Phantomhive
25 Dia de Fuga
Notas iniciais
Capítulo 25: Dia de Fuga
MANCHESTER, ATUALMENTE
Os pequenos Paul e Adrian estavam na mesma reclamação que se repetia toda manhã. Não queriam tomar o café. Não queriam suco de laranja. Não queriam vestir os uniformes. Não queriam ir para a escola. No fim, eles acabavam comendo. Sabiam que iriam para a escola de um jeito ou de outro e pior seria ir de barriga vazia. Claro que a avó deles conseguia convencê-los até a comer mingau de aveia. Como ela fazia isso? Devia ser algum poder especial de avó. Que falta ele sentia de sua esposa.
Ele foi até a cafeteira e encheu uma xícara. O som da campainha percorreu a casa enquanto ele alternava um gole de café com uma tentativa de fazer o nó da gravata. Adrian, o menor, colocou tanto leite em seu cereal que a coisa toda transbordou da tigela.
– Eu atendo! – a vovó deixou os outros na cozinha e se encaminhou para a sala. Não demorou muito para que a velha senhora aparecesse com uma expressão preocupada. – Filho é pra você. Eu fico com os meninos.
O tom de sua mãe o deixou um pouco alarmado e ficou mais ainda ao ver dois policiais a sua espera na sala.
– Bom dia. Sinto incomodar tão cedo. Mas estamos numa investigação importante. O senhor é August Ashton? – perguntou um dos policiais, conferindo o nome em sua caderneta.
– Sim – August respondeu desconfortável e ao mesmo tempo curioso. Policiais nunca batem a sua porta simplesmente para dar bom dia. Eles sempre têm um motivo, geralmente não muito bom, seja você culpado ou inocente. Era assim que August pensava e, por isso, começou a ficar inquieto.
– Sibyl Olivia Ashton é sua esposa, certo?
– Está certo. Quer dizer.... Nós estamos separados, mas não oficialmente... Algo de errado com ela? – Ele começou a imaginar se a esposa teria atacado algum daqueles moleques arruaceiros que a chamavam de louca, ou se ela teria finalmente decidido buscar algum tipo de ajuda, ou talvez tivesse entrado na justiça pela guarda das crianças.
– Senhor Ashton, a polícia recebeu uma ligação anônima de alguém em Berwik que afirmou ter ouvido gritos da casa da sua esposa às 2 horas da manhã. A polícia compareceu ao local, mas, infelizmente, sua esposa não foi encontrada.
August chegou à conclusão de que os policiais estavam ali para dizer que Sibyl estava desaparecida. Foi o que ele entendeu, embora tivesse notado que o policial parecia estar medindo suas palavras. Achou estranho eles virem bater em sua porta tão cedo para informar que ela estava desaparecida há tão poucas horas. August não conseguiu entender o que a denuncia de gritos poderiam significar. Não entendeu ou não quis entender.
– Ela pode ter saído? – ele perguntou aos polícias, mas a pergunta lhe pareceu tola. Se os policiais lhe fizessem essa mesma pergunta, ele diria que era impossível. Sibyl era paranoica demais para sair de casa, ainda mais no meio da madrugada e sozinha. Na verdade, August se perguntava onde realmente os policiais queriam chegar. – Quer dizer... Geralmente não se espera 24 horas para que alguém seja dado como desaparecido?
– Não acreditamos que sua esposa esteja desaparecida senhor Ashton. Temos motivos para crer que ela tenha sido assassinada.
Por um instante, August pensou não ter entendido o que o policial dissera. Por um instante pensou estar sonhando. Por um instante esperou o oficial olhar para ele e dizer que se enganara. No entanto, os dois policiais pareciam sérios e preocupados, tão preocupados que nem perderam tempo em tentar dar a notícia de uma maneira menos direta. August foi trazido de volta à realidade pelo toque do celular de um dos policiais, o qual se afastou uns dois metros para atender a ligação.
– M-mas o quê aconteceu? Porque estão dizendo isso? E-e onde ela está agora?
– É o que esperamos descobrir, senhor. O que encontramos na casa de sua esposa foi o cenário de um crime, suspeitamos que....
– Riley, era de Liverpool – o outro policial os interrompeu. E a menção do nome da cidade pareceu fazer os dois policiais chegarem a um consenso. – Encontraram o corpo de Sibyl.
– Senhor Ashton – o homem disse soltando um suspiro de quem não podia mais fazer nada. – Suspeitamos que sua esposa seja mais uma vítima do Assassino de Liverpool.
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PLYMOUTH
Ainda era madrugada quando ela acordou sobressaltada. Os lençóis estavam úmidos pelo suor e seu coração palpitava. A sensação de pânico fazia seu corpo tremer. Olhou para os lados, atordoada, checando se não havia mais alguém no quarto. Aquele pesadelo de sempre, tão real como nunca. Ela gostaria de dizer que estava apenas sendo fraca e que estava agindo como uma menininha, assustando-se com seus medos de infância. Mas o retorno de seus pesadelos tinha motivo. Eles voltaram há um ano e se tornaram cada vez mais frequentes nos últimos meses. Ela sentia que algo estava à espreita. A sua espreita.
Levantou-se da cama ainda sonolenta e arrastou os pés pelo caminho até o banheiro. Abriu a caixa de remédios à procura de algum comprimido para sua dor de cabeça. Contra qualquer indicação e contra o bom senso, ela levou uns quatro comprimidos a boca. Não se importava se ficaria dopada, só queria descansar. Dormir sem ter pesadelos. Mas não voltou a dormir. Ela ficou acordada o resto da madrugada até dar a hora de ir para o trabalho.
Fazia onze meses que ela morava naquele apartamento minúsculo e trabalhava como garçonete naquele restaurante de esquina, no bairro mais visitado pela ralé de Plymouth. O maior tempo em que ela permaneceu em um lugar. Talvez porque ali fosse afastado e pouco movimentado. Longe de qualquer um que a tenha conhecido. Talvez porque ela fosse praticamente invisível atrás daquele avental e servindo gente que só queria comer sua refeição e dar o fora.
Embora achasse que era impossível que alguém a encontrasse, ela sempre tomava todos os cuidados para não revelar sua verdadeira identidade. Nunca tomava os mesmos caminhos, nunca confiava plenamente em ninguém. Viver assim não era de fato viver, mas ela já vinha sobrevivendo por um bom tempo. Tanto tempo, que ela chegou a acreditar que estava livre, que não havia motivos para ter medo.
Então os pesadelos voltaram e aqueles assassinatos começaram. A princípio, sem nada de especial que lhe chamasse a atenção. Até finalmente ela notar. Até Sibyl confirmar suas dúvidas. Até finalmente perceber que ela também estava marcada. E que um dia a encontrariam. Mas ao contrário das outras, ela sempre esteve preparada. Mudando de cidade, de emprego, de nome. Embora achasse estar segura, ela nunca se descuidava. Seu plano agora era conseguir dinheiro suficiente para sair da Inglaterra. Atravessar o oceano.
Chegou ao trabalho, retirou seu casaco, revelando o uniforme azul claro e prendeu seus cabelos loiros num rabo de cavalo. Seu patrão já foi lhe entregando um pedido e mandado que ela atendesse a mesa doze. Havia muitos clientes naquela manhã, isso era bom. O trabalho a distraía dos problemas e das preocupações.
Por volta das dez horas da manhã, quando ela já começava a anotar os primeiros pedidos de almoço, uma notícia na pequena televisão da lanchonete chamou sua atenção, e dos demais ali presentes. O noticiário falava sobre mais um caso do Assassino de Liverpool. A mais recente vítima morava em Manchester.
Não podia ser. Podia?
... o corpo de uma mulher de aproximadamente 30 anos foi encontrado em uma praça pública de Liverpool nesta manhã por pessoas que saíam para o trabalho. A polícia foi chamada. Já está confirmado que se trata de mais uma obra do assassino serial que vem aterrorizando a população inglesa. A mulher foi identificada como sendo Sibyl Olivia Ashton. Sibyl desapareceu de sua casa ainda na madrugada de hoje, em Manchester. A polícia de Manchester já investigava o caso. Agora as autoridades tentam descobrir como...
Ela sentiu seu corpo congelar. Queria chorar, mas a sensação de pânico travou até mesmo suas lágrimas. Sua única reação foi empalidecer. As pessoas ao seu redor comentavam o caso, outras continuavam comendo e comentando outros assuntos. A TV alternava imagens dos policiais em Liverpool e da casa interditada de Sibyl em Manchester.
– Verônica! – a voz de seu chefe ecoou em seus ouvidos, trazendo-a de volta para a lanchonete. – Eu não te pago para ficar vendo TV. Vai longo atender o cliente, ele já esperando há um tempão.
Normalmente ela ficaria enfurecida com seu patrão por trata-la daquele modo grosseiro diante de tantas pessoas. Mas, naquele momento, era como se ela tivesse entrado em modo automático.
Parecia que seu estômago tinha se soltado e que havia alguma coisa presa em sua garganta. Respirou fundo, engoliu em seco e tentou se manter concentrada, de pé. Ela caminhou lentamente até um homem sentado sozinho em uma mesa do fundo. Seus ouvidos continuavam atentos ao noticiário a suas costas. Perguntou duas vezes o que o homem queria, pois não prestou muita atenção no que ele disse da primeira vez. Um bife mal passado com purê e fritas; uma cerveja pra acompanhar.
– Seu nome é Verônica? – o homem perguntou com um sorriso cínico. Ela virou para ele sem entender.
– O quê?
– Perguntei se seu nome é Verônica? Você não tem cara de Verônica. Mas é um nome bonito.
Ela o encarou por alguns segundos e voltou para o balcão com o pedido. Enquanto atendia as outras mesas, seus olhos ficavam indo e vindo para dois pontos: a televisão e o estranho da última mesa que continuava a encarando de modo suspeito. Ela começou a se sentir incomodada. Perturbada. Por que ele quisera saber se aquele era realmente seu nome? Por que ele dissera que ela não tinha cara de Verônica? Será que ele sabia... Não. Não tinha como ninguém saber que seu verdadeiro nome era Gladys. Gladys já não existia há anos.
Quanto mais o noticiário falava da morte de Sibyl e fazia um apanhado das outras vítimas do Assassino de Liverpool, mais inquieta ela ficava. E aqueles olhos da última mesa continuavam a segui-la.
Seu chefe entregou o pedido da última mesa. Ela tinha que voltar lá. Guardou seu caderno de pedidos no bolso do avental azul, respirou fundo e pegou a bandeja com o prato de comida e a cerveja. Caminhou devagar, mantendo o autocontrole.
Quando a garçonete o serviu, o homem pôde ver que ela tinha uma cruz tatuada nos dois pulsos. Do pescoço dela pendia um colar, cujo pingente podia ser ou um pentagrama ou uma estrela de Davi; ele não fazia ideia de qual era a diferença.
– Você é algum tipo de fanática religiosa ou uma gótica? Masoquista, talvez. Adoro garotas rebeldes. Gosta de couro e algemas?
– Coma sua comida – ela respondeu virando as costas. Ele a segurou pelo braço e, num reflexo, ela o girou sobre o seu corpo, jogando-o no chão, deixando-o completamente imobilizado. O homem arquejou e arqueou as costas com a dor do impacto. Todos ao redor se assustaram e pararam para ver o que tinha acontecido.
– Eu só ia pedir seu telefone... – disse num fio de voz.
Verônica respirava descompassadamente. Olhou para todos os rostos que a encaravam como se fosse uma louca. Ela se levantou, pegou seu casaco e saiu da lanchonete sob os berros do patrão.
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LIVERPOOL
Claus Midford havia recebido um chamado às oito da manhã e desde então não dera notícia. Ruby esgotara todas as suas tentativas de puxar conversa. Richard acendera seu último cigarro. Dimas cochilava sentado, vez ou outra acordando de súbito. Todos naquela sala estavam ansiosos e impacientes.
Todos esperando que o adolescente no quarto do andar de cima acordasse. Cada hora que passava aumentava ainda mais a apreensão. E se ele não acordasse? A pergunta passou pela cabeça de todos, e eles tratavam de desaparecer com ela, como se a simples dúvida trouxesse mau agouro.
Era mais de dez horas da manhã, quando Elizabeth viu os olhos de Sebastian brilharem com um vermelho intenso. E naquele momento ela soube, porque Sebastian havia sentido, que Ciel havia acordado.
– Ciel acordou!
A garota loira falou em voz alta, sem esconder nem por um minuto sua felicidade e alívio. Felicidade e alívio que se espalhou pelos demais. E todos subiram as escadas correndo.
Mas Sebastian continuou parado onde estava.
– Sim, ele acordou. Finalmente – disse para si mesmo. Queria muito ver Ciel, mas achou melhor esperar mais um pouco. Queria vê-lo só.
No quarto de hóspedes, um jovem lutava para escapar do mundo dos sonhos. Escutava sons a sua volta, mas não conseguia distinguir o que era real ou não. Não sabia se estava de fato acordando ou entrando em outro sonho, em outra memória.
Estava voltando à consciência. Tentava acordar, mas uma força estranha parecia puxá-lo para dentro do sono. Quando finalmente abriu os olhos, suas pálpebras pareciam extremamente pesadas.
Tudo ficou escuro novamente.
Abriu os olhos mais uma vez e viu tudo girando ao seu redor, sua visão estava embaçada e sua boca muito seca. Ouviu passos e vozes antes de apagar mais uma vez. Não sabia ao certo quantas vezes entrou e saiu do estado de sono, mas quando acordou novamente, viu todos parados ao redor da cama. Forçou-se a continuar acordado.
Num primeiro momento, achou que estava no hospital com Angie. Sua visão começou a entrar em foco. Aquelas pessoas estavam em seu sonho. Ele esteve sonhando o tempo todo?
Não.
Fora mais que sonho.
Eram lembranças. Memórias. Suas memórias de muito tempo atrás.
Todas as memórias que pareciam girar confusamente em sua cabeça foram se assentando, se encaixando perfeitamente, como peças de quebra-cabeças. Ele ergueu o tronco da cama para ficar sentado, se continuasse deitado acabaria dormindo novamente. Percebeu que alguém tinha lhe perguntado alguma coisa, mas não pôde entender a pergunta. Encarou os seus visitantes até conseguir visualizar seus rostos perfeitamente.
– Qual o seu nome? – Elizabeth perguntou. Ciel pôde finalmente entender o que ela dizia.
– Ciel Valentine... – ele disse, e todos ficaram meio apreensivos. – A reencarnação de Ciel Phantomhive.
Todos suspiraram aliviados, exceto Elizabeth que continuou a encarar o rapaz como se esperasse que ele dissesse mais alguma coisa.
– Está se sentindo bem? – ela perguntou. Seu semblante era de preocupação e carinho.
– Minha cabeça dói. E sinto vontade de vomitar.
– É normal esse tipo de efeito depois do Despertar – explicou Ruby. – Dura algumas horas, depois você fica melhor.
– Mas se sentir que vai mesmo vomitar é só dar uma viradinha pra lá – Richard comentou. Ruby lançou um olhar furioso pra ele. – O quê? Ele vai vomitar na gente? É nojento.
– É bom ter você de volta, Ciel – Dimas falou com entusiasmo.
Ciel encarou, com certa surpresa, os três ao lado de Lizzy. E, instantaneamente, várias lembranças passaram por sua mente, como um filme.
– Vocês três... são...
Suas antigas memórias e sua memória atual se entrelaçavam e chegavam a um consenso sobre as pessoas a sua volta. Com exceção de Lizzy, todos estavam, de certa forma, diferentes; mas Ciel reconhecia todos eles.
– Soldado Richard John Bardroy se apresentando Senhor! – disse o loiro batendo continência.
– Bem, Ruby é um apelido. Meu nome é Meylene Emma Rubystein.
– Dimas Finnian Gardener – o mais jovem falou dando de ombros, afinal Ciel já sabia seu nome, embora o nome não lhe revelasse nada antes. – Mas em minha defesa posso dizer que só fiquei sabendo de tudo realmente há algumas semanas. Então... Temos que passar a chamá-lo de mestre agora? É que... Sem querer faltar com o respeito, é um pouco estranho. Nós estudamos juntos.
– Não precisa me chamar de mestre, Finny... Dimas.
Ciel sentiu seu cérebro girar. Aquilo era realmente muito confuso. Não estava com cabeça para pensar como deveriam chamá-lo ou não. Na verdade, naquele momento, nem ele sabia como chamá-los.
– É estranho no começo, mas depois você se acostuma – Richard falou sorrindo.
Ciel encarou a todos ainda um pouco atordoado. Sabia quem era cada um e quem eles foram. Havia diferenças entre estes e aqueles, mas as personalidades eram as mesmas. Talvez não tão idênticas. Mas eram eles. Seus leais servos.
Conhecia Dimas há um bom tempo para saber que ele era um tanto diferente do que Finn fora, sobretudo na aparência. Dimas tinha cabelos castanhos claros e um pouco encaracolados, e não era tão exageradamente inocente quanto Finny fora. Richard tinha o rosto mais largo e viril; pele mais bronzeada que a do Bard original, parecia mais australiano do que inglês ou americano. Ruby... Bem, Ruby aparecia com um visual diferente toda semana; diferente da antiga Meylene, Ruby usava óculos apenas como acessório, mas Ciel sabia que ela ainda gaguejava quando nervosa. Depois de toda a confusão e comoção inicial, Ciel finalmente fez a pergunta que não demoraria a surgir.
– Onde está Sebastian?
Os olhos do jovem percorreram o quarto se dando conta de que o akuma não estava ali. Os outros também ficaram desnorteados, pois juravam que Sebastian os tinha seguido até o quarto.
– Ele ficou resolvendo umas coisas lá embaixo, mas logo ele subirá – Elizabeth falou com tanta convicção e naturalidade que ninguém no quarto desconfiou que ela estivesse apenas dando uma desculpa.
– Você também recuperou suas memórias Lizzy? – Ciel perguntou. E a garota sorriu, tomando uma mão de Ciel entre as suas.
– Você me chamou de Lizzy, como fazia no passado. Geralmente me chama de Liza. Sim eu também passei pelo Despertar.
– Então porque você parece tão bem, enquanto eu sinto como se tivesse saído de um liquidificador?
– É o que queremos saber.
Ruby ainda fez algumas perguntas básicas a Ciel, apenas um teste para ver se ele realmente recuperara sua memória já que levara tanto tempo para acordar. A mulher explicou que Dimas, o Finny, também demorara a acordar (mas no caso de Dimas foram apenas duas horas de inconsciência), o que resultou na perda de algumas lembranças. Daí a preocupação com Ciel.
– Como eu não me lembro do que esqueci, não faz muita falta – Dimas falou sorrindo e dando de ombros. – Exceto que eu teria notas melhores nas aulas do sr. Hubberman. O Richard jura que eu sabia falar alemão.
Os quatro deixaram o quarto recomendando que Ciel descansasse um pouco mais. Quando entraram na sala de visitas, Sebastian ainda estava sentado no sofá fitando o nada. Lizzy disse que gostaria de falar com ele a sós. Os outros entenderam aquilo como uma ordem para darem o fora; então partiram da casa.
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PLYMOUTH
Estava caminhando para o metrô quando viu uma pequena igreja no caminho. Ela entrou ainda meio indecisa. Havia algumas poucas pessoas sentadas nos bancos ou de joelhos fazendo orações. Verônica caminhou lentamente em direção a uma estátua de Cristo e parou quando um padre falou com ela.
– Posso ajudá-la, minha filha? – o velho sorriu amigavelmente.
– Não. Não vim falar com você – ela respondeu duramente. O padre, constrangido, a deixou sozinha. Verônica se ajoelhou, olhou para as cruzes em seus pulsos e fechou os punhos sobre os joelhos. – Não sei como chamar vocês, não sei como encontrá-los. Mas se estiverem me ouvindo, me ajudem. Sabem que me arrependi. Sabem que fiz tudo certinho. Digam-me o que devo fazer.
Ela ficou parada ali por um bom tempo. Até suas pernas começarem a doer pela posição desconfortável, mas nada aconteceu. Era uma grande perda de tempo. Apoiou as mãos no chão para se levantar, mas uma pequena mão em seu ombro a impediu. Verônica virou o rosto e viu um garotinho de uns oito anos olhando para ela. Ele tinha cabelo castanho escuro e olhos prateados.
– Você tem fugido por muito tempo, Gladys. Deve ir para Liverpool.
– O quê?! Mas estou tentando me manter longe de Liverpool. Ficou louco?!
– Vá para Liverpool e procure Phantomhive.
Verônica ficou pensativa. Aquele menino estava falando mesmo sério? Ir para Liverpool parecia neste momento uma ação suicida.
– Josh! O que está fazendo aí? Vamos logo pra casa – a mãe do menino chamou. O garoto piscou os olhos, agora castanhos, e encarou Verônica sem entender como fora parar ali ou o que estava fazendo. Correu e segurou na mão de sua mãe.
Verônica saiu da igreja e foi para o metrô. Não iria para Liverpool, era loucura. O que os anjos queriam? Que ela morresse? Depois de tudo? Não faria tamanha tolice. Iria para Southampton e de lá daria um jeito de sair do país. Não havia tempo a perder tinha que deixar a Inglaterra o quanto antes. Tinha que ficar o mais longe possível de Liverpool. Voltou ao seu apartamento, colocou apenas algumas coisas dentro da mochila, pegou suas economias e saiu.
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LIVERPOOL
A loira sentou de frente para o akuma e o encarou séria. Sebastian não esboçava a menor expressão.
– Não há porque ter medo – a loira falou finalmente. O akuma quase soltava um riso de escárnio. Como ela ousava dizer que ele estava com medo? Não era medo. Era... Hesitação, talvez. Embora hesitação também fosse vergonhoso para um demônio. Sebastian continuou pensativo, encarando a jovem humana. Não eram mais aqueles olhos tolos e ingênuos de dias atrás, eram aqueles olhos verdes desconfiados e cheios de tenacidade que há muito ele não via. – Ele não lembra... De nada.
Aquelas últimas palavras fizeram Sebastian se alarmar. Como assim? Então o Despertar não funcionara? Ele se levantou e girou em direção a porta, precisava saber se seu mestre estava bem, mas Elizabeth o impediu. A loira tentou lhe explicar melhor.
– Ele lembra de ter sido Ciel Phantomhive e de ser Ciel Valentine. Nada mais além disso. Acho que Undertaker apagou as memórias de...
– Ou pode ter sido apenas natural, afinal ele ficou muito tempo desacordado.
– Natural seria ele esquecer de eventos aqui e ali, isso é completamente diferente – a loira falou com rispidez. – Mas certamente você está feliz com isso. Estava tão feliz tendo Ciel em suas mãos novamente, gostando de você. Seria uma lástima se isso mudasse de repente.
– Realmente. Essa notícia me agrada. Mas eu não pedi para Undertaker fazer isso. Nunca colocaria a vida de Ciel em risco.
– Mesmo? – a loira falou com sarcasmo. – Acho que Ciel discordaria.
Sebastian agarrou a jovem pelo pescoço. Suspendeu a garota tão alto que esta podia ver por cima da cabeça do akuma. Os pés dela balançavam no ar e suas mãos tentavam afrouxar o aperto em seu pescoço. Sebastian puxou o rosto de Elizabeth para bem próximo do seu. Embora estivesse sufocando e seu coração palpitasse de medo, a loira encarou aqueles olhos vermelhos com o máximo de coragem que pôde.
– Não abuse da minha paciência, senhorita Elizabeth – Sebastian sussurrou assustadoramente.
– Sabe o q-que acontece s-se me ma-tar – falou com dificuldade.
Sebastian a soltou. A jovem caiu pesadamente sobre o carpete, passando a mão em volta do pescoço e tragando o ar com força. Seus olhos verdes levantaram-se para encarar o akuma, estavam cheios de raiva e incredulidade.
– Pensei que tivéssemos feito às pazes – Sebastian falou sorrindo cinicamente. Elizabeth o fitou com ferocidade.
– O que não significa que eu confiaria 100% em você. Ainda mais depois de perceber que estava tentando me excluir.
– Que ingratidão. Até onde me lembro, eu te apresentei a sua tia e ajudei você a reencontrar sua verdadeira família.
– Só porque fazia parte do seu contrato com a Amanda. Agora eu entendo tudo. Estava tentando manter Ciel longe de mim. Manter-me longe dos Phantomhive. Nem se preocupou em me procurar ou em me orientar. Como você é egoísta!
– Eu sou um demônio. Poupe-me de suas lamúrias – falou impaciente com todo aquele falatório da garota. Os dois ficaram em silencio por alguns segundos. – Vamos manter as coisas como estão até descobrirmos o que aconteceu ou porque Undertaker fez o que fez. Concorda?
Elizabeth assentiu. No fim, a única coisa capaz de manter os dois unidos, a única coisa sobre a qual os dois concordavam era o bem estar de Ciel. Não havia trégua ou acordo de paz mais eficiente.
– Desculpe. Às vezes esqueço que você já foi punido – ela alfinetou, arrumando os cachos dourados em sua cabeça e desamassando a roupa. – Se tudo aconteceu realmente como você disse que aconteceu; se você não teve culpa, bem, esta é a sua chance de não perdê-lo. É melhor subir logo, antes que ele comece a desconfiar de algo.
Sebastian concordou e deixou a jovem sozinha na sala. Elizabeth achou melhor ir embora. Havia outras coisas a serem feitas naquele momento. Ela saiu da casa e viu que Dimas estava parado próximo ao portão. Assim que ouviu os passos da garota, Dimas se virou rapidamente.
– Oi!
– Oi – Elizabeth sorriu da atitude embaraçada dele. Chegava a ser meigo. E depois veio aquele silencio constrangedor.
– Ahh.... Eu pensei... Eu achei que você pudesse querer companhia pra casa, sabe? Afinal, você também acabou de despertar.
– Muita gentileza sua. Mas, na verdade, me sinto muitíssimo bem. Sim, as coisas estão meio estranhas e confusas, mas me sinto muito bem.
– Hum. Que bom. Estranho você começar a despertar sozinha, não acha? Talvez sua ligação com o Ciel seja realmente muito forte.
– É, pode ser isso. Dimas, eu gostaria que me acompanhasse até um lugar. Preciso pegar de volta uma coisa. Tenho a impressão de que vamos precisar disso novamente – ela abriu o portão e seguiu pela calçada. Dimas a seguia.
– E o que é?
– A Flauta Celeste.
– E com quem está?
– Com minha avó. Nossa! Isso é realmente estranho. Quando entreguei a Flauta a ela, ela era minha sobrinha neta – ela riu do absurdo da situação e de como aquilo tudo parecia impossível. – Precisamos encontrar um taxi.
– E você acha que eles ainda nos ajudariam? Você sabe... Iridel. Os anjos.
Elizabeth interrompeu seu caminhar apressado. Virou-se para encarar Dimas, ofegante. Pensando na pergunta. A resposta era óbvia.
– Não a nós.
Não depois de tudo.
Continuaram a caminhar até encontrar um taxi e partiram para a casa de Agatha Midford.
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Sebastian bateu duas vezes na porta. Não houve resposta. Entrou mesmo assim.
Sentou-se ao lado da cama e limitou-se a observar o sobe e desce tranquilo do peito do jovem. A serenidade do sono naquele garoto de dezessete anos o fazia lembrar-se de um pequeno conde de onze anos. Dormindo, tinha o semblante angelical de toda criança; mas escondia em seu interior uma personalidade forte e tenaz que poucas vezes ele vira em adultos.
Tanto tempo ele ficara sem seu mestre, mas eles estavam ali novamente, tão próximos. E o mais importante de tudo: o garoto ainda o pertencia. Ele era um akuma afinal, e a sensação de posse o excitava, tanto quanto a sensação de pertencer. Ainda mais se tratando de um mestre tão bem quisto.
Ele ergueu a mão esquerda. As unhas, finalmente negras, revelavam sua verdadeira natureza; e a marca do contrato gravado em sua pele era a mais visível prova de que ele pertencia a alguém, e que alguém pertencia a ele. Tocou o rosto de Ciel como se o fizesse pela primeira vez. Fez um breve carinho e inclinou-se para beijá-lo.
Sua ação foi interrompida quando os olhos do jovem se abriram repentinamente. Azuis como o céu. O akuma sentiu uma energia percorrer o seu corpo assim que viu a marca do contrato naquele olho. O feitiço ali concedia àquele olho azul uma exótica tonalidade de violeta.
– O que você estava fazendo, Sebastian? – a pergunta veio com um leve tom de desafio.
– Eu pretendia acordá-lo com um beijo – um sorriso brincava no rosto do akuma.
– Creio não ter cara de princesa para ser despertado de tal forma.
– É realmente uma lástima, depois de tanto tempo, o Mestre não ter desenvolvido nem um pouco de romantismo.
Ciel encarou o akuma, sério e pensativo, depois sorriu brevemente.
– Você realmente me esperou.
– E você tinha dúvida?
Ciel não respondeu. Ajeitou-se na cama, suspirou e fitou a janela por algum tempo. Observava o movimento da cortina em silêncio, certo de que o akuma o avaliava com curiosidade.
– Eu sinto...
Ciel começou a falar, mas suas palavras se interromperam ainda no inicio. Ficou calado por mais alguns segundos e depois voltou a se pronunciar.
– Eu sinto como se o mundo estivesse diferente, como se as pessoas fossem diferentes. Como se eu olhasse para essa realidade pela primeira vez. Mas tudo está exatamente como era ontem. Entende o que eu quero dizer?
– Talvez seja você quem mudou – o akuma esboçou um sorriso simples e um olhar contemplativo. Ciel permanecia sério. O jovem fitou as próprias mãos e levou uma delas ao olho com o contrato. – Eu vi este mundo se transformar lentamente – Sebastian começou a explicar. – Mas você adormeceu em uma era e acordou em outra. Embora tenha crescido nesta época, seu eu adormecido ainda se surpreende com o que vê.
– É estranho. Lembro-me de tudo e compreendo tudo, mas mesmo assim... Ora parece que meu passado como Ciel Phantomhive foi apenas um sonho, ora parece que meu presente como Ciel Valentine é uma ilusão. Tudo fica bagunçado, depois tudo se encaixa novamente. Parece que não estou falando coisa com coisa. Ainda estou zonzo – ele sentou-se. – E minha cabeça ainda dói.
Ciel passou a mão pelo cabelo e sentiu um galo dolorido na cabeça. Lembrou que Undertaker o acertara com uma pá. Balbuciou uma maldição. Sebastian sentou-se ao seu lado.
– O importante é que agora você se lembra de tudo – o akuma falou sorrindo de modo reconfortante, embora soubesse que havia algo que o garoto esquecera, mas de outra forma, eles não estariam assim tão próximos; então Sebastian estava feliz. – Isso será de grande ajuda nas investigações. Não sabe o trabalho que dava ajudar você a ir recuperando a memória aos poucos sem poder lhe contar nada.
O moreno tinha um sorriso largo e sedutor que fez Ciel corar. O Jovem nem notou em que momento Sebastian tomara sua mão, mas seus dedos estavam entrelaçados agora.
– É bom ter você completo novamente – falou afastando os cabelos dos olhos do mais novo e inclinando-se para um beijo. Ciel sentiu seu corpo se retesar e sua única ação foi fechar os olhos enquanto seus lábios eram pressionados levemente.
Sebastian se afastou um pouco sem entender a atitude do jovem. Então ouviu as batidas do coração de Ciel acelerarem, assim como viu o jovem umedecer os lábios com a ponta da língua, talvez inconscientemente. Aproximou-se uma segunda vez, e desta vez Ciel retribuiu. Não apenas os seus lábios buscavam Sebastian, seus braços também, passava-os em volta do pescoço do outro. Só então se dando conta de porque toda vez que se beijavam, sentia uma necessidade de mais, como se não se vissem há tempos, porque realmente não se viam há tempos; porque se sentia tão confortável com ele, porque sua presença era sempre tão familiar desde o primeiro momento em que o viu na Rua Barnabas. Ao terminar o beijo, Ciel deu mais um selinho em Sebastian e esboçou um rápido sorriso.
O moreno voltou a beijá-lo, agora mais intensamente. Ciel podia até dizer que era um beijo com mais paixão, mais desejo. Sebastian abraçou seu corpo de tal forma, que o jovem desejou não existir tecido separando o contato de suas peles.
Ciel Segurou Sebastian pelo colarinho e o puxou, obrigando-o a trocar de posição. Sentou-se sobre as pernas do moreno e afastou as mãos dele de seu corpo.
– Hey, pare. Não estou no clima para fazer isso agora – seu tom era sério e seu olhar era de quem impunha ordem.
– Não se preocupe. Vai ficar.
E dito isso, ergue-se para abraçar a cintura do outro, distribuindo doces beijos que já queimavam na pele alva do pescoço. Ciel ficou surpreso com os modos atirados de Sebastian, ignorando sua ordem, tão impaciente. Ciel suspirou, apertando os olhos e deslizando os dedos finos pelas costas do seu antigo mordomo. Não importava se tudo ainda estava meio confuso, sua maior certeza estava ali, entre seus braços.
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O departamento de polícia estava mais uma vez alvoroçado. Roger Valentine e Claus Midford estavam há horas conversando com os policiais de Manchester, tentavam trocar o máximo de informação possível. Em Manchester, a polícia estava examinando todas as câmeras de segurança de aeroportos, estações de trem, ônibus e postos de gasolina e pedágios, até mesmo os taxistas estavam sendo interrogados. Acreditavam que o assassino devia ter escapado com o corpo de Sibyl utilizando alguma dessas alternativas. Não poderia ter feito isso do nada.
À tarde, todos estavam na sala de Roger, rodeando um computador, cuja tela exibia o policial Riley de Manchester.
– Já confirmamos o álibi do marido. Ele não estava vivendo com a esposa há alguns meses, segundo ele, por causa da paranoia dela. Pelo que ele nos contou, ela tinha medo de alguma coisa, achava que alguém estava atrás dela – disse Riley.
– Talvez a esposa não estivesse tão paranoica assim. É possível que ela soubesse que o assassino viria – Roger comentou.
– E se assim for, provavelmente ela o conhecia – Claus concluiu.
– Sim. Nós checamos isso. O marido não tem a menor ideia de quem poderia ser. Ele achava que a esposa tinha algum tipo de fobia de lugares abertos ou de pessoas, nunca chegou a pensar que ela poderia estar de fato fugindo de alguém. O senhor Ashton confirmou que o comportamento da esposa piorou exatamente na mesma época em que os assassinatos do serial killer se tornaram públicos.
– Isso faz da senhora Ashton uma vítima especial. Ao que tudo indica, de todas as mortas até agora, ela era a única que sabia quem estava cometendo os assassinatos. Talvez as próximas também saibam – disse Claus.
– Isso prova que o nosso assassino tem um padrão que ainda não deciframos, mas essa mulher sabia – Roger olhou para o mural com as fotos de todas as vítimas como se pudesse decifrar de uma hora para outra o padrão de escolha do assassino.
– Por que ela não denunciou a polícia ou contou ao marido? – o jovem Harris questionou.
– Talvez não acreditasse que a polícia fosse capaz de protegê-la – Claus arriscou uma resposta. De todos ali, ele era o único que sabia que o tal assassino contava com a ajuda de demônios, e se Sibyl realmente tivesse conhecimento disso, é provável que ele soubesse que ir a polícia só resultaria em um encaminhamento para uma clínica psiquiátrica.
– Bem, ela não fez a escolha mais assertiva – Harris concluiu.
– Eu estou enviando agora cópias do relatório e das fotos que tiramos no local do crime para o senhor analisar, detetive Midford. Podem me chamar de louco, mas parece que aquela casa foi atacada por lobos. É surreal!
– Nem tanto. Já vimos algo parecido na casa dos pais das gêmeas Copperpot. Qualquer nova informação, estamos aqui, oficial Riley.
– Entendido, chefe Valentine – o outro policial respondeu e a chamada de vídeo foi encerrada.
– Callaway... – Roger chamou, o legista apareceu de supetão ao seu lado, pronunciando um sim arrastado, como uma serpente. – Quero que analise aquele corpo com o triplo de atenção. Qualquer coisa suspeita, por menor que seja, cheque três vezes.
– Pode deixar, chefe. Estou ansioso para isso – Callaway arregaçou as mangas do cardigã, torceu as mãos e saiu sorrindo pelo corredor.
– Que sujeitinho excêntrico – Harris comentou.
– Você nem imagina o quanto, filho – Claus disse.
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Terminou de vestir sua camisa e começou a procurar os óculos ou um tapa-olho para cobrir a marca do contrato. Uma coisa era ter um olho opaco, qualquer um pensaria ser deficiência; outra era sair por aí com um pentagrama no globo ocular. Isso certamente chamaria mais atenção.
– Que tal isto? – Sebastian deu a ele uma caixinha com lentes exatamente da cor de seus olhos.
– Isso é realmente mais prático e discreto que um tapa-olho de couro – ele colocava a lente no olho –, mas também é mais incômodo – Ciel piscou algumas vezes. – Preciso ir.
– Ir?
– Pra casa. Não pensou que eu ficaria aqui, pensou? – Ciel falava calmamente. Um pouco constrangido por ter que dizer aquilo.
– Na verdade pensei. Esta casa também é sua. Agora que você sabe quem é...
– Sei quem eu fui, mas não posso ignorar quem eu sou assim do nada. Eu tenho uma família... Tenho pessoas comigo que causariam muitos problemas se eu desaparecesse do nada. Preciso ajeitar isso primeiro. Você entende, não é?
– Não precisa me dar explicações, Mestre.
Aquela frase voltou a provocar em Ciel um misto de sensações. Soou nostálgica e agradavelmente familiar. Mas ao mesmo tempo, sentiu certo incômodo ao ouvir Sebastian se referir a ele como mestre.
– Não estou me explicando, estou apenas informando – respondeu com altivez.
– Acho melhor levá-lo em casa.
– Não é necessário. Vou sozinho. Não se preocupe, vou descansar – falou um tanto aborrecido já chegando às escadas. – E você tente descobrir porque, diabos, Undertaker resolveu me sequestrar – Ciel estacou no meio nos degraus e se virou para encarar o homem que vinha logo atrás dele. – A propósito, porque você não fez o ritual antes? Não queria que eu recuperasse a memória?
Sebastian estava parado dois degraus a cima, o suficiente para fazê-lo parecer mais alto do que já era.
– O que eu mais queria era que você recuperasse a memória. No entanto Undertaker nos convenceu de que seria arriscado demais, devido sua condição. Achei prudente esperar. Mas não sei por que ele mudou de ideia repentinamente e agiu a nossas costas.
Ciel voltou a descer as escadas em silêncio. Sebastian chamou um taxi para levar o jovem em casa. Antes de entrar no carro, Ciel olhou para o moreno e disse que o chamaria caso precisasse. Assim que o carro virou a esquina, Ciel tentou não pensar. Concentrou-se apenas nas imagens de pessoas e casas que desfilavam fora da janela.
Não havia ninguém em casa. A essa altura Angie devia estar na Universidade e a mãe deve ter ido a Little Mozart e levado Evangeline consigo.
– Tem alguém em casa? – ele perguntou em voz alta apenas para ter certeza de que estava sozinho. Sua voz pareceu ecoar pela casa vazia.
Subiu as escadas lentamente e, no andar superior, deparou-se com uma foto de família. Seus pais, Angélica e ele quando tinha sete anos.
Seus pais...
Parou na porta do quarto, olhando ao redor e pensando que tudo ali representava Ciel Valentine. Um rapaz que até meses atrás tinha como única dúvida qual Universidade escolher. De repente ele se deu conta de que algo pesava em sua mão. Não que fosse um peso realmente grande, era mais psicológico. Jogou-se sobre a cama e ergueu a mão direita para o teto. Fitou o anel de pedra azul.
O anel que presenciou a morte de todos os seus donos.
Tudo naquela joia representava Ciel Phantomhive.
Representava quem um dia ele fora. Tudo o que ele fizera e tudo o que fizeram a ele. Ciel sentiu novamente aquela sensação de vertigem. Parecia que ele era duas pessoas. Uma sensação ruim de perda de identidade ao mesmo tempo em que sabia exatamente quem ele era. Talvez fosse normal. Talvez a sensação passasse com o tempo. Mas não conseguia parar de pensar que faltava-lhe algo.
Não quis dizer a Sebastian, mas sentiu-se estranho em relação a ele também. Ainda que por apenas alguns segundos. Ciel sabia muito bem porque Sebastian havia mentido e escondido coisas dele, afinal ele mesmo dera tal ordem no passado. "Contar apenas quando fosse o momento certo". Mas havia uma parte de Ciel que se sentia enganado e traído. Que estava um pouco magoado. Seria essa parte Ciel Valentine?
Até pouco tempo, ele descobrira que gostava de um cara. Um cara legal que gostava das mesmas coisas que ele. Há alguns dias ele acreditava ter tido sua primeira vez e agora descobria que os dois viveram uma vida inteira, juntos.
Mas nesta vida, tudo, de fato, estava acontecendo pela primeira vez. Não tinha porque ficar se preocupando por isso. Não havia sentido. Sabia disso. Mas era o que sentia.
Levantou-se da cama num pulo e começou a falar consigo mesmo.
– Por que estou me preocupando? Vejam só. Funcionou! Aquela maluquice toda deu certo no fim. Eu estou vivo novamente. Estou vivendo o futuro e, minha nossa! Eu presenciei tanta coisa no passado! – falava com animação. Fitava-se no espelho como se visse a própria face pela primeira vez. Então seu sorriso se desfez. – Mas porque demorei tanto para renascer?
O reflexo no espelho não respondeu nada, apenas o encarou com a mesma expressão intrigada. Talvez porque ele passara a perna no destino. Talvez porque ele nunca mereceu estar vivo. Talvez porque mesmo depois de tudo, ele não se arrependia de nenhuma de suas escolhas do passado. Ele escolheu quem queria ser. Suas escolham o fizeram ser quem ele queria ser. Arrepender-se seria negar a si mesmo. Era tarde demais para isso.
Um baque na janela o fez virar-se rapidamente. Um corvo dava incessantes bicadas no vidro.
– Mas o q... Xô! Vá embora – Ciel tentou espantar a ave, mas ela continuava a bater na janela. Ciel teve a estranha impressão de que ela queria entrar, então abriu a janela. O corvo invadiu o quarto, passando por cima de sua cabeça e pousou sobre a escrivaninha, derrubando um porta-lápis. – Corvo idiota!
– Não o chame assim. O nome dele é Poe.
Ciel girou sobre os calcanhares, surpreso com a voz às suas costas e deu de cara com uma menina, que ele não soube quando entrou ali. Estava sentada sobre sua cama, tinha cabelos pretos e olhos bicolores. Um deles era vermelho, o que Ciel sabia ser um mau sinal. Tinha arcos dourados nos pulsos e no pescoço que pareceram familiares para Ciel. Onde ele já vira aquilo? Impulsivamente, ele olhou para os próprios pulsos e viu ali uma fina e quase imperceptível cicatriz.
– Quem é você?
– Como eu pensei. Você esqueceu de mim novamente – ela falou suspirando. – Você me conhece, desde criança, mas sempre se esquece de nós – o corvo voou para o ombro dela. – Poe ficou zangado, mas eu disse a ele que você não faz de propósito.
– Eu conheço você? – Ciel perguntou mais para si do que para a garota. E no momento que o fez se deu conta de que realmente a conhecia. Mas a memória não lhe vinha. Parecia que a resposta estava flutuando diante dele e mesmo assim ele não conseguia enxergar. Lembrou-se do momento em que Undertaker começou o ritual, das suas memórias girando em torno de si. A menina estava lá. Em alguns pontos. Ela estava lá. Ciel começou a sussurrar para si mesmo. – Izzie? Liv? Não. Evie. Seu nome é Evie.
A menina abriu um largo sorriso.
Sim. Ciel a conhecia. Quando menino a conheceu. Porque se esquecera disso? Porque ela sumira e por que estava de volta? Undertaker deve ter mexido com sua cabeça. Ele esteve com ela recentemente, várias vezes. Por que não se lembrara de que já a conhecia? As memórias recentes de quando esteve com Evie foram voltando e uma delas o fez sobressaltar-se. Uma memória específica. Como deixou que isso passasse despercebido?
– Parece que não posso ficar perto de você por muito tempo – a menina disse, sua cabeça estava inclinada para a esquerda, olhando diretamente para Ciel.
– Por que diz isso?
– Porque algo assim sempre começa a acontecer – a menina apontou na direção dele.
Ciel olhou para o próprio peito pensando que ela queria mostrar algo em sua roupa, mas não via nada. Foi quando sentiu algo pingar de seu nariz, manchando sua camisa de vermelho. Virou-se para o espelho e viu que seu nariz sangrava. Ciel procurou um lenço na gaveta, não encontrando, usou uma meia para tampar o nariz.
– Evelyn, você continua sendo um mistério pra mim e tem muita coisa que eu quero te perguntar, mas por enquanto há algo mais importante. Quando você apareceu pra mim no cemitério, no enterro da Amanda, você tinha um motivo pra estar lá, ou só apareceu lá porque eu estava lá?
– Eu tinha um motivo.
– Queria que eu visse algo lá?
– Não posso dizer.
– Se não pode dizer é porque a resposta é sim. Estou certo?
– Não posso dizer – ela falou e depois sorriu. E mais uma vez, ela desapareceu repentinamente. Como se fosse apenas uma ilusão.
Ainda tapando o nariz com a meia, Ciel pegou um caderno e fez um desenho da garota, depois escreveu o nome Evie do lado. Era um desenho medíocre, mas já serviria caso ele se esquecesse dela novamente.
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PLYMOUTH
Verônica chegou à estação de trem e se dirigiu rapidamente ao guichê para comprar uma passagem para Southampton. Infelizmente, o próximo trem só sairia às 10 horas e 30 da noite. Ela aproveitou para procurar uma máquina de comida. Comprou um pacote de bolinho industrial e uma lata de soda. Terminou de comer, jogou a embalagem e a lata no lixo. Achou uma cadeira desocupada e sentou-se. Pegou o celular e começou a checar as últimas notícias. Tudo continuava na mesma. A noite estava fria, ela fechou o casaco e encolheu-se na cadeira. O burburinho das conversas, o som das rodinhas das malas e chacoalhar dos trens indo e vindo começaram a deixá-la sonolenta. Ela estava tão cansada.
Seu corpo começou a inclinar para um lado. A sensação de estar caindo a despertou. Ela olhou para os lados assustada. Não havia mais ninguém nas cadeiras de espera e o lugar parecia mais silencioso. Verônica olhou no relógio e tomou um susto. Faltavam apenas 3 minutos para às 10:30. Ela correu para a plataforma. Havia poucas pessoas ali. Ela contou umas dez. Dois velhinhos, uma mulher com duas crianças, um casal aos beijos e três amigos conversando. Ela perguntou a senhora com as crianças se o trem para Southampton já havia passado, a mulher disse que não. Ela suspirou aliviada, por pouco não perdera o trem.
10:30
10:40
10:50
O relógio marcou onze horas da noite, no entanto nem sinal do trem. Verônica estava impaciente, mas os outros pareciam nem se preocupar. Às vezes, um deles olhava na direção dela, ou seria ela que olhava para eles? Tentava não ser tão paranoica. Ficar muito preocupada só chamaria mais atenção para ela. Cruzou os braços e olhou para o relógio digital que havia na plataforma.
Os trens nunca se atrasavam, mas aquele parecia estar demorando muito. Ninguém além dela parecia ter notado o atraso do trem. Ela voltou à cabine de informação para saber se alguma coisa tinha acontecido, mas não havia mais ninguém ali, nem nos guichês. Desconfiada, Verônica voltou para a plataforma. A sete passos de lá, o lugar começou a tremer e as luzes começaram a falhar. Ela achou que fosse o trem se aproximando, mas ele não apareceu, e as luzes apagaram repentinamente.
Cerca de cinco segundos no escuro. Quando as luzes reacenderam, seis das dez pessoas ali estavam caídas no chão. A namorada e os três amigos vieram em sua direção ameaçadoramente. Verônica enfiou a mão no bolso do casaco rapidamente, retirou uma arma e acertou o primeiro homem na cabeça, o outro, que estava praticamente em cima dela, levou um tiro no pescoço. A mulher torceu o braço de Verônica fazendo-a largar a arma. Verônica deu uma cotovelada no nariz da mulher, mas foi atingida pelo terceiro cara com um soco no maxilar. Ela caiu no chão sentindo o rosto arder, sangue pingava de sua boca. Chutou o homem com força quando ele abaixou para segurá-la, pegou a arma, atirou no ombro da mulher, deu uma coronhada no homem e começou a correr para as escadarias.
No topo das escadas, Verônica encontrou um guarda. Ela começou a gritar desesperada por ajuda. Dizia que precisavam sair dali. Mas o guarda tentava acalmá-la. Repentinamente, a mulher de olhos negros surgiu atrás do guarda e, num único movimento, torceu o pescoço do policial. Verônica disparou as três últimas balas, a mulher cambaleou para trás e caiu. No entanto, levantou-se rapidamente e continuou indo na direção de Verônica. Verônica puxou o revolver do coldre do guarda morto e começou a atirar sem parar. As balas dilaceraram a pele da mulher, mas ela só se deteve quando os tiros atingiram sua cabeça. Mal se livrara da mulher, o terceiro cara surgiu do nada ao seu lado. Agarrou-a pelo casaco e a arremessou do alto da escadaria.
Ao atingir o chão, Verônica puxou o ar com força, sentindo seu peito doer, teve a impressão de que quebrara uma costela. O homem chutou sua perna fazendo-a gritar de dor. Ela tentou se levantar, mas não conseguia se mexer. Ele a segurou pelo pulso e a ergueu do chão. Verônica olhou para a mão do homem prendendo seu pulso, juntou todo o ar que pôde e gritou:
– In nomine Domini, et a me!
Começou a sair fumaça da mão do estranho e sua mão se incendiou. O homem a soltou e olhou assustado para a própria mão, na qual havia a marca de uma cruz como que marcada com ferro em brasa. Os olhos negros dele encararam Verônica com ferocidade. Ele cuspiu nela e desapareceu como fumaça.
Ela continuou deitada no chão. Esperando a morte. Como esta não veio, levantou-se lentamente, gemendo de dor. Caminhou claudicante até sair da estação de trem, que continuava anormalmente vazia e silenciosa. Começou a andar pela rua sem saber exatamente para onde estava indo, queria apenas fugir dali.
Precisava encontrar alguém chamado Phantomhive.
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