequenino foi parando de chorar aos poucos.
– É meu filho – disse ele a Sebastian, como se só agora, vendo aquele pequeno ser em seus braços, aquela realidade tivesse de fato o tocado. Ele era pai. – É meu filho.
– É sim – respondeu o mordomo. Ele observava mais as reações de seu amo do que a pequena criatura.
Ciel entregou o bebê a Elizabeth. Ela parecia exausta e doente. A mulher segurou o bebê com o cuidado de quem teme quebrar algo. O aconchegou em seus braços e acariciou o rostinho com uma ternura que só as mães são capazes de dar. Contemplou seu filhinho por um bom tempo, era como se nada mais existisse. E foi observando o bebê, que ela notou que ele estava muito quieto. Tentou movê-lo um pouco, mas ele não reagiu.
– E-ele não... Ele não está respirando – falou ofegante.
O médico examinou o bebê e olhou com piedade para a jovem mulher a sua frente.
– Eu sinto muito... Eu não sei o que houve. Acho que o veneno...
– Não, ele só está dormindo. Está um pouco frio, mas é só agasalhá-lo melhor.
– Lizzy...
Naquele momento, Ciel achou que Elizabeth fosse gritar e chorar como fazia quando criança, mas não. A mulher apenas agasalhou mais o corpo inerte de seu filho e o apertou contra o peito. As lágrimas começaram a brotar de seus olhos, silenciosas e sofridas. Ciel conhecia bem aquela dor silenciosa, a pior que existe.
Levou horas para que conseguissem tirar o corpo do bebê dos braços de Lizzy. E quando Bard e Maylene tiraram o corpo do bebê do quarto, Elizabeth caiu em prantos.
– Vai ficar tudo bem Elizabeth – dizia Ciel.
– Por que está tentando me acalmar? Sou uma inútil. Não sirvo nem para lhe dar um filho.
– Elizabeth...
– Melhor seria se eu tivesse morrido... – dizia chorando.
– Nunca mais repita isso – o conde falou sacudindo a loira pelos ombros. – Você é meu lado bom, minha âncora. Sem você já teria me perdido. Nunca mais pense nisso. Nunca mais, ouviu?
Ciel abraçou a esposa, que continuou a chorar no peito do marido.
Ciel sentiu uma mistura de sentimentos ruins. A terrível sensação de perda se misturava a uma amarga sensação de remorso e pena. Sobretudo sentiu uma raiva imensa. E ódio. Alguém mais uma vez tentara destruir sua família. Alguém causara dor a sua esposa. Alguém roubara de seu filho uma vida inteira por viver.
Indiferente à dor da mãe que chorava a perda do filho Sebastian não gostou muito de ver a forma como ela e Ciel se abraçavam. A dor em comum unindo-os, reavivando os sentimentos que um nutria pelo outro. Como demônio, ele não conseguiu sentir pena de Elizabeth, de Ciel ou do pequeno que tivera uma morte tão prematura. Não conseguia compreender o sentimento tão humano que unia o jovem casal naquele momento. Mas um sentimento foi capaz de ter.
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Vinha experimentando muito esse sentimento ultimamente. Sabia que não deveria interrompê-los, os outros servos estavam presentes. Sabia que não ficaria bem ele dizer algo. E já que ele era incapaz de fingir compaixão, achou melhor retirar-se do aposento. Estava preste a sair do quarto, mas algo chamou sua atenção. Sentiu uma energia vinda de seu mestre. Uma aura forte, destrutiva e sedutora como há muito tempo não via em Ciel. Uma energia forte o suficiente para fazer seu corpo vibrar.
– Sebastian.
– Sim, Mestre?
– Não descansarei até que os responsáveis paguem por tudo. Isso é uma ordem: você me ajudará na minha vingança.
– Sim, Meu Lord!
.
.
Sebastian e Ciel desceram até o porão da mansão, onde o invasor estava jogado no chão com os braços e pernas amarrados.
– Pensei que tivessem se esquecido de mim.
– Se me contar tudo o que sabe deixarei você ir.
– Já disse que não sei de nada. Vai para o inferno!
– Sebastian.
– O mordomo fez uma reverência, levantou o homem do chão e encaixou a cabeça dele entre duas placas de ferro de um aparelho estranho. O homem, sem poder movimentar a cabeça, escutou um barulho de engrenagens girando. Logo, as duas placas de ferro começaram a pressionar sua cabeça. Ele começou a entrar em pânico enquanto o conde continuava a observá-lo impassível. Sua cabeça doía com a pressão, percebeu que eles não parariam até que sua cabeça fosse esmagada.
– EU FALO! EU FALO! Mas pare com isso, por favor!
O homem sentiu sua cabeça se desprender do aparelho e caiu com o rosto no chão.
– Estou escutando.
– Como eu disse antes, não sei muito. Eu não era o encarregado da operação, apenas fui chamado para ajudar. Nos disseram que tínhamos de matar alguém, uma mulher grávida. Só nos deram o endereço do local e nos disseram para trazermos reforços e virmos bem armados. Não cheguei a ver de perto quem encomendou o assassinato, mas sei que veio em uma carruagem Post Chaise puxada por quatro cavalos. É só o que eu sei. Juro!
– Já é uma pista. Somente os nobres mais afortunados utilizam Post Chaises com quatro cavalos. Sebastian faça uma lista com todas as pessoas que possuam esse tipo de carro.
– Entendido. E o que devo fazer com este?
– Livre-se dele. Só não o deixe fazer muito barulho, e seja rápido.
– O quê?! Você disse que me deixaria ir. Disse que me deixaria ir!
– Eu menti.
.
.
Undertaker veio ao meio dia, trazendo um pequeno caixão para o bebê. Fizeram todos os preparativos para o enterro no cemitério da mansão.
– Que nome ele teria? – Undertaker perguntou ao Conde.
– O quê?
– Para colocar na lápide.
– Eu não cheguei a pensa... – confessou.
– Phillip – Elizabeth pronunciou o nome em voz baixa. Não chorava mais, apenas tinha uma expressão de profunda tristeza.
– Phillip... – repetiu o funerário. – É um bom nome. Chamar-se-á Phillip.
No final do dia, Undertaker deixou a Mansão Phantomhive com um túmulo a mais, no qual estava escrito:
Aqui jaz
Phillip Phantomhive
(1898 – 1898)
Quando estava bem afastado da Mansão, Undertaker olhou para todos os caixões, urnas e objetos funerários em sua carruagem. Sorriu satisfeito e seguiu cantarolando.
– Agora as coisas ficarão piores, Conde.
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