Phantomhive
24 Os Pecados do Passado – Parte VI
Notas iniciais
Capítulo 24: Os Pecados do Passado – Parte VI
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“Esta estação do ano podes vê-la
em mim: folhas caindo ou já caídas;
ramos que o frémito do frio gela;
árvore em ruína, aves despedidas.
E podes ver em mim, crepuscular,
o dia que se extingue sobre o poente,
com a noite sem astros a anunciar
o repouso da morte, gradualmente.
Ou podes ver o lume extraordinário,
morrendo do que vive: a claridade,
deitado sobre o leito mortuário
que é a cinza da sua mocidade.
Eis o que torna o teu amor mais forte:
amar quem está tão próximo da morte.”
William Shakespeare
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LONDRES, 1898
Estava acabado.
Finalmente tinham se livrado daqueles dois empecilhos que consumiram tanto tempo e lhes causaram tanta dor de cabeça. Mas ainda havia muito a ser feito ali. Tinham que checar todo o local, analisar tudo o que encontrassem e preparar um relatório para a rainha e uma versão para a polícia, que não tardaria a aparecer e a atrapalhar. Ainda havia perguntas sem respostas, lugares para serem reconstruídos e coisas para por no lugar. Ainda havia muito a ser feito naquelas poucas horas de noite que restava, mas todos estavam exaustos e feridos. Sobretudo Elizabeth, que ainda estava inconsciente e cuja alma estava fraca devido a forma repentina e forçada com que Dhalion arrancou o anjo de seu corpo. Sobretudo Ciel, que sangrava muito. Os ferimentos do Conde sangravam tanto, que o odor do sangue penetrava em Sebastian como uma lâmina afiada, aguçando seus sentidos, abalando seu autocontrole, atiçando sua fome.
Sebastian sabia que Ciel permaneceria ali, ignorando a dor, até terminar tudo. Sangraria até a morte. Tão inconsequente e problemático. Felizmente, depois de muito insistir, Sebastian conseguiu convencer Ciel a voltar para a mansão com os outros.
– Você se arrisca demais, Mestre.
Sebastian comentou ao ver a agulha perfurar a pele branca e sair do outro lado, puxava a linha devagar fechando um dos buracos deixados pelas garras de Dhalion no braço de Ciel. O Conde resistia bravamente, sem reclamar. Não houve sinal de lágrimas nem quando Sebastian teve de retirar os estilhaços de vidro de sua pele. Sebastian só conseguiu pensar que demorou demais para chegar até aquela igreja, se Undertaker não tive o atrapalhado... Ciel não estaria tão machucado. Mas Ciel também se arriscara muito. Ele sempre colocou sua vida em perigo para testar e irritar Sebastian, mas agora... Sebastian se perguntava se o jovem ainda o fazia por costume ou se havia ali novas razões para fazê-lo.
Enquanto terminava os curativos, percebeu que Ciel o observava.
Aquele olhar.
Sebastian conhecia e sabia o que cada olhar significava. Irritação, raiva, felicidade, provocação, vergonha, prazer... e tantos outros. Mas aquele em específico lhe intrigava. Aquele olhar, sereno e sem expressão, lhe intrigava e incomodava. Esse olhar surgiu recentemente, mostrava um Ciel mais maduro e que ansiava por mais do que lhe era dado. Parecia que aqueles olhos azuis atravessavam a máscara que Sebastian usava, penetravam no seu íntimo em busca de algo ali, algo que talvez não existisse.
– Algum problema? – Sebastian arriscou perguntar. Mas Ciel apenas meneou a cabeça negativamente sem nada dizer.
Sebastian aconselhou seu mestre a dormir e partiu para resolver tudo o que ficara pendente e retornou antes do sol nascer. Pela manhã, preparou um café leve para o Conde e partiram para falar com a rainha.
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– Agora eu sei qual é a parte ruim de ser o Cão da Rainha – Bardroy estava na cozinha com Finnian e Meylene. Estava sentado sobre a mesa e lia o jornal daquela manhã. Meylene, usando seus óculos novos, trocava os curativos de Finnian.
– Ter de lutar contra seres estranhos e malignos? – Finnian questionou.
– Não. O ruim é ter de apanhar e fazer todo o trabalho sujo para depois a Scotland Yard levar todo o crédito – encarou o jornal, cuja matéria de capa trazia uma foto de Lord Randall e do inspetor Abberline no salão de sacrifício sob a igreja. O cozinheiro amassou o jornal e o jogou no forno em chamas. – Não sei como o Mestre Ciel aguenta.
– Talvez porque ele queira permanecer em sigilo. Por falar nisso – Meylene lembrou –, acho que o Mestre Ciel ainda iria ler esse jornal.
– Ai caramba! – o cozinheiro deu um salto, o cigarro escapou de sua boca enquanto ele tentava inutilmente resgatar o jornal já consumido pelas chamas. – Oh men! Aquele cara vai reclamar até não poder mais.
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Depois da morte de Dhalion, os outros demônios, servos dele, abandonaram os corpos dos humanos que possuíam e fugiram; a Dupla Charles e outros guardas da rainha conseguiram controlar a situação no Parlamento. Na igreja, ou melhor, sob a igreja, Ciel e os outros conseguiram encontrar uma cela onde as outras mulheres sequestradas estavam. Os corpos delas pelo menos. Também encontraram outros tantos corpos deformados de criaturas como a que Lizzy presenciou nascer.
– É estranho e mau, eu sei – a loira chegou a dizer –, mas me sinto feliz, um pouco, por Phillip ter morrido. Aquele demônio disse que me queria para isso. Queria fazer isso com meu filho por vingança. Fico feliz em saber que ele morreu como uma criança humana, amada por mim. O terror nos olhos daquela mãe... Temor do próprio filho...
Eles tiraram todos os corpos dali. E instruíram a polícia sobre o que deveriam dizer. O jornal da manhã seguinte dizia que a polícia tinha encontrado o paradeiro das mulheres e de seu assassino. Dizia que elas foram vítimas de um assassino em série que realizava sacrifícios humanos, mas que todos os envolvidos tinham sido presos e que o assassino em questão cometeu suicídio. Não era tão mentira assim. Justificava as mortes, dava um culpado e um fim ao assassino. Isso faria as pessoas sentirem-se seguras ao andar nas ruas, e uma história envolvendo seitas, assassinatos e rituais era o tipo de sensacionalismo que deixaria os jornais loucos e as pessoas surpresas. Ou seja, assunto para fofocas mais interessantes por um bom tempo. O caso do assassino das grávidas ganhou tanto espaço que o incidente no Parlamento ficou em segundo plano. Em parte porque foi dito que tudo não passou de uma brincadeira de alguém tentando bancar o Guy Fawkes.
Sendo um demônio, Sebastian foi o único capaz de ver e compreender algumas das memórias de Dhalion e conseguiu algumas explicações para Ciel e para a rainha. Ao que parecia, Dhalion tinha encontrado o rei Jorge III em uma batalha e lhe ofereceu ajuda para lutar tantas outras. Mas, por fim, o rei Jorge descobriu a verdadeira natureza de Dhalion e o que ele pretendia, o trono inglês. O rei e o Phantomhive da época conseguiram enganar Dhalion e o baniram. Dhalion se julgava merecedor de algo e jurou se vingar de todos e conseguir seu reino de volta. E ficou preso em lugar nenhum entre o inferno e a terra até um idiota abrir acidentalmente uma brecha pra ele. O resto Ciel já sabia.
Depois de receber o relatório de Ciel sobre o caso, a rainha e o príncipe Eduardo fizeram outra reunião com os embaixadores. Dessa vez num lugar mais reservado, protegido e sem demônios. Todos saíram daquela reunião como bons aliados, com laços reforçados e amizades restauradas. No entanto...
Todos tinham uma nova visão de mundo.
“ A Inglaterra tem um poder que desconhecemos...”
“ Isso nos ajudou a ver o quanto estamos despreparados...”
“ Não sei o que os outros países pretendem fazer, mas o nosso precisa se preparar, se armar.”
“É preciso estar preparado, nunca se sabe...”
“Vimos que não precisa muito para que nossos aliados se voltem contra nós.”
Depois de sair da presença da rainha, Ciel encontrou Lau e Ranmao e os agradeceu pela ajuda. O chinês estava em sua casa de chá, rodeado por mulheres numa sala impregnada com cheiro de ópio. O lugar mais parecia uma sauna de tanta fumaça.
– Você ganhou um ponto extra comigo, Lau. Sua cooperação foi extremamente importante e suas informações precisas.
– Ora, Conde, assim você me deixa lisonjeado. É sempre um grande prazer trabalhar com o Cão da Rainha. Sinto por você ter sido preso, mas passar aquela informação foi a melhor maneira de ganhar a confiança de Weatherfield. Por alguma razão ele tinha um pé atrás comigo.
– Não diga – falou com ironia. Tentava ignorar as moças que olhavam para ele com curiosidade e escondiam os risinhos bobos atrás dos leques. Ciel estava acostumado a ver aquele tipo de reação direcionado ao Sebastian, mas algum tempo parecia que essas atitudes eram dirigidas a sua pessoa também. – Só tome cuidado com suas ações daqui pra frente. Ainda estou de olho em você.
– Como queira. Quero me firmar como um comerciante legal e espero contar com sua ajuda. E, desde já, coloco-me a disposição do Conde para qualquer tarefa futura.
– E qual o motivo da mudança repentina?
– Não estou dizendo que abandonarei todos os meus contatos no submundo. Entretanto recebi uma importante missão há algum tempo. Um grande amigo meu faleceu, primo de quinto grau sabe? E deixou um filho órfão. Acontece que Ranmao e eu somos os padrinhos da criança e uma criança exige atenção e dedicação. Creio que o Conde entenda.
Ciel ficou em silencio por um instante.
– Sim, claro. Faça como achar melhor.
– É sempre um prazer recebe-lo, Conde Ciel Phantomhive – falou fazendo uma reverência. – Tem certeza que não deseja uma massagem de uma das meninas? É uma cortesia minha.
As moças deram mais risinhos e Ciel ficou vermelho.
– Não, obrigado. Vamos, Sebastian!
Ciel pegou sua cartola e saiu seguido por Sebastian. Lau deu mais uma tragada em seu cigarro e soltou a fumaça devagar.
– Uma dupla curiosa esses dois, não? O Conde e seu mordomo.
Ranmao concordou com ele.
Ciel parecia cansado e Sebastian percebia que os ferimentos incomodavam o conde. Insistiu para que voltassem para trocar as ataduras, mas Ciel se recusou. Queria terminar todo o trabalho naquele dia. Sebastian insistiu para que o conde pelo menos o deixasse conferir se os pontos não tinham se rompido. O mordomo teve de refazer alguns curativos ali mesmo dentro da carruagem. Ao chegarem à funerária do Undertacker, Sebastian materializou a foice do shinigami sobre a mesa.
– Como prometido, aqui está a sua foice, intacta. Foi de grande serventia.
– A foice de um shinigami é uma das poucas coisas capazes de matar um demônio. Achei que você fosse preferir banir o possessor? – o funerário comentou tomando sua foice em mãos.
– Essa nunca foi minha intenção. Não iria cometer o erro dos meus ancestrais. Queria garantir que Dhalion não voltasse daqui uns cem anos querendo vingança novamente ou algo assim.
– Isso foi realmente esperto – Undertaker riu. Tenho uma curiosidade. Se o plano do demônio era tomar o corpo do príncipe e subjugar os velhotes políticos e tomar o país, por que ele provocou as explosões no Parlamento? Isso não acabaria atrapalhando as ações dele? Eu sei que demônios gostam de caos, mas pânico e fuga não atrapalhariam os planos deles?
– E atrapalhou. Eu precisava de uma distração que dispersasse os demônios. Precisava dar a Lau a cobertura perfeita para tirar os embaixadores de lá em segurança. Com os embaixadores fora de perigo e os demônios divididos por todos os lados, tínhamos mais chances de pegar Weatherfield.
Um sorriso surgiu nos lábios de Undertaker.
– Então não foi Weatherfield quem provocou as explosões no Parlamento.
– Não. Foi Lau. Sob minhas ordens.
– Sim, muito divertido! Realmente muito divertido! O Conde sempre me surpreendendo. Suponho que a rainha não saiba disso.
– Acabei esquecendo de mencionar esse detalhe. Mas Weatherfield fez tanto estrago que um a mais em suas costas não faria diferença.
– Como esperado do Conde Phantomhive.
– O que descobriu dos corpos que te entregamos? Das crianças?
– Ah, algo realmente muito interessante. Siga-me.
Sebastian e Ciel seguiram o funerário até uma sala, onde havia um dos corpos sobre uma mesa. A criatura tinha o tamanho de uma criança de sete anos. Podia-se ver que era humana, observando bem, mas suas características estavam tão horrendamente alteradas que era possível duvidar. A pele tinha um tom mais escuro do que um defunto normal teria.
– Isto, meus caros, já pode ter sido um humano em algum momento de sua geração, mas não nasceu como um. Isso é uma quimera. Uma forma fracassada. Mas é uma quimera.
– Poderia deixar mais claro?
– É um ser hibrido, Mestre – Sebastian explicou.
– Uma tentativa falha de criar uma quimera natural. O que justifica a profunda irritação dos Serafins com as ações de nosso desgostoso colega Dhalion. Não somente por trazer possessores para cá, afinal demônios sempre encontram um jeito de entrar no Domínio Humano. Os próprios humanos os trazem.
Undertaker analisou uma estante de livro oculta atrás de uma grossa camada de teias de aranha.
– Aqui está! – ele pegou um livro grande e grosso, o jogou sobre a mesa e o abriu diante de Ciel. – Podem existir quatro tipos de quimeras. Tipo Anjo. Tipo Demônio. Tipo Shinigami. Tipo Humano. Há anos muitos têm tentado criar esses seres híbridos. Inclusive eu. Elas podem ser criadas de maneira natural ou artificial. Uma quimera artificial é criada a partir de um ser que já existe, juntado dois ou aperfeiçoando um. Se eu usar parte de um anjo numa quimera, então tenho uma quimera Tipo Anjo, partes de demônio nos dá uma quimera Tipo Demônio e assim por diante. Se eu uso apenas partes de humanos para criar um ser hibrido eu tenho uma quimera Tipo Humano.
– Está dizendo que o que Ash e Angela fizeram com a rainha e... meus pais?
– Exato. Quimeras Artificiais Tipo Humano.
– Você também fez algo assim se bem me recordo.
– Mas só usei mortos. Estou tentando criar algo milagroso aqui. Não sei o que anjos caídos e os demônios pretendem ao criar quimeras. Mas suspeito que usar pessoas vivas e inocentes recém nascidos nesse tipo de experiência tenha irritado os anjos.
– Tentar criar seres híbridos de demônios, anjos ou shinigamis é proibido, todos os que já existiram foram mortos pelos Serafins. Causaram grande estrago – Sebastian completou.
– Você disse que essas crianças são uma tentativa falha de quimera natural, o que significa?
– Quimeras naturais são extremamente raras e poderosas, isso se vingarem. Esse tipo de ser híbrido não é criado artificialmente, nasce híbrido. Sua origem se dá de forma natural. Entendeu?
– Você quer dizer...
– Exato. Mas elas costumam morrer durante a formação ou vivem apenas algumas horas depois de nascerem. Assim como essas coisinhas horrendas que vocês me trouxeram. São poucas as que sobrevivem até a vida adulta. Por isso são raras. Por outro lado as artificiais são mais fáceis de serem criadas, no entanto mais fracas e mortais. Mas pelo que parece, Dhalion e seus companheiros não estavam interessados nessas.
– Isso não faz sentido. O que isso tinha a ver com os planos dele? A não ser que tivesse fazendo isso para outra pessoa ou para outro demônio. Agora nunca saberemos o que eles pretendiam com isso. E espero realmente nunca descobrir.
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LONDRES, 1902
Parecia que finalmente a onda de assassinos em série havia acabado. Há tempos não precisavam mais se preocupar com esse tipo de crime. Muita coisa havia mudado naqueles três anos. A rainha havia morrido no ano anterior, uma grande perda. Eduardo finalmente era rei.
Sob o reinado de Eduardo as cartas para o Cão de Guarda diminuíram. Não significava que a Inglaterra finalmente tinha alcançado o status de reino utópico. Longe disso. Sempre havia problemas no submundo, sempre havia maçãs ruins e galhos podres para serem eliminados. Porém o rei achou por bem não ser tão dependente de seu Cão de Guarda, nem sobrecarrega-lo tanto. E firmou um acordo com o Conde Phantomhive. Delegar uma missão a ele somente quando a polícia realmente se mostrasse incapacitada ou quando fosse necessário sigilo extremo ou quando envolvesse o sobrenatural.
A polícia se mostrava mais eficaz, então Ciel não era mais chamado para todo e qualquer crime. Isso tornou o trabalho do Cão de Guarda do Rei ainda mais secreto e misterioso. Muitos no submundo acreditavam que ele não passava de um mito até serem apanhados. Os casos que tinham alguma ligação com o sobrenatural se tornaram escassos e depois praticamente inexistentes. O rei acreditava que essas criaturas tinham parado de atuar. Ciel não estava tão confiante. Ele matara apenas um demônio. Quantos outros existiriam? Quantos não estariam por aí causando problemas. Talvez esperando o momento oportuno.
No inverno daquele ano, quando tudo estava coberto por um manto branco, Ciel recebeu uma missão deveras simples. Deveria escoltar um prisioneiro de um lugar a outro.
Logo Ciel descobriu que não se tratava de uma simples escolta. Também não era de fato um prisioneiro. Ciel não pôde ver os rostos, nem mesmo olhar de perto, mas lhe pareceram ser duas mulheres. As únicas pessoas que tinham contatos com elas eram Grey e Phipps, que iam com elas dentro da carruagem. Eles deveriam levá-las em segurança até um isolado mosteiro na floresta da Irlanda. Quando Ciel perguntou a dupla Charles sobre a identidade das duas, Grey apenas lhe disse que não tinha permissão para dar mais informações, bastava saber que o trono inglês não poderia mais ficar com a posse delas.
A equipe de Ciel era então formada por ele, Sebastian, Finnian, que ganhara mais discernimento e seriedade com a maturidade, e Elizabeth, que se tornara tão bela quanto perigosa. Bard e Mey tinham ficado na Mansão. Ciel decidira que eles mereciam descanso pelos anos de bons serviços prestados e para desfrutarem do casamento. Só esperava que nenhum intruso se deixasse enganar pelos cabelos grisalhos de Meylene, ela ainda tinha um tiro certeiro. Em todos esses anos, Ciel nunca soube ao certo quantos inimigos tentaram entrar em sua casa, mas não se importava com isso, afinal, seus servos eram pagos para proteger a mansão, não para contabilizar mortos.
Eles partiram em duas carruagens. Grey e as prisioneiras estavam na carruagem guiada por Phipps e Ciel e Elizabeth na carruagem guiada por Finnian, puxando a dianteira. Sebastian ia a cavalo, cobrindo a retaguarda. A maior parte do percurso foi tranquila. Tão tranquila que chegava a incomodar. Ou todo aquele cuidado era deveras exagerado ou havia algo muito errado.
Quando finalmente chegaram à floresta da Irlanda e tiveram que tomar um caminho fora do mapa, as coisas começaram a se complicar. As carruagens andavam muito devagar por causa do solo irregular e de toda a neve. Quando a noite caiu, eles ainda estavam no coração da floresta. Todas as direções pareciam exatamente iguais. A noite ficava cada vez mais fria e escura. Todos sentiam que alguém os rondava e estavam prontos pra se defender. Esperavam ser atacados por tudo, menos por aquilo.
Não lobos comuns. Lobos maiores que os cavalos e de olhos vermelhos. Lobos de pelagem tão branca que se tornavam quase invisíveis na neve. Lobos como um velho conhecido. Como Pluto. Eles atacaram aos bandos, com voracidade e selvageria. Ciel deu ordem para que Sebastian se livrasse deles. Mas eram muitos. Em meio a tiros, espadas e garras, Ciel viu a carruagem com as mulheres ser arremessada num declive, deslizando ladeira a baixo. Ciel subiu num cavalo e desceu atrás da carruagem. Felizmente ela parara ao atingir uma área mais plana sem sofrer grandes danos. Ciel abriu a portinhola perguntando se estava tudo bem. Então ele as viu. Mesmo com pouca luz. Pareciam gêmeas. Mais que isso, seus corpos eram unidos um no outro, como aquelas pessoas em shows de horrores dos circos. Exceto pelo fato de serem bonitas. Não havia horror ali.
– Querem ajuda para levantar? – Ciel estendeu a mão e uma delas o segurou. As duas olharam-no nos olhos.
– Desviou-se tanto do seu caminho, Phantomhive – disse uma delas.
– Sua família deveria proteger as pessoas do mal, agora é só um mal que combate outros – disse a outra.
– Trabalhando para os propósitos de um governante humano.
– Bom... – Ciel começou meio confuso – Alguém tem que fazer o trabalho sujo. Para que os puros permaneçam puros, alguém tem que se sujar por eles.
– Nós sabemos Cão de Guarda do Rei. Sabemos muito sobre você.
– Vimos seu passado e seu futuro.
– Vocês são as videntes que deram aquelas profecias a rainha Victória.
– Nenhum governante deve nos ter em seu poder – disse uma.
– Sim, nenhum.
– Estou vendo – Ciel tentou soltar sua mão, mas elas ainda o seguravam com força.
– Seu futuro é longo, além do que esta vida pode contar.
– Aqueles que causam aflição ainda não foram vencidos.
– Dor e sofrimento nós vemos.
– E um grande mal.
– Sim. Muito grande, irmã.
– Eu não estou entendendo, sobre o que vocês estão falando?
– Sobre tu e o akuma contigo...
E Ciel passou a escutar tudo o que elas diziam.
Quando os outros finalmente se livraram dos lobos, saíram em busca de Ciel. Quando se aproximaram, viram que as siamesas diziam algo ao Conde. Elas se afastaram de maneira desengonçada, suas quatro pernas perdendo a batalha para a neve. Phipps correu para ajuda-las. Elizabeth correu para ver se tudo estava bem com Ciel. Sebastian começou a consertar a carruagem e Finnian trazia os cavalos.
– O que elas lhe disseram? – Grey perguntou discretamente a Ciel.
– Que algumas coisas simplesmente têm que acontecer.
Ciel se afastou e todos seguiram viagem sem mais problemas. Quando finalmente chegaram ao mosteiro, encontraram a sua espera ninguém mais ninguém menos que Iridel. Elizabeth ficou encantada por finalmente poder vê-la e não ser usada de marionete.
– Fizeram um ótimo trabalho. Não se preocupem, aqui elas estarão seguras. Nenhum demônio adentra estas terras.
Ciel sabia ser verdade, visto que Sebastian havia ficado no portão verdadeiramente irritado. Quando voltavam para Londres, Sebastian informou a Ciel que as siamesas que eles escoltaram eram legítimas quimeras naturais.
– De que tipo?
– Tipo anjo.
– Pensei que todas as quimeras fossem criaturas horríveis e grotescas.
– Elas não são exatamente normais.
– Isso foi rude, Sebastian.
– O que elas disseram a você? De verdade?
– Exatamente o que eu disse a Grey.
Ciel sabia que muita coisa não poderia ser evitada. Mas poderia muito bem ser controlada.
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LONDRES, 1904
Ainda viveram outras aventuras, resolveram muitos mistérios, fizeram coisas boas e coisas terríveis, tiveram outras missões, mas a última delas teria um preço muito alto. Naqueles dias, as coisas não andavam muito bem entre mestre e mordomo. Ciel era realmente uma pessoa muito complicada de se lidar.
– Bebendo, Jovem Mestre? – Sebastian perguntou ao entrar no escritório e encontrar Ciel em sua mesa de trabalho fitando o nada. Ciel parecia pálido e cansado. Pelo visto, ficar balançando o líquido vermelho para lá e pra cá dentro da taça era mais divertido que realmente tomá-lo.
– Apenas uma taça de vinho. Para aquecer.
– Há formas melhores de se aquecer.
– Você e seus comentários pervertidos.
– Não vejo perversão alguma. Eu me referia a lareira – o mordomo sorriu para si mesmo enquanto ajeitava a lenha para acender o fogo.
– Humph!
Sebastian atiçou as chamas e se virou para Ciel, que ainda parecia perdido em seus pensamentos.
– Posso fazer uma pergunta?
– Além dessa que acabou de fazer?
Sebastian sorriu e Ciel deu de ombros.
– No que está pensando? Agora?
– Nada.
– Nada?
– É, nada.
– Nada... É que tive a impressão de que está sempre preste a me dizer ou a me perguntar algo. Mas você fica aí remoendo alguma coisa.
– Que maneira de falar com seu mestre. Já disse que não é nada.
– Por que mesmo depois de tudo e depois de todo esse tempo você ainda não confia plenamente em mim? – lhe incomodava o fato de Ciel nunca se abrir com ele, nunca dizer o que sentia ou que pensava. O conde sempre esperava que ele adivinhasse o que havia de errado. Infelizmente ler pensamentos não estava na lista de habilidades de um demônio.
– Que absurdo está dizendo? É claro que confio em você.
– Não. Você me ama. Confiar e amar são duas coisas completamente diferentes – Sebastian falou sem pensar. E pelos olhos semicerrados do outro homem, soube ter dito a coisa errada. Mas em vez de gritar ou brigar, Ciel sorriu.
– Então você deve confiar muito em mim, não é? O quê? Não vai dizer nada? Nenhuma resposta sarcástica? O que você sente por mim, Sebastian? O que realmente sente?
– Não faça isso, Ciel.
– Isso o quê? Questionar se você sente? – Ciel não gritava. Ele falava tranquilo. Encarando Sebastian com aquele olhar.
– Eu sou um demônio.
– E o que há com isso?
– Não pode exigir de mim mais do que eu já lhe dou...
– E o que você me dá? Atenção? Tempo de vida? Servidão? Lealdade? Sexo? Acontece que eu sou um humano. Então, seu demônio idiota, me perdoe por involuntariamente necessitar de algo tão efêmero.
– E do que você precisa?
– Eu preciso de... de... certeza.
– Certeza de quê? De que eu te amo? É esse o problema? Se eu o dissesse, ainda assim você teria dúvidas. Mesmo que eu jurasse dizer a verdade, você não saberia se eu realmente estava dizendo a verdade. E que diferença faria?
Ciel olhou para ele zangado, levantou-se e foi em direção à porta.
– Esquece.
– Eu tenho um mestre realmente muito egoísta. Exige ouvir de mim o que ele mesmo nunca ousou dizer.
O conde parou com a mão na maçaneta, sem olhar para o mordomo.
– Não estou exigindo nada. Só gostaria que você fosse mais... verdadeiro.
Sebastian suspirou pesadamente.
– Eu não saberia dizer se estou sendo sincero. Se eu estaria sendo verdadeiro comigo mesmo, quero dizer. Não pode querer que um demônio afirme possuir um sentimento que ele, por natureza, desconhece. Espero que entenda. Por enquanto, tudo o que eu posso dizer que sinto, e estou convicto disso, é que gosto de estar com você, Ciel Phantomhive. Quer você acredite ou não.
Ciel olhou para ele com o rosto levemente corado. Caminhou até o mordomo e beijou-o mui ternamente. Depois disse com um sorriso tímido:
– É o suficiente.
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Elizabeth saboreava um excelente chá no jardim. Apreciando o cheiro das rosas e uma leve brisa de fim de tarde. Tentava ler Orgulho e Preconceito, mas era vez ou outra interrompida por Finnian e Bard, que discutiam qual a melhor maneira de podar os arbustos do jardim. Provavelmente, Sebastian teria que plantar novos arbustos a noitinha.
Enquanto ria da atrapalhada jardinagem dos servos, a mulher viu o cavalo de Ciel voltar sozinho. O animal parecia inquieto. Bard e Finny pararam o cavalo segurando-o pelas rédeas; também estranharam a ausência do amo. Elizabeth levantou-se, colocando o livro sobre a mesa, percorreu os olhos pelas colinas e avistou uma forma azul em meio ao verde da vegetação rasteira. Ciel estava caído. A mulher imediatamente gritou por Sebastian, o qual apareceu com rapidez impressionante. Tendo apanhado Ciel, o mordomo, seguido por todos, repousou o corpo do conde no sofá da sala de visitas.
Ciel estava com um sangramento na testa, talvez por cair do cavalo. Sebastian pediu que Meylene trouxesse álcool e gases para fazer um curativo. Depois de prestar os primeiros socorros, ele finalmente conseguiu reanimar o conde.
– Ciel, o que houve? – Elizabeth apressou-se a perguntar.
– Estou bem. Não foi nada.
– Como nada? Você caiu do cavalo.
– Foi só uma tontura. Deve ter sido o calor. Estou bem.
– Não! – Sebastian o interrompeu. – Você está um pouco febril. É melhor descansar.
– já disse que estou b... – Ciel tentou replicar, mas foi interrompido por um acesso de tosse, o qual roubou-lhe completamente o ar, fazendo-o desmaiar novamente.
Quando recuperou a consciência, já estava em seu quarto e podia ver da janela o céu noturno e estrelado. Tentou escapar da cama umas duas vezes, mas fora impedido, ora por Elizabeth ora por Sebastian. Pela manhã, quando esperava estar revigorado, acordou com mais febre e muita tosse. Dessa vez não havia desculpas, nem podia mais disfarçar. Sebastian mandou buscar um médico.
– Agora não tem mais jeito – Ciel falou com seus botões.
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– Respire. Inspire.
Ciel tentava fazer o que o médico lhe dizia, porém o simples ato de respirar era tão incômodo quanto o toque gelado do estetoscópio em suas costas nuas. Sempre que tentava respirar fundo, Ciel tossia. Elizabeth estava ao lado de Sebastian, apertando o leque entre as mãos. Pela expressão de Sebastian, Ciel sabia que o mordomo estava, no mínimo, chateado por ter sido enganado. O médico terminou os seus exames e aconselhou que Ciel repousasse; pediu para conversar em outro lugar com Elizabeth e Sebastian. Enquanto abotoava a camisa, o conde bufou emburrado com a situação.
– Não há dúvidas, é tuberculose.
O médico informou. Elizabeth levou as duas mãos à boca.
– Eu pensei que fosse a asma, ele sempre...
– Isso é comum. Os sintomas são geralmente muito parecidos, fáceis de serem confundidos. Mas é raro um nobre como ele pegou essa doença, ela está mais restrita as classes mais pobres.
– Ele fez uma visita às fábricas há algumas semanas, passou um bom tempo entre os operários e também com os trabalhadores das docas – Sebastian tentou dar uma explicação que não revelasse o fato de Ciel ter ficado um bom tempo mergulhado no meio da periferia de Londres, disfarçado entre o tipo mais miserável e desprezível de gente, com todos os sentidos que essas palavras pudessem ter. Diga-se de passagem, as condições de higiene e de saúde das periferias eram as piores possíveis.
– Se ele fez isso é possível que tenha se contaminado dessa forma. Assim como a gripe, a tuberculose se espalha pelo ar, o conde deve ter inalado os germes da tuberculose de algum operário contaminado. Pelo que me disse, se ele já sofria de asma, seus pulmões são mais frágeis que o normal, isso explica o rápido avanço da doença. Gostaria de poder dizer outra coisa, mas, na realidade, o caso dele é muito grave.
– Não há uma cura? Um remédio? Algum tratamento... – Lizzy perguntava aflita.
– Infelizmente, senhora Phantomhive, ainda não existe uma cura. Soube que existem algumas pesquisas na França, mas estão longe de conseguir algo. Por enquanto, a única coisa que posso fazer é prescrever alguns antibióticos que possam ajudar. Recomendo que ele não faça muito esforço, nem se exponha ao frio. E que separem as coisas de uso pessoal dele, para não gerar riscos para os demais moradores da casa. Tudo o que podemos fazer por enquanto é torcer pra que a doença não avance mais. No entanto... por mais que consigamos protelar, os pacientes sempre...
– Não! Não diga isso. Eu proíbo! – Elizabeth falou decidida.
– Bem, algumas famílias escolhem internar os doentes em um estabelecimento especializado, assim os parentes ficam livres do risco de contágio e os pacientes recebem o tratamento adequado. Se a Lady estiver interessada...
– Um estabelecimento especializado, você diz – Sebastian começou. – Está sugerindo que o internemos num sanatório?
Diante do olhar ameaçador do mordomo, o médico gaguejou.
– N-não, claro que não. Claro que não seria o melhor lugar para o conde, eu estava apenas informando que algumas f...
– O Conde Phantomhive permanecerá aqui. Obrigado por sua consulta doutor. Irei acompanhá-lo até a saída.
Que presunção daquele humano, colocar Ciel num sanatório, Sebastian sabia muito bem como esses lugares tratavam de seus pacientes, estes só saiam de lá de uma forma: mortos.
Antes de voltar para a mansão, Sebastian suspirou. Como seu mestre era teimoso e orgulhoso! Sebastian sabia que ele não estava bem, mas Ciel insistiu que era a asma. Pensando nisso agora, o akuma não sabia se Ciel realmente conseguira enganá-lo ou se ele mesmo quis acreditar na mentira. Qual a diferença entre um e outro? A primeira opção significava que seu mestre estava cada vez mais astuto (o que era admirável) e Sebastian mais descuidado. A segunda opção era mais preocupante, querer ser engado, querer acreditar numa mentira era uma atitude tola, humana. Fora isso? Sim. Ele sabia que seu mestre estava pior que o normal, sabia que não podia ser apenas a asma, mas preferiu acreditar nas desculpas de seu mestre do que acreditar que ele não estivesse bem. Foi uma escolha imprudente e passional; ele errara, e seu mestre sofreria as consequências desse erro.
Conversou com Elizabeth e decidiram esperar que Ciel se recuperasse para dar a triste notícia. Sebastian proibiu que os empregados fizessem barulho perto do quarto do conde. Ciel repousou o resto da tarde, quando acordou, Elizabeth fez companhia ao marido até o anoitecer. A mulher esforçou-se para ser uma boa adversária no xadrez, pois se Ciel ficasse entediado tentaria sair da cama.
À noite, Sebastian preparou uma sopa leve e levou até o quarto do conde juntamente com os remédios. Quando entrou no aposento, encontrou Ciel lendo um livro.
– Lendo o livro do mestre Arthur novamente? – perguntou enquanto colocava a colher de sopa ao lado do prato e dobrava o guardanapo timbrado. – Achei que ainda estivesse dormindo.
– Embora seja extremamente entediante ficar preso aqui, ainda não consegui dormir.
Ciel sentou-se a mesa e encarou o prato de sopa incrédulo.
– Onde está a comida de verdade? Estou doente e você me prepara isto?
– O Mestre deve comer comidas leves. Pelo menos por hoje.
Ciel tomou a sopa em silêncio, observando o mordomo em pé a sua frente.
– Então... – limpava a boca com o guardanapo – o que o médico disse?
– Que o Mestre foi muito descuidado ao se expor de maneira tão inadvertida ao sol forte, sabendo que estava resfriado. Sua asma realmente piorou muito. Ele prescreveu alguns remédios e se obedecer às orientações, logo estará saldável como nunca.
Ciel fitou Sebastian com certa curiosidade.
– O médico disse isso?
– Sim.
– Quando ele disse isso? Antes ou depois de diagnosticar tuberculose?
Sebastian encarou os olhos azuis do jovem homem a sua frente.
– Ouviu o médico falando ou Lady Elizabeth não conseguiu ficar de boca fechada?
– Nem um nem outro. Eu já sabia. Há umas duas semanas. Lembra quando o mandei acompanhar Lizzy até a Srtª Hopkins para fazer um vestido? Naquele dia, pedi ao Finnian que me levasse à cidade e de lá fui a um médico, foi quando eu soube.
– E ainda assim continuou a por em risco a sua saúde.
– Eu sabia que você não deixaria que eu concluísse o caso se soubesse o que eu tinha e que eu poderia piorar. Além do mais, que diferença faz saber antes, saber depois? Não há cura.
Ciel sentou-se na cama afofando um travesseiro.
– E isso não lhe preocupa nem um pouco?
– Por que deveria? Todos os humanos morrem. Eu já devia ter morrido há muito tempo, umas duas vezes, e não morri, graças a você. Bem, agora, acho que não há o que você possa fazer a respeito. De qualquer forma, se eu não morresse por essa doença, morreria de velhice mais tarde; acho até melhor assim. Veja pelo lado bom, poderá finalmente comer a minha alma...
Sebastian movera-se tão rápido que Ciel nem pôde ver quando o mordomo mudou de posição e apertava seu queixo erguendo a cabeça do mais jovem sentado para encará-lo. Quando falou sua foz era a de quem ralhava. Seus olhos vermelhos brilhantes.
– Acha mesmo que é isso que eu quero? – Ciel o encarou com uma expressão raivosa, mas não respondeu. – Se eu o quisesse morto já teria feito isso. Você vai morrer! Não é possível que não se importe!
– Tsc! – Ciel livrou-se da mão do mordomo e desviou o olhar. Seu semblante adquiriu um ar mais pesado e tristonho. No instante em que viu a atitude do homem, Sebastian arrependeu-se de suas palavras.
– Não quero perder você.
Ciel falara num sussurro, olhando para as mãos sobre os joelhos. Sebastian segurou-lhe as mãos e ajoelhou-se ao pé da cama, lembrava-se de quando as pernas de Ciel ficavam penduradas alí, seus pés nem alcançavam o chão. Estranhamente, começou a lembrar-se de vários momentos com seu mestre, de todos os tamanhos que ele teve, de todas as suas dores e alegrias, como se o filme da vida daquele conde passasse diante de seus olhos.
– Perdoe-me Mestre. Não quis ser rude. – Sebastian notou que, assim como ele fez há poucos minutos, Ciel também tentara enganá-lo, tentara fazer parecer que ele não se importava, tentara parecer forte.
Ciel olhou para o rosto do mordomo com ternura, acariciando seu rosto.
– Deite-se comigo esta noite?
– Você precisa descansar.
– Podemos fazer devagar – falava desfazendo a gravata do outro. – Desde o início desse último caso não ficamos juntos. Você não sente falta?
Sebastian até pensou em inventar outra desculpa e fazer Ciel descansar adequadamente, mas não resistiu ao vê-lo desabotoar o próprio chemisier. O mordomo livrou-se do fraque e começou a beijar seu mestre lentamente, percorrendo com as mãos a forma mais madura daquele corpo humano, sentindo o calor que emanava dele. Sentia os dedos de Ciel mergulharem em seus cabelos e seus lábios beijarem-lhe o pescoço, seu joelho pressionar propositalmente uma parte de seu corpo. Como não era humano, esse tipo de ralação não lhe fazia falta realmente; mas verdade seja dita, Ciel sabia ser bem fogoso quando queria, e Sebastian não perderia essas oportunidades.
Algum tempo depois, quando estavam deitados na cama, com Ciel repousando a cabeça em seu peito, Sebastian começou a pensar.
– Está acordado, Mestre?
– Já disse para me chamar de Ciel quando estivermos sozinhos – grunhiu sem levantar a cabeça. –O que é?
– Se houver um meio de permanecermos sempre juntos, você faria isso?
– Sim.
– Mesmo que houvesse consequências?
– Meu destino é somente um. Da morte para o inferno. Um dia terei que pagar por meus pecados mesmo, então não fará diferença cometer mais alguns.
Sebastian sorriu.
– Tem certeza disso?
– Deixe-me dormir, Sebastian – falou bocejando. Estava muito cansado pra continuar acordado.
O akuma apertou mais o homem em seus braços, depositando um beijo no topo de sua cabeça. Sebastian não gostava muito de perder. Com certeza não perderia Ciel, não importava o que fosse preciso fazer.
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Vestia seu casaco preto e vagava pelas ruas mal iluminadas de Londres. Poderia fazer aquele percurso em poucos segundos, mas, naquela noite, caminhava devagar. Seus pensamentos pareciam se misturar com a névoa densa que corria ao lado de seus pés, cobrindo as ruas de branco. Finalmente chegou ao seu destino. Entrou na funerária e procurou pelo shinigami que, como sempre, nunca estava onde devia, ou seja, recebendo os clientes adequadamente.
– Ora, ora, ora... A que se deve a honra dessa repentina visita, mordomo? Algum caso novo que não fiquei sabendo?
Undertaker saiu de dentro de um de seus caixões, segurava um pote de biscoitos que mais parecia uma urna funerária. Um humano teria se assustado com a aparição inusitada, mas Sebastian apenas revirou os olhos.
– O Conde Phantomhive está doente.
– Oh! Espero que não seja nada muito sério.
– Infelizmente é. De alguma forma, ele foi contaminado no último caso que resolvemos. A doença é fatal.
Undertaker levou o dedo com a comprida unha à boca, pensando um pouco na notícia. Depois, começou a rir.
– Onde está a graça? – Sebastian perguntou descontente.
– Só achei interessante a ironia que é o demônio, que causou a morte de tantas pessoas ao espalhar a Peste Negra, perder sua alma mais desejada para a Peste Cinza. Hihihi...
– Eu não disse que ele está com tuberculose.
– Não era preciso. De morte eu entendo. Ultimamente muitos chegaram aqui por essa mesma causa. Os negócios estão indo muitíssimo bem. Estão sim! Mas você ainda pode comer a alma dele mesmo assim. Doenças humanas não afetam a nós, imortais. A não ser... A não ser que você tenha uma razão para não fazer isso – Undertaker sentou-se sobre outro caixão e cruzou as pernas encarando o akuma, mordeu um biscoito. – Sabe que sempre fiquei curioso em saber por que você escolheu ficar com o Conde? É uma relação bem interessante essa que você desenvolveu com o humano; não estou julgando, estou apenas dizendo que é uma surpresa. Mas por que exatamente você veio aqui?
– Se eu comer a alma do Mestre, ele deixará de existir. Entretanto se eu não fizer isso e ele morrer, haverá a possibilidade dele voltar.
– Você fala de reencarnação? Você sabe o que acontece com os reencarnados. Mesmo que ele voltasse, não há como você prever quando isso ocorreria, nem como ele voltaria.
– Sei disso. É por isso que vim aqui. Quero saber se existe alguma forma de controlar isso.
– Como eu disse, não há como você prever... – Undertaker tamborilou os dedos sobre a madeira trabalhada do ataúde. – Talvez haja uma maneira, o contrato de vocês poderá até ajudar, mas há riscos. Além disso, o Conde teria que concordar. E o mais importante, o que eu ganharia com isso?
– O que você quer? – estava demorando. É claro que o shinigami pediria algo em troca. O funerário riu o que pareceu ser horas para o impaciente Sebastian.
– Duas coisas. Primeiro, gostaria de eu mesmo fazer um ataúde de luxo para o Conde. Será o mais lindo que essa Londres já viu. Segundo, gostaria de algo seu.
Sebastian olhou desconfiado para o funerário.
– E o que seria?
– Algo que não lhe fará falta. – Undertaker guardou o pote de biscoito numa estante cheia de urnas semelhantes. Ainda de costas para o akuma, ele falou devagar. – Um pouquinho de sangue. Só um tantinho de nada.
– Pra que você quer isso?
– Pra nada em especial. Estou tentando fazer um elixir e sangue de demônio é um dos ingredientes, infelizmente nem todos são tão generosos quanto você.
– Se fizer algo errado com isso o problema será todo seu.
– Não se preocupe. Certo. Vamos precisar de uma bruxa e de um livro. Há um livro na Biblioteca dos Shinigamis intitulado O Ciclo das Almas. Esse livro nos dará as informações necessárias que precisamos. No entanto eu não posso ir lá pega-lo.
– Talvez eu conheça alguém que possa.
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– Ei, Sebas-chan, quem você pretende reencarnar com isso?
– Meu mestre – o akuma não se alegrava muito de ter que contar com a ajuda daquela criatura, mas, como dizem os humanos, medidas desesperadas....
– Quuuuuê?! Aquele fedelho?
– Em que mundo você vive? Ele já tem 27 anos .
O shinigami continuava como sempre, seus longos cabelos e vestes vermelhas. Os gestos tão exagerados como nunca. Ficava rodeando e se balançando em volta de Sebastian, tentando chamar-lhe a atenção. O akuma o ignorava e continuava caminhando.
– É que eu só consigo enxergar você, Sebby – falou com uma voz manhosa se apoiando no ombro do outro.
– Então deveria arranjar óculos novos, sr. Grell. E, por favor – Sebastian tirou as mãos de Grell de seu ombro –, é extremamente inadequado ficar invadindo o espaço pessoal das pessoas.
– E a minha recompensa por pegar o livro? Você disse que me daria algo que me faria lembrar de você todos os dias.
Sebastian parou de caminhar e virou-se para o shinigami com um olhar misterioso. O ruivo ficou completamente corado.
– Ah, sim; feche os olhos.
– AAAAAAAAAAHHH! É hoje – Grell fechou os olhos fazendo biquinho.
– Aqui está.
O ruivo abriu os olhos e encarou Sebastian completamente confuso.
– O que é isso? – segurou o embrulho que o akuma lhe oferecia e começou a desembrulhar.
– Um porta-retratos com uma foto minha. Poderá me olhar a vontade. Vai lembrar-se de mim todos os dias – o moreno falou com um sorriso faceiro.
O Shinigami soltou um gritinho agudo. Uma mistura e irritação e choro.
– Isso não é justo. Você me enganou. É como todos os homens da minha vida, você só queria se aproveitar da minha inocente pureza feminina.
– É impossível se aproveitar de algo que não existe.
– Ah! Você é c-r-u-e-l, Sebastian. Hey! Onde você está indo?
– Undertaker.
Os dois entraram na funerária e encontraram Undertaker e Ciel. No primeiro momento, Grell ficou encantado com o conde, pelo visto não o reconhecera, e jogou todo o seu charme para ele.
– O que você está fazendo? Sou eu. Phantomhive.
– O quê?! O pirralho anão!
– O que foi que você disse?!
Enquanto Ciel e Grell discutiam, Sebastian entregou o livro a Undertaker que começou a lê-lo com grande interesse. Seus olhos verdes brilhavam de entusiasmo. Era uma experiência estupenda e ele realmente gostaria de realizar, de ver funcionar. Duas discursões depois, o funerário finalmente pôde dar uma explicação. E como ele suspeitava, o contrato daqueles dois seria de grande ajuda. Ele estava com sorte, ou melhor, o Conde estava com sorte.
– O selo do contrato mantém vocês interligados. Mesmo que o conde morra, sua alma continuará pertencendo ao akuma. Essa ligação será muito útil – ele começou a explicar. – Quando um humano morre, sua alma é coletada por um shinigami. Depois disso as almas são catalogadas e todas as suas memórias são registradas. Mas as almas não permanecem com os shinigamis, os anjos as levam para o domínio deles, e elas só voltam para cá reencarnadas. De alguma forma, os anjos purificam as almas. Quando alguém reencarna, não se lembra do que ocorreu na vida anterior. É uma nova chance, uma vida iniciada do zero, literalmente. No entanto alguns acabam cometendo os mesmos erros, fazendo as mesmas escolhas erradas.
– Não seria mais fácil se pudéssemos lembrar da outra vida? – Ciel indagou.
– Seria. É aí que está o perigo. A essência de uma alma é composta pelos sentimentos e pelas lembranças. A morte provoca um trauma na alma. Se alguém morre de causas naturais, como velhice, sua alma não sofrerá grandes danos. Mas se for uma morte inesperada ou violenta, sua alma terá um ponto frágil. Lembrar de um momento assim pode causar danos imprevisíveis. Além disso, as pessoas nunca são exatamente iguais em todas as suas reencarnações. A mudança mais comum é na aparência. Raramente alguém nasce com as mesmas características físicas. País, contexto histórico, social, político, familiar, tudo pode moldar e diferenciar a essência de uma alma. Você poderá nascer em qualquer lugar do mundo, poderá ter outras formas, poderá ter outras concepções de moral, de certo e errado. E se você, em outra vida, não concordasse de forma alguma com suas escolhas de agora, e se quisesse quebrar o contrato?
– Isso seria possível?
– Como eu disse, as reencarnações são imprevisíveis. Vocês precisam de um meio de controlar todas essas imprevisibilidade. É aqui que entra o processo do Despertar. É um encantamento que permite recuperar todas as memórias sem causar grandes danos a alma. Eu nunca fiz tal coisa, e nunca conheci um reencarnado que passou por um Despertar. Mas sei que já foi feito. Com êxito e sem êxito. Cabe a você decidir, Conde.
– Irei pensar nisso.
– Lembre-se de que podem precisar de você no futuro.
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Na maior parte do tempo, Ciel se sentia muito bem. Nem parecia estar doente. Isso até vir aquelas crises de tosse e falta de ar. Com o tempo a doença foi vencendo a batalha. Ciel perdeu peso e ficava cada vez mais pálido. Ficava irritado por se sentir tão vulnerável. Mas não havia o que fazer. Tentava parecer bem, e todos tentavam anima-lo, mas ele percebia que todos estavam preocupados e tristes por ele. Era também muito doloroso ter de manter certa distancia de todos. Sebastian era a única pessoa com quem ele podia ficar por horas. O único que podia ficar realmente próximo.
Depois de perceber que as viagens ao trabalho o deixavam mais cansado e doente, Ciel começou a treinar Elizabeth para cuidar dos negócios em seu lugar. Lizzy mostrara muitas vezes que era capaz de fazer isso sozinha. Então Ciel a preparou para quando ela realmente tivesse que cuidar de tudo sozinha.
Depois de saber que Ciel estava doente, não houve uma noite em que Sebastian não tenha dormido com ele. Sempre velando o seu sono. Mesmo adulto, quando Ciel dormia, seu semblante era tão sereno e gracioso quanto era quando criança. Ele sempre dormia segurando a camisa de Sebastian. E quando fazia muito frio, Sebastian sentia Ciel encostar seus pés aos dele. Sempre que se beijavam por um longo tempo, Ciel terminava o beijo com um beijinho nos lábios. Sempre que acordava ele dava bom dia com os olhos e um singelo sorriso. Eram muitos pequenos detalhes que o akuma ficava repassando em sua mente.
– Estou morrendo, Sebastian. Deste inimigo você não pode me salvar.
– Mas talvez possamos enganá-lo.
Os dois estavam deitados um de frente para o outro. Já estavam conversando há um bom tempo.
– Quando você poderá finalmente saciar-se com minha alma?
– Por que embriagar-me com o êxtase de um breve momento se posso degustar do teu sabor único todos os dias?
– Mas os meus dias não são eternos. E agora eles se abreviam cada vez mais.
– Mas uma razão para concordar com o que eu lhe propus.
– A reencarnação.
– Do que tem medo?
– Temo voltar tão diferente que você não me reconheça. E se eu não quiser me lembrar de tudo isso que vivo agora?
– É um risco que temos de correr. Mas com o ritual do Despertar você recuperará todas suas lembranças, será como se estivesse dormindo. Poderá ser o Cão da Rainha mais uma vez. Terá a chance de ver como o mundo estará daqui a alguns anos.
– Acho que você gosta mais dessa vida do que eu.
– É divertida.
Ciel sorriu com ele. Respirava devagar. As olheiras lhe davam um ar cansado.
– Vai sentir minha falta?
– Quer saber a verdade? Eu não sei. Nunca me importei com humano algum. Mas estou há tanto tempo ao seu lado, Mestre, que não faço a mínima ideia de como reagirei a sua ausência. Mas... Quer saber o que eu gostaria? Gostaria muito de sentir sua falta.
– Seria uma experiência nova. Mas e se você encontrar outro mestre melhor que eu?
– Isso é praticamente impossível.
– Mas e se ele tiver uma alma umas dez vezes melhor que a minha, tão saborosa que você não consiga resistir?
– Neste caso, eu devoraria a alma dele e ainda continuaria sendo um servo Phantomhive.
– Sabe que estamos falando apenas se isso realmente funcionar?
– Já é uma esperança.
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– Os pecados do passado deixam marcas profundas – dizia Ciel em frente ao espelho, deslizando os dedos pela cicatriz em suas costas. Tinha o olhar perdido e o semblante triste. – Espero que sejam profundas o suficiente.
Sebastian se aproximou dele.
– Esta cicatriz não será mais que uma lembrança ruim. Mas isto... – Sebastian virou o corpo de Ciel de frente para o espelho, e apontou para o olho com o selo do contrato – Isto será seu verdadeiro estigma. O elo que nos manterá conectados. – Sebastian deslizou as mãos pelos ombros do homem; Ciel ainda observava a imagem dos dois no espelho. No fim, não conseguira ser tão alto quanto Sebastian, alcançando apenas a altura do ombro do moreno. Olhou para seu próprio cabelo, que Sebastian acabara de cortar. Estava bom assim. – Que blusa gostaria de vestir hoje?
– Escolha uma pra mim – Ciel falou sentando-se no sofá da sala de vestir.
– Esta azul. Você sempre ficou muito bem de azul.
Sebastian ajudou Ciel a colocar a blusa e o colete. Como de costume, Ciel deixou Sebastian fazer o laço de sua gravata.
– Que vergonha, mestre, vinte e nove anos e ainda não sabe fazer um laço numa gravata – Sebastian disse sorrindo.
– Humph! Não seja insolente, Sebastian – Ciel disse se afastando, ajeitando as abotoaduras e tossindo um pouco.
– É melhor levar seu casaco, fará frio. – Sebastian ficou olhando Ciel enrolar o cachecol em volta do pescoço. – Podemos ficar, não precisa ir se não quiser. Podemos esperar até que você se sinta melhor.
– E se eu só piorar? É melhor irmos agora. Sabe que há apenas uma maneira de me fazer desistir.
– Não vou comer sua alma. O mestre sabe que não vou fazer isso. Por que fica insistindo?
– É que às vezes parece que estou sendo injusto com você.
– Eu não vejo dessa maneira.
– Então prosseguiremos com nossos planos. Não tenho medo, Sebastian. Contanto que você esteja comigo. Agora vamos, não fica bem demorarmos tanto.
Sebastian fez uma reverência, pegou o casaco e as luvas de Ciel e o seguiu pelo corredor da mansão. Os dois desciam as escadas, os outros cinco já aguardavam no salão de entrada. Elizabeth foi a primeira a se virar. A mulher tinha os cabelos presos num penteado bonito. Ciel a cumprimentou e beijou-lhe a mão.
– Elizabeth, tu sabes que não precisa fazer isso.
– Ora, Ciel. Sabes muito bem que sou tão teimosa quanto você. Talvez até mais. Já estou decidida; todos nós estamos.
Os três servos confirmaram com a cabeça. Quando Ciel decidiu concordar com toda a história de reencarnação, funcionasse ou não, Elizabeth e os três servos insistiram em participar também. Afinal todos juraram proteger e servir Ciel sempre. Se Ciel fosse nascer em outra época, ele com certeza precisaria de ajuda como Cão de Guarda. Por sua vez, Ciel fez todos os planos necessários para que todos se saíssem bem nesse tempo que lhe restava e num possível futuro próximo. Claro que o futuro dependeria muito da cooperação dos servos e principalmente de Sebastian.
Ciel suspirou. Olhou para Sebastian e sentiu segurança.
– Muito bem. Senhor Undertaker?
O Shinigami tirou o chapéu e fez uma mesura exagerada para Ciel que apenas o ignorou.
– Se alguém quiser desistir esse é o momento. – Undertaker falou e olhou para todos; um sorriso perpassou por seus lábios finos. – Não? Ninguém? Senhor Akuma... Você mostra o caminho.
Sabia que tal viagem poderia fazer Ciel piorar. Mas viajaram assim mesmo. Foram até a Alemanha, atrás de uma jovem bruxa que Ciel conhecera em uma de suas missões. Undertaker mostrou o livro a jovem e ambos passaram um dia inteiro apenas estudando como o ritual deveria ser feito. Depois de ter certeza de que conseguiria fazer como dizia o livro, ela realizou o encantamento que manteria as almas dos cinco humanos interligadas. Os três servos e Elizabeth juraram lealdade eterna a Ciel. Um pacto de sangue.
– Agora o destino de todos vocês é um só. Unidos por um laço que não pode ser desfeito – dizia Sieglinde, a bruxa. – Todos sempre existirão na mesma época. E assim que completarem dez anos de idade o processo de Despertar começará. Vocês terão sonhos e lembranças de suas vidas agora. O encantamento final pode ser feito por qualquer pessoa e deverão recuperar todas as memórias originais.
– E se não passarmos pelo processo do Despertar? – Elizabeth perguntou.
– Todos os humanos lembram de algo de sua vida anterior, mas sem o ritual que lhes ajude a lembrar, tudo não passa de um sonho muito realista ou de um simples dejà vú. Com vocês será o mesmo. Sem o Despertar nunca saberão que seus sonhos são mais que isso. Suas almas estão ligadas a do Ciel. Então quando cada um de vocês nascerem, Sebastian saberá. Mas não se preocupem isso não dará a ele direito algum sobre suas almas.
– Menos mau – comentou Bard.
– Mas lembrem-se: memórias traumáticas poderão ter um efeito inesperado sobre o corpo durante o processo, então tenham cuidado.
Eles chegaram a ficar uma semana na Alemanha antes de voltarem para Londres. Voltavam animados com a ideia de que todos eles poderiam de alguma forma vencer a morte. Animados com a ideia de que mesmo que qualquer um deles partisse, havia a possibilidade de se verem novamente. Assim que chegou ao seu escritório, Ciel pôs-se a planejar o futuro do que ele passou a chamar de Clã Phantomhive. Uma forma de garantir o futuro de todos e de manter a atuação do Cão de Guarda, mesmo depois de sua morte. Depois de seu renascimento.
Só conseguia pensar que estava fazendo isso tudo por Sebastian. Por ele e pelas palavras das gêmeas profetisas.
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LONDRES, 1906
Naquela noite o sono do Ciel foi inquieto. Tossia muito e tinha falta de ar. Se mexia constantemente e reclamava de frio. Em um dado momento ele acordou e disse:
– Hey, Sebastian? Você disse que nunca comeria minha alma, certo? – mantinha com todo o esforço um tom zombeteiro. Como se tudo não passasse de um infortúnio qualquer.
– Sim. Eu disse.
– Então... Até devorar a minha alma, você é meu mordomo: Sebastian Michaelis!
Ele falou realmente sério. E Sebastian sorriu satisfeito.
– Yes, My Lord!
Depois disso ele não acordou mais, nem por um instante. O sono o mantinha preso. O cansaço o mantinha inconsciente mesmo nas crises de tosse que o fizeram expelir sangue pela primeira vez. Sebastian percebeu que havia algo errado. Mais que isso, sentiu que o momento se aproximava. Sebastian segurou a mão de Ciel e acariciou lhe a cabeça numa tentativa de lhe dar algum conforto. Quanto mais a respiração de Ciel enfraquecia, mais Sebastian apertava-lhe a mão como se pudesse impedir que sua alma se desprendesse ou se esvaísse. Como se pudesse mantê-lo ali com esse simples gesto.
Sebastian já vira a morte de perto muitas vezes. Na maioria das vezes ele fora o causador dela e sabia muito bem que tais atitudes eram inúteis. Eram nada quando a hora estava chegando. Dessa vez não adiantava dar seu sangue a Ciel. No fundo, Sebastian sabia que o conde odiaria ter sua vida prolongada apenas para definhar mais ainda pela doença. Por mais que ele ou qualquer um da mansão desejasse que Ciel continuasse vivo, isso não o faria continuar vivendo. Então ele simplesmente continuou ao lado dele. Ouvindo a respiração dele. Ouvindo o peito dele clamar por ar. Sentindo a mão dele apetar a sua com força. Sentindo o corpo dele implorar por vida. Implorar por morte.
Alguns minutos depois, o quarto silenciou. Silenciou da respiração descompassada, dos batimentos cardíacos. Restou apenas o último sopro de vida de Ciel. O último suspiro perdido no ar. Sebastian sentiu a mão do homem perder a força entre a sua. Sentiu que algo dentro de seu mestre desaparecera. Sua alma não estava mais ali. Não fora arrancada repentinamente. Ela simplesmente seguiu seu curso tranquilamente e Sebastian a deixou partir.
– Ciel? – ele chamou inutilmente. Sabia que o homem não responderia. Mesmo assim o chamou. Talvez para pronunciar seu nome mais uma vez.
O akuma permaneceu deitado olhando para o corpo de seu mestre e segurando-lhe a mão. Permaneceu por horas naquela posição, fitando um Ciel adormecido como todas as noites. Um Ciel cujos olhos não lhe dariam bom dia ao amanhecer. Um Ciel que nunca acordaria.
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Sob a luz da lua, dois shinigamis caminhavam pelo jardim, afastando-se da mansão. Levavam consigo a alma coletada ali aquela noite.
– Eu pensei que tínhamos vindo buscar a alma do Conde Phantomhive? – comentou o shinigami de cabelos loiros, ainda intrigado com a situação.
– Mas era a alma dele, Ronald – o outro Shinigami respondeu de maneira séria.
– Mas você me pediu que eu o acompanhasse porque aquele akuma poderia causar problemas...
– Sim, eu disse. O nome do conde não deveria aparecer nos nossos registros, pois ele vendeu sua alma àquele akuma. No entanto o nome dele apareceu aqui – ele lemvantou o seu livro de capa preta. – Realmente achei que aquele akuma tentaria nos impedir.
– Tem certeza de que ele sabe que o mestre morreu, William? Vai ver ele se distraiu.
– Ele não. Ele estava lá. Ele abriu mão do seu direito e deixou o mestre partir.
– Esse akuma é realmente estranho. Por que ele faria isso?
– Você realmente não sabe, Ronald? – William parou de andar e encarou a face confusa de Ronald. – Porque esta alma é especial. Pelo menos para ele. Vamos, temos muito que fazer ainda.
William voltou a caminhar e Ronald deu uma última olhada para a Mansão Phantomhive antes de seguir o seu colega e sumir na noite.
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Sebastian continuou contemplando Ciel a noite toda e, nas últimas horas da madrugada, abraçou o corpo do jovem homem. Tentava manter aquecido o corpo, que ficava cada vez mais frio, e permaneceu de olhos fechados até o nascer do sol.
Como um bom mordomo, Sebastian se levantou, abriu as cortinar e trocou as roupas de seu mestre pela última vez. Depois parou para pensar como daria a noticia aos outros. Só então percebendo que ele nunca ficara para ver o que acontecia depois da morte de um mestre. Ele sempre partia depois de comer, sem se importar com as vidas destruídas e com as lágrimas que seriam derramas. Tudo ficava para trás.
Mas desta fez, ele não se alimentara e de forma alguma ele queria partir.
Desceu as escadas lentamente. Era uma manhã ensolarada, bonita e de temperatura agradável. Encontrou os outros moradores no jardim. Elizabeth estava sentada com o jornal em mãos e Maylene servia-lhe o café. A loira abriu um largo sorriso assim que viu o mordomo se aproximar. Seus olhos verdes brilhavam como esmeraldas na luz do sol.
– Vocês demoraram a descer e não quis incomodá-los então pedi a Mey e ao Bard para preparar o desjejum – Lizzy foi falando com seu entusiasmo jovial, Bardroy ficava encabulado com o comentário da jovem dama e Finnian trazia rosas para decorar a mesa. – Está uma manhã maravilhosa, acredito que Ciel gostará de um café ao ar livre, lhe fará bem. Ele demora a descer?
– Lady Elizabeth... o Jovem Mestre partiu.
– Ele foi para Londres?
Finnian perguntou em toda sua inocência. Mas Logo as palavras de Sebastian foram entendidas por todos. E nunca o caminho até o quarto de Ciel pareceu tão longo. Nunca a mansão pareceu tão vazia e triste.
Sebastian viu Elizabeth abraçar o corpo de Ciel e viu joelhos tocarem o chão e olhos verterem lágrimas e mais lágrimas. Embora sentisse uma estranha sensação de perda, de desapontamento, um gosto amargo de derrota, ele não conseguia chorar.
Todos seguiram com as ordens deixadas por Ciel. O funeral e o enterro foram preparados com a ajuda de Undertaker, que era o único realmente excitado com a ideia de finalmente poder preparar a grandiosa partida do Conde Phantomhive. A única exigência de Elizabeth foi que tudo acontecesse ao ar livre. Sebastian sabia que a mulher fizera tal exigência porque sabia que ele não entraria numa igreja. Ficou realmente grato, pois ele não havia pedido.
Durante todo o funeral, Sebastian fitou o Ciel imóvel dentro de seu belo caixão. Era tão perfeito que parecia estar apenas dormindo. Depois que todos já haviam se despedido, Sebastian se aproximou do ataúde. Ele sabia que Ciel não podia realmente o escutar, mas mesmo assim falou.
– Uma vez você me perguntou por que eu não comi sua alma quando estávamos na Ilha dos Mortos. Quando eu o vi a beira da morte, tão pequeno e frágil, a primeira coisa que eu pensei foi “o que eu farei depois?” e depois de me lembrar de como era minha vida antes de conhecê-lo, Mestre, eu cheguei a uma conclusão. Eu queria mais uma semana com você. E sempre que a semana acabava eu desejava mais uma. Mas você, egoísta, foi bem antes do que eu esperava. Bem... Agora eu desejo mais uma vida. Então, por favor, não demore.
Sebastian colocou uma pena de corvo sob a mão de Ciel e se afastou para que o caixão fosse fechado.
Uma semana depois, o testamento de Ciel foi lido. Para os três servos, ele deixou a mansão do campo e uma gorda quantia em dinheiro que renderia pelo resto da vida. Para a esposa, ele deixou sessenta por cento de todo o seu patrimônio. E para o mordomo os quarenta por cento restantes e o pedido de que ele continuasse sendo seu fiel mordomo. Sebastian sabia que deveria administrar essa parte da herança até o renascimento de Ciel.
Assim como Ciel pedira, Elizabeth mudou tudo o que estava registrado com o sobrenome da família Phantomhive para o nome Midford. Ela mesma, mais tarde, reassumiu seu antigo sobrenome de solteira. Tudo para que o nome Phantomhive fosse esquecido com o tempo, assim como Ciel desejava. Para a sociedade os Phantomhive eram apenas uma lembrança esquecidas aos poucos, mas Ciel declarara seus servos herdeiros de sua tarefa como Cães de Guarda Reais, até que ele retornasse.
Sebastian cuidou para que tudo saísse conforme Ciel desejara e Elizabeth, superando todas as expectativas, mostrou-se ser uma mulher madura e responsável, capaz de tomar a dianteira nos negócios. Sebastian acreditava que sua habilidade para os negócios estava em seu talento nato e gosto em ter pessoas fazendo suas vontades. Mas verdade seja dita, seu toque feminino fez as vendas de perfume disparar e sua capacidade de se maravilhar com tudo foi realmente benéfico para a fábrica de brinquedo e sua espada era capaz de eliminar qualquer inimigo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Todos estavam bem encaminhados. Logo Sebastian percebeu que era hora de partir.
E ele o fez.
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LONDRES, 1912
Algumas coisas simplesmente têm que acontecer, nem sempre da maneira que esperamos.
Curiosamente, tudo o que as gêmeas siamesas predisseram se cumpriu, embora não tenha sido como Dhalion esperava, nem como a rainha esperava. A rainha morreu, e alguns se atreviam a dizer que já estava na hora. Fim da Era Vitoriana. Ciel morreu prematuramente, mas não pelas mãos de demônio algum. Último Cão de Guarda Real da linhagem dos Phantomhive. O rei Eduardo VII, depois de um bom e curto reinado de nove anos cheio de avanços científicos e tecnológicos, também morreu. Alguns anos depois, seu filho, Jorge V, viria a mudar o nome da família para Windsor. Fim da Casa Hanôver.
Os humanos gostam de complicar as coisas.
Tudo parecia caminhar bem, embora o horizonte estivesse nublado. O futuro era incerto.
Certa noite, Elizabeth ficara até mais tarde revisando os relatórios da agora P e M Company. Já estava se preparando para ir dormir quando ouviu um barulho vindo do andar de baixo. Desceu a escada descalça para não fazer barulho, viu que a luz da cozinha estava acesa e se aproximou lentamente, preparando o gatilho de uma pistola de cano curto. Deu um salto para dentro da cozinha apontando a arma para o intruso, pronta para atirar.
– Sebastian?! O que faz aqui? – ela abaixou a arma num misto de surpresa e nostalgia. O mordomo conservava a mesma aparência que ela conhecera quando criança.
– Estou apenas de passagem – ele informou. Tirava uma forma de bolo de dentro do forno. O cheiro trazia tantas lembranças quanto a voz do mordomo. – Era um dos bolos favoritos do Jovem Mestre. Queria apenas testar se ainda lembrava-me de como fazê-lo – Sebastian falou com entusiasmo. Colocou o bolo numa travessa de vidro e começou a passar a cobertura de chocolate. Depois de um tempo em silencio ele fitou o bolo. Parecia que o entusiasmo sumira repentinamente. – Como posso ser tão tolo? Fazer essas coisas só por estes hábitos que mantive por tantos anos. Humph! Agora não é mais necessário fazer essas coisas...
– Tem certeza de que ainda faz isso só pelo hábito?
– ...
O mordomo voltou a ficar em silencio e continuou a fazer a cobertura e a decoração do bolo. A mulher sabia por que ele estava ali. Ela também estava feliz em vê-lo. Era como se parte do Ciel voltasse para ela.
– Então... Encontrou um novo mestre?
– Sim.
– Que bom. Homem ou mulher?
– Homem. Tenho uma nova forma e nova função também. Não sou mais um mordomo.
– E o que você faz agora?
– Isso é sigiloso. Já passei por você em Londres – ele disse com um sorriso brincalhão. – Uma vez.
– Sério? E não o conheci? Nossa! Ficarei mais atenta. Mas esse seu novo trabalho não...
– Não se preocupe. Não interferirá de modo algum com as empresas ou com o rei. Esse será um trabalho rápido. Não é como trabalhar com o Jovem Mestre. Não é como o Ciel... É estranho. Eu me lembro dele o tempo todo, mas na minha mente ele sempre aparece como criança ou como jovem.
– Comigo acontece o mesmo. Talvez seja porque o Ciel adulto tenha morrido e o Ciel criança seja eterno – Elizabeth puxou uma cadeira e sentou-se. Observava Sebastian decorar o bolo com cerejas e lascar de chocolate.
– Desde o momento em que eu o conheci o envolvi na minha escuridão. E fiz de tudo para corromper o coração dele, enchê-lo de desespero e ódio. É o que os akumas fazem. Mas fiz algo que um akuma jamais deveria fazer. Permiti que Ciel desenvolvesse um sentimento que impediria seu coração de ser completamente dominado pelas trevas. Um sentimento por mim. Talvez, em minha vaidade, eu tenha desejado isso. Eu quis que ele me desejasse. Eu desejei que ele me amasse. Primeiro por egoísmo, depois por diversão, depois por prazer, depois por... meu atual eu não tem mais o que proteger. Perdi o relógio de bolso, perdi tudo. Estava acostumado a pensar que 100 anos passam em um piscar de olhos... mas parece... que um dia é interminável... agora eu tenho plena certeza de que teria cometido o maior erro do mundo se tivesse comido a alma dele – ele cortou uma fatia e colocou em um pires de porcelana. – Eu sempre fiz tudo o que estava ao meu alcance para que ele acreditasse não existir saída, para que ele acreditasse estar sozinho, para que ele acreditasse não ter mais ninguém além de mim. Isso era uma mentira. Ele sempre teve você e os outros, dispostos a sacrificar tudo por ele. No fundo, era eu quem tinha apenas ele. Agora... não passo de um demônio solitário.
Elizabeth o viu fitar a fatia de bolo. Ela não fazia ideia de por onde ele andara nesses últimos anos, nem o que fizera ou quem conhecera. Mas tinha certeza de uma coisa, havia algo diferente naquele Sebastian. Seu olhar não tinha aquela sua malícia natural. Havia apenas um... vazio.
– Você o ama, Sebastian. Talvez mais do que eu possa amar – a loira falou sinceramente. Sebastian a encarou.
– Por que diz isso?
– Por que o amor é da natureza dos humanos, assim como ódio, a bondade e a maldade. Mas o amor não é da sua natureza, ainda assim você sofre, porque acha que não é capaz de amar. Mas você é capaz. Simplesmente é. Porque ele também te amava.
Sebastian passou os dedos sobre a marca do contrato em sua mão esquerda e sorriu.
– Gostaria de uma fatia de bolo, milady?
Elizabeth sorriu. O mordomo em seu traje preto piche não ficou por muito mais tempo. Saiu da cozinha e se dirigiu ao túmulo do Ciel. Fitou a lápide. 26 de agosto de 1906. Já se passaram seis anos. Ele fechou os olhos e tentou imaginar a imagem de Ciel parado ali, com seu olhar altivo e desafiador. Deixou uma rosa sobre o mármore e partiu.
A loira suspeitava que não o veria tão cedo. Ela sabia que Sebastian, assim como ela, esperava ansiosamente pelo dia em que Ciel voltaria. Não sabia quando, mas sabia que ele voltaria. E eles dois estariam o tempo que fosse necessário.
– Lizzy, algum problema? – Finnian entrou na cozinha alguns minutos depois de Sebastian sair.
– Está tudo bem, querido. Apenas um velho amigo que veio compartilhar as boas lembranças.
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LIVERPOOL, 1912
Eleonore estava sentada na grama, no meio do campo aberto. Ela não sabia ao certo o quão longe estava da casa dos tios. Simplesmente começara a caminhar e a caminhar até chegar ali. Só não queria que ninguém a visse chorando. Nunca fora tão infeliz nos seus treze anos de vida. Estava tão imersa em sua dor que não notou que ele estava ali até ouvir sua voz.
– Olá! Está tudo bem?
Era um menino. Talvez tivesse sua idade. O cabelo dele era dourado como o sol e os olhos azuis como o céu. Ele fitava Eleonore com apreensão, talvez se perguntando se ela estaria ferida.
– Está perdida? – ele perguntou descendo do cavalo e caminhando até ela.
– Não. Eu moro aqui perto.
– Não sabia que os Ivenn tinham filhos.
– Eles não têm. São meus tios – ela respondeu tristonhamente. Colocou uma mecha de seus cabelos pretos atrás da orelha.
– Por que estava chorando? Seus tios fizeram algo ruim?
– Oh, não! Eu perdi meus pais – ela disse baixinho, simplesmente não conseguia dizer que eles tinham morrido. – Eles tinham ido comprar uma casa na América, em Nova York. Eu não pude ir com eles porque estava com catapora. Eles viriam me buscar depois. Viriam me buscar...
– Ó, céus! Seus pais estavam no Titanic? – o menino perguntou sentando-se na grama de frente para ela. Eleonore balançou a cabeça afirmativamente. – Como eles se chamavam?
– Albert e Lílian. E eram os melhores pais do mundo – enxugava com as costas das mãos as lágrimas que enchiam seus olhos castanhos.
– Sabe? Nós temos muito em comum. Eu também sou órfão. E meus pais também morreram num naufrágio. Quando eu era bebê. Eu não tive a chance de conhecer meus pais. Eu daria tudo para ter lembranças boas para poder lembrar. Tenho certeza que seus pais não gostariam de vê-la triste. E a melhor maneira de honrá-los é sorrir, não desistir. Seguir em frente, por eles. É assim que eu penso.
– Como os seus pais se chamavam?
– Vincent e Cordélia. Meu avô sempre diz que eles eram boas pessoas. Eu moro com meus avós. Na residência aqui perto. Mas eles são comerciantes e estão sempre viajando, mas não é algo tão ruim. Ah, eu ainda não sei seu nome.
– Verdade. Não nos apresentamos – a menina falou sorrindo. Levantou-se e limpou a sujeira do vestido. – Eleonore Ivenn, prazer.
– Phillip Cavendish. É um grande prazer, senhorita Ivenn – o menino respondeu beijando-lhe a mão.
– PHILL! – Os dois jovens ouviram um grito. Um velho se aproximava num cavalo. – Ora, aí está a razão do seu atraso.
– Seu avô é japonês? – Eleonore indagou surpresa.
– Chinês. Não é meu avô de fato, mas foi ele quem me criou – respondeu com um sorriso sincero. Seus olhos azuis se comprimiam e seus cabelos loiros pareciam reluzir no sol. – Desculpe Vovô Lau. Veja, fiz uma amiga.
– Estou vendo. Por que não a convida para um chá?
– O que acha, Eleonore?
A menina corou ao ouvi-lo pronunciar seu primeiro nome de modo tão natural, como se já fossem íntimos.
– Eu adoraria. Mas não posso me demorar. Não quero preocupar meus tios.
– Então, para não haver problemas, é melhor pedirmos logo a permissão aos seus tios. Não concorda, Vovô?
– Sábias palavras, filho.
Phillip colocou Eleonore sobre o cavalo e partiram conversando em direção a casa dos Ivenn. Enquanto via os jovens se afastarem, Lau lembrou de um tempo no passado. Quando recebeu o pequeno herdeiro Phantomhive em seus braços.
Naquele ano de 1898, aquele homem chamado Weatherfield estava nas docas de Londres, a procura de aliados no submundo contra o Cão da Rainha. Suas propostas eram tão tentadoras que ninguém era capaz de recusar. Não demorou muito para que tais propostas chegassem a Lau. Entretanto o chinês conhecia o jovem conde há muito tempo. Tempo suficiente para saber que não era prudente tê-lo como inimigo.
Lau aceitou supostamente a proposta de Weatherfield e como era de se esperar, a proposta veio com um teste de lealdade. Capturar a esposa grávida do conde. Lau estava a caminho da mansão Phantomhive para informar ao conde os planos de Weatherfield quando alguém interrompeu seu trajeto. Alguém com um plano absurdo.
O funerário.
Naquele dia, Undertaker convenceu Lau a não informar a Ciel a verdadeira identidade de Weatherfield, pelo menos não naquele momento. Pediu que ele seguisse com o trabalho proposto pelo possuído, mas de uma forma diferente. Ele tinha um plano para poupar a vida do Bebê dos Phantomhive. Undertake instruiu Lau a contratar muitos homens para atacar a mansão, todos com ordens para matar qualquer um, mas capturar Elizabeth viva, assim como Wetherfield queria. Conhecendo os servos do conde, Lau tinha certeza que os invasores não teriam a menor chance. Undertaker escolheu o dia certo para o ataque e garantiu que arranjaria um jeito de salvar o bebê. Usando meios que o chinês nunca veio a saber, o funerário conseguiu controlar um demônio para realizar o trabalho. Enquanto todos os outros homens entraram atacando os outros, o demônio se encaminhou diretamente ao quarto de Elizabeth e aplicou nela um soro criado pelo próprio Undertaker. Um tipo de veneno que, garantiu ele, faria um grande mal a Elizabeth, mas não a mataria. O veneno se espalharia rápido pela corrente sanguínea e chegaria ao bebê. Seu efeito? Deixou o bebê num estado de morte por um período de oito horas. Mas ele não estava realmente morto.
Depois de fazer o enterro de um caixão vazio, partiu da mansão Phantomhive com o pequeno Phillip escondido em sua carruagem e o levou direto a Lau.
– Tire-o de Londres o mais rápido possível. Dê-lhe um novo nome e proteja-o com a sua vida. Enquanto este menino não tiver nenhuma ligação com a família Phantomhive ele permanecerá vivo e a linhagem dos Phantomhive estará assegurada.
Depois coube a Lau voltar a Weatherfield e dizer que tinha falhado, que o bebê morrera. Viria outro teste de confiança. Viria o momento certo de revelar a identidade do falso visconde. Se soubessem a verdade, talvez Ciel e Elizabeth nunca o perdoassem, mas ele fizera de tudo para criar aquele menino adequadamente, sempre o mantendo longe de qualquer ligação com o submundo. Sempre o mantendo longe de seus verdadeiros pais.
Lau nunca soube qual o interesse de Undertake em tudo aquilo, mas esperava realmente que fosse pelo bem de todos.
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